terça-feira, 9 de junho de 2015
" Borboletas de noite "
Rasgou-se a solidão e o
meu conforto:
nesta mesa, sou musa
de mim mesma
Ao desejar
sombrias borboletas,
marquei o meu
destino
Brecha a partir
de sempre,
mais funda e persistente
que faca de cozinha
ou espada
Frincha de frio,
porta nem de ninguém:
fechada
Amaral, Ana Luísa. E todavia. Lisboa, Assírio & Alvim, 2015, p 58.
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sábado, 6 de junho de 2015
" Deste-me a um rio "
Deste-me a um rio e eu me fiz águia
para trefegar sobre o fluxo.
Córrego fui. Amálgama.
Compêndio onde a flor descansou
o ocaso.
Dormi em ti
provei do fruto
condenei o futuro a custo de uma verdade.
Em tuas américas cresci
- e mesmo sendo uno -
morei entre dois continentes:
palavras.
Silvério, Diego Nogueira. acervo de pássaros em desuso. Fortaleza: Projeto gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, p 50.
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sexta-feira, 5 de junho de 2015
Nota - o Prefácio deste livro é um texto meu que se encontra alguns posts mais abaixo.
" Dentro do teu percurso "
Dentro do teu percurso colocar o acaso.
Transgredir as possibilidades de encontro.
Criar nossa forma que envelheceu num aquário
mas suplica uma segunda vez.
Plantar um pássaro nos cômodos do teu silêncio
para fazer voar tua voz. Unir meu sono a tua boca
minha confusão ao teu casulo. Florescer na tua língua
até pegar gosto de palavra.
Silvério, Diego Nogueira. Acervo de pássaros em desuso. Fortaleza: Projeto gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, p 48.
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" Dentro do teu percurso "
Dentro do teu percurso colocar o acaso.
Transgredir as possibilidades de encontro.
Criar nossa forma que envelheceu num aquário
mas suplica uma segunda vez.
Plantar um pássaro nos cômodos do teu silêncio
para fazer voar tua voz. Unir meu sono a tua boca
minha confusão ao teu casulo. Florescer na tua língua
até pegar gosto de palavra.
Silvério, Diego Nogueira. Acervo de pássaros em desuso. Fortaleza: Projeto gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, p 48.
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quinta-feira, 4 de junho de 2015
" Uma americana lavada no mar "
Levo redondas e maciças estas imagens
areias em ténis e pratas deitadas
falo de traços de quem vê de lado
um sol de cada vez mas só um
Sigo distâncias que se estiravam à frente
voltas e regressos por caminhos
à mão que estavam ali
e que já não estão
Só na vontade da gente
mas é assim
E depois são repentes estas figurações
fios de massa no prato e
eis caminhos que se desfazem
vendo nós a passagem tão de cima
a superfície despida e franca
despovoada e à mostra
um bater extravagante
Por vezes junto bocadinhos de bolacha no prato
mas não é a mesma coisa
Machado, Hugo Milhanas. Onde fingimos dormir como nos campismos. Lisboa: Enfermaria 6, 2014, p 57.
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quarta-feira, 3 de junho de 2015
" Outra pedra parecida "
Podia ficar
mas já vai rasando
e arrefece bronze o mecanismo
a carne sossega e tocamos
avançamos nessa noite de confiança
onde respiramos melhor
Nenhuma voz se parte a falar
mexes o meu café
mas é pouco
Olha bem o tempo
como é estupenda esta cor
um dia tudo isto será chão
e aqui os nossos lugares
que ao chegar diremos
eu vim contigo desfazer espaços
Sabe bem a voz estragada e poder prometer
quando estamos capazes de prometer
Vamos vendo dos caminhos
o passo é lento aguenta
pode até ser esta a época
Machado, Hugo Milhanas. Onde fingimos dormir como nos campismos. Lisboa: Enfermaria 6, 2014, p 42.
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terça-feira, 2 de junho de 2015
segunda-feira, 1 de junho de 2015
As horas que não passas.
