sábado, 19 de maio de 2018
A mão no escuro
1
Amargo ser este meu nome
de outros nomes ferido,
amargo este meu ser
de corpo e dilemas.
Pois evadido de mim, fora de ti
nem aqui nem onde havia infância
desabitado
visito as ruínas mitológicas
eu que não passo de ruínas
e te asseguro:
nenhum passado conta minha história.
Do que fui ao que deixei de ser
há mil substitutos provisórios
que me negam
qualquer lugar nos mapas ou no tempo.
E no lamento das brisas, e no vapor
das máquinas
me entreponho com minhas ilusões
e gravemente me deixo devassar:
caixa de Pandora reaberta,
nucleares demônios.
E me retomo.
De onde jamais fui me retomo:
um rosto composto de migalhas,
retalhos de verdade e sentimento,
tédio no escuro: aqui recomeço.
Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 74.
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Tudo é silencioso
e a noite
é urgente o silêncio
é urgente ouvir os pássaros
ao longe
escutar as coisas simples
a respiração do mar
os ritmos da manhã
as pequenas rotinas
o trânsito nas cidades
o sol que sobe sobre os campos no verão
é urgente escutar estar atento olhar
assistir com serenidade
aos ciclos à espontaneidade
ordenada da vida
Esteves, Rui. Poemas. S/c.: Edição do autor, 2017, p 21.
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sexta-feira, 18 de maio de 2018
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Richard Zimler é um escritor norte americano naturalizado português, nascido em Roslyn Heights, Nova Iorque. Formado em Religião Comparativa pela Universidade de Duke (1977) e mestre em Jornalismo pela Universidade de Stanford (1982), Zimler radicar-se-ia em Portugal em 1990 - tendo depois obtido a nacionalidade portuguesa em 2002 -, país onde tem desenvolvido uma atividade plurifacetada: docente na Universidade do Porto, argumentista para cinema, literatura infantil, etc., mas é sobretudo como romancista que o seu nome tem vindo a alcançar uma incontestável projeção. Da sua obra literária, sobejamente premiada, ressaltam títulos como: “O Último Cabalista de Lisboa” (1996), “Goa ou o Guardião da Aurora” (2005), “Os Anagramas de Varsóvia” (2009), “O Evangelho Segundo Lázaro” (2016). O seu último romance, agora publicado no Brasil, deu azo à conversa que se apresenta aqui entre o poeta Victor Oliveira Mateus e o romancista Richard Zimler.
VOM – Os seus romances colocam em lugar de destaque a relação do homem
com a Cultura, bem como a História, contudo, esta última não se restringe a uma
função puramente descritiva, nos seus romances. Pensa que falar do Passado, ou
dar dele uma interpretação própria, é importante para compreender o Presente e,
em certa medida, projetar uma certa visão do Futuro?
RZ – Adoro escrever sobre o passado, em parte porque é um desafio
enorme perceber a maneira de pensar de pessoas que viveram há duzentos anos ou
mil anos e transmitir essa compreensão numa narrativa emotiva e inteligente. No
caso do meu primeiro romance, “O Último Cabalista de Lisboa”, tive de entrar na
pele de Berequiais Zarco, um jovem judeu que vivia em Lisboa no princípio do
Século XVI. Ao fazer a pesquisa para o livro – durante um ano inteiro –
descobri que Berequias e os seus familiares nem sempre teriam partilhado a
nossa perspetiva sobre as questões mais importantes da vida: por exemplo, o que
acontece depois da morte, ou qual a relação entre sexo e amor, ou ainda qual a
função da religião numa dada sociedade. Gostei muito da experiência de contar
uma história do ponto de vista de alguém muito diferente de mim e achei fascinante
tentar conta-la fiel aos valores e crenças de uma
outra época, e, ao mesmo tempo, fazer despertar emoções fortes no leitor actual
– conseguir criar uma relação afectiva e complexa entre um residente de São
Paulo, por exemplo, e um jovem lisboeta que teria morrido há quinhentos anos. Aprecio
muito quando me cruzo com um desconhecido numa rua de Lisboa ou do Porto e ele
me agradece ter escrito um romance e diz ter adorado dado narrador e dadas
outras personagens, porque a magia profunda de um romance reside na sua
capacidade de estabelecer uma empatia entre o leitor e uma personagem e através
dessa relação fazer com que alguém examine o seu passado e o presente numa
perspetiva diferente. Penso que um autor com talento consegue fazer isso,
porque as emoções são universais e quase intemporais. Digo quase, porque ao
fazer a pesquisa para “O Evangelho Segundo Lázaro” descobri, por exemplo, que a
honra era, há 2000 anos, um sentimento ou valor crucial e hoje em dia, no
Ocidente, praticamente esse valor desapareceu. Mesmo assim, temos amplas provas
da existência de sentimentos como o amor, a paixão, o ciúme, o ódio e grande parte
de outras emoções no “Velho Testamento” e em livros muito antigos como o “Asno
de Ouro”, do autor romano Lucius Apuleius. E temos provas também de que as
consequências destas emoções – desde a amizade à traição e à crueldade – eram
tão comuns no tempo do Império Romano como hoje em dia, basta pensar no
assassinato de Júlio César e na própria crucificação de Jesus. Por isso, um bom
romance histórico pode obrigar o leitor a pensar em assuntos muito actuais. No
meu novo romance, as personagens debruçam-se sobre a repressão da mulher, e
sobre a discriminação de pessoas com diferentes crenças. Daí a ligação com o futuro
a que o Victor se refere, porque, no caso de vários livros meus, o narrador
deseja um mundo mais justo e luta para atingir esse objectivo. Em “O Evangelho
Segundo Lázaro” existe um desejo enorme por parte deste e de Jesus de renovar o
mundo, de obrigar os Romanos a deporem as armas, de criar uma sociedade baseada
na compaixão e não na dominação. Isso é muito claro no “Novo Testamento”, nos
Evangelhos Gnósticos e é ainda hoje o desejo de muita gente. Quando é que
iremos conseguir um mundo igualitário baseado na solidariedade? Quantos milhões
de pessoas mais terão de morrer para vivermos todos livres de perseguições?
