sábado, 3 de outubro de 2015


                      Apresentação do livro Efeitos de Captura de Luís Filipe Sarmento


   O presente livro de Luís Filipe Sarmento, Efeitos de Captura, apresenta-se-nos simultaneamente como um olhar analítico-crítico sobre o hoje e como um itinerário de cariz normativo, onde predominam dados aspetos salvíficos e iniciáticos. Assim, o poeta cinde a sua obra em três partes distintas que são, não só territórios devidamente caracterizados, mas também etapas hierarquizadas: abysmo, superfície, raro.
   Relativamente ao abysmo são-nos apresentadas as múltiplas falhas e imprecisões quanto aos efeitos de captura que ocorrem neste território: a apreensão sensorial e a nomeação estão indissoluvelmente ligadas a uma malsã forma de estar no mundo (1,1). Este abysmo prolonga-se também pela matéria textual adentro, fazendo-a desembocar no campo do mistério: "o texto consiste-se/ no labirinto de si/ em busca do Minotauro/ que ali não reside." (1,3). A memória, quer entendida numa perspetiva psicologista quer como veículo oculto-paranormal, tem nesta obra uma função importante, no entanto, ela funciona como um buraco negro onde a lucidez da perda se dá a cada instante, ou seja, na memória a captura está inexoravelmente ligada à erosão e ao esquecimento (1,5), por conseguinte, aquilo que no abysmo vamos capturando estará sempre marcado por um labor incessante, sempre incompleto e onde muito do que se processa acabará esfumando-se. Os movimentos de captura no abysmo alargam-se depois a múltiplas instâncias: o corpo (1,9), os objetos estéticos (1,7) e o Outro (1,6), é exatamente neste último poema que nos é dito que os órgãos sensoriais (os olhos) têm acesso às imagens que lhes são apresentadas, bem como àquelas outras que a vontade ou a convivênvia insistem em manter ocultas. Parece, pois, que a capacidade de aceder ao oculto é intrínseca ao humano, embora nem todos acedam a esse talento. Esta tese de que o não explícito pode abrir-se ao ver - sobretudo na arte -, ganha foros de cidadania no poema 15 da primeira parte da obra.
   Este poemário, como dissemos acima, apresenta-se também como um roteiro, no entanto, não messiânico no sentido da espera de uma entidade transcendente, mas de uma redenção pessoal (e também coletiva?) através de uma desocultação do escondido, que seja não só uma captura do que liberta, mas também o vivenciar desse desocultado. Portanto - e porque estamos perante propostas metafísicas e também ético-morais -, o princípio do ser, assim como o dos entes, é sair do abysmo, ultrapassar a superfície e alcançar o raro:

  ...          ...        ....            ...
A luz da superfície
nada esclarece:
intimida pelo que esconde
ao homem que se evade
do abismo fracturado
por revoltas.
O princípio do ser
é sair.
Estímulo perpétuo
da busca que retrata
uma civilização esmagada
que se tornou desejo.

                ( 1,31)


   A distinção entre o abysmo e a superfície não é uma distinção de essência, mas de gradação e de abertura na possibilidade de libertação, isto é dito nos poemas pelas variáveis que refere indistintamente num e noutro território: "(...) um poder que derrotou/ as democracias,/ esmagando-as no lodoso/ abismo dos mercados/ virulentos./ Ainda assim não será/ o fim da história." (1,32). Repare-se no último verso: a história não se finará com qualquer situação abissal - e abismal -, daí o poeta insistir: " o rebelde em fuga/ eleva o alçapão/ de acesso à superfície/ e, cego, abalança-se/ sobre o solo queimado/ de um mundo devastado(...)/ o último reduto da crença do homem planetário,/ renovado fenómeno/ de um novo equilíbio/ universal" (1,33). Vemos, pois, que apesar dos escombros, dos destroços vividos como verdadeira realidade, o homem/rebelde pode - e deve - ultrapassar essa iníqua e fraudulenta realidade para alcançar uma outra, que ele sonha, fantasia, mas também intui como possível - apesar de oculta -, já que de sua existência e sentido lobriga os sinais no marasmo do pântano.
   A segunda parte deste livro acentua a caracterização de todos os poderes maléficos que urge ultrapassar, mas coloca, de modo insofismável, a necessidade de ultrapassar o que aparece e, ao mesmo tempo, desnuda corajosamente a sua noção do mal. Aliás, Luís Filipe Sarmento torna indissociáveis estas três variáveis (necessidade de ultrapassar o aqui e agora/ o mal/ a busca do perdido e ocultado):

A primeira luz é nervosa
nesta fuga ao ventre-catástrofe.
...      ...         ...
E se Trimegisto tinha razão -
se tudo o que está em baixo
é como o que está em cima -
a evasão ao medo
será um confronto histórico
com os sequazes do dinheiro.
Não é uma luta divina
com a nova ordem mundial:
será o corpo a corpo
com a sobrevivência
em busca do berço perdido.                

