segunda-feira, 27 de março de 2017


   Neste passo (W. 1982:815), Whitman compraz-se com o canto simples da cotovia, duas ou três notas soltas e alegres, avivando uma manhã no término do Inverno - tal como Eugénio aprecia a música do pisco, e abre a janela para melhor escutá-lo. Ao mesmo tempo, o escritor norte-americano admira o voo quase silencioso da ave, que vai saltitando de estaca em estaca, ao longo de uma vedação de madeira. Todo o texto realça a candura do pássaro e celebra a euforia de viver e de cantar, mesmo num dia frio. Esta entrada de diário enleia também pelo ar de registo rápido, captura de um momento que passaria despercebido a quem não tivesse uma sensibilidade poética e, portanto, atenta aos pequenos milagres do quotidiano. Coube ao acaso e ao talento de Whitman trazê-lo para o papel e, assim, imortalizar aquela manhã de dezasseis de Março de 1878.
   Outros aspectos ligam o texto de Eugénio a Whitman: por exemplo, logo na primeira frase do poema em prosa, surge uma referência a Peter Doyle. Para compreender capazmente o texto, o leitor deve saber quem foi este indivíduo e a importância que deteve na esfera afectiva de Whitman. O poeta norte-americano conheceu Doyle por mero acaso, numa noite fria de Dezembro de 1865. Regressava a casa, na linha Washington-Georgetown, quando entabulou conversa com o conductor do eléctrico, Doyle, na altura um jovem de dezoito anos. Whitman ficou de tal modo fascinado pelas suas ideias e beleza física que acabou por não se apear e, em vez disso, fez-lhe companhia na viagem de retorno à central dos transportes, em Anacostia (Oliver, 2006: 278-279).
   Aparentemente, os dois homens detinham poucos aspectos em comum: Whitman era uma figura já importante das letras norte-americanas, enquanto Doyle possuía uma educação básica; o bardo de Brooklyn tinha mais do dobro da idade do jovem; o primeiro era um pacifista, o segundo combatera no exército confederado, durante a sangrenta Guerra Civil (1861-1865), que opusera o Norte ao Sul esclavagista. Houve, por certo, desentendimentos e atritos entre ambos, como registaram os biógrafos: Whitman achava desagradável, por exemplo, que Doyle gostasse demasiado de mulheres, e entristecia-se por notar o pouco apreço que reservava à poesia (Oliver, 2006: 278-279).
   Contudo, dando razão à sabedoria popular - que afirma que "os opostos se atraem"-, estabeleceu-se entre ambos um sólido afecto, talvez de natureza homossexual (não há qualquer prova concreta disso). Por várias vezes, Doyle referiu-se ao bardo como "affectionate father and comrade", ao passo que Whitman o tratava por "beloved male friend", "darling son" ou ainda "the one I love" (Oliver, 2006: 278). Ao longo de vinte e sete anos, Doyle cuidou do seu companheiro, com desvelo, até à morte deste, em 1892, ficando para sempre associado à figura do poeta.


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 35-36.
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sábado, 25 de março de 2017


   Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, a literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa. Poderá um leitor culto contemplar um rouxinol sem evocar o seu canto melancólico em "Ode to a Nightingale" (1820), de John Keats (1795-1821)? Ou assistir ao esvoaçar sinistro de um corvo, e não pensar no poema "The Raven" (1845), o mais célebre de Edgar Allan Poe (1809-1849)? Ou deleitar-se com a majestosidade serena de um cisne e não tecer semelhanças com "The Wild Swans at Coole" (1919), do Prémio Nobel William Butler Yeats (1865-1949)?
   No texto "Com as Aves, desde Idanha", incluído em As Afluentes do Silêncio"  (1968), Eugénio de Andrade (1923-2005) partilha com o leitor a paixão pelos pássaros:
"Não admira que alguns dos mais belos poemas de sempre tenham sido escritos para aves. Dou exemplo: a cotovia de Shelley, o rouxinol de Keats, o corvo de Edgar Allan Poe, o albatroz de Baudelaire, os cisnes de Mallarmé e de Yeats, o melro de Stevens, o pardal de William Carlos Williams, Às vezes é só um verso que fica a pairar no nosso espírito, como esse chamamento do tordo através da névoa, do Eliot; ou o rumor de asas desses pássaros de Juan Ramón Jiménez, que "cantam e cantam" no mais invisível dos ramos; mas como enriquecem a nossa vida... (Andrade, 1997:190)"
   À galeria de autores mencionados poderia facilmente acrescentar-se o nome de Eugénio. Mais do que qualquer outro poeta português, este é o escritor das aves, "que tantas vezes fazem o ninho/ nos (...) versos" (Andrade, 2005: 538). Pela sua obra esvoaçam bandos de andorinhas, melros, cotovias, rouxinóis, gaivotas, etc. De ramo em ramo, de canto em canto, de poema em poema, estes pássaros personificam qualidades, muitas vezes nobres, e assumem diversos cambiantes de pureza e desejo (Ferraz, 2004: 21). O autor lê, na migração das aves, um reflexo da efemeridade (Andrade, 2005: 417, 523), ou um desafio à morte, pela renovação da natureza (Andrade, 2005: 76, 561) (...)
   O poeta de Póvoa de Atalaia serve-se destas aves para evocar, intertextualmente, pássaros idênticos, que cantam nos textos dos autores que estima e reconhece como influência literária.. (...)
   William Shakespeare constitui um autor incontornável não apenas da literatura isabelina, mas também das letras universais, graças ao seu génio e proficuidade. O poeta, dramaturgo e actor legou-nos três extensos poemas, com destaque para The Rape of Lucrece (1594); cento e cinquenta e quatro sonetos, entre os quais o célebre "Sonnet 18 (Shall I compare thee to a Summer's day?)", uma das mais belas composições de amor algum dia escritas; e trinta e oito peças, onde se incluem Romeo and Juliet (1594-5), Hamlet (1600-1) e The Tempest (c. 1611), populares tanto entre a elite como junto do vulgo.(...)
   A importância de Shakespeare e este seu apreço pelas aves não passariam despercebidos a um escritor culto como Eugénio (...)
   Trata-se de uma alusão óbvia à primeira grande tragédia de Shakespeare, conhecida em todas as culturas, acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os Capuletos e os Montagues. O passo em que a cotovia canta ocorre no final de primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta (...) Neste excerto da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite de amor dos apaixonados(...) Este afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação: "Some say the lark makes sweet division;/ This doth not so, for she divideth us" (Shakespeare, 2007: 717). (...)
   Trata-se de uma das mais célebres e melancólicas cenas de despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes que desejam permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir; e permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do adeus (Carey, 1997: 37).