VOM – Em “O Evangelho Segundo Lázaro”, romance agora publicado no
Brasil, as personagens são cuidadosamente caraterizadas, e estou a lembrar-me
de Anás, o antigo Sumo Sacerdote, das irmãs de Lázaro, do relacionamento de
Lázaro com Jesus. Poderemos dizer que a sua obra romanesca tem também por
função, entre muitas outras, esmiuçar valores e comportamentos do mundo
contemporâneo, no caso agora referido o fanatismo e a relação com o corpo?
RZ – Um dos propósitos do meu romance era devolver a Jesus e às
outras personagens o seu judaísmo. Daí o uso dos nomes hebraicos no livro.
Jesus chama-se Yeshua ben Yosef (Yeshua filho de Yosef) e Lázaro é Eliezer ben
Natan. Para mim, isso era absolutamente necessário, não só para melhor reflectir
a realidade, pois todos eles eram judeus e Jesus era, de facto, um pregador, um
curandeiro e místico judaico, mas também
porque queria libertar o leitor actual das suas imagens e ideias feitas sobre
todas as personagens, incluindo o Sumo Sacerdote e os colonizadores romanos - e queria também libertar-me dos meus próprios
preconceitos! Por isso, não decidi nada sobre o enredo do livro ou sobre os
relacionamentos entre as diferentes personagens antes de fazer a necessária e
intensa pesquisa. Comecei a escrever sabendo, embora de forma ténue, o que ia
acontecer nos primeiros dois capítulos, mas não tinha qualquer ideia do resto
da narrativa. Gosto de trabalhar assim! Adoro descobrir o que o romance “quer
ser” e prefiro ser eu a seguir as minhas próprias personagens. Neste caso, ao
usar o nome Yeshua ben Yosef em vez de Jesus, senti-me completamente livre da
iconografia e da doutrina cristãs. Penso que o leitor vai descobrir esta mesma
liberdade ao ler o livro, vai poder examinar os actos e palavras de Yeshua de
um ponto de vista novo. O relacionamento entre Yeshua e Lázaro é, de facto, o aspecto
mais importante do livro, digo na narrativa que o amor e a cumplicidade entre
os dois é tão forte que é como se habitassem juntos uma ilha imaginária. Penso
que isso funciona como um poderoso símbolo da união entre ambos. Ao criar este
relacionamento entre os dois amigos, claro que insinuava também que todos nós
temos a possibilidade de desenvolver uma amizade profunda e duradoura.
Felizmente temos a capacidade de amar incondicionalmente!, porque a vida seria
muito mais dura sem isso. E deu-me muito prazer escrever sobre este aspecto tão
importante da vida, aliás, já tenho 62
anos e não quero desperdiçar o meu tempo explorando temas superficiais, quero
escrever sobre o que é verdadeiramente essencial – o significado de uma vida
individual, por exemplo, ou o sacrifício que um amigo poderá fazer por outro.
Penso que ao debruçarmo-nos sobre a relação de Lázaro com Yeshua, bem como, sobre as relações de Lázaro com
os seus filhos, o leitor vai ser
obrigado a pensar na sua própria vida, nos momentos de ternura, de revelação,
de sacrifício. Uma ideia muito presente na mente do Lázaro é a necessidade de
viver as suas amizades com intensidade e autenticidade, mas infelizmente ele
vive numa época e num lugar, onde isso lhe pode trazer enormes riscos. Há também
outro momento crucial no livro: é quando ele tem de escolher entre a sua
profunda devoção a Yeshua e a sua própria segurança, bem como a da sua família,
já que estou a falar de autenticidade, gostaria de citar uma das resenhas do livro
que saiu em Portugal. A autora escreveu: “E o trecho, quase no final do livro,
em que Lázaro vai descrevendo o Calvário, possui tal intensidade que o
sofrimento de Jesus é transmitido ao leitor com uma violência que espelha a dor
de Lázaro, o qual, em agonia, imagina que vai beijando e tocando em Jesus para
‘saber onde ele começa e termina, porque só conhecendo essas coisas
desaparecerão as fronteiras entre nós’”.