                 (2,1)

Atente-se à referência a Trimegisto, que coloca esta poesia fora da linha predominante na tradição poética e filosófica ocidental, mas não deixa de tangenciar teses e procedimentos de alguns autores dessa tradição - mais pelas vivências do que pelos pressupostos, autores como Hildegarda de Bingen e Jacob Boheme.
     Quanto ao mal que se desmascara afrontosamente na superfície , ele não aparece aqui como uma essencial ausência do bem, tal como pensava Agostinho de Hipona, não é também uma realidade banal que dado contexto histórico-político pode instaurar limitando assim a responsabilidade individual tal como defendia Hanna Arendt, na superfície o conceito de mal aproxima-se - algo paradoxalmente - das teses de autores ateus como Sartre, já que o exercício desse mesmo mal implica necessariamente a escolha livre dos sujeitos, isto é, uma opção voluntária que implicará a responsabilidade do indivíduo, ou dos grupos sociais, que encetem o caminho desse mesmo mal, assim, este último é, ao nível da superfície, uma noção - e uma práxis - que contradita o dever e a própria humanidade do homem, por conseguinte, o mal é, neste livro de Luís Filipe Sarmento, e numa terminologia kantiana, radical. Concluímos, portanto, que esta obra articula, de modo exemplar, todo um itinerário de cariz ocultista com abordagens teóricas da tradição ocidental, que o poeta colhe, trabalha e integra na sua voz poética e na cosmovisão de que nos fala. Este mal é, então, "o grande ecrã/ da superfície. As câmaras/ digitais controlam os gestos,/ os detectores de emoções/ as agitações do homem em fuga." (2,2); "Deuses vulgares, sinistrados/ das hecatombes que os livros sagrados/ não conseguiram prever," (2,8); "À superfície erguem-se os templos capitalistas/ onde poucos entram prostrando-se diante dos seus deuses,/ e muitos pagam promessas falsas,/ miseravelmente escorraçados das suas habitações." (2,10)
     Perante esta superfície, que tem uma linguagem própria (Cf. 2,3) e cuja percepção é uma burla dos sentidos, perante ela só uma atitude é possível e necessária: "A arma pacífica do Não/ poderá organizar a resistência/ em defesa da História, da mudança/ e do Novo como estandarte/ do homem criador." Esta rutura, esta recusa, está intimamente associada à Obra, à arte: "Olhar-te é uma ficção/ à espera de um livro novo" (2,14); "Um poeta/ tenta capturar sensações/ do que já não há" (2,24); "(...) A literatura oficiosa/ promove detetive/ a ministro da nova ignorância" (2,26). Esta superfície é ainda esquadrinhada pelo olhar lúcido e crítico do poeta, não só quanto à sua atualidade (vejam-se as referências à Alemanha, aos países do sul, à subversão da democracia, etc.), mas também no que diz respeito ao já perdido e que urge recuperar: a integração plena e redentora no Um (Cf. 2,14), aqui a fazer-nos lembrar certos monismos nomeadamente a filosofia de Plotino. Aliás, convém referir aqui a relação que por vezes surge, ao longo da história, entre certos hermetismos e os neoplatónicos.
     Finalmente, Luís Filipe Sarmento propõe-nos neste poemário, na sua terceira parte, a passsagem "Da superfície comum/ ao território do raro" (2,33). Este raro "dissolve a ideia/do sempre banal" (3,3), "não programa nem dissimula/ o que ao olhar/ é metáfora de prodígio" (3,5). Há, no raro, um privilegiar do individual - sobretudo enquanto percurso a fazer -, da recusa da massa,  do instante e do despojamento absoluto: "Raro é atingir a plenitude do nada/ com a sensação estética de ter tudo ao seu dispor./ Neste universo, o firmamento será sempre um mistério/ que regulará a crença do homem em si/ se essa possibilidade não for conspurcada por falsos sábios." (3,17).
     Há, e para finalizar, neste itinerário proposto, um enfatizar da imaginação e da descodificação, mesmo suspeitando que a fonte originária permanecerá sempre um mistério, assim, mesmo ante esse alvo sempre a retomar, os efeitos da sua captura, geminados com a liberdade de quem procura (Cf. 3,33), não invalidam as etapas e a energia daquele que se entrega ao caminho.
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Café Império - Lisboa, 3 de outubro de 2015.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

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Short List do Prémios PEN, divulgada em 28.9.2015 para as obras de Poesia, Ensaio e Narrativa publicadas em 2014.

POESIA

A Misericórdia dos Mercados, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim)

Entrepoemas, de J. Alberto de Oliveira (Afrontamento)

Os Armários da Noite, de Alice Vieira (Caminho)

O Tempo é Renda, de Isabel Mendes Ferreira (Labirinto de Letras)

O Vidro, de Luís Quintais


ENSAIO

António Lobo Antunes. A Desordem do Olhar, de Susana João Carvalho (Texto - Leya)

Estética da Dança Clássica, de Frederico Lourenço (Cotovia)

Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, de Fernando Cabral Martins ( Assírio & Alvim)

Nova Teoria do Sebastianismo, de Miguel Real (D. Quixote)

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)


NARRATIVA

Hotel, de Paulo Varela Gomes (Tinta-da-China)

Os Memoráveis, de Lídia Jorge (D. Quixote)

Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (D. Quixote)

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora)

Vinte Degraus e Outros Contos, de Hélia Correia (Relógio D'Água)


Observação: os nomes dos júris apenas serão divulgados depois de anunciadas as obras vencedoras dos Prémios PEN 2014.
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sábado, 26 de setembro de 2015

