domingo, 26 de novembro de 2017
El monje copista
Tengo el vicio secreto de conversarme adentro
con un lenguaje exento de figuras retóricas.
No importa en qué momento, sola o acompañada,
con tanta perfección que nadie se da cuenta
pues me hablo con naturalidad
pero sin emitir aquello que me sé.
Incluso a veces escribo con el dedo
cualquier palabra clave sobre una piel desnuda
en medio de la noche entre frases de amor.
Es que me dan alergia
los sensatos de buena voluntad,
los prácticos consejos que siempre llegan tarde,
el aprecio y la mirada comprensiva
del que pretende que me le parezca.
Estou acostumbrada a disfrutar
del vértigo de andar sobre la cuerda floja
pero sin patetismo ni ridículas frases
o cursis conclusiones. Prefiero
vomitar mis resacas sin palabras, sin ruido.
Escribo frases invisibles que solo yo puedo leer.
Grito, pero nada se escucha.
Me voy perfeccionando en el silencio.
Moro, Lilliam. Contracorriente. Ediciones Diputación de Salamanca, 2017, p 25 (Prólogo: Carmen Ruiz Barrionuevo).
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sábado, 25 de novembro de 2017
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Dmitri Hvorostovsky (16/10/1962-23/11/2017) morreu em Londres, vítima de cancro no cérebro, com 55 anos de idade, após dois anos e meio de luta com a doença. Para mim, que tive oportunidade de o ver no Grande Auditório da Gulbenkian, ele era o maior barítono da atualidade. Uma grande perda no mundo da música e da arte em geral.
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Romance moderno
Seis meses bastaram para que soubessem tudo um do outro: que ela se orgulhava da intrepidez que uma tatuagem (um beija-flor plagiado do catálogo do estúdio) na virilha representava, que ele gostava de videogames, que ela lia Proust, que ele cursara um bacharelado em Física, que ela era fluente em francês, que ele se tornara fã de Godard, que ela saía com uma ruiva de dezanove anos, que ele não tinha muitos amigos, que ela trabalhava como free-lancer, que ele retocava o primeiro livro, que ela desejava se casar na igreja, de véu e grinalda, que ele viveria na Europa por uns tempos, que ela era mãe de uma menina de cinco anos, que ele afrontava o psicanalista duas sessões por semana, que ela e a filha moravam num apartamento quarto e sala, que ele era ateu, que ela o convidava para um jantar, no próximo final de semana. Depois de tanta conversa, concordaram que era hora de se verem. Já não se continham: logavam dez, onze vezes por dia e os papos se estendiam por horas: planejavam o noivado. No dia anterior ao encontro, um recado: ela lera cinco páginas do romance dele e que, a despeito de um ou outro clichê, a história prometia. Havia também uns detalhes sobre o estilo, mas nada que não pudesse ser resolvido e até gostaria que trabalhassem juntos na correção. Para, pouco depois, ele cancelar o encontro e digitar uma última mensagem: vou excluir o seu perfil dos meus contatos, não me procure mais, você não está me fazendo bem. Tchau.
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Fraga, Whisner. Lúcifer e outros subprodutos do medo. Guaratinguetá: Penalux, 2015, pp 52-53.
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sexta-feira, 24 de novembro de 2017
La merecían
LA lluvia que ha lavado las naranjas,
las últimas naranjas perezosas,
la limpia, la que viene ya sin barro.
Y esas naranjas que la merecían
solo por esperar hasta el invierno,
como merecen todos los que esperan.
Mesanza, Julio Martínez Mesanza. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 35.
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Safo Dieciséis
LO más hermoso de la negra tierra
no es una carga de caballería,
no es el choque frontal de dos falanges
ni el blanco surco de una nave negra.
Lo más terrible de la hermosa tierra
es amar el desdén de quien amamos.
Mesanza, Julio Martínez. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 26.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Partiste. Eu gelo...
Partiste. Eu gelo os dias
a conjugar os verbos da ausência -
modos e tempos da melancolia:
e com essa certeza vou vivendo.
E se longinquamente amanheceres,
se a tua ausência se medir por anos,
uma nova gramática terei
d'inventar pois: para vencer desânimos.
Tu partiste - regressarás talvez,
e eu preso à solidão mas aguardando
ouvir teus passos leves no passeio
(uma igual ilusão... de quando em quando).
Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
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Cantar-te
Não cesso de cantar-te: a ti que és só
uma constante ausência e um desejo
de possuir-te sem saber que forma
virás tomar ao pé de mim - surpresa
que ficarás por me encontrares: próvido
de quantos sonhos quantos desesperos
vividos revividos em segredo
numa secreta e apaixonada voz
que ciciava dentro do vazio
do meu peito febril sempre a fremir
como eras tu em ânsia permanente...
Cantar-te: seja apenas a miragem
de te pensar em dádiva a meu lado -
fruto do meu precário pensamento.
Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 18.
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terça-feira, 21 de novembro de 2017
De Ávila a Salamanca
Para longe vão as nuvens.
Escapam ao íman dos campanários
das duas catedrais.
