sexta-feira, 22 de maio de 2015






Cinquenta poetas de 18 países ibero-americanos rendirán homenaje a Léon Felipe y Juan Ruiz Peña.
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El Encuentro de Poetas Iberoamericanos llega este año a su XVIII edición y se celebrará en el Teatro Liceo los días 7 y 8 de octubre, recordando al poeta hispano-mexicano León Felipe y el centenario de andaluz-salmantino Juan Ruiz Peña. Participarán poetas de Argentina, Paraguay, Cuba, Bolivia, Costa Rica, México, Uruguay, Colombia, Portugal, Ecuador, Brasil, Honduras, Perú, Venezuela, Chile, Sefarad (Israel), Guatemala y España. Italia está como país invitado. El destacado poeta paraguayo Jacobo Rauskin, Premio Nacional de Literatura de su país, recibirá la distinción de Huésped Distinguido de la Ciudad de Salamanca, conjuntamente con el poeta chileno Juan Cameron, reciente Premio Internacional de Poesía Pilar Fernández Labrador
El Teatro Liceo recibirá, los días 7 y 8 de octubre, la XVIII edición del consolidado Encuentro de Poetas Iberoamericanos coordinado por el poeta peruano-español Alfredo Pérez Alencart, profesor de la Universidad de Salamanca, y realizado en colaboración con la Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes.
Si el año pasado el encuentro se dedicó al centenario del cubano-español Gastón Baquero, en esta oportunidad cincuenta poetas y músicos de dieciocho países iberoamericanos se reunirán para dar tributo y celebrar a uno de los grandes nombres de la poesía en lengua castellana, León Felipe, tan español como latinoamericano, como él mismo se sentía: “América es la patria de mi sangre./ He muerto… y he resucitado./ ¿Entendéis ahora?”. También se rescatará del olvido a un excelente poeta andaluz-salmantino, Juan Ruiz Peña, quien fuera profesor de la Universidad de Salamanca y cofundador de la Revista Álamo.
Algunos poetas participantes
Entre los poetas iberoamericanos que intervendrán o formarán parte de las antologías, están Jacobo Rauskin (Paraguay), Antonio Colinas (España), Juan Cameron (Chile), Victor Oliveira Mateus (Portugal), Ana María Rodas (Guatemala), Álvaro Alves de Faria (Brasil), Marisa Martínez Pérsico (Argentina), Álvaro Mata Guillé (Costa Rica), Paura Rodríguez Leytón (Bolivia), Minerva Margarita Villarreal (México), Jesús Hilario Tundidor (España), Laura Cracco (Venezuela), Salvador Madrid (Honduras), José Antonio Mazzotti (Perú), Margalit Matitiahu (Israel), Ramón Fernández Larrea (Cuba), Gaetano Longo (Italia), José Eduardo Degrazia (Brasil), Eduardo Espina (Uruguay), Paulo de Tarso Correia de Melo (Brasil), Ana Cecilia Blum (Ecuador), Marcelo Gatica (Chile), Miguel Aguilar Carrillo (México) o David Leite (Brasil).
Otros poetas españoles de diferentes regiones son: Luis Carnicero, Carlos Aganzo, José María Muñoz León, Jesús Fonseca y Fernando Gil Villa. También María Gª Díaz, Ángel de la Torre, Angélica Morales e Isabel González Gil, estos últimos, finalistas del Premio Internacional de Poesía Pilar Fernández Labrador, que anualmente se concede en Salamanca.
Por Salamanca estarán los poetas Ignacio González, María del Carmen Prada, José Amador Martín, Marian de Vicente y Sofía Montero, entre otros, junto al Grupo Musical “Concierto 3”, liderado por Ángel Luis Delgado.
Mención especial es la participación del músico chileno Héctor “Titín” Molina, quien celebrará sus tres décadas como artista interpretando poemas de autores de América y España.
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terça-feira, 19 de maio de 2015



Apresentações: a 23/5 em Lisboa e a 7/10 na Universidade de Salamanca

Em Lisboa: 23 de maio (sábado) pelas 16:00H

Local: "Saber Sabor & Arte" na Rua da Junqueira, 438 - Lisboa

Título: Negro Marfim

Texto Introdutório: de Miguel Real

Inventário de Inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano

Capa: Foto de Nuno Fernandes

Apresentação da Obra: por Ricardo Gil Soeiro

Leitura de Textos: por Julião Bernardes


Locais de venda do livro: em Lisboa - Livraria Pó dos Livros, Saber Sabor & Arte, Livraria Ferin (por encomenda), Livraria Bulhosa (por encomenda); no Porto - FNAC ; Braga - Livraria Centésima Página ou por encomendas feitas diretamente à Editora.
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   "  Desfolhado Jaz um Deus  "


Com teus órgãos genitais
também se brinca
sem pedir licença
a ninguém,
como se chocalhasses
ovos de ouro
num colchão de penas,
rei da tua
solidão.


