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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mensagem que enviei, enquanto autor colaborador da obra "Buena Letra 2", e que será lida em Roma no próximo dia 4 durante a apresentação da referida antologia. Esta mensagem será lida em italiano  de acordo com a belíssima tradução feita poeta italo-chilena Marcela Fillipi Plaza. Oportunamente postarei também essa versão.
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(Mensaje de Victor:)


                                 "Da gratidão e da luminosa casa das origens"
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Um homem pertence sempre a um lugar. Por mais abrangente e mais universalista em que o olhar desse homem se possa vir a tornar, o lugar do início manter-se-á sempre: nenhum momento, nenhuma cisão interior o poderá jamais anular. No meu caso concreto, não foi preciso iludir coisa alguma: nenhuma fragmentação ocorreu; o lugar do meu sentir originário foi sempre o lugar da minha escolha racional – a latinidade. Alheio a modas, ou outro tipo de contingências, conservei sempre esse nítido e inviolável lugar das origens, ou, mais especificamente, esse espaço poético onde aprendi as letras do meu país, onde depois as ensinei e onde hoje publico.
A “Comisso Editore”, bem como a poeta e tradutora Marcela Filippi Plaza, concedem-me hoje a possibilidade de poder aprofundar a minha casa das origens, de poder cimentar este meu modo de estar no mundo – para eles, pois, a minha profunda gratidão. Alguns dos meus textos circulam já em países de línguas oficiais latinas: Brasil, Espanha, Moçambique, Macau, México… mas é através da “Comisso Editore” que entro, pela primeira vez, nesse território belíssimo que é o da língua italiana: bem-haja à Editora por me fazer ombrear com grandes poetas de língua espanhola! Bem-haja a Marcela Filippi Plaza pela subtileza e rigor com que traduziu os meus poemas. Grato a eles, que tornaram possível este aprofundar do meu lugar originário, que mais não é do que esse local de onde parti – os poetas dos países latinos.
Talvez – quem sabe? – a vida até nem seja um percurso linear onde as etapas se somam aleatoriamente, talvez ela nos seja concedida em círculos complexos e concêntricos e eu reviva hoje, mas acrescentado, os meus dias de Madrid, de Barcelona, de Florença, de Veneza, e tudo isto, tudo, porque há uma casa comum de onde as nossas raízes brotaram em tempos e é partir dessas raízes que as nossas poesias se cruzam, partilham e se enriquecem. A minha gratidão, mais uma vez, àqueles que me ofertaram esta possibilidade de alargar a minha casa das origens.
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Lisboa, 20 de Setembro de 2014
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Victor Oliveira Mateus
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                         "De la gratitud y de la luminosa casa de los orígenes"
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Un hombre pertenece siempre a un lugar. Por más amplia y universalista que se pueda convertir la mirada de ese hombre, siempre quedará aficionado a ese lugar: ningún momento, ningún desgarro lo podrá borrar. En mi caso no es necesario eludir nada: no se produjo alguna fragmentación; el lugar de mi sentir originario fue el lugar que desde siempre elegí: la latinidad. Ajeno a modas, u otras contingencias, siempre he mantenido ese lugar de los orígenes claro e inviolable, o más bien ese espacio poético donde aprendí las letras de mi país, donde después las enseñé y donde hoy sigo publicando.
"Commisso Editore", así como la poeta y traductora Marcela Filippi Plaza, me conceden hoy la posibilidad de poder ampliar mi casa de los orígenes, de poder consolidar mi modo de estar en el mundo- para ellos, mi más profunda gratitud.
Algunos de mis textos circulan ya en países de lengua latina: Brasil, España, Mozambique, Macau, México... pero es ahora gracias a "Commisso Editore" que entro por primera vez, en ese territorio bellísimo que es la lengua italiana: Gracias a la Editorial por ponerme en compañía de grandes poetas de lengua española! Gracias a Marcela Filippi P. por la sutileza y el rigor con que tradujo mis poemas. Gracias a ellos, que harán posible hacer màs grande mi espacio originario, que no es más que ese lugar donde comencé -los poetas de los países latinos.
Tal vez -quién sabe?- la vida no sea un trayecto linear donde las etapas se van sumando al azar, tal vez sea concebida en círculos complejos y concéntricos y yo esté reviviendo, más enriquecido, mis días de Madrid, de Barcelona, de Florencia, de Venecia; y todo esto, todo, porque hay una casa común donde nuestras raíces se originaron en algún tiempo y es a partir de esas raíces que nuestras poesías se cruzan, se comparten y adquieren más valor. Mi gratitud, una vez más, a aquellos que me han ofrecido esta posibilidad de ampliar mi casa de los orígenes.
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Lisboa, 20 de Septiembre 2014
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Victor Oliveira Mateus
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sexta-feira, 27 de junho de 2014



Homenagem a Glória de Sant'Anna na Fundação José Saramago a 27/6/2014: Gisela Ramos Rosa, Andrea Paes, Daniel Maia Gonçalves, Inez Andrade Paes e Victor Oliveira Mateus.
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A fulguração do instante como fundamento da serenidade


na poesia de Glória de Sant’Anna


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          A arte poética de Glória de Sant’Anna funda-se numa cuidadosa e atenta auscultação do real que a cerca e daquele que dentro de si ressuma. Sem adentrar-se nas fórmulas canónicas do realismo, são, contudo, os instantes manifestados pelo real – entendido este como mundo natural ou como mundo vivido e relembrado – que a despertam, maravilham e, muitas vezes, magoam: “As acácias guardam nas tímidas folhas / franjadas e límpidas / a doce ternura / da ausente cacimba.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p 65), “Tanto oiro na tarde / escorrendo do poente // as silhuetas das árvores / são fímbrias de poemas” (In Algures no tempo, 2005, p 21), “quem bateu à minha porta / limpou os pés / deixou os sapatos / e foi-se embora” (In Trinado para a noite que avança, 2009, p 33). Os instantes apreendidos pela poeta apresentam-se geralmente na sua dimensão pictural quer pela beleza das formas, quer pelo exotismo do cenário, quer ainda pela transposição para o poema de dadas ambiências climáticas e temporais: “Por cima dos claros, transparentes búzios / e das lentas algas, / a negra desfia seus tranquilos passos” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p.63), “ O azul recente da manhã/ insinua-se/ pelo silêncio das plantas indefesas.// As casuarinas longamente/ hesitam/ entre o apelo do sol e os finos dedos// da brisa quase inútil.” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 135), "Dentro da madrugada clara / o vento é de vidro e a lua é de água, / e por entre as arestas das casas / o mar se alonga e arfa.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”,1988, p 71).
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De entre a multiplicidade de instantes vibráteis que assolam o imaginário poético de Glória de Sant’Anna encontramos igualmente motivos fortemente marcados pelo humano nas suas diversas facetas: o socioeconómico – “O menino é nu, / e alegre e claro: / veste-se da sombra / das árvores altas”. (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988  , p.94), “ O pescador anda ao largo/ todo perdido do mundo/ - repartido entre o horizonte/ e o azul fundo.(…)// (Vai o destino passando/ ao mesmo tempo/ pelo pescador, pela rede,/ pelo mar e pelo vento).” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 138); o ético e moral – “O negrinho é morto / na noite densa. / (…) / de tão sozinho / de tão ausente, / quem o redime é o tempo.” (Poemas do tempo agreste, 1964, in “Amaranto”,1988, p 99); o urbano – “esguio parecendo / saído das pedrinhas dos degraus / entre um coração de vidro / e ferro duro moldado” (“O elevador de Stª Justa”, in E nas mãos algumas flores, 2007, p 21), “rua sofisticada dos artistas / e das horas românticas // agora os destroços calcinados / são sua vizinhança” (“Rua Garrett”, in E nas mãos algumas flores, p 18; é interessante notar aqui a impressão que o enorme e violento incêndio do Chiado teve, à época, no olhar da poeta); a guerra colonial –




                “Poema Décimo Primeiro”


 


 


 


A negra tombou entre os agrestes ramos


e um súbito espanto.