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 15-20.
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sexta-feira, 24 de março de 2017


    Para Nussbaum, o que deverá ser sublinhado é a dimensão cognitiva da literatura (ao contrário da história que apenas procura relatar o que sucedeu), a abertura para novas possibilidades ontológicas que o dizer literário possibilita: "As Aristotle observed, it is deep, and conducive to our inquiry about how to live, because it does not simply (as history does) record that this or that event happened; it searches for patterns of possibility - of choice, and circumstance, and the interaction between choice and circumstance - that turn up in human lives with such a persistence that they must be regarded as our possibilities. And so our interest in literature becomes (...) cognitive: an interest in finding out (by seeing and feeling the otherwise perceiving) what possibilities (and tragic impossibilities) life offers to us, what hopes and fears for ourselves it underwrites or subverts" (Nussbaum, 1990: 171). ´É na terceira parte do seu ensaio que Nussbaum se detém com maior detalhe no conceito de "Perceptive Equilibrium". Reportando-se ao conceito de "reflective equilibrium", cunhado por John Rawls em A Theory of Justice, Nussbaum afirma que aqui estamos perante uma condição a que chegamos quando aplicamos um juízo intelectual de um modo consistente e desprovido de tensão (poderíamos afirmar em clave derridiana que aqui estamos a falar de lei e não de justiça); as condições que aqui estão em jogo prendem-se com os seus princípios, que deverão ser gerais na forma e universais na sua aplicação, públicos e disponíveis a todos; deverão impor um ordenamento geral nas reivindicações que se opõem, devendo ser encarados como finais e conclusivos.
   Um dos aspectos decisivos que marcará a argumentação de Nussbaum é a importância que a autora de The Fragility of Goodness concede às emoções - valorizando esta que percorrerá a sua obra como um basso continuo. Nussbaum manifestará a sua desconfiança perante o carácter assepticamente universalizante e abstracto que tal julgamento inevitavelment produz, procurando antes celebrar a relevância dos sentimentos e a centralidade da imersão contextual do hic et nunc particular da condição de cada sujeito (...)
   Justamente aquilo que a autora procurará defender é que, em muitos casos, as emoções poderão constituir um guia seguro para um juízo mais correcto, sendo que as formulações gerais e universais poderão ser inadequadas perante a complexidade de situações particulares, de tal modo que juízos particulares, imersos num contexto específico, poderão exibir um valor moral de que juízos com um pendor mais reflexivo ou geral se encontram destituídos. É nessa medida que a autora preconiza o 'perceptive equilibrium', corporizado pela personagem Strether, e que constitui uma resposta àquilo que é novo e que lida com os particulares da existência (...).
   A tematização deste conceito-chave permite-nos centrar a nossa atenção sobre a relação entre leitor e percepção moral. A trama narrativa de que se serve o romance, cultiva a nossa capacidade de contemplar e de valorizar a dimensão particular da existência, a invenção do absolutamente singular numa certa postura derridiana de paixão pela aporia do impossível (...). O romance, de acordo com o postulado de Nussbaum (e aqui a autora reporta-se a James), propicia uma imaginação vigilante e responsável ("responsive", com os seus ecos steinerianos) que diligentemente se detêm em cada singularidade irredutível.
   Também no Capítulo VI da sua obra mais recente - Not for Profit, Why Democracy Needs the Humanities, intitulado "Cultivating Imagination: Literature and the Arts", Nussbaum discute a importância daquilo a que chama imaginação narrativa (...). Nussbaum refere o caso do filósofo John Stuart Mill que, muito embora tendo tido uma extraordinária educação na sua infância, não tivera oportunidade de cultivar os seus recursos emocionais e imaginativos. Tendo sofrido uma depressão na sua vida adulta, Mill considerou que a sua recuperação se ficou a dever à influência exercida pela poesia de William Wordsworth; mais tarde, esclarece Nussbaum, Mill desenvolveu uma perspectiva daquilo a que chamou a "religião da humanidade", baseada no cultivo da simpatia que houvera deslindado através da sua experiência da poesia, Nussbaum chega a utilizar a formulação "empathetic imagination" (...). Cultivar a imaginação de acordo com a expressão de Nussbaum, tendo como horizonte último a amplificação de uma Poética da Obrigação - tal é. parece-me, uma das mais importantes lições que a reflexão de Nussbaum nos lega.


  Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 39-43.
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quinta-feira, 23 de março de 2017


