segunda-feira, 10 de julho de 2017
"Memorial"
As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes
Forte, António José. Uma faca nos dentes. Lisboa: Antígona Editores, 2017, p 36.
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sexta-feira, 7 de julho de 2017
"O Reincidente"
Tenho a sensação constante do equívoco, como o ladrar
esquartejado de um cão sobre um fundo de lamentos e
espadas. Assisto, impávido, ao suicídio sumário das horas
que não me pertencem. Às vezes apetece-me encostar um
fósforo aceso ao mundo, mas o mundo despreza esta e outras
formas de sagacidade. Acordo em completo desacordo com a
minha condição. Acordo em consonância com a velocidade
e a desfocagem, como se pertencesse à casta mais baixa de
uma colónia de térmitas. Acordo completamente cego. Sem
asas. Vitalmente imaturo. Predestinado para a concepção
honrosa de túneis, apto para descobrir água e alimento,
sempre com o cuidado de zelar pela alta eficácia do
reino. Acordo, acordo sempre de tudo, mas nunca desperto
de nada.
Domingues, André. Dramas de Companhia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p 40.
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quinta-feira, 6 de julho de 2017
As últimas palavras que disser
ninguém as vai ouvir,
com tanta gente a morrer ao telemóvel
teclando a solidão viciante.
Estará tudo extinto pela água e pelo fogo,
apenas um homem trabalhará a terra
para que outro a coma
e constituirá um abrigo inútil
para proteger a espécie
da incerteza das placas tectónicas.
Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 44.
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quarta-feira, 5 de julho de 2017
Fico à mercê dos cliques,
da reacção do sistema,
feito parvo, à espera de um sorriso,
de flores na mão.
Trago comigo um frágil martelo
para destruir uma placa gráfica, um disco rígido,
uma motherboard onde os meus segredos
são guardados de má fé.
E um papel timbrado a preencher de angústia.
E um megafone analógico
para ampliar a minha raiva
por não encontrar uma ave migratória
que me leve na viagem maravilhosa de Nils Holgersson.
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Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 32.
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terça-feira, 4 de julho de 2017
"Nu com colar de coral"
Um lugar de encontro
pode ser aqui, onde me dispo toda.
Aqui entre os lençóis de linho
e o curso do rio que me afoga as coxas.
Vem! Tenho a sombra das tuas mãos
presa no colar que me ofereceste
e pássaros de abrasamento
abrigados no cerco do meu corpo.
Vem! Misturei aromas de chá
e de cânfora no meu hálito e preservo
no olhar a rara planície do desejo.
Quero que me vejas antes que o sol decline
e a mais densa penumbra torne insubmissa
a minha mão tão perto do prazer.
Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 45.
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segunda-feira, 3 de julho de 2017
"A ruiva"
Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.
Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.
Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.
Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 22.
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domingo, 2 de julho de 2017
(Nota: segue abaixo o meu texto de Apresentação do livro nele referido , que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul - Avª D. Carlos I em Lisboa - no dia 26 de junho de 2017, este texto seria depois publicado na "Revista Caliban" a 26/6/2017).
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VASOS COMUNICANTES – ANTÓNIO RAMOS ROSA E
GISELA RAMOS ROSA: DISSEMELHANÇAS E CONVERGÊNCIAS.
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Transcrevo aqui, à laia de preâmbulo, um
excerto de uma obra sobre Maurice Blanchot que diz assim: “A experiência do
comentador junta-se aqui à do escritor: algo existe para ser dito e que não o
foi ainda, mas aquilo que não foi ainda dito, nunca o virá a ser.
