quarta-feira, 7 de maio de 2014




           MARIA TERESA HORTA: A LUMINOSA INSURREIÇÃO DA EROS

 ( Pode também ser lido AQUI:  http://zonadapalavra.wordpress.com/  )
  
 
 
   No âmbito da poesia portuguesa, irrompem – no início dos anos sessenta - dois movimentos cujos pressupostos teórico-estilísticos colocariam em questão não só os modos vigentes de conceber o fazer poético, mas igualmente a relação deste com o todo social. Para esses dois grupos de autores – o Poesia 61 e o Experimentalismo - surgem como marcos originários e fundantes a preocupação com a linguagem, a recusa da discursividade e do sentimentalismo, assim como a rejeição da tese da eficácia do discurso poético. Este enfatizar do universo linguístico e o privilegiar da materialidade do texto conduz, nestes dois grupos de poetas, a uma substantivação da poesia naquilo que a demarca, ora de um subjectivismo impressionista ora de concepções que subalternizam o poético em virtude de aspectos normativos extrínsecos à própria poesia. Todavia, e no que diz respeito à Poesia 61, estes autores logo se demarcam de toda e qualquer estridência formalista, enveredando antes por um dizer que assume a palavra na sua relação dialógica com a História que dela é solo vitalizador e terra de acolhimento.

     A poesia de Maria Teresa Horta é, por conseguinte, uma emanação necessária do referido percurso: escrita fortemente centrada no feminino, a mulher de que insiste em falar não é jamais uma construção abstracta que uma inócua prestidigitação discursiva coloque levitando num qualquer mundo fantasiado. A mulher que transpassa o dizer poético de Maria Teresa Horta é um ser real e concreto intimamente relacionado com o seu contexto histórico, cultural e sociopolítico; ela é, e ao invés do que vinha sendo veiculado pela tradição poética, uma mulher activa que ousa escolher, e construir, o seu destino e que por tal assunção se pretende responsável, este posicionamento aparece-nos logo no livro Tatuagem (1961) em Poema para a noite:

 

Beijo-vos

prolongada de gerações

em silêncio

 

é para nós agora

a vez

das planícies que erguemos

pelas ancas

na curva onde o hálito

é ansiedade no homem

 

   Este facto da mulher se apresentar como estruturalmente activa, pode, no entanto, parecer contraditado por poemas como Cativa e Crueldade ambos do livro Candelabro (1964), Chicote de Jardim de Inverno (1966) e ainda muitos outros como, por exemplo, Poema de Muito Amor de Minha Senhora de Mim (1971), no entanto, urge dizer que, se em muitos poemas o arrebatamento, o “cativeiro” e a veemência das invocações atingem uma estridência iniludível, isso não anula o facto de tais atitudes e comportamentos terem a sua raiz em deliberações e decisões que partiram exclusivamente da própria mulher. No entanto, este primado do feminino, intimamente relacionado com um léxico e com um processo de metaforização alicerçados, muitas vezes, no anatómico e no bio-fisiológico (veja-se, por exemplo, o poema A Doença do livro Educação Sentimental, 1975, onde são referidas, em analogia com elementos do mundo natural, partes do corpo e mesmo secreções), pode trazer o perigo de visões reducionistas, onde a mulher se veja circunscrita ao erótico ou ao intento de suplantar o estatuto do masculino. Todavia, são bem mais abrangentes as inquietações desta escrita: a mulher, enquanto ser individual, vai sempre, ao longo da poesia de Maria Teresa Horta, mantendo uma dialogal relação com as outras mulheres e com determinados valores ético-morais, observe-se isso em Mulheres de Abril (1977), no poema Em Liberdade:

 

Em Liberdade

somos

nós mulheres o cimo

da raiz

(…)

No ventre das mulheres

o sossego é fértil

 

em nós cresce o amor

 

Vemos, por conseguinte, que a procura de uma comunhão amorosa, se, por vezes, nos aparece como mais extensa e mais intensa quando dirigida ao Outro-amado, não é menos verdade que ela a tal não se limita, mas acaba alcançando um carácter abrangente e englobante: em Minha Mãe Meu Amor (1986) o vector do amor encontra-se apontado à mãe:

 

 

Respirar-te o sangue

bebendo-te o perfil

 

bordando-te o perfil

(…)

a ponto-pé-de afago

 

minha mãe

meu amor

 

mas, em Cronista Não é Recado (1967), já é para o seu país que a poeta aponta esse mesmo vector, como no poema Peso de Campo:

 

Varejar país doente

é cultivar no silêncio

um fruto que não de medo

 

Se a isto confirmarmos que na poesia de Maria Teresa Horta ao mesmo tempo que pululam os vocábulos (até então banidos da lírica amorosa) ligados ao corpo, à sexualidade e ao desejo, outros também se levantam, apesar de aparentemente emudecidos pelos anteriores: “a chuva crucifica”, “catedrais de nós” In poema Reflexo de Cidadelas Submersas (1961); “no retábulo místico dum templo”  e “vela cansada/ e gasta numa missa” In Candelabro (1964); “Lembro-me do paraíso (…)/ E havia também a maçã/ do teu útero/ sítio: da tentação no início” In Minha Senhora de Mim (1986); “ Abro-te as portas querendo/ a tua luz (…)/ Desejo o teu incêndio/ queimando a minha alma” In Inquietude (2006), etc. São, como vemos, inúmeros os poemas onde se tangencia (exemplo: o tema da Visitação - “ A parte que é/anjo/do teu corpo// e me visita/ de madrugada” In Anjos,1983) ou mesmo se enuncia toda uma imagética de índole religiosa. Assim, este amor que dizíamos não exclusivo do Outro-amado, mas que se propaga agora pelo Todo que envolve a poeta, e do qual ela fala, surge-nos geminado com o sagrado, não aquele sagrado das religiões tradicionais e institucionalizadas, mas antes uma sacralidade antiquíssima a fazer-nos lembrar esse campo onde dialogam e se interpenetram não só as teses de Empédocles, mas também os ritos onde o dizer, o corpo e um dado solo originário se firmam:

 

 

  Meu claustro de musgo

e de fermento

onde o ferro se perde de humidade

 

Onde o tempo se inventa

noutro tempo

feito de musgo – framboesa

e carne

 

    Laranja In Educação Sentimental (1975)

 

   Esta partilha amorosa, esparsa pelos territórios já referidos, e que se diz, na poesia de Maria Teresa Horta, através dos mais diferentes vocábulos (altar, anjo, cilício, grinaldas…), desemboca necessariamente na mais nítida e contundente religiosidade pagã, que mais não é do que húmus e fermento de um amor – em autenticidade - pela escrita e pelo corpo do texto, ou melhor: retira-se assim esta poesia, sem a privar da sua autonomia estética, das leituras exclusivistas baseadas no erótico, no ético-moral e no ideológico, e recolocamo-la num solo essencial e eminentemente ontológico, do qual todos os outros olhares são vertentes e derivações, até porque o amor primeiro não é mais do que o amor pela Palavra: o Amor, que ante a poeta se Abre e É, é acima de tudo Poema:

 

Deixo que venha

se aproxime ao de leve

pé ante pé ao meu ouvido

 

Enquanto no peito o coração

estremece

e se apressa no sangue enfebrecido

(…)

Do poema que cresce e o papel absorve

verso a verso primeiro

em cada desabrigo

(…)

Sinto-o quando chega no arrepio

da pele     na vertigem selada

do pulso recolhido

 

 

À medida que escrevo

e o entorno no sonho

o dispo sem pressa e o deito comigo

 

    Poema In Inquietude (2006)

 

    Mesmo nos livros onde a nostalgia e um certo desalento campeiam, como por exemplo Destino (1997), o arrojo da entrega ao Outro-amado nunca é anulado (cf. poema Ponto de Pérola), nem tão-pouco o saber que o Amor, essa divindade simultaneamente luminosa e insurrecta, simultaneamente intensa e abrangente, jamais deixará de se impor à poeta com a segura convicção de que “O lugar destes sítios/ chama-se destino”.

    Diremos, pois, que se o ato amoroso, quando partilhado com o Outro-amado, é pleno, excessivo e gratificante, não é menos verdade que, quando se engrandece e propaga, incorpora armadilhas e desvios tornando-se numa urdidura da alma (cf. poema Versos In Inquietude ), que mais não é do que a própria Poesia a dizer-se na sua caligrafia cruel. Ele é, nesta poesia, inclusivo mas também ramiforme, ele é despojamento mas também vocação própria de plenitude, dito de outra forma: o ato amoroso é aquele que, ultrapassando uma sensualidade gratuita, infringe assumidamente o principio da não-contradição, pois nele o eu-poético mantém a sua individualidade, ao mesmo tempo que, partilhando o amor do Outro, se acrescenta, isto é, no topo da partilha alcança-se um solo fusional onde o eu é simultaneamente um si-próprio e ser-através-do-Outro. Esta a mestria desta paisagem poética, aliás, a imagem da urdidura, e da tecelã, aparece com insistência metamorfoseada ao longo de toda a obra poética de Maria Teresa Horta em versos que referem atos de prender, fazer/refazer, embrulhar, entrançar, desatar, etc. Esta vasta tecedura poética diz-se, inconfundivelmente, através de uma voz original e una, que, no entanto, nessa unicidade integrou e fez seu todo um vasto conhecimento dos poetas que a antecederam, pois aqui podemos vislumbrar marcas da lírica medieval (cf. poema Minha senhora de mim, mas também o Verde-Pinho do livro Só de Amor, 1999, a fazer lembrar-nos a Cantiga de D. Dinis  Ai flores, ai flores de verde pino); podemos encontrar um subtil diálogo com a lírica camoniana (comparar o último verso de Delírio do livro Só de Amor, 1999, com o último verso do soneto de Camões Sete anos de Pastor); podemos até recordar-nos de Soror Violante do Céu ou das ultra-românticas ao aproximarmo-nos das repetições, do esquema rimático e da contradição no fecho do poema Carmim de Inquietude (2006). Nada é deixado ao acaso na poesia de Maria Teresa Horta: a um intento globalizador terá de corresponder uma técnica que de tudo se assenhoreia e tudo incorpora, para que mais autênticas sejam a luminosidade e a insurreição com que Eros desde os primórdios vem abraçando o mundo.

 

            

 

 

Bibliografia:

 

- Gastão, Ana Marques. Maria Teresa Horta: corpo solar e lunar no corpo do texto. In: Revista de Cultura Agulha Nº 46. Fortaleza, São Paulo: Julho de 2005.

- Gubar, Susan. A “Página em branco” e questões acerca da criatividade feminina. Trad. Francesca Rayner. In Ana Gabriela Macedo, org., Género, Identidade e Desejo: Antologia crítica do feminismo contemporâneo. Lisboa: Livros Cotovia, 2002, 97-124.

- Gusmão, Manuel. Tatuagem & Palimpsesto: da poesia em alguns poetas e poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

- Horta, Maria Teresa. Antologia Poética. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994.

- Horta, Maria Teresa. Destino. Lisboa: Livros Quetzal, 1997.

- Horta, Maria Teresa. Inquietude. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2006.

- Horta, Maria Teresa. Poesia Reunida. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009.

- Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo, Antologia de Poesia Erótica. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012.

- Klobucka, Anna M. Poetas, Feminino Plural (Sobre Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge). In: O Formato Mulher, A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa. Coimbra: Angelus Novus Editora, 2009.

- Martins, Manuel Frias. 10 anos de poesia em Portugal, 1974 – 1984: leitura de uma década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986.


  Mateus, Victor Oliveira. " Maria Teresa Horta - A luminosa insurreição de Eros " in " Cintilações da Sombra III ". Fafe: Editora Labirinto, 2015, pp 81 - 88.
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quarta-feira, 30 de abril de 2014


PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA



2014

Obra Vencedora


TRADUÇÃO DAS MANHÃS

Autor


GISELA RAMOS ROSA EDITORA LUA DE MARFIM

Uma poesia que se desfaz e refaz com uma delicada pureza de imagem e grande musicalidade,

e que existe no centro do mundo


- Rui Paes

A autora demonstra uma grande habilidade nessa poesia que harmoniza forma e conteúdo. Há uma

opção pela economia de meios, numa linguagem que diz o máximo com o mínimo de recursos.

O meticuloso processo de criação traduz, sem esforço, o sentimento da autora de comunicar sua arte,

sem apelação, sem contorcionismos de linguagem, com subtileza e claridade, revelando que em seu

artesanato 'Os pensamentos são uma escrita silenciosa/ são como ramos que se ligam por intervalos

de silêncio', falando mais pelo que oculta e deixando por conta do leitor o remate de sua construção


