domingo, 12 de novembro de 2017
sábado, 11 de novembro de 2017
SEI DISSO, O POEMA É INÚTIL, APESAR DE ESCREVER
POESIA. Mas nem por isso me sinto substancialmente
melhor. Casado, pai de três filhos, netos exemplares, faço
tudo com o esmero do funcionário de estado. Director de
repartição. Não sou, note-se, um funcionário cansado.
Tenho músculos prontos para em cada manhã levantar
os netos, essas crianças que navegam no meu sangue e
acordam em sonhos distantes do mundo real em que me
encontro. Ponho na minha cara o sorriso mais feliz que
consigo. Sei que a minha mulher não é a amazona que
já foi e desejei lá muito atrás. Era uma puta formidável,
hoje é uma mulher doméstica, domesticada, uma san-
ta maternal, de olhar barroco, terno, adormecido - oh
puta de vida esta! Tenho músculos prontos para a guer-
ra, mas querem-me lento, ensonado, empregado, ma-
tando o tempo antes que ele me mate. Sou exemplar: no
futuro irão visitar-me numa qualquer cela de zoológico
para verem como despachava, carimbava, organizava a
minha vida anónima e vazia. Sou um animal enjaulado.
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Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 57.
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Lançamento do livro Noivos do Mar, Nº 13 da coleção contramaré da Editora Labirinto. Na foto: Henrique Levy (autor), Victor Oliveira Mateus (apresentador da obra) e Miguel Real (autor do Prefácio).
Nu
nu
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Caliope
os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar
nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde
nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade
nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar
o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes
nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos
se puderes
em lento voar nu
avança!
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 21-22 (Prefácio: Miguel Real. Posfácio: Inez Andrade Paes).
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terça-feira, 7 de novembro de 2017
Enquanto os media daqui se mantiveram no mais absoluto silêncio quanto ao que se passou numa das mais prestigiadas Universidades da Europa, os jornais de Castela-Leão ( "Salamanca al Dia", "El Norte de Castilla", "Diario La Razón"...) continuam ainda a falar desses acontecimentos.,
ver aqui: http://salamancartvaldia.es/not/163937/oliveira-mateus-esta-antologia-gestada-desde-portugal-ofrenda/
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Na foto, da esquerda para a direita: Alfredo Pérez Alencart, Doña Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Segredo
de súbito sem receios nem angústias
as tuas mãos sulcam as teclas de um piano
reclinado no prazer
em silêncio
oiço a saudade da memória
nas notas sonoras e vibrantes
escuta amor
na orla das praias d'águas a luzir
o murmúrio raro das ondas
a desenhar esferas mágicas
no sol amarelecido
beijo o teu corpo de pássaro
na convulsão vulcânica da ilha
que se abre luminosa
incendiando de música as águas
passa suave mais um ano breve
um rapaz canta no jardim
o segredo
- são flores, senhor, são flores...
confiadas a estes prados
- erguei as mãos, senhor, são flores...
o mar desnuda na terra
as brancas azáleas
nascidas em chão quente
como os fetos a urze o tamujo
batidos pelas marés e pelo vento
- são flores, senhor, são flores...
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 33-34 (Prefácio de Miguel Real. Posfácio de Inez Andrade Paes).
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quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Esta sed se cuadrícula en la canícula,
danza al ritmo de las moscas que brillan sobre la mesa de la siesta.
En el fondo del recuerdo,
tengo la llave del desierto.
La mecânica de un rito se repite en el zumbido de la tarde
que se abre como un espejo en el tiempo.
Angustiosa y doméstica es la melodia de la tarde:
diseñada con pequeñas madrigueras
para anidar nuestros miedos.
Leytón, Paura Rodríguez. Pequeñas mudanzas. Diputación de Salamanca, 2017, p 42.
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Circo de Feras, Xutos & Pontapés
Ai do verbo querer que tanto
Tem feito pelo equívoco
Da indecisão que nos remete
A saudade para o domínio da posse
E nos faz julgar incorrectos
Os passos dados até ao encontro.
Entretanto, a pausa para olhar
Em volta torna-nos
Mais silenciosos, menos dados
A processos de culpa ou de anseio,
A espera refaz sorrisos
E o abraço do primeiro encontro.