Enches-te de chats e merdas salgadas,
batatas fritas e pipocas; equilibras a tensão; submerges na merda.
Atafulhas-te porque é preciso preencher o vazio.
Faz de conta que consegues. Imagina, pá.
Foi para isso que os teus pais te muniram de cabeça.
Quando a dor apertar, aguenta. Foi só o vazio que cresceu mais um
bocadinho.
Fala com mais pessoas, noutros chats; come mais salgados
e talvez alguns doces. E fuma cigarros e bebe e droga-te.
Tudo matérias legais. A sério, pá.
Acho que lúcido não atravessas as horas.
Chéu, Cláudia Lucas. Trespasse. S/c.: Edições Guilhotina, 2014, p 26.
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terça-feira, 26 de maio de 2015
XXIX
Atingiu o vale numa época em que tudo parecia perdido. Infiltrou-se depois
cidade adentro com suas astúcias pegajosas. Construiu edifícios de altura
infinita, areou campainhas e aldrabas para o endeusamento das bolsas e
aperfeiçoou a volúpia dos homens, para assim cantarem hossanas à imagem de um
absoluto vazio, onde a vida dos indefesos se poderia (finalmente) transacionar
como bens desgarrados e dispensáveis. Atingiu o vale no perfeito lugar onde eu
te havia esperado. Atingiu-o com aquela ostentação portentosa, com aquela
beleza podre que só as coisas grávidas do seu fim conseguem delicadamente
fingir nestas páginas de uma história que sempre continuará falando à surda
distração dos homens.
Mateus, Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 44 (Prefácio: Miguel Real; Inventário de Inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano.
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XIX
Toda a noite o cão ladrou, ladrou. O eco entrava por mim adentro num misto de
temor e raiva assassina. O arrastar da corrente aumentava também o sufoco e a
impotência – minha e do cão. Quem andaria por entre as hortas? Que quereria o
ladrão? Enrolei um cigarro junto à porta e ali me perdi entre baforadas e uma
luz frouxa, enquanto os latidos passavam a uivos. Do chão saía um nevoeiro espesso,
um ar gorduroso que se infiltrava na madeira do alpendre. Vi também as
glicínias brancas e reluzentes, mas glicínias brancas e reluzentes não ficam
bem neste poema gótico, portanto, opto por outra imagem: vi também umas
campânulas roxas, que ondeavam ao sabor dos uivos. Os uivos não tinham descanso
e ali perto havia um rugir sincopado a chapinhar no tanque. Do céu as nuvens
pareciam querer cair sobre mim. Ah, tudo era negro e assustador! Depois,
apaguei o cigarro e voltei para dentro. Dormias. Limpei pacientemente os óculos
ao cós do pulôver, para finalmente sorrir: sem óculos tudo era diferente - e
foi aqui que a realidade se tornou branca, tão branca que até me perguntaste por
que não me voltava a deitar, porque não
parava eu de inventar coisas.
Mateus, Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 33 ( Prefácio: Miguel Real; Inventário de Inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano)
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segunda-feira, 25 de maio de 2015
I
Atingiu o vale numa época em que o desacerto era coisa diária e
corriqueira. Alastrou depois por entre as ervas e os animais. Apoderou-se
também dos homens sentados à porta das tabernas, das mulheres que se agitavam –
exaustas - em torno das selhas e de mim que te desenhava já num zelo de caçador
derrotado, num torpor de animal a ver-se em toda a inutilidade que
antecipadamente sabia. Atingiu o vale nas noites de inquietude com os
relâmpagos a desenhar fins nesses horríficos monstros que eu fantasiava algures
entre o fraquejar das lâmpadas e a tinta carcomida das paredes. Atingiu tudo,
até os caminhos incontaminados e nítidos, até os umbrosos enigmas que sempre se
haviam julgado protegidos. Nada escapava à sofreguidão com que devorava casas e
terras. Apenas a mim resolveu deixar incólume, talvez para que assim houvesse,
nesse seu meticuloso exercício de vingança, uma trémula sombra que tudo pudesse
beber até aos ossos.
