segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018



                                    Espinosa: Ciência Intuitiva e Virtude

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1. - Introdução
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   Não podendo ser reduzida a uma mera continuação do cartesianismo, a filosofia de Espinosa chama a si a resolução de questões radicalmente distintas, embora aproveitando-se de um certo tipo de concetualização baseada na clareza e distinção, que haviam sido o suporte do pensamento de Descartes, mas, se a este era a verdade em ciência que o absorvia, a Espinosa preocupa-o antes uma outra questão, a saber: "que l'amour de Dieu, impossible sans une union nécessaire de notre être avec l'Être divin, est seul capable de nous sauver" (In Le Spinozisme de Victor Delbos. Paris: Lib. Philosophique J. Vrin, 1972, p 211). Temos assim, de um lado uma problemática de base científica, do outro uma teorização fundamentalmente religiosa, ética e política.
   Espinosa, produto de uma Holanda fervilhante social e religiosamente, expõe na Parte I da sua obra fundamental ( Ética ) a sua conceção de divindade. Essa parte da obra, de que já se falou anteriormente, pode ser considerada um autêntico tratado de Ontologia, onde esse Deus, tão polémico, constituído por atributos infinitos produz ( A Espinosa não era querida a ideia da teologia tradicional de Criação, mas antes uma outra de proveniência neoplatónica, a emanação!), produz, dizia, numa infinidade de modos. E é exatamente da forma específica de um desses modos de existir que se tratará aqui: o homem. Homem esse que não tem nenhum "privilège dans la nature et toutes ses pensées et conduites sont soumisses à des lois nécessaires, conséquences de la nature divine elle-même" ( In La Moral de Spinoza de Sylvain Zac. Vendòme: P.U.F., 1972, p 11). E, aquilo que aqui nos parece levar à negação de uma Moral em Espinosa acaba antes levando-nos a uma Moral de tipo diferente: fundada no determinismo e numa prospeção exemplar da natureza humana. Mais do que escrever um Tratado de deveres, a Espinosa impottava descortinar a essência do homem, como este habita o mundo e como finalmente se acabará unindo a esse Deus de que nos falou na Parte I da sua Ética.
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2. - Natureza da Alma e problemática do conhecimento
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    Gostaria de dar aqui ênfase a duas questões prévias que me parecem de utilidade para o assunto a abordar aqui::

a) a conceção espinosista da alma (Cf. Parte II da Ética )
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b) a íntima articulação que vejo entre uma forma de elevação da alma e o apuramento do ato de conhecer.
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   Relativamente à primeira alínea, com Espinosa rompe-se essa dicotomia de alma/ corpo, com o respetivo imperialismo da primeira sobre o segundo, aliás, nesta mesma linha e contra a ideia de Deus como puro espírito, Espinosa - no Esc. 2 da Proposição XV da Parte I da Ética - diz: "(...) desconheço a razão pela qual a matéria seria indigna de natureza divina, visto (pela proposição 14) não pode haver fora de Deus Substância alguma pela qual ela fosse afetada." Ora vejamos, na Proposição XI - Parte II da Ética, lê-se: "A primeira coisa que constitui o ser atual da Alma humana não é senão a ideia de uma coisa singular existente em ato." Vemos, pois, a alma constituída essencialmente por uma ideia, mas... pode ser esta última pura, ou melhor, pode ela ser a ideia de uma coisa inexistente? Não! Essa ideia só pode ser de algo singular existente também em ato e, mais à frente, na Proposição XII encontramos: "(...) se o objeto da ideia que constitui a Alma humana é um corpo, nada poderá acontecer nesse corpo que não seja percebido pela alma e Espinosa acaba concluindo na Proposição XIII:" O objeto da Ideia que constitui a Alma humana é o corpo, ou seja, um modo determinado da Extensão , existente em ato, e não outra coisa". Assistimos, por conseguinte, a uma reabilitação do corpo! Embrenhando-se depois o autor em teorizações várias em torno do corpo (duros/moles; constituição, etc.) chega-se finalmente, na Proposição XVI, à ideia de afeção, que aparece já definida na Parte III da Ética, Definição III: "Por afeções, entendo as afeções do corpo pelas quais a potência de agir desse corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou ou entravada, assim como as ideias dessas afecções".
   Veja-se agora como tudo isto se articula com a alínea b) desta secção: é no escólio II da proposição XL da Parte II da Ética que encontramos os vários graus de conhecimento:
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Graus de conhecimento:
- Pela experiência vaga
- Do 1º género: Opinião ou Imaginação
- Do 2º género: Razão
- Do 3º género: Ciência Intuitiva (que precede da ideia adequada da essência formal de certos atributos de Deus para o conhecimento adequado da essência das coisas).

Ora, o conhecimento do 1º género é causa da falsidade, enquanto que os do 2º e 3º géneros nos ensinam a discernir o verdadeiro do falso. Vislumbra-se assim qual será a tarefa da alma, ou seja, qual o percurso que o homem terá de trilhar, através de um conhecimento que salve, para atingir a suprema virtude.
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3. - Teorização das afeções
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3.1. - Ação e Paixão
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   Para que possamos compreender até onde o homem pode chegar urge que se analise os conceitos que povoam todo esse caminho do ser humano até à sua divinização. É o que agora iremos fazer! Donde parte o homem? De que reino obscuro principia ele a sua caminhada? Que forças subreptícias o atrasam e, muitas vezes, o impedem de chegar à sua meta?
   Pela designação de afeções não se compreende um todo homogéneo, mas toda uma rede tecida através de convergências e oposições. Encontramos três afeções primárias, das quais todas as outras derivam:
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1º - Alegria: "a paixão pela qual a Alma passa a uma perfeição maior" (In Ética Parte III, Proposição XI, Escólio.

2º - Tristeza: "a paixão pela qual a Alma passa a uma perfeição menor" ( Cf. Ética Parte III, Proposição XI)

3º - "(...) o apetite não é senão a própria essência do homem (...) o desejo é o apetite de que se tem consciência" ( In Ética Parte III, Proposição IX, Escólio)

   Vê-se aqui que a tristeza "diminui ou reduz a capacidade de agir do homem" (In Ética Parte III, Proposição XXXVII), que, necessariamente, acabaria numa forma de passividade, mas a essência do homem é o desejo, o homem tende essencialmente para a ação, e esta não é mais do que a conservação do seu ser. Eis-nos chegados a uma bifurcação:

Ações: indicam a nossa potência

Paixões: indicam a nosso impotência

Concluímos, portanto:

a) Sofremos quando uma coisa externa limita a nossa atividade

b) "Pas de passion sans action" (In La Moral de Spinoza de Sylvain Zac. Vendòme: P.U.F., 1972, p 30).

Podemos, portanto, dizer, que existe uma relação dialógica entre as ações e as paixões, e, estas bloqueando os acessos do homem à virtude, impelem-no para uma passividade que é contrária à sua essência. Como superar então esta situação?

3.2. - Inadequação e passividade
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   É da essência do homem tender à conservação do seu ser, mas "o homem está sempre necessariamente sujeito às paixões" (In Ética Parte IV, Proposição IV, Corolário) e estas não são determinadas pela nossa potência com que nos esforçamos à nossa conservação, mas antes pela potência das causas externas. Um outro factor surge, pois,  responsável pelas nossas paixões: as causas externas, e, consequentemente, responsável pela tendência à passividade. Mas, a nossa alma, "enquanto tem ideias adequadas, é necessariamente ativa (...) mas enquanto tem ideias inadequadas é necessariamente passiva..." ( In Ética Parte III, Proposição I). Assim, a alma é tanto mais ativa quanto mais ideias adequadas tem e, simultaneamente, será tanto mais passiva quanto mais ideias inadequadas possua.
   Aqui prende-se uma questão já aflorada e que tem a ver com a relação alma-corpo: "se uma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de agir do nosso corpo, a ideia dessa mesma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de pensar da nossa alma" (In Ética Parte III, Proposição XI). Vimos já que esta não é uma filosofia que conduza ao martírio do corpo para salvação da alma, mas pelo contrário, as potencialidades intrínsecas da alma têm de se desenvolver concomitantemente com a saúde do corpo - a um corpo são corresponde necessariamente uma razão apta à superação das paixões.