Com os órgãos genitais
dos outros
também se brinca
mas é da praxe
mútuo consentir
a tesão.
De qualquer modo, tua
cabeça se enche
de pássaros e peixes,
suruma cresce depressa
entre teus dentes.
A meio do tomatal
dançam
diamantes. Acima
do céu, desfolhado
jaz um deus
mortal e
cego.


 
  Lemos, Virgílio de. A Dimensão do Desejo. Maputo: AMOLP, Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, 2009, p 17.
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domingo, 17 de maio de 2015

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XII 3

  Sentada, nem sibila nem cartomante, nem tão-pouco de futuro
inquieta, tece cêntimos no colo frouxo, meneando os dedos
qual seta. Sentada, entre universitários passantes que a olham
com desdém, estacionando seus carros topo de gama, larga os
olhos vítreos naquele pouco que tem como de um grande fogo
a parca chama. Sentada, a cega altera-me o rumo do livro, sem
que disso se aperceba, imprime-lhe agora uma pausa romântica
e chã, mas eu não me importo serei moderno (e metafísico)
amanhã. Os universitários é que se divertem: gozam-lhe os
cabelos desgrenhados, a bata já sem bolsos, os chanatos por um
fio, enquanto eu altero de novo o livro, reatualizo o poema e
mando-os para o negro que os pariu.


   Mateus. Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 25 (Prefácio: Miguel Real; Inventário de inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano).
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" A morada da alma "


através dos sinuosos caminhos da vida
procuro-te na tranquilidade do olhar interior
um fragmento de lua nas alturas do céu dá-me
incertezas de manhã a manhã

a madrugada rubra adia a partida da esperança
na realidade não nos saudamos no coração
estou farto de falar sozinho
plantando a intifada no ribombar da chaga
quanto mais pressiono, quanto mais sussurro
quanto mais insisto mais se alarga
então onde estás?
não chegas não vens para casa
a alma que construímos
as suas portas abrem-se o chão une-se à chaga
ninguém bate ninguém entra
entretanto eu espero na escada


Hamama, Fatin. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 309 (Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmeler e Danny Susanto).
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sexta-feira, 15 de maio de 2015



" Indonésia, um dia "

um programa de rádio, matinal, os jornais sobre a mesa
não ouço e não leio. o toque do telefone
e as cartas
de seguida estilhaços de espelhos.
leio a agenda das moradas e os cartões de visita.

viver do nascer do sol até à obscuridade
e acordar no mundo do sonho.
tudo se transforma em apontamentos enfadonhos.
fragmentos de lixo ansiosos por desaparecerem.

a vida verdadeira é um sonho inocente.
tão curto e exasperante. ou sobressalto
estranho e ridículo.

mas o mundo onde vives
é uma consciência enganadora
que mais tarde se transformará num episódio
com pouco de interessante para contar.


Herliany, Dorothea Rosa. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 261 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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quarta-feira, 13 de maio de 2015





      "  Eu  "


Se chegar o meu momento
Não quero que ninguém me seduza
Nem tu
Não preciso desses soluços
Sou um animal selvagem
Rejeitado do rebanho
Deixa a bala perfurar a minha pele
Vou defender-me e espernear
Corro levando a ferida e o veneno
Corro
Até não sentir dor
Escarnecendo
Eu ainda quero viver mil anos




    Anwar, Chairil. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 194 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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segunda-feira, 11 de maio de 2015





    " A Magnólia "


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor.


Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.


A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


  Jorge, Luiza Neto. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 134 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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domingo, 10 de maio de 2015





    " Creio nos Anjos "


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;


Creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve antes,


Creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro.


ÁMEN


Correia, Natália. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 140 (Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler, Danny Susanto).
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sexta-feira, 8 de maio de 2015

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Clara Janés foi eleita para a REAL ACADEMIA ESPANHOLA, passando a ocupar a Cadeira U deixada vaga por Eduardo García Enterría falecido em setembro de 2013. Janés passará a ser a sétima escritora numa ACADEMIA dominada predominantemente por homens.
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quarta-feira, 6 de maio de 2015





Neste inverno, num dia em que, cheio de gripe, observava do meu leito o mais desolado céu que se possa imaginar, apercebi-me de dois pássaros (que outra coisa poderia ser?) perseguindo-se um ao outro, num perfeito ritual amoroso sobre aquele fundo lúgubre. Um tal espetáculo acaba por nos reconciliar com a morte, e talvez mesmo com a vida.

