quarta-feira, 13 de abril de 2016



     "  privação de nada "

E eu disse para comigo, nada me tolhe,
nada tenho que me preencha o corpo,
a língua sem um gosto que a molhe.

Ainda ontem, ontem ainda,
quando descia a rua em forma de montanha que me levava ao fim,
ao beco sem saída, uma mulher muito nova, e já com uma criança, dizia-me
"a rua acaba logo ali", porque eu caminhava só,
e àquela hora ainda não passava ninguém nas ruas,
muitas camas estavam quentes ainda.

As pedras ficaram menos lisas neste meu quase último passeio,
poliam-me o olhar, as pedras, enquanto eu segurava o rosto,
naquele equilíbrio entre um rés-do-chão devassado
e um cego pela manhã mendigando no seu posto.

Não fora o sorriso da mulher muito jovem,
(talvez de vinte anos, a pele muito branca,
cabelo castanho e liso, pintado como se fosse a meia idade)
e perdia-me a olhar aquela caixa de esmolas
que abrigava pássaros tardios.

A mulher muito jovem segurava uma boneca
como se a quisesse proteger do vento,
calçava chinelas, vestia uma saia curta,
e era nessa mesma saia que uma menina de dois anos
se agarrava com desmedida força, presa ao mundo
num pedaço de pano. E eu sorrio em segredo,
(Daquela idade lembro-me do lenço vigoroso
da minha mãe a assoar-me o medo.)

    
  Ferra, António. A Palavra Passe. Porto: Campo das Letras Editores, 2006, pp. 57-58.
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segunda-feira, 11 de abril de 2016


   "  canalização  "

Domino a infiltração que me perturba,
imagino o prazer da cama seca à espera de
algum canalizador a olhar obra futura com desdém,
há fuga de água, há ar a mais, é preciso calafetar a alma,
não vá sair de chofre o sopro que a sustém.

Tento consertar os canos,
esgotos de mim mesmo propagados pela casa,
o resto pouco importa, é o resultado dos anos.
Que é isso do poema feito no jogo da palavra barroca,
cultismo de circunstância sem lugar para
infiltrações ou para qualquer ratazana saída da toca
obstruindo a casa onde respiro e esqueço detritos
num banho de alfazema?

Não há canalizador que me valha,
estão todos ocupados com serviços importantes, urgentes até,
e eu que me arranje,
que escreva metáforas aos canos apodrecidos pelo tempo
onde sempre correu água turva por onde se esgueirou
o que sobra de mim, ao fim do dia,
não toda essa merda conspurcando enunciados, não,
antes aquela inventada para dar lugar a outra, que sobrou
por contraste, sacrifício, teimosia.

Como era bom agora uma esplanada junto ao mar,
ouvir outra água sem saber de nada, esquecer a tubagem,
tomar batidos de leite e nata com morango, sorver o café,
percorrer uma gaivota na praia com o olhar, sentir uma aragem,
pôr fim à porcaria dos poemas encharcados de quotidiano
até cheirar mal, e depois dizer "então, como é?
Que chatice! Que é que eu vou fazer,
quem é que me vem consertar o raio do cano?"

Está roto e não há quem o remende, quem o troque por outro
asséptico e novo para durar a eternidade, sem pruridos,
como se os canos não se gastassem, e as juntas,
as ligações estranhas que fazemos sem saber porquê,
sem saber que somos infiltrados e à nascença entupidos,
até dizer basta!, quero respirar, quero escrever o que me vem
à cabeça com todos os sentidos,
depois logo se vê.


  Ferra. António A Palavra Passe. Porto: Campo das Letras Editores, 2006, pp. 27 - 28.
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sexta-feira, 8 de abril de 2016


      " XXXVIII "


Ni va ni vuelve
cuando el pájaro
            vuela por volar
                        cuando vuela
                                      por ser su vuelo.

Cuando se camina sin ir
           cuando el olvido
                       borra la sombra
                                entregarse es un saber
                                          y el abandono una danza.


    Mujica, Hugo. Cuando todo calla. Madrid: Visor Libros, 2013, p. 54.
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quinta-feira, 7 de abril de 2016



                            XXII

Algunas huellas
        no son de pasos
                    son de ausencias,
                                    no trazan, borran;

                          son el atajo hacia el final,
                                              son las que nos salvan
                                                                         del regreso.


   Mujica, Hugo. Cuando todo calla. Madrid: Visor Libros, 2013, p. 36.


Nota - Livro vencedor do "XIII Prémio Casa de América de Poesia Americana".
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quarta-feira, 6 de abril de 2016


Numa Buisenes School manifesta-se o Know How
que ultrapassa qualquer Dead Line a Low Cost.


Os olhos do anglicismo
Entram sem pedir licença
Ao jardineiro da língua
Na extensão da terra firme

E plantam todos os cardos
Ferindo a compreensão
Das nossas pontes em flores
Boca a boca de abundância
Num jardim feito de séculos
Que de mercado em mercado
Se rendeu aos compradores

    Puga, Ana Maria. Re-Cantos de Olhar. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p. 44.
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segunda-feira, 4 de abril de 2016


       " Único encuentro  "

                   IV

De nuevo frente a frente
como recién nacidos
que aprenden a mirar
en la mirada lúcida del otro
infringes la aduana de mi cuerpo
con el hábito límpido del aire
eludes el confín
sin pausas de gendarmes ni requisas
corzas blancas que expulsan las colinas
y este doble retozar para eximirmos
de una deuda arcaica

estás conmigo en mí estoy contigo en ti no existe
               otra certeza más pura que este instante

Lo que dura es la arena
el sótano de savia de las hojas.
Con un reloj te irás como llegaste
a esta batalla de fábulas perdidas.

En la última estación
me embiste el autobús de los adioses.
Los líquidos se empiezan a enjugar. Las horas
acaban de cumplirse. Empiezo
a recoger mis pétalos caídos por el cuarto
una hebilla
un zapato
el recato partido en seis mitades
la vista, el olfato y sus contornos.

El rito de la higiene en un salón contiguo.

Dulce y violenta intersección
Único encuentro

Te acompaño, no, no te preocupes,
la puerta que se cierra.

  Pérsico, Marisa Martinez. He muerto... y he resucitado, Antología en homenage a León Felipe. Salamanca: EDIFSA, 2015, pp 119-120 ( Antólogo y coordinador: Alfredo Pérez Alencart).
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domingo, 3 de abril de 2016


             " Único encuentro "

                        I

Baja
de tu boca a mi pecho
hasta posar la trompa
abeja
en la región convexa
de néctar
que te atrajo.
Te escaparás, alada, cuando exhale
la última ronda de suspiros
que se extingue
en la cifra de tres horas.

Por mis piernas abiertas como un plato
quiero ver tu mandíbula de toro
pastar meticulosa
en el vaivén sin prisas del verano.

Entra en el ancla, barco en la bahía
último puerto que encalló en mi pampa.
Puerto apenas fundado
puerto en ruinas.