De Madrigal em flor a Salamanca,
de frei Luís a frei Luís,
pela Moraña verde,
desmonta-se também o horizonte.
Fulgor no meio das searas
acamadas após a tormenta.
Para longe vão as nuvens,
vão na busca do levante
e o Tormes corre forte e contido,
e o mundo está bem feito...
Eu entro na cidade como quem entra
numa melodia
de uma manhã de sábado,
toda por estrear, toda para mim,
toda eco e silêncio que se altera
ao compasso dos meus passos.
E apesar de só, eu sei que vou contigo,
que contigo faço meus os passeios,
já que o sol que me beija
é o mesmo que agora estás bebendo,
com a janela aberta,
olhando para outra cidade, com outra estranha
alegria de estares e não estares sozinha.
A praça sussurra pelas arcadas,
os cafés chamam-me
e eu compro o jornal,
e tomo esta manhã com açúcar,
vibrando enquanto passa e se despede
a penúltima nuvem,
pressurosa a caminho do levante.
Aganzo, Carlos. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 51-53 (Coordinador y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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A iluminada colmeia
Húmido, intenso, um pouco melancólico,
regressa já dos montes negros o outono,
desce derramando-se pelas ribeiras de oiro,
até ao doce panal que é o mel das tuas pedras.
Esta cidade é como uma oração
de pedra em chamas.
(Deixai que, ao dizê-la suavemente,
adormeçam meus nervos e meus ossos.)
E lá no cimo, naquele ar tão puro,
(Oh, abismo infinito do azul!),
apenas o aroma da nossa ardente azinheira
- como reluz agora esta colmeia
da cidade antiga
ante um pesar qualquer!-
ou o da povoação, aquela que dorme na minha memória
repousando ao sol acobreado do vale
como ave em seu ninho.
Será de tijolo e pedra, e não de ramos e luz,
a casa que me cobrirá
neste tempo (fio de navalha)?
depois daqueles verdes
iluminados, secretos, de lagos e vilas alpinas,
depois de tanto mar e de tão sábia
leitura da luz
( aquela que me deu quanto sei e sou),
na pobreza e febre deste sereno piso,
na suave doçura destas pedras,
desfar-se-á tudo quanto é princípio e fim
da minha vida, a paisagem de minha alma?
Colinas, Antonio. Salamanca raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesia Iberoamericana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, p 37 ( Coordinardor y traducción: Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Um Arco em Salamanca
Encostada a um dos arcos que protegem esta Plaza Mayor
/que dela são parte essencial/
observo como pouco a pouco as luzes vão esmorecendo
em silêncio
Esse silêncio que sobre mim se abate com o frio da noite
e transforma
este lugar que de dia foi colmeia
num silêncio doce que aumenta à medida
que a luz artificial desaparece
e dá lugar a uma Lua que se afirma
delicada e terna
como virginal unha a despontar
Horas atrás sob o sol
as quadradas pedras da Plaza Mayor
sussurravam como afinado coro
Na esquálida luz que vai escorrendo pelo vazio
deito um olhar à minha pele de mestiça americana
e recordo
o amanhecer
A estância ressoava com palavras
/roçaram a pele encrespada do Atlântico/
voo de pássaros enormes
sussurros
premonições
que suavemente embateram na praia da Península
Uma orgia de palavras
Deixo a Plaza Mayor
deslizo
por uma rua ainda mais escura
levanto os olhos e mordo as estrelas
devoro-as com paixão
e caminho sorvendo os delicados sucos da Lua
Olho para trás e ali se mantém esperando
fiel
poderoso
com a força que lhe deram os séculos
o arco da Plaza aquele ao pé do qual plantei
o meu amor por Salamanca
Rodas, Ana Maria. Salamanca Raíz de piedra y letras, Antologia Bilingue de Poesía Iberoamreciana. Salamanca/ Fafe: Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes/ Editora Labirinto, 2017, pp 33-35 (Coordinador y Traducción: Victor Oliveira Mateus)
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sábado, 18 de novembro de 2017
Cualquier momento queda atrapado
entre las garras de algún abrazo estremecido,
nadie quiere ser culpable, sólo el destino
es el ceniciento de todas las sospechas.
... Se tejen las horas bajo la desnuda
sombra de los pinos, y se cubre el paisaje
con un aire de páginas desnudas.
El amenazador viento llegará hasta donde Dios
quiere que llegue.
Las eternas mareas del desierto se fundirán
con la algarabía de un nuevo amanecer,
y traspasará las entrañas de la tierra
que estarán tamizadas de nieve almacenada.
En el ir y venir alguien baila,
el inalcanzable ritmo de la alegría.
Hay un paréntesis entrecortado de silencio
en este vaivén increíble.
Es lento el viaje
donde el adiós se filtra hasta la suave
caricia de unos labios.
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Sagüillo, Araceli. Desde entonces.. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 105.
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No habito en una isla de arena blanca,
ni mi voz retumba prodigio del cielo y el mar.
Habito esta tierra de amor y barro,
donde el hastío se guarda entre aerosoles y promesas.
Habito este tiempo confuso y triste
a lo largo de algún jardín oscuro.
