terça-feira, 26 de abril de 2016




les yeux
parlent ou juste
yeux qui s'ouvrent
rejettent le surplus
yeux
non mots
yeux
non promesses
je travaille avec mes yeux
à construire
à réparer
à reconstruire
quelque chose de semblable à un regard humain
à un poème d'homme
à un chant lointain de la forêt


   Pizarnik, Alejandra. Oeuvre poétique. Arles: Actes Sud, 2005, p 270 (traduit par Silvia Baron Supervielle ).

domingo, 24 de abril de 2016



                 "  Poème  "


Tu choisis l'endroit de la blessure
où nous parlons notre silence.
Tu fais de ma vie
cette cérémonie trop pure.


   Pizarnik, Alejandra. Oeuvre poétique. Arles: Actes Sud, 2005, p. 121 (traduit par Silvia Baron Supervielle).
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sexta-feira, 22 de abril de 2016



rien que la soif
et le silence
nulle rencontre

prends garde mon amour prends garde
à la silencieuse dans le désert
la voyageuse au verre vide
prends garde à l'ombre de son ombre


 Pizarnik, Alejandra. Oeuvre poétique. Arles: Actes Sud, 2005, p. 73 (traduit par Claude Couffon).
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quinta-feira, 21 de abril de 2016


       "  L'amoureuse "

cette lugubre manie de vivre
cette obscure extravagance de vivre
t'entraîne alejandra ne le nie pas.

aujourd'hui tu t'es regardée dans la glace
et ce fut triste tu étais seule
la lumière hurlait l'air chantait
mais ton aimé n'est pas revenu

tu enverras des messages tu souriras
tu agiteras tes mains ainsi il reviendra
ton aimé tant aimé

entends-tu la démente sirène qui l'enleva
le bateau aux barbes d'écume
où moururent les rires
te souviens-tu de l'ultime étreinte
ô pas d'angoisses
ris dans le mouchoir pleure aux éclats
mais ferme les portes de ton visage
pour qu'après on ne dise pas
que cette femme anoureuse c'était toi

les jours te rongent
les nuits t'accusent
la vie te fait tant tant de mal
désespérée, où vas-tu?
désespérée, c'est tout!


   Pizarnik, Alejandra. Oeuvre poétique. Arles: Actes Sud, 2005, p. 25 (traduit pas Silvia Baron Supervielle )
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Nota - esta obra pertence à coleção Le cabinet de lecture coordenada por Alberto Manguel.
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quarta-feira, 13 de abril de 2016



     "  privação de nada "

E eu disse para comigo, nada me tolhe,
nada tenho que me preencha o corpo,
a língua sem um gosto que a molhe.

Ainda ontem, ontem ainda,
quando descia a rua em forma de montanha que me levava ao fim,
ao beco sem saída, uma mulher muito nova, e já com uma criança, dizia-me
"a rua acaba logo ali", porque eu caminhava só,
e àquela hora ainda não passava ninguém nas ruas,
muitas camas estavam quentes ainda.

As pedras ficaram menos lisas neste meu quase último passeio,
poliam-me o olhar, as pedras, enquanto eu segurava o rosto,
naquele equilíbrio entre um rés-do-chão devassado
e um cego pela manhã mendigando no seu posto.

Não fora o sorriso da mulher muito jovem,
(talvez de vinte anos, a pele muito branca,
cabelo castanho e liso, pintado como se fosse a meia idade)
e perdia-me a olhar aquela caixa de esmolas
que abrigava pássaros tardios.

A mulher muito jovem segurava uma boneca
como se a quisesse proteger do vento,
calçava chinelas, vestia uma saia curta,
e era nessa mesma saia que uma menina de dois anos
se agarrava com desmedida força, presa ao mundo
num pedaço de pano. E eu sorrio em segredo,
(Daquela idade lembro-me do lenço vigoroso
da minha mãe a assoar-me o medo.)

    
  Ferra, António. A Palavra Passe. Porto: Campo das Letras Editores, 2006, pp. 57-58.
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segunda-feira, 11 de abril de 2016


   "  canalização  "

Domino a infiltração que me perturba,
imagino o prazer da cama seca à espera de
algum canalizador a olhar obra futura com desdém,
há fuga de água, há ar a mais, é preciso calafetar a alma,
não vá sair de chofre o sopro que a sustém.