Encontramo-nos, portanto, nesse espaço onde, como o relembra M. Blanchot,
Aquiles jamais alcançará a tartaruga. A expedição do crítico, apesar de aparentemente
visar um objetivo definido, se tem algo de cabotagem no lugar onde a obra
criativa se ergue enquanto aventura, partilha também com esta última do seu
carácter de itinerância. Assim como o escritor, o comentador soçobra sempre com
a terra prometida à vista.” (Françoise Collin in “Maurice Blanchot et la
question de l’écriture”. Paris: Gallimard, 1986, p 11, tradução minha). Esta
citação tem aqui uma dupla função: atenua e desculpabiliza as falhas e
imperfeições das notas que aqui avançarei e, por outro lado, refere um autor
que António Ramos Rosa gostava tanto de reler e de citar e que, de um modo ou
de outro, acabaria de preceder também essas inquirições/viagens que o poeta
português sempre retomava nos seus poemas, nas suas traduções, nos seus ensaios.
O livro que nos ocupa aqui neste texto
revela-nos, através do seu título, que estamos perante um recetáculo onde duas
vozes poéticas se derramam. Uma leitura apressada poder-nos-ia levar a pensar
que essas duas vozes poéticas circulam no território da identidade pura, logo,
da cópia, da repetição passiva, da contrafação. Ora, o que uma leitura mais
atenta faz ressaltar, é que estamos perante duas vozes, que, no seu diálogo e
partilha comum, ou apesar deles, não se despem de aspetos que no seu dizer são
essenciais e lhes concedem uma diferenciação recíproca, aliás, Maria Teresa
Dias Furtado, no Prefácio deste livro, salienta já, para além “do entendimento
poético e humano”, a questão “da proximidade na diversidade” (Cf. p 10).
O aspeto do diálogo e da partilha é enfatizado várias
vezes por ambos os poetas: “O que eu fiz de mais puro/como uma estrela no
ar/(…)/ Foi este livro contigo/que nasceu como nasceu” (A.R.R., 218/1/ 1-2;
A.R.R., 218/2/1-2, a técnica de citação
será sempre esta: iniciais do poeta, números de página, de estrofe, de versos);
“Contigo a meu lado eu estou contigo” (A.R.R., 214/1/1); “Em teus olhos
reais/alcanço o horizonte de um sol” (G.R.R., 196/1/1-2); “percorro as ruas da
cidade em busca de um lugar/ sugerido pela flor que me acolhe junto a ti”
(G.R.R., 24/1/3-4), todavia, este relacional se apresenta fortes convergências
quanto à intencionalidade e à extensão, já quanto à intensão surgem fortes
dissemelhanças: a atitude de Gisela Ramos Rosa é sempre a da deferência e do
comedimento ante a portentosa figura do interlocutor, isto apesar de uma
dedicatória que ousa (Cf. p 28), já António Ramos Rosa não se inibe de, num
verso, referir a consanguinidade entre ambos, bem como de recorrer a processos
de intitulação (Cf. p 76) e de nomeação submetendo, varias vezes, a este último
procedimentos formais como jogos de palavras, assonâncias e rimas internas (Cf.
p 72, p 214, p 218).
Ao nível dos referidos procedimentos formais
verificamos uma forte semelhança entre ambos os poetas com a tónica colocada
numa certa linearidade discursiva (Cf. G.R.R. 52-53/1-4/1-25) e, por vezes, a
sujeição da estrutura poemática a sequências alicerçadas em anáforas (Cf. p
112, 124) ou em jogos de palavras encadeadas e/ou emparelhadas (Cf. p 26). Não
é possível também distinguir os poetas quanto à dimensão dos poemas e dos
versos, já que ambos usam indiferenciadamente poemas longos e curtos, versos
extensos e breves. Será, contudo, no léxico utilizado que aparecerá, embora de
modo muito subtil, as variáveis indiciadoras de que para além do extremado
afeto e da intensa partilha relacional, poética e sapiencial, dois universos
poéticos distintos espreitam, embora respeitosamente se resguardem, já que o
momento é de construção no idêntico e não de afirmação do distinto. Ilustre-se
isto com os seguintes versos: “Pressinto o som das cores/ quando sinto o jardim
que se abre a meu olhar/ e nele descubro esboços de Deus/ na natureza” (G.R.R.,
204/1/15-18), não só o termo Deus nunca é referido por A.R.R., como o poeta jamais
