quarta-feira, 29 de março de 2017


   Eugénio de Andrade foi, a par de Casimiro de Brito (1938), Egipto Gonçalves (1920-2001) ou Isabel Cristina Pires (1953), um dos poetas portugueses  contemporâneos mais viajados, tendo no seu passaporte carimbo de países de África, América, Ásia e Europa, com nítida preferência para as regiões mediterrânicas. Havia sempre uma boa razão para o escritor percorrer o mundo: a participação num encontro literário, o simples repouso, ou a procura das paisagens físicas e humanas que inspiraram autores dilectos, como Vergílio (70-19a.C.) e Horácio (65-8 a.C.).
   Nesta viagem aos Estados Unidos e ao Canadá, o objectivo inicial de Eugénio e do seu companheiro de jornada, o tradutor norte-americano Alexis Levitin, era cumprir uma dúzia de leituras bilingues, da sua obra poética. Os espaços escolhidos incluíam clubes, associações, centros de arte, e as universidades de Santa Bárbara, Harvard, Brown, Albany, Columbia e Temple, nalgumas das quais existem departamentos de estudos lusófonos (Andrade, 1995:187). As leituras foram frequentemente seguidas de debate, visando questões como a escrita, a tradução e o gosto literário. Trata-se, portanto, na tipologia proposta por Fernando Cristóvão, de uma viagem erudita, em que imperam a curiosidade intelectual, e a partilha de saber, em instituições vocacionadas para a arte e para o ensino da literatura (Cristóvão, 1999:48-9).
   No entanto, à margem desse contacto com os amantes das letras, ocorreram descobertas e imprevistos que concederam uma dimensão extraordinária à visita: o desafio de perceber outros valores e formas de ser. (...) Em simultâneo, ao perceber o Outro e ao ver-se como tal, o Eu reconhece-se como um entre vários, e exercita a auto-compreensão, através do contraste. Neste intercâmbio fluído e recíproco entre o Eu e o Outro, convivem receios e estereótipos, mas também imagens objectivas e interpretações científicas, que exprimem a curiosidade, repulsa ou atracção pela diferença.
   Na sua viagem pela terra do Outro, a imensidão da paisagem natural estaduniense foi o aspecto que de imediato mais impressionou Eugénio (...)
   Por contraste, a paisagem urbana, de uma brutalidade inesperada, perturba-o: Eugénio sempre preferiu os espaços rurais ou marítimos, menos enxameados pelos turistas e mais convidativos à introspecção, essencial ao labor da escrita.


 Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, 134-135.
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segunda-feira, 27 de março de 2017


   Neste passo (W. 1982:815), Whitman compraz-se com o canto simples da cotovia, duas ou três notas soltas e alegres, avivando uma manhã no término do Inverno - tal como Eugénio aprecia a música do pisco, e abre a janela para melhor escutá-lo. Ao mesmo tempo, o escritor norte-americano admira o voo quase silencioso da ave, que vai saltitando de estaca em estaca, ao longo de uma vedação de madeira. Todo o texto realça a candura do pássaro e celebra a euforia de viver e de cantar, mesmo num dia frio. Esta entrada de diário enleia também pelo ar de registo rápido, captura de um momento que passaria despercebido a quem não tivesse uma sensibilidade poética e, portanto, atenta aos pequenos milagres do quotidiano. Coube ao acaso e ao talento de Whitman trazê-lo para o papel e, assim, imortalizar aquela manhã de dezasseis de Março de 1878.
   Outros aspectos ligam o texto de Eugénio a Whitman: por exemplo, logo na primeira frase do poema em prosa, surge uma referência a Peter Doyle. Para compreender capazmente o texto, o leitor deve saber quem foi este indivíduo e a importância que deteve na esfera afectiva de Whitman. O poeta norte-americano conheceu Doyle por mero acaso, numa noite fria de Dezembro de 1865. Regressava a casa, na linha Washington-Georgetown, quando entabulou conversa com o conductor do eléctrico, Doyle, na altura um jovem de dezoito anos. Whitman ficou de tal modo fascinado pelas suas ideias e beleza física que acabou por não se apear e, em vez disso, fez-lhe companhia na viagem de retorno à central dos transportes, em Anacostia (Oliver, 2006: 278-279).
   Aparentemente, os dois homens detinham poucos aspectos em comum: Whitman era uma figura já importante das letras norte-americanas, enquanto Doyle possuía uma educação básica; o bardo de Brooklyn tinha mais do dobro da idade do jovem; o primeiro era um pacifista, o segundo combatera no exército confederado, durante a sangrenta Guerra Civil (1861-1865), que opusera o Norte ao Sul esclavagista. Houve, por certo, desentendimentos e atritos entre ambos, como registaram os biógrafos: Whitman achava desagradável, por exemplo, que Doyle gostasse demasiado de mulheres, e entristecia-se por notar o pouco apreço que reservava à poesia (Oliver, 2006: 278-279).
   Contudo, dando razão à sabedoria popular - que afirma que "os opostos se atraem"-, estabeleceu-se entre ambos um sólido afecto, talvez de natureza homossexual (não há qualquer prova concreta disso). Por várias vezes, Doyle referiu-se ao bardo como "affectionate father and comrade", ao passo que Whitman o tratava por "beloved male friend", "darling son" ou ainda "the one I love" (Oliver, 2006: 278). Ao longo de vinte e sete anos, Doyle cuidou do seu companheiro, com desvelo, até à morte deste, em 1892, ficando para sempre associado à figura do poeta.