                                 Apresentação do livro Vida sem Demão de Paulo Pego


                                                                                                   Victor Oliveira Mateus
    


      Numa primeira aproximação ao livro de Paulo Pego Vida sem Demão parece-me curial começar por um excerto de Maria Filomena Molder que nos diz: “Há uma grande diferença entre pressentir que chegámos a um lugar, onde tudo aquilo que encontramos nos precedeu, e considerar que a nossa vinda não é uma chegada, mas um momento originário que constitui a vida inteira como inauguração, exercício dos nossos poderes, estando aquilo que encontramos investido da nossa espontaneidade e da nossa construção. Neste caso não chegámos a um lugar, demos origem a um espaço que nos pertence.” (in “Simbolo, Analogia e Afinidade”, 2009, p. 13). Neste texto da autora assumem particular importância três referentes que são simultaneamente três estruturas ontológicas distintas: o espaço, o tempo e a capacidade inaugural ou redentora operada pelo sujeito poético. É neste sentido que devemos ler não só o título do livro de Paulo Pego, mas também toda a matéria poemática que nele existe. Quanto ao título, o lexema Demão acaba por nos remeter para a ideia de uma vida sem camadas ou retoques de inautenticidade, logo, estamos ante essa sucessão de momentos originários de que nos fala o texto de Maria Filomena Molder. Paulo Pego, no primeiro poema do seu livro, é perentório quanto à relação da sua escrita com este axioma simultaneamente literário e ontológico: “A minha caneta/ está/ onde sempre esteve/ na vida/ sem demão” (in Vida sem Demão, (p. 9).

     No que diz respeito à tríade acima mencionada (espaço, tempo, capacidade inaugural ou redentora) convém acrescentar que este poemário, ao falar-nos de uma dada errância no aqui, nos desvela a existência de dois planos ao nível do vivido: a vida em banalidade e a vida em autenticidade, no entanto, esta cisão entre o rotineiro e o luminoso é passível de ser ultrapassada pelo eu poético, atingindo este os tais momentos originários já referidos, ou seja, uma Vida sem Demão. Veja-se acerca disto os poemas - “Sevícias”: “Se tu és a sevícia alojada na sina/ eu sou o mosaico que lateja ao sol (...)/ Se tu és o tempo/ eu sou a faca que em crime o corta/ Se tu és o gabarito do quartzo/ eu sou a fissura da purificação” (p. 18); “Furnas”: “As amarras da pestilência são apelo de homem na bruma/ tíbia da purificação// A sagração da terra// Na carne se faz o regurgitar da devoção e do corte/ salvífico do santo espírito// A pele// Por onde passa o gêiser da criação// Tempo telúrico/ que agrupa deuses, pessoas e mistérios” (p. 34). A consciencialização destes dois planos, bem como, da necessidade de ascender àquele que dote o eu poético de um estar lúcido, cristalino e elevado aparece em vários poemas, nomeadamente em “Carta a Hélio”: “Hélio que não és nosso!// Neste 2013 que corre, estou branco da neve fundida no/ torpor de relógio de sol// (...) Tomo uma ferida/ por bicada de tais aves. De enlouquecer. Estou disposto/ a tingir a lava branca das tautologias e a transformar a/ minha bicicleta em címbalo de bronze, em flecha, para/ que possas afastar e exterminar tais bichos” (p. 10). A passagem do campo da rotina (1º plano) para o desígnio da luminosidade e da autenticidade (2º plano), denominado pelo poeta como Vida sem Demão, é feita através do amor, entendido este não apenas como um estado psico-afetivo, mas também ético-ontológico:

                              




PINTURA FAVORITA

                A minha pintura
favorita
a que fazemos
no amor

como alteramos a cor
dos lençóis
como os transformamos
em bandeiras
               
                (p. 20)
     Atente-se neste poema à relação que acaba por se estabelecer entre o amor e os lençóis arvorados em bandeira. Numa conceção menos intimista e mais social e histórica veja-se ainda esta mesma ideia no poema “Interrogação”: “Perante tanto desencontro/ e pêndulos de sal, que lugar para o amor?” (p. 26). Aliás, não é por acaso que no penúltimo poema deste livro (“Momentos”) o poeta desregula o tempo e o espaço para colocar o eu poético – e o leitor – num cenário que enfatiza os já referidos  momentos originários, a tal Vida sem Demão:

MOMENTOS          

                Em Veneza não há hora
                Os ponteiros tomam-se por fios de água
                Desregulado o tempo, o prazer vem liquefeito
Em Veneza só há momentos. E vapor

(p. 43)

