segunda-feira, 19 de setembro de 2016



"Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio ", Nº 1 setembro 2016.

Coordenação: Victor Oliveira Mateus

Data da Apresentação ao Público: dia 1 de outubro (sábado), 16:00, na Livraria "Pó dos Livros" - Avenida Duque de Ávila 58 A Lisboa

Apresentação: Jessica Falconi


COLABORADORES:

Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Pereira, Alberto Riogrande, Alexandre Bonafim (Brasil), Alice Fergo, Amadeu Baptista, Amadeu Liberto Fraga, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Puga, André Alves, António de Almeida Mattos, António Cândido Franco, Antonio Carlos Sechin (Brasil), António Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Casimiro de Brito, Cecília Barreira, César A. Miranda de Freitas, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Eugénia Bettencourt, Iacyr Anderson Freitas (Brasil), Inez Andrade Paes, Isabel Cristina Pires, Jeannette L. Clariond (México), Jessica Falconi ( Itália ), João Rasteiro, Jorge Velhote, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Julia Barella (Espanha), Julio Ferreira Leite, Luís Aguiar, Luís Fernando Chueca Field (Peru), Luís Filipe Pereira, Luís Filipe Sarmento, Luís Quintais, Maria Augusta Silva, Maria José Quintela, Maria Quintans, Marisa Martinez Pérsico (Argentina - Itália ), Mbate Pedro (Moçambique), Montserrat Villar González (Espanha), Orlando Barros, Paulo Inocêncio Moreira, Paulo Pêgo, Pompeu Miguel Martins, Renata Pallottini (Brasil), Renato Epifânio, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Rocha (Macau), Ruy Espinheira Filho (Brasil), Samuel Pimenta, Sergio Laignelet (Colômbia - Espanha), Vicente Alves do Ó, Xavier Oquendo Troncoso (Equador), Xosé Lois Garcia (Espanha - Galiza).
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Nota - os poetas de Língua Castelhana foram todos traduzidos para Português por Victor Oliveira Mateus à excepção do poema de Montserrat Villar González que foi traduzido por Jorge Fragoso. O poema de Xosé Lois Garcia virá em Língua Galega, O ensaio de Jessica Falconi foi escrito diretamente em Português
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domingo, 21 de agosto de 2016


          "  L'enfant  " (1)


Les Turcs ont passé lá. Tout est ruine et deuil.
Chio, l'ile des vins, n'est plus qu'un sombre écueil,
    Chio, qu'ombrageaient les charmilles,
Chio, qui dans les flots reflétait ses grands bois,
Ses coteaux, ses palais, et le soir quelquefois
    Un choeur dansant de jeunes filles.

Tout est désert. Mais non; seul près des murs noircis,
Un enfant aux yeux bleus, un enfant grec, assis,
    Courbait sa tête humiliée;
Il avait por asile, il avait pour appui
Une blanche subépine, une fleur, comme lui
    Dans le grand ravage oubliée.

Ah! pauvre enfant, pieds nus sur les rocs anguleux!
Hélas! pour essuyer les pleurs de tes yeux bleus
    Comme le ciel et comme l'onde,
Pour que dans leur azur, de larmes orageux,
Passe le vif éclair de la joie et des jeux,
    Pour relever ta tête blonde,

Que veux-tu? Bel enfant, que te faut-il donner
Pour rattacher gaiment et gaiment ramener
   En boucles sur ta blamche épaule
Ces cheveux, qui du fer n'ont pas subi l'affront,
Et qui pleurent épars autour de ton beau front,
    Comme les feuilles sur le saule?

Qui pourrait dissiper tes chagrins nébuleux?
Est-ce d'avoir ce lys, bleu comme tes yeux bleus,
   Qui d'Iran borde le puits sombre?
Ou le fruit du tuba (2), de cet arbre si grand,
Qu'un cheval au galop met, toujours en courant,
  Cent ans à sortir de son ombre?

Veux-tu, por me sourire, un bel oiseau des bois,
Qui chante avec un chant plus doux que le hautbois,
    Plus éclatant que les cymbales?
Que veux tu? fleur, beau, fruit, ou l'oiseau merveilleux?
- Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,
    Je veux de la poudre et des balles.


