terça-feira, 31 de outubro de 2017


Outro dos momentos altos do Festival: a entrega do Prémio Pilar Fernandez Labrador à poeta cubana Liliam Moro.
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Dado os jornais de Castela-Leão continuarem a noticiar o evento, podem ver também aqui:
http://salamancartvaldia.es/not/163363/salamanca-recibio-abrazo-poetico-sin-fronteras-espanol-portugues/
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Na foto, e da esquerda para a direita: o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, o editor João Artur Pinto, o poeta hispano-peruano Alfredo Pérez de Alencart, Dona Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

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Momentos do XX Encontro ibero-americano de Poesia de Salamanca (2017).
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O poeta chileno Sergio Macias e Victor Oliveira Mateus foram distinguidos, no passado dia 26 de outubro de 2017, com a condição de Huésped Distinguido , condição essa atribuída pelo Alcaide Presidente da cidade de Salamanca. A cerimónia decorreu aquando da receção dos poetas presentes no XX Festival ibero-americano, tendo o poeta chileno sido representado pelo poeta Pio Serrano .
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sábado, 21 de outubro de 2017



Apresentação do livro Viagem à Demência dos Pássaros de Alberto Pereira


Creio justificar-se, como preâmbulo a esta Apresentação, um poema de uma das grandes poetas que escreveu em português na segunda metade do século XX: Dora Ferreira da Silva.


                                                O PÁSSARO

                                      Tênue
                                      toca a terra dura
e ascende.
No céu expande o canto
ferindo as cordas do infinito.
Nas folhas acorda um timbre
delicado.
Mas conhece a ferocidade.
Na fome se precipita
destroçando com o bico
vermes
que a terra expulsa
sem piedade.

Sua morada é o canto
mais do que ninhos
ou a voracidade.
E sobe para um dia cair
sem ressentimento.



Este poema de Menina seu mundo (1976), depois reeditado em Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Topbooks 1999, pp 121-122, e que precede em quase duas décadas o mais importante ciclo poemático de Dora dedicado a aves, o Garças, publicado em Poemas da estrangeira (1995), ilustra os três nós temáticos do presente livro de Alberto Pereira: a viagem, os pássaros e o demencial. Vemos, portanto, e numa primeira abordagem, que o presente livro recusa uma linearidade discursiva centrada no prontamente dado aos sentidos, nas vivências ritualizadas do quotidiano e nas inquietações específicas de um mundo urbano ensimesmando-se numa auto-imagem grandiosa. À opção, mais ou menos circunstancial, pela urbe e pelo imediatamente experienciado, Alberto Pereira contrapõe uma tessitura metafórica articulada, onde a presença dos diversos leitemotive (o tempo, a casa, os retratos, as árvores, os livros, o piano, etc.) nos fazem lembrar os grandes rasgos poemáticos dos séculos XIX e XX (Cf. Wagner in Tristan und Isolde. Paris: Aubier, 1974, p 243: o desejo, o olhar, o mar, etc.; Cf. igualmente Giovanni Testori in Três Prantos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2012).
   Viagem à Demência dos Pássaros compõe-se de três secções: Monólogos do Báltico, Cartas à Arquitectura da Geada e Crónicas do Nevoeiro, que podem ser lidas autonomamente como entidades devidamente estruturadas, mas também como etapas de um périplo cujo término surge nos quatro últimos poemas do livro, curiosamente formado por dísticos isolados e por um poema de estrutura estrófica dual também ela dística. Eis três desses poemas que assinalam o fim da viagem referida no livro de Alberto Pereira:

De árvore em árvore,
crescer nos incêndios.

           (p 66)

Quantas paisagens cruéis são precisas
para que a pele cheire ao nevoeiro perfeito?

         (p 67)

O homem,
viagem à demência dos pássaros.

       (p 69)

Percebemos, portanto, que o poeta nos conduz, ao longo do livro, por uma viagem que não é nem geográfica nem histórica, mas que se enraíza nos grandes temas, que, ao longo dos séculos, têm perseguido o humano, fazendo-nos lembrar o homo viator dos autores medievais:



Houve um tempo em que as aves
não estavam embaciadas.

