quinta-feira, 27 de abril de 2017

( As "Lettres Portugaises", inicialmente atribuidas a Mariana Alcoforado (22/4/1640-28/7/1723)) e hoje a Gabriel Joseph de Lavergne Guilleragues (1628-1684), são um conjunto de cinco cartas, que, tendo aparecido em França, rapidamente se espalhou a sua fama e acabaram mesmo por influenciar alguns Românticos como Sainte-Beuve e Saint Simon. As "Cartas" são um dos textos mais belos da epistolografia europeia e Stendhal dar-lhes-ia mesmo um lugar de destaque no seu "De l'Amour". Desde que surgiram e até hoje muito se tem escrito à volta deste texto - exemplo: nos últimos anos da Ditadura, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, publicam  uma espécie de paráfrase à obra do séc. XVII: "Novas Cartas Portuguesas", livro que a censura e a polícia política logo apreendeu. Das "Lettres" aconselho a tradução para português feita por Eugénio de Andrade.)
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Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo. Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má sorte, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou por demais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua. Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência. Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como poderei deixar de sofrer enquanto não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada. Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me. Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
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quarta-feira, 26 de abril de 2017


O som pairou no indiscernível, se bem que não no infinito nem tão pouco no desejado espaço da consonância de vozes, sim, por um instante pensou ouvir Plotia, pensou ouvir a flutuante opacidade da sua voz (...) compreendendo, no entanto, com uma maior certeza e logo de seguida, que se tratava da voz do rapaz, e a naturalidade sem surpresa com que aceitou o seu regresso levou-o em calma torrente por entre as margens terrenas, despreocupadamente em frente, despreocupado em relação à alegria ou à decepção (...). E de novo lhe pareceu que se formavam palavras na boca e que dizia: "Por que é que voltaste? Não te quero voltar a ouvir." E de novo não sabia se tinha falado em voz alta, e também não sabia se o rapaz estava na realidade no quarto, se havia uma resposta a esperar ou se não havia; era uma espera flutuante, quase como se em qualquer sítio estivessem a afinar uma lira antes de se iniciar a canção, e de novo voltou a soar bem perto, tão perto e sem causar espanto, e no entanto distante, como se viesse do mar, esvaindo-se de luar e brilhando muito levemente: "Não me mandes embora!" "Mando", respondeu ele. "Tu barras-me o caminho, quero ouvir a outra voz, tu és uma pseudo-voz, tenho de ir à procura da outra." Ouviu-se a seguir, "Sou a ressonância que te pertence, desde o princípio e para lá de qualquer morte, para sempre".Era como que uma tentação, estava prenhe de doce atractivo, cheio de simplicidade e cheio de sonho, um chamamento de sonho, para que ele mais uma vez se voltasse, um eco do país de infância. E a voz do rapaz, balsâmica, próxima e remota, conterrânea, suave, continuou: "Eterno é o eco do teu canto." Então ele disse: "Não, não quero ouvir mais o eco da minha voz; aguardo a voz que está para lá da minha." - "Já não consegues calar a ressonância dos corações; o seu eco está contigo, tão irrevogável como a tua sombra!" (...) Decorreu de novo um tempo longo, indeterminado, até vir a resposta. "Nunca mais podes ser solitário, nunca, nunca mais, porque o que soou de ti era maior do que tu, é maior do que a tua solidão, e já não o consegues aniquilar; oh, Virgílio, no canto da tua solidão estão todas as vozes. estão todos os mundos, eles estão contigo juntamente com a sua ressonância e romperam para todo o sempre a tua solidão, para todo o sempre entrelaçados com todo o futuro, porque a tua voz, Virgílio, foi desde o início a voz do deus." (...) E de súbito perguntou: "Quem és tu? Como te chamas?" - "Sou Lysânias", foi a resposta, vinda desta vez e indubitavelmente de muito mais perto (...) não tinha ele já decidido deixar o pequeno companheiro da noite no flutuante anonimato de onde tinha surgido? Não o tinha ele por isso mesmo mandado de volta para o anonimato? E admirado, continuou a perguntar: "Eu mandei-te embora... porque não foste?" - "Mas eu fui", ouviu-se em resposta, agora de muito perto, naquela voz de rapaz um pouco rústica, familiar e jovial, cuja modéstia escondia jocosamente uma leve astúcia de camponês, ardilosamente aguardando a próxima pergunta. Sem se dar conta disso, entrou no jogo: "Bom, tu foste-te embora... mas, no entanto, estás aqui." - "Não me proibiste de esperar em frente da tua porta... e agora chamaste."


  Broch, Hermann. A Morte de Virgílio, Primeiro Volume. Lisboa: Relógio d'Água, S/d., pp 196-199.
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segunda-feira, 24 de abril de 2017



