segunda-feira, 15 de maio de 2017
"Diabinho De Minha Guarda"
Inquieta companhia,
livra-me do mal
de noite e de dia.
Tu podes.
Não te digo que vás
digo-te que fiques.
Diabinho de minha guarda,
compreendo-te e compreender-te-ia
(no fundo queres ser
o meu anjo da guarda
e por isso o invejas).
Diabinho de minha guarda
misteriosa companhia,
ninguém te quer
ninguém te estima.
Por isso praticas o mal
para te fazer notado.
Diabinho de minha guarda
estar só
é o teu inferno...
Se vieres visitar-me
pentear-te-ei os cornos.
Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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(O que me fascina na poesia de Gloria Fuertes é forma como ela fala de coisas pouco usuais, como ela afronta a norma, mas sempre sem ruído, antes pelo contrário, ela fá-lo com uma grande ternura e doçura mesmo. Vou postar alguns dos seus poemas com traduções minhas desses poemas)
"Diablito De Mi Guarda"
Inquieta compañia,
librame del mal
de noche y de día.
Tú puedes.
No digo que te vayas
digo que te quedes.
Diablito de mi guarda,
te comprendo y te comprendería
(en el fondo quieres ser
mi ángel de la guarda
y por eso le envidias).
Diablito de mi guarda
misteriosa compañia,
nadie te quiere
nadie te estima.
Por eso haces el mal
para hacerte notar.
Diablito de mi guarda
estar solo
es tu infierno...
Si vienes a visitarme,
te peinaré los cuernos.
Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34.
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"Elegia de Varna"
Sinto que algo ficou irrealizado em mim.
Nota que vibraria o meu ser íntegro como um sino
e que não se feriu.
Adivinho-lhe a corda oxidando-me o peito.
Tocá-la tornaria os veios de ferrugem
nos rios mágicos do êxtase
e então eu seria eu
e não esta véspera encolhida,
este quase a medo murmurado,
este querer que se tolhe ante a areia dourada,
este silêncio náufrago,
esta solidão esmagada de estrelas.
E então eu seria eu
e tu, e sim, e além.
Não seria este não que sequer se profere
e que sobre o Mar Negro, hoje branco de fúria,
fita, desesperado, a gaivota que ousa
solitária
o mergulho.
Sinto que algo deixou de realizar-se em mim,
e esta falta grita e queima e consome.
Sigo nau incompleta, vento coxo, canto
falhado
e despedaço as asas poderosas
no abjeto cais das ânsias.
Sinto que algo ficou irrealizado em mim,
e esta página branca invade o meu ser.
Horta, Anderson Braga. 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 32.
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domingo, 14 de maio de 2017
"Mentateuco"
Orgulho-me de minha mente.
Eis aqui um aparelho bastante razoável,
capaz de produzir confusões bastante sutis,
talvez aliciadoras,
talvez cheias de ritmo e de harmonia.
Vítima
de concussão vocacional,
sintonizado para a metafísica,
as construções Ideais
fora do tempo e do espaço,
num mundo tão espacial, tão temporal,
tão antimetafísico.
Tenho muito orgulho desta mente
que nenhum computador ainda igualou,
e não igualará.
Menta, mentol, mentx, mentiras -
tudo invento e manipulo e transcendo -
e pimentas, e exp'rimentos, e améns.
Sobretudo comento
o evento, e o momento,
e imito
e me lamento, ou não
me lá mento.
Sim, sim, me orgulho-me de minha mente.
Um portento!
E no entanto
bem sinto, meio tonto, que aqui junto
a minha mente é um muro lutulento
tolhendo o céu, o mar, o espanto, o vento.
Horta, Anderson Braga, 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 26.
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sábado, 13 de maio de 2017
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Ao contrário da arte dos geómetras, do plástico vendido a metro, do medo de arriscar o interior, da frieza instituida em norma; ao contrário das divas balofas e de pose, da poesia sem emoção dos malabaristas das técnicas exclusivas; ao contrário do fast food cozinhado para a rotina do engurgita-vomita: em arte só o estar de corpo inteiro é aceitável. Mais do que um mero estar, é um dever! O resto? Bem, o resto com luzinhas e lantejoulas nem para os manequins da Rua dos Fanqueiros... Parabéns!!!
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"poderei ser uma daquelas
pessoas que lêem sinais"
agora passo ao de leve pelas coisas
e tudo é transparente
sou um fantasma sou um anjo
nem sequer de cócoras posso estar
o mundo é cada vez menos inconsistente
escrevo tudo como se fossem cartas
trespasso objectos com um olhar diáfano
posso agora assistir melhor
ver como cai o pó
essa preocupação inverosímil
um pouco tonta
quando tudo se esboroa
sei agora como cai
não sei como é estar vivo
oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 107.