Mateus, Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 11 ( Prefácio: Miguel Real; Inventário de Inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano).
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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Cinquenta poetas de 18 países ibero-americanos rendirán homenaje a Léon Felipe y Juan Ruiz Peña.
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El Encuentro de Poetas Iberoamericanos llega este año a su XVIII edición y se celebrará en el Teatro Liceo los días 7 y 8 de octubre, recordando al poeta hispano-mexicano León Felipe y el centenario de andaluz-salmantino Juan Ruiz Peña. Participarán poetas de Argentina, Paraguay, Cuba, Bolivia, Costa Rica, México, Uruguay, Colombia, Portugal, Ecuador, Brasil, Honduras, Perú, Venezuela, Chile, Sefarad (Israel), Guatemala y España. Italia está como país invitado. El destacado poeta paraguayo Jacobo Rauskin, Premio Nacional de Literatura de su país, recibirá la distinción de Huésped Distinguido de la Ciudad de Salamanca, conjuntamente con el poeta chileno Juan Cameron, reciente Premio Internacional de Poesía Pilar Fernández Labrador
El Teatro Liceo recibirá, los días 7 y 8 de octubre, la XVIII edición del consolidado Encuentro de Poetas Iberoamericanos coordinado por el poeta peruano-español Alfredo Pérez Alencart, profesor de la Universidad de Salamanca, y realizado en colaboración con la Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes.
Si el año pasado el encuentro se dedicó al centenario del cubano-español Gastón Baquero, en esta oportunidad cincuenta poetas y músicos de dieciocho países iberoamericanos se reunirán para dar tributo y celebrar a uno de los grandes nombres de la poesía en lengua castellana, León Felipe, tan español como latinoamericano, como él mismo se sentía: “América es la patria de mi sangre./ He muerto… y he resucitado./ ¿Entendéis ahora?”. También se rescatará del olvido a un excelente poeta andaluz-salmantino, Juan Ruiz Peña, quien fuera profesor de la Universidad de Salamanca y cofundador de la Revista Álamo.
Algunos poetas participantes
Entre los poetas iberoamericanos que intervendrán o formarán parte de las antologías, están Jacobo Rauskin (Paraguay), Antonio Colinas (España), Juan Cameron (Chile), Victor Oliveira Mateus (Portugal), Ana María Rodas (Guatemala), Álvaro Alves de Faria (Brasil), Marisa Martínez Pérsico (Argentina), Álvaro Mata Guillé (Costa Rica), Paura Rodríguez Leytón (Bolivia), Minerva Margarita Villarreal (México), Jesús Hilario Tundidor (España), Laura Cracco (Venezuela), Salvador Madrid (Honduras), José Antonio Mazzotti (Perú), Margalit Matitiahu (Israel), Ramón Fernández Larrea (Cuba), Gaetano Longo (Italia), José Eduardo Degrazia (Brasil), Eduardo Espina (Uruguay), Paulo de Tarso Correia de Melo (Brasil), Ana Cecilia Blum (Ecuador), Marcelo Gatica (Chile), Miguel Aguilar Carrillo (México) o David Leite (Brasil).
Otros poetas españoles de diferentes regiones son: Luis Carnicero, Carlos Aganzo, José María Muñoz León, Jesús Fonseca y Fernando Gil Villa. También María Gª Díaz, Ángel de la Torre, Angélica Morales e Isabel González Gil, estos últimos, finalistas del Premio Internacional de Poesía Pilar Fernández Labrador, que anualmente se concede en Salamanca.
Por Salamanca estarán los poetas Ignacio González, María del Carmen Prada, José Amador Martín, Marian de Vicente y Sofía Montero, entre otros, junto al Grupo Musical “Concierto 3”, liderado por Ángel Luis Delgado.