As asas não tiveram
a sorte de Ulisses
e Ítaca
é a melodia do pranto.

Ficámos sós,
a matar as teclas,
com o piano pendurado nos olhos.

        (p 57)


De entre esses temas ressaltam: o amor (pp 27, 37…) e a paixão e o que neles há de desencontro (p 53…), o sentido do estar-aqui – com um cunho nitidamente melancólico e desesperançado – (pp 39, 40…), a questão da divindade (pp 35…), o relacional, sobretudo a amada e o desejo (p 43) o tempo e a sua relação com a memória (p 51…) e com o fim.
   Arthur Dreyfus numa entrevista aquando da publicação de um livro que escreveu com Dominique Fernandez (Correspondance Indiscrète, Grasset 2016) diz-nos que existem duas formas de o escritor visar o seu objeto: de um modo direto e linear, correndo o risco de degenerar num certo panfletarismo ou de um modo de desvelamento aproximativo que paulatinamente se vai apropriando desse mesmo objeto e é, para Dreyfus, por este segundo caminho assumidamente metafórico que o aumento da poeticidade de um texto se dá. Alberto Pereira segue, então, esta segunda opção estético-literária, afirmando uma poesia torrentosa a fazer lembrar Ruy Belo e António Ramos Rosa, de uma metaforização neobarroca à imagem da portentosa lírica de Natália Correia e trazendo para esta Viagem à Demência dos Pássaros todo um léxico tradicionalmente extra literário ligado ao biológico e ao fisiológico:

(…) Palavras selvagens,
sílabas nuas de cieiro,
unhas a crescer nas estrofes
e um moinho onde possa matar
a hipertensão do ego

Nenhuma candeia se acende com lepra

      (p 18)

Parece que ainda te vejo chegar.
É indecente que continues a passear-te pelo meu corpo.
A insistir em masturbar falésias.
(…)
O whisky é um sedativo para as melodias que ladram.
Vou açaimando os animais revoltos no sótão cardíaco.

     (p 42)

Vivo no fígado,
Cidade enrugada que recita solidão à cirrose.
Coincide o teu corpo
com o que Saramago decifrou dos escombros de Deus.

    (p 43)

Esta experiência de trazer para a poesia um léxico de territórios que tradicionalmente lhe são alheios e que tivera um ponto alto em Limite de Idade de Vitorino Nemésio (1972), não sendo usual na poesia portuguesa contemporânea, encontra-se já em livros como Disrupção de Jorge Melícias (2008) e Chave de Ignição de Ruy Ventura (2009) e surge recorrentemente nos livros de Hugo Milhanas Machado, e agora também em Alberto Pereira.
    Seguindo de perto esta ideia do que o que está em causa nesta poesia, não é um hedonismo individualista e burguês que, por vezes, arremessa as escritas do diferente para o monturo do que prejudica a sanidade psíquica (seja isso o que for!), a escrita de Alberto Pereira veicula os aspetos e as inquietações essenciais do homem, assim, não deixa de ser significativo que o primeiro capítulo deste livro, Monólogos do Báltico, ponha em evidência aquilo que nos povos eslavos Baltas - povos que habitavam “desde a desembocadura do Niémen até ao golfo da Finlândia: Estónia, Letónia e Lituânia  e ainda aos Prussianos das margens do Vístula” (Cf. Maria Lamas in Mitologia Geral – Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa 1991, p 87) - era primordial: a adoração da natureza, já que a Mitologia Balta não tinha a noção de Deus nem de vida para além da morte, antes venerava os astros, a água, os animais, as pedras e nas florestas sagradas, sobretudo para os lituanos (país fortemente arborizado), não se podia “caçar ou capturar qualquer animal incluindo as aves” (in Maria Lamas op. cit. p 88). A relação que Alberto Pereira estabelece entre a sua poesia  e o solo matricial de onde ela advém é, portanto, um marco importante desta escrita – ex.:

                        Depois a boca começou a ter cadastro.
                        A pele adquiriu a claridade fosca
                        da música de Sibelius
                        e duvidei se a tua garganta
                        era a Finlândia.

                        Todo o frio confessa,
                        deixaste-me o Báltico.