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sexta-feira, 12 de maio de 2017
"o amor sem visita"
o amor
ou uma grave infecção
(não sei dizer)
caiu entre nós
como um petardo
bomba humana
podre na sua existência
plenipotenciária
deixou os restos
espalhados pelo chão
decapou a alcatifa
camadas de ácaros
de várias décadas
estoiraram
com os seus ossos aquáticos
seguiram-se cadeias
de brancas metáforas
oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 80.
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quinta-feira, 11 de maio de 2017
Cântico do
Irmão Sol
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
para ti são os louvores, a glória e a honra, e toda a
bênção.
A ti somente, Altíssimo, eles convêm,
e homem algum é digno de pronunciar teu nome.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas
criaturas,
especialmente o senhor irmão sol,
que o dia nos concede e por quem tu nos iluminas.
Ele é belo e resplandecente com um grande esplendor,
de ti, Altíssimo, ele é o símbolo.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as
estrelas,
no céu tu as criaste luminosas, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
pelo ar e a nuvem, pelo céu puro e todos os tempos,
pelos quais às tuas criaturas concedes apoio.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
com o qual iluminas a noite,
ele é belo e alegre, e robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã terra nossa mãe,
que nos mantém e alimenta,
e produz diversos frutos com as flores de mil cores e
as ervas.
Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por
amor de ti
e suportam dor e infortúnio.
Felizes os que preservam na paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte
corporal,
à qual nenhum homem vivo pode escapar.
Infelicidade a daqueles que morrem em pecado mortal,
felizes aqueles que se reconhecerão nas tuas santas
vontades,
pois a segunda
morte (1) não lhes fará mal algum.
Louvai e abençoai, meu Senhor, e rendei-lhe graças,
e servi-o com grande humildade.
(1) Apocalypse,
XX, 14, XXI, 8.
Assise, Saint François D’. OEUVRES. Paris: Albin Michel, 2006, pp 255-256 ( Traduction,
introduction et notes d’ Alexandre Masseron).
Nota- a primeira edição desta obra é de 1959,
seguiram-se depois reedições, em livros de bolso, em 1993 e 2006.
Não
tendo tido a possibilidade de aceder à versão original deste texto (as versões
italianas que encontrei pareceram-me com grafia e sintaxe atualizadas e não em
língua da Idade Média) e sendo várias as traduções para castelhano e português
que andam pela net, decidi fazer eu a minha própria tradução partindo da versão
francesa de Alexandre Masseron.
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quarta-feira, 10 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
"Antes da Queda"
De cinco violetas pétalas
esbeltas pontas caídas
em cachos de tantas
que dão nas beiras
da galhada fina
De forma que
a planta toda se prepara
da raiz que pega
da madeira que pensa
ao galho que apronta
depois empunha
o que deslumbra
e dura um mero dia
Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo: Editora Foca, 2009, p 97.
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"Saara"
Num país distante
eu vagava insone
ouvia histórias de você
A lenda iludia
vertia a descompreensão
seu nome de areia
duna móvel
tempestade
Deportado
meu grito minarete
traduz
o desejo de voltar
O sol a pino
oásis em ebulição
Sou um rio de sede
pelo frio deserto da paixão
Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo:Editora Foca, 2009, p 41.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017
O Herman esperava-me em pé. Atrás dele ardia uma vela, ele aparecia-me em sombra chinesa.
- Onde estava?
- A minha mãe foi-se deitar tarde.
- Estava à sua espera.
- Ontem tive um impedimento. Um livro a recuperar em casa de uma aluna.
Queria guardar o poema para mais tarde, escolher o momento oportuno, mas a censura na voz do Herman precipitou as coisas, o poema escapou-me (...)
Ficou calado. Depois o seu riso brotou, com uma ironia feroz.
- Quem lhe ensinou esse poema? De onde saiu essa pronúncia?
- Não é assim que se diz?
- Depende, mas em Varsóvia não. Talvez em Wilno e, mesmo assim, na boca do reitor da faculdade de teologia protestante! (...)
Aquele judeu no fundo do seu buraco apenas via a minha estranha pronúncia. A oferenda monumental que eu lhe fazia deixava-o indiferente. Tirei do meu saco o volume em yiddish, atirei-lho para cima da mesa com um gesto de despeito. Estava escuro. Herman não podia reconhecer o livro ao primeiro olhar. Tome, é para si, estava atrás de uma trave.
Herman pegou no livro. Afastou-se para o aproximar da vela, estava quase de costas voltadas para mim. Abriu o livro, acariciou uma página. Acabaram-se os risos, as censuras. Creio que estava comovido. (...)