Me tranquiliza la torre de la iglesia
envuelta desde siempre en el misterio.
Llueve apuro la dulce caricia del agua.
Descalza, enredada en los charcos, adivino
alguna voz familiar pronunciando mi nombre,
dentro del sonido eterno admito lo imposible.
Cruza la sonrisa de un pájaro
en la mansedumbre de los charcos,
se clava el cálido gorjeo
sobre el regazo gris de algún misterio.
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Sagüillo, Araceli.. Desde entonces. Valladolid: editorial Azul, 2014, p 83.
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sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Edital
Ninguém
espere o aviso
que vem
co'a madrugada:
O mensageiro
que era preciso
morreu na estrada
sem dizer nada.
Aprontem
o luto. O riso?
Foi ontem,
de madrugada.
Agora não é preciso
nenhum mensageiro
em nenhuma estrada.
Chorem. Mais nada.
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948 - 2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 334 (Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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terça-feira, 14 de novembro de 2017
Retrato
Tenho uma pedra na voz,
uma flor no olhar; e seguro
com as mãos um pássaro de plumas verdes.
Aqui tens o retrato que me pedes.
(E desculpa lá a pedra na voz:
O coração está puro!)
No entanto, bem vês,
sou um escravo
da minha voz: Sigo
com os olhos o voo dos meus dedos,
mas acabo
sempre (ai de mim!) na dureza do que digo.
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 154 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Sozinho e sempre
esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros
sozinho e sempre
e com os dedos fincados
desesperadamente
nas cinzas
sozinho e sempre
esperarei a Primavera
o reflorir dos ramos
o canto dos pássaros
Jesus, Eduíno de. Os Silos do Silêncio, Poesia (1948-2004). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, p 70 ( Prefácio de António Manuel Couto Viana; Posfácio de Onésimo Teotónio Almeida).
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domingo, 12 de novembro de 2017
sábado, 11 de novembro de 2017
SEI DISSO, O POEMA É INÚTIL, APESAR DE ESCREVER
POESIA. Mas nem por isso me sinto substancialmente
melhor. Casado, pai de três filhos, netos exemplares, faço
tudo com o esmero do funcionário de estado. Director de
repartição. Não sou, note-se, um funcionário cansado.
Tenho músculos prontos para em cada manhã levantar
os netos, essas crianças que navegam no meu sangue e
acordam em sonhos distantes do mundo real em que me
encontro. Ponho na minha cara o sorriso mais feliz que
consigo. Sei que a minha mulher não é a amazona que
já foi e desejei lá muito atrás. Era uma puta formidável,
hoje é uma mulher doméstica, domesticada, uma san-
ta maternal, de olhar barroco, terno, adormecido - oh
puta de vida esta! Tenho músculos prontos para a guer-
ra, mas querem-me lento, ensonado, empregado, ma-
tando o tempo antes que ele me mate. Sou exemplar: no
futuro irão visitar-me numa qualquer cela de zoológico
para verem como despachava, carimbava, organizava a
minha vida anónima e vazia. Sou um animal enjaulado.
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Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 57.
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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TENS PENSADO MUITO NISTO TUDO: nos ecos
que uma pedra produz ao embater no superfície marinha
da recordação. Os seus desenhos circulares definem
molduras, frases que foram tuas um dia. Alguma vez
esse nevoeiro iria surpreender-te: terás de perfurar
o orvalho frio do último dos círculos de sangue des-
sa flor venenosa onde os olhos são crateras: não vi-
res a cara à luta. Torna-te mestre dos teus fantasmas.
Cortez, António Carlos. Corvos Cobras Chacais. Lisboa: Editora Gato-Bravo, 2017, p 39.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Lançamento do livro Noivos do Mar, Nº 13 da coleção contramaré da Editora Labirinto. Na foto: Henrique Levy (autor), Victor Oliveira Mateus (apresentador da obra) e Miguel Real (autor do Prefácio).
Nu
nu
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Caliope
os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar
nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde
nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade
nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar
o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes
nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos
se puderes
em lento voar nu
avança!
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 21-22 (Prefácio: Miguel Real. Posfácio: Inez Andrade Paes).
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terça-feira, 7 de novembro de 2017
Enquanto os media daqui se mantiveram no mais absoluto silêncio quanto ao que se passou numa das mais prestigiadas Universidades da Europa, os jornais de Castela-Leão ( "Salamanca al Dia", "El Norte de Castilla", "Diario La Razón"...) continuam ainda a falar desses acontecimentos.,
ver aqui: http://salamancartvaldia.es/not/163937/oliveira-mateus-esta-antologia-gestada-desde-portugal-ofrenda/
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Na foto, da esquerda para a direita: Alfredo Pérez Alencart, Doña Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Segredo
de súbito sem receios nem angústias
as tuas mãos sulcam as teclas de um piano
reclinado no prazer
em silêncio
oiço a saudade da memória
nas notas sonoras e vibrantes
escuta amor
na orla das praias d'águas a luzir
o murmúrio raro das ondas
a desenhar esferas mágicas
no sol amarelecido
beijo o teu corpo de pássaro
na convulsão vulcânica da ilha
que se abre luminosa
incendiando de música as águas
passa suave mais um ano breve
um rapaz canta no jardim
o segredo
- são flores, senhor, são flores...
confiadas a estes prados
- erguei as mãos, senhor, são flores...
o mar desnuda na terra
as brancas azáleas
nascidas em chão quente
como os fetos a urze o tamujo
batidos pelas marés e pelo vento
- são flores, senhor, são flores...
Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 33-34 (Prefácio de Miguel Real. Posfácio de Inez Andrade Paes).
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quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Esta sed se cuadrícula en la canícula,
danza al ritmo de las moscas que brillan sobre la mesa de la siesta.
En el fondo del recuerdo,
tengo la llave del desierto.
La mecânica de un rito se repite en el zumbido de la tarde
que se abre como un espejo en el tiempo.
Angustiosa y doméstica es la melodia de la tarde:
diseñada con pequeñas madrigueras
para anidar nuestros miedos.
Leytón, Paura Rodríguez. Pequeñas mudanzas. Diputación de Salamanca, 2017, p 42.
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Circo de Feras, Xutos & Pontapés
Ai do verbo querer que tanto
Tem feito pelo equívoco
Da indecisão que nos remete
A saudade para o domínio da posse
E nos faz julgar incorrectos
Os passos dados até ao encontro.
Entretanto, a pausa para olhar
Em volta torna-nos
Mais silenciosos, menos dados
A processos de culpa ou de anseio,
A espera refaz sorrisos
E o abraço do primeiro encontro.
Almeida, Rui. A Pedra Não Pode Ser Coração. S/c.: do lado esquerdo, 2017, p 34.
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terça-feira, 31 de outubro de 2017
Dado os jornais de Castela-Leão continuarem a noticiar o evento, podem ver também aqui:
http://salamancartvaldia.es/not/163363/salamanca-recibio-abrazo-poetico-sin-fronteras-espanol-portugues/
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Na foto, e da esquerda para a direita: o poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria, o editor João Artur Pinto, o poeta hispano-peruano Alfredo Pérez de Alencart, Dona Pilar Fernandez Labrador e Victor Oliveira Mateus.
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segunda-feira, 30 de outubro de 2017
O poeta chileno Sergio Macias e Victor Oliveira Mateus foram distinguidos, no passado dia 26 de outubro de 2017, com a condição de Huésped Distinguido , condição essa atribuída pelo Alcaide Presidente da cidade de Salamanca. A cerimónia decorreu aquando da receção dos poetas presentes no XX Festival ibero-americano, tendo o poeta chileno sido representado pelo poeta Pio Serrano .
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sábado, 21 de outubro de 2017
Apresentação
do livro Viagem à Demência dos Pássaros de
Alberto Pereira
Creio
justificar-se, como preâmbulo a esta Apresentação, um poema de uma das grandes
poetas que escreveu em português na segunda metade do século XX: Dora Ferreira
da Silva.
O PÁSSARO
Tênue
toca a terra dura
e ascende.
No céu expande o canto
ferindo as cordas do infinito.
Nas folhas acorda um timbre
delicado.
Mas conhece a ferocidade.
Na fome se precipita
destroçando com o bico
vermes
que a terra expulsa
sem piedade.
Sua morada é o canto
mais do que ninhos
ou a voracidade.
E sobe para um dia cair
sem ressentimento.
Este
poema de Menina seu mundo (1976),
depois reeditado em Poesia Reunida. Rio
de Janeiro: Topbooks 1999, pp 121-122, e que precede em quase duas décadas o
mais importante ciclo poemático de Dora dedicado a aves, o Garças, publicado em Poemas
da estrangeira (1995), ilustra os três nós temáticos do presente livro de
Alberto Pereira: a viagem, os pássaros e o demencial. Vemos, portanto, e numa
primeira abordagem, que o presente livro recusa uma linearidade discursiva
centrada no prontamente dado aos sentidos, nas vivências ritualizadas do
quotidiano e nas inquietações específicas de um mundo urbano ensimesmando-se
numa auto-imagem grandiosa. À opção, mais ou menos circunstancial, pela urbe e
pelo imediatamente experienciado, Alberto Pereira contrapõe uma tessitura
metafórica articulada, onde a presença dos diversos leitemotive (o tempo, a
casa, os retratos, as árvores, os livros, o piano, etc.) nos fazem lembrar os
grandes rasgos poemáticos dos séculos XIX e XX (Cf. Wagner in Tristan und Isolde. Paris: Aubier, 1974,
p 243: o desejo, o olhar, o mar, etc.; Cf. igualmente Giovanni Testori in Três Prantos. Lisboa: Assírio &
Alvim, 2012).
Viagem
à Demência dos Pássaros compõe-se de três secções: Monólogos do Báltico, Cartas à Arquitectura da Geada e Crónicas do
Nevoeiro, que podem ser lidas autonomamente como entidades devidamente
estruturadas, mas também como etapas de um périplo cujo término surge nos
quatro últimos poemas do livro, curiosamente formado por dísticos isolados e
por um poema de estrutura estrófica dual também ela dística. Eis três desses
poemas que assinalam o fim da viagem referida no livro de Alberto Pereira:
De árvore em árvore,
crescer nos incêndios.