Mención especial es la participación del músico chileno Héctor “Titín” Molina, quien celebrará sus tres décadas como artista interpretando poemas de autores de América y España.
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terça-feira, 19 de maio de 2015
Apresentações: a 23/5 em Lisboa e a 7/10 na Universidade de Salamanca
Em Lisboa: 23 de maio (sábado) pelas 16:00H
Local: "Saber Sabor & Arte" na Rua da Junqueira, 438 - Lisboa
Título: Negro Marfim
Texto Introdutório: de Miguel Real
Inventário de Inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano
Capa: Foto de Nuno Fernandes
Apresentação da Obra: por Ricardo Gil Soeiro
Leitura de Textos: por Julião Bernardes
Locais de venda do livro: em Lisboa - Livraria Pó dos Livros, Saber Sabor & Arte, Livraria Ferin (por encomenda), Livraria Bulhosa (por encomenda); no Porto - FNAC ; Braga - Livraria Centésima Página ou por encomendas feitas diretamente à Editora.
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" Desfolhado Jaz um Deus "
Com teus órgãos genitais
também se brinca
sem pedir licença
a ninguém,
como se chocalhasses
ovos de ouro
num colchão de penas,
rei da tua
solidão.
Com os órgãos genitais
dos outros
também se brinca
mas é da praxe
mútuo consentir
a tesão.
De qualquer modo, tua
cabeça se enche
de pássaros e peixes,
suruma cresce depressa
entre teus dentes.
A meio do tomatal
dançam
diamantes. Acima
do céu, desfolhado
jaz um deus
mortal e
cego.
Lemos, Virgílio de. A Dimensão do Desejo. Maputo: AMOLP, Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, 2009, p 17.
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domingo, 17 de maio de 2015
XII 3
Sentada, nem sibila nem cartomante, nem tão-pouco de futuro
inquieta, tece cêntimos no colo frouxo, meneando os dedos
qual seta. Sentada, entre universitários passantes que a olham
com desdém, estacionando seus carros topo de gama, larga os
olhos vítreos naquele pouco que tem como de um grande fogo
a parca chama. Sentada, a cega altera-me o rumo do livro, sem
que disso se aperceba, imprime-lhe agora uma pausa romântica
e chã, mas eu não me importo serei moderno (e metafísico)
amanhã. Os universitários é que se divertem: gozam-lhe os
cabelos desgrenhados, a bata já sem bolsos, os chanatos por um
fio, enquanto eu altero de novo o livro, reatualizo o poema e
mando-os para o negro que os pariu.
Mateus. Victor Oliveira. Negro Marfim. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 25 (Prefácio: Miguel Real; Inventário de inquietações : Texto de Ronaldo Cagiano).
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" A morada da alma "
através dos sinuosos caminhos da vida
procuro-te na tranquilidade do olhar interior
um fragmento de lua nas alturas do céu dá-me
incertezas de manhã a manhã
a madrugada rubra adia a partida da esperança
na realidade não nos saudamos no coração
estou farto de falar sozinho
plantando a intifada no ribombar da chaga
quanto mais pressiono, quanto mais sussurro
quanto mais insisto mais se alarga
então onde estás?
não chegas não vens para casa
a alma que construímos
as suas portas abrem-se o chão une-se à chaga
ninguém bate ninguém entra
entretanto eu espero na escada
Hamama, Fatin. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 309 (Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmeler e Danny Susanto).
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sexta-feira, 15 de maio de 2015
" Indonésia, um dia "
um programa de rádio, matinal, os jornais sobre a mesa
não ouço e não leio. o toque do telefone
e as cartas
de seguida estilhaços de espelhos.
leio a agenda das moradas e os cartões de visita.
viver do nascer do sol até à obscuridade
e acordar no mundo do sonho.
tudo se transforma em apontamentos enfadonhos.
fragmentos de lixo ansiosos por desaparecerem.
a vida verdadeira é um sonho inocente.
tão curto e exasperante. ou sobressalto
estranho e ridículo.
mas o mundo onde vives
é uma consciência enganadora
que mais tarde se transformará num episódio
com pouco de interessante para contar.