(1) Um dos poemas mais divulgados do livro "Les Orientales" (1829) e que fala da guerra de independência da Grécia relativamente ao império turco.  Nesta guerra rapazes jovens lutavam ao lado das forças independentistas;

(2) Árvore mítica pertencente ao paraíso muçulmano, simboliza a felicidade e a abundância.


  Hugo, Victor. Oeuvres Poétiques, Anthologie. Paris: Le Livre de Poche, 2002, pp 55-56.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2016


   
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                  "  UMA VOZ SOLITÁRIA "

  
                                ) 1 (

Solidão.
          Couraça.
                     Sou um teu sobrevivente.

O outro que restava
morreu lá longe
quando viu os pássaros acasalarem.

Solidão.
          Amarra.
                    Sou o teu salvo-conduto.

Vou, transido de medo,
por essas veredas
onde apenas parece ouvir-se
como imploram, no vento,
as brisas que insistem em amar-se.


                         )  2  (

Acompanho-me.
Faço-me outras gentes.
Vou-me repartindo.

Dou-me medo neste só
e procuro-me, sabendo
que não há forma
de que as mesas, por exemplo,
me sejam companhia.

Nem que o amor o seja.
Só este corpo inaudito em que sou
como carne
a que este sangue acrescenta o que sou
como vinho.


                        )  3  (

Passo a noite no cais
junto ao cão de três cabeças.
Caminhamos firmes
rumo à estação seguinte
onde ainda permanecem as folhas
do último outono.


                       )  4 (

Vale mais estar só do que muito só.
Demora mais o só a sair de sua ausência
do que uma agulha a atravessar os poros de uma palha.


                       ) 5 (

Nos dias de hoje até o céu
anda com uma solidão de tal modo azul
que se dispersa.


                        ) 6 (

Aqui me reconheço: sou como barro
que quis ser vasilha e acabou testemunho
de um ser em mim feito postigo
nesta portinhola a que me amarro

Aqui sou outra coisa que tanto temo.
Sou uma solidão que grita desenfreada,
que vibra como o mar enquanto te apequenas
em plena tempestade de um céu ameaçador.

Vejo-me como vala de uma esquina
enredada ao longo da espinha
para iludir a emoção.

E no meio deste frio que é a vida
através da minha sombra ainda indefinida
cresce-me este outro eu no coração.


                         ) 7 (

Tudo: as malas. Os corpos.
As tapeçarias. A areia. Os risos.
O condor. O jaguar. Os vasos com sede.
A sede dos castanheiros.
A macieira fustigada pelo inverno.
Tudo: até o mosquito que nos perturba
o sono, tudo se vai, definitivamente,
para a teia sem saída da solidão.


                        )  8  (

Que o solitário abra o mar de Moisés
e se afogue
nesse acontecimento.
Que nem sequer tenha tempo de olhar para trás
porque aí se converteria em estátua de sal
e estaria mais só do que nunca.
Mesmo que por pombas estivesse acompanhado.


                       ) 9 (

Virá a morte
        e a solidão far-se-á
        o menos profundo dos mistérios.



  Troncoso, Xavier Oquendo. Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 1 setembro 2016.. Fafe: Editora Labirinto, 2016, pp 91 - 94  ( Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 15 de agosto de 2016



  Final do " Canto XXXI-Sobre o retrato duma bela dama esculpido no seu túmulo "


(...)

Por natural virtude,
uma sábia harmonia
inspira ao sonhador
desejos infinitos e sublimes visões;
por isso em mar oculto, deleitoso,
erra o espírito humano,
semelhante a ousado
nadador que por gosto sulca o Oceano:
mas se um acorde dissonante
fere o ouvido, em nada
aquele paraíso se transforma num instante.

Natureza humana, como podes,
tu, que és tão baixa e frágil,
que és sombra e pó, sonhar tão alto?
E, se alguma nobreza também guardas,
como podem teus mais dignos
pensamentos e emoções tão facilmente
de tão baixas causas provir e extinguir-se?


