segunda-feira, 3 de julho de 2017
"A ruiva"
Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.
Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.
Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.
Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 22.
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domingo, 2 de julho de 2017
(Nota: segue abaixo o meu texto de Apresentação do livro nele referido , que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul - Avª D. Carlos I em Lisboa - no dia 26 de junho de 2017, este texto seria depois publicado na "Revista Caliban" a 26/6/2017).
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VASOS COMUNICANTES – ANTÓNIO RAMOS ROSA E
GISELA RAMOS ROSA: DISSEMELHANÇAS E CONVERGÊNCIAS.
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Transcrevo aqui, à laia de preâmbulo, um
excerto de uma obra sobre Maurice Blanchot que diz assim: “A experiência do
comentador junta-se aqui à do escritor: algo existe para ser dito e que não o
foi ainda, mas aquilo que não foi ainda dito, nunca o virá a ser.
Encontramo-nos, portanto, nesse espaço onde, como o relembra M. Blanchot,
Aquiles jamais alcançará a tartaruga. A expedição do crítico, apesar de aparentemente
visar um objetivo definido, se tem algo de cabotagem no lugar onde a obra
criativa se ergue enquanto aventura, partilha também com esta última do seu
carácter de itinerância. Assim como o escritor, o comentador soçobra sempre com
a terra prometida à vista.” (Françoise Collin in “Maurice Blanchot et la
question de l’écriture”. Paris: Gallimard, 1986, p 11, tradução minha). Esta
citação tem aqui uma dupla função: atenua e desculpabiliza as falhas e
imperfeições das notas que aqui avançarei e, por outro lado, refere um autor
que António Ramos Rosa gostava tanto de reler e de citar e que, de um modo ou
de outro, acabaria de preceder também essas inquirições/viagens que o poeta
português sempre retomava nos seus poemas, nas suas traduções, nos seus ensaios.
O livro que nos ocupa aqui neste texto
revela-nos, através do seu título, que estamos perante um recetáculo onde duas
vozes poéticas se derramam. Uma leitura apressada poder-nos-ia levar a pensar
que essas duas vozes poéticas circulam no território da identidade pura, logo,
da cópia, da repetição passiva, da contrafação. Ora, o que uma leitura mais
atenta faz ressaltar, é que estamos perante duas vozes, que, no seu diálogo e
partilha comum, ou apesar deles, não se despem de aspetos que no seu dizer são
essenciais e lhes concedem uma diferenciação recíproca, aliás, Maria Teresa
Dias Furtado, no Prefácio deste livro, salienta já, para além “do entendimento
poético e humano”, a questão “da proximidade na diversidade” (Cf. p 10).
O aspeto do diálogo e da partilha é enfatizado várias
vezes por ambos os poetas: “O que eu fiz de mais puro/como uma estrela no
ar/(…)/ Foi este livro contigo/que nasceu como nasceu” (A.R.R., 218/1/ 1-2;
A.R.R., 218/2/1-2, a técnica de citação
será sempre esta: iniciais do poeta, números de página, de estrofe, de versos);
“Contigo a meu lado eu estou contigo” (A.R.R., 214/1/1); “Em teus olhos
reais/alcanço o horizonte de um sol” (G.R.R., 196/1/1-2); “percorro as ruas da
cidade em busca de um lugar/ sugerido pela flor que me acolhe junto a ti”
(G.R.R., 24/1/3-4), todavia, este relacional se apresenta fortes convergências
quanto à intencionalidade e à extensão, já quanto à intensão surgem fortes
dissemelhanças: a atitude de Gisela Ramos Rosa é sempre a da deferência e do
comedimento ante a portentosa figura do interlocutor, isto apesar de uma
dedicatória que ousa (Cf. p 28), já António Ramos Rosa não se inibe de, num
verso, referir a consanguinidade entre ambos, bem como de recorrer a processos
de intitulação (Cf. p 76) e de nomeação submetendo, varias vezes, a este último
procedimentos formais como jogos de palavras, assonâncias e rimas internas (Cf.
p 72, p 214, p 218).