Herliany, Dorothea Rosa. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 261 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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quarta-feira, 13 de maio de 2015
" Eu "
Se chegar o meu momento
Não quero que ninguém me seduza
Nem tu
Não preciso desses soluços
Sou um animal selvagem
Rejeitado do rebanho
Deixa a bala perfurar a minha pele
Vou defender-me e espernear
Corro levando a ferida e o veneno
Corro
Até não sentir dor
Escarnecendo
Eu ainda quero viver mil anos
Anwar, Chairil. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 194 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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segunda-feira, 11 de maio de 2015
" A Magnólia "
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
Jorge, Luiza Neto. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 134 ( Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler e Danny Susanto).
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domingo, 10 de maio de 2015
" Creio nos Anjos "
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;
Creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve antes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro.
ÁMEN
Correia, Natália. Kumpulan Puisi: Indonesia, Portugal, Malaysia - Antologia de Poéticas. Jakarta: Penerbit PT Gramedia Pustaka Utama, 2008, p 140 (Disusun Oleh/ Coordenação: Maria Emília Irmler, Danny Susanto).
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sexta-feira, 8 de maio de 2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Neste inverno, num dia em que, cheio de gripe, observava do meu leito o mais desolado céu que se possa imaginar, apercebi-me de dois pássaros (que outra coisa poderia ser?) perseguindo-se um ao outro, num perfeito ritual amoroso sobre aquele fundo lúgubre. Um tal espetáculo acaba por nos reconciliar com a morte, e talvez mesmo com a vida.
Cioran. Cahiers 1957 - 1972. Paris: Gallimard, 2002, p 34 (Tradução minha).
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terça-feira, 5 de maio de 2015
Foi eleita a Lista A dos Órgãos Associativos do P.E.N. Clube Português (lista única) para o
triénio 2015-2017.
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É composta pelos seguintes membros:
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Direção :
Teresa Salema (Presidente)
Maria João Cantinho (Secretária)
Victor Oliveira Mateus (Tesoureiro)
António Carlos Cortez (Vogal)
Rita Taborda Duarte (Vogal);
José Viale Moutinho (Suplente)
Ricardo Gil Soeiro (Suplente)
.
Mesa da Assembleia Geral:
Paula Morão (Presidente)
Francisco Belard (1º Secretário)
Paula Mendes Coelho (2ª Secretária)
.
Conselho Fiscal:
José Manuel Vasconcelos (Presidente)
António Graça de Abreu (Vogal)
Manuel de Queiroz (Vogal)
Isabel Cristina Pinto Mateus (Suplente)
João David Pinto Correia (Suplente).
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É composta pelos seguintes membros:
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Direção :
Teresa Salema (Presidente)
Maria João Cantinho (Secretária)
Victor Oliveira Mateus (Tesoureiro)
António Carlos Cortez (Vogal)
Rita Taborda Duarte (Vogal);
José Viale Moutinho (Suplente)
Ricardo Gil Soeiro (Suplente)
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Mesa da Assembleia Geral:
Paula Morão (Presidente)
Francisco Belard (1º Secretário)
Paula Mendes Coelho (2ª Secretária)
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Conselho Fiscal:
José Manuel Vasconcelos (Presidente)
António Graça de Abreu (Vogal)
Manuel de Queiroz (Vogal)
Isabel Cristina Pinto Mateus (Suplente)
João David Pinto Correia (Suplente).
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A lista teve como Delegado Mário de Carvalho e os seguintes sócios apoiantes:
Ana Luísa Amaral, Cristina Carvalho, Ernesto Rodrigues, Fernando J.B. Martinho,
Gastão Cruz, Hélia Correia, Inês Lourenço, Isabel Allegro de Magalhães, Jaime
Rocha, João Barrento, José Pedro Serra, José Tolentino de Mendonça, Lídia Jorge,
Luís Filipe Castro Mendes, Manuel Gusmão, Maria Velho da Costa, Nuno Crespo,
Ricardo Marques, Rosa Maria Martelo, Teolinda Gersão, Teresa Martins Marques,
Vítor Viçoso.
