quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Safo Dieciséis
LO más hermoso de la negra tierra
no es una carga de caballería,
no es el choque frontal de dos falanges
ni el blanco surco de una nave negra.
Lo más terrible de la hermosa tierra
es amar el desdén de quien amamos.
Mesanza, Julio Martínez. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 26.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Partiste. Eu gelo...
Partiste. Eu gelo os dias
a conjugar os verbos da ausência -
modos e tempos da melancolia:
e com essa certeza vou vivendo.
E se longinquamente amanheceres,
se a tua ausência se medir por anos,
uma nova gramática terei
d'inventar pois: para vencer desânimos.
Tu partiste - regressarás talvez,
e eu preso à solidão mas aguardando
ouvir teus passos leves no passeio
(uma igual ilusão... de quando em quando).
Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
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Cantar-te
Não cesso de cantar-te: a ti que és só
uma constante ausência e um desejo
de possuir-te sem saber que forma
virás tomar ao pé de mim - surpresa
que ficarás por me encontrares: próvido
de quantos sonhos quantos desesperos
vividos revividos em segredo
numa secreta e apaixonada voz
que ciciava dentro do vazio
do meu peito febril sempre a fremir
como eras tu em ânsia permanente...
Cantar-te: seja apenas a miragem
de te pensar em dádiva a meu lado -
fruto do meu precário pensamento.
Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 18.
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terça-feira, 21 de novembro de 2017
De Ávila a Salamanca
Para longe vão as nuvens.
Escapam ao íman dos campanários
das duas catedrais.
De Madrigal em flor a Salamanca,
de frei Luís a frei Luís,
pela Moraña verde,
desmonta-se também o horizonte.
Fulgor no meio das searas
acamadas após a tormenta.
Para longe vão as nuvens,
vão na busca do levante
e o Tormes corre forte e contido,
e o mundo está bem feito...
Eu entro na cidade como quem entra
numa melodia
de uma manhã de sábado,
toda por estrear, toda para mim,
toda eco e silêncio que se altera
ao compasso dos meus passos.
E apesar de só, eu sei que vou contigo,
que contigo faço meus os passeios,
já que o sol que me beija
é o mesmo que agora estás bebendo,
com a janela aberta,
olhando para outra cidade, com outra estranha
alegria de estares e não estares sozinha.
A praça sussurra pelas arcadas,
os cafés chamam-me
e eu compro o jornal,
e tomo esta manhã com açúcar,
vibrando enquanto passa e se despede
a penúltima nuvem,
pressurosa a caminho do levante.
Aganzo, Carlos. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 51-53 (Coordinador y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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A iluminada colmeia
Húmido, intenso, um pouco melancólico,
regressa já dos montes negros o outono,
desce derramando-se pelas ribeiras de oiro,
até ao doce panal que é o mel das tuas pedras.
Esta cidade é como uma oração
de pedra em chamas.
(Deixai que, ao dizê-la suavemente,
adormeçam meus nervos e meus ossos.)
E lá no cimo, naquele ar tão puro,
(Oh, abismo infinito do azul!),
apenas o aroma da nossa ardente azinheira
- como reluz agora esta colmeia
da cidade antiga
ante um pesar qualquer!-
ou o da povoação, aquela que dorme na minha memória
repousando ao sol acobreado do vale
como ave em seu ninho.
Será de tijolo e pedra, e não de ramos e luz,
a casa que me cobrirá
neste tempo (fio de navalha)?
depois daqueles verdes
iluminados, secretos, de lagos e vilas alpinas,
depois de tanto mar e de tão sábia
leitura da luz
( aquela que me deu quanto sei e sou),
na pobreza e febre deste sereno piso,
na suave doçura destas pedras,
desfar-se-á tudo quanto é princípio e fim
da minha vida, a paisagem de minha alma?
