sábado, 31 de outubro de 2015


- Jorge 1: Tive um momento de fraqueza. Não é justo que uma vida inteira seja julgada por um único momento.

- Jorge 2: Ah, já percebeste que é a tua vida que está a ser julgada! Até que enfim!

- Jorge 1: Não tens o direito de me julgar.

- Jorge 2: E quem, senão eu, tem esse direito? O tiro disparado pelo Cristóvão não acabou só com a vida dele,

- Jorge 1 (surdamente) : O Cristóvão matou-se porque teve medo de ser preso.

- Jorge 2: Não é verdade! Tu sabes que não é verdade!

(Luz sobre Cristóvão)

- Não, não é verdade. Que medo podia eu ter da prisão? Outros, melhores do que eu, mais conscientes do que eu, por lá passaram, e hão-de continuar a passar. Se eu tivesse vivido mais tempo, talvez me acabassem por prender, porque eu não deixaria de lutar contra o que me parecesse injusto. O que me levou a dar um tiro...

- Jorge 1 (tapando os ouvidos) : Não quero ouvir! Não quero ouvir!

- Cristóvão (Continuando, como se não tivesse sido interrompido) : ... foi teres-me denunciado e, pior ainda do que isso, o teu desprezo. Porque eu desculpava a tua fraqueza, embora ela me doesse. Não te disse uma vez que te desculpava tudo? Mas o que eu não podia suportar era o teu silêncio, a tua ausência, o teu abandono. Foi como se me atraiçoasses duas vezes, quando na polícia me denunciaste e depois, quando não me procuraste, quando me riscaste da tua vida. (...) A vida, para mim, tinha acabado.

- Jorge 2: A minha também. E foi outro que tomou o meu lugar. (A Jorge 1) Foi como se o meu corpo se esvaziasse, e tu entrasses dentro dele, como um ladrão.

- Jorge 1: Como um ladrão? Eu não te roubei nada!

- Jorge 2: Roubaste, sim. A capacidade de sonhar, a esperança num mundo melhor... E o amor! Porque daí em diante nunca mais soubeste o que era o amor. As suas máscaras, apenas. O amor morreu dentro de ti quando mataste o Cristóvão.

- Jorge 1: Eu não o matei!

- Jorge 2: Sim, é verdade que a pistola não estava na tua mão quando ele a disparou. Mas foi a tua mão que puxou o gatilho.

- Jorge 1: Não é verdade!

  
    Rebello, Luiz Francisco. As Páginas Arrancadas/ É Urgente o Amor. Lisboa: Hugin Editores, 2002, pp 58 - 60.


( Adenda à Nota anterior: a articulação do tom acusatório, da denúncia do mundo marcado pela injustiça e do desvelamento da autenticidade nos afetos, leva-nos à possibilidade de comparar esta peça com o longo poema de Daniel Filipe, A Invenção do Amor ).
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sexta-feira, 30 de outubro de 2015


( Excerto da sequência II da peça As Páginas Arrancadas )


- Cristina: Eu já vos deixo em paz. Até amanhã. (Para Cristóvão).
Vemo-nos na Faculdade?

- Cristóvão: Se não for lá aqui, no ensaio, à hora do costume.

- Cristina: Boa noite. Divirtam-se os dois (Sai. Um tempo).

-Cristóvão: Porque é que disseste aquilo à Cristina?

-Jorge 2: Aquilo o quê?

- Cristóvão: Quando eu li a tua fala do 1º acto sobre o amor. Que era a declaração de amor que eu nunca lhe tinha feito.

- Jorge 2: Porque me irrita o namoro descarado que ela te faz.

- Cristóvão: Tens ciúmes?

- Jorge 2: Tenho.

- Cristóvão: De quem? Dela ou de mim?

- Jorge 2: De ti.

( A cena afasta-se desse episódio do passado e agora estão frente a frente os dois Jorges: o 2, aquele que fora em tempos, jovem, arrebatado, inconformista, e o 1, o Jorge actual, senhor bem sucedido, político influente, homem rico e de poder, integrado, e que, de certo modo, fora responsável pela morte de Cristóvão. Agora, no presente, Jorge 1 vem fazer a cobrança, vem trazer-lhe o peso da culpa, o peso da memória... vem confrontar Jorge 1 com As Páginas Arrancadas, aquelas que  - devido ao meio sócio-económico que frequentava - ele sempre tentara esconder na história total que vinha sendo a sua vida):

- Jorge 1: Tudo isto foi há tanto tempo...