Almeida, Rui. A Pedra Não Pode Ser Coração. S/c.: do lado esquerdo, 2017, p 34.
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terça-feira, 31 de outubro de 2017
Dado os jornais de Castela-Leão continuarem a noticiar o evento, podem ver também aqui:
http://salamancartvaldia.es/not/163363/salamanca-recibio-abrazo-poetico-sin-fronteras-espanol-portugues/
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Na foto, e da esquerda para a direita: o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, o editor João Artur Pinto, o poeta hispano-peruano Alfredo Pérez de Alencart, Dona Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017
O poeta chileno Sergio Macias e Victor Oliveira Mateus foram distinguidos, no passado dia 26 de outubro de 2017, com a condição de Huésped Distinguido , condição essa atribuída pelo Alcaide Presidente da cidade de Salamanca. A cerimónia decorreu aquando da receção dos poetas presentes no XX Festival ibero-americano, tendo o poeta chileno sido representado pelo poeta Pio Serrano .
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sábado, 21 de outubro de 2017
Apresentação
do livro Viagem à Demência dos Pássaros de
Alberto Pereira
Creio
justificar-se, como preâmbulo a esta Apresentação, um poema de uma das grandes
poetas que escreveu em português na segunda metade do século XX: Dora Ferreira
da Silva.
O PÁSSARO
Tênue
toca a terra dura
e ascende.
No céu expande o canto
ferindo as cordas do infinito.
Nas folhas acorda um timbre
delicado.
Mas conhece a ferocidade.
Na fome se precipita
destroçando com o bico
vermes
que a terra expulsa
sem piedade.
Sua morada é o canto
mais do que ninhos
ou a voracidade.
E sobe para um dia cair
sem ressentimento.
Este
poema de Menina seu mundo (1976),
depois reeditado em Poesia Reunida. Rio
de Janeiro: Topbooks 1999, pp 121-122, e que precede em quase duas décadas o
mais importante ciclo poemático de Dora dedicado a aves, o Garças, publicado em Poemas
da estrangeira (1995), ilustra os três nós temáticos do presente livro de
Alberto Pereira: a viagem, os pássaros e o demencial. Vemos, portanto, e numa
primeira abordagem, que o presente livro recusa uma linearidade discursiva
centrada no prontamente dado aos sentidos, nas vivências ritualizadas do
quotidiano e nas inquietações específicas de um mundo urbano ensimesmando-se
numa auto-imagem grandiosa. À opção, mais ou menos circunstancial, pela urbe e
pelo imediatamente experienciado, Alberto Pereira contrapõe uma tessitura
metafórica articulada, onde a presença dos diversos leitemotive (o tempo, a
casa, os retratos, as árvores, os livros, o piano, etc.) nos fazem lembrar os
grandes rasgos poemáticos dos séculos XIX e XX (Cf. Wagner in Tristan und Isolde. Paris: Aubier, 1974,
p 243: o desejo, o olhar, o mar, etc.; Cf. igualmente Giovanni Testori in Três Prantos. Lisboa: Assírio &
Alvim, 2012).
Viagem
à Demência dos Pássaros compõe-se de três secções: Monólogos do Báltico, Cartas à Arquitectura da Geada e Crónicas do
Nevoeiro, que podem ser lidas autonomamente como entidades devidamente
estruturadas, mas também como etapas de um périplo cujo término surge nos
quatro últimos poemas do livro, curiosamente formado por dísticos isolados e
por um poema de estrutura estrófica dual também ela dística. Eis três desses
poemas que assinalam o fim da viagem referida no livro de Alberto Pereira:
De árvore em árvore,
crescer nos incêndios.
(p 66)
Quantas paisagens cruéis
são precisas
para que a pele cheire ao
nevoeiro perfeito?
(p 67)
O homem,
viagem à demência dos
pássaros.
(p 69)
Percebemos,
portanto, que o poeta nos conduz, ao longo do livro, por uma viagem que não é
nem geográfica nem histórica, mas que se enraíza nos grandes temas, que, ao
longo dos séculos, têm perseguido o humano, fazendo-nos lembrar o homo viator dos autores medievais:
Houve
um tempo em que as aves
não
estavam embaciadas.
As
asas não tiveram
a
sorte de Ulisses
e
Ítaca
é
a melodia do pranto.