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 35-36.
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sábado, 25 de março de 2017


   Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, a literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa. Poderá um leitor culto contemplar um rouxinol sem evocar o seu canto melancólico em "Ode to a Nightingale" (1820), de John Keats (1795-1821)? Ou assistir ao esvoaçar sinistro de um corvo, e não pensar no poema "The Raven" (1845), o mais célebre de Edgar Allan Poe (1809-1849)? Ou deleitar-se com a majestosidade serena de um cisne e não tecer semelhanças com "The Wild Swans at Coole" (1919), do Prémio Nobel William Butler Yeats (1865-1949)?
   No texto "Com as Aves, desde Idanha", incluído em As Afluentes do Silêncio"  (1968), Eugénio de Andrade (1923-2005) partilha com o leitor a paixão pelos pássaros:
"Não admira que alguns dos mais belos poemas de sempre tenham sido escritos para aves. Dou exemplo: a cotovia de Shelley, o rouxinol de Keats, o corvo de Edgar Allan Poe, o albatroz de Baudelaire, os cisnes de Mallarmé e de Yeats, o melro de Stevens, o pardal de William Carlos Williams, Às vezes é só um verso que fica a pairar no nosso espírito, como esse chamamento do tordo através da névoa, do Eliot; ou o rumor de asas desses pássaros de Juan Ramón Jiménez, que "cantam e cantam" no mais invisível dos ramos; mas como enriquecem a nossa vida... (Andrade, 1997:190)"
   À galeria de autores mencionados poderia facilmente acrescentar-se o nome de Eugénio. Mais do que qualquer outro poeta português, este é o escritor das aves, "que tantas vezes fazem o ninho/ nos (...) versos" (Andrade, 2005: 538). Pela sua obra esvoaçam bandos de andorinhas, melros, cotovias, rouxinóis, gaivotas, etc. De ramo em ramo, de canto em canto, de poema em poema, estes pássaros personificam qualidades, muitas vezes nobres, e assumem diversos cambiantes de pureza e desejo (Ferraz, 2004: 21). O autor lê, na migração das aves, um reflexo da efemeridade (Andrade, 2005: 417, 523), ou um desafio à morte, pela renovação da natureza (Andrade, 2005: 76, 561) (...)
   O poeta de Póvoa de Atalaia serve-se destas aves para evocar, intertextualmente, pássaros idênticos, que cantam nos textos dos autores que estima e reconhece como influência literária.. (...)
   William Shakespeare constitui um autor incontornável não apenas da literatura isabelina, mas também das letras universais, graças ao seu génio e proficuidade. O poeta, dramaturgo e actor legou-nos três extensos poemas, com destaque para The Rape of Lucrece (1594); cento e cinquenta e quatro sonetos, entre os quais o célebre "Sonnet 18 (Shall I compare thee to a Summer's day?)", uma das mais belas composições de amor algum dia escritas; e trinta e oito peças, onde se incluem Romeo and Juliet (1594-5), Hamlet (1600-1) e The Tempest (c. 1611), populares tanto entre a elite como junto do vulgo.(...)
   A importância de Shakespeare e este seu apreço pelas aves não passariam despercebidos a um escritor culto como Eugénio (...)
   Trata-se de uma alusão óbvia à primeira grande tragédia de Shakespeare, conhecida em todas as culturas, acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os Capuletos e os Montagues. O passo em que a cotovia canta ocorre no final de primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta (...) Neste excerto da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite de amor dos apaixonados(...) Este afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação: "Some say the lark makes sweet division;/ This doth not so, for she divideth us" (Shakespeare, 2007: 717). (...)
   Trata-se de uma das mais célebres e melancólicas cenas de despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes que desejam permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir; e permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do adeus (Carey, 1997: 37).