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segunda-feira, 4 de maio de 2015
Diego Nogueira: a insustentável
negritude do horizonte
Acervo
de pássaros em desuso, recente poemário de Diego
Nogueira surge-nos, num primeiro momento, como um percurso marcado por uma
certa negatividade ante o acontecer. É neste aqui onde somos chamados a estar
que se desenrola não só o caminho de um dado eu-existencial, mas também as
lucubrações do eu-poético. A melancolia e o desalento apresentam-se, por
conseguinte, como traços fundamentais deste universo poemático: “E manhãs
vigiam o sono / de uma alma enraizada numa precária geografia.” (p. 7); “Pouco
a pouco vai engolindo a terra / sua física sem luz, seu estado de morte.” (p.
9); “Morre a cor de excessiva luz. / Meninos lamentam a tortura da carne / é o
pecado a penetrar a raiz.” (p. 22). Neste solo eivado de uma melancolia por
vezes sem remissão irrompem – em pouquíssimos casos – sinais de persistência:
“É tarde e minhas mãos ainda trabalham / na tentativa de traçar o caminho / dos
espíritos.” (p. 34) e de imprecação por uma certa positividade: “Poder cantar
tuas águas / nas mãos reter toda a vida. / (…) Inaugurar gozo e caule / ser de
jasmins, gerânios, túlipas.” (p. 5), no entanto, estes elementos agora focados
possuem um carácter acidental e são aquilo que, por contraste, vinca o carácter nostálgico e de ferida desta
poética. Aliás, essa mesma ferida bem como a falha e a dor atravessam todo este
livro de Diego Nogueira Silvério: “O salão é deserto e a lembrança sem pátria. / De nada
ficou – um simples ruído nos porões / das árvores, uma inofensiva luz de um sol
/ que se retira.” (p. 38). A dor é, em Diego Nogueira, um espaço de silêncio
cercado pela incomunicabilidade ou por um certo ruído que, apesar de
comunicacional, mutila a autenticidade do dizer, aproximando assim este poeta
de autores que tão bem abordaram estes temas, como por exemplo Marguerite
Duras: “Elle vous demande la couleur de la mer. / Vous dites: Noire. / Elle
répond que la mer n’est jamais noire, que vous devez vous tromper.” (in La Maladie de la Mort. Paris: Les
Éditions de Minuit, 1982, p. 46), ou Nathalie Sarraute “Ai, isto misturou-se
tudo (…) Estou a ser castigado. Mais do que merecia. Por ter falhado. Faltou-me
o pudor. Foi esse o meu erro (…) Eu descaí-me, foi isso… Tu não suportas. (…)
Sou ridículo. Já não sei o que digo.” (in O
Silêncio. Lisboa: Livros Cotovia, 2012, p. 14). Este hiato entre o eu e o
outro, quer ao nível dos afectos quer ao nível do dizer, brota na escrita de Diego
Nogueira nos mais singulares momentos: “Feliz do homem que sobe os degraus / da
solidão e no último andar dessa serpente / encontra um lugar para expandir seu
silêncio,” (p. 32); “Em tuas américas cresci / - e mesmo sendo uno - / morei
entre dois continentes: / palavras.” (p. 35). É neste território, e consciente
do que tudo nele é efémero e lacunar, que o poeta firma a ousadia da sua arte.
O poema 4 do ciclo 15 Poemas sobre Rosas enfatiza
o papel desse ser condenado a escutar e a burilar não só o que vivencia, mas
sobretudo o que a memória lhe testemunha como Acervo de pássaros em desuso:
4
Rosa, isolada arquitectura
tudo
que padece na língua do poeta.
E manhãs que
vigiam o sono
de
uma alma enraizada numa precária geografia.