Ficámos
sós,
a
matar as teclas,
com
o piano pendurado nos olhos.
(p 57)
De
entre esses temas ressaltam: o amor (pp 27, 37…) e a paixão e o que neles há de
desencontro (p 53…), o sentido do estar-aqui – com um cunho nitidamente melancólico
e desesperançado – (pp 39, 40…), a questão da divindade (pp 35…), o relacional,
sobretudo a amada e o desejo (p 43) o tempo e a sua relação com a memória (p
51…) e com o fim.
Arthur Dreyfus numa entrevista aquando da
publicação de um livro que escreveu com Dominique Fernandez (Correspondance Indiscrète, Grasset 2016)
diz-nos que existem duas formas de o escritor visar o seu objeto: de um modo
direto e linear, correndo o risco de degenerar num certo panfletarismo ou de um
modo de desvelamento aproximativo que paulatinamente se vai apropriando desse
mesmo objeto e é, para Dreyfus, por este segundo caminho assumidamente
metafórico que o aumento da poeticidade de um texto se dá. Alberto Pereira
segue, então, esta segunda opção estético-literária, afirmando uma poesia
torrentosa a fazer lembrar Ruy Belo e António Ramos Rosa, de uma metaforização
neobarroca à imagem da portentosa lírica de Natália Correia e trazendo para
esta Viagem à Demência dos Pássaros
todo um léxico tradicionalmente extra literário ligado ao biológico e ao
fisiológico:
(…)
Palavras selvagens,
sílabas
nuas de cieiro,
unhas
a crescer nas estrofes
e
um moinho onde possa matar
a
hipertensão do ego
Nenhuma
candeia se acende com lepra
(p
18)
Parece
que ainda te vejo chegar.
É
indecente que continues a passear-te pelo meu corpo.
A
insistir em masturbar falésias.
(…)
O
whisky é um sedativo para as melodias que ladram.
Vou
açaimando os animais revoltos no sótão cardíaco.
(p 42)
Vivo
no fígado,
Cidade
enrugada que recita solidão à cirrose.
Coincide
o teu corpo
com
o que Saramago decifrou dos escombros de Deus.
(p 43)
Esta
experiência de trazer para a poesia um léxico de territórios que
tradicionalmente lhe são alheios e que tivera um ponto alto em Limite de Idade de Vitorino Nemésio
(1972), não sendo usual na poesia portuguesa contemporânea, encontra-se já em
livros como Disrupção de Jorge
Melícias (2008) e Chave de Ignição de
Ruy Ventura (2009) e surge recorrentemente nos livros de Hugo Milhanas Machado,
e agora também em Alberto Pereira.
Seguindo de perto esta ideia do que o que
está em causa nesta poesia, não é um hedonismo individualista e burguês que,
por vezes, arremessa as escritas do diferente para o monturo do que prejudica a
sanidade psíquica (seja isso o que for!), a escrita de Alberto Pereira veicula
os aspetos e as inquietações essenciais do homem, assim, não deixa de ser
significativo que o primeiro capítulo deste livro, Monólogos do Báltico, ponha em evidência aquilo que nos povos
eslavos Baltas - povos que habitavam “desde a desembocadura do Niémen até ao
golfo da Finlândia: Estónia, Letónia e Lituânia e ainda aos Prussianos das margens do Vístula”
(Cf. Maria Lamas in Mitologia Geral –
Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa 1991, p 87) - era primordial: a adoração
da natureza, já que a Mitologia Balta não tinha a noção de Deus nem de vida
para além da morte, antes venerava os astros, a água, os animais, as pedras e
nas florestas sagradas, sobretudo para os lituanos (país fortemente
arborizado), não se podia “caçar ou capturar qualquer animal incluindo as aves”
(in Maria Lamas op. cit. p 88). A relação que Alberto Pereira estabelece entre
a sua poesia e o solo matricial de onde
ela advém é, portanto, um marco importante desta escrita – ex.:
Depois a boca começou a
ter cadastro.
A pele adquiriu a
claridade fosca
da música de Sibelius
e duvidei se a tua
garganta
era a Finlândia.
Todo o frio confessa,
deixaste-me o Báltico.