 


(está morta


e as aves cantam)


 


Do seu ventre aberto ao sol que se inclina


esvai-se o longo fio que a tecia.


 


(está morta


e o vento desliza)


 


Da face suspensa na folhagem magoada


descai o lenço que se desata.


 


(está morta


sob a claridade)


 


…toda já outra sobre o trilho que seguia


ausente das marcas de ódio que pisava


guarda entre os dedos longos da mão abandonada


sinais do áspero matope que a recolherá.


 


(está morta e as aves cantam


e a tarde se consome toda igual)


 


(Cancioneiro incompleto, temas da guerra em Moçambique, 1961-1971, in “Amaranto”, 1988, p.175)


 
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O tema da guerra colonial, na poesia da Glória de Sant’Anna, não pode ser desinserido de todo um ideário ético que trespassa a sua poesia, ideário esse que nos diz que ante o repulsivo de cultivarmos em nós uma qualquer espécie de infra humanidade, que frente ao que de aviltante tem a morte premeditada do Outro e que frente à horrenda injustiça que é privarmos esse Outro do seu direito inquestionável de estar vivo com dignidade e raízes, frente a tal território essencial nenhuma pele tem cor. Apesar da angústia, da nostalgia e dos vários momentos de profunda solidão interior que encontramos nesta poesia, Glória de Sant’Anna – e relativamente ao tema de que falamos, bem como ao livro que acabámos de referir – jamais abre mão, nem da sua solidariedade com o humano nem dessa sacralidade que é o estarmos vivos, independentemente de condicionalismos puramente acidentais, acerca disto leiam-se, por exemplo, os poemas: Sétimo, Nono e Décimo Terceiro do livro Cancioneiro incompleto.
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      Finalmente, e de entre os instantes vibráreis e fulgurantes, ressalvemos o mundo dos afectos do qual podemos destacar, por exemplo, a amizade, veja-se o poema dedicado a Sebastião Alba – “bateu ao portão um dia / bateu ao portão / abri-o // vinha da estrela do norte / bebendo copos de vinho” (“Cantiga de amigo” in Algures no Tempo, 2005, p 16), e ainda o poema dedicado a José Craveirinha – “a areia morna / sorve os teus passos // e a tua fala / contida / retida nos olhos largos” (“Musicando arrabil” in Algures no tempo, 2005, p 27). Convém ainda enfatizar que estes instantes fulgor que acicatam todo um pensar de imagens de que Glória de Sant’Anna se serve na sua arte poética pode assumir duas variantes distintas e, por vezes, autónomas: ou cada estrofe é ela um agora fulgurante e descentrado na organização do poema, ou cada estrofe complementa todas as outras dando azo a que o instante seja agora a própria unidade poemática, como exemplo desta segunda faceta podemos citar o poema “Maternidade” incluído em “Um denso azul silêncio” (1965), poema este que, para além de ilustrar o que acabamos de dizer, dá uma amostra clara da posição da poeta relativamente à problemática da diferenciação étnica:
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          Olho-te: és negra.


          Olhas-me: sou branca.


          Mas sorrimos as duas


          na tarde que se adeanta.


 


        Tu sabes e eu sei:


        o que ergue altivamente o meu vestido


        e o que soergue a tua capulana,


        é a mesma carga humana


 


        Quando soar a hora


        determinada, crua, dolorosa


        de conceder ao mundo, o mistério da vida,


 


        seremos tão iguais, tão verdadeiras,


        tão míseras, tão fortes


        E tão perto da morte…


 


        (…)


 


         Ambas estamos certas


         - tu, negra e eu, branca –


         que é dentro dos nossos ventres


         que germina a esperança.


 


 


     A toda esta multiplicidade de estímulos que se impõem ao ver, à escuta e à interioridade perscrutadora da poeta soma-se o percurso existencial de Glória de Sant’Anna ela-própria, périplo cujas etapas, esperanças e desilusões Eugénio Lisboa tão bem expôs, com o rigor e a acutilância que todos lhe reconhecemos, no Prefácio de “Amaranto”. Ao que, por conseguinte, e como ponto de partida de toda uma poética, nos poderia aparecer como uma súmula de fulgurações visando o absurdo ou o arbitrário, ou ainda que este mesmo ponto de partida poderia apresentar as marcas de tantos dos estilhaços que a implosão do Realismo acabou por disseminar e que vão desde um niilismo burguês com roupagens neo-nietzschianas e de uma anarco-verbalização de cariz assumidamente aristocratizante a uma estética ostensivamente urbana com a consequente ostracização de todos os outros territórios nomeadamente o rural ou o etnicamente diferente, ao que, e como ponto de partida de toda uma poética – frisemos -, nos poderia conduzir a um percurso poético-estilístico mais condizente com o cânone – fluido e efémero como todos os cânones! -, Glória de Sant’Anna seguiu um caminho mais arriscado, mais solitário e, talvez por isso, mais magoado: cinde o ato perceptivo num misto de lucidez e de afastamento, cisão que mais não é do que o antídoto que protege a poeta de toda a emotividade extremada, frente à realidade vemos a autora absolutamente lúcida, mas também sabiamente anestesiada, numa palavra, serena: “ Aqui estou inteira:/ de memória ausente,/ sem fisionomia/ - como uma medalha “ ( Música Ausente, 1954, in Amaranto, 1988, p 51), “ Tudo é sereno e quase vago/ e parece fundir-se/ na minha própria lassidão.// Mas tudo só parece: o dia hoje caminha/ e leva-me de rastos pela mão.” ( Distância, 1951, in Amaranto, 1988, p 30), “ e prossigo por entre muitos seres/ empurrados aos variados alvos/ todos matéria igual em movimento/(…)/ de súbito suspendo-me// do meio da fuligem cor de rosa/ crescida do sol poente/ germina vagarosa para o ar/ a coroa de espinhos de Dezembro “ ( “Caminhando 2 “ in E nas mãos algumas flores, 2007, p 25), Repare-se, e ainda acerca do mesmo tema, no fenómeno de projecção, desvelado neste excerto de poema: “ e é sorrindo que a trazes lentamente/ mantendo a mesma face alva e serena/ e o mesmo calmo aceno alto e tranquilo// e é sorrindo e é firme que prossegues/ como uma espada erguida limpa e nua/ a prender na memória do metal/ o lixo das sargetas e o sangue pelas ruas// e é parecendo ausente que prossegues/ por onde há-de passar um dia o gume/ a isolar a verdade que procuras” ( in Gritoacanto 1970 – 1974, 2010, p 24).
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      Glória de Sant’Anna, frente à multiplicidade temática e à diversidade imagística da sua escrita, não envereda por qualquer procedimento de heteronímia ou por um qualquer psicologismo assente em identidades múltiplas a dizerem-se de acordo com o tempo e o espaço da escrita. Nela encontramos sempre a mesma postura: aquela que vai da fulguração (maravilhada, nostálgica, magoada e algumas vezes mesmo – poucas – alegre ) do instante a uma aquietação do sentir a que chamamos serenidade. Eugénio Lisboa, no ensaio já citado, traduz exemplarmente esta tese: “Decantada de todo o supérfluo, só já conseguem detê-la, por um breve momento, estrelas e silêncios. Aí, nesse espaço rarefeito, ainda algum prodigioso encontro poderá ocorrer…” (in Amaranto, p 20).
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      O mar adquire, por fim, essa dimensão justificadora e, diríamos mesmo, de base psicanalítica, não só de uma postura de acalmação, mas também da matéria-prima de um olhar e de um dizer poéticos: “Silêncio aberto/ de plenitude/ como uma ilha/ num lago fundo./(…) É este agora/ deste momento/ em que estando me ausento.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 123), “ Doce momento/ de entendimento.// Esperança liberta/ na água inquieta.// É o mar enorme/ quem intercepta o sofrimento.” (Livro de Água, 1961, in Amaranto, 1988, p 86), “ O pescador está morto no fundo./ E o pé, lho sustém um coral/ Desfez-se o m’cota e está nu/ - nu e livre dentro do mar.//(…) E por isso todas as palavras/ e apelos e gritos e lágrimas/ se dispersam na sombra do vento/ e no azul secreto da água.” (Desde que o mundo e 32 poemas de intervalo, 1972, in Amaranto, 1988, p 190). E é deste solo matricial: vivificador, apelativo e uterinamente aquífero que advêm quer a serena firmeza do olhar de Glória de Sant’Anna, quer a exactidão poética da sua palavra, geralmente nostálgica, mas sempre atenta: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase).// Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).//(…) Que já não sei se estou/ obscura e idêntica,// ou broto sem defesa (repartida)/ na verde transparência de outra hora.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 131).