O Victor fala do corpo, eu penso que é um elemento que
sempre foco nos meus romances históricos, porque as personagens que os habitam
têm de ter experiências corporais marcantes para convencer o leitor de que são
pessoas reais. No caso de “O Evangelho Segundo Lázaro”, não só tentei devolver
às personagens o seu judaísmo, como também as suas sensações. Foi muito
importante “insuflar” as personagens com vida, torná-las tão sólidas e
complexas como nós, daí o destaque que dei aos sentidos na narrativa, sobretudo
o olfacto, porque são os cheiros, como nós sabemos, que estão mais intimamente
ligados às nossas memórias.
VOM - O romance de que estamos falando, apresenta-nos um narrador
(Lázaro) através de um escrito para o seu neto Yaphiel, nessa longa carta
Lázaro vai, não só descrevendo uma época, mas também narrando o que foi a sua
convivência com um dado amigo de infância chamado Jesus. Para Lázaro, Jesus não
é o filho unigénito de Deus, no entanto, ele tem certos poderes, tem uma
relação privilegiada com o sagrado. O Richard, enquanto autor do romance, crê
que Lázaro tem uma visão absolutamente precisa acerca de quem é, ou de quem não
é, esse seu amigo?
RZ - Sim, penso que Lázaro compreende Yeshua muito bem, embora,
como qualquer pessoa, a perspectiva dele seja muito influenciada pelas suas
emoções, neste caso pelo amor e respeito, ou seja, ele percebe muito bem que a
sua perspectiva não é objectiva, mas também não quer ter de manter qualquer
objectividade! Quem quereria manter-se a uma fria distância de um amigo num
momento crucial da vida, quando ele está a correr riscos terríveis e pode ser
preso?
Este romance obriga-nos a
fazer algumas perguntas: o que faríamos para um amigo amado que está a desafiar
pessoas com poder político e económico? Que sacrifícios faríamos para ajudá-lo
e protegê-lo?
Lázaro conhece
Yeshua desde a infância e decidiu muito jovem não ser um dos seus seguidores.
Optou por ser o seu refúgio. Os apóstolos, os doentes e os amigos exigem a
ajuda e o apoio de Yeshua, mas Lázaro decidiu não exigir nada, daí ter um papel
único na história. É um papel muito desafiador e, por vezes, doloroso, porque
não exigir nada de um amigo – não ter esse tipo de expectativas – é muito
difícil. Outro elemento importante é a confiança total
que Lázaro deposita em Yeshua: vemos isso logo no início do livro, quando
Lázaro acorda no seu túmulo sem qualquer memória de uma vida após a morte. Fica
muito perturbado e perde a sua crença, mas, curiosamente, não perde a sua fé no
amigo Yeshua! Acho que isso reflecte a nossa realidade, pois podemos perder a
nossa fé na religião ou nos tribunais ou no mundo da política, mas não perdemos
a fé nos nossos grandes amigos. O amor é mais resistente! Penso, de facto, que
é a coisa mais resistente na vida.
VOM – O modo cuidado como a intriga é tratada em “O Evangelho
segundo Lázaro” leva-nos, por vezes, a encontrar no seu romance momentos de
rara beleza e estou a lembrar-me dos encontros de Lázaro com uma das irmãs e
com Jesus. São momentos extremamente poéticos! Podemos ainda, neste mundo de
hoje tão dominado pelo ter e pela velocidade, manter relacionamentos desse
tipo?
RZ – Ainda bem que achou a narrativa poética, porque um dos meus
objectivos sempre foi o de usar as técnicas da poesia para dar mais força e
beleza ao texto. Uma metáfora bem escolhida, no momento certo, pode atingir-nos
de uma forma profunda e pode convencer o
leitor de que está a ser tratado pelo autor como um adulto inteligente e
sensível, como alguém capaz de apreciar todas as nuances da língua e todos os
sentimentos mais subtis. Sim, a nossa vida quotidiana é dominada pela
tecnologia e a velocidade e, nesse contexto, penso que a leitura pode
servir-nos de refúgio. Quem abre a capa de um bom romance — e entra por essa
porta — vai encontrar um silêncio habitado, um mundo paralelo! E quem não fugir
desse silêncio vai recolher benefícios, vai começar a sentir a profundidade da
sua própria vida, porque vai ser obrigado a examinar a sua maneira de pensar e
vai refletir sobre o seu passado e o seu presente, bem como sobre as suas
aspirações para o futuro.