A coleção contramaré, da Editora Labirinto, dirigida por Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves, fez sair hoje o último livro de Henrique Levy: "Noivos do Mar". Esta obra tem Prefácio de Miguel Real e Posfácio de Inez Andrade Paes. Na mesma coleção sairá, dentro de dez/ quinze dias, uma Antologia Poética do poeta brasileiro Cláudio Neves. Esta Antologia foi organizada por Pedro Sette-Câmara.
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Outros destaques:
. Será apresentada esta semana em Madrid o último número da Revista Alora, la bien cercada com o meu poema "Aquilo que não tem nome", em português e na versão castelhana numa tradução do poeta catalão José Ángel Garcia Caballero;
- O Ayuntamiento de Ávila fará sair em breve o Nº 27 da Revista EL Cobaya integralmente dedicada a Glória Fuertes, no centenário da sua morte. Esta Revista, dirigida por José Muñoz Quirós, contará com colaborações prestigiadas como as de Juan Contramestre, Antonio Gamoneda, Antonio Colinas, etc. A minha colaboração nesta Revista, com o poema "Pássaro raro com leveza ao fundo", aparecerá em castelhano numa tradução do Prof. Dr. Alfredo Pérez de Alencart;
- A 24 e 25 de outubro deste ano apresentarei, no XX Festival Ibero-Americano de Poesia, em Salamanca, a Antologia Raiz de Piedra y Letra . Esta obra bilingue, com uma monumental colaboração de poetas de países de língua castelhana e portuguesa da Europa e das Américas, tem a Coordenação da Victor Oliveira Mateus e tem como tradutores, para além do coordenador, Jacqueline Alencart, Pedro Sánchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana;
- A Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017, terá a sua apresentação ao público também em outubro deste ano e, apesar de manter o mesmo coordenador do Nº 1, passou a ter o seguinte Conselho Editorial: Poesia e Ensaio (Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves), Prosa (Risoleta Pinto Pedro), Crítica Literária (Hugo Pinto Santos), Caderno de autor ou temático (Maria João Cantinho);
- Em breve mais notícias sobre os próximos números da contramaré, um dos quais sairá já em maio.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Nota: Yeshua, Jesus; Yosef, José; Mosheh, Moisés; Yahanon, João; Miriam de Magdala, Maria Madalena; Loukas, Lucas).
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   Quando nos abraçamos, roço a minha face na dele, a fim de sentir a barba a arranhar-me. Nesses momentos, imagino que somos irmãos há muito separados numa antiga epopeia grega, que se reconhecem mutuamente pelo toque da pele - o que pode ser a razão por que, nesse momento, ele leva as minhas mãos aos lábios.
     - Costumas rir quando pensas no futuro? - pergunta-me, parafraseando um Provérbio.
   - Rio-me para que o teu querido pai Yosef, que está nos céus, também possa sorrir - respondo, adaptando um versículo dos Salmos.
   Yeshua e eu escolhemos mais uma citação de Mosheh para oferecer um ao outro. Foi a maneira que arranjámos de construir a nossa ilha. Sabes, Yaphiel, ele e eu passámos demasiado tempo com os nossos tutores quando éramos novos e tínhamos sede de um território sobre o qual tivéssemos domínio absoluto.
   Um facto curioso: nos meus sonhos, os olhos de Yeshua mudam por vezes de cor. Embora ele os tivesse castanho-escuros como os do pai, tenho-os visto azuis da cor do céu, verdes e, de uma vez, prateados - como o olhar refletor de Mosheh, cuja alma era feita da luz refletida pelas águas dos rios do Éden.
   Durante um tempo, enquanto lhe estudo a face, a sala e tudo o que ela contém desaparecem.
   - Só o agora existe - diz ele como se nos tivesse libertado do tempo. Abre as mãos. - Não é preciso apressarmo-nos.
   A solidão não tem de ser o meu destino, eis o que o meu pulso acelerado me diz. Esta é a ilha onde vivo sempre, mesmo quando não estou consciente disso.
   O tempo volta a correr quando Yeshua beija o meu filho na testa e o abençoa. Fala com tanta ternura que o mais estranho de todos os estranhos pensamentos que me ocorreram ao longo da vida surge dentro de mim sem ser convidado: Se ao menos pudéssemos ter tido um filho juntos...
   Será que o meu velho amigo me lê a mente ou que me escapou um comentário do meu filho, que teria feito com que a observação de Yeshua parecesse banal?
   - Teremos de esperar até a roda girar mais uma vez - diz Yeshua. - Usa a palavra grega kuklos para "roda" e, dado que os significados ocultos deste termo só podem ser revelados aos iniciados, não me é permitido dizer mais nada sobre as suas intenções.
   Terá Yeshua falado em voz alta, ou só na minha mente?(...)
  Uma visão é uma verdade superior que tenta entrar em nós através dos olhos. Mas o que deveremos chamar a palavras audíveis proferidas na mente de outra pessoa?
   Com o decorrer dos anos, Yohanon, Miriam de Madgala, Loukas e outros contaram-me que têm ouvido Yeshua dirigir-se-lhes dentro da mente...


 Zimler, Richard. O Evangelho segundo Lázaro. Porto: Porto Editora, 2016, pp 291-292.
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sexta-feira, 14 de abril de 2017



(Nota: Yeshua, Jesus; Mia, Maria, uma das irmãs de Lázaro; Miriam de Magdala, Maria Madalena.)
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   Será possível que uma pequena parte do Senhor - exatamente do tamanho de um homem - morra de cada vez que um de nós morre? Tudo o que vejo e ouço parece querer que eu acredite nisso. Porque, se não for o caso, como pode o Todo-Poderoso sentir compaixão?
   Miriam de Magdala está de pé por trás de Yeshua, tremendo de frio, o manto de lã enrodilhado aos pés. Talvez, penso, não se atreva a postar-se diante dele, porque sabe que desmaiará se lhe vir o rosto.
   Mas engano-me.
   O minúsculo passo que logo dá para a sua esquerda, e a forma como mede a distância que a separa de Yeshua, mostram-me que se colocou entre ele e a luz do sol envolto em nuvens, de forma a que a sombra da sua cabeça e do seu peito incida diretamente sobre as pernas e os pés de Yeshua.
   Ele sentirá que Miriam está com ele, penso, e sei nessa altura que ela tenciona seguir a rota do sol à medida que for descendo no horizonte. Na linguagem sagrada das sombras, Miriam está a dizer-lhe: Ficarei contigo o tempo que for necessário e, no fim, contigo cairei nos braços da morte.
   E assim fico a saber - demasiado tarde, talvez - que ela o ama exatamente como eu.
   Ajoelho-me com o meu filho. Mia vai postar-se do outro lado.
   Observo os olhos fechados de Yeshua e imagino os meus lábios a pousarem primeiro num e depois no outro. Pego-lhe nas mãos e aperto-as com força, depois largo-as e desenho com as palmas das minhas a curva oblíqua das suas ancas, e beijo-lhe o topo da cabeça, o pescoço e os lábios, e ele cheira a madeira e a papiro, como sempre cheirou. Sinto-lhe o peso do sexo na mão e abraço-me às suas pernas. Acaricio-lhe a face com a minha e roço-lhe os pelos da barba com os meus.
   Faço tudo isto porque preciso de saber onde ele começa e termina, porque só conhecendo essas coisas desaparecerão as fronteiras entre nós, e eu serei o que observa e o que é observado, o amante e o amado - e a morte não lhe porá fim, porque ele viverá dentro de mim para sempre.
   Lembrar-me-ei de tudo o que aconteceu neste dia, prometo-lhe, embora ainda não saiba porquê.
   Tiro as sandálias e desembaraço-me de túnica. Mia tenta impedir-me.
   - Não podes ficar nu aqui - segreda-me, mas eu digo-lhe que é a única maneira.
   - Vou libertar-me de tudo o que me prender à terra - digo.
   Juntamente com as roupas, tento soltar-me dos medos, sonhos, penas e esperanças, porque Yeshua sempre me disse que o Senhor nos acolhe nus.
   A mãe dele compreende a singela beleza de tirar tudo o que só sirva para me manter afastado do filho, porque me chama pelo nome quando me ajoelho de novo e, entre lágrimas, faz um aceno de cabeça e desce a mão pelo peito, mostrando-me que compreende os meus motivos. E, então, tira também ela as sandálias e o lenço da cabeça.
   Poderia algum de nós mandar a pessoa que mais ama para o túmulo - nua e indefesa - sem desejar acompanhá-la?


