quarta-feira, 20 de junho de 2018

segunda-feira, 18 de junho de 2018



                          Ode Sobre o Alto da Boa Viagem

I.
Da demência dos homens


Como quem hesita no abandono, assim um pássaro tem que perceber porque outro pássaro existe. Duras as vidas sem vento, dura a luz sem os homens, dura a demência que os deuses nos atribuem. Eis a minha parte no comércio das sílabas: engano-me de propósito na escrita, cada erro tem o seu preço e se me esquecer como se faz, talvez consiga algum dinheiro pelo fim do dia.
Ofício: ensinar a loucura às hienas, aprender a cantar para as tempestades, lição breve de quem não consegue fugir da noite - ou dançar até à vertigem sabendo que a vertigem já não dança.
Mas eu ainda lanço grandes cordas às divindades, o que as prende às vésperas, ao sobressalto, à inquieta serenidade das casas. Em troca alguém deixa os líquidos à minha porta - vinho, óleos, tenebrosa água oxidada;

II.
Rosas e lobos

Rejoice! Já ouço a violência das rosas na pele, tumulto absoluto na lucidez, a réplica que se segue ao primeiro abalo, quando os lobos estremecem com o frio. Rejoice! Já minha casa desliza para a zona absurda, chão dissolvido pela humidade ou eu a entrar dentro da humidade com panos brancos e o espanto nas mãos.
Com o coração atado às nuvens, inicio a errância pelas cidades inesperadas, nas azinhagas, nas esquinas, nas ruas ásperas onde a noite não entra. Depois troco três vértebras por novas pálpebras, ou peço que alguém respire por mim - o ar que me restava esgotou-se na meticulosa mudez do amor.
Árido é o poema na obscura evidência do silêncio. Árido é o esquecimento se por ele não dou a vida: sim, eram minhas mães as serpentes em fuga que o Inverno cegou.

III.
Finita

Nada do que digas irá calmar-te os olhos. Põe a vista que sobra, as rugas, as crostas expostas aos elementos e sai. Por aqui já terminou a grande ode, o festim. Os cães virão com a fome, a memória, o ruído do seu sono. Vai, não há mais portas para o susto, leva um livro e alguma roupa. Tenta não respirar sob as ombreiras.


  Oliveira, José. Livro de Obra. Lisboa: Edição do Autor, 2018, pp 104-105.
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domingo, 17 de junho de 2018


                         Voltaste


Vejo, Senhor, que não me abandonaste.
Tenho vivido distraído e alheio
como um helianto a descair da haste,
mesmo quando sopeso o cálix cheio.

Oh! vida impessoal e sem diálogo,
chupando o fumo à trela com qualquer,
mirando as coisas como num catálogo
na saga dum perfume de mulher.

Mas hoje de novo à porta me bateste.
Há brasas sob as cinzas da fogueira
à espera da chama que acendeste

e eu por medo e cómodo apaguei.
Não sou o que viste a vez primeira.
Dar-me-ás de novo teu amor de Rei?


  Enes, José. Obra Poética. Ponta Delgada: Letras Lavadas edições, 2018, p 137.
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sábado, 16 de junho de 2018


        A Meio caminho


Quando à noite insomne saboreio
o amargor mortal dos meus limites,
por mim todo se estende o receio
do destino que sem eu saber me dites.

Aonde eu via meus dias já em meio
da estrada possível? Que me fites
vendo eu só que me vês; que em cheio
me toques de presença; que me grites

um eco mais fundo mais fundo de mim?
E eu não te saiba senão presença nua
sem figura, sem palavra, sem fim;

é como se eu fosse um cão lançado à rua
e sentisses saudades de um jardim
onde houvesse um rosto a amar ao sol e à lua!


  Enes, José. Obra Poética. Ponta Delgada: Letras Lavadas edições, 2018, p 90.
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sexta-feira, 15 de junho de 2018



seguras a memória por entre os dedos
para que nada se dissipe quando
demoradamente vens destapar-me a

boca-metáfora que diz todos os nomes
ardendo dentro contra a coisa extinta
o quintal dançando com o chão

levando em direcção aos frutos
enquanto já nada se levanta nem canta
depois    um besouro misteriosamente

escondido no caderno onde
tropeço sobre o teu nome
retinindo na jugular
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 Pedro, Mbate in "a gravata preta do corvo albino". Os crimes montanhosos. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 63.
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quinta-feira, 14 de junho de 2018


              Duas Canções

                      1

Dar ar novo ao que velho parecia:
a plástica do amor. Ciciada ocupação,
mormente a que faz da minha pele
o teu estendal, com as tuas camisas
ao vento, e a que se enleia na tua juba
cor de corvo, que me ata os olhos ao acaso
e à disciplina, dado um novo ritmo
à respiração do madala.