VOM – O tema anterior fez-me lembrar o modo atento como todas as
variáveis são jogadas no seu romance, nomeadamente a questão social e
ideológica com aqueles famintos todos à porta de Lázaro à espera de uma bênção
ou a arrogância de Sallustius, o áugure de Pilatos. Houve uma intenção do autor
de mostrar, na teia narrativa, o papel dos diversos estratos sociais: os que
nada têm, os donos do poder, os fanáticos, etc.? Sentiu a necessidade de
mostrar todos esses intervenientes?
RZ - Sim, a minha intenção dominante era criar uma Terra Santa de
há dois mil anos, realista e fascinante, evocando não só as diferenças entre
essa sociedade e a nossa, mas também entre as diversas comunidades, de criar uma província remota do Império
Romano, uma Judeia onde o leitor encontrasse o bem e o mal, o sublime e o cruel,
a traição e o sacrifício, porque o mundo à nossa volta sempre incluiu tudo isso.
Precisava também de criar uma Terra Santa cheia de contrastes, porque Yeshua,
como curandeiro e pregador conhecido, teria lidado com todos os estratos
sociais desde os leprosos aos sacerdotes.
O áugure de Pilatos,
Sallustius, deu-me uma oportunidade de explorar um tema que me interessa muito:
a crença das pessoas do passado em todo o tipo de presságios. Os romanos,
gregos, judeus, fenícios e outros povos da Terra Santa partilhavam essa maneira
simbólica de pensar. Nessa época, tudo à sua volta — uma tempestade, o voo de
um pássaro, uma doença de um familiar — era interpretado simbolicamente, tudo o
que acontecia estava repleto de significado. No caso de Pilatos, temos
documentação incontestável que indica que os oficiais romanos não tomavam
qualquer decisão importante sem consultar o seu áugure ou arúspice, por isso,
Sallustius terá tido uma influência sobre os destinos de Yeshua e Lázaro. Ao
longo de toda a narrativa do livro, exploro o pensamento simbólico e examino
como é que teria influenciado os actos das personagens. Na minha perspectiva, é
um aspecto do livro particularmente misterioso e empolgante.
VOM – Por fim, e isto é mais um desabafo do que uma pergunta: o
Richard Zimler é hoje um nome grande do romance português, não lhe parece que a
difusão da sua obra, bem como a de outros autores portugueses, romancistas e
poetas, não tem a difusão no Brasil que deveria ter, aliás, o mesmo sucedendo
com imensos autores brasileiros completamente desconhecidos em Portugal? Não
será que as Revistas de Cultura, no presente caso a “Revista Pessoa”, têm vindo
a desemprenhar um papel importante?
RZ - Concordo consigo e acho muito estranho e triste que não haja
um maior conhecimento da literatura brasileira em Portugal e da literatura
portuguesa no Brasil. Não compreendo a falta de interesse, talvez porque sou
americano e nos Estados Unidos lemos muita literatura inglesa, irlandesa e
indiana, aliás, consideramos os grandes romancistas britânicos, como Jane
Austen ou Charles Dickens, uma parte da nossa herança também e muitos
escritores americanos modernos têm um enorme influência na Grã-Bretanha: Philip
Roth e Saul Bellow, por exemplo. Neste contexto, quero contar uma breve
história: quando saiu no Brasil o meu romance “A Sétima Porta”, a minha editora
na altura pediu-me citações da imprensa que pudesse usar na capa ou contracapa
da edição brasileira. Respondi: “óptimo, porque tenho citações espectaculares
dos jornais e revistas portugueses!” E a minha editora, numa voz particularmente
áspera, disse: “não queremos citações de Portugal, queremos dos Estados Unidos
ou da Inglaterra”! Aquela resposta deixou-me muito perplexo, claro. Já estive no
Brasil várias vezes para promover livros e, embora não o conheça bem, penso que
muitos brasileiros dão grande destaque à cultura americana e respeitam tudo o
que sai nos Estados Unidos, ao passo que menosprezam os produtos culturais de
Portugal. Em Portugal, a situação não é muito diferente, mas é ainda mais
curiosa, porque a música brasileira é muito apreciada, mas não a literatura. Parece-me
isso lamentável, em parte porque os escritores contemporâneos brasileiros
utilizam a língua portuguesa muito criativamente, inventam palavras novas e
jogam com expressões antigas, dando-lhes nova vida. A minha teoria é que sentem mais liberdade do
que os escritores portugueses, mais livres das regras tradicionais. É
maravilhoso!
Como o Victor diz, penso que
as revistas culturais, como a “Revista Pessoa” podem desempenhar um papel
decisivo neste contexto, porque podem divulgar obras desconhecidas e muito
valiosas. Temos de criar um público que não esteja tão interessado na origem
geográfica do autor, mas muito mais na sua qualidade.
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© Copyright de
Richard Zimler
© Copyright de
Victor Oliveira Mateus
© Copyright de
Revista Pessoa
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Ver aqui: https://www.revistapessoa.com/artigo/2561/o-bem-e-o-mal-o-sublime-e-o-cruel-a-traicao-e-o-sacrificio-no-novo-romance-de-richard-zimler
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Ver aqui: https://www.revistapessoa.com/artigo/2561/o-bem-e-o-mal-o-sublime-e-o-cruel-a-traicao-e-o-sacrificio-no-novo-romance-de-richard-zimler
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quinta-feira, 17 de maio de 2018
Grito
Não. Não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária.