(p 66)
Quantas paisagens cruéis
são precisas
para que a pele cheire ao
nevoeiro perfeito?
(p 67)
O homem,
viagem à demência dos
pássaros.
(p 69)
Percebemos,
portanto, que o poeta nos conduz, ao longo do livro, por uma viagem que não é
nem geográfica nem histórica, mas que se enraíza nos grandes temas, que, ao
longo dos séculos, têm perseguido o humano, fazendo-nos lembrar o homo viator dos autores medievais:
Houve
um tempo em que as aves
não
estavam embaciadas.
As
asas não tiveram
a
sorte de Ulisses
e
Ítaca
é
a melodia do pranto.
Ficámos
sós,
a
matar as teclas,
com
o piano pendurado nos olhos.
(p 57)
De
entre esses temas ressaltam: o amor (pp 27, 37…) e a paixão e o que neles há de
desencontro (p 53…), o sentido do estar-aqui – com um cunho nitidamente melancólico
e desesperançado – (pp 39, 40…), a questão da divindade (pp 35…), o relacional,
sobretudo a amada e o desejo (p 43) o tempo e a sua relação com a memória (p
51…) e com o fim.
Arthur Dreyfus numa entrevista aquando da
publicação de um livro que escreveu com Dominique Fernandez (Correspondance Indiscrète, Grasset 2016)
diz-nos que existem duas formas de o escritor visar o seu objeto: de um modo
direto e linear, correndo o risco de degenerar num certo panfletarismo ou de um
modo de desvelamento aproximativo que paulatinamente se vai apropriando desse
mesmo objeto e é, para Dreyfus, por este segundo caminho assumidamente
metafórico que o aumento da poeticidade de um texto se dá. Alberto Pereira
segue, então, esta segunda opção estético-literária, afirmando uma poesia
torrentosa a fazer lembrar Ruy Belo e António Ramos Rosa, de uma metaforização
neobarroca à imagem da portentosa lírica de Natália Correia e trazendo para
esta Viagem à Demência dos Pássaros
todo um léxico tradicionalmente extra literário ligado ao biológico e ao
fisiológico:
(…)
Palavras selvagens,
sílabas
nuas de cieiro,
unhas
a crescer nas estrofes
e
um moinho onde possa matar
a
hipertensão do ego
Nenhuma
candeia se acende com lepra
(p
18)
Parece
que ainda te vejo chegar.
É
indecente que continues a passear-te pelo meu corpo.
A
insistir em masturbar falésias.
(…)
O
whisky é um sedativo para as melodias que ladram.
Vou
açaimando os animais revoltos no sótão cardíaco.
(p 42)
Vivo
no fígado,
Cidade
enrugada que recita solidão à cirrose.
Coincide
o teu corpo
com
o que Saramago decifrou dos escombros de Deus.
(p 43)
Esta
experiência de trazer para a poesia um léxico de territórios que
tradicionalmente lhe são alheios e que tivera um ponto alto em Limite de Idade de Vitorino Nemésio
(1972), não sendo usual na poesia portuguesa contemporânea, encontra-se já em
livros como Disrupção de Jorge
Melícias (2008) e Chave de Ignição de
Ruy Ventura (2009) e surge recorrentemente nos livros de Hugo Milhanas Machado,
e agora também em Alberto Pereira.
Seguindo de perto esta ideia do que o que
está em causa nesta poesia, não é um hedonismo individualista e burguês que,
por vezes, arremessa as escritas do diferente para o monturo do que prejudica a
sanidade psíquica (seja isso o que for!), a escrita de Alberto Pereira veicula
os aspetos e as inquietações essenciais do homem, assim, não deixa de ser
significativo que o primeiro capítulo deste livro, Monólogos do Báltico, ponha em evidência aquilo que nos povos
eslavos Baltas - povos que habitavam “desde a desembocadura do Niémen até ao
golfo da Finlândia: Estónia, Letónia e Lituânia e ainda aos Prussianos das margens do Vístula”
(Cf. Maria Lamas in Mitologia Geral –
Vol. II. Lisboa: Editorial Estampa 1991, p 87) - era primordial: a adoração
da natureza, já que a Mitologia Balta não tinha a noção de Deus nem de vida
para além da morte, antes venerava os astros, a água, os animais, as pedras e
nas florestas sagradas, sobretudo para os lituanos (país fortemente
arborizado), não se podia “caçar ou capturar qualquer animal incluindo as aves”
(in Maria Lamas op. cit. p 88). A relação que Alberto Pereira estabelece entre
a sua poesia e o solo matricial de onde
ela advém é, portanto, um marco importante desta escrita – ex.:
Depois a boca começou a
ter cadastro.
A pele adquiriu a
claridade fosca
da música de Sibelius
e duvidei se a tua
garganta
era a Finlândia.
Todo o frio confessa,
deixaste-me o Báltico.