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 237 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016



  Excerto do " Canto XIX - Ao Conde Carlo Pepoli "

(...)
Aquele a quem o culto das vestes e cabelos
e dos gestos e dos passos e os vãos cuidados (1)
de coches e cavalos, e as concorridas
salas, e as buliçosas praças, e os jardins,
aquele a quem jogos e cenas e cobiçados bailes
ocupam a noite e o dia; esse de cujos lábios
não se aparta o sorriso; ai, mas no peito,
no íntimo do peito, grave, fixa imóvel,
como coluna adamantina, mora
tédio imortal, contra o qual nada pode
vigor da juventude, e nem doce palavra
de rosados lábios a derruba,
nem o olhar terno, trémulo,
de duas negras pupilas, o olhar querido,
das coisas mortais a mais digna do céu.
Outros, como para evitar a triste
sorte humana, a mudar terras e climas
o tempo consumindo, e por mares e montes errando,
todo o orbe percorrem, os confins
dos espaços que ao homem nos infinitos
campos de par em par a natureza abriu
peregrinando alcançam. Aí, ai, sentou-se
na alta proa o negro cuidado (2), e sob
qualquer clima, qualquer céu, em vão se invoca
a felicidade, vive e reina a tristeza.


(1) As ocupações frívolas;
(2) O tédio.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 147-149 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016



   " Canto XI - O Pássaro Solitário "


Do alto da torre antiga,
ó pássaro solitário, para o campo
voas cantando até que o dia morre;
e a harmonia erra por este vale.
(...)
Ouve-se o balir dos rebanhos, o mugir do gado;
alegres, as outras aves, à compita,
pelo céu livre fazem mil rodeios,
festejando o seu melhor tempo:
tu, pensativo, olhas de lado tudo;
nem companheiros, nem voos,
não te importa a alegria, evitas os folguedos.
Cantas, e assim passa
da tua vida e do ano a mais bela flor.

Oh, como se parece
ao teu o meu viver! Divertimento e riso,
da tenra idade doce família,
e de ti, irmão da juventude, amor,
suspiro amargo dos passados dias,
não curo, não sei porquê; ou antes, deles
como que fujo para longe;
como um eremita e estranho
ao meu lugar de nascimento,
da minha vida passo a primavera. (...)

Tu, pássaro solitário, chegado ao fim
do tempo de vida que os astros te concedem,
da tua existência
não te queixarás; que da natureza é fruto
cada desejo teu,
A mim, se da velhice
o aborrecido limiar
evitar não consigo,
quando aos outros estes olhos já não inspirarem sentimentos
e vazio se lhes torne o mundo e o futuro
mais enfadonho e negro que o presente,
que me parecerá de tal desejo?
E destes anos meus? E de mim próprio?
Oh! arrepender-me-ei, e muitas vezes,
mas inconsolável, voltar-me-ei para trás.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 103-105 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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domingo, 7 de agosto de 2016


   Final do "Canto VI - Bruto Menor"


(...) Para pior
caminham os tempos; e não pode confiar-se
a corruptos descendentes
a honra de egrégias mentes e a suprema
vingança dos infelizes. Que à minha volta
as penas rode o ávido escuro pássaro (1);
que a fera arremeta e a tempestade
arraste os ignotos despojos;
e o vento o nome e a minha memória acolha.


(1) o corvo.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 71 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Na última semana do próximo mês de setembro, será apresentada em Lisboa, em local e dia a confirmar
"CINTILAÇÕES: REVISTA DE POESIA E ENSAIO", Nº1 setembro 2016.