Colinas, Antonio. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesia Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, p 37 ( Coordinardor y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Um Arco em Salamanca
Encostada a um dos arcos que protegem esta Plaza Mayor
/que dela são parte essencial/
observo como pouco a pouco as luzes vão esmorecendo
em silêncio
Esse silêncio que sobre mim se abate com o frio da noite
e transforma
este lugar que de dia foi colmeia
num silêncio doce que aumenta à medida
que a luz artificial desaparece
e dá lugar a uma Lua que se afirma
delicada e terna
como virginal unha a despontar
Horas atrás sob o sol
as quadradas pedras da Plaza Mayor
sussurravam como afinado coro
Na esquálida luz que vai escorrendo pelo vazio
deito um olhar à minha pele de mestiça americana
e recordo
o amanhecer
A estância ressoava com palavras
/roçaram a pele encrespada do Atlântico/
voo de pássaros enormes
sussurros
premonições
que suavemente embateram na praia da Península
Uma orgia de palavras
Deixo a Plaza Mayor
deslizo
por uma rua ainda mais escura
levanto os olhos e mordo as estrelas
devoro-as com paixão
e caminho sorvendo os delicados sucos da Lua
Olho para trás e ali se mantém esperando
fiel
poderoso
com a força que lhe deram os séculos
o arco da Plaza aquele ao pé do qual plantei
o meu amor por Salamanca
Rodas, Ana Maria. Salamanca Raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamreciana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 33-35 (Coordinador y Traducción: Victor Oliveira Mateus)
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sábado, 18 de novembro de 2017
Cualquier momento queda atrapado
entre las garras de algún abrazo estremecido,
nadie quiere ser culpable, sólo el destino
es el ceniciento de todas las sospechas.
... Se tejen las horas bajo la desnuda
sombra de los pinos, y se cubre el paisaje
con un aire de páginas desnudas.
El amenazador viento llegará hasta donde Dios
quiere que llegue.
Las eternas mareas del desierto se fundirán
con la algarabía de un nuevo amanecer,
y traspasará las entrañas de la tierra
que estarán tamizadas de nieve almacenada.
En el ir y venir alguien baila,
el inalcanzable ritmo de la alegría.
Hay un paréntesis entrecortado de silencio
en este vaivén increíble.
Es lento el viaje
donde el adiós se filtra hasta la suave
caricia de unos labios.
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Sagüillo, Araceli. Desde entonces.. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 105.
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No habito en una isla de arena blanca,
ni mi voz retumba prodigio del cielo y el mar.
Habito esta tierra de amor y barro,
donde el hastío se guarda entre aerosoles y promesas.
Habito este tiempo confuso y triste
a lo largo de algún jardín oscuro.
Me tranquiliza la torre de la iglesia
envuelta desde siempre en el misterio.
Llueve apuro la dulce caricia del agua.
Descalza, enredada en los charcos, adivino
alguna voz familiar pronunciando mi nombre,
dentro del sonido eterno admito lo imposible.
Cruza la sonrisa de un pájaro
en la mansedumbre de los charcos,
se clava el cálido gorjeo
sobre el regazo gris de algún misterio.
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Sagüillo, Araceli.. Desde entonces. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 83.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Edital
Ninguém
espere o aviso
que vem
co'a madrugada:
O mensageiro
que era preciso
morreu na estrada
sem dizer nada.
Aprontem
o luto. O riso?
Foi ontem,
de madrugada.
Agora não é preciso
nenhum mensageiro
em nenhuma estrada.
Chorem. Mais nada.
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948 - 2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 334 (Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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terça-feira, 14 de novembro de 2017
Retrato
Tenho uma pedra na voz,
uma flor no olhar; e seguro
com as mãos um pássaro de plumas verdes.
Aqui tens o retrato que me pedes.
(E desculpa lá a pedra na voz:
O coração está puro!)
No entanto, bem vês,
sou um escravo
da minha voz: Sigo
com os olhos o voo dos meus dedos,
mas acabo
sempre (ai de mim!) na dureza do que digo.