 


              “ O mar “


 


    Porque ê sempre o mar?


    Porque é concreto


   está cheio de morto e certo


 


   Na pálida esteira


   que vamos deixando


   tudo é origem-mar-humano


 


   Eu própria, tu,


   da cálida água


   da transposta água andamos


 


   Porquê sempre o mar:


   é isso


   - os mortos, as algas, as marés, os vivos.


 


   (E também a forma


   a cor, o tecido,


   quando a claridade da hora o decide.)


 


 


           in “ Amaranto “, p 202


 


 


     A poesia de Glória de Sant’Anna é, por conseguinte, inseparável de um iniludível confronto com a imposição dos instantes, com o resplendor da paisagem africana que sempre assumiu e fez sua, com uma lucidez geralmente magoada e assente num voluntarioso desdobramento do eu e com a presença indelével do mar, substância originária a que tudo volta, mesmo quando o coração fica – intacto – “ junto à raiz das acácias rubras “ (cf. Amaranto, p 73), e é assim, de uma tecedura sabiamente doseada, que a escrita desta poeta irrompe, também ela, em constelações de indefectíveis instantes:


 


 


                             


         Mateus, Victor Oliveira. Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 14 - 2º Semestre, 2014, pp 169 - 172.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014




           MARIA TERESA HORTA: A LUMINOSA INSURREIÇÃO DA EROS

 ( Pode também ser lido AQUI:  http://zonadapalavra.wordpress.com/  )
  
 
 
   No âmbito da poesia portuguesa, irrompem – no início dos anos sessenta - dois movimentos cujos pressupostos teórico-estilísticos colocariam em questão não só os modos vigentes de conceber o fazer poético, mas igualmente a relação deste com o todo social. Para esses dois grupos de autores – o Poesia 61 e o Experimentalismo - surgem como marcos originários e fundantes a preocupação com a linguagem, a recusa da discursividade e do sentimentalismo, assim como a rejeição da tese da eficácia do discurso poético. Este enfatizar do universo linguístico e o privilegiar da materialidade do texto conduz, nestes dois grupos de poetas, a uma substantivação da poesia naquilo que a demarca, ora de um subjectivismo impressionista ora de concepções que subalternizam o poético em virtude de aspectos normativos extrínsecos à própria poesia. Todavia, e no que diz respeito à Poesia 61, estes autores logo se demarcam de toda e qualquer estridência formalista, enveredando antes por um dizer que assume a palavra na sua relação dialógica com a História que dela é solo vitalizador e terra de acolhimento.

     A poesia de Maria Teresa Horta é, por conseguinte, uma emanação necessária do referido percurso: escrita fortemente centrada no feminino, a mulher de que insiste em falar não é jamais uma construção abstracta que uma inócua prestidigitação discursiva coloque levitando num qualquer mundo fantasiado. A mulher que transpassa o dizer poético de Maria Teresa Horta é um ser real e concreto intimamente relacionado com o seu contexto histórico, cultural e sociopolítico; ela é, e ao invés do que vinha sendo veiculado pela tradição poética, uma mulher activa que ousa escolher, e construir, o seu destino e que por tal assunção se pretende responsável, este posicionamento aparece-nos logo no livro Tatuagem (1961) em Poema para a noite:

 

Beijo-vos

prolongada de gerações

em silêncio

 

é para nós agora

a vez

das planícies que erguemos

pelas ancas

na curva onde o hálito

é ansiedade no homem

 

   Este facto da mulher se apresentar como estruturalmente activa, pode, no entanto, parecer contraditado por poemas como Cativa e Crueldade ambos do livro Candelabro (1964), Chicote de Jardim de Inverno (1966) e ainda muitos outros como, por exemplo, Poema de Muito Amor de Minha Senhora de Mim (1971), no entanto, urge dizer que, se em muitos poemas o arrebatamento, o “cativeiro” e a veemência das invocações atingem uma estridência iniludível, isso não anula o facto de tais atitudes e comportamentos terem a sua raiz em deliberações e decisões que partiram exclusivamente da própria mulher. No entanto, este primado do feminino, intimamente relacionado com um léxico e com um processo de metaforização alicerçados, muitas vezes, no anatómico e no bio-fisiológico (veja-se, por exemplo, o poema A Doença do livro Educação Sentimental, 1975, onde são referidas, em analogia com elementos do mundo natural, partes do corpo e mesmo secreções), pode trazer o perigo de visões reducionistas, onde a mulher se veja circunscrita ao erótico ou ao intento de suplantar o estatuto do masculino. Todavia, são bem mais abrangentes as inquietações desta escrita: a mulher, enquanto ser individual, vai sempre, ao longo da poesia de Maria Teresa Horta, mantendo uma dialogal relação com as outras mulheres e com determinados valores ético-morais, observe-se isso em Mulheres de Abril (1977), no poema Em Liberdade:

 

Em Liberdade

somos

nós mulheres o cimo

da raiz

(…)

No ventre das mulheres

o sossego é fértil

 

em nós cresce o amor

 