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- Ronaldo Cagiano


Júri



Ronaldo Cagiano – Escritor

Jacinto Guimarães – Colaborador do

JORNAL DE VÁLEGA

Victor Oliveira Mateus – Escritor

Fátima Mendonça – Professora de Literatura

Rui Paes – Pintor


Nota

: Lista Final estabelecida por maioria – Obra Premiada escolhida por unanimidade

PRÉMIO AO AUTOR DO MELHOR LIVRO DE POESIA



http://gloriadesantanna.wordpress.com/

1ª EDIÇÃO EM PORTUGAL E PAÍSES LUSÓFONOS




DIA 25 DE MAIO ÀS 15:00 - CAPELA DE SÃO GONÇALO EM VÁLEGA

segunda-feira, 28 de abril de 2014


 
(...) interrogava-me sobre  o que poderia manter a nossa quimicamente instável atmosfera num estado dinâmico constante e a Terra, aparentemente, sempre habitável. Além disso, a continuidade da vida requer um clima tolerável, apesar de um aumento de trinta por cento da luminosidade solar desde a formação da terra. No seu conjunto, estas reflexões conduziram-me à hipótese de os organismos vivos regularem o clima e a química da atmosfera no seu próprio interesse; e em 1969 o romancista William Golding propôs chamar-lhe Gaia. Poucos anos mais tarde principiei a colaborar com a notável bióloga americana Lynn Margulis, e no nosso primeiro artigo conjunto afirmámos: a hipótese Gaia encara a biosfera como um sistema de controlo activo e adaptável, capaz de manter a Terra em homeostasia.
   Desde o seu princípio, nos anos 60, a ideia de auto-regulação global do clima e da química era impopular para ambos, quer para os cientistas da Terra, quer para os cientistas da vida. Na melhor das hipóteses, achavam-na desnecessária como explicação dos factos da vida e da Terra; na pior, condenavam-na abertamente em termos mordazes. Os únicos cientistas que acolheram bem a ideia foram alguns  meteorologistas e climatologistas. Alguns biólogos recusaram logo a hipótese, argumentando que nunca se teria desenvolvido uma biosfera auto-reguladora, uma vez que a unidade de selecção era o organismo, não a biosfera. Tive a sorte de contar com esse distinto e esclarecido autor Richard Dawkins como defensor da oposição darwiniana a Gaia; foi doloroso, mas, com o tempo, dei comigo a concordar com ele em que a evolução darwiniana, como era entendida, era incompatível com a hipótese de Gaia. Eu não questionava Darwin, portanto, o que é que havia de errado com a hipótese Gaia? (...)
   Para voltar à argumentação com os darwinistas, ocorreu-me em 1981 que Gaia era o sistema completo - juntos, organismos e meio material associado - e foi este imenso sistema terrestre que desenvolveu a auto-regulação e não isoladamente a vida ou a biosfera. Para pôr à prova esta ideia compus um modelo em computador (...). Este modelo, a que chamei "Daisyworld (...). O "Daisyword" é um modelo de um planeta como a Terra, orbitando à volta duma estrela como o nosso Sol. (...) O "Daisyworld" foi inventado para mostrar que a teoria de Darwin da evolução por selecção natural não é contrária à teoria da Gaia, mas sim uma parte dela.
 
 
  Lovelock, James. A Vingança de Gaia. Lisboa: Gradiva, 2007, pp 43 - 45.
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domingo, 27 de abril de 2014

 
 
A pasta preta, com o seu aspecto sombrio, já estabelecera uma espécie de correspondência cúmplice com a cama, com o quarto e até com a mesinha de cabeceira... E entre todos os lugares onde a tinha visto descansar desde que guardara nela o único manuscrito que desejava salvar pessoalmente dos nazis ( como se já não fora suficiente, ao dá-lo à luz, tivesse dividido a sua pessoa em tantas partes como círculos se traçam com o Krasmesser sobre a cabeça do recém-nascido), este era o que mais o preocupava.
   Então, farejando alarmado a iminência de uma nova revelação, olhou com desconfiança para a janela em frente e deixou deslizar o olhar pela parede à sua esquerda, depois pela da direita: nada!... No entanto, junto à cabeceira da cama, a pequena porta da mesinha de cabeceira tinha ficado entreaberta a através dela anteviu, (...) um molho de jornais e revistas, numa das quais os seus olhos conseguiram recompor, invertida, a palavra alemã Deutsche. "Aí está...!", pensou e, sacudido por um pressentimento, debruçou-se ainda mais (...) conseguiu ler o título completo: Deutsche Zeitung fur Spanien... Mas havia também uma versão em espanhol: Revista alemana de España (...) soltando-se das suas mãos, um dos folhetos caiu no chão. Apanhou-o; era o discurso do Fuhrer em frente do Reichstag, no dia 18 de Julho; recordou-se então da alusão a uma frente alemã que ia desde o cabo norte até à fronteira espanhola, e com um gesto irritado voltou à Deutsche Zeitung fur Spanien... Era publicada em Barcelona e tinha a data de dez de Maio; no editorial invocava-se a inquestionável Vitória do povo alemão, a amizade entre a Espanha e a Alemanha, terminando com a obrigatória saudação ao Fuhrer. (...)
   Sem largar os folhetos, deixou-se cair sobre a cama, que soltou um leve rangido. Então, olhando para o tecto, (...) evocou por instantes os tempos da sua primeira viagem a Barcelona. (...)
    De qualquer forma, agora em Port-Bou não era possível salvar-se em lado nenhum...
   Já nem sequer era possível urdir aqueles planos disparatados, que substituíram outros não menos irrealistas, como o de adquirir a nacionalidade francesa, em que se falava de fugas para países inexistentes em barcos fretados por ricos de além túmulo, como há um mês era possível fazer em Marselha, quando a esperança ainda não lhe regateara a última dádiva.
 
 
   Gaviria, Ricardo Cano. O Passageiro Walter Benjamin. Lisboa: Edições Antígona, 2002, pp 139 - 145.
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sábado, 26 de abril de 2014


O facto é que a recordação de Capri, parecendo confinada ao salão buliçoso do "Hidigeigei" e ao seu bonito quartito com vista para os frondosos jardins da ilha, tinha ficado tão contaminada pelos mosquitos que o assediavam durante a noite, e de que se protegia recorrendo a um rudimentar mosquiteiro, como pelo desembarque de Mussolini na mesma, num belo meio-dia de meados de Setembro. Ou será que agora ia talvez argumentar na sua justificação que fora a frieza da população, mal dissimulada pela grandiloquência das decorações, que o induzira a não conferir toda a importância que merecia ao homem de corpo brando e balofo que, ao levantar o braço com o punho fechado, já sabia perguntar tão apaixonadamente a quem estava reservado o domínio do mar?
   Agora já conseguia reconhecer que, naquelees tempos anteriores à "marcha sobre Roma", devia ter prestado mais atenção ao clamor crescente da resposta - A noi! A noi! - dada à pergunta tão multitudinariamente formada pela primeira ratazana gorda. Além disso, por pouco que reflectisse sobre o assunto, até o amor de Asja se revelava um cruel paradoxo; as horas passadas com ela, conversando no "Hidigeigei" ou passeando ao entardecer por entre os jardins, para não falar da intimidade que se impunha silenciosamente, ao ritmo das conversas e segundo a cadência dos olhares nervosos trocados em cada silêncio, para que teriam servido a não ser para o afastar do que ela tentava precisamente fazê-lo compreender, a saber: a maneira exacta como o seu próprio ciclo pessoal se inseria no da história?
   Pensou que se, logo no começo, o seu amor fora precedido por esse paradoxo, essa circunstância deveria revelar-lhe a proporção do seu atraso em relação ao que se passava no mundo, e também em relação a ela: a mulher amada. Anos depois, quando se voltaram a encontrar em Moscovo, já era algo evidente que girava à volta dela, não tanto como um satélite em volta de um planeta, mas tão-somente como uma mariposa nocturna em redor da chama de uma vela em cujo fogo se manifestava demasiado disposta a perecer. (...) Durante a longa viagem de regresso, embalado pelo matraquear do comboio, teve tempo mais do que suficiente para compreender que o primeiro ciclo do seu amor com Asja já se cumprira e por isso já podia escolher, na sua rememoração, não os últimos dias, mas os do começo.
 