Coordenação: Victor Oliveira Mateus
Apresentação a cargo de: Jessica Falconi


A Revista contará com as colaborações dos seguintes POETAS E ENSAÍSTAS:
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Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Pereira, Alberto Riogrande, Alexandre Bonafim, Alice Fergo, Amadeu Baptista, Amadeu Liberto Fraga, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Puga, André Alves, António de Almeida Mattos, António Cândido Franco, Antonio Carlos Secchin, António Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Artur Coimbra, Carlos Afonso, Casimiro de Brito. Cecília Barreira, César A. Miranda de Freitas, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Eugénia Bettencourt, Iacyr Anderson Freitas, Inez Andrade Paes, Isabel Cristina Pires, Jeannette L. Clariond (1), Jessica Falconi, João Rasteiro, Jorge Velhote, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Julia Barella (1), Júlio Ferreira Leite, Luís Aguiar, Luís Fernando Chueca Field (1), Luís Filipe Pereira, Luís Filipe Sarmento, Luís Quintais, Maria Augusta Silva, Maria José Quintela, Maria Quintans, Marisa Martínez Pérsico (1), Mbate Pedro, Montserrat Villar González (2), Orlando Barros, Paulo Inocêncio Moreira, Paulo Pego, Renata Pallottini, Renato Epifânio, Ricardo Gil Soeiro, Ricardo Marques, Rui Rocha, Ruy Espinheira Filho, Samuel Pimenta, Sérgio Laignelet (1), Vicente Alves do Ó, Xavier Oquendo Troncoso (1), Xosé Lois Garcia (3).
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(1) Poetas e Poetisas de: México, Espanha, Peru, Argentina, Colômbia e Equador traduzidos para português por Victor Oliveira Mateus.
(2) Poetisa espanhola traduzida para o português por Jorge Fragoso.
(3) Poeta espanhol que virá em Língua galega.
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A equipa que esteve envolvida neste projeto agradece a todos os colaboradores a generosidade demonstrada. No meu caso específico, agradeço também a todos os poetas estrangeiros que me entregaram os seus poemas e confiaram no meu trabalho de tradução. Espero não os ter desiludido, já que os originais são autênticas obras de arte. Obrigado a todos!
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domingo, 17 de julho de 2016



    "  Nombre u Objeto "

El amor pide amor, lo pide sin cesar - Lo pide
siempre aunque se represente a sí mismo
en desencuentros. El amor es dar
lo que no se tiene a quien ni siquiera es. Mirad
al John Donne enamorado que podía
completar una naranja eterna. El creyó en el día
infinito y no asistió al Seminario
VIII de Lacan. Él inventó con sabiduría aquello
mismo que trinaba el mirlo
en su jarddín: que no existe muerte personal que
valga - que siempre se muere
en otro, al que la culpa del fracaso se transfiere.
Se trataria pues de escoger bien
la Cosa que inmóvil pase por ello y no se
aleje de nosotros. Una de dos: Nombre u Objeto.


  Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, 99.
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sexta-feira, 15 de julho de 2016



  " Un Buen Negocio "


Prevalece pues poeta lo que creaste.
El precio será tu muerte
física o civil - pues el odio
por lo que suena entre los silbos
del bosque al desvelar lo que debía
ocultarse, nunca logra que pase
inadvertido aquello que tú
amaste - bruma de lo que no podría
ser dicho en lengua alguna
y cantan tus lenguas desde el ramaje.


  Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, p. 85.
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

(Nota - A minha relação com o meu livro Regresso (2010), por razões que aqui não importam, foi sempre algo atribulada. A partir de certa altura, deixei mesmo de regressar a ele. Por outro lado, exceptuando o poema "Num café da Via Monginevro" que viria a surgir em vários blogues e Antologias, todos os outros textos do livro acabariam ignorados. Foi, pois, com alguma surpresa que acabei de encontrar, no último livro do poeta espanhol Miguel Veyrat ( El Hacha de Plata, La Isla de Siltolá, 2016) três versos de Regresso - vs. 1-3, Ainda no café - como epígrafe de uma das secções ( Pangea Pintada de Azul ) do seu livro aqui referido. Este gesto, de alguém que eu considero um Mestre - no sentido clássico do termo! - levou-me a reler esse meu livro por mim colocado à margem e levou-me também a - reconsiderando a qualidade dos poemas - fazer as pazes com a Voz Poética que há muito tempo estava encerrada, e sem remissão, em todas aquelas páginas.)
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     "  Notas Doce  "


Lo que se pudre es el tiempo
no el hombre proclamado
a imagen y semejanza
del gran arquitecto del grito.
El hombre, el que se
renueva siempre en marcas
- hermas, notas doce
que resuenan en su pecho al
compás de las estrellas:
a contar desde el verbo Domi
nante - el quinto nacido
desde la voz primera
en enviar su tono al caos solar.
El otro lado ya no existe,
ya no hay más allá: memorias
incompletas prosiguen
su latido tras la mística
droga llamada incertidumbre.
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     Veyrat, Miguel. El Hacha de Plata. Sevilla: Ediciones de La Isla de Siltolá, 2016, p. 45.
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quarta-feira, 13 de julho de 2016