   Cioran. Cahiers 1957 - 1972. Paris: Gallimard, 2002, p 34 (Tradução minha).
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terça-feira, 5 de maio de 2015

Foi eleita a Lista A dos Órgãos Associativos do P.E.N. Clube Português (lista única) para o triénio 2015-2017.
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É composta pelos seguintes membros:
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Direção :
Teresa Salema (Presidente)
Maria João Cantinho (Secretária)
Victor Oliveira Mateus (Tesoureiro)
António Carlos Cortez (Vogal)
Rita Taborda Duarte (Vogal);
José Viale Moutinho (Suplente) 
Ricardo Gil Soeiro (Suplente)
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Mesa da Assembleia Geral:
Paula Morão (Presidente)
Francisco Belard (1º Secretário)
Paula Mendes Coelho (2ª Secretária)
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Conselho Fiscal:
José Manuel Vasconcelos (Presidente)
António Graça de Abreu (Vogal)
Manuel de Queiroz (Vogal)
Isabel Cristina Pinto Mateus (Suplente)
João David Pinto Correia (Suplente).
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A lista teve como Delegado Mário de Carvalho e os seguintes sócios apoiantes: Ana Luísa Amaral, Cristina Carvalho, Ernesto Rodrigues, Fernando J.B. Martinho, Gastão Cruz, Hélia Correia, Inês Lourenço, Isabel Allegro de Magalhães, Jaime Rocha, João Barrento, José Pedro Serra, José Tolentino de Mendonça, Lídia Jorge, Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Gusmão, Maria Velho da Costa, Nuno Crespo, Ricardo Marques, Rosa Maria Martelo, Teolinda Gersão, Teresa Martins Marques, Vítor Viçoso.
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segunda-feira, 4 de maio de 2015





      
              Diego Nogueira: a insustentável negritude do horizonte

 
     Acervo de pássaros em desuso, recente poemário de Diego Nogueira surge-nos, num primeiro momento, como um percurso marcado por uma certa negatividade ante o acontecer. É neste aqui onde somos chamados a estar que se desenrola não só o caminho de um dado eu-existencial, mas também as lucubrações do eu-poético. A melancolia e o desalento apresentam-se, por conseguinte, como traços fundamentais deste universo poemático: “E manhãs vigiam o sono / de uma alma enraizada numa precária geografia.” (p. 7); “Pouco a pouco vai engolindo a terra / sua física sem luz, seu estado de morte.” (p. 9); “Morre a cor de excessiva luz. / Meninos lamentam a tortura da carne / é o pecado a penetrar a raiz.” (p. 22). Neste solo eivado de uma melancolia por vezes sem remissão irrompem – em pouquíssimos casos – sinais de persistência: “É tarde e minhas mãos ainda trabalham / na tentativa de traçar o caminho / dos espíritos.” (p. 34) e de imprecação por uma certa positividade: “Poder cantar tuas águas / nas mãos reter toda a vida. / (…) Inaugurar gozo e caule / ser de jasmins, gerânios, túlipas.” (p. 5), no entanto, estes elementos agora focados possuem um carácter acidental e são aquilo que, por contraste, vinca  o carácter nostálgico e de ferida desta poética. Aliás, essa mesma ferida bem como a falha e a dor atravessam todo este livro de Diego Nogueira Silvério: “O salão é deserto e a lembrança sem pátria. / De nada ficou – um simples ruído nos porões / das árvores, uma inofensiva luz de um sol / que se retira.” (p. 38). A dor é, em Diego Nogueira, um espaço de silêncio cercado pela incomunicabilidade ou por um certo ruído que, apesar de comunicacional, mutila a autenticidade do dizer, aproximando assim este poeta de autores que tão bem abordaram estes temas, como por exemplo Marguerite Duras: “Elle vous demande la couleur de la mer. / Vous dites: Noire. / Elle répond que la mer n’est jamais noire, que vous devez vous tromper.” (in La Maladie de la Mort. Paris: Les Éditions de Minuit, 1982, p. 46), ou Nathalie Sarraute “Ai, isto misturou-se tudo (…) Estou a ser castigado. Mais do que merecia. Por ter falhado. Faltou-me o pudor. Foi esse o meu erro (…) Eu descaí-me, foi isso… Tu não suportas. (…) Sou ridículo. Já não sei o que digo.” (in O Silêncio. Lisboa: Livros Cotovia, 2012, p. 14). Este hiato entre o eu e o outro, quer ao nível dos afectos quer ao nível do dizer, brota na escrita de Diego Nogueira nos mais singulares momentos: “Feliz do homem que sobe os degraus / da solidão e no último andar dessa serpente / encontra um lugar para expandir seu silêncio,” (p. 32); “Em tuas américas cresci / - e mesmo sendo uno - / morei entre dois continentes: / palavras.” (p. 35). É neste território, e consciente do que tudo nele é efémero e lacunar, que o poeta firma a ousadia da sua arte. O poema 4 do ciclo 15 Poemas sobre Rosas enfatiza o papel desse ser condenado a escutar e a burilar não só o que vivencia, mas sobretudo o que a memória lhe testemunha como Acervo de pássaros em desuso:

 

4

 
Rosa, isolada arquitectura

               tudo que padece na língua do poeta.