3.3. - Das Ideias Inadequadas aos fundamentos da Virtude

   Vemos, por conseguinte, que "la passion est symptôme d'une maladie de l?âme, dont la puissance de vivre est surmontée par la puissance des causes exterieures. L'homme, sous le régime de la passion, n'a plus à redouter l'enfer après sa mort, car il le porte en lui-même" (Sylvain Zac, Op. Cit. p 38). Ela tem efeitos a dois níveis: por um lado afasta-nos de nós próprios pela anulação da nossa parte essencial, por outro, ela dificulta uma sã sociabilidade (Acerca das paixões como fator impeditivo de um são relacionamento dos homens ver também as Proposições XXXII e XXXIV da Parte IV da Ética ), pois só a razão acaba favorecendo uma autêntica relacionação entre os homens, sendo a imagem de uma sociedade perfeita aquela que se funda na comunicação livre de ideias verdadeiras, só vivendo sobr a Razão os homens "concordam sempre necessariamente em natureza" (In Ética Parte IV, Proposição XXXV).
   Veremos à frente que é, então, procurando o que lhe é útil que o homem fundamenta a virtude que lhe é própria. Que se quer dizer com isto? Reduzindo o homem a esse desejo de busca do que lhe é útil, não enveredaremos por uma visão animalesca do homem suprimindo as suas necessidades à custa deste ou daquele bem material? De modo nenhum! Ora vejamos: pela Proposição XXIV da Parte IV fica estabelecido que o homem age por virtude, quando, como já se viu, tende à conservação do seu ser sob a direção da razão e segundo o princípio da utilidade, mas, o que é útil acima de tudo é o que conduz ao conhecimento, assim, o fundamento da virtude no homem não é algo que lhe seja exterior, mas antes é o esforço de compreender que o homem empreende o primeiro e único fundamento da virtude. E é bom tudo aquilo que nos possa ajudar a compreender, sendo o bem supremo da alma o conhecimento de Deus, portanto, a suprema virtude da alma é conhecer Deus.

4. - Superação das paixões - a Virtude

4.1. - A procura do útil e o aperfeiçoamento da Razão


   A virtude é, pois, potência, mas da inteligência. Mas, conseguirá esta última reduzir totalmente a paixão? E, em caso afirmativo, como o fará? Da seguinte forma: enquanto não somos dominados pelas afeções que são contrárias à nossa natureza, somos capazes de encadear as afeções do nosso corpo segundo a ordem da inteligência, ou seja, podemos durante esse período formular ideias claras e distintas; durante esse tempo conseguimos não ser afetados pelas más afeções, associando estas últimas a regras que as possam neutralizar, por exemplo, se alguém vê que busca demasiado a glória, pense no uso correto desta e não no seu abuso. Estamos, portanto, em pleno processo de busca daquilo que nos é útil, que mais não é do que a capacidade do homem de se elevar a Deus. Na Proposição XI de Parte V da Ética, Espinosa começa a infletir o seu raciocínio num sentido que mal se descortina, mas na Proposição XII, acerca do processo acima citado, já nos diz podermos juntar mais facilmente as imagens das coisas às imagens que se referem às coisas que compreendemos clara e distintamente, e, na Proposição XIV acaba dizendo que a alma pode fazer que todas as afeções do corpo, ou seja, as imagens das coisas, se refiram à ideia de Deus. Eis-nos, portanto, frente ao nó central do que temos vindo a dizer! De conceito em conceito, acabamos chegando a uma Razão  que aperfeiçoando se tenta libertar das paixões, mas, subtilmente, Espinosa  acaba dizendo-nos que este esforço do homem que se tenta compreender e si mesmo e às suas afeções de uma forma clara e distinta, desemboca necessariamente no amor a Deus, e é "este amor para com Deus que deve ocupar a alma acima de tudo" ( In Ética Parte V, Proposição XVI).

4.2. - A Suprema Beatitude

   A beatitude não pode ser outra coisa que o contentamento do espírito frente ao conhecimento intuitivo de Deus e aperfeiçoar a inteligência é conhecer a Deus, conhecer os atributos de Deus e as ações que resultam da necessidade da sua própria natureza. O fim do homem, que é conduzido pela Razão, é conceber-se adequadamente a si mesmo e a todas as coisas que caiam sob o seu entendimento. Nada lhe é mais útil que a aproximação a Deus, processo que em Espinosa nos parece também estar intimamente articulado com a constituição de uma sociedade fundada na cooperação (Cf. "Aos homens é-lhes útil, primeiro que tudo, estreitar as relações e unirem-se pelos vínculos que melhor podem fazer deles todos uma só coisa, e de uma maneira geral, é-lhes útil fazer aquilo que serve para consolidar as amizades." In Ética , Capº XII, p 92), já que o homem vivendo em estado natural, entregue às suas paixões, e, até mesmo, à sua solidão, vê-se impossibilitado de alcançar a virtude suprema. Esta virtude primeira é ainda ação, mas ação bem original, ela é contemplação, "compréhension de la structure intelligible des choses" (In Sylvain Zac, Op. Cit. p 47) - eis a ação elevada ao seu expoente máximo!
   A Ciência Intuitiva, ou 3º género do conhecimento, é, pois, a verdadeira responsável pelo alcançar da beatitude, " o esforço supremo da alma e a suprema virtude é compreender as coisas pelo 3º género de conhecimento" (In Ética Parte V, Proposição XXV) e quanto mais a alma está apta a compreender através deste género tanto mais o desejará fazer, assim, vemos que da Ciência Intuittiva vem a maior alegria que para a alma possa existir - a Virtude suprema da alma é conhecer a Deus!

5.º- Estado Natural e Sociedade

5.1. - Egoísmo versus Altruísmo


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domingo, 11 de fevereiro de 2018

( Durante as próximas semanas, ou talvez meses, este Blogue irá postando uma série de textos a que eu talvez possa chamar Textos de Juventude. São pequenos ensaios meus, que passarão a andar por "aqui", já que não os penso publicar em suporte de papel, contudo, irão manter, no final do cada um, a indicação do respetivo copyright, para que se perceba tudo o que a legislação diz a este respeito.
 Os Estudos terão um caráter de trabalho em progresso, pois irão sendo acrescentados a pouco e pouco, consonante as minhas disponibilidades.)
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                           Espinosa: a problemática da Substância
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 1. -  A especificidade de uma posição e o seu contexto sócio-cultural.
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   Não acreditando numa interpretação mecanicista em que o homem, mais ou menos passivamente, acaba refletindo o meio circundante, inclino-me antes para uma relação dialógica homem-meio, onde, contudo, este poderá ter um papel importante. Assim, podemos ver, no tempo da formação intelectual de Espinosa, uma Holanda como um país buliçoso, onde o comércio e a liberdade caminhavam lado a lado, liberdade essa não só civil mas também religiosa. A tolerância religiosa ali praticada valia mesmo ao país o privilégio de se tornar em refúgio de adeptos das mais diversificadas crenças religiosas. Encruzilhada de tradições que o comércio rapidamente divulgava, porto de abrigo da heterodoxia religiosas, a liberdade deste estado encontra, se me é permitido dizer, no espinosismo a sua correspondente consciência filosófica.
   Sem entrar nas influências do cartesianismo no pensamento de Espinosa, assunto de que falarei mais à frente dada a sua importância, quero apenas focar aqui as diversas influências na formação intelectual de Espinosa: a) a Teologia tradicional; b) a Ciência da Natureza (ambas as vertentes fundir-se-ão no conceito de Substância); c) Uma componente neoplatónica (exº: o conceito de Deus como Causa Única, direta e necessária de tudo o que existe); d) Alguns filósofos da Renascença como Giordano Bruno (exº: anulação da distinção entre Natureza e Deus). Note-se, no entanto, que esta última temática não nasce com Giordano Bruno (Cf. La Philosophie de La Renaissance de Ernest Bloch. Paris: Petit Bib. Payot, p 37: "A noção de natura naturans foi-lhe fornecida pelos filósofos árabes da Idade Média"). Por tudo isto, se a filosofia de Espinosa não pode ser entendida fora de um contexto sócio-religioso, também o não pode se a libertarmos das preocupações teóricas que a precederam e a que está indelevelmente ligada.
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2.- Cartesianismo e Espinosismo
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   Se o problema para Descartes era acima de tudo o problema da verdade em ciência e as exposições filosóficas tinham um mero papel coadjuvante, em Espinosa o que importava era a saúde da alma , a liberdade verdadeira e a beatitude. Assim, a uma preocupação pela ciência contrapõe-se uma busca de cariz religioso, ético e político.
   A tese corrente nesta questão visa enquadrar o espinosismo no prolongamento lógico do cartesianismo, mas mais do que uma continuidade e subordinação a uma filosofia anterior, aquele aparece-nos antes como um conjunto de intuições primitivas com validade interna específica, que vai buscar ao cartesianismo "a conceção de uma verdade objetiva pura" (Cf Le Spinozisme de Victor Delbos, p 213). Uma validação clara e distinta de cariz cartesiano acaba por abolir as formas puramente imaginativas das crenças judaicas e as expressões irracionais do neoplatonismo teológico. Mas poder-se-á unicamente falar de continuidade na medida em que Descartes falando de Deus como uma Substância Infinita o coloca à parte das outras duas substâncias: a res extensa e a res cogitans, deixando contudo por resolver a articulação entre estas duas formas de substancialidade. A partir do momento em que Espinosa priva "as duas realidades da Natureza Naturante de propriedade ontológica de substâncias, para lhes conferir a de atributos" (Cf. Joaquim de Carvalho, in "Prefácio à Parte I da Ética de Espinosa", p 46) acedemos a um monismo substancialista que se pode traduzir por: Substância igual a Deus igual a Natureza.
   Mas, embora através da forma expositiva da Ética, possamos pensar que Espinosa parte da Substância para uma posterior identificação com Deus, a mais recente investigação inverte o vector desta temática, e a concepção de Natureza bem como a de Deus surge, pois, como a intuição primeira e fundamental. Assim, poderemos concluir dizendo que a característica fundamental da Substância espinosana " é a coincidência e a identidade da Natureza com Deus) (In "História da Filosofia Vol VI" de Nicola Abbagnano. Lisboa: Ed. Presença, p 208).
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3 - O Deus de Espinosa
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   3.1 - A Natureza Naturante: os atributos