O que não renega a memória.
Quem
só negoceia com pássaros.
Trágico disfarce
de se
ter em múltiplas primaveras.
(p 7)
A tragicidade e o desalento deste mercador
de pássaros aparece-nos ainda em poemas como “Rouxinol” (p 19) e “Cigarra” (p
25); o horizonte deste almocreve de sentires e inquietações é, portanto, um “
horizonte de enferma claridade” (p 24), um alvo com sabor a precipício e onde
até o próprio sol se afoga (cf. “O Poente”, p 41). Assim, à consternação e ao
desalento de um mundo que aparece ao olhar do poeta como uma insuportável
evidência de imperfeição e mácula acaba necessariamente por corresponder, neste
livro, uma visão da poesia, e até do próprio poeta, como algo cuja “eternidade
é o mar, sem fim próximo.” (p 25): “ (…) O peito do poeta/ é um cemitério onde
o girassol sepulta seu/ último incêndio. “ (p 21). Esta correspondência aqui
focada, bem como a doçura nostálgica da escrita e do território poético
trilhado por Diego Nogueira Silvério, podem ser igualmente encontrados em muita da
poesia portuguesa da última década, escutemos, por exemplo, um excerto do
excelente O Que Dói às Aves de Alice
Vieira:
É preciso agora ter muito cuidado com as
palavras
pronunciá-las olhando sempre demoradamente para o lado
como se fossem os nomes escancarados
de amantes clandestinos
…
… …
ouve:
também tu morres agora todas as noites
um pouco mais
e em todos os lugares que te perderam
é triste o som das águas.
(cf. op. cit. pp 47 – 48 )
Repare-se na intertextualidade
entre as imagens de Alice Vieira e tudo o que temos vindo a dizer acerca de Acervo de pássaros em desuso e repare-se
igualmente no que peremptoriamente se investe em certos referentes, como por
exemplo “as águas”, conotadas, em ambos os poetas, com o devir e com uma
cadência onde a tristeza e lassidão imperam. Todavia, são outras as influências
desta poética: se de Dora Ferreira da Silva, Diego Nogueira não recolhe a
irrupção de um certo desrespeito pela Lógica da Identidade e por um universo,
por vezes mágico-animista características da obra desta autora acerca das quais
escrevi já (cf. “Devir e Mesmidade na Poesia de Dora Ferreira da Silva”, in Revista TriploV de Artes, Religiões e
Ciências. Nova série 2011, Nº 14), até porque a tecedura poética de Diego
se encontra fortemente marcada por uma imagética de cariz judaico-cristão (exº:
pecado, inferno, Lázaro, juízo final, etc.), no entanto, este poeta partilha
com Dora Ferreira da Silva a tese da modernidade que vê o poeta como tecelão de
palavras e imagens, é mesmo interessante analisar neste livro como a
arquitectura do poema se funda inicialmente na palavra, que, antecipando-se ao
conceito, edifica a consistência da imagem – apelo fulgurante ao som e a um
ritmo sincopado a fazer-nos lembrar outros pássaros: os da música de Olivier
Messiaen -, e só num momento segundo o sentido nos interpela e, mesmo assim,
recusando a linearidade discursiva; a legibilidade das imagens desta poesia e,
como dissemos já, a cognoscibilidade do seu sentido, são muitas vez conseguidas
através de subtis associações paronímicas: “(…) nas cinzas que o inverno/
deixou para trás…” (p 8); “ Deste-me a um rio e eu me fiz águia” (p 35), muitas
vezes as transfigurações semânticas no interior dos versos surgem com o intuito
de fixar o leitor ao acto que leva a cabo, veja-se, por exemplo, o verso:
“Sereno aquário em que padece tua ceda, tua vinha” (p 17), aqui quando se
espera a concordância aquário/sede, é-se fustigado por uma concordância de
outro tipo: aquário/prendimento/cerda, e o verso de imediato inflecte noutra
direcção, pois não enuncia a “tua vinda”, mas sim a “tua vinha”, já que em
ambos os casos é de um prenúncio do colher aquilo de que se fala. Mas em Dora
Ferreira da Silva, passando esta ideia da tecedura poética, Diego Nogueira Silvério vai
sobretudo encontrar a acutilância do olhar e o cuidado no dizer: pessoalmente
não consegui ler Acervo de pássaros em
desuso sem recordar o ciclo poemático doriano “Garças” (cf. “Poesia reunida”.