  E manhãs que vigiam o sono

               de uma alma enraizada numa precária geografia.

O que não renega a memória.

              Quem só negoceia com pássaros.

Trágico disfarce

              de se ter em múltiplas primaveras.

 

                             (p 7)

      A tragicidade e o desalento deste mercador de pássaros aparece-nos ainda em poemas como “Rouxinol” (p 19) e “Cigarra” (p 25); o horizonte deste almocreve de sentires e inquietações é, portanto, um “ horizonte de enferma claridade” (p 24), um alvo com sabor a precipício e onde até o próprio sol se afoga (cf. “O Poente”, p 41). Assim, à consternação e ao desalento de um mundo que aparece ao olhar do poeta como uma insuportável evidência de imperfeição e mácula acaba necessariamente por corresponder, neste livro, uma visão da poesia, e até do próprio poeta, como algo cuja “eternidade é o mar, sem fim próximo.” (p 25): “ (…) O peito do poeta/ é um cemitério onde o girassol sepulta seu/ último incêndio. “ (p 21). Esta correspondência aqui focada, bem como a doçura nostálgica da escrita e do território poético trilhado por Diego Nogueira Silvério, podem ser igualmente encontrados em muita da poesia portuguesa da última década, escutemos, por exemplo, um excerto do excelente O Que Dói às Aves de Alice Vieira:

 

  É preciso agora ter muito cuidado com as palavras

  pronunciá-las olhando sempre    demoradamente para o lado

  como se fossem os nomes escancarados

  de amantes clandestinos

         

  ouve:

 
    também tu morres agora todas as noites

  um pouco mais

 

  e em todos os lugares que te perderam

  é triste o som das águas.

 

            (cf. op. cit. pp 47 – 48 )

 Repare-se na intertextualidade entre as imagens de Alice Vieira e tudo o que temos vindo a dizer acerca de Acervo de pássaros em desuso e repare-se igualmente no que peremptoriamente se investe em certos referentes, como por exemplo “as águas”, conotadas, em ambos os poetas, com o devir e com uma cadência onde a tristeza e lassidão imperam. Todavia, são outras as influências desta poética: se de Dora Ferreira da Silva, Diego Nogueira não recolhe a irrupção de um certo desrespeito pela Lógica da Identidade e por um universo, por vezes mágico-animista características da obra desta autora acerca das quais escrevi já (cf. “Devir e Mesmidade na Poesia de Dora Ferreira da Silva”, in Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências. Nova série 2011, Nº 14), até porque a tecedura poética de Diego se encontra fortemente marcada por uma imagética de cariz judaico-cristão (exº: pecado, inferno, Lázaro, juízo final, etc.), no entanto, este poeta partilha com Dora Ferreira da Silva a tese da modernidade que vê o poeta como tecelão de palavras e imagens, é mesmo interessante analisar neste livro como a arquitectura do poema se funda inicialmente na palavra, que, antecipando-se ao conceito, edifica a consistência da imagem – apelo fulgurante ao som e a um ritmo sincopado a fazer-nos lembrar outros pássaros: os da música de Olivier Messiaen -, e só num momento segundo o sentido nos interpela e, mesmo assim, recusando a linearidade discursiva; a legibilidade das imagens desta poesia e, como dissemos já, a cognoscibilidade do seu sentido, são muitas vez conseguidas através de subtis associações paronímicas: “(…) nas cinzas que o inverno/ deixou para trás…” (p 8); “ Deste-me a um rio e eu me fiz águia” (p 35), muitas vezes as transfigurações semânticas no interior dos versos surgem com o intuito de fixar o leitor ao acto que leva a cabo, veja-se, por exemplo, o verso: “Sereno aquário em que padece tua ceda, tua vinha” (p 17), aqui quando se espera a concordância aquário/sede, é-se fustigado por uma concordância de outro tipo: aquário/prendimento/cerda, e o verso de imediato inflecte noutra direcção, pois não enuncia a “tua vinda”, mas sim a “tua vinha”, já que em ambos os casos é de um prenúncio do colher aquilo de que se fala. Mas em Dora Ferreira da Silva, passando esta ideia da tecedura poética, Diego Nogueira Silvério vai sobretudo encontrar a acutilância do olhar e o cuidado no dizer: pessoalmente não consegui ler Acervo de pássaros em desuso sem recordar o ciclo poemático doriano “Garças” (cf. “Poesia reunida”. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, pp 273 – 280) e o ciclo “Transparências” (cf. “Poemas da Estrangeira”. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 1995, pp 38 – 40). Mas outra referência desta poesia é também João Cabral de Melo Neto com a sua opção por um dizer “enxuto” e “que no seu ínfimo traço,/ exibe a proa e não a água” (p 26), no entanto, apesar da preocupação com a forma do poema estar mais interligada com o intento comunicativo em Melo Neto do que no presente poemário, tal se deve à necessidade sentida de se operar aqui uma equilibrada miscigenação de vozes tão díspares como são as de Dora Ferreira da Silva e de João Cabral de Melo Neto, e tal ponto - que é simultaneamente de união de influências e de criação de uma voz própria e autónoma - encontra-o Diogo Nogueira naquilo que Rosa Maria Martelo diz ser intrínseco ao segundo poeta influenciador e que, agora, podemos generalizar aos três autores: “(…) escrever não é dissociável de ver – como se o poeta escrevesse porque vê e para ver e dar a ver.” (in “A Forma Informe”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p 60).