   Zimler, Richard. O Evangelho segundo Lázaro. Porto: Porto Editora: 2016, pp 370-372.
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segunda-feira, 10 de abril de 2017



Morreu a Profª Dra. Maria Helena da Rocha Pereira (3/9/1925 - 10/4/2017), uma das principais especialistas em Estudos Clássicos, primeira mulher doutorada na Universidade de Coimbra e primeira Professora Catedrática da mesma Universidade. Gerações e gerações (nomeadamente a minha) foram-se formando com os olhos postos em alguns dos seus livros.
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 Excerto de Teógnis relativo à condição humana:
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Ninguém é feliz, pobre, mau ou bom,
sem a vontade do deus.
Um mal responde a outro; feliz, por completo,
nenhum dos mortais que o sol ilumina.


 Teógnis (I, 165-168) in  Hélade, Antologia da Cultura Clássica de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos, 1971, p 139.
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quinta-feira, 30 de março de 2017


(...) prenhe de desgraça permanece o sono dos rebanhos, indomada permanece a agitação terrena, inextinguível o fogo, entregue ao esmagador raio do nada permanece o amor, e sobre a caverna da noite está, intemporal, a tempestade.
   Fuga, oh fuga! a mãe continua sem se poder chamar. Somos órfãos na origem dos rebanhos, não podemos chamar em sonhos por nenhum nome, nenhum tem valor nas trevas da perfeita fusão -, e tu, meu pequeno companheiro da noite, que te juntaste a mim para seres guia, será que eu te posso na realidade chamar? Foste enviado pelo teu, pelo meu destino, para eu falar contigo? Também te sentes ameaçado pela intemporalidade? Também ela se esconde sob a tua noite? Oh, encosta-te a mim, meu pequeno irmão gémeo, oh, encosta-te a mim; desvio os meus olhos da ameaça e dirijo-os para ti, esperando, pela última vez, esperando poder voltar do isolamento, voltar contigo para a abóboda escura, que foi erguida dentro de mim como uma morada que eu já não conheço, oh, entra comigo nesta familiaridade que como elemento estranhíssimo bate nas minhas veias com nova familiaridade, e na qual eu gostaria de te deixar participar; talvez então o que há de mais estranho, que até eu próprio, deixe de me ser estranho; oh, funde-te comigo meu pequeno irmão gémeo, funde-te a mim, e quando chorares a infância perdida, quando chorares a mãe perdida, voltarás a encontrá-las em mim, porque te recebo nos meus braços e na minha alma. Mais uma vez nos seja dado ficar na caverna flutuante da noite, somente mais uma única vez, e que nos seja dado ouvir juntos o flutuar da noite e dos seus sonhos, apesar do seu reino intermédio e da sua doce realidade -, no entanto tu ainda não sabes, meu pequeno irmão, porque és jovem, de que mais profundas interioridades do nosso ser emerge a esperança da noite, abrangendo tudo de tal maneira e de tal maneira insuflando alma na sua imutabilidade, de tal maneira suave e leve promessa de saudade na sua aflição, que precisamos de muito tempo para a ouvirmos, a ela e ao seu medo, que se ergue à nossa volta como uma serra de ecos (...) como se de novo todo o reflexo de um passado há muito vivido quisesse voltar a brilhar e com tal esperança, como se encerrasse em si toda a promessa do definitivo -, oh, meu pequeno irmão, experimentei isso, porque sou um velho, mais velho do que os meus próprios anos, porque sinto em mim toda a fragilidade e toda a decadência, eu experimentei isso, porque me encaminho para o fim; ah, só ao desejarmos a morte desejamos a vida, e em mim, incessantemente minando e desconjuntando está o trabalho de toda a ânsia de morte, sem pausa, (...) só o moribundo reconhece a comunhão, reconhece o amor, reconhece o reino intermédio, só no crepúsculo e na despedida reconhecemos o sono, cuja profundíssima comunhão não tem lascívia (...) ah, meu pequeno companheiro da noite, também irás um dia reconhecer tudo isto, também tu um dia estarás sentado no limiar da margem (...). Sonho, oh, sonho! Enquanto fazemos poesia não partimos,  enquanto permanecemos no reino intermédio do nosso dia-noite, oferecemos uns aos outros todas as esperanças de sonho, toda a comunhão de saudade, toda a esperança de amor, e por isso, meu pequeno irmão, por causa desta esperança, por causa desta saudade não te afastes de mim; não quero saber o teu nome, que lança sombra, não te quero chamar, nem para a partida nem para o regresso, mas sem que te possam chamar e sem seres chamado, fica comigo, para que o amor fique na promessa da sua eternidade, fica comigo no crepúsculo, fica comigo na margem do rio. (...) Ouves o meu pedido? Poderá ainda o meu pedido ouvir-te, ouvindo-se e si próprio, fugido do destino, redimido da dor?
(...) Assim estava ele, ali sentado, sentia no joelho o calor do ombro do rapaz que se tinha aproximado até quase se encostar, mas sem no entanto o fazer, e ele sentia uma grande vontade de libertar os dedos cada vez mais presos, para, suave e despercebidamente, acariciar a cabeleira infantil, revolta e escura como a noite que ele via de cima (...) "Vai... vai à festa", conseguiu ainda dizer com voz rouca, enquanto a mão aberta.dirigida para cima, esboçava apenas a tentativa de empurrar o rapaz, que hesitantemente recuava para a porta não lhe tocando, mas acrescentando sempre a distância, e com repelões bruscos depois. "Vai... vai", repetiu arfando (...). Mas lentamente sentiu-se melhor - lentamente, de facto, e a muito custo, e com muito sofrimento - e voltou à respiração, ao descanso, ao silêncio.