   Um autor como Hans-Holger MalcomeB, em Primare Gestalt und Sckundarer Diskurs, Die Diskussion des Authentischen Ausgchend von George Steiner (2005), chega mesmo a falar de uma Kehre steineriana, de uma viragem que nos leva do pessimismo das obras iniciais, onde a visão solar da existência naufraga e o rumor dos deuses nos está abandonando, ao optimismo velado das obras mais tardias, onde a esperança espreita timidamente. De acordo com esta leitura, até ao período que abarca obras como In Bluebrard's Castle, The Death of Tragedy e Language and Silence, o pensamento de Steiner está aprisionado pelo espectro do silêncio e pela paradoxal conivência da alta cultura com a barbárie, observado-se a partir de 1985 (data da conferência "Real Presences", proferida na Universidade de Cambridge) uma viragem que nos leva do inumano, do silêncio e do niilismo à salvação pela arte que podemos descortinar em Real Presences O certo é que na obra steineriana se entrelaçam, a todo o momento, cintilantes esperanças e sombrios desassossegos, subsistindo uma dialéctica jamais resolvida entre sombra e luz, entre fragmento e totalidade, entre silêncio e palavra, entre a tragédia absoluta e uma difícil esperança. De resto, o importante ensaio "The Long Life of of the Mataphor: An Approach to the Shoah", publicado em 1987 e abordando a temática da ausência de Deus em Auschwitz, vem justamente contrariar a linear evolução cronológica defendida por MalcomeB. Por outro lado, a despeito da sua hermenêutica da confiança (imersa num logocentrismo que não é desprovido de alguns espinhos epistemológicos de que jamais se desembaraçará) a que, pretensamente, Steiner se renderá nas suas obras mais recentes, o facto é que mesmo a espera com que termina Real Presences está assombrada pela espera vazia que nos ameaça todos os instantes - um pouco à semelhança do que sucede em Waiting for Godot, de Beckett (obra que, aliás, é analisada por Steiner em diversas ocasiões).
   Um dos exemplos paradigmáticos de modo como a forma mentis de Steiner continua a ser pontuada por um cepticismo penetrante é aquilo a que o próprio chama "o paradoxo de Cordélia", a que me reportei na introdução. Trata-se de uma pungente contradição que, interessando-nos directamente para o que nos move com a presente investigação, foi tematizada por Steiner em Le Silence des Livres (2006) e em My Unwritten Books (2008), bem como em ensaios relevantes como o já mencionado "The Humanities - At Twilight?" (1999), "The Muses' Farewell" (2002) e "A New Literacy" (2007). Por exemplo, no ensaio "The Muses' Farewell" (2002:156). Steiner pondera a hipótese, provisória e inquietante, segundo a qual a capacidade de respondermos à abstracção e à ficção (de nelas nos concentrarmos intensamente) nos desvia da concretude dos inadiáveis apelos do real. Steiner concretiza: o lamento por Cordélia, a imersão num adágio de Mahler ou a contemplação de uma tela de Vermeer (...) pela intensidade que veiculam, diferem das reivindicações ásperas e da imperfeição que a práxis constantemente nos lança. Quanto mais pungentemente vulneráveis se mostram as nossas afinidades perante a grande arte (a música, a poesia ou metafísica), menos desperta se torna a nossa atenção em relação à carência humana e à barbárie política, mais embotados nos tornamos perante o mundo da acção por oposição ao mundo solipsista que os produtos da ficção edificam. O grito da rua, que mal nos chega aos ouvidos, pouco parece valer quando comparado com aquele que, Lear lança a Cordélia.
   De facto, este agudo paradoxo tem implicações ao nível da avaliação que podemos fazer da aposta steiriana no sentido do Sentido, na medida em que esta, embora profundamente pungente do ponto de vista especulativo, evidencia uma passividade que a debilita conceptualmente e que, dado que postula que "a cortina está corrida entre o leitor e o mundo" (Steiner, 1996:22), não permite que o mundo da leitura penetre no mundo da acção, assim se desvanecendo o radical horizonte ético com que Steiner encetou a sua hermenêutica do pós-holocausto.


   Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 29-31.
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quarta-feira, 22 de março de 2017


   "Réponds-moi", lui ai-je dit. Elle a lancé un nuage de fumée.
   - Tu me poses une question difficile, je vais te faire une réponse difficile: fais tes bagages et pars.
   - Partir, partir où? En quelque lieu étranger où je ne le verrai jamais? Non, je ne veux pas; alors, tout le monde, pas seulement les domestiques, se moquerait de moi.
   C'est pas de toi qu'on se moquerait, si tu partais; c'est de lui.
   - Je ne veux pas faire cela.
   - Pourquoi me demandes-tu, si quand je te réponds, tu dis non? Pourquoi es-tu venue jusqu'íci, si quand je te dis la vérité, tu dis non?
   - Mais il doit y avoir quelque chose d'autre que je puisse faire.
   Elle s'est rembrunie.
   - Quand un homme t'aime pas, plus tu cours après, plus il te déteste, l'homme est comme ça. Si tu les aimes, ils te traitent mal; si tu les aimes pas, ils sont après toi nuit et jour à te bassiner avec leur amour. J'ai entendu parler de toi et de ton mari, a-t-elle ajouté.
   - Mais je ne peux pas partir. C'est mon mari après tout.
   Elle a craché par-dessus son épaule.
   - Toutes les femmes, de toutes couleurs, c'est rien que des imbéciles. Trois enfants, moi, j'ai eu. Un en vie ici-bas, chacun d'un père différent, mais pas de mari. Dieu merci! Moi, je garde mon argent. Je le donne pas à chacun vaurien d'homme,
   - Quand dois-je partir? Où dois-je aller?
   - Mais c'est un monde! Une jeune Blanche riche comme t'es et plus sotte que toutes les autres! Un homme te traite pas bien, relève ta jupe et sors. Fais-le et il te court après.


  Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 134-135 ( Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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segunda-feira, 20 de março de 2017



   L'éveillerai-je pour entendre les choses qu'elle me dit, me murmure dans l'obscurité. Pas durant le jour.
   - Je n'avais jamais le désir de vivre avant de vous connaître. Je pensais toujours qu'il serait préférable que je meure. Avoir si longtemps à attendre avant que ça finisse!
   - Et avez-vous jamais dit cela à quelqu'un?
   - Il n'y avait personne à qui le dire, personne pour m'écouter. Ah! vous ne pouvez vous faire une idée de Coulibri!
   - Mais après Coulibri?
   - Après Coulibri, c'était trop tard. Je n'ai pas changé.
   Toute la journée elle était comme toute autre jeune femme, se souriait dans son miroir (Aimez-vous ce parfum?), essayait de m'apprendre ses chansons, car elles me hantaient.
(...) Il lui arrivait souvent d'être silencieuse, ou irritée sans motif, et elle bavardait avec Christiphine en patois.
   Je lui disais:
   - Pourquois serrez-vous dans vos bras et embrassez-vous Christophine?
   - Pouquoi pas?
   - Moi, je ne serrerais pas dans mes bras ni n'embrasserais des nègres. Je ne le pourrais pas.
   De cela elle riait longuement, sans jamais me dire pourquoi elle riait.
   Mais la nuit, combien elle était différente! Même sa voix était changée. Toujours à parler de mort. (Essaie-t-elle de me dire que c'est cela, le secret de cet endroit? Qu'il n'y a pas d'autre issue? Elle sait. Elle sait.)
   - Pourquoi m'avez-vous rendue désireuse de vivre? Pourquoi m'avez-vous fait cela?
   - Parce que je le désirais. N'est-ce pas une raison suffisante?
   - Si, c'en est une. Mais si, un jour, vous ne le désires plus. Qu'est-ce que je deviendrais, alors? Supposez que vous me retiriez ce bonheur pendant que j'ai le dos tourné...
   - Et que je perde le mien? Qui serait à ce point stupide?
   - Je n'ai pas l'habitude de bonheur, dit-elle. Il me fait peur...
   - N'ayez jamais peur. Ou, si vous avez peur, ne le dites à personne.