Tento consertar os canos,
esgotos de mim mesmo propagados pela casa,
o resto pouco importa, é o resultado dos anos.
Que é isso do poema feito no jogo da palavra barroca,
cultismo de circunstância sem lugar para
infiltrações ou para qualquer ratazana saída da toca
obstruindo a casa onde respiro e esqueço detritos
num banho de alfazema?

Não há canalizador que me valha,
estão todos ocupados com serviços importantes, urgentes até,
e eu que me arranje,
que escreva metáforas aos canos apodrecidos pelo tempo
onde sempre correu água turva por onde se esgueirou
o que sobra de mim, ao fim do dia,
não toda essa merda conspurcando enunciados, não,
antes aquela inventada para dar lugar a outra, que sobrou
por contraste, sacrifício, teimosia.

Como era bom agora uma esplanada junto ao mar,
ouvir outra água sem saber de nada, esquecer a tubagem,
tomar batidos de leite e nata com morango, sorver o café,
percorrer uma gaivota na praia com o olhar, sentir uma aragem,
pôr fim à porcaria dos poemas encharcados de quotidiano
até cheirar mal, e depois dizer "então, como é?
Que chatice! Que é que eu vou fazer,
quem é que me vem consertar o raio do cano?"

Está roto e não há quem o remende, quem o troque por outro
asséptico e novo para durar a eternidade, sem pruridos,
como se os canos não se gastassem, e as juntas,
as ligações estranhas que fazemos sem saber porquê,
sem saber que somos infiltrados e à nascença entupidos,
até dizer basta!, quero respirar, quero escrever o que me vem
à cabeça com todos os sentidos,
depois logo se vê.


  Ferra. António A Palavra Passe. Porto: Campo das Letras Editores, 2006, pp. 27 - 28.
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sexta-feira, 8 de abril de 2016


      " XXXVIII "


Ni va ni vuelve
cuando el pájaro
            vuela por volar
                        cuando vuela
                                      por ser su vuelo.

Cuando se camina sin ir
           cuando el olvido
                       borra la sombra
                                entregarse es un saber
                                          y el abandono una danza.


    Mujica, Hugo. Cuando todo calla. Madrid: Visor Libros, 2013, p. 54.
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quinta-feira, 7 de abril de 2016



                            XXII

Algunas huellas
        no son de pasos
                    son de ausencias,
                                    no trazan, borran;

                          son el atajo hacia el final,
                                              son las que nos salvan
                                                                         del regreso.


   Mujica, Hugo. Cuando todo calla. Madrid: Visor Libros, 2013, p. 36.


Nota - Livro vencedor do "XIII Prémio Casa de América de Poesia Americana".
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quarta-feira, 6 de abril de 2016


Numa Buisenes School manifesta-se o Know How
que ultrapassa qualquer Dead Line a Low Cost.


Os olhos do anglicismo
Entram sem pedir licença
Ao jardineiro da língua
Na extensão da terra firme

E plantam todos os cardos
Ferindo a compreensão
Das nossas pontes em flores
Boca a boca de abundância
Num jardim feito de séculos
Que de mercado em mercado
Se rendeu aos compradores

    Puga, Ana Maria. Re-Cantos de Olhar. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 44.
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segunda-feira, 4 de abril de 2016


       " Único encuentro  "

                   IV

De nuevo frente a frente
como recién nacidos
que aprenden a mirar
en la mirada lúcida del otro
infringes la aduana de mi cuerpo
con el hábito límpido del aire
eludes el confín
sin pausas de gendarmes ni requisas
corzas blancas que expulsan las colinas
y este doble retozar para eximirmos
de una deuda arcaica

estás conmigo en mí estoy contigo en ti no existe
               otra certeza más pura que este instante

Lo que dura es la arena
el sótano de savia de las hojas.
Con un reloj te irás como llegaste
a esta batalla de fábulas perdidas.

En la última estación
me embiste el autobús de los adioses.
Los líquidos se empiezan a enjugar. Las horas
acaban de cumplirse. Empiezo
a recoger mis pétalos caídos por el cuarto
una hebilla
un zapato
el recato partido en seis mitades
la vista, el olfato y sus contornos.