Ao nível dos referidos procedimentos formais
verificamos uma forte semelhança entre ambos os poetas com a tónica colocada
numa certa linearidade discursiva (Cf. G.R.R. 52-53/1-4/1-25) e, por vezes, a
sujeição da estrutura poemática a sequências alicerçadas em anáforas (Cf. p
112, 124) ou em jogos de palavras encadeadas e/ou emparelhadas (Cf. p 26). Não
é possível também distinguir os poetas quanto à dimensão dos poemas e dos
versos, já que ambos usam indiferenciadamente poemas longos e curtos, versos
extensos e breves. Será, contudo, no léxico utilizado que aparecerá, embora de
modo muito subtil, as variáveis indiciadoras de que para além do extremado
afeto e da intensa partilha relacional, poética e sapiencial, dois universos
poéticos distintos espreitam, embora respeitosamente se resguardem, já que o
momento é de construção no idêntico e não de afirmação do distinto. Ilustre-se
isto com os seguintes versos: “Pressinto o som das cores/ quando sinto o jardim
que se abre a meu olhar/ e nele descubro esboços de Deus/ na natureza” (G.R.R.,
204/1/15-18), não só o termo Deus nunca é referido por A.R.R., como o poeta jamais
subordina a Natureza a qualquer entidade que, a nível ontológico, lhe seja
hierarquicamente superior, aliás, e apesar de um ou outro título de livro e de
um ou outro título de poema, A.R.R. – à imagem de Heidegger, que citava com
frequência – colocava a sua escrita aquém da pergunta pela divindade: “O poema
dirige-se para o segredo do oriente/ interrogando as coisas imediatas e
simples/(…) situando o texto formulado/ numa galáxia informulada” (A.R.R.,
182/2/ 1-7), o fundamental – e fundante – no poeta era a linguagem e, mais
especificamente, a linguagem poética e a construção do poema no seu diálogo
sempre retomado com o mundo natural e humano. A própria consanguinidade acima
referida está subordinada aos elementos do mundo natural: “Minha estranha estrela
consanguínea/ em quantas estrelas brilhas/ pela janela do teu sangue/ és filha
do vento e de um grão de terra/ e da febre de um instante de alegria/ sobre uma
onda do mar” (p 122). Mas as dissemelhanças ao nível semântico parecem escapar
ao diálogo poético, sem que os próprios autores pareçam disso aperceber-se: por
duas vezes G.R.R. usa a palavra “templo” (Cf. p 44, p 84) e a sua incursão no
pictural, embora seguindo de perto A.R.R. (as árvores, as pedras, os rios, o
branco, o azul, o verde…), por uma vez se distancia dele: “o poema destina-se
ao lilás de um encontro” (G.R.R., 96/1/2) através de uma cor que tem uma
simbologia própria em dadas formas de religiosidade. Assim, se A.R.R. mantém à
distância a problemática teológica, optando por uma sacralização do mundo
natural, algo situada entre as várias formas de panteísmo e as visões
mítico-mágicas (seria interessante, por exemplo, que alguém fizesse um estudo
intertextual das poesias da António Ramos Rosa e de Dora Ferreira da Silva,
poeta brasileira que não me consta que ele tivesse lido), já Gisela Ramos Rosa
tende para uma atitude mais radical; dito de outra forma: se em A.R.R. há uma
comunhão com o mundo natural que é da ordem do sagrado, em G.R.R. tende-se, não
para uma comunhão, mas para uma fusão (ou um apagamento em?) com esse mesmo
mundo: “vou pelos reflexos das imagens que me chamam/ e a lei não encobre a
claridade do dia” (G.R.R., 128/2/1-2); “Senti as raízes do infinito/ nesse arco
onde o tempo tece a passagem/ e as correntes abrem os caminhos” (G.R.R.,
62/1/1-3).
Para concluir, direi que é este
entrecruzamento de convergências e dissemelhanças, que acaba conduzindo os dois
intervenientes deste diálogo poético a uma outra posição relacionada agora com
o conceito de “aberto”, que surge à saciedade neste livro e que não apresenta
qualquer conotação teológica, como em autores declaradamente cristãos, veja-se,
por exemplo, a posição do filósofo e teólogo ortodoxo Jean-Yves Leloup (Cf.
“L’enracinement et l’Ouverture”.Paris: Albin Michel, 1995) onde o encontro e o
diálogo com o outro e o diferente são tão-só um meio para “abrir” uma via mais
larga e mais luminosa para a divindade. Em “Vasos comunicantes” o “aberto”
surge invariavelmente associado à apreensão do outro nas suas múltiplas formas:
“O Aberto não esconde o que tu vês/ nem o que tu não podes ver/ tu vês e
respiras com todos os teus sentidos” (A.R.R., 68/1/1-3: Cf. também páginas 77,
132, 140, 166 e 198), em última instância o aberto é o que, de desvelamento em
desvelamento, me faz aceder à linguagem e faculta a construção do poema: “ na
casa o silêncio é um lugar que conquista/ as portas que se abrem para o
corredor/ e ao fundo entro na portada que me leva/ à espiral da linguagem à
suspensão do tempo” (G.R.R., 140/4/1-4), porque, acima de tudo, o que vinca
esta obra é o entendimento da poesia e do poema (“O poema é uma teia/de que
aranha de que areia/ que se desfaz e se tece/ e se inflecte como uma carícia”
A.R.R., 118/1/1-5) e uma profunda comunhão da intimidade, que, vendo bem, é
igualmente poesia (“ O teu sorriso é sempre um rosto/ que desenha o nosso
encontro” G.R.R., 132/3/1-2).
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Mateus, Victor Oliveira. Revista Caliban, 26 de junho de 2017.
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sexta-feira, 30 de junho de 2017
"A utilidade da competição"
Uma voz anuncia o repto:
O último a chegar ganha
os competidores hesitam
O último a chegar ganha
a voz repete-se e a confusão mantém-se sobre os competidores
O último a chegar ganha
então todos começaram a correr mas sem saberem como ganhar
Costa, Tiago Alves, Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 109.
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
"Das nove às seis da alegria triste"
Eu queria ser um fiel cumpridor das minhas funções.
Eu queria ser um trabalhador obediente.