   Rhys, Jean. La prisonnière des sargasses. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 110-112 (Traduit de l'anglais par Yvonne Davet).
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domingo, 19 de março de 2017


              "Os cantos ao dicionário"


Revolvi os cantos ao dicionário: só cotão e pó
as palavras largam sempre tanto lixo...

Procurava uma palavra que te desse...
guardara-a para ti, quando viesses,
mas não sei já onde a pousei    talvez
entre uma metáfora
morta    e um oxímoro gasto, muito velho,
dizendo qualquer coisa como esta: "a palavra
que mais diz é aquela que calamos
no silêncio", ou outra coisa, até, mais banal ainda.

Da metáfora, não encontrei nem sobras,
devo tê-la perdido, por aí, no discurso vulgar do dia a dia.

Acontece-me, acontece-me muito, esquecer-me de palavras
no fundo da carteira,
desfeitas entre bilhetes de metro,    sob o peso dos dias,
das chaves do carro.

Passo tanto tempo a perder palavras como o tempo que gasto em procurá-las.
Depois... o cansaço de as inventar de novo, de as soletrar de novo,
tropeçando em consoantes    nas vogais...

Tão difícil, voltar a dizer as palavras que perdemos.
Mentindo-lhes sentidos novamente...

Por isso percorria à pressa o dicionário, hoje
para procurar uma outra palavra que te desse,
ainda antes que chegasses... de manhã.

A palavra que te queria dar, perdia-a,
não há tempo agora de a reescrever assim à pressa...
manhã alta, já, deves estar mesmo aí, a aparecer...

Revolvi o dicionário: tanto pó na esquina das palavras.
Sempre tudo em desalinho, nem uma sílaba consigo ter em seu lugar.
Trago a língua tão desarrumada, tanto desleixo, sempre tudo tão sem jeito
E tu, aí, quase à beira de chegar.

Tirei uma mão cheia de palavras ao acaso
concha, lago, ternura, um pedaço arrancado à bruta da palavra amor.

Mas tu chegaste-me, entretanto, com um perfeito ramo de frases feitas
fingiste até nem reparar na confusão e
deitámo-nos assim mesmo na minha palavra ainda    por dizer.


 Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: Abysmo, 2016, pp 36-37.
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quarta-feira, 15 de março de 2017


           Fechado para balanço"


Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Duarte, Rita Taborda. Roturas e ligamentos. Lisboa: abysmo, 2016, pp 22-23.
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terça-feira, 14 de março de 2017



hoje todos os homens primeiro
que as mulheres chegaram a casa

Não há nada que faça acariciar um
homem outro nos cabelos, nem a
morte do filho, a partida para a guerra

é tão dura, rija firme a educação
que a ternura nos homens dá sopapos
pontapés, palmadas fortes nas costas

só no futebol perante milhões
os homens têm coragem de afagar-se

estou frente ao écran em busca
de emoções, dez homens
acariciam um deles nos cabelos

só por isto vale a pena o futebol
o golo.


   Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p 54.
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         "Liberdades"


Temos liberdade para comprar
com um quarto de ordenado
um pequeno saco de comida

Também podemos reunir
há liberdade, para procurar
salas por toda esta cidade
e desistir

Temos liberdade de escrever
e os jornais nas mãos
de quem não quer saber

Também falar se pode
porque não cantar, dizer poesia
mas a rádio, a televisão
estão nas mãos de quem

Temos liberdade de aprender e ler
mas um livro custa mais
que um dia de salário

Temos tantas, tantas liberdades
mas os muros cercam-nos
e crescem de silêncio armado.


  Chinita, Ivone. Outra versão da casa. Lisboa: Edições Base, 1980, p  57.
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Nota - este livro de Ivone Chinta apresenta um tipo de Poesia, que, herdeira direta do neo-realismo, surgia já nos últimos tempos da Ditadura, mas granjeou  depois enorme destaque sobretudo na década de 70: uma escrita cuja tónica era colocada no sentido e cujo olhar - irónico e denunciatório - era colocado no sócio-económico e no cultural. Este livro estrutura-se em torno do sentir de um eu-poético, que, pelos condicionalismos focados, desembocará  na frustração e no desencanto do que afinal não aconteceu. Convém acrescentar que este tipo de poesia, que, na minha opinião, teve o seu ponto alto em José Gomes Ferreira, José Carlos Ary dos Santos e Daniel Filipe, sofreu igualmente incursões poéticas de outros poetas, que depois enveredaram por outras linhas estéticas, é o caso de Natália Correia e de Sophia de Melo Breyner.
Postaremos aqui dois poemas em que se mostra e denuncia a hipocrisia do conceito vigente de liberdade, bem como o modo como a educação e a aprendizagem inculcam nos homens (e não nas mulheres!) o medo de expressar as emoções e os afetos para com os seus iguais.
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segunda-feira, 13 de março de 2017



                      "Destino"


Não tive a má intenção de te prender
à minha vida. A música, o álcool,
todo o ouropel da noite, eu só quis
sossegar por algum tempo a dúvida

que me castigava, antes que a manhã
chegasse e a aranha do remorso
descesse pelo seu alimento à mesa
do pequeno-almoço. Batemos

à mesma porta e chamaste destino
ao acaso. Zelava por nós, entre
as eléctricas estrelas, o pequeno deus
do amor? Era o que trazia ao peito

a divisa da derrota universal? Como vês,
foi sempre outra, e inútil, a minha
fá - mas perdoa, se puderes, o pouco
que soube fazer pela solidão dos dois.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 212.
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domingo, 12 de março de 2017


No próximo dia 15 (quarta feira), pelas 19:30, na prestigiada sala "Corral de Comedias" de Alcalá de Henares poderá assistir à sessão "La voz más cercana: Portugal" integralmente dedicada à Poesia Portuguesa Contemporânea.