 
   Gaviria, Ricardo Cano. O Passageiro Walter Benjamin. Lisboa: Edições Antígona, 2002, pp 87 - 89.
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quarta-feira, 23 de abril de 2014


Au bord de toi je vis, je meurs. Au bord de toi je m'enchante, et je triche, et j'existe et je ne suis plus rien dès que, mêlé à toi, ta graisse généreuse nourrit mes os glacés, mes os d'enfant. Je suis l'os. Le serpent mou, insidieux, insistant, c'est toi.
   Et tu m'étouffes, et tu me vides ma carcasse, et je deviens ton ombre, et tu me traînes dans tes sentiments, et on me voit sortant de toi, de tes yeux, au fond de ta conscience et de ta peau.
   Je suis ton épure. Attends que je m'accroche à toi comme à l'arbre l'oiseau persécuté, attends que je t'appelle du fond des vies vécues, du fond des morts nouvelles vers ces planètes bienheureuses où les anges donnent leur foutre à qui promet de se couper les ailes. Les anges ont leurs couilles sous les aisselles. Quand ils font l'amour, ils s'éploient et géométrisent l'azur. Je suis ton ange. J'écris dans l'air ta figure, et ce vide vertigineux qui remplit tes culottes du rêve des garçons. Tu es le vide et tu m'emplis.
 
 
   Ferré, Léo. Alma Matrix. Monaco: Éditions La Mémoire et la Mer, 2000, p 21.
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terça-feira, 22 de abril de 2014


Je te vaincs, je te supplie de te mettre à mes genoux, je te demande de me vider comme on vide une barque dans la tempête. Je suis la tempête et ce qui pousse encore de toi est d'une steppe rase, embrumée, pleine de ta rigueur de fille à peine éclose avec, au beau milieu, cette marque... Cette marque je la rêve, je l'embusque, je te la prends comme on prend un mirage indécent, tout nu, pas tout à fait, avec la main qui laisse deviner. Ô ta main sur ta marque comme une parure glacée. Je sais et j'aime tes façons de te cacher comme on cache une maladie. Le jour où je guéris de toi, tu en seras malade? Et je te veux malade, avec ton haleine sucrée et d'un beurre violet dont je ne peux plus me souvenir. Je suis sec. Les portes de l'insoutenable, que tu m'ouvres parfois, me laissent tout juste la place de passer... Alors je te visite et tu me fais voir tes joyaux, tes chairs illuminées par mes yeux extasiés et justes. Je ne vois pas que ce en quoi je crois. Si je coyais en toi, tu ne pourrais plus supporter l'oeil que je te jetterais alors comme on jette sa pâtée à la chienne attentive. Ta pâtée, c'est ma marque à moi. Fais bien attention! Les cartons, quant aux culs bordés, ça me connaît. L'amour, ça me va aussi, quand c'est doublé des lèvres doubles et de ce petit chapeau, en haut, conducteur de l'outrage. Et je t'outrage, ma petite camarade, je t'apprends, je te tourne, je t'invente à demi et tu me trouves entier, je te plais, je te joins, tout juste, pas tout à fait, il y manque un rien de rien, la jointure, la totale, c'est ça quadrature du cercle de l'amour fait. Je te fais l'amour, je suis toi, tu es moi, alors je suis seul et désespère.
 
 
   Ferré, Léo. Alma Matrix. Monaco: Editions La Mémoire et la Mer, 2000, pp 8 - 9.
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segunda-feira, 21 de abril de 2014



   Todos sabemos que o tempo é o grande mestre e o grande taumaturgo. Arruma as ideias e acalma os corações, cura e ensina. Depende de nós aprendermos a sua lição.
 
 
  Faria, Rosa Lobato de. A Alma Trocada. Porto: Asa Editores, 2007, p 184.
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- Nesse caso o Tinito guia o carro, decidiu a avó.
E foram, e deixaram a casa no maior sossego.
Subi para o meu quarto e deitei-me a ler em cima da cama.
Quando estava embrenhado no leitura bateram à porta do quarto. Pancadas leves, delicadas, e interroguei-me quem poderia estar batendo assim.
- Entre, disse um pouco a medo.
Era o Tinito, que entrou e fechou a porta à chave.
- Mas?...
- Cala-te, patrão. Não digas nada se não queres ser violado à bruta. Pensas que podes andar todos os dias em cima de mim com esses cabrões desses olhos azuis?
Quando acabou de dizer estas palavras já estava nu (...). Ia a dizer amo-te, mas ainda pensei que não devia pronunciar nenhuma palavra que me comprometesse para além das coisas do corpo, isso quando estava lúcido, porque logo perdi a noção do conveniente, do tempo, do espaço e das palavras e cedo compreendi que amo-te é uma palavra bem pobre (...).
Saiu cintilante do banho, nu (...) chegou-se a mim, ainda despido e mordeu-me a nádega com força (...) Foi-se embora como tinha chegado, sem beijos, sem carícias, sem despedidas. Só me olhou da porta, mordeu o beiço a sorrir, e saiu.
A ferida no meu rabo começava a sangrar.
(...) Num dia em que não resisti a passar pela cavalariça durante a tarde, perguntou-me:
- Ainda tens a marca?
- Qual marca?
- A marca que eu te fiz. Não finjas.
- Acho que não. Mas não passo a vida a olhar para lá, como deves calcular.
- Pois, calculo.(...)
A marca. Claro que tinha a marca (...). Que marca é essa, tinha perguntado o Hugo.
Um cão, imagina. Um cão vadio que apareceu por ali. Fui fazer-lhe uma festa e ele rosnou-me. Quando me virei apanhou-me por trás. Deu cabo dos meus jeans (...).
Decidi não voltar durante muito tempo. Mas o destino pouco liga às nossas decisões. Havia de encarregar-se de me fazer, querendo ou não, cumprir a minha.
 