     No périplo poético de Diego Nogueira, assumidamente nostálgico e sofrido, onde a “identidade é descendente” (p 10) e “desfalecendo na partida” (p 4) - embora por breves instantes marcado pela persistência “imóvel, em píncaros” (p 4) ou onde “nada interfere a um vigoroso voo” (p 12) - o que predomina é o simultaneamente delicado e vigoroso solo da incompletude, da falha, motivada sobretudo pela estrepitosa luta entre duas instâncias: a do eterno e a do efémero (cf. poema 10 do ciclo poemático 15 poemas sobre rosas e o ciclo Lêdo Ivo ) e é exactamente aqui que a memória vai tentando atenuar essa falha, essa iniludível incomunicabilidade (cf. a epígrafe do livro) que nem o cuidar do ver e do dizer consegue superar: “ Lado a lado, meus senhores dormem./ Vivemos separados pelo plano que/ traçado foi no dia do dilúvio” (cf. poema “Juízo Final”), e é essa mesma memória que, dia-a-dia, insiste em respigar e recompor gestos, imagens e afectos, isto é, voos que o tempo tem vindo a depositar nesse Acervo de pássaros em desuso. 

 

 

         Mateus, Victor Oliveira. In acervo de pássaros em desuso de Diego Nogueira Silvério. Fortaleza: Projeto Gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, pp  9 - 15.
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sexta-feira, 1 de maio de 2015




  " Santa Maria Madalena "  (1)


Não queiras que receba em
sofrimento. Não apareças nunca
nem me escolhas. É verdade
muitas vezes te procurei
quase sem conta
ao ardente entardecer desejei
teu lado.
Que tenho hoje para te oferecer?
O vento lá fora leva-te em
minha memória pelo escuro
penitente pl'abstracção da noite
antes de embarcares na remota
viagem.

À luz desta candeia
erra em recado o
fantasma
de onde vinha? Desde
o que se esconde e protege
na crueza do sexo -
  para o morrão da luz do
azeite me quiseste, vínculo que
estremece ao menor sopro
segreda verga o
junco na areia das dunas -
  a esta luz temo
a erva do verão que nasce
à minha porta.


(1) Óleo sobre cobre. Josefa de Óbidos. C. 1650



     Jorge, João Miguel Fernandes. Mirleos. Lisboa: Relógio D'Água, 2015, p 76.
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quinta-feira, 30 de abril de 2015





     " Anjo-Atlante "  (1)


São dois, os anjos.
Que peso suportam os ombros?
Vestidos de flor de roseira
no bater do coração, à espera de folgar


próximos, logo distantes.
De madrugada, quando a lua se esconde e
o músculo das espáduas se derreia
os dois, a par


que eram moços, que noivavam, que
iam por abismos num sem querer


um anjo em outro se desdobra
num jeito rapaz de querer passar à frente
de transparência em transparência
vivos, impuros




(1)  Calcário policromado. Mestre Pero. Séc. XIV




     Jorge, João Miguel Fernandes. Mirleos. Lisboa: Relógio D'Água, 2015, p 22.
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quarta-feira, 29 de abril de 2015



V.
  
   Hoje é o dia das catástrofes assumidas. Do infortúnio a germinar como árvore de frutos nodosos e secos. É o negro dia dos sem remédio, de todos quantos se arrastam sem caminho nem valimento e que depois, ávidos de fim, se encostam às paredes mais obscuras na gorada espera de qualquer passagem. É o tempo das escritas sem entranhas, do tropel das imagens a encavalitarem-se umas nas outras na encenação de um dentro que nunca tiveram, para que seus parlamentares e escribas, de camisa preta e facho na mão, possam finalmente imitar as marchas de 39 pelas ruas de Roma. Hoje é o dia das catástrofes assumidas, das fronteiras delimitadas com um giz preto feito com as cinzas de Birkenau, para que o topo seja mais topo na ilusão de um chapéu de três bicos, de um azorrague bem untado ou de uma fileira de prateleiras e tronos para o assentamento dos camisas pretas na sua pose de casacos coçados e com o dedo grande dos pés a escapar-se dos sapatos cambados e sem protetores. Hoje é o dia dos que espreitam prontos a avançar e daqueles que avançam, mas, sem espreitar, lhes vão assim abrindo o caminho. Este é o dia em que não entro, o dia de uma negritude que recuso, enquanto os olhos me fogem pelo tampo branco da mesa na invenção de um outro tempo resplandecente e de uma outra qualquer cidade que não me tenha por vendilhão nem cúmplice.