Fui la puta de un pueblo
donde la única puerta era la tuya.
Hice sonar la aldaba
vacilante
como quien se busca a sí misma:
la palabra secreta era mi sombra.
De par en par trepé las escaleras
sin treguas de café
por tu palacio.
Hoy que esa casa no existe
no sé cómo nombrarte
estoy en un exilio sin paredes
vegeto en los rincones oblicuos del deseo
haciendo agua en todas sus esquinas.

   Pérsico, Marisa Martínez. He muerto... y he resucitado, Antología en homenage a León Felipe. Salamanca: EDIFSA, 2015, pp 117-118 (Antólogo y coordinador: Alfredo Pérez Alencart).
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Nota - Marisa Martínez Pérsico nasceu em Buenos Aires em 1978, é Doutorada em Filologia Hispânica e tem lecionado, desde 2010, Língua e Literatura Hispânicas em diversas Universidades italianas. Publicou: "Las voces de las hojas" (1998), "Poética ambulante" (2003), "Los pliegos obtusos" (2004) e "La única puerta era la tuya" (2015), livro finalista do II Prémio Internacional de Poesia Pilar Fernández Labrador, publicou cinco monografias, coodirige a revista "Cuadernos del Hipogrifo" e tem publicados mais de sessenta artigos científicos sobre língua e literatura espanhola e hispanoamericana.
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quinta-feira, 31 de março de 2016


                 XXIX

Na catedral sentei-me e li, só,
Uma magra Revista e disse,

"Estas degustações nas abóbodas
Opõem o passado e o festival,

O que está para lá da catedral, lá fora,
Balança numa canção nupcial.

Assim é sentar e balançar coisas
De um lado para o outro até ao imóvel ponto,

De uma máscara dizer que se assemelha
De outra dizer que se assemelha

Saber que o balanço ao certo não cessa,
Que a máscara é estranha, apesar de se assemelhar."

As formas estão erradas e os sons são falsos.
Os sinos são o bramido de touros.

Porém o ilustre franciscano nunca foi
Ele mesmo senão neste fértil vitral.


   Stevens, Wallace. O Homem da Guitarra Azul & Outros Poemas. S/c.: Edições Guilhotina, 2015, p 43 ( tradução e apresentação de Luís Quintais).
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quarta-feira, 30 de março de 2016



                 XIX

Que eu possa reduzir o monstro
A mim mesmo, e que possa então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais que parte
Dele, mais que o monstruoso intérprete de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não
Estar só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas juntas numa só,
E tocar acerca do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor não de todo de mim mesmo,
Mas do que seja a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Diante do leão agrilhoado na pedra.


   Stevens, Wallace. O Homem da Guitarra Azul & Outros Poemas. S/c.: Edições Guilhotina, 2015, p. 33 (tradução e apresentação de Luís Quintais).
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segunda-feira, 28 de março de 2016


 " O encontro falhado "


Percorreste labirintos
e sempre me encontraste.
Deambulaste por ruas sem saída,
por noites sem lua
e sempre me encontravas.
Agora estás tão perto, apenas uma
estação mais à frente.
Fazes-te perdido, distante.
Não queres já encontrar-me!
Apanharás o comboio quantas vezes
achares necessário,
mas ver-me-ás em todas as estações.


 Catalán, Jeannette Núñez. Sogno e poi sono/ Sueño, luego soy. Roma: Comisso Editore, 2014, p. 56 (tradução de Victor Oliveira Mateus).
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                          4/ 7.

Nem a demanda conseguirás que
se acabe, mesmo que a ti a fortuna se confie,
nem o estudo será para teu gáudio, ainda que dos sábios inspirado,
nem te assistirá o talento, nem o consolo abrandará o teu anseio,
nem que fosse o amor podias viver livremente.
E nem mesmo o profeta ditando os versos terá discípulos
se jamais concilia os escrivães com a sua mágoa,
nem o jovem será na graça favorecido, pois ela o trairá,
nem o rio que outrora baptizaste o lembrarás
se o não voltares, na névoa, a ver primeiro.

Onde vais então para que te siga piamente? Acaso
atalharemos o país de cerradas dunas como campas,
quando na distância os dois brilharmos, os dois
entre os solenes risos de guardar silêncio?
Longe do que pensaríamos algum dia consentido,
longe de nos encontrarmos sob a funesta sina,
do que irá passar-se brevemente o saberemos:
muitas vezes vimos quanto a beleza tarda,
mas só ela tolera dispormos do mundo fugazmente
e com essa cega mágoa ir mais além.


  Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 70.
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domingo, 27 de março de 2016


                   2/ 6.

Não é difícil um homem apaixonar-se,
ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
- Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca"
e confundo já o teu rosto
com um qualquer.


   Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 32.
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domingo, 20 de março de 2016



C'est le milieu du jour: pas encore la lampe
qu'on allume, les fenêtres embuées
de désirs où ruissellent nostalgies
regrets et rêves effrités.

Vois l'aube, réconciliée avec le jour
comme la flèche, avec sa cible.
Vois mon âme qui oscille, - chute et envol
noirceur et luminescence.

Qui suis-je? demandes-tu -
imparfaite créature parmi le périssable
ne connaissant du mystère que sa trace visible
doutant de Dieu, sachant Dieu
au bout de la descente.

De toute histoire, je viens: granit
lande, roue, océan
- ondes millénaires
qui vibrent en moi.

Et où vais-je donc
en cette vision brûlée du monde
où l'archer prépare sa dernière flèche?


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983 - 2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 257 (Choix et préface de Pierre Nepveu).
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sábado, 19 de março de 2016



Il n'y a pas de commencement.
L'amour, le silence, la lumière
sont là depuis toujours.

Le commencement est en nous
depuis toujours.


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983 - 2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 186 ( Choix et préface de Pierre Nepveu).
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quinta-feira, 17 de março de 2016



Quelq'un vient et repart, nous laisse avec ces
murs qui tiennent bon, ces chemins séparés
d'eux-mêmes, ces corps remplis de cellules inem-
ployées, de crevasses où disparaissent nos espoirs.
Quelqu'un vient, nous abandonne. Seule reste la
vie complice du jour et de la nuit, seul demeure ce
peu de paysage auquel nous sommes amarrés
comme à une voix qui fait battre le coeur.

Nous ne connaîtrons peut-être jamais ce qu'il y a
de plus secret dans une seconde qui blesse ou
guérit d'une autre seconde; peut-être ne saurons-
nous jamais aimer avec ces mains de fragiles
émotions qui nous élèvent et nous engloutissent,
peut-être vivrons-nous à jamais avec des lettres
inachevées, perdues, illisibles.


  Dorion, Hélène. D'argile et de souffle (Poèmes choisis 1983-2000). Montréal: Éditions TYPO, 2002, p 111 ( Choix et préface de Pierre Nepveu).
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terça-feira, 15 de março de 2016


Chora, chora tudo o que perdeste
E junta às lágrimas quanto te ficou
Por fazer. O teu lamento é coisa

Menor, como tu. Remete-te à solidão
Já que tanto te odeias, ó fraco. Foge
Ainda mais do que já fugiste, não

Mereces nada além da rouca voz
A sair-te por entre os dentes sem
Capacidade de morder. No raso

Da terra que te suja já nem as ervas
Secam. Extingue os olhos, chora,
Deixa-te sozinho aí num canto.