- Jorge 2: Pois foi, e está a ser agora. Porque não deixou nunca de ser. Não deixará nunca de ser. Quantas vezes é preciso repetir-te isto?

- Jorge 1: E foi por isso que vieste?

- Jorge 2: Por isso, mas não só. Há ainda outras razões. Outras razões... que tu conheces.

- Jorge 1: Estás a dar importância a uma coisa que não teve nenhuma. Uma história idiota, que eu já nem sei como é que aconteceu. E de que eu me tinha esquecido completamente.

- Jorge 2: A quem é que tu queres enganar? A mim, que sei como as coisas se passaram, porque as vivi? E se não podes enganar-me a mim, como é que julgas poder enganar-te a ti próprio?

- Jorge 1: Basta! Não te quero ouvir mais.

- Jorge 2: Mas tens de me ouvir, até ao fim. E ainda falta muito até lá chegar (...)


 Rebello, Luiz Francisco. As Páginas Arrancadas/ É Urgente o Amor. Lisboa: Hugin Editores, 2002, pp 44 - 46.

( Nota: este livro integra duas Peças de Teatro: É Urgente o Amor  - estreada a 25 de Fevereiro de 1958 pelo Teatro Experimental do Porto - e As Páginas Arrancadas - estreada em Maio de 2002 pelo Teatro da Comuna em Lisboa. Várias décadas separam, portanto,  os dois textos, daí o cunho mais neo-romântico do primeiro e o matiz moderno do segundo, quer ao nível dos processos narrativos quer da dramatização das cenas, no entanto, algo aproxima estas duas obras: o intento de arrancar máscaras ao nível do social, o empenhamento político e a afirmação da autenticidade dos afetos...)
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domingo, 25 de outubro de 2015



No dia 8 de outubro de 2015, no Teatro Liceo de Salamanca, com a sala completamente cheia, eu... dizendo alguns poemas meus.
Aqui:

http://salamancartvaldia.es/not/94889/-sigue-la-estela-de-la-gran-lirica-lusitana/  

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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

(Nota - " Tradutor Traidor" é uma máxima que todos os tradutores conhecem sobejamente, assim, traduzir um poema será sempre correr riscos e trair algo do que era o discurso originário. Todavia, a tradução de um poema é a única forma possível de trazer a ele leitores, que de outro modo o perderiam. Assim, acabo sempre aceitando os riscos e, no caso presente, passo a explicar algumas das minhas opções: a) resolvi traduzir "aves de paso" por "aves de passagem"- eliminando termos como arribação, migratórias, etc. -, pois penso que a minha opção se enquadra melhor nos pressupostos teológico-filosóficos da poesia de Antonio Praena; b) pela mesma razão traduzi "cumplir su vértigo" por "concretizar sua missão"; c) na 4ª estrofe optei por "um braço estendido" e não por "um braço aberto", que, ao nível semântico, surgiria confuso em português).
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        "  Gruas  "

Comovem-me as gruas no inverno.
Parecem estar vivas e concretizar
sua missão ao encherem-se de gralhas
que bordam - no seu aço - um pentagrama.

A essência das gruas são as aves
de passagem.
                   As cruzes deste século,
onde tudo se move, são as gruas:
imóveis, silenciosas, impossíveis.

Eu quis ser grua muitas vezes, 
acolher a neve antes que chegue ao mundo,
os pássaros, os raios da madrugada,
e ser depois desmantelado quando acabar
a obra em que elevo humilde carga.

As gruas são amigas dos pássaros.
Que venham e pousem nos meus ombros
quando fogem do frio - é esse o meu desejo.
Que cantem para mim, ser para eles
a mais singela árvore, pois apenas
um eixo vertical e um braço estendido
traduz minha estrutura permanente.

(Virá a morte e dará vida a este sonho
transformando-me também em ave de passagem).