 
 Faria, Rosa Lobato de. A Alma Trocada. Porto: Asa Editores, 2007, pp 70 - 77.
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domingo, 20 de abril de 2014

 
Nota - Há umas semanas ( ou terão sido meses?), a Profª Dra. Teresa Martins Marques da Univ. Clássica de Lisboa publicou um extenso poste no Face salientando a qualidade da escrita de Rosa Lobato de Faria. Os argumentos aduzidos  correspondiam,em grande parte, àquilo que eu tinha pensado quando convidei a escritora em questão - e ela aceitou - para integrar a Antologia "Um Rio de Contos", ou seja, Rosa Lobato de Faria é uma autora de primeiríssima água. No romance que agora publicito através de três postes, a romancista articula de forma exemplar aspectos mais tradicionais da narratividade ( a sequência da intriga, por exemplo!) com características assumidamente modernas (como o modo de trabalhar o espaço e o tempo narrativos...). Outro elemento de grande peso, neste "A Alma Trocada", é a forte poeticidade do discurso, que, juntamente com a rigorosa e delicada caracterização das personagens, anula por completo a carga, que poderia ser grosseira, dos vocábulos geralmente tidos por palavrões. Finalmente, a argúcia do olhar da romancista, por vezes eivado de uma ironia ácida, faz dela uma exímia leitora de "mundos interiores" que depois dispõe ante os nossos olhos... para que as nossas almas, apesar dos dilemas do seu sentir, jamais se troquem umas pelas outras. V.O.M.
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   O menino só sabe brincar brincadeiras idiotas de mariquinhas? O seu pai compra-lhe carrinhos, soldados, comboios e você anda aí feito parvo a brincar com uma peninha que ainda por cima arrancou do meu sofá novo? Ora esteja quieto que me está a enervar. (...) Outro dia na praia, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos que se fartaram de puxar por ele, preferiu ficar a desenhar as nuvens e a rir-se sozinho como os maluquinhos quando mudavam de feitio, vai-me de bloco de desenho para a praia, não acho normal, não me diga que nos saiu um artista, mas donde é que isto vem? Há artistas na sua família? Olhe, na minha não. A minha mãe é muito boa senhora mas, Deus me perdoe, uma labrega. O meu querido pai era aquele homem ligado à terra. Eu, não sei fazer um risco, você é o que se sabe. E os seus pais? Ninguém era dado às artes? Já me ocorreu mais de uma vez se não me terão trocado o filho na maternidade. (...) O meu pai reduz-se ao silêncio. Nem responde a estes desabafos da minha mãe. Já me deve ter arrumado no arquivo morto. Quando contribuiu para a compra do apartamento, das duas, uma: ou teve esperança que essa minha decisão de comprar casa fosse um sintoma das atitudes viris que se seguiriam ou viu nela uma forma de me afastar da família. Vá lá ser paneleiro para o raio que o parta, deve ter pensado. E artista e escritor e a puta que o pariu, desculpa Generosa, mas já que dizes que ele não é teu filho.(...) Apetecia-me pensar um bocadinho no Hugo, mas não me dão tréguas.
(...) A Raquel tem olhos de rato. Não só por serem pequenos e escuros, mas porque são astutos. Espreitam-me para tentar descobrir a razão daquele convite. Eu deixo-a sofrer.(...) A minha avó Jacinta costuma dizer que as más notícias se dão à sobremesa. É isso que vou fazer. Ela pediu trouxas-de-ovos e eu deixo-a lambuzar-se até à última gota de calda e de repente, sem aviso, digo, sabes que sou gay , não sabes? Estás farta de saber mas tens andado a disfarçar, a seguir o exemplo dos meus pais. Vocês acham que, se me casarem, fica tudo resolvido. Mas acontece que agora apaixonei-me, por isso o casamento foi definitivamente à viola (...)
- Tens prazer em ser cruel.
   Não é crueldade nenhuma porque tu estás fartíssima de saber. (...) Queres café?
   Quero, disse ela, ainda atordoada.
   Pedi os cafés e a conta. Porque tenho pressa de ir ter com o Hugo, contar-lhe que já não tenho noiva, que o meu rasgão no peito já dói menos, que estou mais preparado para me receber. Estou ansioso por empandeirar a Raquel.
(...) O Hugo não perguntou nada mas li-lhe nos olhos alguma curiosidade. Contei-lhe tudo. Ele abraçou-me e disse, deixa lá, pá. Se sentires falta de uma família, aposto que a minha vai adorar adoptar-te.
   Mas era muito cedo para isso. O Hugo é demasiado generoso.
(...) Nas férias sinto necessidade de ir visitar a minha avó Jacinta porque ela tem de ouvir da minha boca as tenebrosas novidades que a Generosa já deve ter tido a generosidade de lhe passar. (...) A avó levantou-se, veio a mim (...) e abraçou-me com tanta força, com tanto coração, sem uma palavra, sem uma pergunta, que me deu a certeza de que sabia de tudo e fiquei-lhe ainda mais grato por não o ter dado a entender (...)
- Foi a mãe, claro, perguntei.
- Pois, quem havia de ser. Ligou-me para aí num pranto(...). Pedi-lhe que te deixasse em paz, que és maior e vacinado e que antes isso que uma pedra no rim. Explicar não lhe expliquei nada porque ela não percebe. Há coisas que não entram em certas cabeças (...).Cada um é como cada qual (...) e não fizeste nada que atente contra os dez mandamentos.
   Esta argumento fez-me sorrir (...). Só mesmo a minha avó Jacinta para fazer este raciocínio tão simples e pragmático. Com efeito o Hugo até é solteiro, nem o oitavo nem o nono mandamentos estão em causa (...) ele é advogado, chega tarde do escritório, vamos jantar fora ou cozinhamos, na maior concordância.
 
 
   Faria, Rosa Lobato de. A Alma Trocada. Porto: Asa Editores, 2007, pp 28 - 41.
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sábado, 12 de abril de 2014




 
                 " LEIS DA SEPARAÇÃO "  ( Livro de Rui Almeida, Medula, 2013 ).
 
 
Têm os títulos dos livros, bem como as suas epígrafes, a função de nos introduzir no horizonte ou intriga que virão a ser desenvolvidos. Assim, no mais recente poemário de Rui Almeida, a expressão Leis da Separação aponta-nos para algo de fixo e invariável, que, uma vez colocadas e respeitadas condições igualmente estáveis, produzirão necessariamente os mesmos resultados. Podemos aqui, por conseguinte, partir de um eu-poético que se assume a si próprio como distinto da multidão, incapaz – por recusa ou por aspectos de personalidade – de participar nos rituais do turbilhão que o cerca:“Pode a memória de um cheiro gerar/ O pequeno lucro do afecto/ Ou queimar o erro da norma?” (p. 8); “Pela manhã são vistos, apressados,/ A caminho do dia, da sequência monótona/ Para onde se esvai toda a grandeza/ De cada olhar. Nem se notam” (p. 16); “De onde vem tanto barulho?/ Que espécie de riso se expande/ Por corredores estreitos, entre paredes,/ Para chegar ao vácuo da rua?” (p. 24). O apreender-se a si próprio como destoante e separado do vulgo incute no eu-poético indeléveis marcas de: uma radical solidão interior – “Próximo e para lá/ Do que cabe numa linha/ De texto formatado,/ A possibilidade de tocar/ Uma outra existência/ Alheia à distância e ao peso/ Da matéria” (p. 9), “Será possível tocar/ Na pele do rosto de um semelhante/ Sem deixar de sentir/ A sua temperatura?” (p. 24); intensos reflexos de angústia e dor – “E quando te cansas/ Dessa alma de borracha,/ Tão maleável…// Aceleras o coração,/ Acordas surpreendido// E reparas/ Que te faltam/ Mãos e braços” (p. 30), “(…) A noite tem textura/ De caminho difícil até/ Ao limite do mais belo.//(…) Devagar é noite e dói/ Subir à montanha com os olhos.” (p. 34); um vincado desalento tangenciando mesmo, por vezes, um certo pessimismo – “A isto se chama devastação,/ Cinza erguida, totens/ De negro carvão. Nada.” (p. 35). Estes estados, que esboçam o perfil de um sujeito que enceta uma plurifacetada busca na compreensão de si, do Outro, daquilo que o cerca e também daquilo que ele intui que o transcende, estes estados – dizia– são as já referidas condições de partida desse tal olhar perscrutador.