  Almeida, Rui. A solidão como um sentido, seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, 24.
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Lado a lado, a solidão
E a memória queimada
Da infância. Falhas
Na superfície lisa do tempo

Aceleram a rapidez
Da queda no abismo.
Lado a lado, a sombra
E a cor distorcida

De um mar demasiado
Longe, onde não
Se naufraga. A cor

Do céu ausente,
Feito da ilusão de tudo
O que é lembrado.

  Almeida, Rui. A solidão como um sentido, seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, p 11.
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domingo, 13 de março de 2016


No dia em que voltares ao cais
possam os rios correr para ti
e os barcos amanhecer no horizonte.
Canta a tua prece a Vénus
e diz-lhe, humildemente,
que as ondas não percam
o sal que te destinei
em oferenda.
Os búzios
entoam o bruar
e o bruar é a tua voz
ao longe.

No dia em que voltares ao cais
possam as águas perfumar-te de azul
e o meu amor por ti zarpar num vôo
de espuma e asa livre.
Que as moiras te concedam os dias
e que os dias te sejam limpos e
fiéis
é o meu desejo.

No dia em que voltares ao cais
possa eu esperar-te a praia inteira
o sorriso e a luz.
Se no cais não me encontrares
sabe que parti.
Pertenço agora ao vento
e à areia que te saúda
os pés.

   Pimenta, Samuel. Ágora. S/c.: Livros de Ontem, 2015, pp 54 - 55.
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          "  Ulisses  "

Esperar pelo regresso
saber que virás com a
visão
      viste o mundo abrir-se
de como aplicar o gesto
e banir o mal.

Esperar que regresses
que digas o teu nome
e decretes o fim do
exílio.







Pimenta, Samuel. Ágora. S/c.: Livros de Ontem, 2015, p 42.
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sábado, 12 de março de 2016



Mais uma vez as aves    companheiras
do meu silêncio    quando cerro os olhos
me dizem que    brilhante    o dia começou.

Montanhas e depois outras montanhas.
E céus azuis ou céus de tempestades.
E com limite o circular do sangue.

Cavos sons: os adufes
repercutem angústias?
Meigos aprazimentos?


 Salvado, António. Mais uma vez as aves. S/c.: Folio Exemplar, 2015, p 41.
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sexta-feira, 11 de março de 2016



As pontas dos meus dedos
percorrem a extensão
de lugares recônditos.

A peregrinação dos meus sentidos
levando-me aos confins da descoberta
perturba ainda mais este vazio.

Nas oliveiras     pássaros
gritam a primavera
à espera de se unirem.


   Salvado, António. Mais uma vez as aves. S/c.: Folio Exemplar, 2015, p 19.
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quinta-feira, 10 de março de 2016



      "  Sala provisória  "

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

  
   Lourenço, Inês. O segundo olhar, poemas escolhidos. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2015, p 169 ( selecção, organização e posfácio de José Manuel Teixeira da Silva).
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domingo, 6 de março de 2016


            "  Irmão siamês  "

Aquela alga gotejando como um folho húmido
experimento em volta do meu braço
como uma manga de túnica ou uma renda de baile,
estou sentada numa rocha com os pés na espuma
e gozo sozinha esta beleza ocasional
sem estar preocupada com o sentido estético
de algum afecto absorvente.

Este meu sentir a meias obsessivamente
tornou-me metade do corpo demasiado pesada
estou sozinha respirando sozinha
e sinto o Verão nesta solidão
( quem disse que a solidão é um ser de Inverno?)

Ó esta liberdade de não pensar o que o outro irá pensar,
esta limpidez de uma só garganta,
esta infância do olhar e da boca,
este estado divino de me bastar às minhas sensações!

Quem disse que os amores e as partilhas são o sal da vida
não esteve nesta rocha
não encontrou esta alga
nem descobriu esta praia.


   Lourenço, Inês. O segundo olhar, poemas escolhidos. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2015, p 51 (selecção, organização e posfácio de José Manuel Teixeira da Silva).
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sábado, 5 de março de 2016



Mergulha no céu estrelado
e traz a tua chama
- Dá-me a tua mão

Toma os meus olhos cintilantes
enquanto os espinhos do Sol
perfuram a pele do mar

Sou ar que te sorve
estrela tatuada na tua pele de bronze
- Agora toma a minha mão


     Silva-Terra, Manuel. Canto Chão. S/c.: Editora Licorne, 2015, p 33 (pinturas de Leonor Serpa Branco).
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Livre na minha teia de aranha
refresco-me na sua sombra
bebo-lhe o orvalho

Os homens levantam
as arcadas da Torre
selam-nas com sangue

O escuro bate às portas
o vento abre-as
os fantasmas fecham-nas


    Silva-Terra, Manuel. Canto Chão. S/c.: Editora Licorne, 2015, p 20 (pinturas de Leonor Serpa Branco).
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sexta-feira, 4 de março de 2016


        " El príncipe rana "


Conocedor del cuento
el rey besa a la rana
para romper el hechizo

pero en vez de noble muchacha
desembruja príncipe rosa

y vivem felices y comen perdices


   Laignelet, Sergio. Cuentos sin hadas/ Contes à l'envers (édition bilingue). Toulon: Éditions Villa-Cisneros, 2015, p 48.
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quinta-feira, 3 de março de 2016


                 " El patito feo "


El pequeño pato inclina la cabeza
sobre la superfície del lago
y se contempla

un eco de risotadas apresa su mente

pelidece
temblequea

cuenta hasta tres
y se zambulle hasta el fondo
con una piedra atada a su cuerpo


 Laignelet, Sergio. Cuentos sin hadas/ Contes à l'envers (édition blingue). Toulon: Éditions Villa-Cisneros, 2015, p 36.
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Nota -  Sergio Laignelet (Bogotá, 1969) é um poeta colombiano que reside em Madrid desde 2000. A sua poesia é fortemente marcada pelo humor negro e até por um certo cinismo. Publicou "Malas lenguas" (2005) e "Cuentos sin hadas" (2010 e 2015), como antologista organizou "Gatimonio: poemas de gatos de autores hispanoamericanos". Em "Contos sem fadas" Laignelet subverte alguns dos contos e das histórias da nossa infância, muitas vezes dando-lhes um final insólito e inesperado. Os seus poemas foram já publicados em Antologias de vários países da América do Sul e de Espanha.
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quarta-feira, 2 de março de 2016


                  " Dizer um nome "


Não direi o teu nome para
nós evidente pois estás no centro
da multidão que fomos quando a outros
disputámos o óxido do ouro

Não direi o teu nome como outrora pedi
que não dissesse o meu nome quem tinha
o poder de o dizer em pleno dia:
dizer um nome é sempre uma heresia


    Cruz, Gastão. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 19.
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domingo, 28 de fevereiro de 2016


           "  Peregrinos  "