André Green, no seu La Déliaison, Psychanalyse, anthropologie et littérature, chama-nos a atenção para o facto da escrita em si, no essencial, ser uma representação arbitrária, que, para ganhar sentido necessita que o leitor ligue caracteres, respeite silêncios e pontuação, articule palavras, sintagmas, etc.,  dito de outra forma: é preciso que o leitor saiba escutar o texto e apreenda – através das suas próprias representações – o que o escritor, neste caso o poeta, pretendeu representar (Cf. André Green, op. Cit. pp 18 – 42). Ora, em que medida as representações de quem lê, de quem interpreta, de quem critica, coincidem com as do poeta colocado ante o ato da escrita? Isso jamais será conhecido. O poeta, ao escrever, mostra qualquer coisa que transcreve em caracteres, traduz representações em escrita, mas, ao mesmo tempo, vela-nos todo um solo imenso, solo esse que faz Julia Kristeva, num brilhante estudo sobre o Ulisses, dizer que a glória e o desenvolvimento do espírito criativo de Joyce foi conseguido pela sua incursão num território interdito que pode perturbar a vida (Cf. Les nouvelle maladies de l’âme, p 276), contudo, é desse território fantasmático e falho de apreensão plena, que o imaginário e as representações emanam: é desta aparente fragilidade e desta incompletude que ressuma toda a riqueza da literatura e, no caso que me ocupa aqui, da poesia, condenando-nos à evidência de que todo o olhar que se debruce sobre um poemário seja sempre aproximativo e lacunar. Assim, poderemos admitir que esta Vida sem Demão possa ter um sentido mais linear e menos hermétido, do que aquele que vimos acima, ou seja, em vez de um segundo plano ético-existencial marcado pela autenticidade, pela luminosidade e pela superação do ínfimo e banal, o poeta esteja tão-só a falar da vida nua e crua – vejam-se, então, os poemas “ Crise “ ( p 12), “A crise e o nu” (13), “ Sem-abrigo” (p14), “Contorcionista” (p 15), etc., contudo, esta leitura da Vida sem Demão referindo-se (apenas) à vida nua e crua, e encumeando o social, o económico e o cultural, não exclui a proposta inicial de leitura baseada nos já referidos dois planos com a necessária passagem (ou ascenção?) do primeiro para o segundo, aliás, esta interpretação fundamenta-se também no facto desta obra ser atravessada poor conceitos marcados por uma certa religiosidade: anjo, Evangelho, purificação, sacrilégio, peregrinos, etc. Se assim for, faz sentido, que seja dado aos Açores a honra de um capítulo à parte, isto é, não deixa de ser significativo que num livro onde assomam cidades como Paris, Londres e Roterdão com alusões explícitas e implícitas ao vivencial rotineiro e urbano, seja no capítulo relativo aos Açores que se fale de: sagração da terra; gêiser da criação; tempo telúrico/ que agrupa deuses, pessoas e mistérios (in poema “Furnas”, p 34). E é esta uma das riquezas maiores deste livro de Paulo Pego, onde, para além de uma excecional  acuidade semântica e de uma imagética multipolar e  rica, o poeta nos apresenta aquilo que vislumbra como vida sem demão, ou seja, uma tecitura, que, como um caleidoscópio de cenas e vivências, jamais desiste do topo apesar das quotidianas argamassas e das gargantas cruas dos prédios:

                      MODOS

O topo. Onde os peregrinos perderam dedos e tu
Perguntas por vagar eólico das canoas. As manhãs são
Construídas na safra benta dos moínhos, que as proas já
Partiram no estuário do bazar. Restam as argamassas, as
Gargantas cruas dos prédios. Neste receio de grânulos e
De jubas, é necessário travar as cadências impunes das
Pontes e criminalizar as premissas da água. Roterdão
Como se as molas libertassem aço


 (p 42)


    Terminamos, pois, com as palavras de Gilles Deleuze, quando nos diz que “escrever é necessariamente forçar a linguagem e forçar a sintaxe, forçar a sintaxe até um certo limite, limite que se pode exprimir de várias maneiras “ ( in Abecedário, A de Animal ), mas que em Vida sem Demão de Paulo Pego tem por fito , não o chegar a lugar algum – como nos disse Filomena Molder -, mas antes em dar origem a um espaço que é pertença do eu-poético, espaço esse, que, sem camadas nem retoques, se assume sempre como uma súmula de momentos repletos de vida e inaugurais.


Livraria Pó dos Livros - Lisboa, 26 de setembro de 2015.








segunda-feira, 21 de setembro de 2015



"cuando yo te vuelva a ver
no habrá más penas ni olvido"
canta Reynaldo
ensaiando comigo
dois últimos passos de tango

há duas noites que não dormimos e
escorremos suor e acordes de bandonión
quando de manhã pedimos
as chaves no hotel

como agora     em que nos olhamos
ao espelho do elevador     e rimos
do nosso cabelo desgrenhado
colado à testa

"depois de velho é que
me deu para isto"     diz Reynaldo     repetindo
"no habrá más penas ni olvido"
enquanto nos vidros escorre uma chuva cinzenta que
nos levará amanhã a
pátrias diferentes

"ninguém é velho em Buenos Aires"
grita-nos     ofendido
o empregado da receção


   Vieira, Alice. Os armários da noite. Alfragide: Editorial Caminho, 2014, p 59.
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domingo, 20 de setembro de 2015


aprendi nas pequenas gares de província
a esperar comboios que não chegavam nunca
(ou chegavam tão atrasados que
no momento em que se avistavam
já eu tinha desistido deles)
e sempre invejei o velho Tolstoi
fugido de casa aos oitenta anos
a deixar-se morrer numa delas
no meio de toda a brancura do mundo

um dia     entre Belver e Gavião
(possivelmente nem sabes onde
isso fica)
uma velha pediu-me que lhe segurasse as mãos
porque     de repente     sentira muito medo de
morrer sozinha
(coisa que nunca deve ter passado pela
cabeça do velho russo
para quem a morte só podia ser um
brando ajuste de contas sem testemunhas)

então     entre curvas e desvios     contei-lhe
todas as curvas e desvios das minhas vidas
e ela sossegou um pouco     e disse que
eu ia ser muito feliz porque sabia
distinguir entre todos o comboio certo

aquele     explicou já na saída
que se afasta no exato momento em que
o sol desenha a nossa sombra no olhar de
quem nos deixou


    Vieira, Alice. Os armários da noite. Alfragide: Editorial Caminho, 2014, pp 32 - 33.
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    "  Caderno de linhas  "


No meu caderno de linhas
e de altivas palavras

há pensamentos errantes
de um segredo antigo.