Mas o caminho apresenta-se, neste cismar poético, eivado de escolhos, já que o poeta jamais designa através de um conceito unívoco esse território que lhe surge como fundante, não só da sua busca, mas igualmente do seu estar-aqui, e isso ocorre não por qualquer vacilação do olhar, mas porque ante o inominável serão sempre poucas e redutoras as palavras, mas, apesar de tudo, ele insiste: “Ao que pode e não pode rouba sempre/ A morte, assombra a quantia/ Lenta do alto. “(p.8), esta ideia do Alto surge-nos ainda no poema da página 14; o eterno - “Longe, a ideia de continuar/ Sempre a sentir/ O movimento,/ Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,” (p.9); “A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:// É frágil em seus limites/ Irracionais.// O lugar das coisas invisíveis/ É a flor dos silêncios.” (p. 11); o centro - “Queres e não vês/ E tomas o acesso/ Mais directo ao centro/ E há nevoeiro e não chegas/ A tempo, mas onde?,//(…) e não sabes/ Onde chega a tua força/ E não tens lugar/ E não ouves e não cantas/ A breve melodia.// E ainda assim.” (p. 40). Esta consciência de uma incapacidade estrutural que é intrínseca ao acto de nomear o que está para além de um aqui imediatista, já o poeta a tinha sentido em livros anteriores: “Ascende ao presente a vaga/ Firmeza aplicada ao que sucede,/ Distracção do tempo/ Assumida em palavras sobrepostas/ Para construir um nome. ( in “Caderno de Milfontes”, p. 12). Este pudor, ou este recato, do nomear jamais é incompatível com a necessidade de busca, e isso surge-nos logo a partir do primeiro livro de Rui Almeida: “É por não buscarmos o que nos salva ou/ Por não sabermos beber da secura dos lábios/ Que nos transportamos para fora dos campos/ Sujeitos à pequenez e à aparência de abundância/ Como seres que perderam a consciência do riso. “ ( in “ Lábio Cortado”, p 7). A inquirição poética contida em Leis da separação surge-nos marcada por quatro aspectos fundamentais: a Dúvida – o poeta, nunca chama a si posições de carácter dogmático ou onde uma certa assertividade se apodere da sua escrita, isto é, os momentos de angústia e de desalento acima referidos aparecem, algumas vezes, geminados com momentos de: dúvida - “Cada passo é próximo/ Demais para chegar// A um fim. Incerto/ Limite/ Do fluxo da vida.” (p.31), “Mais acima e mais para dentro,/ Sustentado por ideias,/ Possibilidades de sonho// A concretizar/ Em caminhos de areia/ Solta por entre/ Abundante vegetação.” (p.32); ironia, muitas vezes magoada – “Iremos aparecer,/ O nosso rosto será/ Visível em fotografias,/ Muitos anos depois,// E sairemos bem/ na contramoda que construirmos.” (p. 12), “ Todos felizes da vida/ por serem humanos;/ Até o maneta,// Que atrapalha o trânsito/ Com obscenidades/ Por não ter nada a perder.// (e esse mais do que os outros)” (p. 17); de utilização, aqui e ali, de um argumentário poético alicerçado em Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino, nomeadamente as Teorias da” Matéria e Forma” e a da” Potência e Acto” - “Age no poder da forma o cheiro/ Da memória, assinala/ O fim da leitura… “ (p. 8), “Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,// Concretizado no acto/ de ir ao encontro.” (p. 9), “Até às formas completas/ Que revestem o essencial.” (p. 26); a ideia de ciclo - o itinerário do eu-lírico (como o da criação poética expresso, subliminarmente, no poema da página 22), nesta sua errância por um aqui que lhe surge assumidamente imperfeito e lacunar, não aparece como um processo linear onde as etapas se somem umas às outras, na poesia de Rui Almeida são recorrentes as hesitações, as dúvidas, a consciência da sua própria fragilidade, onde o eu vacila para logo se reerguer e retomar o seu caminho, aliás, não é por acaso que as referências à noite, à nevoa, à sombra, etc., como instâncias impeditivas ou bloqueadores da acção, são abundantes nesta obra: “ A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:” (p. 11), “Encerram as fontes/ Fragmentos/ Ciclos de esperança,/ Respostas incertas.” (p. 26).