Toda essa gente dos transportes públicos
diariamente em trânsito parece
mover em sentido único um corpo que arrefece

Viste passar espectros vindos
do espelho informe em que também te vês
romeiros quem sois vós que destruís
a vossa imagem desistindo dela

Filhos fostes; trazidos na corrente
do fogo, regressais
ao presente e chamais-vos ninguém


   Cruz, Gastão. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 10.
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016


(...) a crítica não reduz o Outro ao Mesmo como a ontologia, mas põe em questão o exercício do Mesmo. Um pôr em questão do Mesmo - que não pode fazer-se na espontaneidade egoísta do Mesmo - é algo que se faz pelo Outro. Chama-se ética a esta impugnação da minha espontaneidade pela presença de Outrem. A estranheza de Outrem - a sua irredutibilidade a Mim, aos meus pensamentos e às minhas posses - realiza-se precisamente como um pôr em questão da minha espontaneidade, como ética. A metafísica, a transcendência, o acolhimento do Outro pelo Mesmo, de Outrem por Mim produz-se concretamente como a impugnação do Mesmo pelo Outro, isto é, como a ética que cumpre a essência crítica do saber. E tal como a crítica precede o dogmatismo, a metafísica precede a ontologia.
   A filosofia ocidental foi, nas maioria das vezes, uma ontologia: uma redução do Outro ao Mesmo, pela intervenção de um termo médio e neutro que assegura a inteligência do ser.
   O primado do Mesmo foi a lição de Sócrates: nada receber de Outrem a não ser o que já está em mim, como se, desde toda a eternidade, eu já possuísse o que vem de fora. Nada receber ou ser livre. A liberdade não se assemelha à caprichosa espontaneidade do livre arbítrio. O seu sentido último tem a ver com a permanência no Mesmo, que é Razão. O conhecimento é o desdobramento dessa identidade, é liberdade. O facto de a razão ser no fim de contas a manifestação de uma liberdade, neutralizando o outro e englobando-o, não pode surpreender, a partir do momento em que se disse que a razão soberana apenas se conhece a si própria, que nada mais a limita. A neutralização do Outro, que se torna tema ou objecto - que aparece, isto é, se coloca na claridade - é precisamente a sua redução ao Mesmo. Conhecer ontologicamente é surpreender no ente oposto aquilo por que ele não é este ente, este estranho, mas aquilo por que ele se trai de algum modo, se entrega, se abandona ao horizonte em que se perde e aparece, se capta, se torna conceito. Conhecer equivale a captar o ser a partir de nada ou reduzi-lo a nada, arrebatar-lhe a sua alteridade. Este resultado consegue-se desde o primeiro raio de luz. Esclarecer é retirar ao ser a sua resistência, porque a luz abre um horizonte e esvazia o espaço - entrega o ser a partir do nada. A mediação (característica da filosofia ocidental) só tem sentido se não se limitar a reduzir as distâncias.
   Pois, como é que intermediários reduziriam os intervalos entre termos infinitamente distantes? Não surgirão eles também como intransponíveis entre as balizas, até ao infinito? É necessário que em algum lado se dê uma grande "traição" para que um ser exterior e estranho se entregue a intermediários. No que se refere às coisas, verifica-se uma rendição na sua conceptualização. Quanto ao homem, tal capitulação pode obter-se pelo terror que põe um homem livre sob a dominação de um outro. No que concerne às coisas, a tarefa da ontologia consiste em captar o indivíduo (que é o único a existir) não na sua individualidade, mas na sua generalidade (a única de que há ciência). A relação com o Outro só aí se cumpre através de um terceiro, que encontro em mim. O ideal da verdade socrática assenta, portanto, na suficiência essencial do Mesmo, na sua identificação de ipseidade, no seu egoísmo. A filosofia é uma egologia.


  Levinas, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2000, pp 30 - 31.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016


(...)  il exprimait une conviction personnelle sincère que sa propre attitude allait illustrer. Toutefois, les deux hommes ne s'entendirent jamais: question de caractère et questions de principes. Pourtant, Levinas le caustique avait du répondant face à l'ironie de Scholem. Mais il était petit, l'autre grand. Il était de Kovne, um paria de l'empire, l«autre était de Berlin (...) Au-delà de ces incompatibilités de tempéraments, d'autres options les séparent, relatives à la comprehension du judaisme. Scholem avait fait très tôt le choix de l'immigration en Israel, alors que Levinas tenait et s'en tenait à la dispersion. Et, surtout, Scholem était l'historien de la mystique juive, du hassidisme et de la Kabbale envers lesquels Levinas ne se départit jamais de sa réserve lituanienne. A Jérusalem, Scholem tenait maison ouverte le samedi matin. De passage dans la ville, Levinas s'y rendit. Il ne connaissait personne. Scholem était occupé à séduire son monde. Levinas observa quelque temps, dans son coin, puis s'en fut.
     Les relations ne furent pas meilleures avec l'autre penseur israélien du siècle, Martin Buber. Levinas le "Litvak", élevé dans la tradition du Gaon de Vilna, ne pouvait partager la célébration bubérienne du hassidisme, son éloignement de la synagogue, sa façon de prôner la foi immédiate contre la Halakha, la ferveur contre le dogme. Les deux penseurs ne pouvaient même pas se rencontrer en terre philosophique, dans la contrée particulière du dialogue. Certes, dans un entretien aux Nouvelle Littéraires, en 1982, Levinas reconnait à Buber le mérite d'avoir défriché des choses dans la relation à autrui. Mais sans qu'ils s'entendent mieux pour autant, compte tenu de la diachronie chère à Levinas et fatale à l'auteur de Le Je et le Tu. (...) Brillant, menant une vaste vie sociale, ayant son mot à dire sur tout, libéral peu observant, Martin Buber en tant qu'homme n'avait pas grand-chose à voir avec Levinas...


  Lescourret, Marie-Anne. Emmanuel Levinas. Paris: Flammarion, 1994, pp 333 - 334.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016