subordina a Natureza a qualquer entidade que, a nível ontológico, lhe seja
hierarquicamente superior, aliás, e apesar de um ou outro título de livro e de
um ou outro título de poema, A.R.R. – à imagem de Heidegger, que citava com
frequência – colocava a sua escrita aquém da pergunta pela divindade: “O poema
dirige-se para o segredo do oriente/ interrogando as coisas imediatas e
simples/(…) situando o texto formulado/ numa galáxia informulada” (A.R.R.,
182/2/ 1-7), o fundamental – e fundante – no poeta era a linguagem e, mais
especificamente, a linguagem poética e a construção do poema no seu diálogo
sempre retomado com o mundo natural e humano. A própria consanguinidade acima
referida está subordinada aos elementos do mundo natural: “Minha estranha estrela
consanguínea/ em quantas estrelas brilhas/ pela janela do teu sangue/ és filha
do vento e de um grão de terra/ e da febre de um instante de alegria/ sobre uma
onda do mar” (p 122). Mas as dissemelhanças ao nível semântico parecem escapar
ao diálogo poético, sem que os próprios autores pareçam disso aperceber-se: por
duas vezes G.R.R. usa a palavra “templo” (Cf. p 44, p 84) e a sua incursão no
pictural, embora seguindo de perto A.R.R. (as árvores, as pedras, os rios, o
branco, o azul, o verde…), por uma vez se distancia dele: “o poema destina-se
ao lilás de um encontro” (G.R.R., 96/1/2) através de uma cor que tem uma
simbologia própria em dadas formas de religiosidade. Assim, se A.R.R. mantém à
distância a problemática teológica, optando por uma sacralização do mundo
natural, algo situada entre as várias formas de panteísmo e as visões
mítico-mágicas (seria interessante, por exemplo, que alguém fizesse um estudo
intertextual das poesias da António Ramos Rosa e de Dora Ferreira da Silva,
poeta brasileira que não me consta que ele tivesse lido), já Gisela Ramos Rosa
tende para uma atitude mais radical; dito de outra forma: se em A.R.R. há uma
comunhão com o mundo natural que é da ordem do sagrado, em G.R.R. tende-se, não
para uma comunhão, mas para uma fusão (ou um apagamento em?) com esse mesmo
mundo: “vou pelos reflexos das imagens que me chamam/ e a lei não encobre a
claridade do dia” (G.R.R., 128/2/1-2); “Senti as raízes do infinito/ nesse arco
onde o tempo tece a passagem/ e as correntes abrem os caminhos” (G.R.R.,
62/1/1-3).
Para concluir, direi que é este
entrecruzamento de convergências e dissemelhanças, que acaba conduzindo os dois
intervenientes deste diálogo poético a uma outra posição relacionada agora com
o conceito de “aberto”, que surge à saciedade neste livro e que não apresenta
qualquer conotação teológica, como em autores declaradamente cristãos, veja-se,
por exemplo, a posição do filósofo e teólogo ortodoxo Jean-Yves Leloup (Cf.
“L’enracinement et l’Ouverture”.Paris: Albin Michel, 1995) onde o encontro e o
diálogo com o outro e o diferente são tão-só um meio para “abrir” uma via mais
larga e mais luminosa para a divindade. Em “Vasos comunicantes” o “aberto”
surge invariavelmente associado à apreensão do outro nas suas múltiplas formas:
“O Aberto não esconde o que tu vês/ nem o que tu não podes ver/ tu vês e
respiras com todos os teus sentidos” (A.R.R., 68/1/1-3: Cf. também páginas 77,
132, 140, 166 e 198), em última instância o aberto é o que, de desvelamento em
desvelamento, me faz aceder à linguagem e faculta a construção do poema: “ na
casa o silêncio é um lugar que conquista/ as portas que se abrem para o
corredor/ e ao fundo entro na portada que me leva/ à espiral da linguagem à
suspensão do tempo” (G.R.R., 140/4/1-4), porque, acima de tudo, o que vinca
esta obra é o entendimento da poesia e do poema (“O poema é uma teia/de que
aranha de que areia/ que se desfaz e se tece/ e se inflecte como uma carícia”
A.R.R., 118/1/1-5) e uma profunda comunhão da intimidade, que, vendo bem, é
igualmente poesia (“ O teu sorriso é sempre um rosto/ que desenha o nosso
encontro” G.R.R., 132/3/1-2).