(p 24)
Eis,
e na sequência de tudo isto, a referência a Sibelius o compositor do célebre
poema sinfónico Finlândia op.26, bem
como de Valsa Triste, ora, e
atendendo à relação entre esta poesia e aquilo que no humano é, em
autenticidade e originário, não me surpreende que o Mito Cosmogónico dos
ugro-finlandeses parta exatamente de uns ovos que uma ave colocara nos joelhos
de uma deusa (Luonnotar/ filha da
natureza), que, melancólica, se deixava estar no oceano (Cf. Maria Lamas,
op. cit. p 114). Não me surpreende também, por conseguinte, que num livro como
este, que fala de pássaros, jamais apareça qualquer referência a Messiaen,
músico que tanto compôs sobre pássaros, mas sempre com uma dimensão religiosa e
redentora. À crença de Messiaen, Alberto Pereira opõe, neste livro, a
melancolia de outros compositores românticos como Sibelius: Chopin, Beethoven e
Tchaikovsky, aliás, Pushkin é referido na página 29, e não podemos esquecer que
Eugene Onegin , a principal ópera de
Tchaikosky se baseia exatamente no romance em verso homónimo de Pushkin. Claro
que o poeta refere igualmente Mozart e Stravinsky, mas não porque lhe interesse
o neoclassicismo do primeiro ou o moderno-serialismo do segundo: Viagem à demência dos pássaros nada tem
a ver com esses movimentos artísticos: do primeiro convém reter tão-só a
funesta existência e do segundo importa-se apenas o primeiro período, aquele em
que havia sagrações da natureza e pássaros de fogo. Penso, pois, que este
livro de Alberto Pereira, se no aspeto formal se insere numa escrita
ousadamente metafórica e de um cheio neobarroco, ao nível do dito inscreve-se
naquilo a que chamo os novos Romantismos dos
séculos XX e XXI de que O Canto do Vento
nos Ciprestes de Maria do Rosário Pedreira foi, talvez, a grande pedrada no
charco. Encontramos neste livro de Alberto Pereira os temas do Primeiro e do Segundo
Romantismo: a amada ausente, o desalento perante uma procura em vão, a geada, a
penumbra, a névoa, etc., mas integrando imediatamente tudo isso nas “conquistas”
do Modernismo e do Realismo Estético: o corpo, o desejo e a pulsão
explicitamente sexualizada, a integração do quotidiano concreto, etc., aliás,
as interconexões com o Realismo Lírico surgem à saciedade:
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A
beleza rouba muitas horas à devoção.
E
eu que sempre gostei de mulheres de t-shirt mal alinhada.
Calças
de ganga.
Cabelos
soltos para o vento fazer o que quiser.
Mulheres
com vestígios de areia por baixo das unhas
Para
levarmos Agosto a todos os lugares.
Mas
não.
Nunca
me fizeste a vontade.
Passavas
séculos com os dedos estendidos.
As
cores a saírem dos frascos.
E
o seu cheiro a matar a areia que delirava debaixo delas.
Sentado
nesta esplanada,
Sei
que a ruína se aluga aos órgãos mais inconformados.
(pp 42-43)
Vê-se
nesta situação uma luta clara entre a mulher real e a mulher idealizada, bem
como a impossibilidade da primeira se adaptar à segunda, logo, o eu-poético,
pela frustração sentida, cai na inevitável melancolia, eixo maior da demência
neste livro. Por outro lado, a resiliência e, concomitantemente, a capacidade
de regeneração do eu-lírico não têm já nada a ver com os Romantismos do século
XIX, onde a exacerbação do sentir era levado geralmente ao paroxismo:
Faire
une perle d’une larme,
Du
poète ici-bas voilà la passion,
Voilá
son bien, sa vie, et son ambition.
Musset, Alfred de. Poésies completes. Paris: Le Livre de Poche, 2006, p 546.
Puis,
quando vient l’automne brumeuse,
Il
se tait… avant les temps froids.
Hélas!
Qu’elle doit être heureuse
La
mort de l’oiseau – dans les bois!
Nerval, Gérard de. Les Chimères, la bohême galante, petits châteaux de Bohême. Paris:
Gallimard, 2005, p 88.