Fizemos amor na terra batida para abafar os ruídos. Comi o seu sexo e ele veio-se em mim. Era tão bom, eu e aquele judeu. Aquele homem só para mim. As suas mãos agarravam as minhas nádegas, a sua língua inundava-me as orelhas. Era suficientemente brutal para me dominar, mas atento ao meu desejo. Nunca conhecera aquelas sensações de gozo, os rins incendiados pelo prazer (...) senti uma felicidade desconhecida: esperava aquele homem há tanto tempo. (...) A sua maneira de fazer amor comigo não deixava qualquer dúvida: apoderava-se do meu corpo como dono e senhor, com o apetite de um canibal, nenhuma parcela era poupada, as minhas coxas, o meu púbis, os meus mamilos. Deixava-me devorar porque assim devia ser. Era um ser vivo. Finalmente.
Rozier; Gilles. Um Amor Sem Resistência. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, pp 100-103.
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domingo, 7 de maio de 2017
A Revista equatoriana de Literatura "Metaforologia Gaceta Literaria" lançou hoje uma seleção de poemas meus escolhidos por Ana Cecília Blum. Estes poemas foram por mim publicados, ao longo dos anos, em livros que saíram nas Editoras: Labirinto, Coisas de Ler e Hariemuj. As traduções estão devidamente assinaladas e pertencem a Alfredo Pérez Alencart, Marta López Vilar e Marcela Fillipi. Esta pequena Antologia vem acompanhada da reprodução de um quadro do pintor espanhol Miguel Elías e de uma recensão dessa grande Poeta e Crítica Literária do Equador que é a Ana Cecília Blum. Grato a toda esta equipa; um imenso obrigado... que vai de Roma a Quito.
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Ver aqui:
http://metaforologia.com/victor-oliveira-mateus/ (Terão de introduzir diretamente o endereço no motor de busca! Problemas que tentarei solucionar em breve! )
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sexta-feira, 28 de abril de 2017
5ª CARTA
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Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir, na diferença de termos e
modos desta carta, que finalmente acabou por me convencer de que já me não
ama e que devo, portanto, deixar de o amar.
Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me resta ainda de si. Não receie que
lhe volte a escrever, pois nem sequer porei o seu nome na encomenda. De
tudo isso encarreguei D. Brites, que eu habituara a confidências bem
diferentes. Os seus cuidados não me serão tão suspeitos quanto os meus. Ela
tomará as precauções necessárias para que eu fique com a certeza de que
recebeu o retrato e as pulseiras que me deu. Quero porém dizer-lhe que me
encontro, há já alguns dias, na disposição de me desfazer e queimar essas
lembranças do seu amor, que tão preciosas me foram. Mas tanta franqueza lhe
tenho mostrado que nunca acreditaria que eu fosse capaz de chegar a tal
extremo. Quero sentir até ao fim a pena que tenho em separar-me delas e
causar-lhe ao menos algum despeito.
Confesso-lhe, para vergonha minha e sua, que me encontrei mais presa do que
quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti outra vez necessidade de toda a
minha reflexão para me separar de cada uma em particular, e isto quando já
me gabava de me ter desprendido de si. Mas, com tantos motivos, consegue-se
sempre o que se deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites. Quantas lágrimas
me não custou esta resolução! Depois de mil impulsos e mil hesitações, que
nem pode imaginar, e de que certamente não lhe darei conta, roguei-lhe para
me não voltar a falar nelas, nem mas restituir ainda que lhas pedisse só para as
ver uma vez mais e, por fim, remeter-lhas sem me prevenir.
Não conheci o desvario do meu amor senão quando me esforcei de todas as
maneiras para me curar dele, e receio que nem ousasse tentá-lo se pudesse
prever tanta dificuldade e tanta violência. Creio que me teria sido menos
doloroso continuar a amá-lo, apesar da sua ingratidão, do que deixá-lo para
sempre. Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão, e sofri
penosamente em combatê-la, depois que o seu indigno procedimento me
tornou odioso todo o seu ser. O orgulho tão próprio das mulheres não me
ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e teria
suportado o ódio e o ciúme que me provocasse a sua inclinação por outra! Ao
menos, teria qualquer paixão a combater. Mas a sua indiferença é intolerável.
Os impertinentes protestos de amizade e a ridícula correção da sua última
carta provaram-me ter recebido todas as que lhe escrevi e que, apesar de as ter
lido, não perturbaram o seu coração. Ingrato! E a minha loucura é tanta ainda,
que desespero por já não poder iludir-me com a ideia de não chegarem aí, ou
de não lhe terem sido entregues.
Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu para me dizer pura e simplesmente a
verdade? Porque me não deixou com a minha paixão? Bastava não me ter
escrito: eu não procurava ser esclarecida. Não me chegava a desgraça de não
ter conseguido de si o cuidado de me iludir? Era preciso não lhe poder
perdoar? Saiba que acabei por ver quanto é indigno dos meus sentimentos;
conheço agora todas as suas detestáveis qualidades. Mas, se tudo quanto fiz
por si pode merecer-lhe qualquer pequena atenção para algum favor que lhe
peça, suplico-lhe que não me escreva mais e me ajude a esquecê-lo
completamente. Se me mostrasse, ao de leve que fosse, ter sentido algum
desgosto ao ler esta carta, talvez eu acreditasse; talvez a sua confissão e o seu
arrependimento me enchessem de cólera e de despeito; e tudo isso poderia de
novo incendiar-me.