     Dans cet Essai sur l'extériorité, Levinas va entreprendre de briser le cercle da la totalité, la domination de la tautologie qui, à ses yeux, paralysent la philosophie occidentale et, lui fermant l'accès à l'autre, en font une tradition du totalitarisme. En gros, sa bête noire, c'est Hegel, philosophe d'un État fort, modèle des États fascisants, et du dernier Reich allemand. Et, dans la préface à l'édition allemande du livre, il rend hommage aux philosophes qui lui ont fourni les instruments de cette délivrance: Martin Buber, philosophe du dialogue; Gabriel Marcel (...); Bergson (...) et Franz Rosenzweig (...).
   Levinas y reproduit une partie des raison qui ont motivé son enthousiasme pour la phénoménologie, notamment son abandon d'une forme de raisonnement physico-mathématique, de rationalisme englobant tel qu'il avait dominé jusqu'alors la philosophie et surtout la philosophie française et sorbonnarde, sous l'impérium de Léon Brunschvicg (...).
     Levinas cite ces penseurs, mais il ne fournira pas d'application terme à terme de leurs retrouvailles: il les traite de la même manière que les aures figures de l'histoire de la philosophie, comme des références, en l'occurrence des points de départ, fournissant une analyse approfondie de leur thématique seulement lorsqu'elle sert à tirer au clair son propos personnel.
(...) Si la tentation de tout ramener au même, selon la suprématie de l'être, aboutit à la violence des philosophies totaliaristes hégélienne ou heideggérienne, la philosophie de l'altérité que Levinas entreprend de dessiner ne pourra conduire, paradoxalement (l'altérité n'étant pas antagonisme mais réponse), qu'à la paix (...) Ainsi se trouvent réunies dans un seul ouvrage toutes les problématiques soulevées dans ses écrits antérieurs: l'adoption de la méthode phénoménologique, la contestation du primat de l'ontologie et du parallélisme noése-noématique, la rupture avec les philosophies de l'identité au profit d'une philosophie de l'altérité, sans oublier sa toute première interrogation, l'inquiétude juvénile issue des romans russes, sur le sens de la vie.
(...) Le problème de Levinas est de définir et de décrire une extériorité positive, absolue, qui ne soit pas que l'envers dialectique de l'intériorité, et cela afin de sortir de la dialectique de même et de l'autre que maintient toute métaphysique dans l'ornière de l'unité et de l'identité, de la puissance, donc de la guerre et de la violence. Il y parvient grâce à la phénoménologie et la possibilité qu'elle offre de penser positivement l'absence, donc, en l'occurrence, l'excès de idée sur l' ideatum, une absence, un excès, un au-delà positifs qu'il va illustrer par le langage et, plus exactement par le dialogue dont il soutien qu'il ne peut avoir lieu que dans le cadre d'une diachronie qui suscite à jamais la parole de l'un à l'autre en raison de leur séparation dans le temps, qui rend l'autre inaccessible à l'un, et ce dernier en conséquence toujours parlant à l'autre...


  Lescourret, Marie-Anne. Emmanuel Levinas. Paris; Flammarion, 1994, pp 212 - 214.
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domingo, 14 de fevereiro de 2016



(...) il n'y a pas grand-chose de commun entre la conception de la philosophie selon Brunschvicg qui se détache du spiritualisme vitaliste de ses prédécesseurs pour ne plus considérer dans l'esprit que l'intellect à l'oeuvre dans la connaissance et son histoire, et les phénoménologues qui en sont à l' intuition revisitée de l'objet derrière lequel les plus audacieux s'aventurent à la recherche du sens de l'être. D'autre part, si Levinas a reçu un professeur d'hébreu dès l'âge de six ans, le conservant aux heures les plus périlleuses "comme l'élément premier du confort", Brunschvicg est étranger au Dieu d'Isaac et de Jacob comme à la sainte Trinité. Il est riche et reconnu, Levinas est besogneux et ignoré. Comme les amants de roman-feuilleton tout les sépare, les idées, la foi, le statut social. Mais, à l'occasion de sa vénération envers Brunschvicg, Levinas révèle l'un des traits de son judaisme, qui ne cessera de s'affirmer au fil du temps: le judaisme comme humanisme, conscience universelle, dialogue avec l'Éternel "dans la clarté de l'action intellectuelle et morale". (...) Dans son refus de la confessionnalisation du judaisme, en le comprenant et en l'appliquant comme humanisme, Brunnschvicg, à sa façon, satisfait la conception éclairée du rapport à Dieu, inculquée à Levinas dès l'enfance (...).
     Levinas n'envisageait donc pas l'enseignement comme le meilleur moyen de philosopher. Il portait à l'époque un jugement sévère sur les ouvrages qui, n'étant pas ceux de Bergson, lui apparaissaient comme "inutiles", point de vue qu'il réforma rapidement si l'on en croit sa production personnelle... Il semblerait en fait qu'il eût déjà porté ses premières intuitions, sans disposer des instruments nécessaires pour les exploiter; comme s'il était lourd d'une pensée nourrrie d'interrogation existentielle russe, de morale juive, d'infini cartésien, et de ces autres connaissances, qu'il continue de renifler, et que la phénoménologie allait accoucher. Il continue de forger ses concepts en lisant, en faisant l'effort de synthétiser ce qu'il lit et de l'exposer. Il rédige nombre de recensions pour diverses revues et non des moindres (...). Il y apparaît comme le principal détenteur et défenseur de la nouvelle pensée phénoménologique en France, avec ses articles sur Husserl et Heidegger (...). En 1937, pour le trois centième anniversaire du Discours de la méthode, il assistera au congrès Descartes.
      On le rencontre dans les cercles ou les philophes s'informent et débattent. Il se rend aux soirées de Gabriel Marcel (...) il y fait la connaissance de Jean Wahl, titulaire de la chaire de philosophie à la Sorbonne à partir de 1936 et dont l'intuition et la curiosité d'esprit lui seront toujours d'un grand secours (...).


  Lescourret, Marie-Anne. Emmanuel Levinas. Paris: Flammarion, 1994, pp 104 - 107.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016



   O que é novo, na obra de Kant sobre a religião nos limites da razão, é que ele expõe uma compreensão do mal que consiste em que nos ponhamos na perspectiva do mal radical e este ponto de vista acrescenta algo ao conflito interior dualista experimentado pelo sujeito. Algo que muda a forma como esse conflito se manifesta e que resulta numa transformação global do próprio indivíduo. Este é um ponto fundamental que acompanha o que se desenvolve nas próximas linhas e acaba por reatar com os objectivos inicialmente enunciados neste ensaio, assim com a crítica à filosofia de Arendt e ao seu Eichmann.
   A experiência do mal radical, como já se referiu, conserva a estrutura básica da experiência do mal tout court, mas a mudança que se opera na relação entre as regras determina a acção boa ou má. Kant percebe com o seu incomparável génio filosófico que algo de natureza diferente resulta se na estrutura dual da experiência moral ocorrer uma inversão de domínio de um dos princípios sobre o outro. Na nossa experiência dual "normal", aquela que experimentamos ao longo de toda uma vida, é sempre o conflito entre a regra universal ou universalizante do bem (ser honesto, ser justo, encarar o outro como um fim e não como um meio, etc.) que subordina a outra motivação ou força negativa. Esta, precisamente porque possui uma realidade activa, pode com maior ou menor frequência prevalecer sobre a outra, e esse acontecimento, experimentado pelo sujeito como "mal", não abala a estrutura que mantém a regra do bem como dominante em princípio..
   É a partir daqui que outro ponto de vista é introduzido que transforma a própria qualidade do mal. A sugestão de Kant é que a regra do bem pode dar lugar ao domínio da regra do mal, ou seja o desvio causado pela motivação negativa deixa de ser algo que ocorre mais ou menos esporadicamente ou mais ou menos frequentemente ao longo da vida, mas o que tem lugar é a substituição de uma regra originalmente dominante (a regra do bem) por outra, a regra do mal. É esta substituição que precisamente muda a qualidade do mal para mal radical. Fica assim constituído um novo carácter, ou seja um outro indivíduo cuja prática do mal é a regra que determina a sua capacidade de escolha. Não que seja eliminada a presença, na consciência daquele que é capturado pelo mal radical, da regra do bem (...) mas porque apesar dessa presença, tão presente como a nossa própria sombra, a capacidade de escolha, o livre arbítrio (...) obedece ao que se experimenta como mal. Esta inapagável presença na consciência humana da regra do bem é absolutamente necessária para que se gere a experiência do mal radical: este não prescinde, pelo contrário, da presença do seu oposto, afirmando-se como grandeza negativa extrema e dominante. Neste sentido, como já vimos, Eichmann confessa ter sido assaltado por sentimentos de piedade em relação às vítimas, mas a regra que determinava o seu extermínio era dominante.


