As cartas de amor são jóias raras que só a custo ainda se encontram em Arquivos e Bibliotecas e esta raridade aumenta se essas cartas dizem respeito a relacionamentos havidos entre seres do mesmo sexo São célebres as Cartas de Mariana Alcoforado, contudo outras só têm sido descobertas de modo acidental. Estão neste caso as seis cartas de Frei Francisco da Ilha da Madeira, datadas de 1690 e descobertas na Torre do Tombo (Lisboa) aquando de um trabalho de investigação. Estas cartas, das quais postamos aqui no blogue apenas as três primeiras, chegaram até nós devido à traição do seu destinatário, Frei Mathias de Mattos, que, temendo a Inquisição pelo "abominável e nefando pecado da sodomia" (era assim que era conhecido, a partir do séc. XIV, o relacionamento entre seres do mesmo sexo) resolve denunciar o seu jovem amante, entregando assim à Santa (???) Inquisição as cartas aqui referidas, como prova.
Resolvi postar estas cartas aqui na sequência de uma polémica que acabei de ver no Face. O asterisco, que surge inúmeras vezes no post, é de minha autoria, pois procedi à substituição dos diminutivos (tão usuais no Barroco) por termos mais atuais, embora não tenha conseguido fugir à carga erótico-pejorativa que a expressão "meu cão" tem hoje.
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CARTAS DE FREI FRANCISCO DA ILHA DA MADEIRA
A FREI MATHIAS DE MATTOS
Carta Primeira
” Meu feitiço (*), meu cão(*):
Esta tarde te vi passar com o irmão de Frei Bento. Bem te vi chegar para a
porta da horta onde estávamos, e por uma greta te vi e teu lindo rosto (*), e a
tua boca (*) que lhe desejei dar um beijo (*) de língua. E de tal sorte me vi
estonteado que estive para ir após de ti pela porta a fora. De tal sorte me vi
embebido, que cheguei a dar passos para
o fazer, quando me lembrei que estavam ali os coristas.
Oh! que mágoa que sentiu meu coração (*)! Já não posso explicar, por que causas
grandes melhor se explicam (em) bem senti-las, suposto que oculto com o
silêncio o que é digno de tanto aplauso.) Te venho a dizer que excede minha dor todos os modos de sentir: não é
possível que haja mais penar! Um só bem tem tantos males, que é tornar-me de
sentir outros (males). Não posso sentir outra pena, que conhecendo tu o meu
amor, lhe não correspondas com suas letras , para que tenha mais
ocasiões de padecer. E esta pena só me fica em coração , por que pena tão
grande não pode explicar alguma pena, nem pode haver papel que seja capaz de
resistir incêndios e verter mares.
Que tinta pode haver que diminua minhas mágoas? Que desmaie a pena, recuse o
papel, pena e a tinta. Melhor arbítrio é (a) recompensa no coração, (como tenho
dito) pena tão grande, por não descobrir uma pequena queixa tão grande dor, por
que então me dirás: a pena pela explicação e não pelo tormento que não seja eu
digno de lograr tuas letras. Por favores tão soberanos, eu sou o primeiro que
os publique, mas não faço eu deles a maior estimação. É uma falsidade que
desmente tantas infâmias da alma, e adverte que nunca um amante há de viver
satisfeito do que faz, se não obrigar cuidadoso o servir atento.
Ora, meus amores (*), escreve-me sempre, e se puder, todos os dias, ainda que
seja uma regra, por que com ela aliviarei as penas que tenho dito.
Ora, adeus, adeus, meus olhos. Dá-me minhas saudades lá a meu coração (*).
Tomara que viera o dia para te ver essa boca (*) e os ter teus olhos (*) que
são uns feitiços (*).
Não sei que me tem passado, porque não posso parar na cela, (ansioso) por te ver, por adorar,
finalmente por te meter todo, todo, todo dentro do meu coração (*), na minha
alma, nas minhas entranhas.
Ai meu menino, que há de ser de mim se me falta a tua vista! Que há de ser de
mim se logro a tua vista por bocados (*). Tomara de estar sempre, sempre (te)
vendo! Mas, ai que não tenho liberdade para isso, por isso morro, por isso acabo
sem tu que me acudas. Ora acode, acode cão (*), a teu, a teu coração (*), ora
acode, sim, sim, sim, ai meu coração (*), dá-me os teus braços (*) por que aí
quero morrer.”
Carta Segunda
“Meu coração:
Esta tua ausência me tem dado muita pena. E se não fora as esperanças de saber
onde estás, não sei se fora vivo ou morto. O mais certo é ser morto do que
vivo. De ti já sei que devias levar uma vida excelente, sem te lembrar deste
prisioneiro. E o certo é que agora me hás de render muitas finezas, as quais
nem hei de dar crédito, pois quem se anime de estar fora de mim três ou quatro
meses (e se estiveras mais se esta carta te não estorvara), será dificultoso o
dar-lhe crédito às suas finezas.