Em baixo relevo
e caligrafia preclara

enleio linhas e linhas

de sons e pensamento
que nunca

nunca mais
acabo de escrever.


  Oliveira. J. Alberto de. Entrepoemas. Porto: Edições Afrontamento, 2014, p 38.
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sábado, 19 de setembro de 2015


  " Algures no livro "


Às vezes
sonho com o meu nome

escrito algures no livro.

E leio e leio
entre a lenha e o lume.

Na teia de frases
e linhas

arde a paixão pura.

Alguém pôs a mão
em fogo

dentro do meu nome.


   Oliveira, J. Alberto de. Entrepoemas. Porto: Edições Afrontamento, 2014, p 30.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015



(...) j'en pousse la porte de branchages. Dormir. Où est Hornig? Le feu crépite et il fait très chaud. "Hornig!" Un froissement vient du lit, dans l'ombre. Que vois-je? Le jeune cocher s'est glissé sous les fourrures. Je les soulève. Il est nu. Et maintenant, il me regarde, sans peur, sans insolence, avec ses yeux noirs, un peu brillants. Le feu projette des lueurs sur sa peau hâlée et lisse. Hornig ressemble à un jeune animal, souple, musclé, avec, tout juste au creux de la poitrine, un épi de poils, court, luisant comme une plume de merle. La situation est si extravagante que je sens ma colère royale dépassée et inutilisable. Le garçon est peut-être devenu fou? Je dis, le plus doucement possible: "Mais, Hornig, qu'est que tu fais lá?" Le jais des yeux s'embue, la bouche tremble. La voix chuchote, au comble de la honte: - "Wolk m'avait dit..." Ah! c'est Wolk. La stupéfaction me paralyse. (...) et la tête cachée sous les bras dont les muscles tremblent, Hornig pleure: - "J'ai déplu au Roi." Il ne cherche pas à se lever, à fuir; il est écrassé d'une douleur dont l'accent vrai me frappe. Je m'assieds sur le bord du lit. (...) le long de son cou, une chaînette d'or et ramènent du dos où elle avait été rejetée une médaille, que je saisis, que je scrute, en rapprochant mon visage de la chaleur violente de ce corps et de son odeur d'ambre.
   Je découvre mon profil! gravé sur une des pièces distribuées le jour de mon couronnement. Je trouve cet argument sans réplique. J'ai froid: enfim, les bruns ne sont pas mon genre.


   Fraigneau, André. Le livre de raison d'un roi fou, Louis II de Bavière. Paris: Éditions de La Table Ronde, 1994, pp 71 - 73.
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domingo, 13 de setembro de 2015





Berg, 1863.


   J'ai dix-huit ans. J'ai obtenu comme cadeau de majorité une semaine de solitude. Plus de frére, de professeurs, de courtisans. Ce caprice a fait três mauvaise impression. On eût voulu promener le prince héritier dans les rues de Munich. (...) J'aime ce petit château familier, l'air vif et pur ce grand lac de Starnberg un peu sauvage, où les hautes touffes de roseaux embarrassent le glissement des barques. L'autre matin, sous un ciel clair, j'ai ramé tout seul, puis immobilisé mon embarcation au milieu de l'eau, jusqu'à ce que celle-ci ait perdu ses rides. Je me suis penché pour voir le reflet de mon visage. Mes grands yeux plongèrent dans mes yeux et je vis courir derrière ma tête des nuages charmants. Le beau moment!
   Je me constatai, majeur, radieux et seul. J'eusse voulu me pencher suffisamment, jusqu'à toucher le reflet de mês lèvres qu'une légère palpitation de la nappe faisait bouger d'un mouvement qui ne naissait pas de mon souffle. Et cette seule, légère, frissonnante différence entre mon reflet et son modèle m'eût suffi, je crois, pour ressentir et consommer tout ce qu'on appelle l'amour.


     Fraigneau, André. Le livre de raison d'un roi fou, Louis II de Bavière. Paris: Éditions de La Table Ronde, 1994, pp 34 - 35.
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sábado, 5 de setembro de 2015



   Penso às vezes que fazer romances é difícil... e de outras vezes que é fácil. Fácil, fácil? Quero eu dizer, acessível.
   Aqueles romances de psicologia muito construída, uns bons e outros maus, não me parecem realmente dificílimos de elaborar, mas não me tentam. São artes, regalos ou luxos do espírito. O que me tenta... Bom, será melhor deter-me aqui porque levaria longe o meu fio de ideia. Neste momento reconheço perfeitamente que não estou escrevendo um romance, ou aquilo a que vulgarmente se dá esse nome. Reconstruo e não invento. Investigo a minha vida passada, sacudo-a com curiosidade, e às circunstâncias que a acompanharam. Tudo isto para mim é tema que exploro com indizível e inclassificável interesse. Tudo esteve dormindo comigo longuíssimo tempo, à espera do minuto de despertar, para naturalmente se sumir depois para sempre...
   Como disse, não estou trabalhando uma ficção, estou a desfiar sedimentos e raízes; de uma vida ou de várias.


   Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume III - começa uma vida. Lisboa: Editorial Presença, pp 74 - 75.
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terça-feira, 1 de setembro de 2015



   Se eu hoje pintasse e não escrevesse ( a literatura parece-me uma arte muito menos simbólica que a pintura), como representaria esta espécie de nebulosas mentais em que mais ou menos vivemos? Estas ilusões que as coisas nos dão? E o modo também como retemos e vamos vendo reflectir-se e repetir-se o que uma vez nos impressionou?
   Que poder do espírito é este que conserva umas impressões e elimina outras? E que as conserva sob formas que não são puramente sensoriais nem raciocinadas? À roda de uma simples impressão, que mantém geralmente o seu carácter genuíno e inédito, que ramos de novas imagens se não vão formando sempre!
   Muitas vezes julgo que não é falando nem escrevendo que nós melhor revelamos certos estados do nosso espírito, ou as suas visões. Parece-me que a linguagem se inclina abusivamente para a lógica e para a justificação. Que a falar nos recompomos e nos enfeitamos demais... Em suma, pintadas, tornadas plásticas, talvez que as nossas impressões e memórias resultassem mais sóbrias e mais nítidas que descritas.
(...) Na descrição nós rodeamo-nos de todos os elementos de composição que podemos, chocamos o assunto e damos-lhe o máximo de extensão - fugindo, quiçá, ao que lhe é essencial... Na pintura é possível que assim não seja.


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume III - Começa uma vida. Lisboa: Editorial Presença, 1993, pp 42 - 43.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015



noite. enquanto miles e coltrane
me invadem o quarto como se lhe
conhecessem o historial, penso em
ti. sopram flamenco sketches, esses
sopros a voz do ininterrupto que
aponta como tudo é anacrónico.
num conforto secreto e insosso
vou à janela e abro o quarto à
noite. pele morna salpicada de
sardas brilhantes a anos-luz.
é noite. e enfim percebo.




    Fraga, Amadeu Liberto. deriva e compósito. Lisboa: Glaciar, 2014, p 47.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

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XII 4


Ahora las diosas ya no bajan al Pireo incentivando a sus audaces protegidos, ni siquiera se sientan alrededor de Zeus padre, mirando hacia dentro del Canto V de la Ilíada, para después -prudentemente- tomar partido por Afrodita o por Atenea. Ahora las bellas y sobrehumanas ya no inspiran ni a Teócrito ni a Píndaro, ni limpian la mirada de Heródoto o de Tucídedes. Ahora las diosas ya no quieren ser inmortales y se sientan de madrugada en los bancos de Cais do Sodré bebiendo cerveza y recuperando, com el aire del río, las inflamadas mucosas nasales. Ahora las diosas - aún tan jóvenes y deseables - no bailan ya al volver de las aras de Lesbos o de Samos, perdieron las guirnaldas en el tranvía 28, rasgan sus túnicas en las terrazas de Príncipe Real y despiertan a un nuevo día - sin ni siquiera pensar en Lorca - allá por las cinco de la tarde. Ahora las diosas usan hasta pequeños esprays de bolsillo, no vaya algún fauno beodo a decir que su pecho arde   por ellas todavía.


Victor Oliveira Mateus, Negro Marfim (Ed. Labirinto, 2015. Trad. José A. García Caballero)
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terça-feira, 25 de agosto de 2015





            "  Pavimento  "


A musa não aparece, deve ter sido avisada,
e o poema não perdoa quando dás um passo
em falso. Cuidado com o que fazes
para conseguires o que queres. Tens um saco
de sal mágico, um minúsculo pára-quedas
e um sorriso destinado a confundir.
Tudo coisas que, porém, raramente funcionam
à primeira. Estando assim por tua conta,
só te falta perceber a inépcia dos travões
e o ângulo relativo no momento do impacto.


 
   Nogueira, Vítor. Segunda Voz. Lisboa: Averno, 2014, p 26.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015



                     "  Versos  "


Foi só uma vez, não posso condenar-te.
Deixaste para trás a tua própria sombra. Mas aquele
não eras tu. Não eras tu no teu perfeito juízo.


A sombra, em todo o caso, logo foi em teu socorro,
apanhando lentamente pedaços da tua vida,
versos e mais versos de proveito duvidoso.
E a verdade é que de pouco adiantou:
no final desse dia, como sempre, envelheceste.


Devias arranjar um ofício, rapaz,
um que seja útil, pôr de lado a poesia.
Quem mais recentemente declinou os teus serviços?


  
    Nogueira, Vítor. Segunda Voz. Lisboa: Averno, 2014, p 19.
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terça-feira, 18 de agosto de 2015





Trazei-me um homem honesto
a esta síria ibérica, com ele
partilharei saberes e sabores:
mesa e cama e um plano
de ruína dos muitos inimigos.


Não desdenhai minha oferta
por uma vez, que os próximos tempos
são de exuberância na multiplicação
de velhacos e canalhas, e nem será
o pior dos males!


Garantem-nos agora que já só resta
o mal para nossa enfermeira da bon-
dade, porque o bem não chega
para todos.