Vemos, por conseguinte, que a procura de uma comunhão amorosa, se, por vezes, nos aparece como mais extensa e mais intensa quando dirigida ao Outro-amado, não é menos verdade que ela a tal não se limita, mas acaba alcançando um carácter abrangente e englobante: em Minha Mãe Meu Amor (1986) o vector do amor encontra-se apontado à mãe:

 

 

Respirar-te o sangue

bebendo-te o perfil

 

bordando-te o perfil

(…)

a ponto-pé-de afago

 

minha mãe

meu amor

 

mas, em Cronista Não é Recado (1967), já é para o seu país que a poeta aponta esse mesmo vector, como no poema Peso de Campo:

 

Varejar país doente

é cultivar no silêncio

um fruto que não de medo

 

Se a isto confirmarmos que na poesia de Maria Teresa Horta ao mesmo tempo que pululam os vocábulos (até então banidos da lírica amorosa) ligados ao corpo, à sexualidade e ao desejo, outros também se levantam, apesar de aparentemente emudecidos pelos anteriores: “a chuva crucifica”, “catedrais de nós” In poema Reflexo de Cidadelas Submersas (1961); “no retábulo místico dum templo”  e “vela cansada/ e gasta numa missa” In Candelabro (1964); “Lembro-me do paraíso (…)/ E havia também a maçã/ do teu útero/ sítio: da tentação no início” In Minha Senhora de Mim (1986); “ Abro-te as portas querendo/ a tua luz (…)/ Desejo o teu incêndio/ queimando a minha alma” In Inquietude (2006), etc. São, como vemos, inúmeros os poemas onde se tangencia (exemplo: o tema da Visitação - “ A parte que é/anjo/do teu corpo// e me visita/ de madrugada” In Anjos,1983) ou mesmo se enuncia toda uma imagética de índole religiosa. Assim, este amor que dizíamos não exclusivo do Outro-amado, mas que se propaga agora pelo Todo que envolve a poeta, e do qual ela fala, surge-nos geminado com o sagrado, não aquele sagrado das religiões tradicionais e institucionalizadas, mas antes uma sacralidade antiquíssima a fazer-nos lembrar esse campo onde dialogam e se interpenetram não só as teses de Empédocles, mas também os ritos onde o dizer, o corpo e um dado solo originário se firmam:

 

 

  Meu claustro de musgo

e de fermento

onde o ferro se perde de humidade

 

Onde o tempo se inventa

noutro tempo

feito de musgo – framboesa

e carne

 

    Laranja In Educação Sentimental (1975)

 

   Esta partilha amorosa, esparsa pelos territórios já referidos, e que se diz, na poesia de Maria Teresa Horta, através dos mais diferentes vocábulos (altar, anjo, cilício, grinaldas…), desemboca necessariamente na mais nítida e contundente religiosidade pagã, que mais não é do que húmus e fermento de um amor – em autenticidade - pela escrita e pelo corpo do texto, ou melhor: retira-se assim esta poesia, sem a privar da sua autonomia estética, das leituras exclusivistas baseadas no erótico, no ético-moral e no ideológico, e recolocamo-la num solo essencial e eminentemente ontológico, do qual todos os outros olhares são vertentes e derivações, até porque o amor primeiro não é mais do que o amor pela Palavra: o Amor, que ante a poeta se Abre e É, é acima de tudo Poema:

 

Deixo que venha

se aproxime ao de leve

pé ante pé ao meu ouvido

 

Enquanto no peito o coração

estremece

e se apressa no sangue enfebrecido

(…)

Do poema que cresce e o papel absorve

verso a verso primeiro

em cada desabrigo

(…)

Sinto-o quando chega no arrepio

da pele     na vertigem selada

do pulso recolhido

 

 

À medida que escrevo

e o entorno no sonho

o dispo sem pressa e o deito comigo

 

    Poema In Inquietude (2006)

 

    Mesmo nos livros onde a nostalgia e um certo desalento campeiam, como por exemplo Destino (1997), o arrojo da entrega ao Outro-amado nunca é anulado (cf. poema Ponto de Pérola), nem tão-pouco o saber que o Amor, essa divindade simultaneamente luminosa e insurrecta, simultaneamente intensa e abrangente, jamais deixará de se impor à poeta com a segura convicção de que “O lugar destes sítios/ chama-se destino”.

    Diremos, pois, que se o ato amoroso, quando partilhado com o Outro-amado, é pleno, excessivo e gratificante, não é menos verdade que, quando se engrandece e propaga, incorpora armadilhas e desvios tornando-se numa urdidura da alma (cf. poema Versos In Inquietude ), que mais não é do que a própria Poesia a dizer-se na sua caligrafia cruel. Ele é, nesta poesia, inclusivo mas também ramiforme, ele é despojamento mas também vocação própria de plenitude, dito de outra forma: o ato amoroso é aquele que, ultrapassando uma sensualidade gratuita, infringe assumidamente o principio da não-contradição, pois nele o eu-poético mantém a sua individualidade, ao mesmo tempo que, partilhando o amor do Outro, se acrescenta, isto é, no topo da partilha alcança-se um solo fusional onde o eu é simultaneamente um si-próprio e ser-através-do-Outro. Esta a mestria desta paisagem poética, aliás, a imagem da urdidura, e da tecelã, aparece com insistência metamorfoseada ao longo de toda a obra poética de Maria Teresa Horta em versos que referem atos de prender, fazer/refazer, embrulhar, entrançar, desatar, etc. Esta vasta tecedura poética diz-se, inconfundivelmente, através de uma voz original e una, que, no entanto, nessa unicidade integrou e fez seu todo um vasto conhecimento dos poetas que a antecederam, pois aqui podemos vislumbrar marcas da lírica medieval (cf. poema Minha senhora de mim, mas também o Verde-Pinho do livro Só de Amor, 1999, a fazer lembrar-nos a Cantiga de D. Dinis  Ai flores, ai flores de verde pino); podemos encontrar um subtil diálogo com a lírica camoniana (comparar o último verso de Delírio do livro Só de Amor, 1999, com o último verso do soneto de Camões Sete anos de Pastor); podemos até recordar-nos de Soror Violante do Céu ou das ultra-românticas ao aproximarmo-nos das repetições, do esquema rimático e da contradição no fecho do poema Carmim de Inquietude (2006). Nada é deixado ao acaso na poesia de Maria Teresa Horta: a um intento globalizador terá de corresponder uma técnica que de tudo se assenhoreia e tudo incorpora, para que mais autênticas sejam a luminosidade e a insurreição com que Eros desde os primórdios vem abraçando o mundo.

 

            

 

 

Bibliografia:

 

- Gastão, Ana Marques. Maria Teresa Horta: corpo solar e lunar no corpo do texto. In: Revista de Cultura Agulha Nº 46. Fortaleza, São Paulo: Julho de 2005.

- Gubar, Susan. A “Página em branco” e questões acerca da criatividade feminina. Trad. Francesca Rayner. In Ana Gabriela Macedo, org., Género, Identidade e Desejo: Antologia crítica do feminismo contemporâneo. Lisboa: Livros Cotovia, 2002, 97-124.

- Gusmão, Manuel. Tatuagem & Palimpsesto: da poesia em alguns poetas e poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

- Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994.

- Horta, Maria Teresa. Destino. Lisboa: Livros Quetzal, 1997.

- Horta, Maria Teresa. Inquietude. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2006.