(Das nove às seis da alegria triste)
Eu queria tomar o meu café à hora certa com os amigos que tracciono.
Eu queria ser um criminoso honesto funesto doméstico homem
Um homem: eu queria ser um homem.
Deixar fazer a digestão do almoço que detesto.
E celebrar as vitórias do meu clube que não tenho.
E ser feliz com a função que odeio:
empregado das horas - das nove às seis da alegria triste
Mas nem isso consigo.
Costa, Tiago Alves. Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 35.
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segunda-feira, 26 de junho de 2017
Oiço-te através de uma janela de mulher
recebo o fruto dos teus dedos dos teus olhos
do subtil grito da tua língua
transparece o azul
num país de um pássaro branco
És tu o teu sangue límpido
enevoado como um trémulo fruto
és tu no espírito de delicadeza
e a tua sede de rapariga e o teu nome
Como um pássaro de uma só nota pura
é o ar num verão de cinza
és uma estranha estrela estrangeira na minha vida
Ah! que fineza formal
de deslumbrada tristeza
ou de alegria ferida pelo fulgor de uma pedra
Rosa, António Ramos e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 30.
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domingo, 25 de junho de 2017
A simplicidade chega
sem a virtude de uma inteligência afirmativa
mas simples
eu não posso compreendê-la
Vejo-a como uma expressão pura e livre
como uma planta uma andorinha ou uma estalactite
um pouco trémula no instante de nascer
Ó ternura de um primeiro arbusto
de uma primavera antiga
Rosa, António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 174.
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sexta-feira, 23 de junho de 2017
Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.
Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 61.
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quarta-feira, 21 de junho de 2017
Semente alada, borboleta de terra
e curta viagem. Que aterra num sítio
à escolha do vento, tal como nós,
que nos encontrámos quando se formou
um remoinho ao mesmo tempo,
no mesmo lugar, onde cada um
do seu lado do passeio ia a passar.
Deve ser a isto que se chama
o mais puro acaso, o remoinho
chupou-nos para dentro, éramos
do género de não querer assim
muito movimento nas nossas vidas
e por isso tem sido um pouco, não
sei que palavra hei-de escolher, um
pouco aborrecido termos sido obrigados
a mover-nos no meio da sua espiral.
Caiu de cinco metros a semente
alada, quando olhei saía-lhe
de dentro um veneno arroxeado.
Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 54.
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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domingo, 18 de junho de 2017
Escuta:
este é o som falível
das minhas asas,
partindo-se.
Aí mesmo,
onde se tocam,
bem ao de leve,
abrigos e remorsos,
somos levados a aprender
como se emendam conjecturas,
i.e., arquitecturas movediças.
E, porque ainda me resta
a sabedoria dos ausentes,
decido voltar ao que,
afinal, sempre terei sido:
este arquipélago de sombras
em farrapos e feridas em surdina.
Transformo-me em insolente
desperdício de quimeras,
em jeito de banal esboço,
desenhado a contrapelo.
Não conheço melhor
destino do que este:
ser vagabunda bússola,
ansiando o imortal ardor
de murmúrio nenhum.
Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, pp 57-58.
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sábado, 17 de junho de 2017
O compromisso é para com
esta minha língua de fogo.
Sabes,
bastaria uma palavra.
E não é que,
sem que nada
o fizesse prever,
dás sinal de vida?
Dizes que estás quase a partir,
pois tudo é prece descabida,
apenas tendo tempo
para alegações finais.
Em minha defesa
direi apenas isto:
pretexto injusto
seria acusares-me
de não saber amar
convenientemente
o mais impuro dos dons:
pluma/solitária/perdida.
Com proveito discutível,
seria esta uma desmedida
declaração de abertura.
Mas que sei eu de compassos
e destes desacertos sincopados?
De elipse em elipse,
a queda é a cadência mais fiel.
Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, p 17.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017
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Memória e saudade:
um clip que acabo de descobrir no Youtube: no dia 11 de setembro de 2009, um grupo de amigos reunia-se no piso superior - o do bar - da então Livraria Trama, para falar do novo livro de Rui Costa, "As limitações do amor são infinitas". Aqui estão o Fernando Esteves Pinto, a Inês Ramos... e eu, sempre contestando a questão das vanguardas, sentado lá para trás. Só agora percebi : o Rui Costa respondendo ao Fernando Esteves Pinto, baixinho e já perto do final do vídeo: "Se não leste o Victor Oliveira Mateus, podias ter lido." Não conhecia nada disto! O Rui Costa viria a suicidar-se três anos depois (em 2012), nas águas do Douro. Lembro esta noite... com saudade!
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quinta-feira, 15 de junho de 2017
O Prof. Dr. A. P. Alencart da Universidade de Salamanca dá uma entrevista ao jornalista Borja Domínguez,
aqui: http://salamancartvaldia.es/not/152040/alencart-poesia-anibal-nunez-trasciende-rencillas-localismos/
Nesta entrevista o Prof. Alencart fala do XX Festival Iberoamericano de Poesia, que este ano será dedicado ao poeta espanhol Aníbal Núñez (1944-1987), menciona ainda, relativamente às representações dos vários países, os autores de língua portuguesa - entre os quais eu me incluo - que estarão nos diversos eventos que integrarão este Festival Literário.