                          (p 24)


Eis, e na sequência de tudo isto, a referência a Sibelius o compositor do célebre poema sinfónico Finlândia op.26, bem como de Valsa Triste, ora, e atendendo à relação entre esta poesia e aquilo que no humano é, em autenticidade e originário, não me surpreende que o Mito Cosmogónico dos ugro-finlandeses parta exatamente de uns ovos que uma ave colocara nos joelhos de uma deusa (Luonnotar/ filha da natureza), que, melancólica, se deixava estar no oceano (Cf. Maria Lamas, op. cit. p 114). Não me surpreende também, por conseguinte, que num livro como este, que fala de pássaros, jamais apareça qualquer referência a Messiaen, músico que tanto compôs sobre pássaros, mas sempre com uma dimensão religiosa e redentora. À crença de Messiaen, Alberto Pereira opõe, neste livro, a melancolia de outros compositores românticos como Sibelius: Chopin, Beethoven e Tchaikovsky, aliás, Pushkin é referido na página 29, e não podemos esquecer que Eugene Onegin , a principal ópera de Tchaikosky se baseia exatamente no romance em verso homónimo de Pushkin. Claro que o poeta refere igualmente Mozart e Stravinsky, mas não porque lhe interesse o neoclassicismo do primeiro ou o moderno-serialismo do segundo: Viagem à demência dos pássaros nada tem a ver com esses movimentos artísticos: do primeiro convém reter tão-só a funesta existência e do segundo importa-se apenas o primeiro período, aquele em que havia sagrações da natureza e pássaros de fogo. Penso, pois, que este livro de Alberto Pereira, se no aspeto formal se insere numa escrita ousadamente metafórica e de um cheio neobarroco, ao nível do dito inscreve-se naquilo a que chamo os novos Romantismos dos séculos XX e XXI de que O Canto do Vento nos Ciprestes de Maria do Rosário Pedreira foi, talvez, a grande pedrada no charco. Encontramos neste livro de Alberto Pereira os temas do Primeiro e do Segundo Romantismo: a amada ausente, o desalento perante uma procura em vão, a geada, a penumbra, a névoa, etc., mas integrando imediatamente tudo isso nas “conquistas” do Modernismo e do Realismo Estético: o corpo, o desejo e a pulsão explicitamente sexualizada, a integração do quotidiano concreto, etc., aliás, as interconexões com o Realismo Lírico surgem à saciedade:
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A beleza rouba muitas horas à devoção.
E eu que sempre gostei de mulheres de t-shirt mal alinhada.
Calças de ganga.
Cabelos soltos para o vento fazer o que quiser.
Mulheres com vestígios de areia por baixo das unhas
Para levarmos Agosto a todos os lugares.
Mas não.
Nunca me fizeste a vontade.
Passavas séculos com os dedos estendidos.
As cores a saírem dos frascos.
E o seu cheiro a matar a areia que delirava debaixo delas.
Sentado nesta esplanada,
Sei que a ruína se aluga aos órgãos mais inconformados.


                      (pp 42-43)

Vê-se nesta situação uma luta clara entre a mulher real e a mulher idealizada, bem como a impossibilidade da primeira se adaptar à segunda, logo, o eu-poético, pela frustração sentida, cai na inevitável melancolia, eixo maior da demência neste livro. Por outro lado, a resiliência e, concomitantemente, a capacidade de regeneração do eu-lírico não têm já nada a ver com os Romantismos do século XIX, onde a exacerbação do sentir era levado geralmente ao paroxismo:




Faire une perle d’une larme,
Du poète ici-bas voilà la passion,
Voilá son bien, sa vie, et son ambition.


  Musset, Alfred de. Poésies completes. Paris: Le Livre de Poche, 2006, p 546.


Puis, quando vient l’automne brumeuse,
Il se tait… avant les temps froids.
Hélas! Qu’elle doit être heureuse
La mort de l’oiseau – dans les bois!


  Nerval, Gérard de. Les Chimères, la bohême galante, petits châteaux de Bohême. Paris: Gallimard, 2005, p 88.