Concluo, com um excerto de um brilhante
ensaio de João de Mancelos: “Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os
escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, o literatura
popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um
poema, lenda ou narrativa” ( in O
Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa:
Edições Colibri, 2009, p 16). E João de Mancelos passa a uma exaustiva
enumeração: o rouxinol (significando a noite) e a cotovia (significando o dia)
em Romeu e Julieta de Shakespeare, o Corvo de Allan Poe, o rouxinol de
Keats, etc. Em Viagem à demência dos
pássaros de Alberto Pereira estes alcançam uma significação complexa,
porque dotados de um hibridismo significativo: os pássaros são simultaneamente eles-mesmos, mas também uma
representação dos humanos enquanto viagem
à demência ou, para usar a expressão
da Julia Kristeva, seres marcados por As
novas doenças da alma, por conseguinte, estes pássaros dementes que somos,
já nada têm a ver com Shakespeare ou Keats, somos As aves ambiciosas de Aristófanes, as vingativas de Hitchcock, as
assassinas e justiceiras como o Melro de
Junqueiro, portanto, e parafraseando os versos de Alberto Pereira, o homem de
hoje não é mais do que uma viagem à demência, um voo sempre retomado à volta do
mesmo, uma viagem sem estaca nem poiso, como o daqueles pássaros que jamais alcançarão a paz de um qualquer acolhimento.
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
Biblioteca-
Museu República e Resistência em Lisboa, 21 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
No dia 27 de outubro, pelas 20.00H, estarei no Salão de Actos do BBVA c/ Duque de la Victoria, 12 - Valladolid a ler poemas (em português e em espanhol) dos meus livros: "Pelo Deserto as Minhas Mãos" (Editora Coisas de Ler), "Regresso" (Editora Labirinto) e da "Antologia Clepsydra" (Editora Coisas de Ler".
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Ruas de nébula
A Ilha dos Sonhos não existe,
diz a louca pitonisa,
inútil mapa em minhas mãos,
meus olhos sem saídas.
O véu lunar recolhe o tempo,
meu olhar distante e perdido.
Exília, o lugar que não há,
receptáculo de meus passos.
Ergo o rosto, vejo galáxias,
vagar, tempo e espaços.
Nasci em algum lugar,
afoguei-me entre represas.
Ilha encoberta,
fui arrastado pelos rios.
Meu rosto,
trilha de ravinas,
procura-se em vão nas águas adormecidas,
abraçadas a astros soberanos.
Estive em Arminda. Cá estou.
Incólume em Pompeia,
homem feito cinzas.
O Vesúvio, nada além de nostalgia.
Passos ressoam em ruas de nébula,
tudo apenas ruínas.
Fui visto em Andrômeda,
perdi-me no deserto,
adormeci em campanários.
Meus olhos não viram corpos nem almas
na explosão dos calendários.
Os dedos tocam a terra,
abrindo caminhos.
Minha cidade me espera
para ser povoada.
Sou apenas uma lenda,
ao nascer de uma coleção de nadas.
Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, pp 54-55.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Náufragos
Náufrago em si mesmo, o homem
lança mensagens em garrafas.
Mas o mar só devolve o silêncio
à solidão de seu corpo.
Sem um porto onde se salvar
toma de outra garrafa
e nela constrói um navio.
Só lhe falta, agora, o destino.
Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, p 45.
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domingo, 15 de outubro de 2017
Pré-publicação: com a concordância do autor o texto que se segue será incluído num livro meu de traduções que sairá ainda este ano.
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Cadernos do Deserto
Fragmentos
I
Chegámos ao lugar onde o asfalto
se cravava na pele
aleonada
do deserto,
como um aguilhão.
Se uma estrada que não vês
não é uma estrada,
os instantes que não recordas
terão sido a tua vida?
II
Imagina a palma de uma mão
que não tivesse linhas,
isso é o deserto:
a beleza
daquilo que nos falta.
IV
Ao ver o escorpião, compreendi:
não há duas obscuridades
que doam o mesmo.
Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hipérion, 2017, pp 44-47 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017
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Ainda integrada no XX Festival ibero-americano de Poesia de Salamanca:
sessão no dia 25, pelas 12.00h, no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Plaza de San Benito, 1.
As dezenas de outras atividades (conferências, filmes, apresentações de livros, debates etc.) poderão ser procuradas na net.
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