Convém acrescentar que serão lançados, nesta semana, vários livros, dos quais destaco:
a Antologia "Explicación de la derrota" com poemas do próprio Aníbal Núñez e dos poetas que participam no Festival, dedicados ao homenageado. Esta obra monumental terá a Coordenação do próprio Alencart. Pela mesma altura será apresentada uma outra Antologia (" Raíz de piedra y Letras"), esta agora dedicada à cidade de Salamanca. É uma obra bilingue, que eu tive a honra de Coordenar e de fazer a tradução de alguns poemas, acompanhado por uma preciosa equipa que engloba: Jacqueline Alencart, Pedro Sanchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana.
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quinta-feira, 1 de junho de 2017
A Feira do Livro de Lisboa é sempre uma oportunidade para fazer compras, para rever amigos, para estabelecer contactos, para debates, lançamento de livros, conversas, etc. Pois bem, no próximo dia 3 (sábado), pelas 19:00H, cabe-me a mim estar no Pavilhão da "Coisas de Ler Editora", juntamente com outros autores que têm publicado nesta Editora.
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quarta-feira, 31 de maio de 2017
http://www.crearensalamanca.com/poemas-portugueses-para-gloria-fuertes-en-su-centenario-salvado-oliveira-mateus-barata-martis-y-aroso/
O portal CREAR EN SALAMANCA editado por José Amador Martín, na sua edição de hoje - 31/5/2017- publicou os poemas-homenagem a Gloria Fuertes escritos pelos autores portugueses: António Salvado, Albano Martins, Victor Oliveira Mateus, Maria de Lurdes Gouveia Barata e Eduardo Aroso na tradução de Alfredo Perez Alencart. Os referidos poemas constam do último número da revista "El Cobaya"..
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Como não devem conseguir entrar pelo link daqui, entrarão, seguramente, por qualquer outro lado :) , porque eu vou continuar a procurar a minha pausa...
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domingo, 28 de maio de 2017
O novo livro de Ronaldo Cagiano.
SOCIEDADE E ÉTICA NA POESIA DE
RONALDO CAGIANO
O presente livro de Ronaldo Cagiano, Observatório do Caos, apresenta-se-nos
como um olhar meticuloso e arguto não só sobre o homem nas suas diversas
mundividências, mas também sobre a sociedade que o cerca e que ao poeta se
mostra recorrentemente como um território polimorfo, ardiloso e que, o mais das
vezes, ameaça aquilo que no ser humano faz dele algo singular e único neste
planeta em que fomos chamados a estar.
A observação em torno do social é sempre uma
observação situada no espaço e no tempo: “Já não se fazem revoluções/como
antigamente/nesse tempo de ilusões famintas/e utopias sem destino” (pág. 5); “A
vida decomposta por Chronos/como aquelas árvores depiladas/no inverno de
Munique/ou o velho esmolando às margens do Tibre:” (pág. 33). Daqui ressalta
que o Observatório em que o poeta se
coloca para olhar, inventariar e recusar o Caos
que o cerca é sempre: marcado pela temporalidade e liberto de todos os
paradigmas metafísicos, aliás, esta recusa das interpretações metafísicas do
real concreto perpassa toda esta obra de Ronaldo Cagiano (Cf. pp. 12, 42, 78…)
prosseguindo a asserção estabelecida por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos no
poema Tabacaria (Cf. Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias
de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1980, pp. 252-259). O propósito
de dialogar, enfatizando ou ilustrando outros autores, é comum a este livro de
Cagiano, assim como a toda a sua obra poética, elucidando a tese de que o poeta
não é um ser isolado, mas antes percorre um trilho juntamente com aqueles que o
antecederam e também com os seus
contemporâneos com quem vai constantemente estabelecendo istmos e pontes (Cf.
poema Altares in O Sol nas Feridas. São Paulo: Dobra, 2011, pp. 86-90).
O Caos a
que Cagiano se refere neste livro e que conduzirá inevitavelmente o homem
contemporâneo a uma ruela obscura e sem saída pretende ser uma resposta ao
célebre Poema do Beco de Manuel
Bandeira (Cf. Manuel Bandeira in Antologia Poética. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1982, p. 87), beco este que surge ao longo de todo este livro
(Cf. pp. 12, 47 e 86). Poder-se-á então dizer que estamos perante uma apreensão
essencial do poeta, que é também um projeto dialógico e estruturante de todo
este livro: por um lado o dissecar acusatório de um sócio-cultural que se
desmultiplica depois nas suas diversas vertentes (religiosa, económica,
estética…) - sem jamais entrar em panfletarismos ou terçar armas com alvos de
dúbia significação -, por outro, o pressuposto de que este trabalho é feito e
constantemente retomado numa partilha salutar com outras vozes poéticas:
Penso
em Florbela Espanca
em
Jean Cocteau, em Hilda Hilst,
em
Dora Ferreira da Silva
na
incontida Orides Fontella
nesse
horizonte de espantos
e
nenhum milagre
onde
tudo fede a terror
e
exala ambiguidade.