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 Broch, Hermann. A Morte de Virgílio, Primeiro Volume. Lisboa: Relógio d'Água, S/d, pp 74-79.
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quarta-feira, 29 de março de 2017


   Eugénio de Andrade foi, a par de Casimiro de Brito (1938), Egipto Gonçalves (1920-2001) ou Isabel Cristina Pires (1953), um dos poetas portugueses  contemporâneos mais viajados, tendo no seu passaporte carimbo de países de África, América, Ásia e Europa, com nítida preferência para as regiões mediterrânicas. Havia sempre uma boa razão para o escritor percorrer o mundo: a participação num encontro literário, o simples repouso, ou a procura das paisagens físicas e humanas que inspiraram autores dilectos, como Vergílio (70-19a.C.) e Horácio (65-8 a.C.).
   Nesta viagem aos Estados Unidos e ao Canadá, o objectivo inicial de Eugénio e do seu companheiro de jornada, o tradutor norte-americano Alexis Levitin, era cumprir uma dúzia de leituras bilingues, da sua obra poética. Os espaços escolhidos incluíam clubes, associações, centros de arte, e as universidades de Santa Bárbara, Harvard, Brown, Albany, Columbia e Temple, nalgumas das quais existem departamentos de estudos lusófonos (Andrade, 1995:187). As leituras foram frequentemente seguidas de debate, visando questões como a escrita, a tradução e o gosto literário. Trata-se, portanto, na tipologia proposta por Fernando Cristóvão, de uma viagem erudita, em que imperam a curiosidade intelectual, e a partilha de saber, em instituições vocacionadas para a arte e para o ensino da literatura (Cristóvão, 1999:48-9).
   No entanto, à margem desse contacto com os amantes das letras, ocorreram descobertas e imprevistos que concederam uma dimensão extraordinária à visita: o desafio de perceber outros valores e formas de ser. (...) Em simultâneo, ao perceber o Outro e ao ver-se como tal, o Eu reconhece-se como um entre vários, e exercita a auto-compreensão, através do contraste. Neste intercâmbio fluído e recíproco entre o Eu e o Outro, convivem receios e estereótipos, mas também imagens objectivas e interpretações científicas, que exprimem a curiosidade, repulsa ou atracção pela diferença.
   Na sua viagem pela terra do Outro, a imensidão da paisagem natural estaduniense foi o aspecto que de imediato mais impressionou Eugénio (...)
   Por contraste, a paisagem urbana, de uma brutalidade inesperada, perturba-o: Eugénio sempre preferiu os espaços rurais ou marítimos, menos enxameados pelos turistas e mais convidativos à introspecção, essencial ao labor da escrita.


 Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, 134-135.
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segunda-feira, 27 de março de 2017


   Neste passo (W. 1982:815), Whitman compraz-se com o canto simples da cotovia, duas ou três notas soltas e alegres, avivando uma manhã no término do Inverno - tal como Eugénio aprecia a música do pisco, e abre a janela para melhor escutá-lo. Ao mesmo tempo, o escritor norte-americano admira o voo quase silencioso da ave, que vai saltitando de estaca em estaca, ao longo de uma vedação de madeira. Todo o texto realça a candura do pássaro e celebra a euforia de viver e de cantar, mesmo num dia frio. Esta entrada de diário enleia também pelo ar de registo rápido, captura de um momento que passaria despercebido a quem não tivesse uma sensibilidade poética e, portanto, atenta aos pequenos milagres do quotidiano. Coube ao acaso e ao talento de Whitman trazê-lo para o papel e, assim, imortalizar aquela manhã de dezasseis de Março de 1878.
   Outros aspectos ligam o texto de Eugénio a Whitman: por exemplo, logo na primeira frase do poema em prosa, surge uma referência a Peter Doyle. Para compreender capazmente o texto, o leitor deve saber quem foi este indivíduo e a importância que deteve na esfera afectiva de Whitman. O poeta norte-americano conheceu Doyle por mero acaso, numa noite fria de Dezembro de 1865. Regressava a casa, na linha Washington-Georgetown, quando entabulou conversa com o conductor do eléctrico, Doyle, na altura um jovem de dezoito anos. Whitman ficou de tal modo fascinado pelas suas ideias e beleza física que acabou por não se apear e, em vez disso, fez-lhe companhia na viagem de retorno à central dos transportes, em Anacostia (Oliver, 2006: 278-279).
   Aparentemente, os dois homens detinham poucos aspectos em comum: Whitman era uma figura já importante das letras norte-americanas, enquanto Doyle possuía uma educação básica; o bardo de Brooklyn tinha mais do dobro da idade do jovem; o primeiro era um pacifista, o segundo combatera no exército confederado, durante a sangrenta Guerra Civil (1861-1865), que opusera o Norte ao Sul esclavagista. Houve, por certo, desentendimentos e atritos entre ambos, como registaram os biógrafos: Whitman achava desagradável, por exemplo, que Doyle gostasse demasiado de mulheres, e entristecia-se por notar o pouco apreço que reservava à poesia (Oliver, 2006: 278-279).
   Contudo, dando razão à sabedoria popular - que afirma que "os opostos se atraem"-, estabeleceu-se entre ambos um sólido afecto, talvez de natureza homossexual (não há qualquer prova concreta disso). Por várias vezes, Doyle referiu-se ao bardo como "affectionate father and comrade", ao passo que Whitman o tratava por "beloved male friend", "darling son" ou ainda "the one I love" (Oliver, 2006: 278). Ao longo de vinte e sete anos, Doyle cuidou do seu companheiro, com desvelo, até à morte deste, em 1892, ficando para sempre associado à figura do poeta.