Definida.
As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo.
Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.
Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.
Serei eu mesma.
Estarei inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada
de amargor.
Não. Não irei sem grito.
Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras -
que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.
Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, p 245 (Organização de Alice Campos Moreira).
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O vento bate na porta
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O vento bate na porta
e eu, que te espero, me engano.
Fico às vezes quase morta,
com medo de um desengano.
Desço escadas. Subo e desço.
- Quem virá antes de ti? -
Este mal eu não mereço,
pois já de tudo sofri.
O meu sonho cresce e aumenta.
Cria asas. Sai à rua.
A noite está sonolenta.
Viajo da terra até à lua.
E vou seguindo teus passos.
E tu nem sonhas sequer.
Corto o corpo em mil pedaços:
sou nuvem, vento e mulher.
Por que estás tão pensativo,
caminhando sem parar?
Da inquietação o motivo
ai! procuro adivinhar.
Essa rua está escura,
como as idéias que levas.
A minha grande amargura
vestiu a noite de trevas!
Pára um pouco. Estou cansada.
Aqui há um banco - "Não sentas?" -
Vamos ver a madrugada
e as horas fugirem lentas.
Se o frio castigar teu rosto,
sou nuvem: Farei um manto.
Não terás nenhum desgosto,
nem um motivo de pranto.
Se precisares de ar,
sou vento brando e amigo.
É um repouso este lugar.
Descansa aqui neste abrigo.
Depois virá a madrugada.
Tu poderás regressar.
Ficarei triste e calada,
como uma rua ao luar...
Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, pp 80-81 (Organização de Alice Campos Moreira).
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quarta-feira, 16 de maio de 2018
Eram dias de pássaros aninhados
eram dias de pássaros aninhados
no beiral dos meus olhos
era a casa pequena
os olhos capazes de se lançar como pássaros
a partir das janelas
os barulhos mentais
escoando pouco a pouco para outro lugar
estava livre
afinal
para receber o sol
sol pescado na aurora
e trazido à tona em rede de trinados
a porcelana trincada do tímpano
novamente se fazia fino couro de tambor
havia uma primavera
trabalhando em cada árvore
Proença, Ruy. Visão do Térreo. São Paulo: Editora 34, 2007, p 65.
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quinta-feira, 3 de maio de 2018
quarta-feira, 2 de maio de 2018
Arden las amapolas que cortamos,
húmedas y lozanas todavía,
en la tarde de abril.
Arden las mariposas de la noche,
que sacuden sus alas
tratando febrilmente de librarse
del polvo de los días.
Arden los desayunos de París,
el fragor de las voces encendidas,
Víctor Hugo y el barco del Califa
tejiendo olas de plata por el Sena.
Arden noches de amor, los ventanales
abiertos de septiembre;
arden los ecos del Mediterráneo,
tan lejos de la arena.
Tantos días robados.
Las mañanas sin luna
arden como los hijos de la noche.
Los poemas azules. Arde el tiempo,
el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo,
el sutil tintineo de las copas
y el ruido de las sábanas.
Arde la construcción de la belleza,
milímetro a milímetro;
la emoción que estudiamos
con ansia de arquitectos.
Arde el jazz, tanto jazz en los vibrantes
volcanes de la piel.
Arde la furia extraña de las horas
que todo lo destruyen:
las ansias de revolución, los celos,
las cabezas cortadas en la tarde
donde al fin recobramos la inocencia.
Arde la vanidad, palabra por palabra,
en una inmensa hoguera que se alza
más allá de la altura de los hombres...
Y a pesar de las llamas, en el aire
ni rastro de ceniza:
tan sólo esta verdad que no se extingue.
Que no se extingue, no, que no se extingue.
Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 47-48.
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terça-feira, 1 de maio de 2018
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Sabía que esos ojos albergaban
alfileres de fuego,
como una acupuntura milenaria
donde nace el rocío,
en los últimos racimos de las horas.
Maldita la belleza
que se viste de luz y nos confunde.
.
Sabía que esos ojos encendían
mil cristales de sal
en la frontera misma de los labios,
devorando la carne y la inocencia
del corazón bilingue de la noche.
Maldita la belleza
que nos aturde con su terciopelo.
.
Sabía que esos ojos conjuraban
exorcismos de lluvia,
aderezando las ansias de verano
con el compás abrupto de una nota
de saxo curvilíneo
en un cuerpo sin norte.
Maldita la belleza
que nos embarga el alma y la extravía.
.
Sabía que esos ojos restallaban
un castigo de látigos sin sangre.
La afrenta poderosa de los dedos,
del que dejó su rostro en el camino
y se puso la máscara
lasciva de la fiesta.
.
Maldito todo pulso
que no se deje clavar en la locura
como una mariposa
cuyo único destino
fuera morir libando el néctar de la noche.