...Sem entrar nas questões relacionadas com a forma e o método da Ética de Espinosa, que fogem um pouco ao âmbito deste texto, centremo-nos nas temáticas que nos parecem fundamentais, e, segundo uma ordem aqui estabelecida, entremos na problemática dos atributos, para posteriormente se poder falar - comparativamente - das propriedades da Substância. O que são, pois, os atributos?
   Encontramos nas primeiras formulações de Espinosa explicações como esta: " Mas de extensão que é uma substância, não se pode dizer que tenha partes..." (Cf. Court Traité, p 55), é exatamente isto que permite a Delbos (Cf. Victor Delbos, op. cit. p 43) falar de uma certa indiferenciação na génese destes conceitos. Mas, refinada toda uma concetualização, esta aparece já na Ética com uma certa consistência - os atributos passam a exprimir funções da Substância na produtividade dos modos, ou seja, na factualidade do Universo:

Proposição XIV: "Afora Deus não pode ser dada nem ser concebida nenhuma outra Substância."
Corolário I: Deus é único (...) na Natureza só existe uma Substância (...) Infinita.
Corolário II: A coisa extensa e a coisa pensante são (...) atributos de Deus...

Ou ainda:

Definição IV: "Por atributo entendo o que o intelecto percebe da Substância como constituindo a essência dela".

   Vincada esta evolução concetual, adivinha-se qual a relação existente entre a Substância e os seus atributos. Espinosa admite uma infinitude a atributos (exº: Proposição XI - "Deus, ou por outras palavras, a Substância, que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente"), atributos esses dos quais só conseguimos perceber dois: Extensão e Pensamento, que produzem respetivamente os corpos e as ideias. Mas, qual é então a relação que se estabelece entre Extensão e Pensamento por um lado, e Deus por outro?:

a) aqueles não podem ser anteriores a este, porque se pudessem ser-lhe-íam ontologicamente superiores;
b) Deus não é também um composto, já que uma parte componente teria de ser finita, logo, os atributos não são componentes mas antes constituintes.

   Concluindo: Deus existe por si, constituído por substâncias que existem por si, mas que não têm existência separada daquilo que constituem. Deus e atributos são simultâneos e a unidade destes últimos não é em nenhum atributo englobante mas na substância que constituem. Enfatizemos ainda o facto da Extensão ter aqui uma certa especificidade, como já disse anteriormente ela não é constituída por partes, ideia que horrorizava Espinosa. E, voltando a Descartes que considerava uma Extensão divisível, Espinosa opõe-lhe energicamente uma Extensão em si mesma infinita, e que, portanto, não poderia ser constituída por partes finitas, sendo, por conseguinte, indivisível.
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   3.2 - Atributos e Propriedades
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   Campare-se agora o que se viu acerca dos atributos com o que se entende por propriedades da Substância. Foi propositadamente que utilizei acima as Proposições XI e XIV da Ética . As propriedades não são mais do que adjetivações incompreensíveis sem os respetivos substantivos, quero dizer, Deus sem elas não seria verdadeiramente Deus.
   Na estrutura do Tratado Breve temos o capítulo III onde Deus é analisado como causa de tudo; o cap. IV que fala da ação necessária de Deus; no Cap. V aparece a segunda propriedade (Cf. Op. Cit. p 71: " O segundo atributo a que chamamos propriedade é a Providência, a qual não é para nós mais que a tendência que nós encontramos em toda a natureza (...) à conservação do ser.") e no Cap. VI fala-se da terceira propriedade, a predestinação divina. Ora, esta posição não é alterada na Ética, mas antes aprofundada, assim, Gueroult (In "Spinoza - Dieu, Ethique I" p 243) enunciando as propriedades, leva-nos à seguinte esquematização:

Propriedades da essência de Deus:
Prop. XI - Causa Sui
Props. XII e XIII - indivisibilidade
Prop. XIV - unicidade e infinitude

Já a Proposição XV: "Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido", tem a ver com o Panteísmo de que falaremos em breve, e ela opera, por assim dizer, a transição para um outro tipo de propriedades - as do poder de Deus, quer dizer, da Substância:

Proposição XVI - causa de todas as coisas
Prop. XVII - livre e toda poderosa
Prop. XVII - imanente
Props. XIX e XX - eterna
Corolário II da Proposição XX: "(...) Deus, ou, por outras palavras, todos os atributos de Deus, são imutáveis - imutabilidade.
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   3.3. - Natureza  Naturada: os modos
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   Tendo falado já de Deus-Causa ou Natureza Naturante, passo agora ao Deus-efeitos ou Natureza Naturada (Cf. Proposição XVI: " De necessidade da natureza divina devem resultar coisas infinitas em número infinito de modos, isto é, tudo o que pode cair sob um intelecto infinito."). Aquilo que se produz não é exterior a Deus, nem este é jamais causa afastada do produzido, dos modos, que, por sua vez, acabam introduzindo-se numa trilogia concetual: Substância, atributos e modos. E, quanto à diversidade desses mesmo modos, Espinosa já no "Tratado Breve dizia: "Quanto à Natureza Naturada, dividi-la-emos, em duas, uma universal e outra particular. A universal compõe-se de todos os modos que dependem imediatamente de Deus (...) A particular compõe-se de todas as coisas particulares que são causadas pelos modos universais" (Cf. Op. Cit. p 80). Esta formulação será depois aprofundada na Parte I da Ética, já que a parte universal da Natureza Naturada é subdividida em dois outros grupos:

A) Modos Infinitos - Imediatos: a.1.) Intelecto Infinito (Pensamento)
                                                 a.2.) Movimentos/ Repouso (Extensão)
                                Mediatos:  b)Face de todo o Universo (Ordem
                                                 total das almas eternas)

B) Modos Finitos ------------- Coisas particulares.


   Perante este quadro, a primeira exclamação que faço é a sua nítida influência neoplatónica. Vejam-se, por exemplo, os modos infinitos imediatos que servem, por assim dizer, de veios transmissores entre os modos seguintes e os atributos de Deus. Também em Plotino os seres intermédios eram necessários, e para o processo de emanação se dirigir do Uno à matéria (que em Plotino também não era um mal!) seriam precisas a Inteligência e a Alma (Cf. Op. Cit. p 80), igualmente as propriedades dos modos estão sujeitas a uma degradação conforme o grau hierárquico que ocupam, assim, a eternidade da coisa particular vêm-lhe não de si mesma, mas "ela só lhe pode ser atribuída sob uma forma derivada, enquanto é efeito necessário e incondicionado de uma causa existindo por si necessariamente, infinita e imutável" (In Martial Gueroult, Op. Cit. p 309).


©  Victor Oliveira Mateus (datação: anos setenta)
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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

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A Apresentação da Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017/2018 publicitada também em Espanha. Ver aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/171146/traducen-publican-versos-alfredo-perez-alencart-revista/
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A dita apresentação estará a cargo de António Carlos Cortez e ocorrerá no dia 10 de fevereiro, 16:00H, na Livraria Leituria, Rua Dona Estefânia, 123 A - Lisboa.
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

ATENÇÃO!