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 35-36.
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sábado, 25 de março de 2017


   Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, a literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa. Poderá um leitor culto contemplar um rouxinol sem evocar o seu canto melancólico em "Ode to a Nightingale" (1820), de John Keats (1795-1821)? Ou assistir ao esvoaçar sinistro de um corvo, e não pensar no poema "The Raven" (1845), o mais célebre de Edgar Allan Poe (1809-1849)? Ou deleitar-se com a majestosidade serena de um cisne e não tecer semelhanças com "The Wild Swans at Coole" (1919), do Prémio Nobel William Butler Yeats (1865-1949)?
   No texto "Com as Aves, desde Idanha", incluído em As Afluentes do Silêncio"  (1968), Eugénio de Andrade (1923-2005) partilha com o leitor a paixão pelos pássaros:
"Não admira que alguns dos mais belos poemas de sempre tenham sido escritos para aves. Dou exemplo: a cotovia de Shelley, o rouxinol de Keats, o corvo de Edgar Allan Poe, o albatroz de Baudelaire, os cisnes de Mallarmé e de Yeats, o melro de Stevens, o pardal de William Carlos Williams, Às vezes é só um verso que fica a pairar no nosso espírito, como esse chamamento do tordo através da névoa, do Eliot; ou o rumor de asas desses pássaros de Juan Ramón Jiménez, que "cantam e cantam" no mais invisível dos ramos; mas como enriquecem a nossa vida... (Andrade, 1997:190)"
   À galeria de autores mencionados poderia facilmente acrescentar-se o nome de Eugénio. Mais do que qualquer outro poeta português, este é o escritor das aves, "que tantas vezes fazem o ninho/ nos (...) versos" (Andrade, 2005: 538). Pela sua obra esvoaçam bandos de andorinhas, melros, cotovias, rouxinóis, gaivotas, etc. De ramo em ramo, de canto em canto, de poema em poema, estes pássaros personificam qualidades, muitas vezes nobres, e assumem diversos cambiantes de pureza e desejo (Ferraz, 2004: 21). O autor lê, na migração das aves, um reflexo da efemeridade (Andrade, 2005: 417, 523), ou um desafio à morte, pela renovação da natureza (Andrade, 2005: 76, 561) (...)
   O poeta de Póvoa de Atalaia serve-se destas aves para evocar, intertextualmente, pássaros idênticos, que cantam nos textos dos autores que estima e reconhece como influência literária.. (...)
   William Shakespeare constitui um autor incontornável não apenas da literatura isabelina, mas também das letras universais, graças ao seu génio e proficuidade. O poeta, dramaturgo e actor legou-nos três extensos poemas, com destaque para The Rape of Lucrece (1594); cento e cinquenta e quatro sonetos, entre os quais o célebre "Sonnet 18 (Shall I compare thee to a Summer's day?)", uma das mais belas composições de amor algum dia escritas; e trinta e oito peças, onde se incluem Romeo and Juliet (1594-5), Hamlet (1600-1) e The Tempest (c. 1611), populares tanto entre a elite como junto do vulgo.(...)
   A importância de Shakespeare e este seu apreço pelas aves não passariam despercebidos a um escritor culto como Eugénio (...)
   Trata-se de uma alusão óbvia à primeira grande tragédia de Shakespeare, conhecida em todas as culturas, acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os Capuletos e os Montagues. O passo em que a cotovia canta ocorre no final de primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta (...) Neste excerto da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite de amor dos apaixonados(...) Este afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação: "Some say the lark makes sweet division;/ This doth not so, for she divideth us" (Shakespeare, 2007: 717). (...)
   Trata-se de uma das mais célebres e melancólicas cenas de despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes que desejam permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir; e permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do adeus (Carey, 1997: 37).


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 15-20.
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sexta-feira, 24 de março de 2017