 Poema 7 do ciclo " Quanto tempo dura uma geração? "


Não há nada maior ou mais antigo que o Universo
dantes acreditava-se que o Universo era uma coisa estática
só depois é que se percebeu que está em expansão
isto faz com que galáxias que já estiveram aglomeradas
fiquem de dia para dia mais distantes umas das outras
uma espécie de Pangeia cósmica
é claro que este efeito de expansão e distanciamento aplica-se
às pessoas
ao seu universo.


   Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 100 ( Prefácio de Miguel Real).
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terça-feira, 12 de julho de 2016




Não consigo escrever-lhe, sequer uma linha, sem ser
cilindrada.
Morro a cada sílaba.


   Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 59 (Prefácio de Miguel Real).
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     "  PLANO A  "


Estou nua ao abrir-te a porta, entra
e arrasta-me até à parede,
lambe-me a boca, és um cão, e
abocanha-me os mamilos, erectos,
depois, apalpa-me a cona com a mão toda
e com os dedos, afasta-me os grandes lábios,
até ao clítoris, com intenção,
e esfrega-o, hábil, nessa tarefa de fornicar mulheres,
encurralando-as
com o teu corpo, dá-me com toda a força contra o muro,
até escorrer água da pele que não sua, nunca,
e escorregar até ao chão, onde de barriga para baixo
me enfias os dedos e me fodes os buracos todos.

As palavras acabarão por vir.


    Chéu, Cláudia Lucas. Pornographia. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 23 ( Prefácio de Miguel Real).
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segunda-feira, 11 de julho de 2016



                  "  No Quiero  "

No quiero una patria que me entierre
que me traiga a la boca aquello que queríamos ser.

No quiero un amor que me fatigue
que se me suba al cuello sólo por venganza.

No quiero una madre que me proteja
si no la tengo al lado cuando el tiempo se vaya.

Sin patria, ni amor, ni madre
a dónde podré volver?


  Bilbao, Leire. (Tras)lúcidas, Poesia escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Bartleby Editores, 2016, p. 265 ( Edición de Marta López Vilar).
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A versão primeira deste poema está em língua basca:


     " Ez Dut Nahi "

Ez dut lurperatuko nauen aberririk nahi,
izan nahi genuena ahora ekarriko didanik.

Ez dut nekatuko nauen maitasunik nahi,
lepora igoko zaidanik mendeku hartzeko ez bada.

Ez dut babestuko nauen amarik nahi,
alboan izango ez badut denbora badoanean.

Ez aberri, ez maitasun, ez amarik
ez badut, nora itzuliko naiz?


    Bilbao, Leire. Idem, p. 264.
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sexta-feira, 8 de julho de 2016


TU recuerdo,
empecinado pájaro que me despierta en la noche.
Culebra que desova sobre el azúcar y el llanto.

No hay manzanas en el sacrificio
Ni joyeros de nácar girando en la ignorancia.

Solo el regurgitar de la memoria,
el acopio de años,
tu madeja infinita,
itinerante,
alrededor del corazón.

Qué se esconde al otro lado
de esa mujer que era mi madre
y enloquecia más con cada internamiento.

Tu ojo se entreabre con la insolencia de lo insomne,
de la vigilia ciega y la esperanza.

Tu ojo, madre,
eternamente abierto
como una gran pregunta.

Tu ojo centinela iluminándome,
tus palabras formando un avispero
en mitad de la infancia.


  Acquaroni, Rosana. (Tras)lúcidas, Poesía escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Bartleby Editores, 2016, p. 103 (Edición de Marta López Vilar).
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quinta-feira, 7 de julho de 2016



Qué cuenta el pájaro turbado por la tempestad?
Cómo predijo el azar de oscura fuente?
No volverá, no volverá a la muda
y dolorosa sangre de su hogar.