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 15-20.
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sexta-feira, 24 de março de 2017


    Para Nussbaum, o que deverá ser sublinhado é a dimensão cognitiva da literatura (ao contrário da história que apenas procura relatar o que sucedeu), a abertura para novas possibilidades ontológicas que o dizer literário possibilita: "As Aristotle observed, it is deep, and conducive to our inquiry about how to live, because it does not simply (as history does) record that this or that event happened; it searches for patterns of possibility - of choice, and circumstance, and the interaction between choice and circumstance - that turn up in human lives with such a persistence that they must be regarded as our possibilities. And so our interest in literature becomes (...) cognitive: an interest in finding out (by seeing and feeling the otherwise perceiving) what possibilities (and tragic impossibilities) life offers to us, what hopes and fears for ourselves it underwrites or subverts" (Nussbaum, 1990: 171). ´É na terceira parte do seu ensaio que Nussbaum se detém com maior detalhe no conceito de "Perceptive Equilibrium". Reportando-se ao conceito de "reflective equilibrium", cunhado por John Rawls em A Theory of Justice, Nussbaum afirma que aqui estamos perante uma condição a que chegamos quando aplicamos um juízo intelectual de um modo consistente e desprovido de tensão (poderíamos afirmar em clave derridiana que aqui estamos a falar de lei e não de justiça); as condições que aqui estão em jogo prendem-se com os seus princípios, que deverão ser gerais na forma e universais na sua aplicação, públicos e disponíveis a todos; deverão impor um ordenamento geral nas reivindicações que se opõem, devendo ser encarados como finais e conclusivos.
   Um dos aspectos decisivos que marcará a argumentação de Nussbaum é a importância que a autora de The Fragility of Goodness concede às emoções - valorizando esta que percorrerá a sua obra como um basso continuo. Nussbaum manifestará a sua desconfiança perante o carácter assepticamente universalizante e abstracto que tal julgamento inevitavelment produz, procurando antes celebrar a relevância dos sentimentos e a centralidade da imersão contextual do hic et nunc particular da condição de cada sujeito (...)
   Justamente aquilo que a autora procurará defender é que, em muitos casos, as emoções poderão constituir um guia seguro para um juízo mais correcto, sendo que as formulações gerais e universais poderão ser inadequadas perante a complexidade de situações particulares, de tal modo que juízos particulares, imersos num contexto específico, poderão exibir um valor moral de que juízos com um pendor mais reflexivo ou geral se encontram destituídos. É nessa medida que a autora preconiza o 'perceptive equilibrium', corporizado pela personagem Strether, e que constitui uma resposta àquilo que é novo e que lida com os particulares da existência (...).
   A tematização deste conceito-chave permite-nos centrar a nossa atenção sobre a relação entre leitor e percepção moral. A trama narrativa de que se serve o romance, cultiva a nossa capacidade de contemplar e de valorizar a dimensão particular da existência, a invenção do absolutamente singular numa certa postura derridiana de paixão pela aporia do impossível (...). O romance, de acordo com o postulado de Nussbaum (e aqui a autora reporta-se a James), propicia uma imaginação vigilante e responsável ("responsive", com os seus ecos steinerianos) que diligentemente se detêm em cada singularidade irredutível.
   Também no Capítulo VI da sua obra mais recente - Not for Profit, Why Democracy Needs the Humanities, intitulado "Cultivating Imagination: Literature and the Arts", Nussbaum discute a importância daquilo a que chama imaginação narrativa (...). Nussbaum refere o caso do filósofo John Stuart Mill que, muito embora tendo tido uma extraordinária educação na sua infância, não tivera oportunidade de cultivar os seus recursos emocionais e imaginativos. Tendo sofrido uma depressão na sua vida adulta, Mill considerou que a sua recuperação se ficou a dever à influência exercida pela poesia de William Wordsworth; mais tarde, esclarece Nussbaum, Mill desenvolveu uma perspectiva daquilo a que chamou a "religião da humanidade", baseada no cultivo da simpatia que houvera deslindado através da sua experiência da poesia, Nussbaum chega a utilizar a formulação "empathetic imagination" (...). Cultivar a imaginação de acordo com a expressão de Nussbaum, tendo como horizonte último a amplificação de uma Poética da Obrigação - tal é. parece-me, uma das mais importantes lições que a reflexão de Nussbaum nos lega.


  Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 39-43.
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quinta-feira, 23 de março de 2017


   Um autor como Hans-Holger MalcomeB, em Primare Gestalt und Sckundarer Diskurs, Die Diskussion des Authentischen Ausgchend von George Steiner (2005), chega mesmo a falar de uma Kehre steineriana, de uma viragem que nos leva do pessimismo das obras iniciais, onde a visão solar da existência naufraga e o rumor dos deuses nos está abandonando, ao optimismo velado das obras mais tardias, onde a esperança espreita timidamente. De acordo com esta leitura, até ao período que abarca obras como In Bluebrard's Castle, The Death of Tragedy e Language and Silence, o pensamento de Steiner está aprisionado pelo espectro do silêncio e pela paradoxal conivência da alta cultura com a barbárie, observado-se a partir de 1985 (data da conferência "Real Presences", proferida na Universidade de Cambridge) uma viragem que nos leva do inumano, do silêncio e do niilismo à salvação pela arte que podemos descortinar em Real Presences O certo é que na obra steineriana se entrelaçam, a todo o momento, cintilantes esperanças e sombrios desassossegos, subsistindo uma dialéctica jamais resolvida entre sombra e luz, entre fragmento e totalidade, entre silêncio e palavra, entre a tragédia absoluta e uma difícil esperança. De resto, o importante ensaio "The Long Life of of the Mataphor: An Approach to the Shoah", publicado em 1987 e abordando a temática da ausência de Deus em Auschwitz, vem justamente contrariar a linear evolução cronológica defendida por MalcomeB. Por outro lado, a despeito da sua hermenêutica da confiança (imersa num logocentrismo que não é desprovido de alguns espinhos epistemológicos de que jamais se desembaraçará) a que, pretensamente, Steiner se renderá nas suas obras mais recentes, o facto é que mesmo a espera com que termina Real Presences está assombrada pela espera vazia que nos ameaça todos os instantes - um pouco à semelhança do que sucede em Waiting for Godot, de Beckett (obra que, aliás, é analisada por Steiner em diversas ocasiões).
   Um dos exemplos paradigmáticos de modo como a forma mentis de Steiner continua a ser pontuada por um cepticismo penetrante é aquilo a que o próprio chama "o paradoxo de Cordélia", a que me reportei na introdução. Trata-se de uma pungente contradição que, interessando-nos directamente para o que nos move com a presente investigação, foi tematizada por Steiner em Le Silence des Livres (2006) e em My Unwritten Books (2008), bem como em ensaios relevantes como o já mencionado "The Humanities - At Twilight?" (1999), "The Muses' Farewell" (2002) e "A New Literacy" (2007). Por exemplo, no ensaio "The Muses' Farewell" (2002:156). Steiner pondera a hipótese, provisória e inquietante, segundo a qual a capacidade de respondermos à abstracção e à ficção (de nelas nos concentrarmos intensamente) nos desvia da concretude dos inadiáveis apelos do real. Steiner concretiza: o lamento por Cordélia, a imersão num adágio de Mahler ou a contemplação de uma tela de Vermeer (...) pela intensidade que veiculam, diferem das reivindicações ásperas e da imperfeição que a práxis constantemente nos lança. Quanto mais pungentemente vulneráveis se mostram as nossas afinidades perante a grande arte (a música, a poesia ou metafísica), menos desperta se torna a nossa atenção em relação à carência humana e à barbárie política, mais embotados nos tornamos perante o mundo da acção por oposição ao mundo solipsista que os produtos da ficção edificam. O grito da rua, que mal nos chega aos ouvidos, pouco parece valer quando comparado com aquele que, Lear lança a Cordélia.
   De facto, este agudo paradoxo tem implicações ao nível da avaliação que podemos fazer da aposta steiriana no sentido do Sentido, na medida em que esta, embora profundamente pungente do ponto de vista especulativo, evidencia uma passividade que a debilita conceptualmente e que, dado que postula que "a cortina está corrida entre o leitor e o mundo" (Steiner, 1996:22), não permite que o mundo da leitura penetre no mundo da acção, assim se desvanecendo o radical horizonte ético com que Steiner encetou a sua hermenêutica do pós-holocausto.


   Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 29-31.
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quarta-feira, 22 de março de 2017


   "Réponds-moi", lui ai-je dit. Elle a lancé un nuage de fumée.
   - Tu me poses une question difficile, je vais te faire une réponse difficile: fais tes bagages et pars.
   - Partir, partir où? En quelque lieu étranger où je ne le verrai jamais? Non, je ne veux pas; alors, tout le monde, pas seulement les domestiques, se moquerait de moi.
   C'est pas de toi qu'on se moquerait, si tu partais; c'est de lui.
   - Je ne veux pas faire cela.
   - Pourquoi me demandes-tu, si quand je te réponds, tu dis non? Pourquoi es-tu venue jusqu'íci, si quand je te dis la vérité, tu dis non?
   - Mais il doit y avoir quelque chose d'autre que je puisse faire.
   Elle s'est rembrunie.
   - Quand un homme t'aime pas, plus tu cours après, plus il te déteste, l'homme est comme ça. Si tu les aimes, ils te traitent mal; si tu les aimes pas, ils sont après toi nuit et jour à te bassiner avec leur amour. J'ai entendu parler de toi et de ton mari, a-t-elle ajouté.
   - Mais je ne peux pas partir. C'est mon mari après tout.
   Elle a craché par-dessus son épaule.
   - Toutes les femmes, de toutes couleurs, c'est rien que des imbéciles. Trois enfants, moi, j'ai eu. Un en vie ici-bas, chacun d'un père différent, mais pas de mari. Dieu merci! Moi, je garde mon argent. Je le donne pas à chacun vaurien d'homme,
   - Quand dois-je partir? Où dois-je aller?
   - Mais c'est un monde! Une jeune Blanche riche comme t'es et plus sotte que toutes les autres! Un homme te traite pas bien, relève ta jupe et sors. Fais-le et il te court après.


  Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 134-135 ( Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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segunda-feira, 20 de março de 2017



   L'éveillerai-je pour entendre les choses qu'elle me dit, me murmure dans l'obscurité. Pas durant le jour.
   - Je n'avais jamais le désir de vivre avant de vous connaître. Je pensais toujours qu'il serait préférable que je meure. Avoir si longtemps à attendre avant que ça finisse!
   - Et avez-vous jamais dit cela à quelqu'un?
   - Il n'y avait personne à qui le dire, personne pour m'écouter. Ah! vous ne pouvez vous faire une idée de Coulibri!
   - Mais après Coulibri?
   - Après Coulibri, c'était trop tard. Je n'ai pas changé.
   Toute la journée elle était comme toute autre jeune femme, se souriait dans son miroir (Aimez-vous ce parfum?), essayait de m'apprendre ses chansons, car elles me hantaient.
(...) Il lui arrivait souvent d'être silencieuse, ou irritée sans motif, et elle bavardait avec Christiphine en patois.
   Je lui disais:
   - Pourquois serrez-vous dans vos bras et embrassez-vous Christophine?
   - Pouquoi pas?
   - Moi, je ne serrerais pas dans mes bras ni n'embrasserais des nègres. Je ne le pourrais pas.
   De cela elle riait longuement, sans jamais me dire pourquoi elle riait.
   Mais la nuit, combien elle était différente! Même sa voix était changée. Toujours à parler de mort. (Essaie-t-elle de me dire que c'est cela, le secret de cet endroit? Qu'il n'y a pas d'autre issue? Elle sait. Elle sait.)
   - Pourquoi m'avez-vous rendue désireuse de vivre? Pourquoi m'avez-vous fait cela?
   - Parce que je le désirais. N'est-ce pas une raison suffisante?
   - Si, c'en est une. Mais si, un jour, vous ne le désires plus. Qu'est-ce que je deviendrais, alors? Supposez que vous me retiriez ce bonheur pendant que j'ai le dos tourné...
   - Et que je perde le mien? Qui serait à ce point stupide?
   - Je n'ai pas l'habitude de bonheur, dit-elle. Il me fait peur...
   - N'ayez jamais peur. Ou, si vous avez peur, ne le dites à personne.


   Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 110-112 (Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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domingo, 19 de março de 2017


              "Os cantos ao dicionário"


Revolvi os cantos ao dicionário: só cotão e pó
as palavras largam sempre tanto lixo...

Procurava uma palavra que te desse...
guardara-a para ti, quando viesses,
mas não sei já onde a pousei    talvez
entre uma metáfora
morta    e um oxímoro gasto, muito velho,
dizendo qualquer coisa como esta: "a palavra
que mais diz é aquela que calamos
no silêncio", ou outra coisa, até, mais banal ainda.

Da metáfora, não encontrei nem sobras,
devo tê-la perdido, por aí, no discurso vulgar do dia a dia.

Acontece-me, acontece-me muito, esquecer-me de palavras
no fundo da carteira,
desfeitas entre bilhetes de metro,    sob o peso dos dias,
das chaves do carro.

Passo tanto tempo a perder palavras como o tempo que gasto em procurá-las.
Depois... o cansaço de as inventar de novo, de as soletrar de novo,
tropeçando em consoantes    nas vogais...

Tão difícil, voltar a dizer as palavras que perdemos.
Mentindo-lhes sentidos novamente...

Por isso percorria à pressa o dicionário, hoje
para procurar uma outra palavra que te desse,
ainda antes que chegasses... de manhã.

A palavra que te queria dar, perdia-a,
não há tempo agora de a reescrever assim à pressa...
manhã alta, já, deves estar mesmo aí, a aparecer...

Revolvi o dicionário: tanto pó na esquina das palavras.
Sempre tudo em desalinho, nem uma sílaba consigo ter em seu lugar.
Trago a língua tão desarrumada, tanto desleixo, sempre tudo tão sem jeito
E tu, aí, quase à beira de chegar.

Tirei uma mão cheia de palavras ao acaso
concha, lago, ternura, um pedaço arrancado à bruta da palavra amor.

Mas tu chegaste-me, entretanto, com um perfeito ramo de frases feitas
fingiste até nem reparar na confusão e
deitámo-nos assim mesmo na minha palavra ainda    por dizer.


 Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: Abysmo, 2016, pp 36-37.
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quarta-feira, 15 de março de 2017


           Fechado para balanço"


Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: abysmo, 2016, pp 22-23.
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terça-feira, 14 de março de 2017



hoje todos os homens primeiro
que as mulheres chegaram a casa

Não há nada que faça acariciar um
homem outro nos cabelos, nem a
morte do filho, a partida para a guerra

é tão dura, rija firme a educação
que a ternura nos homens dá sopapos
pontapés, palmadas fortes nas costas

só no futebol perante milhões
os homens têm coragem de afagar-se

estou frente ao écran em busca
de emoções, dez homens
acariciam um deles nos cabelos

só por isto vale a pena o futebol
o golo.


   Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p 54.
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         "Liberdades"


Temos liberdade para comprar
com um quarto de ordenado
um pequeno saco de comida

Também podemos reunir
há liberdade, para procurar
salas por toda esta cidade
e desistir

Temos liberdade de escrever
e os jornais nas mãos
de quem não quer saber

Também falar se pode
porque não cantar, dizer poesia
mas a rádio, a televisão
estão nas mãos de quem

Temos liberdade de aprender e ler
mas um livro custa mais
que um dia de salário

Temos tantas, tantas liberdades
mas os muros cercam-nos
e crescem de silêncio armado.


  Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p  57.
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Nota - este livro de Ivone Chinta apresenta um tipo de Poesia, que, herdeira direta do neo-realismo, surgia já nos últimos tempos da Ditadura, mas granjeou  depois enorme destaque sobretudo na década de 70: uma escrita cuja tónica era colocada no sentido e cujo olhar - irónico e denunciatório - era colocado no sócio-económico e no cultural. Este livro estrutura-se em torno do sentir de um eu-poético, que, pelos condicionalismos focados, desembocará  na frustração e no desencanto do que afinal não aconteceu. Convém acrescentar que este tipo de poesia, que, na minha opinião, teve o seu ponto alto em José Gomes Ferreira, José Carlos Ary dos Santos e Daniel Filipe, sofreu igualmente incursões poéticas de outros poetas, que depois enveredaram por outras linhas estéticas, é o caso de Natália Correia e de Sophia de Melo Breyner.
Postaremos aqui dois poemas em que se mostra e denuncia a hipocrisia do conceito vigente de liberdade, bem como o modo como a educação e a aprendizagem inculcam nos homens (e não nas mulheres!) o medo de expressar as emoções e os afetos para com os seus iguais.
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segunda-feira, 13 de março de 2017