    Para Nussbaum, o que deverá ser sublinhado é a dimensão cognitiva da literatura (ao contrário da história que apenas procura relatar o que sucedeu), a abertura para novas possibilidades ontológicas que o dizer literário possibilita: "As Aristotle observed, it is deep, and conducive to our inquiry about how to live, because it does not simply (as history does) record that this or that event happened; it searches for patterns of possibility - of choice, and circumstance, and the interaction between choice and circumstance - that turn up in human lives with such a persistence that they must be regarded as our possibilities. And so our interest in literature becomes (...) cognitive: an interest in finding out (by seeing and feeling the otherwise perceiving) what possibilities (and tragic impossibilities) life offers to us, what hopes and fears for ourselves it underwrites or subverts" (Nussbaum, 1990: 171). ´É na terceira parte do seu ensaio que Nussbaum se detém com maior detalhe no conceito de "Perceptive Equilibrium". Reportando-se ao conceito de "reflective equilibrium", cunhado por John Rawls em A Theory of Justice, Nussbaum afirma que aqui estamos perante uma condição a que chegamos quando aplicamos um juízo intelectual de um modo consistente e desprovido de tensão (poderíamos afirmar em clave derridiana que aqui estamos a falar de lei e não de justiça); as condições que aqui estão em jogo prendem-se com os seus princípios, que deverão ser gerais na forma e universais na sua aplicação, públicos e disponíveis a todos; deverão impor um ordenamento geral nas reivindicações que se opõem, devendo ser encarados como finais e conclusivos.
   Um dos aspectos decisivos que marcará a argumentação de Nussbaum é a importância que a autora de The Fragility of Goodness concede às emoções - valorizando esta que percorrerá a sua obra como um basso continuo. Nussbaum manifestará a sua desconfiança perante o carácter assepticamente universalizante e abstracto que tal julgamento inevitavelment produz, procurando antes celebrar a relevância dos sentimentos e a centralidade da imersão contextual do hic et nunc particular da condição de cada sujeito (...)
   Justamente aquilo que a autora procurará defender é que, em muitos casos, as emoções poderão constituir um guia seguro para um juízo mais correcto, sendo que as formulações gerais e universais poderão ser inadequadas perante a complexidade de situações particulares, de tal modo que juízos particulares, imersos num contexto específico, poderão exibir um valor moral de que juízos com um pendor mais reflexivo ou geral se encontram destituídos. É nessa medida que a autora preconiza o 'perceptive equilibrium', corporizado pela personagem Strether, e que constitui uma resposta àquilo que é novo e que lida com os particulares da existência (...).
   A tematização deste conceito-chave permite-nos centrar a nossa atenção sobre a relação entre leitor e percepção moral. A trama narrativa de que se serve o romance, cultiva a nossa capacidade de contemplar e de valorizar a dimensão particular da existência, a invenção do absolutamente singular numa certa postura derridiana de paixão pela aporia do impossível (...). O romance, de acordo com o postulado de Nussbaum (e aqui a autora reporta-se a James), propicia uma imaginação vigilante e responsável ("responsive", com os seus ecos steinerianos) que diligentemente se detêm em cada singularidade irredutível.
   Também no Capítulo VI da sua obra mais recente - Not for Profit, Why Democracy Needs the Humanities, intitulado "Cultivating Imagination: Literature and the Arts", Nussbaum discute a importância daquilo a que chama imaginação narrativa (...). Nussbaum refere o caso do filósofo John Stuart Mill que, muito embora tendo tido uma extraordinária educação na sua infância, não tivera oportunidade de cultivar os seus recursos emocionais e imaginativos. Tendo sofrido uma depressão na sua vida adulta, Mill considerou que a sua recuperação se ficou a dever à influência exercida pela poesia de William Wordsworth; mais tarde, esclarece Nussbaum, Mill desenvolveu uma perspectiva daquilo a que chamou a "religião da humanidade", baseada no cultivo da simpatia que houvera deslindado através da sua experiência da poesia, Nussbaum chega a utilizar a formulação "empathetic imagination" (...). Cultivar a imaginação de acordo com a expressão de Nussbaum, tendo como horizonte último a amplificação de uma Poética da Obrigação - tal é. parece-me, uma das mais importantes lições que a reflexão de Nussbaum nos lega.


  Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 39-43.
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quinta-feira, 23 de março de 2017


   Um autor como Hans-Holger MalcomeB, em Primare Gestalt und Sckundarer Diskurs, Die Diskussion des Authentischen Ausgchend von George Steiner (2005), chega mesmo a falar de uma Kehre steineriana, de uma viragem que nos leva do pessimismo das obras iniciais, onde a visão solar da existência naufraga e o rumor dos deuses nos está abandonando, ao optimismo velado das obras mais tardias, onde a esperança espreita timidamente. De acordo com esta leitura, até ao período que abarca obras como In Bluebrard's Castle, The Death of Tragedy e Language and Silence, o pensamento de Steiner está aprisionado pelo espectro do silêncio e pela paradoxal conivência da alta cultura com a barbárie, observado-se a partir de 1985 (data da conferência "Real Presences", proferida na Universidade de Cambridge) uma viragem que nos leva do inumano, do silêncio e do niilismo à salvação pela arte que podemos descortinar em Real Presences O certo é que na obra steineriana se entrelaçam, a todo o momento, cintilantes esperanças e sombrios desassossegos, subsistindo uma dialéctica jamais resolvida entre sombra e luz, entre fragmento e totalidade, entre silêncio e palavra, entre a tragédia absoluta e uma difícil esperança. De resto, o importante ensaio "The Long Life of of the Mataphor: An Approach to the Shoah", publicado em 1987 e abordando a temática da ausência de Deus em Auschwitz, vem justamente contrariar a linear evolução cronológica defendida por MalcomeB. Por outro lado, a despeito da sua hermenêutica da confiança (imersa num logocentrismo que não é desprovido de alguns espinhos epistemológicos de que jamais se desembaraçará) a que, pretensamente, Steiner se renderá nas suas obras mais recentes, o facto é que mesmo a espera com que termina Real Presences está assombrada pela espera vazia que nos ameaça todos os instantes - um pouco à semelhança do que sucede em Waiting for Godot, de Beckett (obra que, aliás, é analisada por Steiner em diversas ocasiões).
   Um dos exemplos paradigmáticos de modo como a forma mentis de Steiner continua a ser pontuada por um cepticismo penetrante é aquilo a que o próprio chama "o paradoxo de Cordélia", a que me reportei na introdução. Trata-se de uma pungente contradição que, interessando-nos directamente para o que nos move com a presente investigação, foi tematizada por Steiner em Le Silence des Livres (2006) e em My Unwritten Books (2008), bem como em ensaios relevantes como o já mencionado "The Humanities - At Twilight?" (1999), "The Muses' Farewell" (2002) e "A New Literacy" (2007). Por exemplo, no ensaio "The Muses' Farewell" (2002:156). Steiner pondera a hipótese, provisória e inquietante, segundo a qual a capacidade de respondermos à abstracção e à ficção (de nelas nos concentrarmos intensamente) nos desvia da concretude dos inadiáveis apelos do real. Steiner concretiza: o lamento por Cordélia, a imersão num adágio de Mahler ou a contemplação de uma tela de Vermeer (...) pela intensidade que veiculam, diferem das reivindicações ásperas e da imperfeição que a práxis constantemente nos lança. Quanto mais pungentemente vulneráveis se mostram as nossas afinidades perante a grande arte (a música, a poesia ou metafísica), menos desperta se torna a nossa atenção em relação à carência humana e à barbárie política, mais embotados nos tornamos perante o mundo da acção por oposição ao mundo solipsista que os produtos da ficção edificam. O grito da rua, que mal nos chega aos ouvidos, pouco parece valer quando comparado com aquele que, Lear lança a Cordélia.
   De facto, este agudo paradoxo tem implicações ao nível da avaliação que podemos fazer da aposta steiriana no sentido do Sentido, na medida em que esta, embora profundamente pungente do ponto de vista especulativo, evidencia uma passividade que a debilita conceptualmente e que, dado que postula que "a cortina está corrida entre o leitor e o mundo" (Steiner, 1996:22), não permite que o mundo da leitura penetre no mundo da acção, assim se desvanecendo o radical horizonte ético com que Steiner encetou a sua hermenêutica do pós-holocausto.


   Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 29-31.
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quarta-feira, 22 de março de 2017


   "Réponds-moi", lui ai-je dit. Elle a lancé un nuage de fumée.
   - Tu me poses une question difficile, je vais te faire une réponse difficile: fais tes bagages et pars.
   - Partir, partir où? En quelque lieu étranger où je ne le verrai jamais? Non, je ne veux pas; alors, tout le monde, pas seulement les domestiques, se moquerait de moi.
   C'est pas de toi qu'on se moquerait, si tu partais; c'est de lui.
   - Je ne veux pas faire cela.
   - Pourquoi me demandes-tu, si quand je te réponds, tu dis non? Pourquoi es-tu venue jusqu'íci, si quand je te dis la vérité, tu dis non?
   - Mais il doit y avoir quelque chose d'autre que je puisse faire.
   Elle s'est rembrunie.
   - Quand un homme t'aime pas, plus tu cours après, plus il te déteste, l'homme est comme ça. Si tu les aimes, ils te traitent mal; si tu les aimes pas, ils sont après toi nuit et jour à te bassiner avec leur amour. J'ai entendu parler de toi et de ton mari, a-t-elle ajouté.
   - Mais je ne peux pas partir. C'est mon mari après tout.
   Elle a craché par-dessus son épaule.
   - Toutes les femmes, de toutes couleurs, c'est rien que des imbéciles. Trois enfants, moi, j'ai eu. Un en vie ici-bas, chacun d'un père différent, mais pas de mari. Dieu merci! Moi, je garde mon argent. Je le donne pas à chacun vaurien d'homme,
   - Quand dois-je partir? Où dois-je aller?
   - Mais c'est un monde! Une jeune Blanche riche comme t'es et plus sotte que toutes les autres! Un homme te traite pas bien, relève ta jupe et sors. Fais-le et il te court après.


  Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 134-135 ( Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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segunda-feira, 20 de março de 2017



   L'éveillerai-je pour entendre les choses qu'elle me dit, me murmure dans l'obscurité. Pas durant le jour.
   - Je n'avais jamais le désir de vivre avant de vous connaître. Je pensais toujours qu'il serait préférable que je meure. Avoir si longtemps à attendre avant que ça finisse!
   - Et avez-vous jamais dit cela à quelqu'un?
   - Il n'y avait personne à qui le dire, personne pour m'écouter. Ah! vous ne pouvez vous faire une idée de Coulibri!
   - Mais après Coulibri?
   - Après Coulibri, c'était trop tard. Je n'ai pas changé.
   Toute la journée elle était comme toute autre jeune femme, se souriait dans son miroir (Aimez-vous ce parfum?), essayait de m'apprendre ses chansons, car elles me hantaient.
(...) Il lui arrivait souvent d'être silencieuse, ou irritée sans motif, et elle bavardait avec Christiphine en patois.
   Je lui disais:
   - Pourquois serrez-vous dans vos bras et embrassez-vous Christophine?
   - Pouquoi pas?
   - Moi, je ne serrerais pas dans mes bras ni n'embrasserais des nègres. Je ne le pourrais pas.
   De cela elle riait longuement, sans jamais me dire pourquoi elle riait.
   Mais la nuit, combien elle était différente! Même sa voix était changée. Toujours à parler de mort. (Essaie-t-elle de me dire que c'est cela, le secret de cet endroit? Qu'il n'y a pas d'autre issue? Elle sait. Elle sait.)
   - Pourquoi m'avez-vous rendue désireuse de vivre? Pourquoi m'avez-vous fait cela?
   - Parce que je le désirais. N'est-ce pas une raison suffisante?
   - Si, c'en est une. Mais si, un jour, vous ne le désires plus. Qu'est-ce que je deviendrais, alors? Supposez que vous me retiriez ce bonheur pendant que j'ai le dos tourné...
   - Et que je perde le mien? Qui serait à ce point stupide?
   - Je n'ai pas l'habitude de bonheur, dit-elle. Il me fait peur...
   - N'ayez jamais peur. Ou, si vous avez peur, ne le dites à personne.


   Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 110-112 (Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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domingo, 19 de março de 2017


              "Os cantos ao dicionário"


Revolvi os cantos ao dicionário: só cotão e pó
as palavras largam sempre tanto lixo...