El rito de la higiene en un salón contiguo.

Dulce y violenta intersección
Único encuentro

Te acompaño, no, no te preocupes,
la puerta que se cierra.

  Pérsico, Marisa Martinez. He muerto... y he resucitado, Antología en homenage a León Felipe. Salamanca: EDIFSA, 2015, pp 119-120 ( Antólogo y coordinador: Alfredo Pérez Alencart).
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domingo, 3 de abril de 2016


             " Único encuentro "

                        I

Baja
de tu boca a mi pecho
hasta posar la trompa
abeja
en la región convexa
de néctar
que te atrajo.
Te escaparás, alada, cuando exhale
la última ronda de suspiros
que se extingue
en la cifra de tres horas.

Por mis piernas abiertas como un plato
quiero ver tu mandíbula de toro
pastar meticulosa
en el vaivén sin prisas del verano.

Entra en el ancla, barco en la bahía
último puerto que encalló en mi pampa.
Puerto apenas fundado
puerto en ruinas.

Fui la puta de un pueblo
donde la única puerta era la tuya.
Hice sonar la aldaba
vacilante
como quien se busca a sí misma:
la palabra secreta era mi sombra.
De par en par trepé las escaleras
sin treguas de café
por tu palacio.
Hoy que esa casa no existe
no sé cómo nombrarte
estoy en un exilio sin paredes
vegeto en los rincones oblicuos del deseo
haciendo agua en todas sus esquinas.

   Pérsico, Marisa Martínez. He muerto... y he resucitado, Antología en homenage a León Felipe. Salamanca: EDIFSA, 2015, pp 117-118 (Antólogo y coordinador: Alfredo Pérez Alencart).
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Nota - Marisa Martínez Pérsico nasceu em Buenos Aires em 1978, é Doutorada em Filologia Hispânica e tem lecionado, desde 2010, Língua e Literatura Hispânicas em diversas Universidades italianas. Publicou: "Las voces de las hojas" (1998), "Poética ambulante" (2003), "Los pliegos obtusos" (2004) e "La única puerta era la tuya" (2015), livro finalista do II Prémio Internacional de Poesia Pilar Fernández Labrador, publicou cinco monografias, coodirige a revista "Cuadernos del Hipogrifo" e tem publicados mais de sessenta artigos científicos sobre língua e literatura espanhola e hispanoamericana.
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quinta-feira, 31 de março de 2016


                 XXIX

Na catedral sentei-me e li, só,
Uma magra Revista e disse,

"Estas degustações nas abóbodas
Opõem o passado e o festival,

O que está para lá da catedral, lá fora,
Balança numa canção nupcial.

Assim é sentar e balançar coisas
De um lado para o outro até ao imóvel ponto,

De uma máscara dizer que se assemelha
De outra dizer que se assemelha

Saber que o balanço ao certo não cessa,
Que a máscara é estranha, apesar de se assemelhar."

As formas estão erradas e os sons são falsos.
Os sinos são o bramido de touros.

Porém o ilustre franciscano nunca foi
Ele mesmo senão neste fértil vitral.


   Stevens, Wallace. O Homem da Guitarra Azul & Outros Poemas. S/c.: Edições Guilhotina, 2015, p 43 ( tradução e apresentação de Luís Quintais).
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quarta-feira, 30 de março de 2016



                 XIX

Que eu possa reduzir o monstro
A mim mesmo, e que possa então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais que parte
Dele, mais que o monstruoso intérprete de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não
Estar só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas juntas numa só,
E tocar acerca do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor não de todo de mim mesmo,
Mas do que seja a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Diante do leão agrilhoado na pedra.


   Stevens, Wallace. O Homem da Guitarra Azul & Outros Poemas. S/c.: Edições Guilhotina, 2015, p. 33 (tradução e apresentação de Luís Quintais).
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segunda-feira, 28 de março de 2016


 " O encontro falhado "


Percorreste labirintos
e sempre me encontraste.
Deambulaste por ruas sem saída,
por noites sem lua
e sempre me encontravas.
Agora estás tão perto, apenas uma
estação mais à frente.
Fazes-te perdido, distante.
Não queres já encontrar-me!
Apanharás o comboio quantas vezes
achares necessário,
mas ver-me-ás em todas as estações.