(p. 85).
Acrescente-se ainda a título de exemplo, dois outros excertos de
poemas cujos autores e dizeres desembocam nesse cadinho que se apresenta como o
eixo central do presente livro:
Trovões
invadem
casas
coisas
quebram
louças
gráficos
vidros.
Anulam
o supérfluo: articulam
um
campo para o destino.
(In Orides Fontela, Poesia
Reunida 1969-1996. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p. 161); e ainda:
Neste
terraço mediocremente confortável,
bebemos
cerveja e olhamos o mar.
Sabemos
que nada nos acontecerá.
O
edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos
que cada edifício abriga mil corpos
labutando
em mil compartimentos iguais.
Às
vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e
vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o
que é privilégio dos edifícios.
O
mundo é mesmo de cimento armado.
(In Carlos Drummond de Andrade, Sentimento
do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 41).
A presença de Carlos Drummond de Andrade é um marco fundamental no que
diz respeito ao suportar do mundo e ao incentivo para uma ação transformadora
do real que ao poeta compete através da sua arte (Cf. pp. 47, 64, 77, 100…). Outra
presença emblemática neste livro de Ronaldo Cagiano é a do poeta Mia Couto quer através de epígrafes (Cf. p. 79), quer encetando um diálogo direto com
seus poemas ou versos (Cf. p. 52).
No Caos do mundo que Ronaldo Cagiano do seu
Observatório vai vendo ganham
particular relevo os aspetos económicos, ecológicos (“Sou aquele que
navega/desde as ínfimas encostas/do barrento rio Pomba/desde o leito
assoreado/do acossado Meia Pataca/à imensidão de Tabatinga/ao sol possível da
praia do Jacaré.” p. 84), políticos (Cf. p. 66) e religiosos, nestes últimos,
embora sem deixar de fustigar as religiões mais ortodoxas (Cf. p. 3), são
especialmente visados os cultos fanatizados e anestesiantes como por exemplo o dos
evangélicos (Cf. pp. 14, 23, 73…) por darem aso a atitudes irracionais e
robotizadas propagadoras de uma “fé demencial” (Cf. p. 66) onde se enraízam
todos os assassinos da liberdade
formadores de normas e modelos comportamentais próprios do rebanho e da
massificação acrítica. Aqui, Cagiano não nos deixa quaisquer dúvidas quanto à
sua recusa das conceções estético-literárias anódinas e/ou emasculadas, por
conseguinte, ele não só zurze todos os que intentam conduzir-nos para uma
infra-humanidade, como enumera e estabelece analogias: há, para o poeta, uma
similitude de essência entre tudo o que concorre para o aniquilamento da nossa
liberdade, daí a correspondência entre as ferozes ditaduras do século XX, a
retórica acrobática e milagreira dos evangélicos e aqueles que em Paris
tentaram sufocar, assassinando, a liberdade de pensamento e de expressão (pp.
66 – 67). O Observatório do Caos não
fornece a Cagiano um luminescente otimismo nem um edulcorado olhar que se abra
a um futuro necessariamente promissor, antes pelo contrário, aquilo que do seu
posto o poeta retém condu-lo a um desalento (“Cataguases sem festa, dos
silêncios, das ausências./ Das imensas crateras na alma de seu povo. “ p. 21;
“Em mim/ permanece uma constelação/ de vazios/ uma coreografia de varizes” p.
37)) eivado muitas vezes pela dor e pelo desespero (Cf. p. 39) a que a revolta
não é alheia. Destas constatações através das quais se movem “homens domados e
sem horizontes” (Cf. p. 50) surge, ao longo deste livro, a imagem do jardim - e aqui é impossível não nos
lembrarmos do final de Candide de
Voltaire e da necessidade de cuidarmos do nosso jardim -, pois, a função do
poeta é, para Ronaldo Cagiano: a observação do Caos, a inventariação dos seus elementos, a sua descrição e o
lançar das sementes de uma qualquer ação redentora geminada com a palavra
insurreta e libertadora da poesia. A observação do Caos anteriormente referida não é provocada ou de cariz
científico-laboratorial, nem tão-pouco contingente e acidental, ela é uma
observação diária e invasiva, pois é através dela que a existência se nos impõe
de chofre e de modo iniludível metaforizada na imagética do já referido jardim:
Jardins desidratados
sustentam caules transgênicos
e a minha inquietação
não tem a potência atômica
capaz
de dinamitar o caos
(p. 49)
e também:
No insondável abismo
nenhum sol espreita
a última lágrima secando no escuro.
O mundo em derredor
é um festim de anonimatos
enquanto dura a vertigem
do homem sem fé.
Em sua alma,
a única verdade
é o jardim de bactérias
em que se transformou sua vida,
esquelética como a esperança
que o desabita.
(p.