   POR QUESTÕES QUE SE PRENDEM COM FALTA DE TEMPO, ESTE BLOGUE TERÁ, DURANTE ALGUMAS SEMANAS, UM RITMO DE POSTAGENS BASTANTE REDUZIDO, ASSIM, CONFIRMAMOS:
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- DIA 10 DE FEVEREIRO SERÁ A APRESENTAÇÃO DO Nº 2 DA CINTILAÇÕES. REVISTA DE POESIA E ENSAIO, CONFORME POST ABAIXO JÁ DEVIDAMENTE CORRIGIDO:

A) OS COLABORADORES DESTA PUBLICAÇÃO RECEBEM (COMO É HÁBITO), POR MAIL, O RESPETIVO CONVITE ELETRÓNICO;

B) A APRESENTAÇÃO DA REVISTA ESTARÁ A CARGO DO POETA E CRÍTICO LITERÁRIO:  ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
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- NO DIA 24 DE FEVEREIRO (DATA QUE AGUARDA CONFIRMAÇÃO !!!!) PREVÊ-SE O LANÇAMENTO DO MEU LIVRO DAS ÁGUAS À DANÇA DAS FOLHAS (EDITORA LABIRINTO):
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A) ESTA OBRA SERÁ UMA RECOLHA DE ALGUMA DA POESIA POR MIM TRADUZIDA  NOS ÚLTIMOS ANOS PARA REVISTAS, ANTOLOGIAS, SITES, ETC. E ENGLOBA A PRODUÇÃO DE INÚMEROS POETAS COMPLETAMENTE DESCONHECIDOS EM PORTUGAL, ALIÁS, O TÍTULO É MESMO UM VERSO DO POETA CUBANO ERNESTO G.;
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B) ESTA APRESENTAÇÃO (COM DATA E LOCAL A CONFIRMAR) ESTARÁ A CARGO DA PROFª DRª MARIBEL MENDES SOBREIRA;
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- A MEADOS DESTE ANO SERÁ TAMBÉM PUBLICADO UM LIVRO MEU DE ORIGINAIS: AQUILO QUE NÃO TEM NOME (EDITORA COISAS DE LER).
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A T E N ÇÃ O:


A APRESENTAÇÃO DA CINTILAÇÕES REVISTA DE POESIA E ENSAIO

SERÁ NO PRÓXIMO DIA 10 DE FEVEREIRO (SÁBADO) E NÃO NO DIA 2

COMO ESTEVE ANUNCIADO NESTE BLOGUE.
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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018



   A "Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017/2018" ( Editora Labirinto) terá a sua apresentação ao público no próximo dia 10 de fevereiro (sábado), às 16:00H, na "Leituria" Rua Dona Estefânia, 123 A em Lisboa.
   Os autores que integram este projeto, bem como os colaboradores deste número da Revista, encontram-se referidos num post. abaixo.
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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

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Maria Germana Tânger (16/1/1920-22/1/2018).

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   Ao que parece, a maquinaria dos nossos afetos é educável, até certo ponto, e boa parte daquilo a que chamamos "civilização" ocorre através da educação dessa maquinaria no ambiente da nossa infância, em casa, na escola e no ambiente cultural. Curiosamente, aquilo a que chamamos "temperamento" - o modo mais ou menos harmonioso como reagimos no dia a dia aos choques e aos obstáculos da vida - resulta desse longo processo de educação à medida que interage com os elementos básicos da reatividade emocional, aquela que recebemos em virtude dos fatores biológicos que atuaram durante o nosso desenvolvimento - o legado genético, vários fatores de desenvolvimento pré e pós-natal e a pura sorte, claro. Mas uma coisa é certa. A maquinaria dos afetos é responsável pela criação de respostas emotivas e, consequentemente, pela influência de comportamentos que, segundo poderíamos pensar, na nossa inocência, seriam unicamente controlados pelos componentes informados e discernentes da nossa mente. As pulsões, as motivações e as emoções têm, com frequência, algo a juntar ou a retirar às decisões que, na nossa imaginação, parecem ser puramente racionais.
(...)) Contudo, a maioria das pulsões, motivações e emoções são também sociais, em grande como em pequena escala, e o seu campo de ação vai muito além do indivíduo singular. O desejo e a paixão, o apego, o carinho e o cuidado, a ligação e o amor, funcionam num contexto social. O mesmo se aplica à maior parte dos casos de alegria e tristeza, medo, pânico e fúria; ou casos de compaixão, admiração e temor, inveja, ciúmes e desprezo. A poderosa socialidade, que foi um sustentáculo essencial do intelecto do Homo sapiens e tão indispensável na emergência das culturas, terá, porventura, tido origem na maquinaria das pulsões, motivações e emoções, onde evoluiu a partir de processos neurais mais simples, em criaturas também mais simples. Mas a verdadeira origem da socialidade remonta ainda mais atrás, ao exército de moléculas químicas, algumas das quais presentes em organismos unicelulares.
(...) Em conclusão, a maioria das imagens que nos entra na mente tem direito a uma resposta emotiva, seja ela forte ou fraca. A origem da imagem pouco importa. Qualquer processo sensorial pode servir de ativador, desde o paladar ao olfato e à visão, e não importa se a imagem está a ser criada no momento atual, ou se está a ser recuperada da memória. Pouco importa se a imagem pertence a objetos animados ou inanimados (...) Uma consequência previsível do processamento das muitas imagens que nos percorrem a mente é uma resposta emotiva, seguida pelo respetivo sentimento. Assim provocados, os sentimentos emocionais não têm exatamente que ver com a música da vida. O sentimentos emocionais têm que ver com canções ocasionais e, por vezes, com verdadeiras árias operáticas. As peças continuam a ser executadas pelos mesmos conjuntos, no mesmo salão - o corpo - e contra o mesmo pano de fundo - a vida. (...) A execução musical varia em cada momento pois a execução das respostas emotivas e a experiência do sentimento respetivo também variam, tal como acontece com a execução de uma peça musical famosa nas mãos de diferentes executantes. A composição a ser tocada, no entanto, continua a ser inconfundivelmente a mesma. As emoções humanas são peças reconhecíveis de um reportório normal.
   Uma parte substancial da glória e da tragédia humanas depende dos afetos, mesmo tendo em conta a sua modesta genealogia não-humana.
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  Damásio, António. A estranha ordem das coisas. Lisboa: Temas e Debates, 2017, pp 162-165.
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018


   A vida de um organismo é mais do que a soma total das vidas de cada uma das suas células. A vida geral do organismo, a sua vida global, por assim dizer, resulta da integração das vidas nele contidas. A vida do organismo transcende a vidas das células, serve-se delas e retribui o favor sustentando-as. É essa integração de "vidas" reais que faz com que um organismo esteja vivo exatamente no sentido em que uma rede informática complexa não está viva. A vida de um organismo implica que cada célula componente continua a ter de usar, e é capaz de usar, os seus componentes microscópios complexos para transformar em energia os nutrientes capturados no seu ambiente, fazendo-o segundo as regras da regulação homeostática e segundo o imperativo homeostático de preservar a vida apesar de todas as dificuldades e persistir. Mas a extraordinária complexidade de um organismo vivo, tal como o ser humano, só poderia ter surgido com a ajuda dos dispositivos de apoio, de coordenação e de controlo do sistema nervoso. Todos estes sistemas fazem parte integrante do corpo que servem. Também eles, como tudo o resto, são compostos por células vivas. Essas células também precisam de ser alimentadas regularmente para manterem a sua integridade, e, à semelhança de qualquer outra célula do corpo, também correm o risco de adoecer e morrer.
   A ordem do aparecimento dos órgãos, dos sistemas e das funções nos organismos vivos é crucial para se compreender como algumas dessas funções emergiram e começaram. Isso torna-se sobremaneira notório na necessidade de considerar as precedências das partes e das funções na história dos sistemas nervosos, sobretudo do sistema nervoso humano e dos seus magníficos produtos: mente e cultura. Há uma ordem para a emergência das coisas, que será ou não estranha, dependendo da perspectiva em que as consideramos.


  Damásio, António. A estranha ordem das coisas. Lisboa: Temas e Debates, 2017, pp 100-101.
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018


Está prevista, para meados de fevereiro, a saída da Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017/2018. Esta publicação, com cerca de 200 páginas, terá a sua Apresentação em dia e local a anunciar.
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COORDENAÇÃO
Victor Oliveira Mateus
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CONSELHO EDITORIAL
Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
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COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
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poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
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ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
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caderno:
Maria João Cantinho.
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crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
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prosa;
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018



     Hoje não me dá jeito morrer


Hoje não me dá jeito morrer. Hoje
tenho uma fantasia ao lume, do género
andar no parque de mão dada; e semeei
palavras graves, ando sempre à cata
dos rebentos. Hoje tenho de olhar
para uma pedra. E de definir dois pontos
cardeais a um pássaro. E de rebolar
numa encosta quando eu era pequena.
Hoje não tenho tempo para morrer, estou
a pensar aprender tango, inclinar-me
a trinta graus nos braços de um galã
com a perninha em tagatés àqueles
que me vêem. Hoje trinquei chocolate
e viajei, como se o chocolate me fizesse
estrelada e imortal, o horizonte chão
daquela trincadela impede obviamente
a morte neste dia. Hoje não dá jeito,
tenho de ir de viagem amanhã,
ou a daqui a um mês, para conhecer
os sonhos que andam aí e nunca poisam,
sempre guardados num grosso calendário.
Tenho da amar um gato, e uma pessoa, e um quadro
que me diz que há muitos outros, e uma árvore
com quem há vários anos tive um caso. Hoje
a Música apareceu-me com uma ponta de ironia
e perguntou: "É hoje?" E eu disse-lhe que sim,
porque não estou junto da morte.
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  Pires, Isabel Cristina. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 58.
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