Não se meta pois no meu caminho; destruiria, sem dúvida, todos os meus
projetos, fosse qual fosse a maneira porque se intrometesse. Não me interessa
saber o resultado desta carta; não perturbe o estado para que me estou
preparando. Parece-me que pode estar satisfeito com o mal que me causa,
qualquer que fosse a sua intenção de me desgraçar. Não me tire desta
incerteza; com o tempo espero fazer dela qualquer coisa parecida com a
tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a odiar: por de mais desconfio de
sentimentos de sentimentos exaltados para me permitir intentá-lo.
Estou convencida de que talvez encontrasse aqui um amante melhor e mais
fiel; mas ai!, quem me poderá ter amor? Conseguirá a paixão de outro homem
absorver-me? Que poder teve a minha sobre si? Não sei eu por experiência
que um coração enternecido nunca mais esquece quem lhe revelou prazeres
que não conhecia, e de que era suscetível?, que todos os seus impulsos estão
ligados ao ídolo que criou? que os seus primeiros pensamentos e primeiras
feridas não podem curar-se nem apagar-se?, que todas as paixões que se
oferecem como auxílio, e se esforçam por o encher e apaziguar, lhe prometem
em vão um sentimento que não voltará a encontrar? , que todas as distrações
que procura, sem nenhuma vontade de as encontrar, apenas servem para o
convencer que nada ama tanto como a lembrança do seu sofrimento? Porque
me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto de uma afeição que não deve
durar eternamente, e a amargura que acompanha um amor violento, quando
não é correspondido? E porque razão, uma cega inclinação e um cruel
destino, persistem quase sempre em prender-nos àqueles que só a outros são
sensíveis?
Mesmo que esperasse distrair-me com nova afeição, e deparasse com alguém
capaz de lealdade, é tal a pena que sinto por mim que teria muitos escrúpulos
em arrastar o último dos homens ao estado a que me reduziu. E embora me
não mereça já nenhum respeito, não poderia decidir-me a tão cruel vingança,
mesmo se, por uma mudança que não vislumbro, isso viesse a depender de
mim.
Procuro neste momento desculpá-lo, e sei bem que uma freira raramente
inspira amor; no entanto parece-me que, se a razão fosse usada na escolha,
deveriam preferir-se às outras mulheres: nada as impede de pensar
constantemente na sua paixão, nem são desviadas por mil coisas com que as
outras se distraem e ocupam. Creio que não deve ser muito agradável ver
aquelas a quem amamos sempre distraídas com futilidades; e é preciso ter bem
pouca delicadeza para suportar, sem desespero, ouvi-las só falar de reuniões,
atavios e passeios. Continuamente se está exposto a novos ciúmes, pois elas
são obrigadas a certas atenções, certas condescendências, certas conversas.
Quem pode garantir que em tais ocasiões se não divirtam, e que suportem os
maridos somente com extremo desgosto, e sem qualquer aprovação? Como
elas devem desconfiar de um amante que lhes não peça contas rigorosas de
tudo isso, que acredite facilmente e sem inquietação no que lhe dizem, e as
veja, confiante e tranquilo, sujeitas a todas essas obrigações!
Mas não pretendo provar-lhe com boas razões que me devia amar. Fracos
meios seriam estes, e eu outros usei bem melhores sem nenhum resultado.
Conheço de sobra o meu destino para tentar mudá-lo. Hei de ser toda a vida
uma desgraçada! Não o era já quando o via todos os dias? Morria de medo
que me não fosse fiel; queria vê-lo a cada momento e isso não era possível;
inquietava-me com o perigo que corria ao entrar neste convento; não vivia
quando estava em campanha; desesperava-me por não ser mais bonita e mais
digna de si; lamentava a mediocridade da minha condição; pensava nos
prejuízos que lhe podia acarretar a afeição que parecia ter por mim; imaginava
que não o amava bastante; receava, por si, a cólera da minha família; enfim,
encontrava-me num estado tão lamentável como aquele em que estou agora.
Se me tivesse dado alguma prova de amor, depois de ter saído de Portugal,
teria feito todos os esforços para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para ir ter
consigo. Ai, que teria sido de mim se não se importasse comigo, depois de
estar em França? Que horror! Que loucura! Que vergonha tão grande para a
minha família, a quem quero tanto, depois que deixei de o amar!
A sangue-frio, como vê, reconheço que podia ainda ser mais digna de piedade
do que sou. Ao menos uma vez na vida falo lhe ponderadamente. Quanto lhe
agradará a minha moderação, e como ficará satisfeito comigo! Mas não quero
sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho para não me escrever mais.