  Marques, António. A Filosofia e o Mal, Banalidade e Radicalidade do Mal de Hannah Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2015, pp 115 - 117.
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sábado, 30 de janeiro de 2016


A fragilidade do Eichmann tem o seu ponto de partida e de chegada na fórmula "banalidade do mal". Acontece que esta é mais um slogan do que o título de uma interpretação convincente e parece representar uma reviravolta da posição de Arendt sobre o mal, já defendida no livro da filósofa sobre as origens do totalitarismo. Ali o mal era radical e por isso introduzido com outra profundidade agora ausente (30).
     Interessante é o facto de Arendt confirmar com alguma ênfase o abandono da noção de um "mal radical". De facto, a seu ver, o mal não possui profundidade, a sua dimensão é, por assim dizer, bidimensional, superficial, embora se espalhe como um fungo pelas superfícies à sua disposição. Só o bem ( das Gute ) tem essa profundidade e por isso não estamos a falar aqui em conceitos simétricos. "Estou hoje convencida de que o mal é sempre só extremo, mas nunca radical, não possui nenhuma profundidade, também nenhum carácter demoníaco. Pode devastar o mundo inteiro, precisamente porque se espalha como um fungo parasita na superfície. Mas profundo e radical é o bem" (31). E a referência a Kant, que a seguir acrescenta, é muito significativa sobre a tradição filosófica em que supostamente a sua concepção do mal se insere. A seu ver o que Kant escreveu sobre o mal radical não vai muito para além do mal vulgar e este é de ordem psicológica e não metafísica (32). Porém esta é uma avaliação do conceito de mal radical em Kant que Arendt falha por completo. Veremos melhor em que consiste esse erro de interpretação e como essa espécie de "esvaziamento da profundidade" que ela faz do mal não é de todo kantiano. Avançar no esclarecimento da sua concepção do mal, tema maior do Eichmann, requer uma exploração dos fundamentais conceitos e motivos da sua filosofia. Para isso impõe-se uma consideração mais demorada da sua obra mais característica e talvez a que melhor qualifica o seu pensamento no período a que pertencem o Eichmann e a tese sobre a "banalidade do mal", The Human Condition.


(30) A editora da correspondência nota que Arendt sublinha as palavras "mal radical" na carta de Scholem. Op. cit., pág. 437.
(31) Hanna Arendt, Gershom Scholem, Der Briefwechsel, ed. cit., pág. 444.
(32) Ibid.


  Marques, António. A Filosofia e o Mal, Banalidade e Radicalidade do Mal de Hanna Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2015, p 44.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016


Fundamental é perceber que essa radicalidade não se caracteriza pelo grau de monstruosidade do crime em si, mas sim por uma estrutura da consciência e um padrão de comportamento. Por outras palavras, a experiência do mal radical não corresponde necessariamente a comportamentos de desumanidade máxima (embora possa coincidir com esta, como no caso de Eichmann), mas designa antes uma experiência que afecta, na sua essência, a consciência moral. Este é o ponto central da nossa discordância com o pensamento de Arendt: a sua filosofia, que acaba numa teoria do juízo político que recorre a Kant, rejeita simultaneamente a existência do significado filosófico de uma consciência moral e do correspondente juízo. Mas sem o reconhecimento dessas figuras, é a própria vida, aquela vida que Arendt quis que renascesse plenamente como vita activa , que soçobra face às inúmeras máscaras com as quais nela inevitavelmente se manifesta... o mal. Quando tornarmos clara a experiência do mal radical, tornar-se-á também claro que a fórmula "banalidade do mal" não serve para qualificar os actos daquele homem de carne e osso com a sua história de vida, que dava pelo nome de Eichmann. Em consequência, a avaliação filosófica de Arendt deve considerar-se fundamentalmente errada.No entanto o seu caso é muito diferente dos autores atrás referidos. Arendt não desvia o seu olhar do acontecimento que obrigava a filosofia, o direito ou a política a repensar os seus fundamentos. O seu Eichmann é ( ou deveria ser ) o início dessa auto-reflexão para a filosofia da segunda metade do século XX. O que consideramos ter sido o seu erro é ter descartado a hipótese do mal radical, substituindo este pelo mal banal, operação que, como veremos, retira o problema da ordem da ética e o transfere totalmente para a ordem política.
(...) o mal, compreendido como mal radical, é uma estrutura da consciência e um padrão de comportamento que toma as mais diversas formas. É neste sentido que o mal, o radical e não aquele que Arendt descreve como "banal", invade a vida ética e a acção política, merecendo um lugar à parte na reflexão filosófica.

Marques, António. A Filosofia e o Mal, Banalidade e Radicalidade do Mal de Hanna Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2015, pp 16 - 17.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016


(Eu traduzindo Ernesto Cardenal, que, por sua vez, traduziu Catulo. Ver post abaixo.):


Lesbia fala mal de mim diante do marido,
e o imbecil satisfaz-se com isso. Cavalgadura!
Tu não te apercebes: Se não me insultasse
e não se recordasse de mim, estaria curada.
Mas se grita assim tanto, não só se recorda de mim,
como, o que é pior ainda, está furiosa.
Ou seja: que fala muito porque
muito me quer.


   Cardenal, Ernesto. Catulo/ Marcial. Madrid: Visor Libros, 2012, p 35 (Tradução de Victor Oliveira Mateus a partir do castelhano).
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( Ernesto Cardenal tradutor de Catulo):


Lesbia habla mal de mí delante de su marido,
y el imbécil se goza con ello. Caballo!
Tú no caes en la cuenta: Si no me insultara
y no se acordara de mí, estaría curada.
Pero si grita mucho, no sólo se acuerda de mí,
sino, lo que es peor todavía, está furiosa.
O sea: que habla mucho porque me
    quiere mucho.