                      "Destino"


Não tive a má intenção de te prender
à minha vida. A música, o álcool,
todo o ouropel da noite, eu só quis
sossegar por algum tempo a dúvida

que me castigava, antes que a manhã
chegasse e a aranha do remorso
descesse pelo seu alimento à mesa
do pequeno-almoço. Batemos

à mesma porta e chamaste destino
ao acaso. Zelava por nós, entre
as eléctricas estrelas, o pequeno deus
do amor? Era o que trazia ao peito

a divisa da derrota universal? Como vês,
foi sempre outra, e inútil, a minha
fá - mas perdoa, se puderes, o pouco
que soube fazer pela solidão dos dois.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 212.
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domingo, 12 de março de 2017


No próximo dia 15 (quarta feira), pelas 19:30, na prestigiada sala "Corral de Comedias" de Alcalá de Henares poderá assistir à sessão "La voz más cercana: Portugal" integralmente dedicada à Poesia Portuguesa Contemporânea.

Dramaturgia: Aitana Sar, Clara Santafé e Ines Sánchez
Piano: Francisco Recuero
Voz: Verónica Aranda

Serão lidos poemas de: Albano Martins, Catarina Nunes de Almeida, Daniel Faria, Graça Pires, José Luís Peixoto, Maria Teresa Horta, Ruy Ventura, Sophia de Mello Breyner e Victor Oliveira Mateus.
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      "Amigos Perdidos"


Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 132.
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sábado, 11 de março de 2017


               "No Terreno"


Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.

Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.

Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 55.
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sábado, 4 de março de 2017



    "Uma canção debaixo do dilúvio"


Ocupam-nos com a sua feroz solidão
e conhecemos o seu cheiro, o consumo difuso,
o visível de ambos os lados

Diante deles não é possível dissimular
a ironia ou a piedade

Esperam por nós entre diversas combinações
à superfície e para além disso

Um amigo é uma machine à habiter
o vento pré-histórico das montanhas geladas

Talvez pertençam a outros mundos
pois nos abraçamos sempre como sobreviventes

Com eles podemos arrancar uma canção
debaixo do dilúvio


  Mendonça, José Tolentino. Estação Central. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 48.
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  "Escrito num Livro de Horas"


Enquanto nas cidades costeiras
o coro trágico da posteridade
aspira o ar
como funcionário que se prepara
para as tarefas do dia
avisto os teus olhos

Os teus olhos deveriam ter nascido em épocas diferentes
em mundos diferentes
não neste lugar panorâmico e incurável
onde os sentidos são
repetidamente censurados
nestes barrancos áridos
para que o tempo passe
com todas as armas da culpa

No salva-vidas enquanto o meu navio se afunda
os teus olhos
dos quais nunca me poderia defender
erguem-se num louvor
capaz de ensurdecer para sempre
os que duvidam


  Mendonça, José Tolentino. Estação Central. Porto: Assírio & Alvim, 2015, pp 32-33.
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sexta-feira, 3 de março de 2017


                      "Insectos"


Parai por algum tempo, olhai, pensai,
aproximai-vos do mundo dos insectos, vidas cheias de vida
mínima, vibráteis, brevíssimas nas suas águas,
sugadoras de sonhos,
das pálpebras dramáticas das rosas,
exércitos levíssimos do ar e carrascos invisíveis
da beleza brutal dos filhos da terra
dos gigantes.

A idade humana sempre foi uma cabeça relativa,
dona de sombras e de circunstâncias.
A idade da água foi de todas a mais soberana,
foi ela quem criou a música do infinito,
soltando o seu silêncio,
compacto, contra a ruidosa torre científica.

Sacudindo as suas asas transparentes,
o seu dorso de lumes invisíveis,
o insecto cumpre totalmente o seu destino.
É mais brutal que o vómito do fogo,
que o rebentar das águas da que vai parir longe,
antiga e montanhosa.
O insecto é o mais cruel brinquedo
nas mãos minúsculas
de deus.


  Carvalho, Armando Silva. A Sombra do Mar. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 86.
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