.
Bendita la belleza que regresa
hasta el primer albor de la inocencia.
.
.
Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 33-34.
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Sabía que esos ojos albergaban
alfileres de fuego,
como una acupuntura milenaria
donde nace el rocío,
en los últimos racimos de las horas.
Maldita la belleza
que se viste de luz y nos confunde.
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Sabía que esos ojos encendían
mil cristales de sal
en la frontera misma de los labios,
devorando la carne y la inocencia
del corazón bilingue de la noche.
Maldita la belleza
que nos aturde con su terciopelo.
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Sabía que esos ojos conjuraban
exorcismos de lluvia,
aderezando las ansias de verano
con el compás abrupto de una nota
de saxo curvilíneo
en un cuerpo sin norte.
Maldita la belleza
que nos embarga el alma y la extravía.
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Sabía que esos ojos restallaban
un castigo de látigos sin sangre.
La afrenta poderosa de los dedos,
del que dejó su rostro en el camino
y se puso la máscara
lasciva de la fiesta.
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Maldito todo pulso
que no se deje clavar en la locura
como una mariposa
cuyo único destino
fuera morir libando el néctar de la noche.
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Bendita la belleza que regresa
hasta el primer albor de la inocencia.
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Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 33-34.
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| Sessão no Salón de Actos del BBVA em Valladolid, 28 de outubro de 2017. |
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Alguns meses mais tarde, o rei escreve ao seu antigo conselheiro num tom menos caloroso para o atrair à Corte e parece que lhe fez também propostas financeiras. Mas se Montaigne está pouco disposto a servir, está menos disposto a que pensem que se vende. Orgulhosamente, escreve ao rei: "Eu nunca recebi quaisquer vantagens materiais dos reis, muito menos recompensas que nunca pretendi nem mereci e muito menos ainda qualquer pagamento pelos passos que dei ao serviço de Vossa Majestade... Eu sou, Sir, tão rico quanto o desejo." Sabe que teve êxito naquilo que Platão disse uma vez, que não há nada mais difícil no mundo do que deixar a vida pública de mãos limpas. É com orgulho que faz o balanço da sua vida (...)
Pouco tempo antes da morte, os mais altos dignitários convidaram-no, o que ele não deseja nem espera. Quando se sente velho, quando é apenas um reflexo, uma sombra de si próprio, foi-lhe dado o que não esperava há muito, um raio de ternura e de amor. Ele dizia com melancolia que talvez só o amor o pudesse ainda despertar.
E eis que o inacreditável acontece. Uma jovem, Marie de Gournay, um pouco mais velha do que a mais nova das suas filhas que ele acaba de casar, pertencente a uma das melhores famílias de França, apaixona-se pelos livros de Montaigne. Ela ama-o, idolatra-o, encontra nele o seu ideal. Em que medida este amor não era somente dirigido ao escritor, mas também ao homem, eis o que é difícil concluir, como sempre acontece em casos semelhantes. Mas Montaigne vai muitas vezes encontrá-la, está meses junto dela, no castelo da família, nos arredores de Paris, a sua "filha de aliança". Confia-lhe a mais preciosa herança: a publicação dos Ensaios, depois da sua morte.
E agora só lhe falta conhecer uma última coisa, a morte, ele que estudou a vida e experimentou de tudo. Morreu sabiamente como tinha vivido. O seu amigo Pedro de Brach escreve a Antony Bacon dizendo que o senhor de Montaigne - aquele que foi o espírito mais completo que jamais existiu - "teve uma morte serena, depois de uma vida feliz" (....)
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. Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 90-91.
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domingo, 29 de abril de 2018
Sempre e em qualquer lado, Montaigne procurou a liberdade e a renovação, mas a família também ela é uma prisão, o casamento uma monotonia e além disso, tem-se a perceção de que não foi plenamente feliz na sua vida familiar. "O casamento" pensa ele, "tem em si legitimidade, utilidade, estabilidade e honra: é algo de trivial e de universal." Ora Montaigne é o homem da mudança, ele nunca amou os prazeres comuns universais.
De formas diversas, repetiu que o seu casamento não foi uma união de amor mas de conveniência e, na sua opinião, este tipo de união é a correta, precisando que apenas se sujeitou a um "hábito" (...).
Depois das suas experiências com Xantipa, Sócrates não podia falar de casamento da maneira mais crítica: "Não dês importância aos seus olhos com lágrimas" nem à sua voz piedosa. Parece que estamos a ouvi-lo dizer à própria mulher, no momento da despedida: "Uma mulher não deve ter os olhos tão avidamente fixados no marido que não possa suportar vê-lo virar as costas." Quando, por acaso, evoca um bom casamento, apressa-se a acrescentar a restrição: "Se é que os há!"