Dramaturgia: Aitana Sar, Clara Santafé e Ines Sánchez
Piano: Francisco Recuero
Voz: Verónica Aranda

Serão lidos poemas de: Albano Martins, Catarina Nunes de Almeida, Daniel Faria, Graça Pires, José Luís Peixoto, Maria Teresa Horta, Ruy Ventura, Sophia de Mello Breyner e Victor Oliveira Mateus.
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      "Amigos Perdidos"


Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 132.
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sábado, 11 de março de 2017


               "No Terreno"


Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.

Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.

Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.


  Cabral, Rui Pires. Morada. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 55.
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sábado, 4 de março de 2017



    "Uma canção debaixo do dilúvio"


Ocupam-nos com a sua feroz solidão
e conhecemos o seu cheiro, o consumo difuso,
o visível de ambos os lados

Diante deles não é possível dissimular
a ironia ou a piedade

Esperam por nós entre diversas combinações
à superfície e para além disso

Um amigo é uma machine à habiter
o vento pré-histórico das montanhas geladas

Talvez pertençam a outros mundos
pois nos abraçamos sempre como sobreviventes

Com eles podemos arrancar uma canção
debaixo do dilúvio


  Mendonça, José Tolentino. Estação Central. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 48.
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  "Escrito num Livro de Horas"


Enquanto nas cidades costeiras
o coro trágico da posteridade
aspira o ar
como funcionário que se prepara
para as tarefas do dia
avisto os teus olhos

Os teus olhos deveriam ter nascido em épocas diferentes
em mundos diferentes
não neste lugar panorâmico e incurável
onde os sentidos são
repetidamente censurados
nestes barrancos áridos
para que o tempo passe
com todas as armas da culpa

No salva-vidas enquanto o meu navio se afunda
os teus olhos
dos quais nunca me poderia defender
erguem-se num louvor
capaz de ensurdecer para sempre
os que duvidam


  Mendonça, José Tolentino. Estação Central. Porto: Assírio & Alvim, 2015, pp 32-33.
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sexta-feira, 3 de março de 2017


                      "Insectos"


Parai por algum tempo, olhai, pensai,
aproximai-vos do mundo dos insectos, vidas cheias de vida
mínima, vibráteis, brevíssimas nas suas águas,
sugadoras de sonhos,
das pálpebras dramáticas das rosas,
exércitos levíssimos do ar e carrascos invisíveis
da beleza brutal dos filhos da terra
dos gigantes.

A idade humana sempre foi uma cabeça relativa,
dona de sombras e de circunstâncias.
A idade da água foi de todas a mais soberana,
foi ela quem criou a música do infinito,
soltando o seu silêncio,
compacto, contra a ruidosa torre científica.

Sacudindo as suas asas transparentes,
o seu dorso de lumes invisíveis,
o insecto cumpre totalmente o seu destino.
É mais brutal que o vómito do fogo,
que o rebentar das águas da que vai parir longe,
antiga e montanhosa.
O insecto é o mais cruel brinquedo
nas mãos minúsculas
de deus.


  Carvalho, Armando Silva. A Sombra do Mar. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p 86.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Entrevista publicada na "Revista Caliban" no dia 1 de março de 2017.
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.O Poeta e crítico Victor Oliveira Mateus esteve à conversa connosco. Com uma obra prolífica que se reparte entre a poesia e a crítica, a tradução e a edição de poesia, Victor Oliveira Mateus não gosta da luz dos holofotes.