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Mateus, Victor Oliveira. Revista Caliban, 26 de junho de 2017.
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sexta-feira, 30 de junho de 2017
"A utilidade da competição"
Uma voz anuncia o repto:
O último a chegar ganha
os competidores hesitam
O último a chegar ganha
a voz repete-se e a confusão mantém-se sobre os competidores
O último a chegar ganha
então todos começaram a correr mas sem saberem como ganhar
Costa, Tiago Alves, Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 109.
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
"Das nove às seis da alegria triste"
Eu queria ser um fiel cumpridor das minhas funções.
Eu queria ser um trabalhador obediente.
(Das nove às seis da alegria triste)
Eu queria tomar o meu café à hora certa com os amigos que tracciono.
Eu queria ser um criminoso honesto funesto doméstico homem
Um homem: eu queria ser um homem.
Deixar fazer a digestão do almoço que detesto.
E celebrar as vitórias do meu clube que não tenho.
E ser feliz com a função que odeio:
empregado das horas - das nove às seis da alegria triste
Mas nem isso consigo.
Costa, Tiago Alves. Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 35.
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segunda-feira, 26 de junho de 2017
Oiço-te através de uma janela de mulher
recebo o fruto dos teus dedos dos teus olhos
do subtil grito da tua língua
transparece o azul
num país de um pássaro branco
És tu o teu sangue límpido
enevoado como um trémulo fruto
és tu no espírito de delicadeza
e a tua sede de rapariga e o teu nome
Como um pássaro de uma só nota pura
é o ar num verão de cinza
és uma estranha estrela estrangeira na minha vida
Ah! que fineza formal
de deslumbrada tristeza
ou de alegria ferida pelo fulgor de uma pedra
Rosa, António Ramos e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 30.
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domingo, 25 de junho de 2017
A simplicidade chega
sem a virtude de uma inteligência afirmativa
mas simples
eu não posso compreendê-la
Vejo-a como uma expressão pura e livre
como uma planta uma andorinha ou uma estalactite
um pouco trémula no instante de nascer
Ó ternura de um primeiro arbusto
de uma primavera antiga
Rosa, António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 174.
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sexta-feira, 23 de junho de 2017
Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.
Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 61.
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quarta-feira, 21 de junho de 2017
Semente alada, borboleta de terra
e curta viagem. Que aterra num sítio
à escolha do vento, tal como nós,
que nos encontrámos quando se formou
um remoinho ao mesmo tempo,
no mesmo lugar, onde cada um
do seu lado do passeio ia a passar.
Deve ser a isto que se chama
o mais puro acaso, o remoinho
chupou-nos para dentro, éramos
do género de não querer assim
muito movimento nas nossas vidas
e por isso tem sido um pouco, não
sei que palavra hei-de escolher, um
pouco aborrecido termos sido obrigados
a mover-nos no meio da sua espiral.
Caiu de cinco metros a semente
alada, quando olhei saía-lhe
de dentro um veneno arroxeado.
Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 54.
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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domingo, 18 de junho de 2017
Escuta:
este é o som falível
das minhas asas,
partindo-se.
Aí mesmo,
onde se tocam,
bem ao de leve,
abrigos e remorsos,
somos levados a aprender
como se emendam conjecturas,
i.e., arquitecturas movediças.
E, porque ainda me resta
a sabedoria dos ausentes,
decido voltar ao que,
afinal, sempre terei sido:
este arquipélago de sombras
em farrapos e feridas em surdina.
Transformo-me em insolente
desperdício de quimeras,
em jeito de banal esboço,
desenhado a contrapelo.
Não conheço melhor
destino do que este:
ser vagabunda bússola,
ansiando o imortal ardor
de murmúrio nenhum.
Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, pp 57-58.