E, entretanto, ser tão-só um traste útil
entre o céu e a terra. Algo invisível 
aos olhos de todos, mas jamais
ao olhar diferente das gralhas


   Praena, Antonio. Yo he querido ser grúa muchas veces. Madrid: Visor Libros, 2013, pp 40 - 41 (Tradução: Victor Oliveira Mateus).
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               "  Grúas  "

Me conmueven las grúas en invierno.
Parecen estar vivas y cumplir
su vértigo llenándose de grajos
que bordan en su acero un pentagrama.

La esencia de las grúas son las aves
de paso.
            Las cruces de este siglo,
donde todo se mueve, son las grúas:
inmóviles, calladas, imposibles.

Yo he querido ser grúa muchas veces,
recibir la nevada antes que el mundo,
los pájaros, los rayos matutinos,
y ser desmantelado cuando acabe
la obra en la que elevo humilde carga.

Las grúas son amigas de los pájaros.
Que vengan y se posen en mis hombros
mientras huyen del frío es mi deseo.
Que canten para mí, ser para ellos
el árbol más sencillo, pues apenas
un eje vertical y un brazo abierto
conforman mi estructura permanente.

(Vendrá la muerte a dar vida a este sueño
haciéndome también ave de paso).

Y, mientras, ser tan sólo un trasto útil
entre el cielo y la tierra. Algo invisible
a los ojos de todos pero nunca
al ojo diferente de los grajos.

 
   Praena, Antonio. Yo he querido ser grúa muchas veces. Madrid: Visor Libros, 2013, pp 40 - 41.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2015



        "  Momentos  "

Em Veneza não há hora
Os ponteiros tomam-se por fios de água
Desregulado o tempo, o prazer vem liquefeito
Em Veneza só há momentos. E vapor


  Pego, Paulo. Vida Sem Demão. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 43.
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                         "  Modos  "

O topo. Onde os peregrinos perderam dedos e tu
perguntas por vagar eólico das canoas. As manhãs são
construídas na safra benta dos moinhos, que as proas já
partiram no estuário do bazar. Restam as argamassas, as
gargantas cruas dos prédios. Neste receio de grânulos e
de jubas, é necessário travar as cadências impunes das
pontes e criminalizar as premissas da água. Roterdão,
como se as molas libertassem aço.


    Pego, Paulo. Vida Sem Demão. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 42.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2015



        " El Apagón "

Qué tendrá la ceguera, que no tiene
final? Esa luz
decaída, esos largos pasillos, esos túneles
lejos, sus ciudades opacas, su verdad
fraudulenta? Un lugar clausurado: es un solo
ladrido, una sola palabra
que no admite plural; solamente un baldón,
un espeso apagón
en la casa de nadie.

Qué tendrá la ceguera, que no tiene
piedad? Vive ahogada en su culpa,
instalada en su miedo. Seca y áspera, hundida,
habla huérfana y torva, muy segura de sí.
Solo se oye a sí misma: está sorda, no escucha;
sus ventanas tapiadas, sus salones
estrechos, habituales, dolidos - sin embargo, dolientes.
Y hay algo así como un
sonido que se expande, pero no
llega. Una luz
que no luce, una luz
extinguida, que no brilla por culpa...
La culpa, la culpa, siempre la culpa, la maldita culpa
mortal.


   Cueto, Adolfo. Diverso.es . Madrid: Visor Libros, 2014, p 24.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2015



    "  Sucata  "

Distância, traz um pouco de piedade
a estes corpos cansados. Tu que povoas a carne
sofrida e despojada, como se de velhas fábricas
se tratasse, num recanto de ti
ou em metade do teu nada, deixa ao menos - hoje - um pouco
do teu ontem, um gesto de ardor, um olhar
que salve. .Apenas uma carícia, um beijo vindo do fundo
dos teus pátios longínquos. Traz, à vasta solidão
dos teus parques sem tempo, um gota
de água, de saliva, de
óleo: uma gota que lubrifique esta sucata diversa.
Um pedaço, parte, um gesto,
algo que some dois, um abraço, nem que seja
somente, sem chuva, um mero destelhar que brilhe
na tua surda tristeza. Traz, distância, contigo,
as palavras que acrescentem tanto azul mutilado.