- Horta, Maria Teresa. Poesia Reunida. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009.

- Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo, Antologia de Poesia Erótica. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012.

- Klobucka, Anna M. Poetas, Feminino Plural (Sobre Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge). In: O Formato Mulher, A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa. Coimbra: Angelus Novus Editora, 2009.

- Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal, 1974 – 1984: leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986.


  Mateus, Victor Oliveira. " Maria Teresa Horta - A luminosa insurreição de Eros " in " Cintilações da Sombra III ". Fafe: Editora Labirinto, 2015, pp 81 - 88.
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sábado, 12 de abril de 2014




 
                 " LEIS DA SEPARAÇÃO "  ( Livro de Rui Almeida, Medula, 2013 ).
 
 
Têm os títulos dos livros, bem como as suas epígrafes, a função de nos introduzir no horizonte ou intriga que virão a ser desenvolvidos. Assim, no mais recente poemário de Rui Almeida, a expressão Leis da Separação aponta-nos para algo de fixo e invariável, que, uma vez colocadas e respeitadas condições igualmente estáveis, produzirão necessariamente os mesmos resultados. Podemos aqui, por conseguinte, partir de um eu-poético que se assume a si próprio como distinto da multidão, incapaz – por recusa ou por aspectos de personalidade – de participar nos rituais do turbilhão que o cerca:“Pode a memória de um cheiro gerar/ O pequeno lucro do afecto/ Ou queimar o erro da norma?” (p. 8); “Pela manhã são vistos, apressados,/ A caminho do dia, da sequência monótona/ Para onde se esvai toda a grandeza/ De cada olhar. Nem se notam” (p. 16); “De onde vem tanto barulho?/ Que espécie de riso se expande/ Por corredores estreitos, entre paredes,/ Para chegar ao vácuo da rua?” (p. 24). O apreender-se a si próprio como destoante e separado do vulgo incute no eu-poético indeléveis marcas de: uma radical solidão interior – “Próximo e para lá/ Do que cabe numa linha/ De texto formatado,/ A possibilidade de tocar/ Uma outra existência/ Alheia à distância e ao peso/ Da matéria” (p. 9), “Será possível tocar/ Na pele do rosto de um semelhante/ Sem deixar de sentir/ A sua temperatura?” (p. 24); intensos reflexos de angústia e dor – “E quando te cansas/ Dessa alma de borracha,/ Tão maleável…// Aceleras o coração,/ Acordas surpreendido// E reparas/ Que te faltam/ Mãos e braços” (p. 30), “(…) A noite tem textura/ De caminho difícil até/ Ao limite do mais belo.//(…) Devagar é noite e dói/ Subir à montanha com os olhos.” (p. 34); um vincado desalento tangenciando mesmo, por vezes, um certo pessimismo – “A isto se chama devastação,/ Cinza erguida, totens/ De negro carvão. Nada.” (p. 35). Estes estados, que esboçam o perfil de um sujeito que enceta uma plurifacetada busca na compreensão de si, do Outro, daquilo que o cerca e também daquilo que ele intui que o transcende, estes estados – dizia– são as já referidas condições de partida desse tal olhar perscrutador.

Mas o caminho apresenta-se, neste cismar poético, eivado de escolhos, já que o poeta jamais designa através de um conceito unívoco esse território que lhe surge como fundante, não só da sua busca, mas igualmente do seu estar-aqui, e isso ocorre não por qualquer vacilação do olhar, mas porque ante o inominável serão sempre poucas e redutoras as palavras, mas, apesar de tudo, ele insiste: “Ao que pode e não pode rouba sempre/ A morte, assombra a quantia/ Lenta do alto. “(p.8), esta ideia do Alto surge-nos ainda no poema da página 14; o eterno - “Longe, a ideia de continuar/ Sempre a sentir/ O movimento,/ Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,” (p.9); “A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:// É frágil em seus limites/ Irracionais.// O lugar das coisas invisíveis/ É a flor dos silêncios.” (p. 11); o centro - “Queres e não vês/ E tomas o acesso/ Mais directo ao centro/ E há nevoeiro e não chegas/ A tempo, mas onde?,//(…) e não sabes/ Onde chega a tua força/ E não tens lugar/ E não ouves e não cantas/ A breve melodia.// E ainda assim.” (p. 40). Esta consciência de uma incapacidade estrutural que é intrínseca ao acto de nomear o que está para além de um aqui imediatista, já o poeta a tinha sentido em livros anteriores: “Ascende ao presente a vaga/ Firmeza aplicada ao que sucede,/ Distracção do tempo/ Assumida em palavras sobrepostas/ Para construir um nome. ( in “Caderno de Milfontes”, p. 12). Este pudor, ou este recato, do nomear jamais é incompatível com a necessidade de busca, e isso surge-nos logo a partir do primeiro livro de Rui Almeida: “É por não buscarmos o que nos salva ou/ Por não sabermos beber da secura dos lábios/ Que nos transportamos para fora dos campos/ Sujeitos à pequenez e à aparência de abundância/ Como seres que perderam a consciência do riso. “ ( in “ Lábio Cortado”, p 7). A inquirição poética contida em Leis da separação surge-nos marcada por quatro aspectos fundamentais: a Dúvida – o poeta, nunca chama a si posições de carácter dogmático ou onde uma certa assertividade se apodere da sua escrita, isto é, os momentos de angústia e de desalento acima referidos aparecem, algumas vezes, geminados com momentos de: dúvida - “Cada passo é próximo/ Demais para chegar// A um fim. Incerto/ Limite/ Do fluxo da vida.” (p.31), “Mais acima e mais para dentro,/ Sustentado por ideias,/ Possibilidades de sonho// A concretizar/ Em caminhos de areia/ Solta por entre/ Abundante vegetação.” (p.32); ironia, muitas vezes magoada – “Iremos aparecer,/ O nosso rosto será/ Visível em fotografias,/ Muitos anos depois,// E sairemos bem/ na contramoda que construirmos.” (p. 12), “ Todos felizes da vida/ por serem humanos;/ Até o maneta,// Que atrapalha o trânsito/ Com obscenidades/ Por não ter nada a perder.// (e esse mais do que os outros)” (p. 17); de utilização, aqui e ali, de um argumentário poético alicerçado em Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino, nomeadamente as Teorias da” Matéria e Forma” e a da” Potência e Acto” - “Age no poder da forma o cheiro/ Da memória, assinala/ O fim da leitura… “ (p. 8), “Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,// Concretizado no acto/ de ir ao encontro.” (p. 9), “Até às formas completas/ Que revestem o essencial.” (p. 26); a ideia de ciclo - o itinerário do eu-lírico (como o da criação poética expresso, subliminarmente, no poema da página 22), nesta sua errância por um aqui que lhe surge assumidamente imperfeito e lacunar, não aparece como um processo linear onde as etapas se somem umas às outras, na poesia de Rui Almeida são recorrentes as hesitações, as dúvidas, a consciência da sua própria fragilidade, onde o eu vacila para logo se reerguer e retomar o seu caminho, aliás, não é por acaso que as referências à noite, à nevoa, à sombra, etc., como instâncias impeditivas ou bloqueadores da acção, são abundantes nesta obra: “ A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:” (p. 11), “Encerram as fontes/ Fragmentos/ Ciclos de esperança,/ Respostas incertas.” (p. 26).