 Catalán, Jeannette Núñez. Sogno e poi sono/ Sueño, luego soy. Roma: Comisso Editore, 2014, p. 56 (tradução de Victor Oliveira Mateus).
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                          4/ 7.

Nem a demanda conseguirás que
se acabe, mesmo que a ti a fortuna se confie,
nem o estudo será para teu gáudio, ainda que dos sábios inspirado,
nem te assistirá o talento, nem o consolo abrandará o teu anseio,
nem que fosse o amor podias viver livremente.
E nem mesmo o profeta ditando os versos terá discípulos
se jamais concilia os escrivães com a sua mágoa,
nem o jovem será na graça favorecido, pois ela o trairá,
nem o rio que outrora baptizaste o lembrarás
se o não voltares, na névoa, a ver primeiro.

Onde vais então para que te siga piamente? Acaso
atalharemos o país de cerradas dunas como campas,
quando na distância os dois brilharmos, os dois
entre os solenes risos de guardar silêncio?
Longe do que pensaríamos algum dia consentido,
longe de nos encontrarmos sob a funesta sina,
do que irá passar-se brevemente o saberemos:
muitas vezes vimos quanto a beleza tarda,
mas só ela tolera dispormos do mundo fugazmente
e com essa cega mágoa ir mais além.


  Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 70.
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domingo, 27 de março de 2016


                   2/ 6.

Não é difícil um homem apaixonar-se,
ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
- Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca"
e confundo já o teu rosto
com um qualquer.


   Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 32.
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domingo, 20 de março de 2016



C'est le milieu du jour: pas encore la lampe
qu'on allume, les fenêtres embuées
de désirs où ruissellent nostalgies
regrets et rêves effrités.

Vois l'aube, réconciliée avec le jour
comme la flèche, avec sa cible.
Vois mon âme qui oscille, - chute et envol
noirceur et luminescence.

Qui suis-je? demandes-tu -
imparfaite créature parmi le périssable
ne connaissant du mystère que sa trace visible
doutant de Dieu, sachant Dieu
au bout de la descente.

De toute histoire, je viens: granit
lande, roue, océan
- ondes millénaires
qui vibrent en moi.

Et où vais-je donc
en cette vision brûlée du monde
où l'archer prépare sa dernière flèche?


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983 - 2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 257 (Choix et préface de Pierre Nepveu).
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sábado, 19 de março de 2016



Il n'y a pas de commencement.
L'amour, le silence, la lumière
sont là depuis toujours.

Le commencement est en nous
depuis toujours.


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983 - 2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 186 ( Choix et préface de Pierre Nepveu).
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quinta-feira, 17 de março de 2016



Quelq'un vient et repart, nous laisse avec ces
murs qui tiennent bon, ces chemins séparés
d'eux-mêmes, ces corps remplis de cellules inem-
ployées, de crevasses où disparaissent nos espoirs.
Quelqu'un vient, nous abandonne. Seule reste la
vie complice du jour et de la nuit, seul demeure ce
peu de paysage auquel nous sommes amarrés
comme à une voix qui fait battre le coeur.

Nous ne connaîtrons peut-être jamais ce qu'il y a
de plus secret dans une seconde qui blesse ou
guérit d'une autre seconde; peut-être ne saurons-
nous jamais aimer avec ces mains de fragiles
émotions qui nous élèvent et nous engloutissent,
peut-être vivrons-nous à jamais avec des lettres
inachevées, perdues, illisibles.


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983-2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 111 ( Choix et préface de Pierre Nepveu).
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terça-feira, 15 de março de 2016


Chora, chora tudo o que perdeste
E junta às lágrimas quanto te ficou
Por fazer. O teu lamento é coisa

Menor, como tu. Remete-te à solidão
Já que tanto te odeias, ó fraco. Foge
Ainda mais do que já fugiste, não

Mereces nada além da rouca voz
A sair-te por entre os dentes sem
Capacidade de morder. No raso

Da terra que te suja já nem as ervas
Secam. Extingue os olhos, chora,
Deixa-te sozinho aí num canto.


  Almeida, Rui. A solidão como um sentido, seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, 24.
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