   Cueto, Adolfo, Diverso.es. Madrid: Visor Libros, 2014, p 50 (Tradução: Victor Oliveira Mateus).
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        " Chatarra "


Distancia, trae un poco de piedad
a estos cuerpos cansados. Tú que pueblas la carne
despojada y doliente, como si de viejas fábricas
se tratasse, en un rincón de ti
o en mitad de tu nada, deja al menos un poco hoy
de tu ayer, un gesto de calor, una mirada
que salve. Una caricia solo, un beso desde el fondo
de tus patios lejanos. Trae, a tanta soledad
de los parques sin hora, una gota
de agua, de saliva, de
aceite: una gota que engrase esta chatarra diversa.
Un trozo, parte, un gesto,
algo que sume dos, un abrazo, aunque sea
solamente, sin lluvia, el destello que fulja
en tu sorda tristeza. Trae, distancia, contigo,
las palabras que junten tanto azul malherido.


  Cueto, Adolfo. Diverso.es . Madrid: Visor Libros, 2014, p 50.
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terça-feira, 13 de outubro de 2015


PRÉMIOS DO PEN CLUBE PORTUGUÊS para obras publicadas no ano de 2014, COM O APOIO DO DGLAB


POESIA

Isabel Mendes Ferreira, "O Tempo é Renda" (Labirinto de Letras) ex-aequo com Luís Quintais "O Vidro" (Assírio & Alvim)

Júri: Victor Oliveira Mateus, Casimiro de Brito e Paula Mendes Coelho.


ENSAIO

Mário de Carvalho, "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão" (Porto Editora)

Júri: Ricardo Gil Soeiro, José Pedro Serra e Paula Cristina Costa


NARRATIVA

Paulo Varela Gomes, "Hotel" (Tinta-da-China)

Júri: Rita Taborda Duarte, Paula Morão e Francisco Belard


PRIMEIRA OBRA

Gabriela Ruivo Trindade (Narrativa), "Uma Outra Voz", ex-aequo com Susana João Carvalho (Ensaio), "António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar" (Texto-Leya)

Júri: membros dos três júris.
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domingo, 11 de outubro de 2015



     - Todo eso son bobadas - le dije, quitándole importancia - Viste dónde se produjo la explosión? Qué es lo que pasó? Porque vosotros fuisteis los primeros en llegar...
     - Lo más seguro es que haya sido un sabotaje. Alguien la habrá hecho a propósito. Todos los chicos piensan lo mismo.
     Entonces decían eso. Y lo creían de verdad.
     Al día siguiente, cuando llegué, ya los habían separado; cada uno en una sala aparte. Les habían prohibido categóricamente salir al pasillo. Hablarse. Se comunicaban golpeando la pared. Punta-raya, punta-raya. Punto,,, Los médicos lo justificaron diciendo que cada organismo reacciona da manera diferente a las dosis de radiación, de manera que lo que uno aguanta puede que no lo resista otro.(...)
     Viví tres días en casa de unos conocidos de Moscú. (...) Ahora me admiro de aquellos conocidos míos; tenían miedo, por supuesto; no podían dejar de tenerlo; ya corrían todo tipo de rumores; pero, de todos modos, se prestaban a ayudar-me: coge todo lo que necesites. Cógelo! Y él cómo está? Cómo se encuentran todos? Saldrán con vida? Con vida... / Calla. /
     En aquellos días me topé con mucha gente buena; no los recuerdo a todos. El mundo se redujo a un solo punto. Se achicó... A él. Solo a él... Recuerdo a una auxiliar ya mayor, que me fue preparando:
     - Algunas enfermedades no se curan. Debes sentarte a su lado y acariciarle la mano.
     (...) Las quemaduras le salian hacia fuera. Aparecían en la boca, en la lengua, en las mejilas... Primero eran pequeñas llagas, pero luego fueron creciendo. Las mucosas se le caían a capas..., como si fueran unas películas blancas... El color da la cara, y del cuerpo... azul..., rojo...., de un gris parduzco. Y, sin embargo, todo en él era tan mío, tan querido! Es imposible contar esto! Es imposible escribirlo! Ni siquiera soportarlo!...
     Lo que te salvaba era el hecho de que todo sucedia de manera instantánea, de forma que no tenías ni que pensar, no tenías tiempo ní para llorar.
     Lo quería tanto! Aún no sabía cuanto lo quería! Justo nos acabábamos de casar (...) El curso clínico de una dolencia aguda de tipo radioactivo dura catorce días... A los catorce días, el enfermo muere...
     (...) Me acorqué a él y lo besé.
     - Amor mío. Cuánto te quiero.
     Y él, que se me pone protestón, y me dice:
     - Qué te han dicho los médicos? No se me puede abrasar! Ni se me puede besar!
     No me dejaban abrazarlo. Pero yo... Yo lo incorporaba, lo sentaba... Le cambiaba las sábanas... Le ponía el termómetro, se lo quitaba... Le ponía y le quitaba la cuña. Lo aseaba... Me pasaba la noche a su lado... Vigilando cada uno de sus povimientos, cada suspiro.
(...) - Eres joven. Cómo se te ocurre? Si esto ya no es un hombre, es un reactor nuclear! Os quemaréis los dos - Y yo corría tras ellas como un perrito. Me quedaba horas enteras ante la puerta. Les rogaba, les imploraba. Y entonces ellas decían: "Que te parta un rayo! Estás loca perdida."
(...) Salgo de la sala al pasillo. Y me guío por la pared, por el sofá, porque no veo nada. Paro a la enfermera de guardia y le digo:
     - Se está murriendo.
    Y ella me dice:
     - Y qué esperabas? Ha recibido mil seiscientos roentgen, cuando la dosis mortal es de cuatrocientos. - A ella también le daba pena, pero de otra manera. En cambio para mí, él era todo mío. Lo que más quería.
     Cuando murieron todos, reparararon el hospital. Quitaron el yeso de las paredes, arrancaron el parqué y lo tiraron. La madera,,,