  Concluo, com um excerto de um brilhante ensaio de João de Mancelos: “Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, o literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa” ( in O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, p 16). E João de Mancelos passa a uma exaustiva enumeração: o rouxinol (significando a noite) e a cotovia (significando o dia) em Romeu e Julieta de Shakespeare, o Corvo de Allan Poe, o rouxinol de Keats, etc. Em Viagem à demência dos pássaros de Alberto Pereira estes alcançam uma significação complexa, porque dotados de um hibridismo significativo: os pássaros são simultaneamente eles-mesmos, mas também uma representação dos humanos enquanto viagem à demência ou, para usar a expressão da Julia Kristeva, seres marcados por As novas doenças da alma, por conseguinte, estes pássaros dementes que somos, já nada têm a ver com Shakespeare ou Keats, somos As aves ambiciosas de Aristófanes, as vingativas de Hitchcock, as assassinas e justiceiras como o Melro de Junqueiro, portanto, e parafraseando os versos de Alberto Pereira, o homem de hoje não é mais do que uma viagem à demência, um voo sempre retomado à volta do mesmo, uma viagem sem estaca nem poiso, como o daqueles pássaros que jamais alcançarão a paz de um qualquer acolhimento.


                                   VICTOR OLIVEIRA MATEUS


Biblioteca- Museu República e Resistência em Lisboa, 21 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.







sexta-feira, 20 de outubro de 2017


No dia 27 de outubro, pelas 20.00H, estarei no Salão de Actos do BBVA c/ Duque de la Victoria, 12 - Valladolid a ler poemas (em português e em espanhol) dos meus livros: "Pelo Deserto as Minhas Mãos" (Editora Coisas de Ler), "Regresso" (Editora Labirinto) e da "Antologia Clepsydra" (Editora Coisas de Ler".
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017



                Ruas de nébula


A Ilha dos Sonhos não existe,
diz a louca pitonisa,
inútil mapa em minhas mãos,
meus olhos sem saídas.

O véu lunar recolhe o tempo,
meu olhar distante e perdido.
Exília, o lugar que não há,
receptáculo de meus passos.
Ergo o rosto, vejo galáxias,
vagar, tempo e espaços.

Nasci em algum lugar,
afoguei-me entre represas.
Ilha encoberta,
fui arrastado pelos rios.

Meu rosto,
trilha de ravinas,
procura-se em vão nas águas adormecidas,
abraçadas a astros soberanos.

Estive em Arminda. Cá estou.
Incólume em Pompeia,
homem feito cinzas.
O Vesúvio, nada além de nostalgia.
Passos ressoam em ruas de nébula,
tudo apenas ruínas.

Fui visto em Andrômeda,
perdi-me no deserto,
adormeci em campanários.
Meus olhos não viram corpos nem almas
na explosão dos calendários.

Os dedos tocam a terra,
abrindo caminhos.
Minha cidade me espera
para ser povoada.
Sou apenas uma lenda,
ao nascer de uma coleção de nadas.


   Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, pp 54-55.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017



                Náufragos

Náufrago em si mesmo, o homem
lança mensagens em garrafas.

Mas o mar só devolve o silêncio
à solidão de seu corpo.

Sem um porto onde se salvar
toma de outra garrafa
e nela constrói um navio.

Só lhe falta, agora, o destino.


  Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, p 45.
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domingo, 15 de outubro de 2017

Pré-publicação: com a concordância do autor o texto que se segue será incluído num livro meu de traduções que sairá ainda este ano.
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              Cadernos do Deserto

                    Fragmentos

I

Chegámos ao lugar onde o asfalto
se cravava na pele
                            aleonada
                                          do deserto,

como um aguilhão.


Se uma estrada que não vês
não é uma estrada,

os instantes que não recordas
terão sido a tua vida?

II

Imagina a palma de uma mão
que não tivesse linhas,

isso é o deserto:

a beleza
daquilo que nos falta.

IV

Ao ver o escorpião, compreendi:

não há duas obscuridades
que doam o mesmo.


    Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hipérion, 2017, pp 44-47 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017


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Ainda integrada no XX Festival ibero-americano de Poesia de Salamanca:
sessão no dia 25, pelas 12.00h, no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Plaza de San Benito, 1.
 As dezenas de outras atividades (conferências, filmes, apresentações de livros, debates etc.) poderão ser procuradas na net.
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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

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Integrado nas comemorações do XX Festival ibero-americano de Poesia de Salamanca, apresentar-se-á, no dia 24 de outubro, pelas 19h00, no Teatro Liceo de Salamanca, a obra Raíz de Piedra y Letras. Esta Antologia bilingue, numa edição partilhada da Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes e da Editora Labirinto, conta com a colaboração de quarenta prestigiados autores de treze países, autores esses que passo a referir:
ALBANO MARTINS (Portugal), ALBERTO HERNÁNDEZ (Venezuela), ÁLVARO ALVES DE FARIA (Brasil), ÁLVARO MATA GUILLÉ (Costa Rica), ANA CECILIA BLUM (Equador), ANA MARIA RODAS (Guatemala), ANTONIO COLINAS (Espanha), ANTÓNIO FERRA (Portugal), ANTONIO PRAENA (Espanha), ANTÓNIO SALVADO (Portugal), ASTRID CABRAL (Brasil), CARLOS AGANZO (Espanha), CARLOS NEJAR (Brasil), CLÁUDIO LIMA (Portugal), EDDA ARMAS (Venezuela), FRANCISCO JOSÉ MARTÍNEZ MORÁN (Espanha), HUMBERTO AVILÉS BERMÚDEZ (Nicarágua), JAIME GARCÍA MAFFLA (Colômbia), JAIME SILES (Espanha), JESÚS FONSECA (Espanha), JESÚS HILARIO TUNDIDOR (Espanha), JOSÉ ANTONIO FUNES (Honduras), JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA (Brasil), JOSÉ MANUEL CAPÊLO (Portugal), JOSÉ MARIA MUÑOZ QUIRÓS (Espanha), JUAN CAMERON (Chile), JUAN MARES (Colômbia), LILIAM MORO (Cuba),  MANUEL SILVA-TERRA (Portugal), MARCELO GATICA (Chile), MARCO LUCCHESI (Brasil), MARIO ALONSO LÓPEZ NAVARRO (México), MARTA LÓPEZ VILAR (Espanha), PIO E. SERRANO (Cuba), RICARDO GIL SOEIRO (Portugal), ROWENA HILL (Veneuela), RUY VENTURA (Portugal), VICTOR OLIVEIRA MATEUS (Portugal), VÍCTOR RODOLFO PORRINI (Uruguai).
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Dado estarmos perante uma obra bilingue, a equipa de tradutores é constituída por: Victor Oliveira Mateus, Pedro Sánchez Sanz, Jacqueline Alencart, Rogério Viana, Antonio Martínez Coello e Marta López Vilar.
A coordenação deste projeto é de Victor Oliveira Mateus e a foto da capa da Antologia é da autoria de José Amador Martín.
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sábado, 7 de outubro de 2017

Josep M. Rodríguez (Suria, Barcelona 1986), poeta, tradutor e crítico literário, vence, com o livro Sangre seca, o XXIV Premio de Poesía Ciudad de Córdoba "Ricardo Molina". O livro foi este ano publicado pela Hiperión com Epílogo de Joan Margarit. A poesia de Josep Rodriguez, traduzida por mim, integrará este ano a Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017. Segue um poema de Sangre seca:
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             ANTES Y DESPUÉS


La vida es una casa donde solo hay jardín.

Crecer a la intemperie.
                                  Así fue
y así será por más que te resistas.

Nada puedes cambiar:

tus raíces son nieve
sin la nieve.

Un deshacerse puro.

No importa que esta noche
dolorosa
               y oscura
parezca un hematoma.

Si naces fuente, morirás desague.
Nada puedes cambiar:

el amor delimita igual que el aire.

Los recuerdos son olas,
siempre vuelven.

Y la muerte dehace.

Antes
y después.


  Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hiperión, 2017, pp 64-64 (Epílogo de Joan Margarit).
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quinta-feira, 5 de outubro de 2017


                                            VIAGEM À DEMÊNCIA DOS PÁSSAROS


O novo livro de ALBERTO PEREIRA publicado pela Editora Glaciar.