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sábado, 17 de junho de 2017
O compromisso é para com
esta minha língua de fogo.
Sabes,
bastaria uma palavra.
E não é que,
sem que nada
o fizesse prever,
dás sinal de vida?
Dizes que estás quase a partir,
pois tudo é prece descabida,
apenas tendo tempo
para alegações finais.
Em minha defesa
direi apenas isto:
pretexto injusto
seria acusares-me
de não saber amar
convenientemente
o mais impuro dos dons:
pluma/solitária/perdida.
Com proveito discutível,
seria esta uma desmedida
declaração de abertura.
Mas que sei eu de compassos
e destes desacertos sincopados?
De elipse em elipse,
a queda é a cadência mais fiel.
Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, p 17.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017
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Memória e saudade:
um clip que acabo de descobrir no Youtube: no dia 11 de setembro de 2009, um grupo de amigos reunia-se no piso superior - o do bar - da então Livraria Trama, para falar do novo livro de Rui Costa, "As limitações do amor são infinitas". Aqui estão o Fernando Esteves Pinto, a Inês Ramos... e eu, sempre contestando a questão das vanguardas, sentado lá para trás. Só agora percebi : o Rui Costa respondendo ao Fernando Esteves Pinto, baixinho e já perto do final do vídeo: "Se não leste o Victor Oliveira Mateus, podias ter lido." Não conhecia nada disto! O Rui Costa viria a suicidar-se três anos depois (em 2012), nas águas do Douro. Lembro esta noite... com saudade!
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quinta-feira, 15 de junho de 2017
O Prof. Dr. A. P. Alencart da Universidade de Salamanca dá uma entrevista ao jornalista Borja Domínguez,
aqui: http://salamancartvaldia.es/not/152040/alencart-poesia-anibal-nunez-trasciende-rencillas-localismos/
Nesta entrevista o Prof. Alencart fala do XX Festival Iberoamericano de Poesia, que este ano será dedicado ao poeta espanhol Aníbal Núñez (1944-1987), menciona ainda, relativamente às representações dos vários países, os autores de língua portuguesa - entre os quais eu me incluo - que estarão nos diversos eventos que integrarão este Festival Literário.
Convém acrescentar que serão lançados, nesta semana, vários livros, dos quais destaco:
a Antologia "Explicación de la derrota" com poemas do próprio Aníbal Núñez e dos poetas que participam no Festival, dedicados ao homenageado. Esta obra monumental terá a Coordenação do próprio Alencart. Pela mesma altura será apresentada uma outra Antologia (" Raíz de piedra y Letras"), esta agora dedicada à cidade de Salamanca. É uma obra bilingue, que eu tive a honra de Coordenar e de fazer a tradução de alguns poemas, acompanhado por uma preciosa equipa que engloba: Jacqueline Alencart, Pedro Sanchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana.
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quinta-feira, 1 de junho de 2017
A Feira do Livro de Lisboa é sempre uma oportunidade para fazer compras, para rever amigos, para estabelecer contactos, para debates, lançamento de livros, conversas, etc. Pois bem, no próximo dia 3 (sábado), pelas 19:00H, cabe-me a mim estar no Pavilhão da "Coisas de Ler Editora", juntamente com outros autores que têm publicado nesta Editora.
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quarta-feira, 31 de maio de 2017
http://www.crearensalamanca.com/poemas-portugueses-para-gloria-fuertes-en-su-centenario-salvado-oliveira-mateus-barata-martis-y-aroso/
O portal CREAR EN SALAMANCA editado por José Amador Martín, na sua edição de hoje - 31/5/2017- publicou os poemas-homenagem a Gloria Fuertes escritos pelos autores portugueses: António Salvado, Albano Martins, Victor Oliveira Mateus, Maria de Lurdes Gouveia Barata e Eduardo Aroso na tradução de Alfredo Perez Alencart. Os referidos poemas constam do último número da revista "El Cobaya"..
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Como não devem conseguir entrar pelo link daqui, entrarão, seguramente, por qualquer outro lado :) , porque eu vou continuar a procurar a minha pausa...
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