Rio de Janeiro: Topbooks, 1999, pp 273 – 280) e o ciclo “Transparências” (cf.
“Poemas da Estrangeira”. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 1995, pp 38 – 40). Mas
outra referência desta poesia é também João Cabral de Melo Neto com a sua opção
por um dizer “enxuto” e “que no seu ínfimo traço,/ exibe a proa e não a água”
(p 26), no entanto, apesar da preocupação com a forma do poema estar mais
interligada com o intento comunicativo em Melo Neto do que no presente
poemário, tal se deve à necessidade sentida de se operar aqui uma equilibrada
miscigenação de vozes tão díspares como são as de Dora Ferreira da Silva e de
João Cabral de Melo Neto, e tal ponto - que é simultaneamente de união de
influências e de criação de uma voz própria e autónoma - encontra-o Diogo
Nogueira naquilo que Rosa Maria Martelo diz ser intrínseco ao segundo poeta
influenciador e que, agora, podemos generalizar aos três autores: “(…) escrever
não é dissociável de ver – como se o poeta escrevesse porque vê e para ver e
dar a ver.” (in “A Forma Informe”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p 60).
No périplo poético de Diego Nogueira,
assumidamente nostálgico e sofrido, onde a “identidade é descendente” (p 10) e
“desfalecendo na partida” (p 4) - embora por breves instantes marcado pela
persistência “imóvel, em píncaros” (p 4) ou onde “nada interfere a um vigoroso
voo” (p 12) - o que predomina é o simultaneamente delicado e vigoroso solo da
incompletude, da falha, motivada sobretudo pela estrepitosa luta entre duas
instâncias: a do eterno e a do efémero (cf. poema 10 do ciclo poemático 15 poemas sobre rosas e o ciclo Lêdo Ivo ) e é exactamente aqui que a
memória vai tentando atenuar essa falha, essa iniludível incomunicabilidade
(cf. a epígrafe do livro) que nem o cuidar do ver e do dizer consegue superar:
“ Lado a lado, meus senhores dormem./ Vivemos separados pelo plano que/ traçado
foi no dia do dilúvio” (cf. poema “Juízo Final”), e é essa mesma memória que,
dia-a-dia, insiste em respigar e recompor gestos, imagens e afectos, isto é,
voos que o tempo tem vindo a depositar nesse Acervo de pássaros em desuso.
Mateus, Victor Oliveira. In acervo de pássaros em desuso de Diego Nogueira Silvério. Fortaleza: Projeto Gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, pp 9 - 15.
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sexta-feira, 1 de maio de 2015
" Santa Maria Madalena " (1)
Não queiras que receba em
sofrimento. Não apareças nunca
nem me escolhas. É verdade
muitas vezes te procurei
quase sem conta
ao ardente entardecer desejei
teu lado.
Que tenho hoje para te oferecer?
O vento lá fora leva-te em
minha memória pelo escuro
penitente pl'abstracção da noite
antes de embarcares na remota
viagem.
À luz desta candeia
erra em recado o
fantasma
de onde vinha? Desde
o que se esconde e protege
na crueza do sexo -
para o morrão da luz do
azeite me quiseste, vínculo que
estremece ao menor sopro
segreda verga o
junco na areia das dunas -
a esta luz temo
a erva do verão que nasce
à minha porta.
(1) Óleo sobre cobre. Josefa de Óbidos. C. 1650
Jorge, João Miguel Fernandes. Mirleos. Lisboa: Relógio D'Água, 2015, p 76.
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