Local de Apresentação: Biblioteca-Museu República e Resistência, Rua Alberto Sousa, 10A - 1600-002 Lisboa;

Data: dia 21 de outubro (sábado) pelas 16h30m;

A Apresentação da obra estará a cargo de Victor Oliveira Mateus e de Francisco Ribeiro Rosa;

Leitura de poemas por Gonçalo Oliveira.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017



        Desço a Rua, Todos os Dias


todos os dias desço a rua
em que se desenrolou parte
da nossa história. outros
motivos me trazem cá:
a rotina, as obrigações da
vida, o tempo depois do
nosso amor, sou hoje
uma pessoa diferente que,
provavelmente, nunca te
interessaria. vejo o banco
em que nos sentávamos.
são outros que seguram
outros cadernos para outras
histórias. (a história que afinal
é sempre a mesma). desta
vez já não sou nela ator, mas
apenas um transeunte que
sabe demasiado. (isso é
agridoce).


  Tinoco, Rui. S/c.: volta d'mar, 2017, p 29.
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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sessão de Apresentação do livro Navegação Imperfeita de Adalberto Alves no dia 28 de setembro de 2017, no Salão Nobre do Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa. Na mesa, e da direita para a esquerda: Dr. Luís Raposo (anterior diretor do Museu), Victor Oliveira Mateus, Ronaldo Cagiano, o Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, Adalberto Alves, o Presidente do GAMNA.
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     A Caixa dos Retratos


abro a velha e grande caixa de retratos,
com rostos antigos,
fanados como sombras.

desço a corda da memória e resgato
aqueles que posso e mais amei.

mas muitos, ai de mim, conheci-os
mas já não sei quem são.

olham-me atónitos
como que censurando o esquecimento.

consola-me o saber que, pela certa,
um dia serei na caixa um retrato mais
e alguém me olhará sem saber quem fui.

e restar-me-á a companhia
daqueloutros que lá estão...


 Alves, Adalberto. Navegação Imperfeita. Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 75.
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quero lá saber!
o mundo começa em mim
e em mim se há-de perder.

o corpo não tem avesso
e o espírito é de gesso.

no facebook eu sou
o que mais arrebanhou
amizade angariada.

deixem-se de profundidades!
que o que importa, de verdade,
... é uma boa gargalhada.


  Alves, Adalberto. Navegação Imperfeita. Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 52.
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domingo, 1 de outubro de 2017

Apresentação do livro Navegação Imperfeita no dia 28 de setembro de 2017, no Salão Nobre do Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa. Na mesa, e da direita para a esquerda: Dr. Luís Raposo, Victor Oliveira Mateus., Ronaldo Cagiano, Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, Adalberto Alves, Presidente do GAMNA.
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no dia em que eu morrer,
     nada de cânticos
     nem prédicas
     nem louvores
     nem cruzes
de deuses indiferentes,
e nem sequer lágrimas,
já que elas,
como dizem os Navajos,
nos impedem de ver.
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à minha cabeceira
apenas, se possível,
a candeia do luar
e um copo de rumor do mar.
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  Alves, Adalberto. Navegação Imperfeita. Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 24.
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terça-feira, 26 de setembro de 2017