A separaçãoque o poeta, como vimos já, sente relativamente à conformidade, ao turbilhão, à essencialidade do Outro e ao que intui subsistir para além do Aqui, e que ele assume com uma lucidez angustiante e com o desalento próprio de quem teme que esse qualquer encontro redentor não venha, alguma vez, a ser possível, afasta a poesia de Rui Almeida, pelo menos no que diz respeito a este livro, dos intentos poéticos de outros autores: Vergílio Alberto Vieira, nas suas últimas obras, é claro quanto à identificação da transcendência (que ele significa sempre com maiúscula!) e a sua espera jamais aparece como dolorosa ou atormentada: “ Nada vêem os olhos, que tudo vêem,/ com a primeira luz do dia;/ a treva que, a pouco e pouco, das minhas mãos/ se afasta é, agora, que nada me pertence,/ pertença minha; um ramo de sombra apressa então/ a inquieta brancura do caminho.” ( in “Amante de um só dia”, p 13); em José Tolentino Mendonça são também bastante atenuados os momentos de desconforto e insegurança na espera: “Os naufrágios são belos/ sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?” (in A que distância deixaste o coração”, p 28), “Nenhuma sombra ameaça tua porção de luz/ ainda que solte o vento/ medos antigos pelos atalhos// Uma só palavra restitui/ a imensidão “ ( Idem, p. 41), “ Nós não os ouvimos/ mas os desertos, os oceanos, os cimos remotos/ ensinam-te finalmente o que não entendes// Descobres uma casa/ noutras direcções/ a igual distância/da vida que deixamos para trás” ( in “ O viajante sem sono” pp. 35 – 36),aliás, esta ideia de manter a sombra à distância era já visível num livro anterior de Tolentino Mendonça: “Se fechar meus braços outro os abrirá/ no escuro da roda as orações são perpétuas” ( in “longe não sabia”, p. 13). Uma outra plêiade de autores encontra-se ainda mais distanciada da poesia de Leis da Separação, grupo esse que pode ser exemplificado aqui através da escrita laudatória de José Augusto Mourão: “tu semeaste no nossa vida/ a semente do infinito e da beleza/ para que em cada tempo brotem formas novas/ de convivialidade e graça entre aqueles/ que a dor performa e acinzenta “ ( in “ O nome e a forma”, p. 121). O modo como Rui Almeida estabelece, e vivencia, AS LEIS DA SEPARAÇÃO aproximam-no antes de poetas como: Maria Carpi, Daniel Faria e até mesmo de Paul Celan. Veja-se, por exemplo, a última estrofe do poema da página 33: “Só com a grande coragem/ Da desilusão/ Se chega ao riso mais branco/ Por dentro.”, compare-se agora esta estância com um terceto de Maria Carpi: “não tenho mãos/ O meu ofício/ não é cinzelar; tão só pedra bruta/ ser, dentro das entranhas do ver.” ( in “A força de não ter força”, p 88). A desilusão (ou o não ter mãos) não serão, então, condição necessária ao aplanar de todo um território a partir do qual agora, e de modo estruturalmente diferente, se possam edificar pontes? Dito de outro modo: colocadas que foram as variáveis necessárias da vivência poética (inconformidade, angústia, solidão interior…), respeitadas depois as condições da errância e da inquirição ( dúvida, ironia, busca cíclica…), não se chegará, necessariamente na óptica do poeta, a um resultado insofismável que fixará a lei, e que será, neste cismar poético, a visão de que o todo é fragmentário e onde tudo é separado de tudo? Sendo assim, o poema da página 39 – já prenunciado pelo da página 36 –surgir-nos-á como corolário da magnífica e bem desenhada aventura poética traçada por Rui Almeida em Leis da Separação , e que é essa certeza do coração (cf. poemas das páginas 21 e 26, bem como a pouca fiabilidade concedida aos sentidos e à razão esparsa pelos vários poemas) de que só apreendendo a separação,poderemos (ainda) aceder a essa “Coisa mais simples e mais/ Larga, anterior à necessidade/ De justiça.” (p.39) e nela, finalmente, encontrarmos acolhimento e aconchego.
 
 
   Mateus, Victor Oliveira. Nova Águia - Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 13 - 1º Semestre 2014. Sintra: Zéfiro, 2014, pp 252 - 254.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014

 
 
Pentesileia:
   À medida que me aproximava do Escamandro, e que os vales por onde passava repercutiam o eco da guerra de Tróia, a dor fundia-se-me no peito como neve ao sol e a alma dilatava-se-me ante o vasto mundo dos jubilosos combates. E ocorreu-me, então: se todos os grandes momentos da História passassem de novo diante dos meus olhos, se toda a galeria de heróis, que os hinos celebram, baixasse até mim dos astros, não encontraria ninguém mais excelente, nem mais digno de ser por mim coroado de rosas, do que aquele que a mãe me destinou: o Amorável, o Indómito, o Doce, o Terrível - o vencedor de Heitor! Ó filho de Peleu, tu ocupavas constantemente o meu pensamento, quando eu estava acordada, e eras toda a trama dos meus sonhos! O universo estendia-se à minha frente como uma imensa rede; em cada uma das suas malhas, encerrava-se um dos teus feitos (...) E lágrimas ardentes jorravam-me dos olhos quando pensava, ó guerreiro implacável, que talvez fosse chegada a hora em que um sentimento comoveria o teu coração de mármore.
 
Aquiles:
   Querida rainha!
 
Pentesileia:
   Mas, ó meu amigo, qual não foi a minha perturbação ao avistar-te em pessoa, quando me apareceste pela frente, no vale do Escamandro, rodeado pelos heróis do teu povo - uma estrela matutina entre pálidos astros nocturnos! (...) E fiquei como cega, quando, qual aparição, desapareceste do meu horizonte - assim fulmina o raio o chão, durante a noite, sob os pés de um viandante, ou se abrem e fecham com fragor as portas do esplendente Elísio para acolher uma alma bem-aventurada. Nesse mesmo instante, Pélida, adivinhei a natureza do sentimento que se agitava no meu seio. O deus do Amor atingira-me com a sua seta. Posta perante um dilema, não tardei a decidir-me: ou vencer-te, ou morrer. Para onde olhas? (...) Mas, enfim, o que se passa?
 
Aquiles:
   Nada - nada receies, minha rainha! Comprende: porque o tempo urge, sou forçado a revelar-te o destino que os deuses te reservam. Sem dúvida que te pertenço pela força do amor, e essa cadeia usá-la-ei para sempre. Mas, pela sorte das armas, és tu quem me pertence; foste tu, Rainha, quem rolou aos meus pés, quando nos defrontámos, e não eu aos teus!
 
Pentesileia:
   Monstro!
 
Aquiles:
   Suplico-te, bem amada! O próprio Crónida não poderia alterar o sucedido. Domina-te e escuta...
 
 
    Kleist, Heinrich von. Pentesileia. Porto: Porto Editora, 2003, pp 149 - 152.
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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Prémio Literário Glória de Sant'Anna 2014.



AO AUTOR DO MELHOR LIVRO DE POESIA

1ª EDIÇÃO EM PORTUGAL E PAÍSES LUSÓFONOS


Lista Final
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CÂNONE CONTÍNUO de Luís Felício (Editora glaciar)



CANTO PEREGRINO À JERUSALÉM CELESTE


de Abílio Pacheco (Editora LiteraCidade)
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E POR ISSO EU AMO TANTO A PALAVRA de Aurora Gaia (BLOSSOM BIRDS Books)



EMIGREI – CHOVE MÚSICA NAS MINHAS MÃOS – SERÁ QUE OS PÁSSAROS


TAMBÉM PARTEM TRISTES? de Maria João Saraiva


(COISAS DE LER)



MAÇO DE MARÇO de Lucas Alvim (Editora LiteraCidade)



PROVISÓRIOS de Flávio Machado (Editora LiteraCidade)



TRADUÇÃO DAS MANHÃS de Gisela Ramos Rosa (LUA DE MARFIM)


 
 
Júri



Ronaldo Cagiano –
(Escritor )
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Jacinto Guimarães –

(Colaborador do JORNAL DE VÁLEGA)
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Victor Oliveira Mateus –

(Escritor)
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Fátima Mendonça –

(Professora de Literatura)
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Rui Paes –

(Pintor)
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O Vencedor do Prémio no valor de 3.000 € será anunciado
no dia 30 de Abril de 2014