Foste sempre uma figura discreta do panorama literário português, mas isso não condiz com a tua intensa actividade ligada à literatura. Além de poeta, és editor, tradutor e ensaísta. A luz incomoda-te?
Penso que a forma de pisar o palco, de estarmos perante o olhar de um outro que nos é estranho, exige dadas aptidões práticas e sociais que eu não possuo e que pouco me tenho esforçado por adquirir. Estas aptidões têm, nos dias de hoje, com todo o culto da mediatização e das aparências, uma extrema importância enquanto elementos facilitadores da perceção e da memorização. Estas competências vão desde a forma de olhar e de insinuar o corpo às preocupações com as diversas combinatórias na arte do vestir, do pentear, etc. Tudo isto é, nos dias de hoje, extremamente importante cultivar como estímulo aos juízos que sobre nós necessariamente irão ser formulados. Ora, eu não possuo estas capacidades e inquietações, daí que a luz que tu referiste me surja, muitas vezes, como elemento intimidatório: essa luz é o que me fixa, o que me julga, o que me invade, de certo modo tem a ver com a Lei do Pai de Lacan e a ela costumo eu contrapor um mecanismo defensivo assumidamente uterino: a casa, os pequenos grupos de amigos, etc. No entanto, penso que a luz que referes apresenta-se-me também como uma instância paradoxal, pois se ela é o que intimida, é igualmente o que fascina e atrai. A mediação entre os dois territórios é suscetível de ser feita através do hábito ou da habituação — exemplo: quando em 2015 me vi em Espanha em cima de um palco de um teatro cheio de escritores, a primeira resposta pensada foi a da fuga, porém, a habituação à situação acabou por me conduzir a uma normalização agradável. Estas características da minha personalidade correm geralmente o risco de serem mal interpretadas, de serem mesmo tidas como comportamentos ostentosos ou até de soberba, quando na realidade não é nada disso o que se passa.
Vens da filosofia para a literatura, isso parece ser um destino de uma boa parte dos nossos poetas contemporâneos. Como vives essa relação com a filosofia na poesia? Como achas que ela influencia (ou não) o teu trabalho?
Apesar de muitos de nós termos passado anos, ou décadas, a analisar e ensinar autores como Parménides e Lucrécio, não creio — hoje — ser possível fazer-se filosofia através da poesia, mas isso levar-nos-ia a uma grande discussão, todavia, é passível de ser encontrada toda uma linhagem de poetas cuja obra está eivada de questões de cariz antropológico, existencial, teológico e metafísico. É, como sabes, uma linha com a qual me identifico: uma poesia que sem descurar o ritmo, a musicalidade e os aspetos estilísticos inerentes à estrutura poemática abre para as grandes questões de tipo especulativo. Portanto, e respondendo à tua questão, penso que me insiro exatamente nessa zona, o que não quer dizer que não reconheça imensa qualidade noutras formas de fazer poesia, bem como em alguns dos seus cultores. Se talvez possuo uma certa coerência de estilo e de preocupações, isso não abrange o meu modo de gostar e valorar o trabalho alheio. Para quem vem da filosofia não é difícil essa operação de abstração através da qual, por uma cisão no seio eu, o que nele é em-si se distancia de um eu-outro que observa e vivencia o diferente, isto é, não é difícil uma clivagem que torne possível uma dada instalação em paradigmas teórico-estilísticos distintos e de olhar e valorar através deles. Jamais me senti enfeudado em algum tipo de fanatismo de gosto ou em algum dogmatismo de crenças. O que eu vejo e o que eu faço não passam de uma parte da verdade e do possível, sendo estes bem mais extensos, intensos e abrangentes do que aquilo de que as minhas limitações são capazes. Creio que, pelo menos nestes tópicos, a filosofia tem influenciado o meu trabalho, sobretudo como antologista e coordenador de publicações.
Gostava que falasses dessa parte do teu trabalho (a meu ver notável) de coordenador de uma coleccção numa Editora pequena, com um publicação para dar a conhecer autores menos divulgados, mas combinando com outros já conhecidos. Refiro-me aos vários números da “contramaré”, mas também me refiro a essa nova Revista que está a nascer e que coordenas. É um labor que exige muita paciência. Que balanço fazes?
O projeto da coleção “contramaré” despontou durante uma conversa que tive com o editor da “Labirinto”, Dr. João Pinto, e ao qual associámos de imediato o Daniel Gonçalves. O primeiro problema que se me colocou foi o de como fazer sobreviver uma coleção coordenada por alguém, que, como expliquei anteriormente, é falho na arte do panegírico e expedito na da reclusão. Isso assustou-me! Estive sempre habituado a publicitar e a escrever sobre outros, mas agora tratava-se de falar do meu trabalho. Tivemos, contudo, a sorte de ter tido, de imediato, um forte apoio de vários autores no Facebook, que se encarregavam dessa mediatização. De qualquer modo, continuo a pensar que é uma coleção ainda injustiçada: os livros do Rui Almeida, do Amadeu Baptista, do Letria, da Cecília Barreira, e só para falar dos autores mais conhecidos, são excelentes livros de poesia, a poesia do Rui Rocha — autor sobre quem escreveu Yvette Centeno, José Carlos Seabra Pereira e eu próprio — não teve a receção merecida, aliás, o mesmo sucedendo com Maria José Quintela, autora de uma escrita de rara beleza e de uma qualidade e profundeza inexcedíveis. Mas talvez a sementeira exija mais tempo e esperas menos ansiosas, pois o livro da Cláudia Lucas Chéu conseguiu já infundir alguma expectativa sobre a coleção. É, de qualquer maneira, um trabalho que tem exigido muitas horas de esforço a mim e ao Daniel, que, por sua vez, tem tido um enorme bom gosto em tudo o que se relaciona com a paginação e o design dos livros. Como será fácil adivinhar a “lista de espera” é farta, mas terá de suportar as disponibilidades de ambos, embora possa avançar que faremos sair ainda este ano dois livros que me deixaram muito feliz depois de os ler: um do Adalberto Alves e outro, bilingue, de um poeta e académico espanhol. Esperemos que o olhar sobre a “contramaré” venha a corresponder à dimensão do esforço nela envolvido, bem como à qualidade de todos estes autores.
No que diz respeito à Revista que referes, ela surge na sequência de umas Antologias de poesia que a Editora Labirinto todos os anos publicava por altura do Dia Mundial da Poesia- A certa altura percebemos (o João Artur, eu e o Daniel) que a permanência e a periodicidade dessas Antologias justificava uma publicação de outro tipo e assim surgiu a “Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio”, que terá este ano o seu segundo número. É importante referir o que estas Antologias — e agora a Revista — devem a todos os poetas e ensaístas que nos cederam os seus textos. Claro que nós podemos ter despendido imensas horas de trabalho, mas sem os textos dos colaboradores nada disto existiria — e isto deve ser dito! Para além dos autores que colaboraram, quero louvar todos quantos vieram fazer a apresentação destas obras, alguns dos quais vindos de bem longe de Lisboa, estão nesse grupo: tu, a Cristina Carvalho, o António Carlos Cortez, o João de Mancelos e a Jessica Falconi. Por fim, resta-me concluir que com tanta gente boa ao meu lado, o balanço só poderia ser fracamente positivo.
E enquanto tradutor e divulgador de poesia estrangeira em Portugal?
A tradução de poesia é uma arte complexa e dificílima. Há nela um misto de torneio e de bruma. Tens à tua frente um verso e imediatamente se levanta um leque de possibilidades e escolhas, que, por sua vez, induzem o tradutor num ou noutro sentido, dependendo da opção seguida um escorreito e eficaz final ou um anódino e insosso corpo textual mais perto dos aberrantes monstros que no século XIV se pensava existirem para lá do equador: enxertias desavisadas, abortos amontoados a trouxe-mouxe por debaixo da mesa do artesão. No meu caso concreto, após uma opção, logo me levanto contra mim mesmo imaginando a relutância e as críticas que surgirão num espaço em que eu não me poderei defender. A esta luta, em solidão, de mim comigo mesmo, vem depois juntar-se o intimidante peso dos poetas que tenho de traduzir: só em 2016 traduzi poemas de Jaime Siles, Xavier Oquendo Troncoso, Antonio Colinas, Luis Fernando Chueca Field, Jeannette Clariond, Ana Maria Rodas, Carlos Aganzo, etc.,etc. Claro que depois os seus mails são sempre extremamente simpáticos e foram mesmo estes mails que me fizeram pensar em publicar um volume com todas estas traduções, volume esse que sairá ainda este ano, até porque num país fortemente marcado pelas correntes anglófilas parece-me importante que se conheçam outros tipos de trabalhos.
Como articulas todo esse trabalho com a produção de uma obra própria?