   Alexievich, Svetlana. Voces de Chernóbil, Crónica del futuro. Barcelona: Siglo XXI de España Editores, 2014, pp 26 - 34.
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sábado, 3 de outubro de 2015


                      Apresentação do livro Efeitos de Captura de Luís Filipe Sarmento


   O presente livro de Luís Filipe Sarmento, Efeitos de Captura, apresenta-se-nos simultaneamente como um olhar analítico-crítico sobre o hoje e como um itinerário de cariz normativo, onde predominam dados aspetos salvíficos e iniciáticos. Assim, o poeta cinde a sua obra em três partes distintas que são, não só territórios devidamente caracterizados, mas também etapas hierarquizadas: abysmo, superfície, raro.
   Relativamente ao abysmo são-nos apresentadas as múltiplas falhas e imprecisões quanto aos efeitos de captura que ocorrem neste território: a apreensão sensorial e a nomeação estão indissoluvelmente ligadas a uma malsã forma de estar no mundo (1,1). Este abysmo prolonga-se também pela matéria textual adentro, fazendo-a desembocar no campo do mistério: "o texto consiste-se/ no labirinto de si/ em busca do Minotauro/ que ali não reside." (1,3). A memória, quer entendida numa perspetiva psicologista quer como veículo oculto-paranormal, tem nesta obra uma função importante, no entanto, ela funciona como um buraco negro onde a lucidez da perda se dá a cada instante, ou seja, na memória a captura está inexoravelmente ligada à erosão e ao esquecimento (1,5), por conseguinte, aquilo que no abysmo vamos capturando estará sempre marcado por um labor incessante, sempre incompleto e onde muito do que se processa acabará esfumando-se. Os movimentos de captura no abysmo alargam-se depois a múltiplas instâncias: o corpo (1,9), os objetos estéticos (1,7) e o Outro (1,6), é exatamente neste último poema que nos é dito que os órgãos sensoriais (os olhos) têm acesso às imagens que lhes são apresentadas, bem como àquelas outras que a vontade ou a convivênvia insistem em manter ocultas. Parece, pois, que a capacidade de aceder ao oculto é intrínseca ao humano, embora nem todos acedam a esse talento. Esta tese de que o não explícito pode abrir-se ao ver - sobretudo na arte -, ganha foros de cidadania no poema 15 da primeira parte da obra.
   Este poemário, como dissemos acima, apresenta-se também como um roteiro, no entanto, não messiânico no sentido da espera de uma entidade transcendente, mas de uma redenção pessoal (e também coletiva?) através de uma desocultação do escondido, que seja não só uma captura do que liberta, mas também o vivenciar desse desocultado. Portanto - e porque estamos perante propostas metafísicas e também ético-morais -, o princípio do ser, assim como o dos entes, é sair do abysmo, ultrapassar a superfície e alcançar o raro:

  ...          ...        ....            ...
A luz da superfície
nada esclarece:
intimida pelo que esconde
ao homem que se evade
do abismo fracturado
por revoltas.
O princípio do ser
é sair.
Estímulo perpétuo
da busca que retrata
uma civilização esmagada
que se tornou desejo.

                ( 1,31)


   A distinção entre o abysmo e a superfície não é uma distinção de essência, mas de gradação e de abertura na possibilidade de libertação, isto é dito nos poemas pelas variáveis que refere indistintamente num e noutro território: "(...) um poder que derrotou/ as democracias,/ esmagando-as no lodoso/ abismo dos mercados/ virulentos./ Ainda assim não será/ o fim da história." (1,32). Repare-se no último verso: a história não se finará com qualquer situação abissal - e abismal -, daí o poeta insistir: " o rebelde em fuga/ eleva o alçapão/ de acesso à superfície/ e, cego, abalança-se/ sobre o solo queimado/ de um mundo devastado(...)/ o último reduto da crença do homem planetário,/ renovado fenómeno/ de um novo equilíbio/ universal" (1,33). Vemos, pois, que apesar dos escombros, dos destroços vividos como verdadeira realidade, o homem/rebelde pode - e deve - ultrapassar essa iníqua e fraudulenta realidade para alcançar uma outra, que ele sonha, fantasia, mas também intui como possível - apesar de oculta -, já que de sua existência e sentido lobriga os sinais no marasmo do pântano.
   A segunda parte deste livro acentua a caracterização de todos os poderes maléficos que urge ultrapassar, mas coloca, de modo insofismável, a necessidade de ultrapassar o que aparece e, ao mesmo tempo, desnuda corajosamente a sua noção do mal. Aliás, Luís Filipe Sarmento torna indissociáveis estas três variáveis (necessidade de ultrapassar o aqui e agora/ o mal/ a busca do perdido e ocultado):

A primeira luz é nervosa
nesta fuga ao ventre-catástrofe.
...      ...         ...
E se Trimegisto tinha razão -
se tudo o que está em baixo
é como o que está em cima -
a evasão ao medo
será um confronto histórico
com os sequazes do dinheiro.
Não é uma luta divina
com a nova ordem mundial:
será o corpo a corpo
com a sobrevivência
em busca do berço perdido.                

                 (2,1)