   Domingos, Paulo da Costa. "voici la poésie ce matin". Lisboa: Averno, 2014, p 17.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015





    " O que chegamos a entender "


No dia em que sabemos o que deixámos nesta terra,
invade-nos primeiro o desalento de tanto que não fizemos.
Depois consideramos a quem demos amor
e de quem o recebemos. Às vezes
surgem amigos do fundo da memória e dizem-nos
" sempre estivemos aqui" ;
e isso compensa-nos dos que julgávamos amigos e nos traíram,
com a naturalidade de quem também sempre ali esteve
para trair e não espera censuras,
porque essa foi a sua missão na terra.
De resto, trair e ser traído
são muitas vezes as duas faces de um mesmo rosto,
sereno e imutável
face à noite que cai.




   Mendes, Luís Filipe Castro. A misericórdia dos mercados. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 55.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015



Ó centro do prazer puro, partiste
E levas o que fui, entre arvoredos,
Como um balão fugido entre os dedos
Qual lágrima excêntrica caíste?
Eu que era tão soberbo no que eu era
Pisando sobre nuvens o meu trote
E ali engalanado fui dichote
De mim mesmo enganado fui quimera.
Ando sem gosto, amargo, sem esperança...
E agora estou tão só, oh, ando triste.
Não sei o que 'inda em mim 'inda resiste
Neste catorze de Julho... Viva a França!
Está frio. Sinto os rins. Nada me anima.
Vai alto o meu balão. Baixa auto-estima.


 
  Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 40.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nota - Segue-se um dos meus poemas preferidos e que também integrará a obra já referida.
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       COMENTARIO DE ADRIANO A YOURCENAR




Somos los viajes que hicimos, el ansia de encontrar
en el alboroto de los hombres todas las ciudades que debíamos
construir. Somos esta inmortalidad a la que los dioses
nos condenaron y que ahora disfrutamos con la irreverente
naturalidad que algunos entienden por frialdad
pedante o por un aristocratismo que en verdad
nunca sentimos. Somos el azul inconfundible del Egeo
con sus islas y templos, con sus ruinas y colinas
donde las más antiguas voces todavía se levantan,
para después enmarañarse en agitada distracción
de los hombres. Somos este vacío que quedó, esta memoria
de lo que ninguno de nosotros consigue huir: tú a vigilar
un cáncer despiadado, yo con un ahogado entre los brazos.
¡Ambos derrotados antes de tiempo! Ambos con toda
la gloria que nos insistía, a pesar de nuestro cansancio,
de nuestro aislamiento, de nuestra hambre de silencio.
Somos esta culpa por no habernos entendido,
por no haber sabido leer ternura y merecimiento,
por haber dejado escapar lo que al final era
bien nuestro por derecho y corazón. Somos este fuego
que no tiene nombre. Este monstruo que todavía nos devora
y envenena las mañanas, cuando, insomnes,
tanteamos a ciegas la penumbra y no encontramos
sus rostros, sus cuerpos que se prolongan
de nosotros, su respirar que nos insufla la vida
y cuya ausencia nos dibuja hoy esta muerte
que se aproxima. Somos este aciago anochecer,
este trémulo deambular, que, en el soplo ordenador
del mundo, espera la barca que nos devolverá
todo aquello que no cuidamos como debíamos.




                                            (Traducciones de A. P. Alencart)
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Nota - versão castelhana do poema anterior. A tradução desta Antologia é de autoria de Alfredo Perez de Alencart.
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                   «FRENTE AL ESPEJO»


                                             ni piedra de un palacio,
                                             ni piedra de una iglesia;
                                             como tú,
                                             piedra aventurera.


                                          León Felipe, en «Como tú…»




Pensarme piedra desplazada y de aventura
muy diestra por exilios sobre la tierra
y entre formas donde la vida siempre yerra
en gloria (traicionera) que poco dura.




Dibujar mi senda disconforme y pura
en patrias marcadas de odio y guerra
que en la esperanza pérfida venganza hierra
armas de vileza que mi escrito clausura.


¡Pensarme piedra y nada más! ¡Maravilla!
Como ella, ser cosa callosa y cantante
a la orilla de la vida. Entre piedritas y gravilla


también pasar sobre mí: fugaz y circunstante
en busca de aquella madrugada que brilla
en lo que de mí quedará — claro y anhelante.




                   Victor Oliveira Mateus ( Traducción de Alfredo Perez Alencart)
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Nota - será publicada este ano, em Espanha, uma Antologia com poemas meus dos últimos anos. O soneto que aqui é postado, dedicado à figura e obra de Léon Felipe, é um dos inéditos que integrará a referida obra e que aparecerá, como é óbvio, na sua versão castelhana.
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                                    Frente ao espelho 

 

                                                  ni piedra de un palacio,
                                                 ni piedra de una iglesia;
                                                 como tú,
                                                 piedra aventurera.

 

                                                     Léon Felipe, In “Como tú...”

 

 

Pensar-me pedra deslocada e d’aventura
em destreza por exílios sobre a terra
e por entre estilos onde a vida sempre erra
em glória (traiçoeira) que pouco dura.

 
Desenhar minha senda inconformada e pura
em pátrias vincadas d’ódio e guerra
que na esperança pérfida vingança ferra
armas de vileza que minha escrita mura.

 
Pensar-me pedra e nada mais! Maravilha!
Como ela ser coisa calejada e cantante
à beira da vida. Entre seixos e gravilha

 
por mim também passar: fugaz e circunstante
em busca daquela madrugada que brilha
no que de mim ficará – claro e anelante.