Issch! Só pode chorar a cabeça
do velho quando te vê, macua duma figa!
Assim me pegou o amor,
de fora para dentro, e eis-me no Índico
- planalto de flamingos e desassossegados
lírios brancos engastados em rostos
de ébano. Agradeço ao deus,
em quem descreio, o descomposto,

e também ao amor
que sigilosamente me fortalece,
porque nem suposto existe o dentro
sem o fora. Issch! Só pode chorar
a cabeça do velho
quando te vê, macua duna figa!


                     2


Foi sempre o meu oposto.
Por isso em tudo me imita.
Peço-lhe que não, Digo-lhe
"o meu amor é incomparavel-
mente maior que o meu passado."

E ela que tem postigos para tudo
abre-me o postigo dos seios
abre-me o postigo dos ombros
abre-me o postigo do umbigo
abre-me o postigo dos lábios
abre-me portão do púbis...- perdão!

Fui sempre o seu oposto.
Por isso tenho chaves
até para o que se não espera.
Nesta rua sem perspectivas,
o seguinte jogo é que mantém
vivas as nossas tochas:
enfraquecida a chuva
roçamos um no outro
em carne viva até
adormecermos o atrito.

Ela quer dizer-me "o meu amor
é incomparavelmente maior
que o meu passado",
mas eu não deixo e mordo-lho
a orelha - sangra.


  Cabrita, António. in "o branco colarinho dos corvos". Os crimes montanhosos. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, pp 42-44.
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quarta-feira, 13 de junho de 2018


          Pastagem com homens dentro


Os pastores são os depositários plenos dos planos de viagem,
adormecem a dor medem amarrados à estaca entre a erva e o esterco.
Eles abrem a manhã no estertor dos guizos
e dos chocalhos    essa a única música a rasgar o deserto
de bosta que desce até ao mar    mastigam com dentes de fome
a fome que cresce nas pastagens besuntam-se na humidade
que se desprende dos pastos e das palavras empestadas
e empastadas de mágoa e névoa: por elas
ou dentro delas se desemboca nas docas e canarias de San Diego
nos estaleiros navais de San Diego    dentro delas o corpo
se depreda nos prados da Califórnia.
Com navalhas por dentro e navios nos olhos eles assinam
assim o ponto no dorso da ilha e cavalgam as aves as nuvens
com elas fogem para oeste à frente da fome e do frio. Deste modo
pervertem as distâncias e investem os sonhos amealhados
no desespero de causa com que se espetam nas cabras
e nos cabritos.


  Bettencourt, Urbano. outros nomes outras guerras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2013, p 12.
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terça-feira, 12 de junho de 2018


                Os drogados


Cemitério dos Remédios, Inverno de noventa e seis.
Ela assobia a um cão que desaparece entre as flores secas.
Um campo de seringas e jornais estende-se à tua frente
até à linha do nevoeiro,
destroços
de uma batalha para sempre adiada.

Continuas a fitar os vultos que atravessam em silêncio a gradaria
coberta por uma lâmina de ferrugem.

Foi quando descobriste que as crianças
habitam
uma espécie de pesadelo contínuo.

São os rostos da cegueira.

As ervas estalam nos olhos de uma gárgula
e tu dizes tenho frio, não vês
que estes mortos nos vigiam.

Mas é pela mão dela que vais contornando os labirintos
entaipados,
que então dariam
- hoje não -
para algum lado.

São os poços invadidos pelos drogados.
Olhas o seu rosto, o olhar humedecido.

Repetes tenho sede, deve haver
um caminho para voltar.

Ela nunca te dirá uma palavra.

Há um cão
morto que fareja as mãos dela.


   Miguel Filipe Mochila in Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, pp 57-58.
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domingo, 3 de junho de 2018


         Distância, Bibelôs, Páginas Brancas


Não é só já a casa que responde
exacta e banal com um silêncio sobre tudo,
no quarto em que ela se deitava sobre as coxas
na falda onde abrigava um gato mudo.

Também as coisas se desprendem ininterruptas
da pedante condição de utensílios:
são os postais diários de um futuro
onde toda a noite é consumível.

Não é só já a casa que em silêncio te devolve
distância, bibelôs, páginas brancas.
Na própria malha há da madrugada
correntes de ar, camas abertas, provas, nada.