(p 24)
Eis,
e na sequência de tudo isto, a referência a Sibelius o compositor do célebre
poema sinfónico Finlândia op.26, bem
como de Valsa Triste, ora, e
atendendo à relação entre esta poesia e aquilo que no humano é, em
autenticidade e originário, não me surpreende que o Mito Cosmogónico dos
ugro-finlandeses parta exatamente de uns ovos que uma ave colocara nos joelhos
de uma deusa (Luonnotar/ filha da
natureza), que, melancólica, se deixava estar no oceano (Cf. Maria Lamas,
op. cit. p 114). Não me surpreende também, por conseguinte, que num livro como
este, que fala de pássaros, jamais apareça qualquer referência a Messiaen,
músico que tanto compôs sobre pássaros, mas sempre com uma dimensão religiosa e
redentora. À crença de Messiaen, Alberto Pereira opõe, neste livro, a
melancolia de outros compositores românticos como Sibelius: Chopin, Beethoven e
Tchaikovsky, aliás, Pushkin é referido na página 29, e não podemos esquecer que
Eugene Onegin , a principal ópera de
Tchaikosky se baseia exatamente no romance em verso homónimo de Pushkin. Claro
que o poeta refere igualmente Mozart e Stravinsky, mas não porque lhe interesse
o neoclassicismo do primeiro ou o moderno-serialismo do segundo: Viagem à demência dos pássaros nada tem
a ver com esses movimentos artísticos: do primeiro convém reter tão-só a
funesta existência e do segundo importa-se apenas o primeiro período, aquele em
que havia sagrações da natureza e pássaros de fogo. Penso, pois, que este
livro de Alberto Pereira, se no aspeto formal se insere numa escrita
ousadamente metafórica e de um cheio neobarroco, ao nível do dito inscreve-se
naquilo a que chamo os novos Romantismos dos
séculos XX e XXI de que O Canto do Vento
nos Ciprestes de Maria do Rosário Pedreira foi, talvez, a grande pedrada no
charco. Encontramos neste livro de Alberto Pereira os temas do Primeiro e do Segundo
Romantismo: a amada ausente, o desalento perante uma procura em vão, a geada, a
penumbra, a névoa, etc., mas integrando imediatamente tudo isso nas “conquistas”
do Modernismo e do Realismo Estético: o corpo, o desejo e a pulsão
explicitamente sexualizada, a integração do quotidiano concreto, etc., aliás,
as interconexões com o Realismo Lírico surgem à saciedade:
.
.
A
beleza rouba muitas horas à devoção.
E
eu que sempre gostei de mulheres de t-shirt mal alinhada.
Calças
de ganga.
Cabelos
soltos para o vento fazer o que quiser.
Mulheres
com vestígios de areia por baixo das unhas
Para
levarmos Agosto a todos os lugares.
Mas
não.
Nunca
me fizeste a vontade.
Passavas
séculos com os dedos estendidos.
As
cores a saírem dos frascos.
E
o seu cheiro a matar a areia que delirava debaixo delas.
Sentado
nesta esplanada,
Sei
que a ruína se aluga aos órgãos mais inconformados.
(pp 42-43)
Vê-se
nesta situação uma luta clara entre a mulher real e a mulher idealizada, bem
como a impossibilidade da primeira se adaptar à segunda, logo, o eu-poético,
pela frustração sentida, cai na inevitável melancolia, eixo maior da demência
neste livro. Por outro lado, a resiliência e, concomitantemente, a capacidade
de regeneração do eu-lírico não têm já nada a ver com os Romantismos do século
XIX, onde a exacerbação do sentir era levado geralmente ao paroxismo:
Faire
une perle d’une larme,
Du
poète ici-bas voilà la passion,
Voilá
son bien, sa vie, et son ambition.
Musset, Alfred de. Poésies completes. Paris: Le Livre de Poche, 2006, p 546.
Puis,
quando vient l’automne brumeuse,
Il
se tait… avant les temps froids.
Hélas!
Qu’elle doit être heureuse
La
mort de l’oiseau – dans les bois!
Nerval, Gérard de. Les Chimères, la bohême galante, petits châteaux de Bohême. Paris:
Gallimard, 2005, p 88.
Concluo, com um excerto de um brilhante
ensaio de João de Mancelos: “Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os
escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, o literatura
popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um
poema, lenda ou narrativa” ( in O
Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa:
Edições Colibri, 2009, p 16). E João de Mancelos passa a uma exaustiva
enumeração: o rouxinol (significando a noite) e a cotovia (significando o dia)
em Romeu e Julieta de Shakespeare, o Corvo de Allan Poe, o rouxinol de
Keats, etc. Em Viagem à demência dos
pássaros de Alberto Pereira estes alcançam uma significação complexa,
porque dotados de um hibridismo significativo: os pássaros são simultaneamente eles-mesmos, mas também uma
representação dos humanos enquanto viagem
à demência ou, para usar a expressão
da Julia Kristeva, seres marcados por As
novas doenças da alma, por conseguinte, estes pássaros dementes que somos,
já nada têm a ver com Shakespeare ou Keats, somos As aves ambiciosas de Aristófanes, as vingativas de Hitchcock, as
assassinas e justiceiras como o Melro de
Junqueiro, portanto, e parafraseando os versos de Alberto Pereira, o homem de
hoje não é mais do que uma viagem à demência, um voo sempre retomado à volta do
mesmo, uma viagem sem estaca nem poiso, como o daqueles pássaros que jamais alcançarão a paz de um qualquer acolhimento.