      As palavras e a máscara


Para que servem as palavras
que nunca cheguei a dizer?
As justificações?
Um cabriolar de motivos,
que, por mais autênticos e verdadeiros,
lerias como farsa
para um palanque que o tempo não poupou.
De que serve falar do não pensado
ou do pensado sem rigor nem previsões;
dessa loucura antiga
que a vida inteira puniu
como um resgate
do que em mim emenda nunca tivera
nem sequer diminuição?:
pagamento desmedido;
tormento por um gesto descuidado,
estouvamento;
máscara com que ainda hoje disfarço
aquilo que não tem nome.
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Mateus, Victor Oliveira. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 129.
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Dá-me a tua ausência.
Esse rigor absoluto
onde o silêncio se mistura
com a pacificação sem remédio
de nada querer.
Devolve-me esse espaço,
onde a imaginação desenhou
ilhas de possíveis
e, crédula, não vislumbrou
a lâmina acerada do tempo.
Concede-me,
num lampejo puro e definitivo,
a vasta plenitude do vazio,
esse vazio em que tudo
se acabará transformando,
tudo, mesmo as imagens
que um dia suspeitámos
demasiado certeiras e coloridas.


   Mateus, Victor Oliveira. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 128.
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018



Este amor es una distancia y su escala.
Es un dolor apuntalado en su angustia y su frío sano.
Este amor sin peinar,
con afonía y destreza contenida,
este almanaque de temblores y profundos.

Este es un amor a medio sudar,
una constelación acunada,
una piedra blanda en el bosque
y todo el sentido de la palabra cobijo.

Es un idioma sin quebranto,
este amor no es otra cosa que la sed de plenitud
y todos los miedos colgados al fresco.

Este amor nos concierne.
Nos define con luminaria limpieza,
sin brillos silábicos ni flora impermeable.
Nos mece en sus hielos y sus abrigos,
nos alimenta inevitablemente,
nos corresponde a pesar de nuestros desmanes.

Este amor está tan hecho de sí
que es difícil sabernos fuera de su excepción.
Este amor sin apellidos,
sin escoba para la derrama...
Este amor.


  Saravia, Rafael. El abrazo contrario. Madrid: Bartleby Editores, 2017, p 51 (Frontispicio de Antonio Gamoneda).
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Cuento la historia sin creerme el final dictado.
Ni las cazuelas se llenaron
siempre que la voz se alza pidiendo equidad,
ni el nombre avanza con más celeridad hacia la Tercera
que cuando se pronuncia involucrado de lluvia.

Las plazas siguen teniendo fugas;
ellas se aprietan las convocatorias en fechas señaladas
y ansían el amor libre fuera de domingos comerciales.

Los contenedores jamás han vivido una paz tan duradera
en época de hambre y disimulo.

No obstante, la especie evoluciona.
Se sabe esclava de su condición,
                                      y eso ya es mucho saber.

En el siglo XXI,
apenas un par de décadas después de su inicio
la vocación de libertad está demodé.
Dos asalariados valen una paga,
un funcionario sacia el doble de amargor
por menos de un sobre de sacarina.

La Seguridad Social es ese lugar donde duele la vida privada
y los enfermos son más subjetivos que en los espacios de Topor.

La justicia es un producto por encima de nuestras posibilidades.

No hay arcén para la disidencia,
no hay alternativa para el que piensa que vivir
es un derecho y no una subvención.

Cuento la historia sin intención de creer.
Los bocados de argumento están naciendo ahora.

La esperanza viene de hoy.


  Saravia. Rafael. El abrazo contrario. Madrid: Bartleby Editores, 2017, pp 32-33 (Frontispicio de Antonio Gamoneda).
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terça-feira, 9 de janeiro de 2018



            23. DO FINAL

Sou o homem das alamedas,
que anda devagar coberto pelas árvores
com a memória arrancada da cabeça.
Não me bastam as velas das igrejas
para clarear o instante destas horas
no meu relógio de pulso parado.
Rua imensa para preencher o silêncio
costurado no corpo do meu final.
A poesia é a asfixia
que me faz morrer aos poucos.
Corre este rio sobre meus pés cortados
por folhas amarelas.
Tenho uma igreja fechada dentro de mim
com altares desertos.
Percorro os corredores dos campos
como se a colher trigo
vigiado por aves tristes.
O poema se perde
como a vida que se vai aos pedaços
no antigo vaso ausente da sala.
Não estou comigo
nem permaneço com minha alma.
Leve é o nada
em que desapareço
e dou tudo por perdido.
As palavras mortas me habitam a boca
com sílabas que sangram.
O guarda-chuva vazio
me cobre inteiro,
mas ainda vejo o que me cerca.
Perdi meu chapéu
com pensamentos inúteis.
Agora só quero
me esconder do que resta de mim.


  Faria, Álvaro Alves. 23 elegias da mão esquerda. Coimbra: Palimage, 2017, pp 34-35.
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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018



abrazado al mutismo,
con la llovizna en mi rostro,
de regreso a casa correteando por las aceras,
debajo de la lluvia,
metiéndome en los charcos,
reaparecían las sensaciones que dese niño me embargaban

;

me detenía en los torrentes venidos de los techos,
cayendo de las canoas derruidas,
yéndome con al agua,
abandonando por un momento las dudas,
la ajenidad,
el silencio,

escapando sin escapar de aquel lugar sin nombre,
del lugar sin lugar asomado en el valle,
mas allá de la bruma,
de mi extrañeza

;

 Guillé, Álvaro Mata. Más Allá de la Bruma. Ciudad de México: Casa Editorial Abismos, 2017, p 15.
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Estou na densidade
de um verbo solitário
no horizonte de uma língua
incompleta

desenho linhas sem gravidade
transgressões da linguagem
que me conduzem ao branco
palco da palavra onde te encontro

eclodes como um navio solar
por entre a aura de um aceno
como se os teus punhos
derramassem a líquida seiva
de um arbusto

e neste corpo balanço a água
de um mar antigo
adio o fogo
flutuando na superfície
de uma pele tranquila


   Rosa, Gisela Gracias Ramos. O Livro das Mãos. S/c.: Coisas de Ler, 2017, p 34.
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domingo, 7 de janeiro de 2018



A Victor Oliveira Mateus


Passemos erguidos com a vénia do coração
perante quem a cicuta produz efeitos
que desenham o rosto de quem
a verteu e ofereceu com a língua informe.
E àqueles cujo olhar não mais diz que
a ávida esperança da escuta a esses
depositemos a oração do poema
com as palavras mais simples


 Rosa, Gisela Gracias Ramos. O Livro das Mãos. S/c.: Coisas de Ler, 2017, p 52
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Houve um tempo em que as aves
não estavam embaciadas.

As asas não tiveram
a sorte de Ulisses
e Ítaca
é a melodia do pranto.

Ficámos sós,
a matar as teclas,
com o piano pendurado nos olhos.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p 57.
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sábado, 6 de janeiro de 2018



Sabes, meu amor,
adoro os pássaros que voam
quando as árvores já não são suas.
A biografia do coração
raramente esquece a queda das folhas.

E o que é o voo para lá do Outono?

Não me digam para guardar
o vento na garganta
ou que as tempestades
são retratos de um hospício.
O teu corpo ensinou-me,
o Verão é um felino
e a hierarquia das garras
só o tempo a sabe.
É certo, as nódoas têm sinos,
mas no pináculo do perfume
ninguém observa versos rotos.

Ainda te quis quando a pólvora
tocava os últimos acordes nos ramos.
Não tinha aprendido,
aparar as unhas à neve
serve para pintar biombos nos olhos.
Se tivesse ouvido Dostoiévski ou Gógol
e bebido as sombras de São Petersburgo,
sabia,
o ouro das catedrais
assimila a mágoa da cidade.