Vê-se que os dez anos de solidão foram agradáveis mas agora já chega, é até demasiado. Montaigne parece estar entorpecido, ter-se tornado mais magro e mais pequeno e, se alguém lutou toda a vida contra a imobilidade foi ele, por certo. Com aquele instinto que sempre dita ao homem criativo quando deve mudar de vida, reconhece que esse momento chegou: "O melhor tempo de abandonar a família é quando se tiver feito tudo para que continue sem nós. " (...)
Um novo período começa. A 22 de junho de 1580, depois de um retiro voluntário de dez anos - Montaigne nunca fez outra coisa senão a sua livre vontade -, aos quarenta e oito anos parte para uma viagem que o afastará, durante quase dois anos, da família, da torre, da pátria e do trabalho mas reaproximá-lo-á de si próprio.
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Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 73-74.
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sexta-feira, 27 de abril de 2018
O ambiente político está de novo agitado. Uma vez mais, os protestantes pegam em armas e aproxima-se a noite de S. Bartolomeu. Como o seu amigo La Boétie, Montaigne concebe a sua atividade política como um exercício de conciliação e de tolerância. O seu temperamento faz dele o mediador nato entre as partes e a sua verdadeira atuação na vida pública consiste em negociar acordos. A França deve ser huguenote ou católica? (...) Montaigne é o inimigo declarado de qualquer responsabilidade. Quer sempre escapar a decisões. Sábio numa época de fanatismo, procura a solidão e a fuga. Aos trinta e oito anos Montaigne afasta-se. Não quer servir ninguém a não ser a si próprio. Está cansado da política, da vida pública e dos negócios. É um momento de desilusão. (...) Montaigne não toma atitudes repentinas e que chamem a atenção. Não protesta nem intriga. Quem é ele, na verdade? Tem a impressão de que a sua vida, até àquele momento, foi falsa e agora quer viver de acordo com a verdade e meditar. É nos livros que espera encontrar a solução para o problema "da vida e da morte".
(...) Este adeus deve ser, para ele, mais do que um adeus aos cargos. É uma despedida do mundo. Até então, viveu para os outros, a partir deste momento quer viver para si próprio. Até ao presente, cumpriu o que o seu cargo, a corte e o pai exigiam dele, agora quer fazer só o que lhe der prazer. Depois de acumular experiências é o momento de lhes encontrar o significado e ir ao essencial.
Michel de Montaigne viveu trinta e oito anos, agora quer saber quem é, realmente, Michel de Montaigne.
(...) O que procura é o seu eu que não pode estar submetido ao estado, à família, ao tempo, às circunstâncias, ao dinheiro, à propriedade; a este eu, a que Goethe chama a sua "cidadela" e a que Montaigne proíbe o acesso a quem quer que seja. Está decidido a refugiar-se neste canto isolado, assim como a afastar-se da antiga comunidade, dos filhos e dos burgueses.
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Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 41-43.
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quarta-feira, 25 de abril de 2018
(...) si le déprimé se dérobe au langage, s'il considère le langage comme banal ou faux, comment pourrons-nous entrer en contact avec sa douleur par la parole (puisque c'est avec la parole qu'opère le psychanalyste)? J'insiste alors sur l'importance de la voix, ou d'autres signes, différents du langage quoique toujours transmis par le langage, qui peuvent devenir notre médiation vers le déprimé. Enfin, il me semble important de montrer aussi combien cet endolori souvent muet qu'est le déprimé est un affectif secret, un passionné sournois ou incompris. La mélancolie serait, en somme, une perversion innommable, blanche. A nous de la conduire aux mots... et à la vie.
(...) le monde moderne - bouleversé, chaotique, saturé de violence et de criminalité - nous le présente quotidiennement. (...) La culture apparaît donc comme un bien précieux, mais combien fugace. Le mélancolique qui refuse la vie parce qu'il a perdu le sens de la vie nous oblige alors à chercher les moyens pour retrouver le sens: entre nous, pour lui, mais aussi pour une civilisation tout entière.Le premier mélancolique grec, Bellérophon, apparaît dans l'Iliade: désespéré, il se consume de tristesse et, abandonné des dieux, ne cesse d'errer en évitant les hommes. Hippocrate, dans sa théorie des humeurs, attribue la mélancolie à la bile noire. Le texte le plus important de l'Antiquité grecque sur le sujet me paraît étre Probleme 30, 1 du pseudo Aristote.
Il extrait la mélancolie de la pathologie et la voit plutôt comme un état limite de la nature humaine, comme une crise "naturelle" si on veut, révélatrice par conséquent de la vérité de l'être. Le mélancolique serait donc l'homme de génie. Cette conception fascine les philosophes modernes, bien entendu. (...) La dépression est, en somme, au seuil de la créativité. Mais une dépression nommée et, par là même, traversée. (...) En Europe, aux XV et XVI siècles, apparaissent, par exemple chez les poètes, la Dame Mélancolie, et, chez les protestants, une recrudescence du thème mélancolique.(...) La France semble échapper au mal de l'Europe. Je considère en fait que, d'une façon générale, la culture française, au cours de son développement historique, a dépassé, ou peut-être simplement recouvert, le mouvement mélancolique par l'érotisme et par la rhétorique, Grâce à Sade et grâce à Bossuet.