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  A ESCRITA E O MUNDO NATURAL NA POESIA DE RUI TINOCO


                                                 VICTOR OLIVEIRA MATEUS

   
   O último livro de Rui Tinoco (A Mão Heteronómica, Volta d’mar, 2017) apresenta-se, num primeiro momento, como um cismar poético e uma inquirição sobre a escrita: “(…) e tanto é escritor/ aquele que segura à noite/  a caneta como esse amigo,/ despreocupado, relembrando/ tempos antigos” ( p 3); “necessito ser aqui um autor/ que me diga coisas: o destino/ as emoções que não soube viver/ ou sentir, como se escreve/ um peito que respira?...” (p 20). Contudo, esta escrita de que nos fala o poeta não se reveste de particularidades epocais, geográficas ou outras; o particular não é aqui o alvo da inquietação poética: “a mão, no século XII,/ também afagava rostos,/ evocava emoções,/ desejava o inefável, dela/ ficou apenas um vestígio/ bibliográfico, uma nota/ fora da mancha do texto “ (p 37): a escrita de que fala este livro não se subsume nos seus tipos (pictórica, cuneiforme, ideográfica, alfabética, etc.), nem nas diversas teorizações que sobre ela têm surgido (as obras de Barthes, os autores interpretados por Julia Kristeva ou até as análises de Jung em torno da escrita do inconsciente em “Sur l’interpretation des rêves”); a escrita de que se fala não é também passível de explicitação plena através de um ou outro elemento que se lhe possa associar: redação, tipo de leitura (Cf. o célebre episódio de que fala Alberto Manguel no seu Uma História da Leitura - Ed. Presença-, quando refere a estupefação de um monge no momento em que se apercebe de que a leitura em voz alta afinal pode ser substituída por uma leitura em silêncio). Todas estas especificidades são acessórias para a busca empreendida na obra de Rui Tinoco. O que o inquieta e que poeticamente vai indagar é o sortilégio da escrita, da escrita-em-si, é, noutros termos: a essência dessa escrita que nos invade, que nos cerca e da qual fazemos parte: “nessa altura, ignorava ainda/ como iam ser estes versos, estranho/ sortilégio da literatura: é por essa/ exígua janela que vão apreciar/ toda a cena, sem se perceberem” (p 7).
   
   A compreensão disso a que chamamos escrita e a possibilidade de se apreender o seu em-si, afasta-nos decisivamente do idealismo kantiano onde a coisa-em-si permanecia incapturável pela Razão Teórica, já que apenas suscetível de apreensão pela Razão Prática: para Kant a coisa-em-si não é mais do que um conceito limite. Ora, neste livro de Rui Tinoco, parece evidente que através dos diversos fenómenos esparsos pelos poemas eu consigo desvelar aquilo que é a escrita. Estamos, por conseguinte, no seio de uma inquirição de coloração assumidamente fenomenológica: eu posso, através do que os vários fenómenos apresentam à intuição, captar, como evidência, o que é a escrita: “Qualquer fenómeno (…) é sem porquê, já que todo o fenómeno é como ele se dá (à intuição).// Uma tal apreensão abre a verdadeira via para um acesso às próprias coisas, portanto, a fenomenologia acede, sem  nada de prévio, ao próprio fenómeno que é recebido tal como se dá.” (in Jean-Luc Marion,  Le visible et le révélé, cerf, p 19; cf. igualmente Husserl, L’Idée de la phénoménologie, Ed. W. Biemel, 1973, t II, p 74)). Desembocamos, como vemos, na tese husserliana de que a intuição, a evidência e a verdade coincidem. Estabelecido, por mim, este tópico, vejo Rui Tinoco lançar-se numa exaustiva inventariação poética de momentos onde o fenómeno da escrita se desenha:  “a dizer-me: “isto é/ solidão”. Eis uma outra/ perspetiva para/ a escrita.” (p 4); “ este, por exemplo: já está/ condenado, o melhor que se pode/ fazer por ele é transformá-lo/ em personagem: geme/ e lentamente se desvanece/ na página oitenta e três” (pp 12-13); “ não quis escrever o texto/ que afinal aqui está perante/ os vossos olhos. o tema/ da dor é sempre delicado” (p 25); “o autor é personagem/ do seu texto, o seu evangelista./ espalha a palavra,/ tornando-a carne, voz que voa/ sobre a plateia em plena leitura/ interior. é também o próprio/ branco da página fecundado/ pela sua biografia:” (p 38). Eis a escrita na sua multiplicidade fenoménica, a diversidade das situações por onde ela pulula e que aguarda o abraço unificador, o olhar que a diga e ilumine!
   
   Esta minha leitura de A Mão Heteronómica parece, todavia, ensombrada pelo estatuto do mundo natural nesta poética, bem como por um delicado processo de enxertia que o poeta decide fazer no corpo dos diversos poemas: “ a onda rebentou contra/ o primeiro vocábulo do poema./ o início do poente aquecia-me/ os sentidos, pese embora dificultasse/ a leitura completa deste texto. (p 26); “(…) o ruído do mar/ essa voz rouca que invade/ versos e depois se retira.” (p 27). Ora, e seguindo o modelo interpretativo que vou aqui utilizando, há duas variáveis que urge retirar de cena, se acaso quisermos encontrar – neste livro - o que a escrita é em-si: por um lado a psicologia empírica, tida por Husserl como uma ciência natural e cujos laivos podem ser encontrados em poemas como “Caim” (p 11), “No falecimento de Gabriela Tinoco…” (p 19), “Diz Maria Gabriela…” (p 35); por outro lado, os diversos elementos do mundo natural que invadem as várias estruturas poemáticas, já que uma atitude fenomenológica exigirá aqui necessariamente duas etapas: a redução eidética que me permitirá a intuição das essências em vez da consideração dos factos e das coisas naturais e a epoché, que me autorizará a pôr entre parêntesis a existência do mundo natural (cf. Husserl, Meditações Cartesianas, parágrafo 44).
   