Procurava uma palavra que te desse...
guardara-a para ti, quando viesses,
mas não sei já onde a pousei    talvez
entre uma metáfora
morta    e um oxímoro gasto, muito velho,
dizendo qualquer coisa como esta: "a palavra
que mais diz é aquela que calamos
no silêncio", ou outra coisa, até, mais banal ainda.

Da metáfora, não encontrei nem sobras,
devo tê-la perdido, por aí, no discurso vulgar do dia a dia.

Acontece-me, acontece-me muito, esquecer-me de palavras
no fundo da carteira,
desfeitas entre bilhetes de metro,    sob o peso dos dias,
das chaves do carro.

Passo tanto tempo a perder palavras como o tempo que gasto em procurá-las.
Depois... o cansaço de as inventar de novo, de as soletrar de novo,
tropeçando em consoantes    nas vogais...

Tão difícil, voltar a dizer as palavras que perdemos.
Mentindo-lhes sentidos novamente...

Por isso percorria à pressa o dicionário, hoje
para procurar uma outra palavra que te desse,
ainda antes que chegasses... de manhã.

A palavra que te queria dar, perdia-a,
não há tempo agora de a reescrever assim à pressa...
manhã alta, já, deves estar mesmo aí, a aparecer...

Revolvi o dicionário: tanto pó na esquina das palavras.
Sempre tudo em desalinho, nem uma sílaba consigo ter em seu lugar.
Trago a língua tão desarrumada, tanto desleixo, sempre tudo tão sem jeito
E tu, aí, quase à beira de chegar.

Tirei uma mão cheia de palavras ao acaso
concha, lago, ternura, um pedaço arrancado à bruta da palavra amor.

Mas tu chegaste-me, entretanto, com um perfeito ramo de frases feitas
fingiste até nem reparar na confusão e
deitámo-nos assim mesmo na minha palavra ainda    por dizer.


 Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: Abysmo, 2016, pp 36-37.
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quarta-feira, 15 de março de 2017


           Fechado para balanço"


Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: abysmo, 2016, pp 22-23.
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terça-feira, 14 de março de 2017



hoje todos os homens primeiro
que as mulheres chegaram a casa

Não há nada que faça acariciar um
homem outro nos cabelos, nem a
morte do filho, a partida para a guerra

é tão dura, rija firme a educação
que a ternura nos homens dá sopapos
pontapés, palmadas fortes nas costas

só no futebol perante milhões
os homens têm coragem de afagar-se

estou frente ao écran em busca
de emoções, dez homens
acariciam um deles nos cabelos

só por isto vale a pena o futebol
o golo.


   Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p 54.
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         "Liberdades"


Temos liberdade para comprar
com um quarto de ordenado
um pequeno saco de comida

Também podemos reunir
há liberdade, para procurar
salas por toda esta cidade
e desistir

Temos liberdade de escrever
e os jornais nas mãos
de quem não quer saber

Também falar se pode
porque não cantar, dizer poesia
mas a rádio, a televisão
estão nas mãos de quem

Temos liberdade de aprender e ler
mas um livro custa mais
que um dia de salário

Temos tantas, tantas liberdades
mas os muros cercam-nos
e crescem de silêncio armado.


  Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p  57.
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Nota - este livro de Ivone Chinta apresenta um tipo de Poesia, que, herdeira direta do neo-realismo, surgia já nos últimos tempos da Ditadura, mas granjeou  depois enorme destaque sobretudo na década de 70: uma escrita cuja tónica era colocada no sentido e cujo olhar - irónico e denunciatório - era colocado no sócio-económico e no cultural. Este livro estrutura-se em torno do sentir de um eu-poético, que, pelos condicionalismos focados, desembocará  na frustração e no desencanto do que afinal não aconteceu. Convém acrescentar que este tipo de poesia, que, na minha opinião, teve o seu ponto alto em José Gomes Ferreira, José Carlos Ary dos Santos e Daniel Filipe, sofreu igualmente incursões poéticas de outros poetas, que depois enveredaram por outras linhas estéticas, é o caso de Natália Correia e de Sophia de Melo Breyner.
Postaremos aqui dois poemas em que se mostra e denuncia a hipocrisia do conceito vigente de liberdade, bem como o modo como a educação e a aprendizagem inculcam nos homens (e não nas mulheres!) o medo de expressar as emoções e os afetos para com os seus iguais.
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segunda-feira, 13 de março de 2017



                      "Destino"


Não tive a má intenção de te prender
à minha vida. A música, o álcool,
todo o ouropel da noite, eu só quis
sossegar por algum tempo a dúvida

que me castigava, antes que a manhã
chegasse e a aranha do remorso
descesse pelo seu alimento à mesa
do pequeno-almoço. Batemos

à mesma porta e chamaste destino
ao acaso. Zelava por nós, entre
as eléctricas estrelas, o pequeno deus
do amor? Era o que trazia ao peito

a divisa da derrota universal? Como vês,
foi sempre outra, e inútil, a minha
fé - mas perdoa, se puderes, o pouco
que soube fazer pela solidão dos dois.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 212.
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domingo, 12 de março de 2017


No próximo dia 15 (quarta feira), pelas 19:30, na prestigiada sala "Corral de Comedias" de Alcalá de Henares poderá assistir à sessão "La voz más cercana: Portugal" integralmente dedicada à Poesia Portuguesa Contemporânea.

Dramaturgia: Aitana Sar, Clara Santafé e Ines Sánchez
Piano: Francisco Recuero
Voz: Verónica Aranda

Serão lidos poemas de: Albano Martins, Catarina Nunes de Almeida, Daniel Faria, Graça Pires, José Luís Peixoto, Maria Teresa Horta, Ruy Ventura, Sophia de Mello Breyner e Victor Oliveira Mateus.
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