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
Biblioteca-
Museu República e Resistência em Lisboa, 21 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.
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Publicado na Revista (online) Caliban, 22 de out. 2017.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
No dia 27 de outubro, pelas 20.00H, estarei no Salão de Actos do BBVA c/ Duque de la Victoria, 12 - Valladolid a ler poemas (em português e em espanhol) dos meus livros: "Pelo Deserto as Minhas Mãos" (Editora Coisas de Ler), "Regresso" (Editora Labirinto) e da "Antologia Clepsydra" (Editora Coisas de Ler".
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Ruas de nébula
A Ilha dos Sonhos não existe,
diz a louca pitonisa,
inútil mapa em minhas mãos,
meus olhos sem saídas.
O véu lunar recolhe o tempo,
meu olhar distante e perdido.
Exília, o lugar que não há,
receptáculo de meus passos.
Ergo o rosto, vejo galáxias,
vagar, tempo e espaços.
Nasci em algum lugar,
afoguei-me entre represas.
Ilha encoberta,
fui arrastado pelos rios.
Meu rosto,
trilha de ravinas,
procura-se em vão nas águas adormecidas,
abraçadas a astros soberanos.
Estive em Arminda. Cá estou.
Incólume em Pompeia,
homem feito cinzas.
O Vesúvio, nada além de nostalgia.
Passos ressoam em ruas de nébula,
tudo apenas ruínas.
Fui visto em Andrômeda,
perdi-me no deserto,
adormeci em campanários.
Meus olhos não viram corpos nem almas
na explosão dos calendários.
Os dedos tocam a terra,
abrindo caminhos.
Minha cidade me espera
para ser povoada.
Sou apenas uma lenda,
ao nascer de uma coleção de nadas.
Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, pp 54-55.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Náufragos
Náufrago em si mesmo, o homem
lança mensagens em garrafas.
Mas o mar só devolve o silêncio
à solidão de seu corpo.
Sem um porto onde se salvar
toma de outra garrafa
e nela constrói um navio.
Só lhe falta, agora, o destino.
Marino, Alexandre. Exília. São Paulo: Dobra Editorial, 2013, p 45.
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domingo, 15 de outubro de 2017
Pré-publicação: com a concordância do autor o texto que se segue será incluído num livro meu de traduções que sairá ainda este ano.
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Cadernos do Deserto
Fragmentos
I
Chegámos ao lugar onde o asfalto
se cravava na pele
aleonada
do deserto,
como um aguilhão.
Se uma estrada que não vês
não é uma estrada,
os instantes que não recordas
terão sido a tua vida?
II
Imagina a palma de uma mão
que não tivesse linhas,
isso é o deserto:
a beleza
daquilo que nos falta.
IV
Ao ver o escorpião, compreendi:
não há duas obscuridades
que doam o mesmo.
Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hipérion, 2017, pp 44-47 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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quinta-feira, 12 de outubro de 2017
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Ainda integrada no XX Festival ibero-americano de Poesia de Salamanca:
sessão no dia 25, pelas 12.00h, no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Plaza de San Benito, 1.
As dezenas de outras atividades (conferências, filmes, apresentações de livros, debates etc.) poderão ser procuradas na net.
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terça-feira, 10 de outubro de 2017
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
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Integrado nas comemorações do XX Festival ibero-americano de Poesia de Salamanca, apresentar-se-á, no dia 24 de outubro, pelas 19h00, no Teatro Liceo de Salamanca, a obra Raíz de Piedra y Letras. Esta Antologia bilingue, numa edição partilhada da Fundación Salamanca Ciudad de Cultura y Saberes e da Editora Labirinto, conta com a colaboração de quarenta prestigiados autores de treze países, autores esses que passo a referir:
ALBANO MARTINS (Portugal), ALBERTO HERNÁNDEZ (Venezuela), ÁLVARO ALVES DE FARIA (Brasil), ÁLVARO MATA GUILLÉ (Costa Rica), ANA CECILIA BLUM (Equador), ANA MARIA RODAS (Guatemala), ANTONIO COLINAS (Espanha), ANTÓNIO FERRA (Portugal), ANTONIO PRAENA (Espanha), ANTÓNIO SALVADO (Portugal), ASTRID CABRAL (Brasil), CARLOS AGANZO (Espanha), CARLOS NEJAR (Brasil), CLÁUDIO LIMA (Portugal), EDDA ARMAS (Venezuela), FRANCISCO JOSÉ MARTÍNEZ MORÁN (Espanha), HUMBERTO AVILÉS BERMÚDEZ (Nicarágua), JAIME GARCÍA MAFFLA (Colômbia), JAIME SILES (Espanha), JESÚS FONSECA (Espanha), JESÚS HILARIO TUNDIDOR (Espanha), JOSÉ ANTONIO FUNES (Honduras), JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA (Brasil), JOSÉ MANUEL CAPÊLO (Portugal), JOSÉ MARIA MUÑOZ QUIRÓS (Espanha), JUAN CAMERON (Chile), JUAN MARES (Colômbia), LILIAM MORO (Cuba), MANUEL SILVA-TERRA (Portugal), MARCELO GATICA (Chile), MARCO LUCCHESI (Brasil), MARIO ALONSO LÓPEZ NAVARRO (México), MARTA LÓPEZ VILAR (Espanha), PIO E. SERRANO (Cuba), RICARDO GIL SOEIRO (Portugal), ROWENA HILL (Veneuela), RUY VENTURA (Portugal), VICTOR OLIVEIRA MATEUS (Portugal), VÍCTOR RODOLFO PORRINI (Uruguai).
