segunda-feira, 18 de junho de 2018



                          Ode Sobre o Alto da Boa Viagem

I.
Da demência dos homens


Como quem hesita no abandono, assim um pássaro tem que perceber porque outro pássaro existe. Duras as vidas sem vento, dura a luz sem os homens, dura a demência que os deuses nos atribuem. Eis a minha parte no comércio das sílabas: engano-me de propósito na escrita, cada erro tem o seu preço e se me esquecer como se faz, talvez consiga algum dinheiro pelo fim do dia.
Ofício: ensinar a loucura às hienas, aprender a cantar para as tempestades, lição breve de quem não consegue fugir da noite - ou dançar até à vertigem sabendo que a vertigem já não dança.
Mas eu ainda lanço grandes cordas às divindades, o que as prende às vésperas, ao sobressalto, à inquieta serenidade das casas. Em troca alguém deixa os líquidos à minha porta - vinho, óleos, tenebrosa água oxidada;

II.
Rosas e lobos

Rejoice! Já ouço a violência das rosas na pele, tumulto absoluto na lucidez, a réplica que se segue ao primeiro abalo, quando os lobos estremecem com o frio. Rejoice! Já minha casa desliza para a zona absurda, chão dissolvido pela humidade ou eu a entrar dentro da humidade com panos brancos e o espanto nas mãos.
Com o coração atado às nuvens, inicio a errância pelas cidades inesperadas, nas azinhagas, nas esquinas, nas ruas ásperas onde a noite não entra. Depois troco três vértebras por novas pálpebras, ou peço que alguém respire por mim - o ar que me restava esgotou-se na meticulosa mudez do amor.
Árido é o poema na obscura evidência do silêncio. Árido é o esquecimento se por ele não dou a vida: sim, eram minhas mães as serpentes em fuga que o Inverno cegou.

III.
Finita

Nada do que digas irá calmar-te os olhos. Põe a vista que sobra, as rugas, as crostas expostas aos elementos e sai. Por aqui já terminou a grande ode, o festim. Os cães virão com a fome, a memória, o ruído do seu sono. Vai, não há mais portas para o susto, leva um livro e alguma roupa. Tenta não respirar sob as ombreiras.


  Oliveira, José. Livro de Obra. Lisboa: Edição do Autor, 2018, pp 104-105.
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