   Mateus, Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 16 ( Prefácio: Miguel Real;  Inventário de Inquietações: Texto de Ronaldo Cagiano).
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terça-feira, 28 de abril de 2015







XXVII

   O homem veio afinal com sua indumentária preta. Veio lá dos lados da Foz, que mais pormenores não tínhamos nem queríamos. Encontrou-se connosco na esplanada onde a velha me seduzia c’um seu carago. O homem faria inveja a Cervantes – sussurraste-me -, pela sua viseira igualmente preta, sua BMW K1600 GT, seus moinhos de vento mesmo ali na Rotunda da Boa Vista. O homem saltou da mota e a velha, qual Dulcineia finalmente rendida, disse outra vez c’um carago. O homem entregou-nos a chave (a chave ou o elmo de oiro de Mambrino?) e apontou-nos o apartamento, lá para trás da Casa da Música. Sentimos no ar qualquer coisa de tráfico, de obsceno. Pediste-lhe o recibo, mas ele disse que depois, que depois porque Rocinante estava mal estacionado. Mercado negro!, concluíste, mas eu já não ouvia resmungos, tão à parte me sentia: Cavaleiro dos Espelhos, com escudeiro tão fiel, não é coisa normal em tempos sem branco nem lei.

  Mateus, Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 42 (Prefácio: Miguel Real;  Inventario de Inquietações: Texto de Ronaldo Cagiano).
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domingo, 26 de abril de 2015

Resultado de imagem para pasolini


Nota - O poema Vittoria (1964), de que se apresenta aqui um excerto, integra o livro "Poesia in forma di rosa". É um texto que evoca, ainda que de forma onírica, um tempo que se pensava já ultrapassado: o tempo da guerra de guerrilha e da revolução que, outrora, parecera tão próxima, mas que acabara abortando. Apesar do carácter invetivador deste poema, ele acena com uma lucidez desesperada  e com uma inaudita capacidade profética, mas também com um misto de angústia e desencanto, toda a crise que mais tarde se abateria sobre a península italiana.
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      "  Victoire  "

(...)
qui, hélas, auront eu raison - je rêve d'armes
enfouies dans la boue, dans la boue élégiaque,
là où des enfants jouent, et de vieux pères bêchent,

tandis que des dalles tombe la mélancolie,
les listes de noms se fendent,
les couvercles des tombes volente en éclats,

et de jeunes cadavres, portant le paletot
que l'on portait ces années-là, des pantalons
flottants, et, sur leur chevelure partisane, le calot

militaire, dévalent des murailles
où se tiennent les marchés, par les sentiers
qui relient les premiers vergers aux escarpements

des collines: ils descendent des cimetières. Des jeunes gens
avec dans leurs yeux quelque chose d'autre que l'amour:
une folie secrète, celle d'hommes qui luttent

comme appelés par un destin différent du leur.
Avec ce secret qui n'est plus un secret,
ils descendent, muets, dans le soleil levant,

(...)
Ils reviennent, et nul ne les arrête. Ils ne cachent pas

leurs armes - qu'ils étreignent, sans douleur et sans joie -
et tous baissent les yeux, comme aveuglés par la pudeur,
devant l'obscène éclat de ces mitraillettes, et ce pas de vautours

qui descendent vers leur obscur devoir, au grand soleil.


    Pasolini, Pier Paolo. Poésies 1953 - 1964. Paris: Gallimard, 2014, pp 271 - 273 (Traduction de José Guidi).
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quinta-feira, 23 de abril de 2015


Nota- O poema “A un Papa”, de que segue aqui um excerto, é um ataque violento do Cristianismo de Pasolini ao Cristianismo do polémico Pio XII. O texto integra o livro “La Religione del mio tempo”, dedicado a Elsa Morante.

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um montão de construções miseráveis, pocilgas e não casas,

   bastava apenas um gesto teu, uma palavra,

para que aqueles teus filhos tivessem uma casa:

   tu não fizeste um único gesto, não disseste uma só palavra.

Nem sequer precisavas de pedir que se absolvesse Marx! Uma vaga

   imensa que se abatia sobre milenares modos de vida

separava-te dele, da sua religião:

   e na tua religião não se fala já de piedade?

Milhares de homens, sob o teu pontificado,

   mesmo frente aos teus olhos, viveram entre imundície e pocilgas.

Tu sabia-lo, pecar não significa fazer o mal:

   recusar fazer o bem, isso é que é pecar.

Ah, quanto bem tu poderias ter feito! E, no entanto, não o fizeste:

   jamais houve pecador tão grande como tu.