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 154 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Sozinho e sempre
esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros
sozinho e sempre
e com os dedos fincados
desesperadamente
nas cinzas
sozinho e sempre
esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 70 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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domingo, 12 de novembro de 2017
sábado, 11 de novembro de 2017
SEI DISSO, O POEMA É INÚTIL, APESAR DE ESCREVER
POESIA. Mas nem por isso me sinto substancialmente
melhor. Casado, pai de três filhos, netos exemplares, faço
tudo com o esmero do funcionário de estado. Director de
repartição. Não sou, note-se, um funcionário cansado.
Tenho músculos prontos para em cada manhã levantar
os netos, essas crianças que navegam no meu sangue e
acordam em sonhos distantes do mundo real em que me
encontro. Ponho na minha cara o sorriso mais feliz que
consigo. Sei que a minha mulher não é a amazona que
já foi e desejei lá muito atrás. Era uma puta formidável,
hoje é uma mulher doméstica, domesticada, uma san-
ta maternal, de olhar barroco, terno, adormecido - oh
puta de vida esta! Tenho músculos prontos para a guer-
ra, mas querem-me lento, ensonado, empregado, ma-
tando o tempo antes que ele me mate. Sou exemplar: no
futuro irão visitar-me numa qualquer cela de zoológico
para verem como despachava, carimbava, organizava a
minha vida anónima e vazia. Sou um animal enjaulado.
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Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 57.
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Lançamento do livro Noivos do Mar, Nº 13 da coleção contramaré da Editora Labirinto. Na foto: Henrique Levy (autor), Victor Oliveira Mateus (apresentador da obra) e Miguel Real (autor do Prefácio).
Nu
nu
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Caliope
os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar
nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde
nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade
nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar
o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes
nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos
se puderes
em lento voar nu
avança!
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 21-22 (Prefácio: Miguel Real. Posfácio: Inez Andrade Paes).
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terça-feira, 7 de novembro de 2017
Enquanto os media daqui se mantiveram no mais absoluto silêncio quanto ao que se passou numa das mais prestigiadas Universidades da Europa, os jornais de Castela-Leão ( "Salamanca al Dia", "El Norte de Castilla", "Diario La Razón"...) continuam ainda a falar desses acontecimentos.,
ver aqui: http://salamancartvaldia.es/not/163937/oliveira-mateus-esta-antologia-gestada-desde-portugal-ofrenda/
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Na foto, da esquerda para a direita: Alfredo Pérez Alencart, Doña Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Segredo
de súbito sem receios nem angústias
as tuas mãos sulcam as teclas de um piano
reclinado no prazer
em silêncio
oiço a saudade da memória
nas notas sonoras e vibrantes
escuta amor
na orla das praias d'águas a luzir
o murmúrio raro das ondas
a desenhar esferas mágicas
no sol amarelecido
beijo o teu corpo de pássaro
na convulsão vulcânica da ilha
que se abre luminosa
incendiando de música as águas
passa suave mais um ano breve
um rapaz canta no jardim
o segredo
- são flores, senhor, são flores...
confiadas a estes prados
- erguei as mãos, senhor, são flores...
o mar desnuda na terra
as brancas azáleas
nascidas em chão quente
como os fetos a urze o tamujo
batidos pelas marés e pelo vento
- são flores, senhor, são flores...
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 33-34 (Prefácio de Miguel Real. Posfácio de Inez Andrade Paes).
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quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Esta sed se cuadrícula en la canícula,
danza al ritmo de las moscas que brillan sobre la mesa de la siesta.
En el fondo del recuerdo,
tengo la llave del desierto.
La mecânica de un rito se repite en el zumbido de la tarde
que se abre como un espejo en el tiempo.
Angustiosa y doméstica es la melodia de la tarde:
diseñada con pequeñas madrigueras
para anidar nuestros miedos.
Leytón, Paura Rodríguez. Pequeñas mudanzas. Diputación de Salamanca, 2017, p 42.
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