A separaçãoque o poeta, como vimos já, sente relativamente à conformidade, ao turbilhão, à essencialidade do Outro e ao que intui subsistir para além do Aqui, e que ele assume com uma lucidez angustiante e com o desalento próprio de quem teme que esse qualquer encontro redentor não venha, alguma vez, a ser possível, afasta a poesia de Rui Almeida, pelo menos no que diz respeito a este livro, dos intentos poéticos de outros autores: Vergílio Alberto Vieira, nas suas últimas obras, é claro quanto à identificação da transcendência (que ele significa sempre com maiúscula!) e a sua espera jamais aparece como dolorosa ou atormentada: “ Nada vêem os olhos, que tudo vêem,/ com a primeira luz do dia;/ a treva que, a pouco e pouco, das minhas mãos/ se afasta é, agora, que nada me pertence,/ pertença minha; um ramo de sombra apressa então/ a inquieta brancura do caminho.” ( in “Amante de um só dia”, p 13); em José Tolentino Mendonça são também bastante atenuados os momentos de desconforto e insegurança na espera: “Os naufrágios são belos/ sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?” (in A que distância deixaste o coração”, p 28), “Nenhuma sombra ameaça tua porção de luz/ ainda que solte o vento/ medos antigos pelos atalhos// Uma só palavra restitui/ a imensidão “ ( Idem, p. 41), “ Nós não os ouvimos/ mas os desertos, os oceanos, os cimos remotos/ ensinam-te finalmente o que não entendes// Descobres uma casa/ noutras direcções/ a igual distância/da vida que deixamos para trás” ( in “ O viajante sem sono” pp. 35 – 36),aliás, esta ideia de manter a sombra à distância era já visível num livro anterior de Tolentino Mendonça: “Se fechar meus braços outro os abrirá/ no escuro da roda as orações são perpétuas” ( in “longe não sabia”, p. 13). Uma outra plêiade de autores encontra-se ainda mais distanciada da poesia de Leis da Separação, grupo esse que pode ser exemplificado aqui através da escrita laudatória de José Augusto Mourão: “tu semeaste no nossa vida/ a semente do infinito e da beleza/ para que em cada tempo brotem formas novas/ de convivialidade e graça entre aqueles/ que a dor performa e acinzenta “ ( in “ O nome e a forma”, p. 121). O modo como Rui Almeida estabelece, e vivencia, AS LEIS DA SEPARAÇÃO aproximam-no antes de poetas como: Maria Carpi, Daniel Faria e até mesmo de Paul Celan. Veja-se, por exemplo, a última estrofe do poema da página 33: “Só com a grande coragem/ Da desilusão/ Se chega ao riso mais branco/ Por dentro.”, compare-se agora esta estância com um terceto de Maria Carpi: “não tenho mãos/ O meu ofício/ não é cinzelar; tão só pedra bruta/ ser, dentro das entranhas do ver.” ( in “A força de não ter força”, p 88). A desilusão (ou o não ter mãos) não serão, então, condição necessária ao aplanar de todo um território a partir do qual agora, e de modo estruturalmente diferente, se possam edificar pontes? Dito de outro modo: colocadas que foram as variáveis necessárias da vivência poética (inconformidade, angústia, solidão interior…), respeitadas depois as condições da errância e da inquirição ( dúvida, ironia, busca cíclica…), não se chegará, necessariamente na óptica do poeta, a um resultado insofismável que fixará a lei, e que será, neste cismar poético, a visão de que o todo é fragmentário e onde tudo é separado de tudo? Sendo assim, o poema da página 39 – já prenunciado pelo da página 36 –surgir-nos-á como corolário da magnífica e bem desenhada aventura poética traçada por Rui Almeida em Leis da Separação , e que é essa certeza do coração (cf. poemas das páginas 21 e 26, bem como a pouca fiabilidade concedida aos sentidos e à razão esparsa pelos vários poemas) de que só apreendendo a separação,poderemos (ainda) aceder a essa “Coisa mais simples e mais/ Larga, anterior à necessidade/ De justiça.” (p.39) e nela, finalmente, encontrarmos acolhimento e aconchego.
 
 
   Mateus, Victor Oliveira. Nova Águia - Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 13 - 1º Semestre 2014. Sintra: Zéfiro, 2014, pp 252 - 254.
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terça-feira, 1 de abril de 2014