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Kristeva, Julia. Les Abîmes De L'Âme, In magazine littéraire, Octobre - Novembre 2005, Nº 8, pp 26-28.
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sábado, 21 de abril de 2018
Effectivement, le terme recouvre des réalités fort différentes.(...) qu'on peut distinguer trois significations attachées au mot "mélancolie". D'une part, pour la psychiatrie, c'est une affection grave qui se manifeste par un ralentissement psychique, idéatoire et moteur, par une extinction du goût pour la vie, du désir et de la parole, par l'arrêt de toute activité et par l'attrait irrésistible du suicide. Par ailleurs, il existe une forme plus lègère de cet abattement, qui (comme la première d'ailleurs) alterne souvent avec des états d'excitation, forme dépendante d'états névrotiques et qu'on appelle une dépression. Les psychanalystes ont le plus souvent affaire à la dépression. Enfin, pour le sens commun, pour une opinion diffuse, serait mélancolie un "vague à l'âme", un spleen , une nostalgie, dont on recueille les échos dans l'art et la littérature et qui, tout en étant un malaise, revêt l'aspect souvent sublime d'une beauté. Je rappelle dans mon livre ( Soleil noir, dépression et mélancolie, Gallimard Folio, 1989) que le beau est né dans le pays de la mélancolie, qu'il est une harmonie par-delà le désespoir.
(...) Mon point de départ est clinique. Tout en tenant compte des observations psychiatriques, je suis très attentive à l'héritage de Freud, d'Abraham, de Klein. Dans Deuil et Mélancolie (1917), on le sait, Freud établit une équivalence entre la mélancolie et l'expérience du deuil: il y a, dans les deux cas, une perte irrémédiable de l'objet aimé - mais aussi secrètement hai -, une impossibilité de traverser cette perte.(...)
(...) distingué les différences entre mélancolie et dépression, je considère qu'il est toutefois possible de parler d'un "ensemble mélancolico-dépressif". Pourquoi? Parce que, par-delà des différences qu'il ne s'agit pas de gommer, on retrouve au moins deux particularités communes. D'une part, le désinvestissement des liens, la coupure des relations. (...) D'autre part, la dévalorisation du langage. Le discours déprimé peut être monotone ou agité, mais la personne qui le tient donne toujours l'impression de ne pas y croire, de ne pas l'habitter, de se tenir hors langage, dans la crypte secrète de sa douleur sans parole. Cet intérêt pour la parole dépressive me semble être mon apport personnel à l'écoute et au traitement psychanalytique de la dépression.
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Kristeva, Julia. Les Abîmes De l'Âme, In magazine littéraire, Octobre-Novembre 2005, Nº 8, pp 24-26.
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quinta-feira, 19 de abril de 2018
O Anjo de Música
I
Quando ficarei eu, por fim, sempre contigo?
Faz já tantos anos que pairas
sobre o mar, sobre mim, debaixo dos céus.
Mas sempre te oiço ao longe, como música.
Hoje esperava-te aqui, junto à rebentação das ondas.
Apercebi-me de um aroma de algas assombrosas
e de um crepitar de conchas na brisa,
mas não te transformaste em Vénus a irromper,
Em outros dias volto as costas ao mar,
percorro os trilhos insondáveis do bosque,
e então, ao longe, brilhas, esvoaças.
Numa qualquer noite haveremos de nos encontrar.
Não sei se neste ou em qualquer outro mundo.
Terás a voz trémula, o pescoço branco,
e o mar, na penumbra, cheirará a flor de laranjeira.
Sonhamo-nos à distância para nos amarmos
e apenas nos amamos sonhando-nos.
Virá a noite em que beijarei este mistério.
Quando não te chamo, vens; se te chamo,
tudo fica noite a ferver em meu cérebro.
Quando serás, finalmente, música alcançada,
milagre de uma luz que se fez humana?
Julgas necessário condenar-te e condenar-me
a ser apenas uma mera música de luz?
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Colinas, Antonio. El río de sombra - Treinta y cinco años de poesía, 1967-2002. Madrid: Visor Libros, 2004, pp 468-469 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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terça-feira, 17 de abril de 2018
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A uma extinta
À medida que o Dante prosseguia
Do paraíso na escensão gloriosa,
Mais e mais peregrina e mais formosa
Via Beatriz - a sua doce guia!
Eu - ai de mim!- ao passo que na via
Que vou seguindo, escura e dolorosa,
Me interno mais, e tanto mais saudosa
A tua imagem santa me irradia.
Como um perfume persistente e brando
Vai-me a tua memória acompanhando
No fatigante e sinuoso trilho...
E em cada dia mais que me decorre
Essa recordação, que nunca morre,
Me reverbera mais celeste brilho!
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Serpa, Filomena. Poesia. Angra do Heroísmo: Instituto Açoreano de Cultura, 2017, p 108 (recolha de Carlos Enes).
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