Nunca refletiu na maneira como me tem tratado? Nunca pensou que me deve
mais obrigações do que a qualquer outra pessoa? Amei-o como uma louca,
tudo desprezei! O seu procedimento não é de um homem de bem. É preciso
que tivesse por mim uma aversão natural para me não ter amado
apaixonadamente. Deixei-me fascinar por qualidades bem medíocres. Que fez
para me agradar? Que sacrifícios fez por mim? Não procurou tantos outros
prazeres? Renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para
campanha? Não foi o último a regressar? Expôs-se loucamente, apesar de
tanto lhe haver pedido que se poupasse por amor de mim. Nunca procurou
um meio de se fixar em Portugal, onde era estimado. Uma carta do seu irmão
bastou para o fazer abalar, sem a menor hesitação. E não vim eu saber que,
durante a viagem, a sua disposição era a melhor do mundo?
Forçoso me é confessar que tenho razões para o odiar mortalmente. Ah, eu
própria atraí sobre mim tanta desgraça! Acostumei-o desde início,
ingenuamente, a uma grande paixão, e é necessário algum artifício para nos
fazermos amar. Devem procurar-se com habilidade os meios de agradar: o
amor por si só não suscita amor. Como pretendia que eu o amasse, e como
havia formado tal desígnio, não houve nada que não tivesse feito para o
atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar-me, se tal fosse preciso. Mas
percebeu que o amor não era necessário para o êxito do seu empreendimento,
nem dele precisava para nada. Que perfídia! Pensa poder enganar-me
impunemente? Se por acaso voltar a este país, declaro-lhe que o entregarei à
vingança da minha família.
Muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horrorizam, e o
remorso persegue-me com uma crueldade insuportável. Sinto uma vergonha
enorme dos crimes que me levou a cometer; já não tenho pobre de mim!, a
paixão que me impedia de conhecer-lhes a monstruosidade. Quando deixará o
meu coração de ser dilacerado? Quando é que me livrarei desta cruel
perturbação? Apesar de tudo, creio que não lhe desejo nenhum mal, e talvez
me não importasse que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se tiver coração?
Quero escrever-lhe ainda outra carta para lhe mostrar que daqui a algum
tempo, talvez já tenha mais serenidade. Com que satisfação lhe censurarei
então o seu injusto procedimento, quando este já não me importunar; lhe farei
sentir que o desprezo; que falo da sua traição com a maior indiferença; que
esqueci alegrias e penas; e só me lembro de si quando me quero lembrar!
Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma
paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu
era nova, ingénua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena; não
tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que
constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza
que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si;
toda a gente me dispunha ao seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o
meu amor... Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que
me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade.
Ao devolver-lhe as suas cartas, guardarei, cuidadosamente, as duas últimas que
me escreveu ; hei de lê-las ainda mais do que li as primeiras, para não voltar a
cair nas minhas fraquezas. Ah, quanto me custam e como teria sido feliz se
tivesse consentido que o amasse sempre! Reconheço que me preocupo ainda
muito com as minhas queixas e a sua infidelidade, mas lembre-se que a mim
própria prometi um estado mais tranquilo, que espero atingir, eu então
tomarei uma resolução extrema, que virá a conhecer sem grande desgosto. De
si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa. É
preciso deixá-lo e não pensar mais em si. Creio mesmo que não voltarei a
escrever-lhe. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de todos os meus
sentimentos?