  Cardenal, Ernesto. Catulo/ Marcial. Madrid: Visor Libros, 2012, p 35.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016


Irreflexões

Nunca fui adepto de clube algum. Nunca fiz parte de nenhum partido político. Nunca pertenci a alguma das chamadas sociedades secretas, a lobbies de pressão ou capelinhas cuja cimentação seja uma afetividade acrítica e interesseira. Nunca pactuei com a Ditadura, apesar de ela me ter ofertado benesses que só os mais íntimos conhecem. Nunca aceitei do regime democrático qualquer coisa que violentasse a minha consciência moral. Nunca pertenci a religião alguma. Nunca me deixei fanatizar por um credo, um ídolo ou um rito. Nunca me senti integrado- apesar da minha admiração por Plotino, Porfírio e Espinosa - numa qualquer escola filosófica.. Nunca me deixei castrar por quaisquer ideários estéticos, literários, metafísicos ou outros. Nunca me deixei ficar no caminho daqueles a quem percebo que enfado. Nunca me afastei daqueles que amo ou sequer os defraudei com qualquer deslealdade intencional. Nunca me deixei consumir pelo ódio, pela inveja, ou por qualquer coisa que me possa corroer os dias. Nunca tive grandes esperanças na humanidade, apesar do que sinto por alguns dos seus membros. Nunca acreditei na perenidade da fama, nem em qualquer eternidade no aqui. Amei sempre quem quis, quando quis e onde quis. Nunca tive medo do escuro. Durmo em paz.... e espero partir também em paz. 


V.O.M.

domingo, 24 de janeiro de 2016


(Ernesto Cardenal tradutor de Catulo):


Me parece que es como los dioses
 - o más que los dioses -
el que puede sentarse junto a ti
y contemplarte y oírte reír
dulcemente.

Porque yo no puedo mirarte cara a cara,
Lesbia,
sin perder los sentidos
( Quedo sin voz )
y se me paraliza la lengua,
una ola caliente me recorre la piel,
y una doble noche me cubre los dos ojos.

Tanta cavilación es peligrosa, Catulo.
Tanta cavilación te enloquece y desespera.
El amor ha sido causa de la caída de los reyes
y de imperios.


  Cardenal, Ernesto. Catulo/ Marcial. Madrid: Visor Libros, 2012, p 21.
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sábado, 23 de janeiro de 2016

 
    " tardam as sintaxes "

tudo está em aberto
. a porta para o quintal as árvores
que resgatam restos de memórias e
um quadrado de céu pintado a
cinzento e branco que se adivinha
para lá do muro. o melro quebra num
chilreio o silêncio da sílaba que se
atém dentro do poema. o jardim
aquieta-se e os vermes dividem-se
entre o rastejar e a creditação. é o fim
de Agosto e Setembro aproxima-se
. as horas escondem-se nas prateleiras
que forram as paredes da sala enquanto
o calor que veste os nossos ossos divide-
-se entre o caminhar ao encontro da
morte e o deixar-se embalar na ausência
das aves. há um espaço reservado à melancolia
como um escárnio vivido ou uma víbora
que esquecida espreita ao canto do terraço
e devagar levanta a cabeça pronta ao
desafio. tudo está em aberto -
ressalvo - enquanto fascinada deixo-me
conduzir ao encontro evidenciado do silêncio

  Martins, Gabriela Rocha. Artroses Nozes e Vozes (Com) Sentidas. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2015, p 72 ( Prefácio de Victor Oliveira Mateus).
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terça-feira, 19 de janeiro de 2016


Está à venda no Brasil - e também em algumas livrarias de Lisboa - o Primeiro Volume de "Ensaios sobre a Obra de Maria Teresa Horta", A obra é organizada pela Profª Dra. Conceição Flores da Universidade da Cidade do Natal, Estado do Rio Grande do Norte, Brasil, e conta com a colaboração de diversos ensaístas brasileiros e alguns portugueses.
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Autores dos vários trabalhos englobados neste volume: Constância Lima Duarte, Alexandre Bonafim, Ana Luísa Amaral, Ana Raquel Fernandes, Ana Santana Souza, Angélica Soares, António Carlos Cortez, Cláudio de Sá Capuano, Conceição Flores, Fábio Mário da Silva, Gabriel Arcanjo Santos de Albuquerque, Ida Alves, Ilane Ferreira Cavalcante, Ilca Vieira de Oliveira, Joana Duarte Bernardes, Jorge Marques, Luís Maffei, Maria do Rosário A. Pereira, Maria Lúcia Dal Farra, Marlise Vaz Bridi, Miriam Bittencourt, Mônica A. Heloane Carvalho de Sant'Anna, Osmar Soares da Silva Filho, Raquel Menezes, Victor Oliveira Mateus.
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domingo, 17 de janeiro de 2016

 Já à venda em Espanha:

"Por la carretera de Sintra,Antología de poesía portuguesa contemporánea", Edición y traducción de Marta López Vilar, Ed. La Lucerna, 2015.
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 Poetas antologiados por ordem cronológica de nascimento: António Ramos Rosa, Herberto Helder, Albano Martins, Manuel Alegre, António Salvado, Maria Teresa Horta, Manuel Gusmão, Graça Pires, José Agostinho Baptista, Nuno Júdice, José do Carmo Francisco, Victor Oliveira Mateus, Gil de Carvalho, Ana Luísa Amaral, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, Rui Pires Cabral, Rui Almeida, Ruy Ventura, José Luís Peixoto, Catarina Nunes de Almeida.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016



  " A solução " (1)


Negarás todas as informações
as revistas de imprensa
as análises desses especialistas
tão último grito da moda
Não abusarás do sono
nem do telemóvel
Treinar-te-ás um pouco
na tarefa da morte
Desembaraçar-te-ás de todas as fotos
que guardaste, da tua infância
da tua adolescência, da tua pobreza
da tua antiga amada
das histórias que tua avó contava
e das saídas nocturnas
para te lançares
em certas pretensas virtudes 
Utilizarás água quente no teu duche
e lavarás os pés cada vez que descalçares as meias
Farás tuas as experiências
de todos aqueles que vierem depois de ti
Escreverás o teu nome ao contrário sobre o espelho
Comerás com a mão direita
e deixarás os restos
àqueles que merecem mais do que tu
essa tua côdea de pão ensopada
em petróleo


      Ashraf Fayad
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(1) Ver nota no final deste ciclo de poemas.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016



  " Um corvo esvoaçando sobre dois paus " (1)


Deus sentou-se no seu trono
escutando os contra-louvores
e castigando-te sem parar
por esse teu suspeito voo
sobre os cadáveres perfumados
Deus, desse seu trono,
criou todos os pássaros
e ensinou-os a voar
para procurar alimento
Ele ensinou-os
a aceitar
todas as quedas
permitidas ou interditas

Deus sentou-se no seu trono
E tu tentas agora
consertar as tuas asas
Estás aí
aprendendo uma outra lição:
aquilo que te escapou
de tudo quanto fazem os pássaros
e do que se pode ainda recuperar
d'uma plumagem ingrata
que a água não banhou o suficiente

Deus sentou-se no seu trono
Priva-te da faculdade de voar
para que - assim  -não possas
observar às escondidas
os terraços das cidades
pouco habituados ao início do teu voo
e para que as cordas de roupa
não possam ser conspurcadas
pelos dejectos que lançares

            Ashraf Fayad


(1) Tradução e fonte dos textos - em nota no final deste ciclo de poemas.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016




                " Um outro aspeto do coração " (1)