Falaste, no início da entrevista, na minha discrição, o problema comigo é bem mais complexo: eu não dou qualquer importância à construção de uma obra própria dotada de alguma homogeneidade e com maior ou menor coerência. Creio que foi a Josyane Savigneau — mas não estou certo — que escreveu que a Yourcenar ia ao ponto de “retocar” a sua correspondência com o objetivo de uma publicação futura. É uma opção! Quanto a mim, escrevo o que quero e quando quero e muitas vezes nem penso sequer em publicar. As discordâncias com os amigos que passam aqui por casa costumam ser enormes, mas eu não lhes dou ouvidos — um exemplo: tenho um livro que gostaria de entregar em setembro deste ano, entretanto, uma prestigiada Revista espanhola pediu-me um poema sobre Glória Fuertes. Eu, razoavelmente conhecedor do chamado movimento de 50, de Glória Fuertes nem o nome conhecia, pus de imediato o livro de parte e durante três semanas vivi uma experiência interessantíssima: eu via o bairro onde ela tinha nascido, a mãe algo arisca, os irmãos, a sua fome de afagos na infância, as primeiras incursões na escrita, etc. No final dessas três semanas, o poema veio até mim, achei-o bom e enviei-o. Depois de o enviar percebi que tinha um ensaio para escrever, estou a trabalhar nele. Não sei quando voltarei ao livro, que, todavia, já está todo na minha cabeça. É assim que me relaciono com a escrita, o que me parece ter pouco a ver com o conceito tradicional de deliberar e decidir os trâmites de uma obra, a maior parte das vezes metamorfoseada nessa fantasia de “obra a ficar”. Comigo as coisas não se passam dessa maneira: eu vim à vida, algumas coisas são postas no meu caminho, outras são-me recusadas, umas vezes estou atento e colho-as, outras sou desatento e pago o preço: não passo de um viajante, à boa maneira da imagem defendida pelos medievais e depois por Gabriel Marcel, seguramente que me reproduzirei (de um modo diferente do avançado pela Helen Fisher, claro!), escreverei umas páginas, amarei, serei amado e depois morrerei. Não sei o que é que isto tem de grandioso! Portanto, como é que eu articulo tudo isto? Não sei! Sou completamente incapaz de geometrizar o vivido. O vector decisório não sou eu, que há muito me apreendi como mero instrumento! A competição pelo centro nunca me tirou o sono.
O que achas da poesia actual? Enquanto editor, deves ter uma perspectiva mais justa do que se faz e da qualidade da mesma.
Não sei se se pode falar de uma perspetiva justa no que diz respeito à avaliação da qualidade de um dado fazer poético. O território da poesia não é o da explicação, da positividade, da universalidade. E isto prende-se com a resposta anterior: ser capaz de analisar e interpretar o diferente a partir dele não é defender a possibilidade de qualquer univocidade relativamente ao olhar que se debruça sobre a poesia. Dito de outro modo: “a perspectiva justa do que se faz e da (sua) qualidade” é, na minha opinião — e nestas coisas nunca saímos do domínio da Doxa!- é, dizia, sempre uma perspetiva contaminada pela subjetividade, embora isto não contradite o já dito. Assim, posso apenas indicar a minha receita, mas é tão-só a minha, provavelmente falível. Tenho, por conseguinte, alguns “mandamentos” que tento seguir, mas não sei se me vão conduzindo a essa perspetiva mais justa possível: evitar todo e qualquer efeito de halo e tentar proceder também a uma observação desmitificadora — exemplos desses mitos: se o poeta publica na Editora X ou na Y, se é novo e resplandecente ou se já passou os cinquenta, se a obra em causa foi caucionada pela opinião de A, se o nome se propaga televisivamente como qualquer marca de shampoo, se tem no seu palmarés o Prémio Literário Z, etc.,etc. Sou completamente imune a halos e mitos desse tipo! E não se pense que isto é pretensão, pelo contrário, é antes consciência da minha própria fragilidade: tenho de ser eu, mesmo titubeando, a percorrer o meu caminho e quando falho, levanto-me e reformulo — exemplo: durante décadas releguei Torga para um lugar secundário por não suportar as rimas, só tardiamente é que percebi que, não apenas essa variável não era excessiva, como ela era suplantada por outras bem mais importantes. Ou seja: até a nossa perspetiva justa está subordinada à mudança.
De qualquer modo, e não tentando fugir à resposta, há — para mim — poetas que considero bastante bons nos diversos tipos de poesia, mas há também outros igualmente bons que não são lidos, porque não sancionados pelo Princípio de Autoridade e isso é não só injusto, como a assunção de uma menoridade cultural que busca ancoragem em algo — ou alguém — em que se delega o poder de decidir. Pessoalmente, tenho muita dificuldade em entender este auto-espartilhar da autonomia, esta necessidade de obedecer à conformidade.
Esse espartilhar da poesia em Portugal não a mata? Não é o Tempo que deve julgar, mais do que a crítica?
O Tempo é um animal bifronte: julga e pune Alguns poetas — mais do que os romancistas — visam esse horizonte mirifico da eternização da sua obra, a agressividade de certos posts que por vezes leio no Face traduzem de forma nítida a frustração que resulta de um saber oculto dessa incapacidade. O Tempo não absolutiza nada, não eterniza coisa alguma! O Tempo pune: erosão, emaranhado de componentes, esquecimento. “A eternidade e o tempo são duas coisas diferentes” dizia Plotino na Terceira Enéada, na secção dedicada a esses dois temas e avançava: como é que eu posso inscrever o que dura para sempre no seio do que é sensível e perecível? Não posso!
Tudo passa, esbate-se, perde-se: Isabel I de Inglaterra era ou não um homem? Homero existiu mesmo? E Marlowe? Eu até consigo perceber as funções concedidas à crítica literária por alguns ensaístas e estou a lembrar-me de George Steiner, logo no início de “A humanidade das letras”. Funções demasiado normativas para o meu gosto, mas percebo-as! São juízos formulados no Tempo em torno de objetos sensíveis. Tentando ser mais claro: os juízos de valor sobre um livro de poesia, quer sejam emitidos pela crítica quer o sejam por essa entidade mais abstrata chamada Tempo são, na sua essência, iguais: ambos têm por finalidade o inscrever no absoluto, na ordem do eterno, algo cuja sina é desaparecer. Claro que a astrofísica confirma tudo isto, apenas nos dá mais uns milhões de anitos! Se a obra fica ou não, isso não tem importância alguma! Shakespeare ainda deve estar a rir-se por o Bloom o ter metido no centro do cânone e isto caso tenha sido ele a escrever aquelas peças todas, o que o Tempo também tornou pouco pacífico.
Aos poetas a Poesia em torno dessa “Coisa” (parafraseando a Martine Broda!) que vislumbram, aos sicofantas a zagaia em riste no mercado de coisa nenhuma!
E o que pensas quanto ao trabalho de divulgação da poesia? Consideras que há espaço para essa divulgação e para a sua publicação?
Relativamente à divulgação e publicação da poesia, julgo ter respondido — talvez obliquamente — numa resposta anterior. Reitero, portanto: é importante o estimular do espírito crítico daquele que tem por hábito comprar livros de poesia e incentivar a sua não subjugação ao critério da massa e da marca; já quanto ao trabalho de divulgação da poesia, e não só, na televisão, prefiro não me pronunciar (isso daria para uma longa conversa), além disso, sou do tempo do “Apostrophes”: sorvia avidamente todos aqueles programas, admirava a ligeireza de raciocínio do Bernard Pivot e nem sequer tinha oportunidade para verificar a sua telegenia, se tinha engordado ou minudências desse tipo. O que estou a tentar dizer é que a análise e exposição exaustivas e rigorosas de conteúdos e temas parecem-me terem vindo a ser substituídas, por um certo clima — pós-Debord — do espetacular, enquanto — e ao mesmo tempo — nos media em suporte de papel se trilham as sendas dos cadernos e da linhas contadas. A propósito do contar, talvez a Pítia tenha mesmo os dias contados e de Delfos em breve só restem as ruínas, aliás, no meu caso concreto — hoje — quando quero saber certas notícias sobre poesia recorro a dados sites e até mesmo — pasme-se! — a certos murais de redes sociais e só depois dessa primeira triagem compro as revistas ou os livros, refiro-me aqui a livros de poesia de autores portugueses, já que a aquisição de obras de poetas brasileiros, espanhóis e franceses é ainda bastante temerosa. De qualquer modo, embora aplicando agora o caso da divulgação à filosofia: neste preciso momento ando a seguir, via You Tube, um infindável ciclo de conferências e debates de filosofia contemporânea dos quais tiro até notas daquilo que é dito por autores como Isabel Thomas-Fogiel, Jean Luc Marion, etc, etc. Creio, portanto, que a divulgação da poesia (e da filosofia) conseguiu conciliar finalmente a vertente da democratização com a do rigor, embora — e como já referi — nas obras mais significativas para mim, eu não prescinda do suporte de papel, pois conservo esse apelo luxuriante desse objeto chamado livro, mas é depois, na questão de aquisição de livros estrangeiros, que o processo se torna francamente complexo.
*A entrevistadora não usa o A.O. e o entrevistado usa. Como a entrevista foi escrita, respeitamos a decisão.