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quinta-feira, 27 de abril de 2017
2ª CARTA
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Creio que faço ao meu coração a maior das afrontas aos procurar dar-te conta,
por escrito, dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela
violência dos teus! Mas não posso confiar em ti, nem posso deixar de te dizer,
embora sem a força com que o sinto, que não devias maltratar-me assim, com
um esquecimento que me desvaira e chega a ser uma vergonha para ti. É justo
que suportes, ao menos, as queixas de desgraças que previ ao ver-te decidido a
deixar-me. Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais
lealdade dos que é costume: os excessos do meu amor parece que devia pôrme
acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar
encontrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a
justiça que devias a tudo quanto fiz por ti. Não deixaria de ser infeliz se
soubesse que só ao meu amor ganharas amor, pois tudo quisera dever
unicamente à tua inclinação por mim; mas estou tão longe de tal estado que já
lá vão seis meses sem receber uma única carta tua. Só à cegueira com que me
abandonei a ti posso atribuir tanta desgraça: não tinha obrigação de prever que
as minhas alegrias acabariam antes do meu amor? Como poderia esperar que
ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para
não pensares senão em mim? Nenhum alívio há para o meu mal, e se me
lembro das minhas alegrias maior é ainda o meu desespero. Terá sido então
inútil todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te no meu quarto com o ardor e
arrebatamento que me mostravas? Ai, que ilusão a minha! Demasiado sei eu
que todas as emoções, que em mim se apoderavam da cabeça e do coração,
eram em ti despertadas unicamente por certos prazeres e, como eles, depressa
se extinguiam. Precisava, nesses deliciosos instantes, chamar a razão no meu
auxílio para moderar o funesto excesso da minha felicidade e me levar a
pressentir tudo quanto sofro presentemente. Mas de tal modo me entregava a
ti, que era impossível pensar no que pudesse vir envenenar a minha alegria e
impedir de me abandonar inteiramente às provas ardentes da tua paixão. Ao
teu lado era demasiado feliz para poder imaginar que um dia te encontrarias
longe de mim. E, contudo, lembro-me de te haver dito algumas vezes que
farias de mim uma desgraçada; mas tais temores depressa se desvaneciam, e
com alegria tos sacrificava para me entregar ao encanto, e à falsidade!, dos teus
juramentos. Sei bem qual é o remédio para o meu mal, e depressa me livraria
dele se deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro sofrer ainda
mais do que esquecer-te. E depende isso de mim? Não posso censurar-me ter
desejado um só instante deixar de te querer. És tu mais digno de piedade do
que eu, pois vale mais sofrer corno sofro do que ter os fáceis prazeres que te
hão de dar em França as tuas amantes. Em nada invejo a tua indiferença:
fazes-me pena. Desafio-te a que me esqueças completamente. Orgulho-me de
te haver posto em estado de já não teres, sem mim, senão prazeres
imperfeitos; e sou mais feliz que tu, porque tenho mais em que me ocupar.
Nomearam-me há pouco tempo porteira deste convento. Todos os que falam
comigo creem que estou doida, não sei que lhes respondo, e é preciso que as
freiras sejam tão insensatas como eu para me julgarem capaz seja do que for.
Ah, como eu invejo a sorte do Manuel e do Francisco! Porque não estou eu
sempre ao pé de ti, como eles? Teria ido contigo e servir-te-ia certamente com
mais dedicação.
Nada desejo no mundo senão ver-te. Lembra-te ao menos de mim. Bastarme-ia
que me lembrasses, mas eu nem disso tenho a certeza. Quando te via
todos os dias não cingia as minhas esperanças à tua lembrança mas tens-me
ensinado a submeter-me a tudo quanto te apetece.
Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me
seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a
exaltação do meu amor Quero que toda a gente o saiba, não faço disso
nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra
toda a espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha
religião hão de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida.
Não te digo estas coisas para te obrigar a escrever-me. Ah, nada faças
contrafeito! De ti só quero o que te vier do coração, e recuso todas as provas
de amor que tu próprio te possas dispensar. Com prazer te desculparei, se te
for agradável não te dares ao trabalho de me escrever; sinto uma profunda
disposição para te perdoar seja o que for.
Um oficial francês, caridosamente, falou-me de ti esta manhã durante mais de
três horas. Disse-me que em França fora feita a paz. Se assim é, não poderias
vir ver-me e levar-me para França contigo? Mas não o mereço. Faz o que
quiseres: o meu amor já não depende da maneira como tu me tratares.
Desde que partiste nunca mais tive saúde, e todo o meu prazer consiste em
repetir o teu nome mil vezes ao dia. Algumas freiras, que conhecem o estado
deplorável a que me reduziste, falam-me de ti com frequência. Saio o menos
possível deste quarto onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu
retrato, que amo mil vezes mais que à minha vida. Sinto prazer em olhá-lo,
mas também me faz sofrer, sobretudo quando penso que talvez nunca mais te
veja, porque fatalidade não hei de voltar a ver-te? Ter-me-ás deixado para
sempre? Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece
ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!
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( As "Lettres Portugaises", inicialmente atribuidas a Mariana Alcoforado (22/4/1640-28/7/1723)) e hoje a Gabriel Joseph de Lavergne Guilleragues (1628-1684), são um conjunto de cinco cartas, que, tendo aparecido em França, rapidamente se espalhou a sua fama e acabaram mesmo por influenciar alguns Românticos como Sainte-Beuve e Saint Simon. As "Cartas" são um dos textos mais belos da epistolografia europeia e Stendhal dar-lhes-ia mesmo um lugar de destaque no seu "De l'Amour". Desde que surgiram e até hoje muito se tem escrito à volta deste texto - exemplo: nos últimos anos da Ditadura, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, publicam uma espécie de paráfrase à obra do séc. XVII: "Novas Cartas Portuguesas", livro que a censura e a polícia política logo apreendeu. Das "Lettres" aconselho a tradução para português feita por Eugénio de Andrade.)
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1ª CARTA
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Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!,
foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que
esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável
à crueldade da ausência que o causa. Há de então este afastamento, para o
qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante
lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi
tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria,
que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!,
os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam,
e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido
a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo.
Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou
tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em
sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro,
procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem
sinais da minha má sorte, que cruelmente não me consente qualquer engano e
me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em
vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares
para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só
instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer
sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou por
demais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste.
Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei
de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor?
Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te
quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me
davas provas da tua.
Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado
tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o
coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de
tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada
de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me
abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a
não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me
sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser
posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.
Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como poderei deixar de
sofrer enquanto não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me queixar,
porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas
não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for,
e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias
contentar te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez
encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que
eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais
não é nada.
Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me
lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança
que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres
passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado
convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria
eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir te, e amar-te em
toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança
por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha
dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permitiu que te
escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que
suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas
porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas
por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque
não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas
perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em
vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que
nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do
teu; o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum
interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares
do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.
Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me
dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível!
Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
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quarta-feira, 26 de abril de 2017
O som pairou no indiscernível, se bem que não no infinito nem tão pouco no desejado espaço da consonância de vozes, sim, por um instante pensou ouvir Plotia, pensou ouvir a flutuante opacidade da sua voz (...) compreendendo, no entanto, com uma maior certeza e logo de seguida, que se tratava da voz do rapaz, e a naturalidade sem surpresa com que aceitou o seu regresso levou-o em calma torrente por entre as margens terrenas, despreocupadamente em frente, despreocupado em relação à alegria ou à decepção (...). E de novo lhe pareceu que se formavam palavras na boca e que dizia: "Por que é que voltaste? Não te quero voltar a ouvir." E de novo não sabia se tinha falado em voz alta, e também não sabia se o rapaz estava na realidade no quarto, se havia uma resposta a esperar ou se não havia; era uma espera flutuante, quase como se em qualquer sítio estivessem a afinar uma lira antes de se iniciar a canção, e de novo voltou a soar bem perto, tão perto e sem causar espanto, e no entanto distante, como se viesse do mar, esvaindo-se de luar e brilhando muito levemente: "Não me mandes embora!" "Mando", respondeu ele. "Tu barras-me o caminho, quero ouvir a outra voz, tu és uma pseudo-voz, tenho de ir à procura da outra." Ouviu-se a seguir, "Sou a ressonância que te pertence, desde o princípio e para lá de qualquer morte, para sempre".Era como que uma tentação, estava prenhe de doce atractivo, cheio de simplicidade e cheio de sonho, um chamamento de sonho, para que ele mais uma vez se voltasse, um eco do país de infância. E a voz do rapaz, balsâmica, próxima e remota, conterrânea, suave, continuou: "Eterno é o eco do teu canto." Então ele disse: "Não, não quero ouvir mais o eco da minha voz; aguardo a voz que está para lá da minha." - "Já não consegues calar a ressonância dos corações; o seu eco está contigo, tão irrevogável como a tua sombra!" (...) Decorreu de novo um tempo longo, indeterminado, até vir a resposta. "Nunca mais podes ser solitário, nunca, nunca mais, porque o que soou de ti era maior do que tu, é maior do que a tua solidão, e já não o consegues aniquilar; oh, Virgílio, no canto da tua solidão estão todas as vozes. estão todos os mundos, eles estão contigo juntamente com a sua ressonância e romperam para todo o sempre a tua solidão, para todo o sempre entrelaçados com todo o futuro, porque a tua voz, Virgílio, foi desde o início a voz do deus." (...) E de súbito perguntou: "Quem és tu? Como te chamas?" - "Sou Lysânias", foi a resposta, vinda desta vez e indubitavelmente de muito mais perto (...) não tinha ele já decidido deixar o pequeno companheiro da noite no flutuante anonimato de onde tinha surgido? Não o tinha ele por isso mesmo mandado de volta para o anonimato? E admirado, continuou a perguntar: "Eu mandei-te embora... porque não foste?" - "Mas eu fui", ouviu-se em resposta, agora de muito perto, naquela voz de rapaz um pouco rústica, familiar e jovial, cuja modéstia escondia jocosamente uma leve astúcia de camponês, ardilosamente aguardando a próxima pergunta. Sem se dar conta disso, entrou no jogo: "Bom, tu foste-te embora... mas, no entanto, estás aqui." - "Não me proibiste de esperar em frente da tua porta... e agora chamaste."
Broch, Hermann. A Morte de Virgílio, Primeiro Volume. Lisboa: Relógio d'Água, S/d., pp 196-199.
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segunda-feira, 24 de abril de 2017
A coleção contramaré, da Editora Labirinto, dirigida por Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves, fez sair hoje o último livro de Henrique Levy: "Noivos do Mar". Esta obra tem Prefácio de Miguel Real e Posfácio de Inez Andrade Paes. Na mesma coleção sairá, dentro de dez/ quinze dias, uma Antologia Poética do poeta brasileiro Cláudio Neves. Esta Antologia foi organizada por Pedro Sette-Câmara.