Faz com que o sino toque
Liberta esse teu inverno
de tão triste canção
O disco passa e repassa
- num magnetofone
sem marcas de humidade -
e "My funny Valentine" (2) volta a ouvir-se
O santo com o coração trespassado por uma flecha
canta
O santo canta e pede a Deus
que nos liberte de todo o mal
Deus ama-nos
Deus põe-nos à prova
usa-nos
e pede-nos contas
Ele castiga-nos
por vezes perdoa-nos
Deus, concede-me o teu perdão
E peço-lhe também por todas as mulheres
por todos os enamorados, todos


    Ashraf Fayad


(1) Ver legenda do post anterior;
(2) Canção de jazz popularizada por Chet Baker (N.d.A.)
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


     " Amnistia  "

Por baixo da linha do silêncio
os mosquitos tornam-se irritantes
Dir-se-ia que se dedicam
ao tráfico do sono
nessa tua célula de prisioneiro
como se a tua maneira de dormir
fosse uma flagrante violação
dos acordos de Genebra
e d'outros tratados internacionais

Espera
Tu não podes mijar aqui
Dança um pouco
saltita
e ameaça
a gravidade das ruínas
Cuidado!
O café é também
um diurético

Estou de pé, todos os dias
completamente nu
sem o Juízo Final
sem que alguém
toque a trombeta
pois ressuscitei
antes de tempo
Eu sou a experiência do Inferno
neste planeta chamado Terra!
A terra
este inferno sempre preparado... para os refugiados


( Poemas de Ashraf Fayad traduzidos por Victor Oliveira Mateus a partir da versão francesa, baseada esta no original árabe pelo poeta marroquino Abdellatif Laâbi. Os textos pertencem ao poemário "Instructions internes", publicado em 2007 na Editora "Dar al Farabi" de Beirute.)
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sábado, 9 de janeiro de 2016


     Organizada pelo PEN Clube Português, com o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores, realizar-se-á uma leitura de poemas e outros textos de Ashraf Fayad. Esta leitura - com carácter mundial, pois decorrerá igualmente em capitais de vários países - terá o seu lugar em Lisboa no dia 14 de janeiro, com início às 18:30, no Auditório Maestro Frederico de Freitas da Sociedade Portuguesa de Autores, na Avª Duque de Loulé, 31. Os poemas e os textos de Ashraf Fayad serão lidos - e ditos - por Teresa Salema (Presidente do PEN Clube Português), Jaime Rocha, Maria João Cantinho, António Carlos Cortez, Victor Oliveira Mateus, Ricardo Gil Soeiro (estes dois últimos responsáveis pela tradução da poesia de Fayad), Rita Taborda Duarte, Cláudia Lucas Chéu, António Ferra (1). Autores que eventualmente não poderão estar presentes, mas  que enviarão textos ou poemas para serem lidos: Maria Teresa Horta, Hélia Correia, Ana Luísa Amaral e Ricardo Marques.
     O poeta e curador de arte palestiniano Ahraf Fayad a residir na Arábia Saudita foi condenado à morte por um tribunal desse país a 17 de novembro de 2015 acusado do "crime" da apostasia. Com esta ação de leitura a nível mundial pretende-se não só divulgar o caso, mas apelar igualmente aos governos do Reino Unido e dos E.U.A. que pressionem o governo saudita relativamente a este caso e a todos os outros que envolvam os direitos civis dos cidadãos. Todos estes escritores, a nível mundial, exigem que as Nações Unidas  suspendam também a Arábia Saudita do Conselho dos Direitos Humanos até que se notem melhorias relativamente ao respeito deste país pelos direitos civis.
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(1) A lista dos autores participantes é ainda, nesta altura, provisória.
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016


   O amor é um compromisso da alma, tal como a ética; a alma deixa de se pertencer na mesma medida, já não é tão livre como quando ainda não amava. A tarefa ideal apresenta-se então exactamente como face à ética: a limitação da liberdade deve ser sentida como a liberdade superior, o que chega ao eu do exterior como uma exigência determinante deve ser entendido como uma expansão do eu. Sem dúvida que devemos repetir as palavras que o imperativo ético e o amor nos sopram, mas somos nós próprios os poetas que escreveram o que por um e outro nos foi ditado. Só há duas maneiras de ver a liberdade e a limitação da liberdade como uma só coisa: ou a determinação imperativa deve brotar do eu, ou o eu deve brotar dela. Ou o nosso eu é a instância realmente produtiva e autónoma e chega à sua plena expressão na ética e no amor, as suas exigências são as formas ideais do seu ser, que lhe resta preencher com a sua realidade; ou então estas últimas pertencem a um reino metafísico do qual o nosso eu é a irradiação, ou talvez apenas o meteco.

   Só o ser que ama é um espírito realmente livre. Pois só ele enfrenta cada fenómeno com essa capacidade ou essa propensão para tomá-lo, para apreciá-lo tal como ele é, para ver plenamente todos os seus valores, que não é limitada por nada de anterior nem de preestabelecido. O céptico, o espíirito crítico, aquele que em teoria é despido de preconceitos comportam-se de maneira diferente. Sempre notei que esses tipos de homens, com medo de perderem a sua liberdade, não oferecem um acolhimento realmente independente de tudo o que é exterior e que requer sempre um certo abandono ao fenómeno. O homem que ama é aquele que não se deixa entravar na relação interior com o outro - como, na prática, só é observável nas pessoas violentas. O ódio não é tão livre em relação aos valores positivos dos outros como o amor, pelo seu lado, em relação aos valores negativos.

  Simmel, Georg. Fragmento sobre o amor e outros textos. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2004, PP 144 - 145.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016


O que o conceito moderno do amor, arraigado na individualidade concreta, herdou de Platão foi o sentimento de que, no amor, vive algo misterioso, para além da efectiva existência e do encontro acidental, para além do efectivo desejo sensual, para além da simples relação afectiva. Também nós detectamos no amor um significado metafísico, de algum modo atemporal - só que não podemos, à maneira simples do pensamento plástico-substancialista do grego, defender o nosso ponto de vista localizando-o além do vivido imediato. Aqui também se anuncia sobretudo o grande problema do espírito moderno: tudo o que, pelo seu próprio sentido, vai para além dos dados dos fenómenos vitais deve encontrar um lugar no seu próprio interior, em vez de se transportar para um exterior igualmente espacial. Não se trata de síntese do finito e do infinito, mas de unidade natural da vida. A vida revela o que é mais do que a vida. Nesse carácter supra-individual reside - não o desconhecemos - um valor, uma libertação, um ponto de apoio, ao qual não renunciamos de todo. Do mesmo modo que na ética temos como ideia de uma "lei individual" essa severa normalização do comportamento individual que, no entanto, não podemos continuar a encerrar num imperativo geral abstracto, também deve haver algo assim como uma lei individual do erotismo; na relação incomparável entre indivíduos não comparáveis reside um significado inteiramente limitado a essa relação, mas que supera a sua fenomenalidade superficial - que não é dominada ou justificada por uma ideia geral da beleza, do valor, do que é digno de amor, mas justamente pela simples ideia dessas existências individuais e da sua consumação.

  Simmel, Georg. Fragmento sobre o amor e outros textos. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2004, pp 112 - 113.
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