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Dado estarmos perante uma obra bilingue, a equipa de tradutores é constituída por: Victor Oliveira Mateus, Pedro Sánchez Sanz, Jacqueline Alencart, Rogério Viana, Antonio Martínez Coello e Marta López Vilar.
A coordenação deste projeto é de Victor Oliveira Mateus e a foto da capa da Antologia é da autoria de José Amador Martín.
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sábado, 7 de outubro de 2017
Josep M. Rodríguez (Suria, Barcelona 1986), poeta, tradutor e crítico literário, vence, com o livro Sangre seca, o XXIV Premio de Poesía Ciudad de Córdoba "Ricardo Molina". O livro foi este ano publicado pela Hiperión com Epílogo de Joan Margarit. A poesia de Josep Rodriguez, traduzida por mim, integrará este ano a Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017. Segue um poema de Sangre seca:
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ANTES Y DESPUÉS
La vida es una casa donde solo hay jardín.
Crecer a la intemperie.
Así fue
y así será por más que te resistas.
Nada puedes cambiar:
tus raíces son nieve
sin la nieve.
Un deshacerse puro.
No importa que esta noche
dolorosa
y oscura
parezca un hematoma.
Si naces fuente, morirás desague.
Nada puedes cambiar:
el amor delimita igual que el aire.
Los recuerdos son olas,
siempre vuelven.
Y la muerte dehace.
Antes
y después.
Rodríguez, Josep M. . Sangre seca. Madrid: Hiperión, 2017, pp 64-64 (Epílogo de Joan Margarit).
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quinta-feira, 5 de outubro de 2017
VIAGEM À DEMÊNCIA DOS PÁSSAROS
O novo livro de ALBERTO PEREIRA publicado pela Editora Glaciar.
Local de Apresentação: Biblioteca-Museu República e Resistência, Rua Alberto Sousa, 10A - 1600-002 Lisboa;
Data: dia 21 de outubro (sábado) pelas 16h30m;
A Apresentação da obra estará a cargo de Victor Oliveira Mateus e de Francisco Ribeiro Rosa;
Leitura de poemas por Gonçalo Oliveira.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Desço a Rua, Todos os Dias
todos os dias desço a rua
em que se desenrolou parte
da nossa história. outros
motivos me trazem cá:
a rotina, as obrigações da
vida, o tempo depois do
nosso amor, sou hoje
uma pessoa diferente que,
provavelmente, nunca te
interessaria. vejo o banco
em que nos sentávamos.
são outros que seguram
outros cadernos para outras
histórias. (a história que afinal
é sempre a mesma). desta
vez já não sou nela ator, mas
apenas um transeunte que
sabe demasiado. (isso é
agridoce).
Tinoco, Rui. S/c.: volta d'mar, 2017, p 29.
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terça-feira, 3 de outubro de 2017
Sessão de Apresentação do livro Navegação Imperfeita de Adalberto Alves no dia 28 de setembro de 2017, no Salão Nobre do Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa. Na mesa, e da direita para a esquerda: Dr. Luís Raposo (anterior diretor do Museu), Victor Oliveira Mateus, Ronaldo Cagiano, o Diretor do Museu Nacional de Arqueologia, Adalberto Alves, o Presidente do GAMNA.
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A Caixa dos Retratos
abro a velha e grande caixa de retratos,
com rostos antigos,
fanados como sombras.
desço a corda da memória e resgato
aqueles que posso e mais amei.
mas muitos, ai de mim, conheci-os
mas já não sei quem são.
olham-me atónitos
como que censurando o esquecimento.
consola-me o saber que, pela certa,
um dia serei na caixa um retrato mais
e alguém me olhará sem saber quem fui.
e restar-me-á a companhia
daqueloutros que lá estão...
Alves, Adalberto. Navegação Imperfeita. Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 75.
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quero lá saber!
o mundo começa em mim
e em mim se há-de perder.
o corpo não tem avesso
e o espírito é de gesso.
no facebook eu sou
o que mais arrebanhou
amizade angariada.
deixem-se de profundidades!
que o que importa, de verdade,
... é uma boa gargalhada.
Alves, Adalberto. Navegação Imperfeita. Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 52.
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