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            O ORIENTE E O SILÊNCIO NA POESIA DE RUI ROCHA


   O recente livro de Rui Rocha, A Oriente do Silêncio, traz para o seio da poesia escrita em português todo um olhar relativo ao mundo, à natureza e ao outro, que não se inscreve numa tradição de cariz discursivo e logicista como é a ocidental. Logo nos três poemas da dedicatória o poeta nos adverte, para a estreita relação existente entre: o murmúrio de uma China antiga, um mandato por cumprir nas sucessões de amantes e o império dos tons e da escrita. Esta tríade, assente no que do longe veio até nós, naquilo que urge levar a cabo e na preponderância daquilo com que nos expressamos, atravessa toda esta obra, por conseguinte, como facilmente se vislumbrará, subjacentemente a esta preocupação poética encontraremos a questão do movimento, que, em Rui Rocha, jamais é abrupto ou turbilhonar: “e que me sussurra a vida” (p 17), “que suavemente ecoa” (p 25), “o rasto suave e redondo” (p 69), mas, se por um qualquer percalço do ver, esta brandura do acontecer se tentar insinuar com um outro ritmo, logo este será estancado por essa serenidade essencial e de vida: “o som das agudas marés/ rebente nas areias serenas” (p 77). Estamos, como se depreenderá, no meio de um acontecer e de uma cosmovisão fundamentados num solo matricial radicalmente distinto do ocidental.
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  A uma civilização e, consequentemente, a dadas formas do fazer artístico que dela emanam, que tem vindo a privilegiar a tecnicização do mostrar e, com um certo gáudio, a impor o artificialismo do acontecer como suma meta de civilização, Rui Rocha contrapõe o primado do silêncio como território fundamental, e fundante, de um existir em autenticidade: “fiquei em silêncio de mãos vazias e nuas/ atravessando a solidão das palavras” (p 43), “ o que não dizes aguarda-nos/ em cada esquina azul do mar” (p 65). Ao invés de uma estética da loquacidade, bem ao gosto ocidental, é numa outra, de serenidade e silêncio, que este autor vai cumprindo o mandato, os tons e a escrita, que deixámos logo assinalados nas primeiras linhas desta recensão.
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  A poesia de Rui Rocha, inextricavelmente ligada à filosofia Zen, subverte assim, de uma forma despretensiosa e coerente, toda uma miríade de quadros perceptivos, conceptuais e interpretativos a que estamos habituados. Convém, no entanto, enfatizar que a opção poético-filosófica deste autor pelo Zen, não deriva de um qualquer circunstancialismo vivencial ou de uma acidental e acrítica escolha. A opção, dentro dos meandros da sabedoria oriental até poderia ser outra, mas o poeta chama a si a inteireza do seu mundo e é aí que, serenamente, e nesse silêncio que se adivinha entre palavras e imagens, edifica o seu universo poético naquilo que se percebe ser a extrema fidelidade a um projecto uno, intransmissível e inalienável.
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  Parece estabelecido que, em 386 AC, um século depois da morte de Shakyamuni (o Buda), deu-se uma cisão no seio do budismo que originou as duas principais escolas desta filosofia: a corrente Hinayana e a Mahayana. Esta tendência de autonomização foi imediatamente seguida de outras atitudes de ruptura: só para o movimento Hinayana surgiram depois cerca de dezoito escolas, enquanto que o budismo que se viria a difundir no Tibete é uma deriva do Mahayana que passou a assumir uma certa especificidade, adquirindo assim a designação de Budismo Vajrayana. Os mahaianistas, já assumidos como tal por volta do séc. I AC, defendem a vocação central do Vazio, da Vacuidade, aliás, no budismo antigo já se afirmava a ausência do em-si e a não-substancialidade dos fenómenos, só que na escola Mahayana esta noção torna-se a verdadeira natureza das coisas, isto é, esse absoluto para lá de todas as oposições. Por conseguinte, se na corrente Hinayana se propõe que os fenómenos se assemelhavam a um Vazio carro puxado a cavalos, já na Mahayana é a própria existência deste veículo que é em si mesma Vazio – todas as oposições não são mais do que Vazio, e realizar a Vacuidade de todas as coisas, adoptar o ponto de vista de Buda, é desencadear o Grande Despertar (1). Mas, e para o que nos interessa aqui neste artigo, digamos tão-só que a vertente Mahayana se propagou pela China, Coreia e Japão, tendo-se desenvolvido no primeiro país duas das suas importantes escolas: o Chan (Zen) e a escola da Terra Pura (estas as mais importantes, porque outras também surgiram!). O Chan consiste em praticar directamente a experiência levada a cabo pelo próprio Shakyamuni quando atingiu o Despertar e abandonou as concepções pessoais e as criações do seu espírito. O início desta difusão na China é fluída e só no século VIII, durante a dinastia Tang, se assiste a uma exuberante eclosão do Chan com uma grande profusão de mestres. Todo este perambular para nos aproximarmos de alguns filósofos do Chan, bem como de certos desenvolvimentos por estes levados a cabo, e que nos aparecem, quanto a nós, como enformando a poesia de Rui Rocha. Vejamos, pois, essas linhas de leitura primeiro nos autores japoneses e, posteriormente, na própria obra do poeta de que nos ocupamos aqui. Assim, defende Sengcan (? – 606) que se pararmos todo o movimento do espírito este ficará tranquilo, diz-nos ainda que o abandono da linguagem e do pensamento nos levará para lá de todo o lugar e que a fonte original está para além do espaço e do tempo, já que um instante se torna então dez mil anos; Dongshan Liangjie (807 – 869), que é um importante mestre de uma das duas grandes escolas do Chan no Japão, a escola Caodon (Soto ), na sua principal obra ( Hokyo Zan Mai), afirma-nos que ir na direcção de, ou tocar, não possuem, nem um nem outro, qualquer valor, não são mais do que uma bola de fogo e, mais adiante, enuncia que meia-noite é a verdadeira luz e que a alba não é clara (2), Hongzi Zhenjue ( 1091 – 1157 ) virá defender que o acto de resplandecer, que não depende de relação alguma, acabará por significar que a iluminação brilha com a sua a sua própria luz. Poder-se-á afirmar, e na sequência do contexto esboçado, que a poesia de Rui Rocha se encontra firmemente enraizada nessas culturas do Extremo Oriente que chamam a si a espontaneidade e a naturalidade como pedra de toque do verdadeiro e do autêntico, quer na vida quer na arte, e que ela apresenta um inconfundível toque de sinceridade, intimamente ligado a uma acção não planeada, que contrasta profundamente com as concepções ocidentais onde um Logos omnipresente (e espartilhador) organiza pensamento e modos de acção. Para o Chan a mente, ou a verdadeira natureza do homem, não pode ser dividida em duas, essa ilusória divisão resulta da tentativa dessa mesma mente pretender ser, ao mesmo tempo, ela própria mas também a sua ideia dela própria, daí a fatal confusão ente facto e símbolo. Ora, para pôr um ponto final a esta ilusão, a mente deve parar de tentar agir sobre si própria, sobre a corrente das suas experiências, pois é este “por si próprio” é que é o modo natural de agir da mente e do mundo: os olhos vêem por si próprios, os ouvidos ouvem por si próprios e a boca abre-se sem termos a necessidade de a forçar a fazê-lo.
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  Demarcando-se com acerbidade das filosofias orientais, as correntes ocidentais – se delas excluirmos as formas de ateísmo e de panteísmo, que até ao século XX foram francamente minoritárias – postulam uma transcendência mais ou menos personificada, bem como uma cisão entre essa mesma transcendência e o território da imanência, ora estas duas linhas de força são completamente alheias a todas as filosofias budistas. No entanto, apesar desta distinção, poder-se-ão encontrar zonas tangenciais entre os dois pensares, que vieram, também elas, influenciar a poesia de Rui Rocha, aliás, não é por acaso que o poeta usa mesmo uma epígrafe de São João da Cruz. Tomemos pois, a título exemplificativo, três autores: em Scivias, obra que Hildegarda de Bingen concluiu em 1151, e formada por três livros descrevendo o primeiro seis visões da autora, torna-se interessante comparar a terceira dessas visões (independentemente da interpretação que a própria Hildegarda dela virá a fazer) com todo o seu jogo de esferas, trevas e chamas flamejantes, com o instante do Grande Despertar intrínseco ao pensamento budista. Hildegarda, na visão seguinte, a quarta deste primeiro livro, diz mesmo tê-la alcançado num esplendor imenso e sereno que brilhou como se múltiplos olhos fosse. Se, contudo, não encontramos influências, demasiado fortes, da autora anterior na poética de Rui Rocha, o mesmo não se poderá dizer de Eckhart que, no Sermão 5b, defende que Deus apenas poderá começar onde termina a criatura, por conseguinte, urge, no ser humano, a saída de tudo o que nele é criatural, pois só após esse despojamento, Deus – o sagrado, diríamos nós – pode ser aquilo que é no interior do homem. Este esvaziamento do em-si, assume, por vezes, no eu-poético de Rui Rocha, fortes tonalidades de melancolia e, até mesmo, de uma indelével sensação de falha e/ou de incompletude: “há muito que não te desenho o amor sobre a folha/ de um papel/ não guardei e muito menos perdi essas palavras/(…) escrevi-as dentro de mim quando mais lugar algum/ havia para as escrever “ (p 45); “não sei o que se passa comigo/ tudo me parece vago,/ vago e ausente.// algo me falta.// onde estou/ creio que não estou” (p 88). O Sermão 42 de Eckhart, que nos diz que na alma há uma potência mais vasta do que o vasto céu, defende claramente que é no lugar onde terminam quer a compreensão quer o desejo, e onde as trevas se iniciam, é exactamente aí que se inicia a luz de Deus. Ouça-se então agora a voz do poeta: “a noite segreda-me de novo aquele olhar/ que antes escutara nos teus olhos silenciosos/ e que me sussurra a vida/ como a espiral de um búzio” (p 17); “tu és a voz/ que suavemente ecoa/ nos meus passos/ pelo chão da noite” (p 25). Todos os versos do poeta aqui citados podem, do mesmo modo, ser confrontados com os poemas de São João da Cruz, dos quais destacamos: o poema IV, Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación e o poema XIX Glosa a lo divino.
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  Na poesia de expressão budista, e neste caso concreto mais ligada à variante Zen, há uma reverência para com a natureza que, enquanto regra, é incomum no ocidente. Convém, no entanto, ressalvar que por natureza não se entende tão-só as chuvas, as canas de bambu, etc., mas também os desejos e os desencantos. E eis-nos ante uma nova característica desta escrita: a extrema ambiguidade do referente deste universo poemático, nunca se decidindo o eu-poético em explicitar se estamos frente a um qualquer processo de antromorfose de onde uma mulher amada pode acenar, ou se essa insinuação feminil é a projecção de outro tipo de contexto, como por exemplo a natureza:


        esta noite a tua presença
        rondou os meus passos.
       a lua cheia chegou.
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 Rui Rocha (op. cit. P 57)