 

 

 

 Pasolini, Pier Paolo. Poésies 1953 – 1964 . Paris: Gallimard, 2014, p 174 (Tradução minha a partir do italiano).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Nota - O longo poema La Religione del mio tempo integra o livro com o mesmo título publicado em 1961 e é contemporâneo dos filmes Mamma Roma (1962), com uma estrondosa interpretação de Anna Magnani, e La Ricotta (1963). La Religione del mio tempo é um livro fundamental para se perceber a tentativa feita por Pasolini para elaborar uma grande síntese entre Cristianismo e Marxismo. É desse poema que se apresentam aqui uns excertos:
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    " La Religion de notre temps "

(...)
accrocher un soupçon; dans les cafés, le jour,
la nuit, dans les salons; mais en vain chacun cherche
à déchiffrer sur les traits d'autrui le retour

de l'antique espérance: et s'il y reconnaît
quelque espoir, ce ne peut être qu'un espoir inavouable,
dans le jeu de l'offre et de la demande,

et les regards paraissent n`être que le spasme
d'une blessure interne; qui nous laisse exsangues,
inactifs, mécontents, qui pousse à une grève

des sentiments, à une stagnation coupable
de la conscience, à une paix malsaine,
qui ne nous livre que des jours gris et tragiques.

Ainsi, si je scrute le fond de l'âme
de ces groupes d'hommes qui vivente
ce temps, le mien, qui me sont proches ou voisins,

Je vois que sur les mille sacrilèges possibles
qu'il appartient à toute religion naturelle
de dénombrer, il en est un que l'on retrouve

toujours, partout, et c'est la lâcheté.
Un sentiment éternel - une forme
de sentiment - pétrifié, immuable,

qui inscrit en tout autre sentiment,
directement ou indirectement, sa trace.
C'est cette lâcheté qui fait de l'homme un incroyant.

C'est une sorte de profond empêchement
qui ôte toute force au coeur de l'homme,
toute chaleur à son raisonnement,
(...)

Là, parmi ces maisons, ces places, ces rues pleines
de veulerie, en cette ville où règne en maître
désormais cet esprit nouveau qui fait offense

à l'âme à tout instant - avec les cathédrales,
les églises, les monuments muets dans l'angoissante
désuétude où les laissent les hommes

qui ne croient plus - je me refuse
à vivre désormais. Il ne reste plus rien,
...   ...    ...     ...    ...   ...    ...   ....    ...


   Pasolini, Pier Paolo. Poésies 1953 - 1964. Paris: Gallimard, 2014, pp 151 - 155 (Traduction de José Guidi).
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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Prémio Literário Glória de Sant'Anna 2015



Obras finalistas:


Debaixo do Silêncio que Arde de Mbate Pedro (Moçambique) , Ed. Índico.


Da Vida Conclusa de Mário Herrero Valeiro (Galiza), O Figurante Edicións.




Júri :


Fátima Mendonça (Professora de Literatura/ Universidade Eduardo Mondlane)


Jacinto Guimarães (Colaborador do jornal de Válega)


Rui Paes (Pintor)


Victor Oliveira Mateus


Xosé Lois García (Escritor)
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Nota - O longo poema Le Ceneri di Gramsci , escrito em1954, integra um dos primeiros poemários de Pasolini que adota o título desse mesmo poema. Reproduz-se aqui um excerto desse texto  numa  tradução de José Guidi, tradução que o próprio autor supervisionou.


                      VI

Je m'en vais, je te quitte, dans le soir,
qui, malgré sa tristesse, tombe si doux,
pour nous, vivants, dans la clarté cendrée

qui se raccroche au quartier dans la pénombre.
Et le travaille. Le grandit, en évide
les alentours, et, plus loin, le rallume

d'une vie furieuse, où le rauque
roulement des tramways, les cris humains,
dialectaux, forment un concert trouble

et absolu. Et on sent bien que pour ces êtres
vivants, au loin, qui crient, qui rient,
dans leurs véhicules, dans leurs mornes

ilôts de maisons où s'évanouit
le don perfide et expansif de l'existence -
cette vie n'est qu'un frisson;

présence charnelle, collective;
on sent l'absence de toute religion
véridique; non point vie, mais survie

- plus joyeuse, peut-être, que la vie - comme
en un peuple d'animaux, dont le secret
orgasme ignore toute autre passion

que celle du labeur de chaque jour:
humble ferveur, que vient parer d'un air de fête
l'humble corruption. Plus se fait vain

-en cette trêve de l'histoire, en cette
bruyante pause où la vie fait silence -

(...)

et le terreau des Abattoirs, il s'y imprègne
d'un sang fétide, et que partout
il remue détritus et odeur de misère.