Ora meu menino lindo, lindo, que para mim julgo muito que lá padecerias na
minha ausência. De mim, te quero contar parte de minhas penas, que foram tantas
que me obrigaram a escrever a meu tio à Igreja de São Roque que te buscasse e como eu não sabia onde moravas, só lhe mandei dizer que
era no Bairro Alto e lhe pedi muito que se te encontrasse, que te desse minhas
lembranças.
Muitas cartas fiz para te mandar, porém não me quis fiar de ninguém. Ao
“Congro” perguntei por muitas vezes se sabia onde
moravas, e me disse que não. E como me via por tantas partes desamparado, só me
faltava o pasmar.
Agora, meus olhos, que já te tenho, agora meu coração se aliviara com tua
vista. E olha, meu menino, que te falo com todas as veras, que com esta tua
ausência, acabei de conhecer o quanto estou preso. E agora, daqui por diante,
não quero senão conte-lo em muitos amores (*). E vigia que não saiba ninguém,
nem dês ocasião para isso. Tu bom juízo (tens) nessa cabeça e muita velhacaria nesse corpo (*): não tenho o que te recomendar nesta particular.
Agora no refeitório por acaso disse um rapaz da adega: é
chegado o Padre Frei Fulano . E não por acaso me veio alegria tão
grande, que a não posso explicar, por que esta (alegria) depois que te fostes,
só me assistia enquanto ouvia falar em ti, (por) que do mais, tudo em mim era
como um pena contínua.
Hoje indo repicar à torre dos sinos, vi vir um frade de São Domingos ao longe e
imaginei que eras tu : estive à espera com muita alegria, até
que tudo veio a se converter em penas e considerações: porventura estará doente
ele que tarda tanto? Porventura não virá agora para casa? E outras
considerações que me faziam (doer) o coração.
Oh! quantas vezes quando ia dizer as lições no coro) olhava para o banco e faltava-me o que desejava ver. Oh! quantas vezes olhava
para o teu coro, sem ver lá o meu menino! Agora, meu coração, minha alma, e
minha vida, vejo o meu coração aliviado, os olhos com a vista, a alma com
alegria, com gostos. Agora já tem os meus braços a quem abraçar, já os olhos
tem para onde olhar, agora se acha o meu coração com alívios, porque tem com
quem desabafar. Já agora tem a quem beijar.
Aceite tudo isto, meu coração, ora aceita que me queres matar, que hoje mais
que nunca te peço, aceite estes abraços, aceita que estou preparado para dar
mil vidas se tantas tivera só por te fazer um gosto, e se tantas vidas dera
para te fazer um gosto, o que não farás tu para me dares um alívio!
Ora, acaba já me dares os teus braços (*), não seja tirano, não me queiras
matar de todo, que bem vingado te fez. Não me esquece ainda a tirania com que
(te) apartastes de mim, ainda não! Pois até te não dar dois açoites na
minha cela, me não hei de esquecer, o quanto eu rezarei a Deus(46)que
fico esperando por resposta, ou por letras tuas. ”.
Carta Terceira
“Meu coração (*), minha vida, minha alma e meu tudo:
Timbre é de honrados com eu, por confissão tua,
predicado seu da tua amizade, ostentarem-se agradecidos e se é que não passa
mais avante por esta, devo atrevidamente numerar-me bem nascido e são mestiço) que concorrem a me obrigar a fazer-te estas e outras muitas regras para te
dar a conhecer que vivo eu obrigado às tuas memórias, que não presumi serem
ludíbrios que à minha pessoa lanças, lanças acharás em mim que se não se
assemelharem aos teus primores, não andem de me vencer nas leis da amizade.
Nenhuma intenção tinha de te fazer participante das minhas letras, por que
facilmente se perde um escrito e justamente o crédito, e com ele e em ti é que
tenho posto todo o meu cuidado. Por isso, queria ver se podia passar sem que
fizesse para que em algum tempo não pusesse algum desgosto, mas fio na tua
pessoa e não faças porque te não hei de meus amores (*) dar ocasiões de me
ofender.
Ora sim, desde agora te dou o meu coração, alma e vida e todas as potências da
alma. E olha que te não hei de ser algum tempo contrário e hás de experimentar
em mim o que até agora não temos experimentado, a quem entregastes o teu
coração. Manda-me dizer o que te faz este maganete e grandíssimo desavergonhado: já era necessário que lhe déssemos com um pau
que bem merece.