82)
Chegado a este
ponto desta leitura crítica de Observatório
do Caos é-me pertinente enfatizar duas aporias esparsas nesta obra e nela
deixadas deliberadamente insolúveis por Ronaldo Cagiano: primeiro, o livro
aparece-nos como um olhar clarividente e desenganado sobre o Caos que envolve o poeta, contudo, em
certos momentos da obra, este acena-nos com uma ou outra fresta de uma luminosidade
possível, embora só suscetível de ser concretizada através do amor (“Mas no
muito que sofrer,/com seu amor/tudo rechaço.” p. 59; “Pois/na noite
insolúvel/atravessamos de mãos dadas” p. 68); esta tese de uma negritude
absoluta mas que nunca é totalizadora e acaba deixando, em raros momentos, uma
nesga para uma eventual reabilitação do acontecer, surge-nos já em obras
anteriores do poeta: “Como a ave mitológica,/cada dia renasço/das próprias
cinzas./Reinvento o calendário/pra rea(s)cender a minha vida.” (In Canção dentro da noite. Brasilia:
Thesaurus, 1999, p.31). O segundo aspeto prende-se com a questão da inexistência
de Deus e, mesmo assim, haver a possibilidade da fundamentação de uma Ética,
ora, em Observatório do Caos, Ronaldo Cagiano avança com a insofismável e
voraz imagem de uma sociedade modelada à imagem da barbárie e de onde Deus
parece ter-se retirado há muito (“ o Criador lançou suas pragas/ e o mundo jaz
neste inferno:” p. 11; “Onde está Deus/que não faz nada?” p. 67), portanto, a
recusa de uma entidade transcendente encontra-se intimamente ligada à
problemática do Mal, bem como àquilo que se dá através dos dados empíricos: o
Mal, diria Hanna Arendt ao contrário de Kant, não tem profundidade tem apenas
superfície e, por isso, alastra como um fungo (Cf. António Marques in A Filosofia e o Mal, Banalidade e
Radicalidade do Mal de Hanna Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D’Água
Editores, 2015), contudo, ao transferir a importância dada a uma Entidade
Suprema, a um Primeiro Princípio, para a relação com o Outro, este livro de
Cagiano acaba por tangenciar o pensar de filósofos profundamente religiosos
como por exemplo o de Lévinas, para quem a Ética é fundamento do Pensar e a
Infinitude da Divindade deve ser
reconhecida (porque estampada) no Rosto do Outro.
O Caos , em todas as suas vertentes: social, económica, cultural,
etc. , é o que machuca o coração e o ver daquele que, no seu Observatório , recusa a indiferença e
opta pela procura dessa palavra certa que exprima as “vozes de um sentir
proletário” (Cf. p. 78) ou que dê tempo a dona Cidinha, para que esta impeça as
bonecas da filha de se afogarem “nesses injusto mar” (Cf. p. 13). Aqui e ali,
neste livro de Ronaldo Cagiano, e para além das veementes denúncia e recusa,
assomam centelhas, que, apesar dos seus matizes políticos, são acima de tudo o
ensejo de abanar o homem para que estabeleça outro tipo de laços, para que dos
escombros agora inventariados outro Ethos
possa (ainda) ressurgir, já que o renovo nos brota sempre da Guerra e da
Luta dos Contrários, tal como Heraclito defendia e como o último poema deste
livro de Ronaldo Cagiano – não colocado à guisa de epílogo por acaso! – insiste
em nos acenar.
Victor Oliveira Mateus, in Observatório do Caos de Ronaldo Cagiano. São Paulo: Editora Patuá, 2017.
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terça-feira, 23 de maio de 2017
(O artigo referido abaixo, para quem não conseguir aceder via link)
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Alguns apontamentos em torno d’ O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO de Richard Zimler
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Alguns apontamentos em torno d’ O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO de Richard Zimler
Quem não pode morrer
arranque a
lápide
levante e ande
Até quando?
Até onde?
Edmar Monteiro Filho, Lázaro
A vida e obra de Jesus Cristo não têm sido
temas apelativos para o romance português contemporâneo. Se o cinema ocidental
tem visto no assunto matéria inesgotável para as suas abordagens (Pasolini,
Scorsese, Zeffirelli, Gibson, etc.), o mesmo acontecendo com a música dita
erudita (Bach, Liszt, Messiaen, etc.), já o romance luso fica-se por duas meras
incursões na história sagrada: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) de José Saramago e “Os Últimos Dias de
Pôncio de Pilatos” (2011) de Paula de Sousa Lima. Se outros motivos não
existissem, o facto de nos encontrarmos perante um território literariamente
inóspito, já seria de louvar a temeridade com que Richard Zimler se lança na
construção da sua narrativa. Sem nos esquecermos que a relação da História com
a Cultura tem sido uma das dominantes na ficção de Zimler, urge, no entanto,
acrescentar que em O Evangelho segundo
Lázaro há uma vertente psicologista – fundada quer numa sistemática
introspeção do narrador, quer numa análise do relacional – que, tomando
igualmente a dianteira, forma com os aspetos históricos e culturais uma tríade
que, não só dota a estrutura narrativa de coerência e sistematicidade, como
apresenta a tese central do livro com uma razoabilidade que incita a reflexão e
o questionamento.