La vie est bruissement, et ces gens qui
s'y perdent, la perdent sans nul regret,
puisqu'elle emplit leur coeur: on les voit qui

jouissent, en leur misère, du soir: et, puissant,
chez ces faibles, pour eux, le mythe
se recrée... Mais moi, avec le coeur conscient

de celui qui ne peut vivre que dans l'histoire,
pourrai-je désormais oeuvrer de passion pure,
puisque je sais que notre histoire est finie?


  Pasolini, Pier Paolo. Poésies 1953 - 1964. Paris: Gallimard, 2014, pp 37 - 43 ( Traduction de José Guidi).
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domingo, 12 de abril de 2015

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Judith Malina (4/6/1026 - 10/4/2015) : poeta, atriz, diretora de teatro, J.M., apesar de nascida na Alemanha, tornou-se uma figura importante da cultura norte americana, ligada que esteve sempre aos ideais anarquistas e da não-violência.
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AMOR Y POLÍTICA
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cuando navegaba por la isla Ciprus
en bote
vi emerger del agua
la cabeza de Afrodita
le dije: "soy anarquista
y no voto"
me contestó: "me parece bien".


le dije: "¡oh! invención de
la mente clásica
¡eres ciega
frente a temas importantes!
ella asintió
por no ser descortés
y me dijo: "hasta luego"
"quédate" le pedí
"hay muchas cosas
que deberíamos conversar:
el poder de reyes
innecesarios,
la opresión sexual
de la que habla Safo…"
pero ella sólo
se sumergió
de vuelta en el mar.




       Judith Malina


 



sábado, 11 de abril de 2015

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        "  Nostalgia  "

Não sei ha quanto tempo escureceu...
Adormece... Eu ando tão cansada!...
Resava quando o sono me venceu -
Meu Deus!... Já vem rompendo a madrugada!

Que estranha somnolencia que me deu!...
Olho atravez dos vidros - a geada,
parece o mostruario dum hebreu... -
refulgem pedrarias na ramada!

O Sol, fonte doirada e faiscante
incendiou os vidros da janela
e irradia na relva verdejante...

- Mas a luz da minha alma não voltou...
Perdi-a, e nunca mais eu soube dela
desde o dia em que a tua m'a levou!


  Teixeira, Judith. Castelo de Sombras. Lisboa: Imp. Libanio da Silva, 1923, pp 49 - 50.
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Nota - o post segue fielmente a ortografia e a sintaxe do original.
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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Nota - os poemas de Judith Teixeira seguem a grafia da época.




            "  Duma Carta  "


Escrevi-te hontem
somente para dizer
das minhas maguas e do meu amor...
O sol morria...
Tudo éra sombra em redor
e eu..., ainda escrevia...


A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava sintilações,
nas pedras do meu anel!


E a pena corria...
Nem precisava ver, o que escrevia!...


Anoitecêra.
...............................
Como em toalha de altar
a mesa
revestiu-se de luar!...


Nascêra a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
- Sou tua!
Por que é que me não escreves?
mas o papel acabou,
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu
Só eu te sei amar!
- Só eu!...




    Teixeira, Judith. Castelo de Sombras. Lisboa: Imp. Libanio da Silva, 1923, pp 13 - 14.
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quinta-feira, 9 de abril de 2015

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                 "  das almas...  "

                  
                                      para Victor Oliveira Mateus


os poetas não dormem
olham para o mundo da noite
sonham ver a sombra do destino
os poetas morrem novos porque não dormem à noite
também há os que morrem muito velhos
para vigiarem todas as noites
que o mundo lhes entregou
de todas ainda sobram muitas...

os poetas cansados à noite choram
pelos que nascem na madrugada
oram em palavras escondidas
quando o espírito parece adormecer...

os poetas não sabem escrever
imploram o afastamento da dor
abandonados de tranquilidade
tentam resistir à agonia...

os poetas não são seres
são gente que se move nos astros
moribundos que pedem sono
almas acordadas que esperam
beijos de amor...

os poetas são folhas pequeninas
que tombam na manhã...
caem para a terra fecundar
num gesto que permanece
nos passos silenciosos dos outros
(folhas imensas que não tombam)

os poetas não sabem ler
soletram e as letras formam palavras
solidificadas que rasgam os corações
daqueles que não dormem à noite...

os poetas cansam as palavras
também elas não dormem à noite
permanecendo intrigadas
à espera que os poetas adormeçam
nos sonhos dos beijos por chegar


  Levy, Henrique. O Silêncio das Almas. Macau: CriarInovar, 2015, pp 37 - 38.
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   "  limite  "




encontrei figos desertos
flores por nascer
agora do promontório
vou desvanecer
atirar-me ao mundo
vermelho sangue
senhor a minha alma
é igual à alma
das ilhas


ambas têm por noivo
a malva a areia o trevo
deslizando na várzea
do corpo reinventado
em glórias e medo




   Levy, Henrique. O Silêncio das Almas. Macau: CriarInovar, 2015, p 34.
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