   No entanto, e apesar dos aparentes escolhos, uma fenomenologia da escrita, um intento de desvelar aquilo que ela é essencialmente, não se encontra ameaçada pelas variáveis referidas e tudo isto porque a técnica poética de Rui Tinoco se alicerça na sobreposição de planos narrativos, ficcionais e poéticos, nas cissuras espaciais e/ou temporais, nas ruturas e, muitas vezes, na recomposição dessas ruturas. Esta é, portanto, uma tessitura poética complexa, que, desenhada a régua e esquadro consegue não descambar num discurso geométrico, mas, antes pelo contrário, é o filigranar do corpo do poema que lhe avoluma a poeticidade e, neste caso, concreto, que conduz o livro não a um produto híbrido ou insosso, mas antes nos alerta para algo a seguir de perto, lembrando-me mesmo o monólogo interior de Virgílio ante as pressões Lucius: “A verdadeira arte ultrapassa os limites, rompe-os e penetra em domínios novos, até então desconhecidos, da alma, da concepção, da expressão, irrompe no original, no imediato, no real…” (in Hermann Broch, A Morte de Vírgilio – Vol II, Relógio D’Água, p 32). Como ilustração da referida técnica na construção do poema, veja-se: “a infância tornou-se/ uma história em que não/ participo, uma história que/ não apetece ler segunda vez./ aborrece. como voltar a/ preencher o início dos livros?” (p 40), mas também em trabalhos anteriores de Rui Tinoco: “trouxe tanta coisa para o poema/ que acabei por me confundir:/ fiquei desconfortavelmente sentado/ logo após o ponto final” (in O Segundo Aceno, Edições Sempre-Em-Pé, p 18). É, por conseguinte, esta tessitura textual, que nos permite falar da existência, por vezes, de interconexões ou de ilustrações reciprocas nos diversos planos do poema, sem que isso conduza a qualquer contaminação dos mesmos, ou seja, um cuidadoso processo hermenêutico do texto, de raiz fenomenológica, pode perfeitamente entregar-me o que a escrita é em-si, sem que a evidência obtida por essa intuição colida com o mundo natural, que, por um processo de redução, corre de outro modo embora em lugar contíguo.
   
   E o que é, então, a escrita, segundo esta minha leitura fortemente alicerçada em Husserl e que, por isso mesmo, tem mais a ver com a Ontologia do que com a Linguística ou com a Antropologia? Um processo onde o Todo se vai dizendo através do Tempo; um processo onde insistimos em dizer por meio de códigos que tão mal dominamos: uma comunhão intersubjetiva dos vários eus, diria Husserl: “La subjectivité peut alors être appréhendée comme immédiatement ouvert sur les autres consciences, grâce à une réduction qui n’est plus seulement égologique, mais proprement intersubjective.” (in Natalie Depraz, Husserl, Flammarion, p 347) A escrita como um continuum expectante de signos que, por uma qualquer necessidade jamais conhecida, se vão dizendo, destruindo, amando, ou seja, inscrevendo a sua efemeridade na iniludível perenidade daquilo que É:

esse um que faremos, eu texto
e tu leitor, será a união possível
entre uma infinidade de possibilidades.
digo isto não para me alçar
a uma posição de sobranceria mas
porque um encontro entre dois humanos
é sempre irrepetível – acontece
apenas que, neste caso,
os meus braços são feitos de letras.
et voilà.


    In Mão Heteronómica, p 44.
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Mateus, Victor Oliveira in Revista (online) Caliban, 29/Set./2017.
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