domingo, 25 de dezembro de 2016


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 Prometi. Regressaria a Madrid depois da vernissage. Passaria a gerir a empresa familiar. Tudo o que eles quisessem.
   No regresso, não quis contar a Michel aquela farsa, nem sequer lhe disse que daí em diante deixaria de ter problemas económicos. Não me movia qualquer vontade de ocultação. Mas a minha ausência durante as duas semanas que passei em Madrid tinha abalado fortemente a nossa relação, e imaginei que, se soubesse que eu já não estava economicamente dependente dele, Michel daria por certo que o abandonaria em breve. Esta ideia obcecava-o desde o momento em que lhe anunciara a minha viagem. Resmungava constantemente: eu sei como as coisas são. Achas que não percebo? Percebo, pois. Não é a primeira vez que isto me acontece.
   Disse para comigo que ele se iria apercebendo a pouco e pouco da questão do dinheiro e que depois haveria tempo para lhe explicar tudo com calma. A nossa despedida na gare de Austerlitz tinha sido patética: copos na buvette, olhos lacrimejantes e vermelhos, lábios húmidos, um adejar de escuros presságios. Parado junto à linha, cada vez mais diminuto à medida que o comboio ganhava velocidade, Michel pareceu-me envelhecido. Foi a primeira aparição de um Michel inseguro e trágico que tantas vezes voltaria a ver ao longo dos meses seguintes. E, possivelmente, foi também a primeira vez que me detive a pensar no facto de que vivia com um homem quase trinta anos mais velho do que eu. Je sais bien que tu ne vas pas revenir..
   Escondi entre os meus utensílios de pintor o novo livro de cheques do Banco Santander que tinha trazido de Madrid. Depositava na caixa comum em que guardávamos o dinheiro pequenas quantias que extraía dessa conta, o que me permitia comprar, cada vez com menos discrição, materiais de trabalho. Começava a ser-me indiferente que ele descobrisse a minha nova situação económica, posso até dizer que essa segurança me tornava mais afetuoso (...). Michel não compreendia que eu, podendo mudar-me, preferisse continuar a viver com ele. Eu fazia os possíveis para vencer as dúvidas que, causadas pela desconfiança dele, me assaltavam com frequência. Ocorria-me, sim, que podia viver de outra forma e libertar-me de uma situação de pobreza que me parecia cada vez mais artificial (...).
   Mas estava, ou queria estar, apaixonado por ele: que mais dá, que diferença faz, querida Jeanine? Nunca tencionei magoá-lo. Gostava de Michel. Desejava-o, as piadas dele faziam-me rir, atraía-me a carnalidade que emanava a cada movimento. Ao fim de algum tempo, já não sabia se o que sentia por ele era amor (que diabo é isso, ao certo?: à força de o analisarmos e dissecarmos acabamos por perdê-lo), mas sim,posso jurar que foi uma entrega  sem resistência, não porque não quisesse resistir, mas porque não pude. (...) Agradava-me a solidão entre aqueles móveis desengonçados. Era generosa a simples decisão de permanecer ali, quando podia muito bem mudar da casa. Foi assim. Durante alguns meses, pelo menos, foi assim.


  Chirbes, Rafael. Paris-Austerliz. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 74-76 (Tradução de Rui Pires Cabral).
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