Este romance de Zimler integra-se num estilo
realista alicerçado no histórico, no cultural e no sócio-ideológico, contudo,
este realismo é constantemente atravessado por momentos de intersubjetivismo e
de intrasubjetivismo, que o autor assinala a itálico. Convém acrescentar que
este psicologismo nada tem a ver com as exaustivas análises do mundo interior
levadas a cabo por Proust no seu emblemático romance; em Zimler os excertos em
itálico mantêm-se presos ao imediatismo do instante vivenciado (Cf. p 25) ou
são puras conjeturas em torno do pensamento ou do monólogo interior do outro
(Cf. p 52, p 70, p 332). É este aspeto estilístico, bem como a escorreita
articulação da intriga e o modo de tratar o tempo narrativo, que dotam O Evangelho segundo Lázaro de uma
tessitura sólida e de uma fruição agradável e enriquecedora. Relativamente à
questão do tempo narrativo, Richard Zimler demarca-se do romance fragmentado e
do articulado emparelhamento dos planos narrativos, optando – de modo exímio e
coerente – por uma linearidade diegética constantemente transpassada por
analepses (Cf. p 83), elipses (Cf. p 75), resumos (Cf. p 402), prolepses (Cf. p
17). Também no que diz respeito aos aspetos psicológicos já referidos é
importante considerar a forma rigorosa como são desenhados atitudes, modelos
comportamentais e, sobretudo, as personalidades das personagens como por
exemplo as de Jesus, Marta e Anás, o anterior sumo sacerdote, cujas ações
aparecem no livro com uma inventariação de pormenores digna de um tratado
científico.
O
Evangelho segundo Lázaro apresenta um prólogo, à guisa de advertência, para
que o pergaminho que vai ser exposto não possa ser roubado, vendido,
desfigurado ou queimado (p 9). Após este Conselho
amigo, Lázaro lança-se na sua versão da vida de Jesus, tomando como início
da narração a história da sua própria ressurreição (pp 13-31), mas sem esquecer
de referir o recetor do pergaminho – Yaphiel, o seu neto vivendo em Alexandria
-, bem como o tempo histórico e o espaço geográfico da narração. Um dos aspetos
mais interessantes deste livro é a forma como se entrecruza a preocupação de
rigor de Lázaro com as zonas de sombra que o autor incute no discurso do
narrador – exemplo: Lázaro, durante o tempo em que esteve morto não vislumbrou
quaisquer sinais de uma qualquer transcendência, o que, obviamente, o deveria
direcionar para um ateísmo convicto (na página 271 fala-se mesmo da sua perda
da fé!), todavia, várias são as passagens do livro em que ele invoca o Senhor
(Cf. p 415); outro exemplo: Lázaro não fundamenta de forma suficientemente
clara a forma como entende o regresso de Jesus – aqui e ali – após a sua crucificação,
se por vezes levanta a possibilidade de o vir a reencontrar “ quer na sua
própria pele, quer na pele de outro homem ou mulher” (p 439), posição esta que
tangencia a teoria platónica da transmigração da alma, outras vezes parece querer substituir o conceito de aparição pelo de visão (p 381-384, p 440), seguindo de perto a sistematização operada
por Ratzinger relativamente a investigações teológicas que o precederam. A
questão da ressurreição – quer a de Lázaro, quer a de Jesus – é um dos temas
fundamentais deste livro, contudo, Zimler afasta-se de toda a tentativa
primária de clarificar o fenómeno (uma das tais zonas de sombra já referidas!),
parecendo querer deixar para o leitor a liberdade de interpretação, já que são
exatamente as palavras de Jesus que irão operar a cisão entre a visão judaica
da dos primeiros cristãos no que diz respeito à tríade morte/ fim dos tempos/
ressurreição (Cf. “Ce qu’ils n’ont pas dit de Pâques” de Daniel Marguerat in
“Les premiers temps de l’Église”, org. Marie-Françoise Baslez, Gallimard, 2004,
pp 92-100): Marta e Maria sabem que Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, mas
isso não parece consolá-las, daí reprovarem Jesus por não ter chegado a tempo (
Cf. Daniel Marguerat, op. cit. p 99), por sua vez este, apesar de saber que
ainda naquele dia (e o fim dos tempos é, então, trazido para o presente!)
Lázaro poderia estar diante do Senhor, mesmo assim, decide traze-lo de novo à
vida. Eis os dois pontos fundamentais deste livro: a ressurreição de Lázaro e a
figura de Jesus!