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Outros destaques:
. Será apresentada esta semana em Madrid o último número da Revista Alora, la bien cercada com o meu poema "Aquilo que não tem nome", em português e na versão castelhana numa tradução do poeta catalão José Ángel Garcia Caballero;
- O Ayuntamiento de Ávila fará sair em breve o Nº 27 da Revista EL Cobaya integralmente dedicada a Glória Fuertes, no centenário da sua morte. Esta Revista, dirigida por José Muñoz Quirós, contará com colaborações prestigiadas como as de Juan Contramestre, Antonio Gamoneda, Antonio Colinas, etc. A minha colaboração nesta Revista, com o poema "Pássaro raro com leveza ao fundo", aparecerá em castelhano numa tradução do Prof. Dr. Alfredo Pérez de Alencart;
- A 24 e 25 de outubro deste ano apresentarei, no XX Festival Ibero-Americano de Poesia, em Salamanca, a Antologia Raiz de Piedra y Letra . Esta obra bilingue, com uma monumental colaboração de poetas de países de língua castelhana e portuguesa da Europa e das Américas, tem a Coordenação da Victor Oliveira Mateus e tem como tradutores, para além do coordenador, Jacqueline Alencart, Pedro Sánchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana;
- A Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017, terá a sua apresentação ao público também em outubro deste ano e, apesar de manter o mesmo coordenador do Nº 1, passou a ter o seguinte Conselho Editorial: Poesia e Ensaio (Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves), Prosa (Risoleta Pinto Pedro), Crítica Literária (Hugo Pinto Santos), Caderno de autor ou temático (Maria João Cantinho);
- Em breve mais notícias sobre os próximos números da contramaré, um dos quais sairá já em maio.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017
(Nota: Yeshua, Jesus; Yosef, José; Mosheh, Moisés; Yahanon, João; Miriam de Magdala, Maria Madalena; Loukas, Lucas).
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Quando nos abraçamos, roço a minha face na dele, a fim de sentir a barba a arranhar-me. Nesses momentos, imagino que somos irmãos há muito separados numa antiga epopeia grega, que se reconhecem mutuamente pelo toque da pele - o que pode ser a razão por que, nesse momento, ele leva as minhas mãos aos lábios.
- Costumas rir quando pensas no futuro? - pergunta-me, parafraseando um Provérbio.
- Rio-me para que o teu querido pai Yosef, que está nos céus, também possa sorrir - respondo, adaptando um versículo dos Salmos.
Yeshua e eu escolhemos mais uma citação de Mosheh para oferecer um ao outro. Foi a maneira que arranjámos de construir a nossa ilha. Sabes, Yaphiel, ele e eu passámos demasiado tempo com os nossos tutores quando éramos novos e tínhamos sede de um território sobre o qual tivéssemos domínio absoluto.
Um facto curioso: nos meus sonhos, os olhos de Yeshua mudam por vezes de cor. Embora ele os tivesse castanho-escuros como os do pai, tenho-os visto azuis da cor do céu, verdes e, de uma vez, prateados - como o olhar refletor de Mosheh, cuja alma era feita da luz refletida pelas águas dos rios do Éden.
Durante um tempo, enquanto lhe estudo a face, a sala e tudo o que ela contém desaparecem.
- Só o agora existe - diz ele como se nos tivesse libertado do tempo. Abre as mãos. - Não é preciso apressarmo-nos.
A solidão não tem de ser o meu destino, eis o que o meu pulso acelerado me diz. Esta é a ilha onde vivo sempre, mesmo quando não estou consciente disso.
O tempo volta a correr quando Yeshua beija o meu filho na testa e o abençoa. Fala com tanta ternura que o mais estranho de todos os estranhos pensamentos que me ocorreram ao longo da vida surge dentro de mim sem ser convidado: Se ao menos pudéssemos ter tido um filho juntos...
Será que o meu velho amigo me lê a mente ou que me escapou um comentário do meu filho, que teria feito com que a observação de Yeshua parecesse banal?
- Teremos de esperar até a roda girar mais uma vez - diz Yeshua. - Usa a palavra grega kuklos para "roda" e, dado que os significados ocultos deste termo só podem ser revelados aos iniciados, não me é permitido dizer mais nada sobre as suas intenções.
Terá Yeshua falado em voz alta, ou só na minha mente?(...)
Uma visão é uma verdade superior que tenta entrar em nós através dos olhos. Mas o que deveremos chamar a palavras audíveis proferidas na mente de outra pessoa?
Com o decorrer dos anos, Yohanon, Miriam de Madgala, Loukas e outros contaram-me que têm ouvido Yeshua dirigir-se-lhes dentro da mente...
Zimler, Richard. O Evangelho segundo Lázaro. Porto: Porto Editora, 2016, pp 291-292.
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