Atente-se à referência a Trimegisto, que coloca esta poesia fora da linha predominante na tradição poética e filosófica ocidental, mas não deixa de tangenciar teses e procedimentos de alguns autores dessa tradição - mais pelas vivências do que pelos pressupostos, autores como Hildegarda de Bingen e Jacob Boheme.
     Quanto ao mal que se desmascara afrontosamente na superfície , ele não aparece aqui como uma essencial ausência do bem, tal como pensava Agostinho de Hipona, não é também uma realidade banal que dado contexto histórico-político pode instaurar limitando assim a responsabilidade individual tal como defendia Hanna Arendt, na superfície o conceito de mal aproxima-se - algo paradoxalmente - das teses de autores ateus como Sartre, já que o exercício desse mesmo mal implica necessariamente a escolha livre dos sujeitos, isto é, uma opção voluntária que implicará a responsabilidade do indivíduo, ou dos grupos sociais, que encetem o caminho desse mesmo mal, assim, este último é, ao nível da superfície, uma noção - e uma práxis - que contradita o dever e a própria humanidade do homem, por conseguinte, o mal é, neste livro de Luís Filipe Sarmento, e numa terminologia kantiana, radical. Concluímos, portanto, que esta obra articula, de modo exemplar, todo um itinerário de cariz ocultista com abordagens teóricas da tradição ocidental, que o poeta colhe, trabalha e integra na sua voz poética e na cosmovisão de que nos fala. Este mal é, então, "o grande ecrã/ da superfície. As câmaras/ digitais controlam os gestos,/ os detectores de emoções/ as agitações do homem em fuga." (2,2); "Deuses vulgares, sinistrados/ das hecatombes que os livros sagrados/ não conseguiram prever," (2,8); "À superfície erguem-se os templos capitalistas/ onde poucos entram prostrando-se diante dos seus deuses,/ e muitos pagam promessas falsas,/ miseravelmente escorraçados das suas habitações." (2,10)
     Perante esta superfície, que tem uma linguagem própria (Cf. 2,3) e cuja percepção é uma burla dos sentidos, perante ela só uma atitude é possível e necessária: "A arma pacífica do Não/ poderá organizar a resistência/ em defesa da História, da mudança/ e do Novo como estandarte/ do homem criador." Esta rutura, esta recusa, está intimamente associada à Obra, à arte: "Olhar-te é uma ficção/ à espera de um livro novo" (2,14); "Um poeta/ tenta capturar sensações/ do que já não há" (2,24); "(...) A literatura oficiosa/ promove detetive/ a ministro da nova ignorância" (2,26). Esta superfície é ainda esquadrinhada pelo olhar lúcido e crítico do poeta, não só quanto à sua atualidade (vejam-se as referências à Alemanha, aos países do sul, à subversão da democracia, etc.), mas também no que diz respeito ao já perdido e que urge recuperar: a integração plena e redentora no Um (Cf. 2,14), aqui a fazer-nos lembrar certos monismos nomeadamente a filosofia de Plotino. Aliás, convém referir aqui a relação que por vezes surge, ao longo da história, entre certos hermetismos e os neoplatónicos.
     Finalmente, Luís Filipe Sarmento propõe-nos neste poemário, na sua terceira parte, a passsagem "Da superfície comum/ ao território do raro" (2,33). Este raro "dissolve a ideia/do sempre banal" (3,3), "não programa nem dissimula/ o que ao olhar/ é metáfora de prodígio" (3,5). Há, no raro, um privilegiar do individual - sobretudo enquanto percurso a fazer -, da recusa da massa,  do instante e do despojamento absoluto: "Raro é atingir a plenitude do nada/ com a sensação estética de ter tudo ao seu dispor./ Neste universo, o firmamento será sempre um mistério/ que regulará a crença do homem em si/ se essa possibilidade não for conspurcada por falsos sábios." (3,17).
     Há, e para finalizar, neste itinerário proposto, um enfatizar da imaginação e da descodificação, mesmo suspeitando que a fonte originária permanecerá sempre um mistério, assim, mesmo ante esse alvo sempre a retomar, os efeitos da sua captura, geminados com a liberdade de quem procura (Cf. 3,33), não invalidam as etapas e a energia daquele que se entrega ao caminho.
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Café Império - Lisboa, 3 de outubro de 2015.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

divulgação...

Short List do Prémios PEN, divulgada em 28.9.2015 para as obras de Poesia, Ensaio e Narrativa publicadas em 2014.

POESIA

A Misericórdia dos Mercados, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim)

Entrepoemas, de J. Alberto de Oliveira (Afrontamento)

Os Armários da Noite, de Alice Vieira (Caminho)

O Tempo é Renda, de Isabel Mendes Ferreira (Labirinto de Letras)

O Vidro, de Luís Quintais


ENSAIO

António Lobo Antunes. A Desordem do Olhar, de Susana João Carvalho (Texto - Leya)

Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço (Cotovia)

Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, de Fernando Cabral Martins ( Assírio & Alvim)

Nova Teoria do Sebastianismo, de Miguel Real (D. Quixote)

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)


NARRATIVA

Hotel, de Paulo Varela Gomes (Tinta-da-China)

Os Memoráveis, de Lídia Jorge (D. Quixote)

Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (D. Quixote)

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora)

Vinte Degraus e Outros Contos, de Hélia Correia (Relógio D'Água)


Observação: os nomes dos júris apenas serão divulgados depois de anunciadas as obras vencedoras dos Prémios PEN 2014.
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