A
figura de Jesus não é, no entanto, nesta obra, apresentada como a do filho
unigénito de Deus, como aquele que sendo Deus encarnado participa da sua
substância e da sua natureza. É evidente que é um filho de Deus, mas no sentido
em que todos o somos, talvez com capacidades e aptidões superiores às do vulgo
para comunicar com a transcendência, mas é apenas isso e nada mais. Por
conseguinte, em O Evangelho segundo
Lázaro, Jesus é frequentemente apresentado (apenas) como: profeta (p 237),
milagreiro (p 261), um ser extraordinário
(p 214, p 265), mago (p 177, p 295), “auxiliador/ comunicador à distância”
(p 338, p 356), curandeiro (p 358), feiticeiro (p 196). Ora, e aqui Richad
Zimler insere exemplarmente o seu livro no ambiente teológico e filosófico não
só da época por ele abordada, mas também daquelas que imediatamente se lhe
seguiram – exemplos: Apolónio de Tiana (final do século I D.C.) viajou por todo
o Império Romano tendo granjeado fama de mago, profeta e operador de milagres,
aliás, também a tese de divindades intermédias ou de seres mediadores era
bastante comum, como podemos ver em Numénio de Apameia (Síria, século I D.C.) e
em Plutarco de Queroneia ( 46-120 D.C.), sendo este o mais notável
representante do chamado Platonismo Médio e em Fílon de Alexandria (30 A.C. ?),
convém não esquecer que é exatamente em Alexandria que reside a tia de Lázaro,
Ester, e será nesta cidade que a personagem que dá título ao livro encontrará
um dos seus refúgios, bem como algumas das primeiras figurações de um
cristianismo emergente, deturpador e fanatizado. Será em Alexandria, já perto
do final do romance, que Lázaro irá conhecer os arautos de uma nova religião
alicerçada numa figura que nada tem a ver com o Jesus que ele conheceu e com
quem conviveu desde a infância.
Mas
O Evangelho segundo Lázaro não é
apenas uma obra inserida, de modo escorreito, numa cultura a partir da qual
lança a sua mensagem. Os aspetos político-ideológicos (Cf. p 333), económicos e
sociais são a outra trave mestra do romance: após a sua ressurreição, Lázaro
regressa a casa numa ruela onde as pessoas se começam a amontoar para,
diariamente, lhe pedirem a bênção ou, até mesmo, a cura para uma ou outra
maleita. Este fenómeno, bem como a cumplicidade com um Jesus, que, pelo
discurso e pela ação, vai afrontando os poderosos do seu tempo, acabará
trazendo enormes problemas aos dois amigos. Veja-se, por exemplo: Jesus
libertando um escravo (p 212), as críticas que faz a Caifás (p 214), a sua
recusa da passividade ante o poder de Roma (p 218), etc. O afrontamento de
Jesus aos valores da conformidade, bem como a solidariedade – por vezes
cautelosa – demonstrada por Lázaro, têm duas consequências inevitáveis: a
prisão e crucificação de Jesus e a perseguição movida a Lázaro – e família -
que o leva a ter de abandonar a Palestina. O conflito, inicialmente com a casta
sacerdotal - sobretudo com o despótico Anás, o antigo sumo sacerdote – que teme
a perda de privilégios, alastra depois ao poder temporal e, apesar de não se
estar perante um modelo político teocrático, o que é facto é que a execução de
Jesus enfatiza a frase de Henri Pena-Ruiz para este tipo de sociedades: “Dieu
et César pour le pire” (In “Qu’est-ce que la laicité?”, Folio, 2003, pp 50-56).
Lázaro tudo faz para tirar o seu amigo da prisão: pedidos a Lucius, seu patrão;
tentativa de persuadir Augustus Sallustius, o áugure de Pilatos, mas nada surte
efeito. Estava-se perante o inevitável (pp 354-373)! Com parte da família
assassinada como represália, resta a Lázaro uma única saída: a fuga, primeiro
para Jericó, depois para Rodes… No final do romance, surge a explicitação do
porquê da necessidade de escrever este seu Evangelho,
da necessidade que sentiu em expor a Yaphiel, seu neto, aquilo que foi a
verdade factual da vida de Jesus, aquela que ele vira com os seus próprios
olhos e não a propagada naquele momento pelos seus seguidores que pululavam
mundo afora.
Richard Zimler articula assim de modo
inextricável três variáveis: a preocupação com a verdade objetiva de que o
narrador se faz arauto; as “pausas” de cariz reflexivo (Cf. p 221, p 243), que,
porque distanciadas umas das outras, poderão parecer incipientes e
desnecessárias e os momentos carregados de forte poeticidade, sobretudo os que
relevam da relação de Lázaro com Maria, uma das irmãs, e com Jesus, onde o
corpo e os sentidos assumem sempre uma conotação positiva (Cf. p 347, p 371). É
a conjugação destas últimas variáveis com o referido no segundo parágrafo deste
texto, que fazem d’ O Evangelho segundo
Lázaro uma obra de valor inestimável e imperdível.
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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O drama trágico da existência consuma-se na pronúncia
Que não sai dos lábios
A pronúncia é mais abstracta do que a palavra
A palavra propaga-se pelo ar e a pronúncia fica
Atrás da língua e daí não sai
Vieram do norte
Com uma pronúncia distinta na mesma língua
O pai a mãe e três filhas
No resto eram em tudo iguais aos outros
Morreram como muitos outros
Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 43.
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segunda-feira, 22 de maio de 2017
Festival Literário "Raias Poéticas de 2014 de Vila Nova de Famalicão". Na mesa e da esquerda para a direita: Luis Serguilha, Luísa Monteiro, Sofia Amaro, José Emílio-Nelson, Victor Oliveira Mateus, Jessica Falconi.
O texto por mim apresentado neste encontro "O Real Poético e o Real da Poesia", foi depois publicado em: "Revista Triplo V de Artes, Religiões e Ciências", Nova Série, Nº 49, dezembro-janeiro, 2014-2015.
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