Detalhes sobre o prémio http://gloriadesantanna.wordpress.com/

terça-feira, 8 de abril de 2014


 
   Falava como alguém que sente algo. Eu não estava habituada a esse tom de voz em Lajos. Observava-o em silêncio.
- Que simples - disse. - Depressa compreendes. Tu foste, tu poderias ter sido, para mim, o que me faltava: o carácter. São coisas que se sentem. Uma pessoa que não tem carácter, ou não tem um carácter perfeito, tem o seu quê de inválido, no sentido moral. Há muitas pessoas assim. Como se fossem criaturas perfeitas, a quem falta uma mão, ou uma perna. Aplica-se-lhes uma prótese e tornam-se logo capazes de trabalhar, de ser úteis à sociedade. Não te ofendas com a analogia, pois tu poderias ter sido uma prótese para mim... Uma prótese moral. Espero não magoar-te - acrescentou, docemente, e inclinou-se para mim.
- Não - disse-, só não acredito nisso, Lajos. Um carácter não se pode substituir. O sentido moral não se pode transmitir de uma pessoa para outra como um transplante artificial. São teorias. Não te ofendas.
- Não são só teorias. O sentido moral, vês, não é algo de hereditário, mas uma característica adquirida. Os homens nascem sem moral. O sentido moral dos selvagens ou das crianças é diferente da moral de um juiz de sessenta anos do Supremo Tribunal de Viena ou de Amesterdão. Adquire-se o sentido moral durante a vida, tal como se adquirem maneiras e cultura. - Falava em tom de padre, como um especialista. (...) Tu és assim Eszter, um génio de carácter; não, não protestes! Foi o que senti em ti. Eu, em questões de moral, sou um surdo, quase analfabeto. Por isso, refugiei-me em ti; creio que foi, sobretudo, por essa razão.
(...)
- Agora já não faz sentido dizer-te estas coisas... mas talvez tenhas razão, não se pode estar calado uma vida inteira. Não acredito nas tuas teorias, mas acredito na realidade, Lajos. A realidade é que me enganaste; como se diria antigamente, em linguagem de romance: "brincaste comigo". Tu és um jogador tão estranho... alguém que, em vez de jogar com as cartas, joga com as paixões e com os seres humanos. Eu era uma das damas do teu jogo. A seguir, levantaste-te da mesa e foste embora... Porquê? Porque te aborreceste. Só foste embora porque te aborreceste. Esta é a verdade. Esta é a pavorosa, a imoral verdade. Pode-se deitar fora uma mulher, como um caixa de fósforos, por paixão, por se ter um carácter assim, por não conseguir ligar-se a uma mulher, ou porque olha para mais alto, porque tudo e todos lhe servem de instrumento. Ainda posso compreender... É infame, mas tem algo de humano. Mas deitar fora alguém por distracção... isso é mais do que infâmia. Isso não tem desculpa, porque é desumano. Já percebes, agora?
 
 
   Márai, Sándor. A herança de Eszter. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006, pp 121 - 123.
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domingo, 6 de abril de 2014



Perturbam-me as sombras da casa
os uivos das janelas
os olhares das fotografias nas molduras.
O chão do corredor que range quando o atravesso
as vozes dos vizinhos de baixo, as portas que batem.
Perturba-me o empregado do restaurante em frente
que me vigia quando fumo à janela.
Perturbam-me os arrulhos dos pombos
as obras intermináveis do prédio em frente
o gato morto e já ressequido no quintal da vizinha
o estar longe, o estar só.
Perturba-me o cheiro do cinzeiro
o chiar da porta da cozinha
o bolor dos pimentos há meses no frigorífico.
Perturba-me esta constipação
as chávenas com rachas
o não ter limões, o sangue nas mãos.
Partiu-se o frasco do mel.

Ramos, Inês. chorava como quem se diluía em mel d'abelhas. Lisboa: Tea for One, 2013, p     .




sábado, 5 de abril de 2014

já à venda!

 
 
The latest issue of the Review of Culture – International Edition, published quarterly by the Cultural Affairs Bureau, is already out. Literature is the main theme of this issue, with particular reference to Mo Yan, the 2012 Literature Nobel Prize winner. The Chinese author pens a short story titled "Upside Down" and is also the focus of two other articles: one on his literary journey, by journalist and poet Qiu Huadong, and another on his most controversial work Big Breasts and Wide Hips, a series of reflections and reading notes by author Fernanda Dias.

In the same issue, Maria Ondina Braga and Henrique de Senna Fernandes are revisited by Filomena Iooss and Fernando Margarido João, the former with a study on Nocturno em Macau and the latter with an analysis on the multiculturalism dimension of the work Os Dores.

Rui Rocha and Jorge Barbosa's poetry also deserve literary criticism by Victor Oliveira Mateus and Clara Sarmento, respectively. The concept of "lusophone writer" is analysed in depth by Ana Paula Dias, based on the opinions of Angolan writer Eduardo Agualusa and Timorese novelist Luís Cardoso, on the occasion of the 2013 Script Road Literary Festival. The matter of translatability of Chinese classical poetry, by researcher Júlio Reis Jatobá, brings the issue to a close.

The Review of Culture is available for purchase at the Livraria Portuguesa, Plaza Cultural, Seng Kwong Bookstore, Macao Historical Archives, Public Information Centre and Kun Iam Ecumenical Centre. It is also available for consultation at the Central Library, the Macao Historical Archives and libraries of Macau S.A.R. universities.


                Mo Yan in the lastest issue of Review of Culture

Provider: Cultural Affairs Bureau
Launch Date: 2014-04-04 18:34:00
Number of clicks: 3
"Chinese and Portuguese are the official languages of Macao, the English version of the web site is the translation from the Chinese originals and is provided for reference only."

 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

 
 
        "  Recolha  "
 
 
Recolho-me no jardim
dos pássaros de seda
- fascina-me a alma do
poeta que por lá
vagueia
 
Por aqui às vezes temos
a surpresa do encontro
com fadas e duendes
 
As asas de seda dos pássaros
são música para os meus
gestos
 
O fantástico é verdadeiro
 
À noite    a Lua acetinada
derrama o seu brilho
sobre os pássaros de seda
e eles tornam-se na orquestra
das fadas
 
Gosto de me recolher no jardim
dos pássaros
 
 
     Bettencourt, Eugénia. bagacina. S. Mamede de Infesta: edium editores, 2010, p 38.
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        "  O Avô dos Ventos  "


O avô de todos os ventos
soprou de rijo e inspirou
a tempestade

Pelo ar as folhas voavam sem descanso

Das narinas do Vento
saíam musgos antigos com cheiro a Ilha
e a Mar

As marés cresciam estendendo as suas mãos
sobre a Ilha

A luz escoava-se pela fresta da porta
e a chuva caía em bátegas medonhas

Agora eu estava só     no centro da tempestade


  Bettencourt, Eugénia. bagacina. S. Mamede de Infesta: edium editores, 2010, p 30.
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