Quién percibe húmedas alas en la noche?
De dónde proceden vientos ajenos que no le previenen?
Nada le espera, nada lo hace avanzar:
abandona plumas en el aire donde se aliena.

Mas, si su cuerpo hallarais, preservad el agua
que duerme perdida en sus ojos desarraigados.


   Rafart, Susanna. (Tras)lúcidas, Poesía escrita por mujeres (1980-2016). Madrid: Barteby Editores, 2016, p. 69 ( Edición de Marta López Vilar ).
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terça-feira, 5 de julho de 2016


Sessão de apresentação do livro "Palimpsesto" na Biblioteca da Casa do Alentejo em Lisboa, no dia 25 de junho de 2016. Na mesa, da esquerda para a direita: Pedro Lamares, Ricardo Gil Soeiro, António Luís Catarino e Victor Oliveira Mateus.


    6. Ich bin der Engel der Verzweiflung, 1979: Heiner Muller


Anjo de desespero ou não,
aqui me tens - rendido à
mesma ladainha do vazio.
E se assim me furto a umas
quantas definições inteligíveis
é porque nem eu próprio sei
o que fazer com o que
sobra dos destroços.
Se de silêncio se faz a minha fala,
este grito negro é o meu canto.
De costas voltadas para o mundo,
amordaço o sopro e reconheço,
no abismo do que virá, o desabrigo
onde inscrevo o clamor da morte.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 6 do Volume "Anjos Necessários, Para uma Escrita do Desejo" in Palimpsesto. Porto, 2016, p. 152.
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segunda-feira, 4 de julho de 2016



   "  26. Nota de denúncia  "


Hoje é o silêncio quem reina:
esquece por momentos a persistência
de noites e invernos.
Davas-me por perdido,
mas fui eu quem te encontrou
assim levemente abandonada.
O que finalmente somos:
vozes meticulosamente alvoroçadas,
veneno atroz disputado pelo tempo.
Haverá amanhã, todavia:
não faças caso, amor desperdiçado,
e acredita no enredo de jamais ter sido.
Sabendo de antemão de segredos repartidos,
o que vai ser de nós, agora que desbaratámos
as difusas poupanças de uma vida?
Não te zangues:
se te digo tudo isto
é porque é mentira esta melancolia.
Haverá amanhã, é o que é:
o consolo chegará na forma de um cigarro
reluzente que não chegaremos a estrear.
Respirando a luz prostrada,
precisaria de saber mais:
se ainda me amas, por exemplo;
se nos pertencem os inícios e os atalhos,
se inventaremos, de novo, o fulgor intacto.
Enquanto espero pelos dias,
conformo-me com a redenção
de algum olhar teu - subtil, luciferino,
que já não rasgue oceanos de mistério.
Sei que ainda habitas debaixo
de braços, lábios e lençóis:
o que te denunciou?
Sílabas brilhando...
Não te zangues, meu amor:
estas minhas palavras
- somente puro regateio.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 26 do Volume "Bartlebys Reunidos, Para uma Ética da Impotência" in Palimpsesto. Porto: Deriva Editores, 2016, pp 95 - 96.
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domingo, 3 de julho de 2016


   "  9. Poética do voo  "


Para onde quer que decidam
rumar os meus desejos, sempre
me acompanha este infeliz defeito
de fabrico: desejar ser, como toda
a gente, não real, mas livre e certo.
E, mesmo que quisesse, não saberia
explicar tão insensato devaneio.
Imaginem só:
um inofensivo esboço inanimado,
sucumbindo perante a desmesurada
ambição de querer voar.
Sobrar-me-ia de amarras invisíveis
e, em diáfano véu me camuflando,
ensaiaria as mais empolgantes evasões.
Em voo destemido,
porém com mil e um cuidados,
passaria a pente fino
os recantos deste teu
pobre mundo tão coitado.
Tudo com o máximo das cautelas,
para não incorrer em escusados sobressaltos.

O risco dos princípios,
do ardor,
da distância aqui ardendo.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poema 9 do Volume "Da Vida das Marionetas, Para uma Dramaturgia do Corpo Inanimado" in Palimpsesto. Porto: Deriva Editores, 2016, p. 23.
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