                

 





Não sei o que fiz antes de te amar.
Não sei que vão comércio ou vã empresa,
Que Estrada percorri, que luz acesa
Deixei pra que voltasse pra apagar.
Foi tudo um sono, um rente entorpecer.
O que fizemos nós, tão sós no mundo?
Não sei que vão pensar meditabundo
Tornou sua razão razão de ser.
Nem lembro... somos breves, uma onda
Que quebra no olhar sua saliva
E a renda delicada rende aos seixos...
Mas hoje a minha vida quero-a viva!
Pensei que eram vigílias meus desleixos...
Agora a minha noite o dia ronda.




    Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 20.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015



  " Versos do desconsolo "


fiquei com pouco tempo
para dar à claridade,
e as abelhas já não vêm
pôr mel dentro das rosas.


às vezes, a minha sombra
é um pedaço de risco,
qualquer coisa desavinda
a que o Sol quer dar sustento.


quem disse que a memória
é sempre muito antiga?


quem falou de uma aranha
para tecer a eternidade?


 
    Botelho, Emanuel Jorge. Fecho as cortinas, e espero. Lisboa: Averno, 2014, p 19.
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domingo, 9 de agosto de 2015





   " Epígrafe para um livro de horas "


resta muito pouco de tudo o que se quis;
um sorriso de bolso,
duas sextas-feiras de dar sorte,
e um quase nada de Lua.


o chão ficou sem pássaros
para catar sementes,
semeado, por inteiro, com pregos de cruz.


aqui já não se morre de morrer,
e até a morte está cansada.


e agora?




  Botelho, Emanuel Jorge. Fecho as cortinas, e espero. Lisboa: Averno, 2014, p 9.
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sábado, 8 de agosto de 2015





(...)


És apenas o rapaz debruçando-se
sobre a manhã, sobre o inconsolável


de uma morte súbita, definindo
o reconhecível corpo sob o lençol


que segue a linha do seu fim,
que exige milimétrica






reserva, prestígio de mãos hábeis,
o nada da sua morada.


Ainda abrigas a dura contenda
das serpentes no deserto?


Vais tomando-te por pedra,
pedra afagada por devorações e usuras






sem medida ou conhecimento
ou palavras que as tome


na sua espelhada dureza,
macias frondes em pedra brunida pelo vento,


pela água, pela acção
devolvida de um tempo geológico






que excede a doce sílaba
conquistada pelo pensamento.


Arde hoje, amanhã gritarás,
depois serás simplesmente oco,


o homem oco, a cabeça mineral
de olhos cerrados




    Quintais, Luís. O Vidro. Porto: Assírio & Alvim, 2014, pp 42- 45.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015



  "  A Carta  "


Senhores:
hão-de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos


Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão


Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira


Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai


Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
nas escuridão da cela


O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários


Não fui só voz:
fui eu, dona de mim, porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso


Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei


Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário


Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência


Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura


E os actos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura


E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui


Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus


Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência


Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -




  Amaral, Ana Luísa. Escuro. Porto: Assírio & Alvim, 2014, pp 52 - 54.
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terça-feira, 30 de junho de 2015

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sinal da cruz ajuda, pelo menos libera
mas Deus não acho que goste de ser invocado
entrar na sujeira da vida, lambuzar-se na lama
a não ser que Deus fosse como ele, penasse
como ele, mas daí não servia, não adiantava
não mandava em nada, não mudava nada

    Oliveira, Vera Lúcia de. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras Editora, 2014, p 61.
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lavava a roupa
e a roupa levava fiapos
de seu corpo pelo ralo
um dia ia ficar tão
rala que sumiria
pelo buraco do cano


  Oliveira, Vera Lúcia de. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras Editora, 2014, p 27.
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Podem não conseguir nada.
Podem ser meticulosa
e requintadamente sufocados.
Podem até - quem sabe? -
ser passados a fio de espada, um a um.
De tudo o que é vil e hediondo
os poderão mesmo acusar,
através de cúmplices subornados,
de servos esperando um novo degrau
na hierarquia social,
de proxenetas que na ágora vendem agora
a honra alheia como outrora o peixe podre
com baba de larva à mistura.
De tudo serão capazes tais carcereiros.
Ou melhor: de quase tudo,
já que o sabor doce e portentoso
do grande não, esse,
esse parece ter-lhes escapado de vez.

V.O.M.



sexta-feira, 26 de junho de 2015

   " Teu olho fixa a bruma "


O teu olho embebido de tristeza
vê a bruma pesada de melancolia,
Virgílio e o mar da sua fantasia,
e tu carente de absurdos e beleza.


O teu olhar é mais olho do que sente
interiormente que do visual exterior
será tua alma vagamente ausente
quem entristece a bruma da paisagem?


E face ao ciclone, ao furacão, revolto
há-de teu olho resistir mesmo feliz,
e ser abstracção do violado real?


Dividido entre o naufrágio e a monção
entre o que és e o que vês, aceno vago
e desespero interior teu olhar voga.


   Lemos, Virgílio de. A Dimensão do Desejo. Maputo: AMOLP, Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, 2009, p 106.
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...
a única luz é um fio
e não há nada a perder
nunca há alguma coisa
contrária à sua natureza
o vosso rosto levanta-se com o sol
o entorno é este pranto
dos pássaros
esperanto esperando-vos
pão e côdea reunidos
a caminho da mesma boca
sem peixe o pássaro
pode ser alcançado pelos gatos.


   Aguiar, Isabel. A Língua de esperanto dos pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 18. 
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