Sabes, meu amor,
a eternidade procura sempre uma corda no céu.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, pp 25-26.
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

 Com Detergente, obra que tem como epígrafes um verso de Cesário Verde e outro de Ruy Belo, Ruy Ventura instala-se deliberadamente numa zona de interseção dos géneros literários: estamos perante uma dramaturgia onde duas personagens vão dialogando? Perante dois monólogos justapostos onde duas vozes poéticas se fazem ouvir, embora tangenciando-se aqui e ali? Ou estamos perante um livro de poesia onde o dialógico ocorre em socorro de uma mensagem de cariz transcendentalista e de uma acentuada função poética.  Pessoalmente, inclino-me para a última interpretação, daí ter lido (com muito agrado) esta obra à luz da poética de alguns dos grandes dramaturgos franceses da primeira metade do século passado, como por exemplo Paul Claudel e Henry de Montherlant, bem como da lucidez desesperada de um Pierre Drieu la Rochelle.
A obra inicia-se com duas personagens (figuras? Vozes poéticas?) que se fazem ouvir junto a um edifício em construção (a simbólica do livro é algo a considerar!), enquanto ao fundo se ouve o Quatuor pour la Fin du Temps de Olivier Messiaen. Também não é acidental a escolha da música de Messiaen: um dos maiores compositores do século XX, compositor esse cuja profunda religiosidade atravessou toda a sua vida e toda a sua obra. Eis um excerto do livro:
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Raul:
(...) Há quem vença a tempestade e descubra na ausência da imagem um motor. Há quem veja na luz intensa do farol uma resposta e, na resposta, um íman que leva à construção de um abrigo e ao confronto com as marcas da itinerância e da subida. Temo contudo o vazio que resulta da remoção do entulho. Não dispenso o domicílio quando dispo o território e a lembrança. Preciso de mirantes e de labirintos, mas recuso ver e, sobretudo, perder-me.
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João:
Dias virão em que os passos serão pagos: não poderemos atravessar se não pusermos os joelhos em terra e venerarmos o espírito sem acento, essa inversão do fogo e da ventura. Dias virão em que os olhos pagarão tributo para fitarem o céu e o oceano. Dias virão em que a entrada na serra e nos seus limites obrigará ao pagamento da portagem. (...) Há quem escreva versos, mas dispense a escassez, o trabalho, a descoberta. Há quem vá filosofando, mas rejeite o amor e a sabedoria. Há quem pinte, molde, filme, dance e represente, mas feche os olhos às imagens que nos desafiam, como lava no dia do juízo. Há quem escolha (e esconda) de dois senhores o mais rendoso - e assim afunde (e se afunde) num terreno movediço todos os corpos e, com eles, a alegria, a dor e a graça, transformando-nos em fósseis liquefeitos, em crude que um dia arderá nessa fogueira onde os autos-sem-fé do nosso tempo vão colocando a voz e a incerteza.
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Raul:
Temos de sorrir (dizem). Temos de suportar, ainda que a dissolução nos transforme em vermes, em roedores que voam ou rastejam, corroendo as estradas com excrementos. Somos vítimas ou agentes do veneno? Prefiro não dizer. Prefiro não fazer Se o fizesse ou dissesse, cortaria a minha mão ou a minha língua (...) Desvio os olhos do risco. Descubro o engano e a cobardia. (...) No entulho hei-de encontrar o braço (detergente) - e nesse lume sobreviverei.
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  Ventura, Ruy. Detergente. S/c.: Editora Licorne, 2016, pp 16-17.
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018



                           Isto  


Isto que escapa entre dois pensamentos
às vezes parece fugir e às vezes
parece apenas voltar (sem regresso)
à sua pátria, qualquer seja ela.

Isto que às vezes era quase um nome,
não fosse inédita a falta que deixa
(não fosse escuro imaginar dizê-lo),
parece às vezes ter vontade ou sexo.

Ou talvez tudo seja apenas o hábito
de supor coisas onde coisa alguma,
ou nada exista senão intervalos:

o corpo apenas um (entre dois nadas),
o mar aquele que entre duas praias,
e a água um intervalo da espuma.


Neves, Cláudio. ouvido no café da livraria. São Paulo: Editora Filocalia, 2016, p 91.
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018



        Somewhere in time


Não é que fosse uma paixão antiga:
ficou paixão só quando nos revimos
depois de o quê, senão bem perto disso,
ficou paixão e aí ficou antiga:
sabe, essas coisas ficam décadas, ainda
que nunca nem tenham de fato sido:
me perdoe se sou ou pareço prolixo:
nem sei se dói, mas uma coisa eu digo.


  Neves, Cláudio. ouvido no café da livraria. São Paulo: Editora Filocalia, 2016, p 39.
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         O Funeral de Heféstion


O inanimado nunca gerou tanto
Movimento, o deitado tanta altura.
Velas de púrpura, proas de pranto,
Navegam o ar, ao vento da loucura.
        A escassa coisa, um homem,
        E as línguas que o consomem
Fremem por se enlaçar na borra escura.

Símbolo é tudo, fantasmagoria
Quanto a luz forja e a mão ao céu levanta.
Sobre troféus, panóplias e armaria
Em cada canto uma sereia canta
        Pela voz de algum vulto,
        Reles bípede oculto
No templo tênue que no azul se implanta.

Urge enganá-lo, o hirsuto horror que assombra
Cada conviva do avesso e do inverso,
Rever o antes do ser, vestir a sombra,
Ser o logro e a graçola do universo.
        Que a ebriez da honra e do hoje
        Cubra a escória que foge
Ao som do rio primevo e preverso.

Quarenta homens de alto, arcos, quimeras,
Colunatas pintadas de ocre e ouro,
Hidras, centauros, grifos e outras feras
E o mais que pague o pérsico tesouro,
        Bandeiras tatalantes
        E as almas inebriantes
Da mirra, do aloés, do vinho e o louro.

E queima! Igual a nós. Maior que a pira
É o caos que nos erige, o amontoamento
Do que um homem não é e em que que se mira,
Portões de areia que abre e arrasa o vento.
        Maior, e um só segundo
        Cancela-o. Arde um mundo
Sob o sol a cada ínfimo momento.

Como aqui, nesta noite. Amor o ordena
E o fogo o cumpre. A cínica pilhéria
De ser ou de vencer, a inútil cena
Da vida esfaz-se em turva nódoa aérea.
       Há um urro e um coro. Após,
       Nem os menores pós
Restarão da nossa híbrida miséria.


   Bueno, Alexei. Desaparições, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva. Porto: Editora Exclamação, 2017, pp 110-111.
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terça-feira, 2 de janeiro de 2018



          Ítaca


Quer tremam os céus
Que me auguram morte
Ou se esforça o deus
Da úmida cratera
Contra a minha sorte,
Ítaca me espera.

Cheire-me o gigante
Na inviolável furna,
Beba o mar bramante
A última galera
Na exaustão noturna,
Ítaca me espera.

Puxem-me as sereias
Com sonoros laços,
Prenda-me em suas teias
Aquela que impera
Nos mortais cansaços,
Ítaca me espera.

Lance-me bruxedos
A odiosa maga,
Mordam-me os rochedos
De dentes de fera
Onde o mar nos traga,
Ítaca me espera.

E lá longe brindem
Minha hora funesta,
Mesa e adega findem
Da mansão severa
Para a hedionda festa,
Ítaca me espera.

E então durmam tortos
De risos e vinhos,
Vivos quase mortos,
Neles meu ser gera
A ânsia dos caminhos.
Ítaca me espera!


  Bueno, Alexei. Desaparições (Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva). Porto: Editora Exclamação, 2017, 78-79.
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017



eu, poeta sem função, inquilino das palavras
oblíquas, torto como um rádio à beira de avariar,
se negamos a música dos outros, e sintonizamos
países extintos, ainda assim, nessa habilidade de
circo mudo, enfeito com pérolas o pescoço do
silêncio, ignoro os prodígios da civilização, e fico
a falar sozinho, dirigindo o trânsito das coisas
pequenas, evitando a contramão do amor, ele que
sempre tem razão, quando traz os recados mais
simples, na urgência de evitar a taxa máxima, que
sempre pagamos, quando pomos a falar o coração.


  Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 32.
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a noite entrou nos meus olhos, apagou a cor das
sombras, as paredes ficaram nuas, como os gatos
pardos, debaixo da lua fundida, preciso do teu
nome, no meu apelido triste, manda-me um lado
do teu rosto, para eu cunhar na minha sombra, uma
linha descosida, aguentando a língua do verão, se
ainda houver sinal, de termos descido da poesia,
e talvez bastasse uma porta mal fechada, que eu
ainda me lembro, como se chega ao resto da casa,
como se organizam as tuas gavetas, como respiras
debaixo dos livros, como dobras as cartas depois
de lidas, manda-me qualquer coisa, remendada
ou fora do tempo, metade de uma coisa que fosse,
uma aparição tua, já não peço tanto, tão pouco
que nem vale a pena rezar aos santos, já todos me
ouviram morrer em silêncio, à tua espera.


  Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 9.
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017



as palavras quiseram amar-te, onde eu não podia
chegar, fintaram as sombras, evitaram os espinhos,
cantaram no teu salgueiro chorão, fecundando as
enxurradas, quando a poesia sobra do meu lado,
para cantar no teu.


 Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 5.
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017



              Les hirondelles


Ces coeurs d'oiseaux - D'oiseaux fidèles - Sous la
corniche - Les hirondelles - Dormaient chez nous

Le réverbère était - Heureux auusi - Dans sa lueur -
Brûlant chez lui - Bien à l'abri

Et les lumières - S'ouvraient partout - Pour voir la
nuit - Dormir chez nous


  Delève, Ernest. ça rime et ça rame, Anthologie Thématique des poètes francophones de Belgique. Loverval: Éditions Labor, 2006, p 25.
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                    LXII

      Aquí junto a la espera


Recuerdas que te dije, "dans l'océan du soir"
enciendo la memoria, mientras regresso al cuarto
para vaciar el día cargado de emociones,
en el cajón del fondo, donde van las heridas
mal curadas del pecho, junto a alguna nostalgia
que me asoma en los ojos para que no me olvide.
Y sonrío de pronto, porque sé que me quedo
con la parte más mía de mis cuatro paredes.

  Alonso, José Antonio Valle. Adagio en París. Valladolid: Editorial Azul, 2016, p 143.
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                    XLV

  He estado en el letargo


Recuerdas que te dije, de la melancolia
y he visto en la ventana asomarse la noche,
entrar hasta mi cuarto y quedarse conmigo
a dormir mi ceguera en sus maternos brazos.
Mientras a la otra orilla del lado de mi sueño
llamaban por mi nombre las ramas de los chopos
y el río se reia llevándose las hojas,
y yo tendí las manos, y me deshice en humo.


   Alonso, José Antonio Valle. Adagio en París. Valladolid: Editorial Azul, 2016, p 109.
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          Olhar de poeta


Um olhar de varar
poeira pele poros
roupas e paredes.
Olhar de levantar
escamas e máscaras.
Olhar de desvendar
a chuva vindoura
na nuvem de agora.
Ver a pastagem verde
debaixo de alva neve.
Enxergar no lago
a milenar geleira.
Adivinhar na ilha
montanha submersa.
Olhar a se lançar
além do presente
vendo no ovo a ave
e na ave o voo.


   Cabral, Astrid. Palavra na berlinda. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2011, p 69.
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           Mídia


Consanguínea sou
do silêncio e da sombra.
Rejeito a distância
entre palco e platéia.
Basta-me a pequena glória
de agradar alguns.
A alma não pede palmas
só apertos de mão
de igual para igual.


   Cabral, Astrid. Palavra na berlinda. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2011, p 27.
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              Vestíbulo


A los pies serenos de la vida,
en medio de la luz,
tiendo mi alma.
Avanzo lentamente, bajo el sol
que abarca
el horizonte. Quién me llama?
Mi vida es el murmullo de un adiós.
Detrás de mis pisadas
ya no hay nadie.
Estoy lejos de mí
y, sin embargo,
encima del silencio soy yo mismo.
   Vuelvo de nuevo
a hollar la claridad
que fecunda mi ayer adormecido:
en las adelfas de mi alma
hay un zorzal
que llora y se alimenta de mi herida.
Vuelvo a ser niño,
a perderme entre las olas
del trigo derrotado por la lluvia.
A unos pasos de mí, se alza el umbral
que habré de traspasar
para estar vivo.


  Andrada, Alejandro López. El horizonte hundido (Poesía desreunida). Madrid: Hiperión, 2017, p 81 (Prólogo y selección de Antonio Colinas).
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       Deserción

Pongo la mano encima del dolor.
Al pie de la espesura,
quién me llama?
Nos lo robaron todo. Nada queda:
sólo el amor pudriéndose en mi alma.


   Andrada, Alejandro López. El horizonte hundido (Poesía desreunida). Madrid: Hiperión, 2017, p 73 (Prólogo y selección de Antonio Colinas).
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       O olhar que arde - I 


Regozijo-me
pela facilidade
com que me dou
ao olhar que arde,
ao coração que permanece e avança
(em busca de outras leis,
de um outro universo
com outras religiões,
com outras letras)
em direção ao sol que já me enleia,
em direção à terra que, insistente, piso,
em direção ao húmus
que constantemente observo
e absorvo,
em direção ao som que me faz
dançar,
que me faz voltar de novo
para o olhar que arde
frente à paisagem
às vezes desértica e silenciosa,
às vezes a mostrar um rio
e as suas verdejantes margens,
às vezes a deixar entrever
o próprio olhar que arde
e se dissolve
na sua aérea casa
de ternura.


  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 30.
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     A escrita que tarda


A escrita do teu rosto já me tarda
e, embora tardia, é já abrasamento.
Sei o teu nome. Mas não sei o assombro
de te voar nos ombros e nas virilhas.

A escrita do teu rosto já demora
num corpo de páginas branquíssimas.
Estridente é a voz, esta que implora
pela luz das manhãs que te ornamentam.

Num cadeiral de sono e invernia
a escrita do teu vulto já me tarda.
Mas não desisto. Num estampido
de folhas e metal - num revolver
de brumas - reacendo o rumo
(o rubro) desta chuva
que há-de fazer crescer as tuas letras
nas páginas de mim, da minha alma.

  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 17.
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domingo, 24 de dezembro de 2017



       Ni con el pétalo de una rosa


Eso decían antes
los hipócritas voraces
los devoradores del alma
y del cuerpo de la mujer amada

Verdad era que para laceraciones y rasguños
más efectivas eran las espinas
que los delicados pétalos de la Rosa de Villalba

Hoy, los neo-hipócritas del siglo XXI
reivindican
de la boca para afuera
la igualdad de género
el respeto por los derechos que antes eran sólo del hombre
y que hoy reivindica reclama
la mujer

Explotadas, exiliadas, humilladas,
cargando los hijos a cuestas
y uno más en la barriga
transitan caminos de desprecio e injusticia
en los que en grandes pancartas
en anuncios del más luminoso neón
           se lee: 
Más ruido hace la hoja del árbol al caer
que la opinión de una mujer


 Vera, Enrique Viloria. Poemas Salmantinos. Salamanca: Centro de Estudios Ibéricos y Americanos de Salamanca, 2017, pp 59-60.
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sábado, 23 de dezembro de 2017


      Vivir Muriendo


                       El año que es abundante en poesía, suele serlo
                       de hambre.

                                Miguel de Cervantes



A lomo de tu jamelgo hirsuto
el mundo recorres
los entuertos continúan
el hambre   la guerra   la miseria
los exilios y los destierros
confirman lo sabido
el hombre nunca estuvo hecho para la paz

La mentira campea
la senda de la virtud sigue siendo estrecha
la libertad ya no brilla
el vicio es ancho y espacioso

Todos callan a conciencia
el que denuncia es confinado a una cárcel de Argelia
las palabras de los oprobiosos
están por encima de los hechos
El mundo gira en mala dirección

       Miguel

Nadie lee   muchos deamdulan por el ciberespacio
una puerta se cierra sin que otra se abra
rema la envidia
los oportunistas se durmen en la costumbre
se dificulta fabricar el proprio destino
para tu fortuna y la nuestra
quedan la poesía para cantarle a las cosas humildes
y amistades que nadie puede turbar


  Vera, Enrique Viloria. Poemas Salmantinos. Salamanca: Centro de Estudios Ibéricos y Americanos de Salamanca, 2017, pp 57-58.
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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


CAPÍTULO 18
Fósforos no escuro:
Sobre Negro Marfim, de Victor Oliveira Mateus


                   The great revelation had never come. The great revelation perhaps
                   never did come. Instead there were little daily miracles, illuminations,
                   matches struck unexpectedly in the dark.