Hoje me apurou de tal sorte a paciência ao servir da mesa, que se não assentara
(um frade), lhe houvera de cortar as orelhas. E já na mesa parece que não quis
Frei Bernardo uma ração de carneiro, por (estar) má, e pedia outra, a qual
tinha dado da cozinha, para que lha levou sem pedir-me ele que não fizera,
porque ele não houvera de fazer, ou lhe não quis fazer o gosto, porque levei a
ração ao clérigo, e enfadou-se muito e chegou a Ministra muito enfadado, dizendo: aqui não se faz a vontade senão aos vilões ruins.
Virei-me eu para ele e lhe disse diante dos cozinheiros e os mais criados que
na cozinha estavam: oh! irmão, vós não podeis chamar vilão ruim a ninguém,
porque vós ofendeis a vós mesmos. E voltei a levar a ração de carne ao
procurador.
Não te posso encarecer o que aquele diabo e toda a mesa rosnou, e o gosto que
teve de me ver dar ao vigário aquela penitência. Enfim, meu coração, havemos de
ter paciência porque não é tempo de falarmos.
Hoje quando fui limpar o coro, cuidei que se achasse lá, para poder desabafar
contigo, e justamente ver-te, porque só com isso desabafo.
Não sei o que me tem dado, porque somente ver-te as caras me causa alívio no
coração. Ora, meu cão (*), aqui me tens: mata-me! Estourarei de padecer o que
advinho hei de padecer contigo. Bem sei que emprego bem o meu amor em ti,
porque conheço que por ti não hei de cobrar estes amores (*).
Podes estar seguro, que se esse amor não acabar com a morte, além dela passará
o meu, e assim estou vencido tanto de vontade quanto de amor, e podes estar
seguro que nesta hora, me serve o coração por boca, porque escrevo o que me
dita o coração.
Ai Jesus, valha-me Deus, não sei em que me meto! Faz-me Deus matar, e se é o
teu gosto este, mata-me, aqui me tens, mata-me, meu menino. Quem fora tão de
ferro que estivera derramando sobre teu coração as lágrimas que os meus olhos
sobre este lançam! Mas ai que morro, não por te ver todos os instantes e morro
porque então morrendo alcançarei a vida. Ora, mete-te, mete-te neste coração
(*) , esteja metido, ora mete-te mais, mais, mais, mais por dentro, assim!
Ai Jesus, que consolo sinto agora! Saber o que dizes já, que me amas, amas
muito, muito, muito, muito me amas e pagas-me na mesma moeda, porque te amo muito,
muito, muito, oh! Cão (*) que já me começas a matar. Eu morro, filho! Acode-me,
morro de saudades tuas!
Não sabes que alegria me causou em ver-te agora no Capítulo quando vinha com
este magano. Amava eu estar ali toda a vida adorando-te. Mas, ai que não pode
ser, que disso morro!
Tu filho, busca-me por muitas vezes em parte donde te veja, porque não sabes a
glória que disso tenho. Ora, meu coração (*), dá já os teus braços, aperta,
aperta mais, mais, ainda é pouco, ainda mais, ai que gosto tão grande, quem me
dera agora estar mamando nos teus peitos (*)! Oh que doces peitos (*)! Mete-me
dentro num que é o esquerdo, onde está o meu coração, porque quero ver o que te
diz lá. Ora, meu menino, adeus!
Ai que me não atrevo a deixar-te! Agora (te) vi escarrar e me roçastes na
parede: que gosto que logrei! Agora não, não te posso explicar, que delícias,
que gostos (*) tive agora! Ai! Já como me sabe! Ah! feitiço que me trazes
morto: melhor fora nunca te conhecer, do que agora adorar-te sem te ver. Que
penas tão grandes! Mas uns teus carinhos, as tuas pancadas (*), mais apagam,
mais aliviam, muito, muito meus amores (*).
Vem me dizer que teu coração é um incêndio, é um fogo muito aceso e ele me tem
abrasado, e gosto muito! Adeus, adeus, porque sinto escarrar o Barbos. Agora
deram a badalada, por isso não dou mais largo, mas que farei? Se acabar de
escrever-te me faz acabar a vida! Eu acabo, acabo: acode-me cão, cachorro (*)
que me não acodes! Ora sim, acodes-me, ora acode-me, sim, sim, se não, morro,
morro, eu morro! Ora vem já acudir-me, vem, ora vem, meu menino, por que morro,
já estou morrendo por te ver: acabas já de vir, ora sejas muito bem vindo. Como
estás? Como te vai lá com o meu coração (*)? Mui bem! É muito gostoso (*), é um
feitiço (*), ora estimo muito, muito, como está lá? E o meu como está? O que te
diz está muito quieto (*), é muito manso (*) Diz-me também que tu o destes a
Eugênio e que nunca… (dilacerado) e que só folgo de os ter comigo, porque faço
muito caso dele, porque lhe quero muito.
O vigário me fez apagar a candeia: estou nos escuros por isto não te escrevo
mais. Adeus.”
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