Segue o poeta, então, esse processo de enriquecimento que alguns teóricos têm postulado para os haicais, ou seja, que o autor deve expressar a sua sensibilidade, mas evitando sempre as impressões demasiados individualizadas. O fascínio pela poesia oriental, e concretamente pelo haicai, tem levado alguns poetas que escrevem em português a dedicarem-se a tal género de poesia, citemos apenas quatro exemplos de autores através das suas obras referidas aqui na bibliografia:


      Nem sempre a neve
      cai do céu: às vezes
     explode numa flor
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 Albano Martins (op. cit. p 251)


        Madrugada –
       No quintal, a lua
       E o lírio branco.
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  Paulo Franchetti (op. cit. p 28)


         pelos caminhos que ando
   um dia vai ser
        só não sei quando
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  Paulo Leminski (op. cit. p 108)


       Silêncio. Ouçam
   a vida – água correndo
      cada vez mais triste
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 Casimiro de Brito (op. cit. p 16)
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  Se a poesia de Rui Rocha não acusa quaisquer influências dos poetas portugueses de cunho orientalista, como por exemplo Camilo Pessanha, não deixa de ser também verdade que, no essencial, esta escrita pode bem aproximar-se do que de melhor têm feito, no género, alguns dos grandes poetas de língua portuguesa e os cinco haicais acima transcritos pretendem fundamentar esta posição. Por outro lado, a especificidade da matriz poética do oriente aparece na obra do poeta cimentada nos seus múltiplos aspectos, alguns dos quais já referidos neste artigo: a problemática do movimento; a recusa da tecnicização e do artificialismo em arte; a reverência – e até mesmo uma certa humildade – perante a natureza, que nada tem a ver com o paradigma do domínio e violentação da mesma bem ao gosto do ocidente e que pulula, enquanto amostra, em grande parte da poesia ocidental. A todas estas variáveis, e para terminarmos conforme começámos: sob a égide da tríade, acrescentemos – à guisa de conclusão – a grande importância que têm na poesia de Rui Rocha: a) a recusa do discursivo e da narratividade, optando o poeta pela apreensão desse instante fulgurante sempre conciso e nítido: “ave que o sol contempla/ branca, de todas as cores,/ eleva-se dos sombrios dias” (p 36); “um breve rasto de leme/ cortou a luz deitada/ na poeira surda das ondas” (p 83); b) o estatuto do silêncio no seio do dizer: “sem acordar as palavras/ deslizei até ao chão” (p 37), “escuto o teu silêncio/ a entardecer o dia./ apenas a luz da lua/ me dá conta de ti.” (p 53); c) a importância desse Grande Despertar, que recusa todo um logicismo iniciado no Ocidente por Platão e que depois Aristóteles desenvolveria fundamentando, bem como todo um universo conceptual de tipo dicotómico, optando antes por um discurso assente num despojado ver, que, frente, à impermanência dos fenómenos, se ilumina e ilumina o que na abertura de ser se mostra como algo pleno de autenticidade A Oriente do Silêncio.
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  No entanto – e convém acrescentar – ao enriquecimento e à fascinação que a leitura deste livro de Rui Rocha nos traz não é alheio o sábio modo como maneja as imagens, o código linguístico e as técnicas do labor poético, quer em cada poema quer na obra enquanto todo. Dessa sua arte frisemos apenas o uso de estruturas poemáticas de tipo anafórico, cujo objectivo é imprimir ao discurso ritmo, leveza e musicalidade (cf. pp 34, 47, 51, 75…); o recurso aos paradoxos na apreensão do acontecer: “escuto o teu silêncio/ a entardecer o dia.” (p 53), “este é, de resto, o único sentido/ claro e absurdo da natureza,/ é ser tudo e ser nada ao mesmo tempo.” (p 89) e, finalmente, a constante tentativa de fixar o aqui e agora:
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      guiada pelo rasto da última estrela
     reflecte-se a maresia da tarde
     além, no sal azul dos litorais.
     contra o submerso silêncio das horas
     a noite esconde-se atrás da lua.
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    Rui Rocha (op. cit. p 71)
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e é esta tentativa, sempre por esta escrita retomada, de absolutização do instante, que constantemente ilumina o percurso do eu-poético na demanda desse seu Oriente que é, acima de tudo, resplendor e Silêncio.



  Mateus, Victor Oliveira. Revista de Cultura/ Review of Culture, Macau, 44, 2013, pp. 59-63.




(1)    Relativamente a este ponto será útil a leitura dos Capítulos 17, 18 e 19 de Tratado do Meio de Nagarjuna, autor fundamental do Budismo e fundador da escola Madhyamika, “A Via do Meio”; são também de sua autoria os importantes comentários “Prajnaparamita-Sutra” onde a noção de Vacuidade é devidamente clarificada.
      (2)    Leiam-se os capítulos “a noite dos dias” e “contos de lua vaga” de A Oriente do Silêncio.



BIBLIOGRAFIA:

. Bashô, Matsuo (1986). O gosto solitário do orvalho. Lisboa: Assírio & Alvim.

. Brito, Casimiro (2012). A Boca da Fonte. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim.

. Crépon, Pierre (1991). Les fleurs de Bouddha, Anthologie du bouddisme. Paris: Albin Michel.

.Cruz, S. João da (2002). Os mais belos poemas. Queluz: Coisas de Ler Edições.

. Eckhart (1995). Traités et Sermons. Paris: GF-Flammarion.

. Franchetti, Paulo (2007). Oeste. São Paulo: Ateliê Editorial.

. Leminski, Paulo (2002). Distraidos venceremos. São Paulo: Editora Brasiliense.

. Martins, Albano (2000). Assim são as algas. Porto: Campo das Letras Editores.

. Nagarjuna (1995). Traité du Milieu. Paris: Éditions du Seuil.

.Pernoud, Régine (1995). Hildegarde de Bingen, conscience inspirée du XIIe siécle. Paris: Editions du Rocher.

. Rinpoché, Kalou (1993). La voie du Bouddha. Paris: Éditions du Seuil.

. Rocha, Rui (2012). A oriente do silêncio. Lisboa: Esfera do Caos Editores.

. Shantideva (1998). O caminho para a Iluminação. Lisboa: Livros e Leituras, Lda.

. Watts, Alan W. (S/d). O Budismo Zen. Lisboa: Editorial Presença.
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