                         Viriginia Woolf, To the Lighthouse (1982:249).
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   Seria de forma tacteante e de coração aberto que nos deveríamos aproximar, sem vergonha ou embaraço, do novo trabalho poético de Victor Oliveira Mateus. Uma obra que, pela densidade imagética a que se propõe e pela intensidade das meditações que desenha, desafia qualquer infrutífera tentativa de paráfrase. É essa a marca-de-água da grande poesia. Versos que, dizendo aquilo que têm para dizer, não carecem verdadeiramente do véu crítico que sobre eles, em vão, sempre nos atrevemos a lançar. E, assim, quase paradoxalmente, como que impera uma cintilante transparência, irrompendo do seio de uma escuridão avassaladora que permeia a tessitura deste Negro Marfim.
   A voz poética que percorre estas páginas aceita o rumo que Goethe traçou para o aprendiz de enigmas que todo o poeta é - "Faz da tua dor um canto", intima o autor de Poesia e Verdade. Em textos que combinam magistralmente um contido fôlego narrativo e a pregnância da expressividade metafórica, desfila perante o leitor um elenco de actores, que albergam uma prismática multiplicidade de olhares, intérpretes-fingidores que vão desempenhando os seus papéis, (...)
   Victor Oliveira Mateus põe em cena uma espécie de tragédia absoluta das nossas vidas, cabendo ao poeta o papel de precária testemunha de um tempo sem aura, de um alegre apocalipse (como lhe chamou Hermann Broch) em que, inapelavelmente, nos vamos afundando. (...)
   Em Negro Marfim, naufrágio com espectador também se lhe poderia chamar (para utilizar o título de um livro de Hans Blumenberg), o sujeito agónico assume a incumbência ética de captar fugazes instantâneos de múltiplas vivências, testemunhando um mundo em convulsão, uma espécie de estéril e exaurida Waste land (...). Poética, pois, da constatação da perda, tangenciando a problemática do desconcerto do mundo, de camoniano tradição (...).
   Estamos, pois, perante uma poesia indagativa que se demora nesse tactear dos escombros, vasculhando as ruínas, em demanda daquilo a que Benjamin chamou a frágil força messiânica a que o passado tem direito. Seria, porventura, frutuoso ensaiar uma análise cuidada do livro em apreço à luz das considerações benjaminianas em torno da estética da ruína e da noção de melancolia. (...) É como se, como nos diz Benjamin, no seu persistente alheamento meditativo, a melancolia absorvesse na contemplação as coisas mortas para as poder salvar.
(...) A tragédia, a escuridão, tem sempre a mão estendida às estrelas; nela habita uma semente de esperança, uma espécie de rasto de luz que, recusando extinguir-se, brilha como uma pérola negra que, embora negra, é ainda pérola. Como do fundo do inferno saiu Dante para voltar a ver as estrelas ( e quindi uscimmo a tiveder le stelle), (...)
   Trata-se de uma poesia dilacerada e dilacerante. Em Negro Marfim, Victor Oliveira Mateus pinta, efectivamente, um grito perante um universo que se desmorona (...) é o canto que emerge depois da harmonia, após a barbárie medrante no seio de um mundo despido de ética e amputado de beleza. (...)
   Trata-se de um olhar disfórico e intransigente e nisso se aproxima de um escritor como Rui Nunes: "o negro é a intimidade/ de todas as cores, no Outono de um passeio no reno/:/ O negro é o estrume do luto," lemos em Uma Viagem no Outono (Nunes, 2013:33). Leio Negro Marfim como um inadiável apelo contra o servilismo e o esquecimento, contra o empobrecimento da imaginação e o aviltamento da beleza, contra o padronizante e estupidificador poder económico (...) e a cinzenta era da 'burrocracia' - para utilizar o magistral e justo neologismo de Herberto Helder.
(...) O sujeito poético ora espia, ora é espiado, numa intrincada teia de olhares que confunde presa e caçador, voyeur e objecto de desejo.(...) esses súbitos e delicados sobressaltos como que redimem, sendo, no dizer de Virginia Woolf, "iluminações, fósforos que se acendem inesperadamente no escuro", e que dão voz a uma palavra intermitente, tão precária e gloriosa como a vida.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poéticas da incompletude. V. N. Famalicão: Edições Húmus, 2017, pp 157-164.
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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


NA MIÑA CAMA agora viven
dous paxaros amarelos...
O primeiro esfúmase sereno
entre zarapatas de néboa.
O outro ecoa na sombra da
lapa consumida.


   Valle, Luís. Para que eu beba. Cangas do Morrazo: Edicións Barbantesa, 2017, p 46.
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domingo, 17 de dezembro de 2017



NA MIÑA MENTE bailan as
brizas atadas às ráíces das
árbores que saben chorar.
Diluvia no mundo enteiro
e todo é máxico, coma os
soños no corazón do neno
irado. Prendo a lámpada.
O canario respira contra a luz,
à marxe do pensamento e do
soño.


  Valle, Luís. Para que eu beba. Cangas do Morrazo: Edicións Barbantesa, 2017, p 36.
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sábado, 16 de dezembro de 2017


Crónica publicada hoje  na Plataforma "Escritores.online". Ver aqui  https://escritores.online/textuario/cegos-sao-os-outros-victor-oliveira-mateus/  
Foto: Leitura no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca em 2017/10/25.
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                                        Cegos são os outros
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     Ao sair do café, de manhã, logo após o pequeno-almoço, deparei-me com duas mulheres, saídas nem eu sei de onde, que me barravam o caminho. Uma delas, vestida de negro, estendeu-me um livro de capa acastanhada. Se eu queria ouvir a verdade, perguntou-me. Eu, ainda ensonado e com pouca paciência, resolvi gracejar: Isso está mal traduzido! A mulher de negro perdeu a compostura, vociferou, saltitou à minha frente. Eu, que me tinha jurado jamais argumentar em questiúnculas ou conciliábulos deste tipo, resolvi recuar. Contudo, a mulher de negro não desarmou: falou-me do eminente fim do mundo, folheou o livro, defendeu a indiscutibilidade do escrito. Os seus olhos chispavam, o corpo aos estremeções parecia barco em vendaval tremendo. E foi então que resolvi dar um cunho mais sério à abordagem: falei-lhe das interpretações das Escolas de Alexandria e de Antioquia, das questões surgidas em torno das Epístolas de Paulo, etc. A mulher de negro foi ao rubro: Quem devia estar aqui era um ancião!, gritava ela. Um ancião é que havia de lhe responder.
     Quando me preparava para as contornar e cortar cerce a conversa, senti uma mão pousando levemente num dos meus braços. Olhei. Era a outra mulher, igualmente idosa, mas esta agora toda vestida em tons claros, uma cabeleira curta e toda ela branca a condizer. Olhei-a. Tinha uns olhos de um azul tão líquido que me fez lembrar os de meu pai já nos seus momentos de assumida loucura. Olhos parados, virados para a porta do Banco. Ó meu senhor, perguntou-me ela, então pensa que andamos neste mundo para nada? Apanhado de surpresa, estrebuchei, entrechocaram-se-me os raciocínios, desabou-me a bravata, que, ainda conseguiu dizer: Não, por acaso até não! A mulher de claro, fazendo subir a mão, tocou-me os ombros, o rosto, os óculos e sussurrou: Então já vê! Ficámos os três num silêncio breve.
     A mulher de claro, serena, obliquava com frequência a cabeça, enquanto a de escuro, com a respiração rápida dos ansiosos, invetivava tudo e mais alguma coisa, até que decidiu, por fim, confessar o milagre que lhe tinha acontecido. Resolvi acabar com a cena: Ó minha senhora, já vivi o suficiente para saber que há mais milagres do que aquilo que julgamos ver! A mulher de escuro atrapalhou-se: não percebia em que sentido eu usava o termo milagre, procurou avidamente auxílio na outra, que, silenciosa, continuava obliquando a cabeça como pêndulo bem afinado. Em desespero, a mulher de escuro jorrou em cascata: as suas duas operações ao coração, as feridas – e arregaçou ligeiramente as mangas para mas mostrar – , a tensão, os desmaios etc. Foi aqui que lhe perguntei o nome do cardiologista que a acompanhava. Mas o senhor pensa que eu com 300Euros por mês de reforma, tenho dinheiro para andar sempre em especialistas? Percebi então que a conversa adquiria novo rumo, rumo esse no qual eu não costumava ter hipótese: tirei da mochila um papel e comecei a escrever… A mulher de escuro, sem perceber o que eu estava a fazer, olhava-me fixamente. Voltei a guardar a esferográfica na mochila e entreguei-lhe o papel: A senhora vá aqui a esta Clínica, está aqui o nome de um cardiologista, eu já percebi que a senhora está mal medicada, olhe, é naquela rua lá ao fundo, vá lá, que eles fazem-lhe os exames que forem necessários. E apontei para uma rua ao longe. A mulher de escuro insistia na questão do dinheiro e eu tive de a sossegar: Escute, a Clínica é de amigos meus, está muito bem apetrechada, faça mas é o favor de lá ir, ninguém lhe irá pedir dinheiro, eu já telefono para lá. A mulher de claro voltou a pousar a mão no meu braço, levou-a de novo até ao meu ombro, manteve-a aí, com uma ligeira pressão e disse: Ah, eu sabia… afinal o senhor é um homem bom! Não consegui conter uma gargalhada: Eu? Um homem bom?! Só essa é que me faria rir agora, a senhora não imagina a quantidade de pessoas que eu lhe poderia apresentar e que lhe diriam exatamente o contrário. Ela fez descer a mão até ao meu pulso, que agarrou com firmeza e, sorrindo, já sem obliquar a cabeça, murmurou: Pois é, mas esses que diz, veem com os olhos, enquanto eu vejo com o corpo todo! E foi aqui que resolvi olhá-la com mais cuidado, olhar a sua serenidade, a sua argúcia, a sua capacidade de silêncio, olhei e conclui que aquela que de nós melhor via, afinal, era cega.
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