O poeta Victor Oliveira Mateus é natural de Lisboa e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Clássica desta cidade. Leccionou, durante três décadas, as disciplinas de Psicologia e de Filosofia. Tem oito livros de Poesia, e textos em Prosa, publicados. Organizou várias Antologias de Contos e de Poesia. Fez conferências em Escolas, Faculdades, Livrarias e outros Espaços Culturais. Integrou diversos Júris de Prémios Literários.
Foi-lhe concedido, pela União de Escritores Brasileiros do Rio de Janeiro, o Prémio Literário Eugénio de Andrade 2013. Tem colaborado com diversas Revistas Literárias e sites portugueses e brasileiros de Literatura. Foi membro da A.P.E ( Associação Portuguesa de Escritores) de 2008 até 2016. É membro do PEN Clube Português, a cuja direção pertenceu. Tem participado em diversos Festivais Literários em Portugal e no estrangeiro.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017


          "Os Bancos"


Era bom descolar dos bancos, erguer o olhar acima
das cantarias, deste peso rotundo,
desta massa de cifras, destes arranjos de papéis abstractos,
destes homens que sou obrigado a ler e ouvir
como tributo ao facto de estar ainda vivo.
Tudo isto e o futebol
e os seus comentadores de camisa aberta,
deprime a minha idade, mata-me
mais cedo.

Eu descubro a febre antes dela me chegar aos membros,
olho-me ao espelho e pareço um cientista ambulante
desses que ganham prémios
e só lhes falta fixamente o próximo
para alcançarem o cómodo lugar de santos laicos.
As doenças estendem-se nos mapas,
as pestes são como as mariposas,
e tudo parece esvoaçar na febre programada.

Mas melhor mesmo era descolar dos bancos,
subir acima do mármore, adormecer sem idade nem estrela,
ou descer tão baixo que a água não consiga encontrar-me,
e os vermes duma beleza estranha, azul, tão movediça,
venham beijar-me os poemas, discípulos da morte.
Sim, descolar dos bancos, encher a boca de terra,
enfim, saber dormir.


  Carvalho, Armando Silva. A Sombra do Mar. Porto: Assírio & Alvim, 2015, pp 44-45.
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