  Mochila, Miguel Filipe. Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, p 44.
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sexta-feira, 1 de junho de 2018

 
                               

                        *

Queria um portão de aço colorido, mas já não sei onde guardei as aguarelas. De resto, já devem ter secado com o tempo e os azuis são trémulos e baços.
  Como se fosse possível pintar a ferrugem das grades sobre os lagos de onde partiram as aves.
  Queria regressar ao meu país e ver os jogos coloridos numa qualquer sport tv que engane os sábados onde se esconde a alma de um músico maior.

                      *

(...)

                     *

O deserto sobe a rua, pedaços de sol incendeiam a pregação dos sábios que só levam a palavra a quem habita a areia.
   Muitos desistiram da procura de caminhos para a terra prometida, tal a força do vento e do atrito.
   Na rua onde moro faltam as pedras necessárias para a manhã subsistir.
   Bastava-me um café, um copo de água para enganar a luz.

                   *


   Ferra, António. AlterCações Climáticas. S/c.: S/ Editª, 2018.
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quarta-feira, 30 de maio de 2018



Acaba de sair a REVISTA PESSOA com a conversa abaixo postada em torno da publicação no Brasil do livro O Evangelho Segundo Lázaro. Ver aqui:  https://www.revistapessoa.com/artigo/2561/o-bem-e-o-mal-o-sublime-e-o-cruel-a-traicao-e-o-sacrificio-no-novo-romance-de-richard-zimler
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terça-feira, 29 de maio de 2018

                   
                             Fernando Pessoa: Tópicos e Deambulações


 Índice:

 1.- A Tematização da Loucura

  1.1. - Obsessão da loucura
  1.2. - O problema do fingimento
  1.3. - Libertação do medo da loucura
  1.4. - O mistério do mundo
  1.5. - Loucura e heterónimos

 2. - Heterónimos e sua caracterização

  2.1. - Alberto Caeiro
  2.2. - Ricardo Reis
  2.3. - Fernando Pessoa: poesia ortónima
   2.4. - Álvaro de Campos.

  3. - Os motivos centrais nos vários autores

  4. - A criação heterónima: surgimento e processo.


1. - A tematização da loucura

   As primeiras formulações acerca da psicopatologia de profetas, santos, poetas, filósofos, etc datam já de 450 A.C., podemos encontrá-las, por exemplo, em Eurípides e Demócrito. Também Platão no Fedro diz-nos: " (...) quem quiser chegar à poesia sem o delírio das musas, pensando aprender a arte poética sem ele, estaria errado...". Segundo Séneca, Aristóteles teria dito: "(...) nenhum grande engenho sem uma parte de insânia...". No século XVII vemos Pascal comentar: "L'extrême esprit est voisin de l'extrême folie" e, mais tarde, Diderot avançaria: "Hélas! que le génie et la folie se touchent donc de près!"
   Ora, em 1863 publica-se a 1ª Edição da obra de Cesare Lombroso "Genio e Follia", que se logo se transforma em fundamento das investigações sobre a genialidade; a sua tese é: Todos os Génios são de qualquer forma Loucos ou Degenerados Este psiquiatra italiano chega ao ponto de dizer que especialmente favorável para a produção artística seria uma boa psicose, pois reduz fortemente a Razão e liberta a Fantasia, assim teríamos:

O génio psicótico caracterizado por: desassossego interior, contradições internas, consciência exagerada do valor próprio, energia enfermiça, originalidade.

   A discussão em torno das teses de Lombroso estende-se pelos últimos decénios do século XIX até 1910. Quando Fernando Pessoa volta, em 1905, a Lisboa, com 17 anos de idade, deve ter conhecido esta discussão, pois numa carta a Cortes-Rodrigues acusa a influência de um dos adversários de Lombroso, o psiquiatra austríaco Max Nordau, embora tudo indique que a leitura de Nordau teria sido já numa fase final. Diga-se que Fernando Pessoa sabia-se altamente dotado, senão mesmo genial, we notou na sua personalidade todas as particularidades inquietantes mencionadas por Lombroso como típicas do génio, incluindo certas características de degneração como por exemplo a falta de vontade.

  1.1. - Obsessão da loucura

   Alexander Search, o primeiro heterónimo de Fernando Pessoa (ou antes pseudónimo?) começa a sua atividade em 1903 e estende-se até 1909 e aí a obessão da loucura manifesta-se particularmente em 1907 e 1908. Entre as suas 115 poesias vemos que o jovem poeta estava profundamente obcecado pelo medo da loucura. Veja-se um artigo datado de 30/10/1908 de Páginas íntimas e de auto-interpretaçaão : "Uma das minhas complicações mentais - mais horrível do que as palavras podem exprimir - é o medo da loucura, o qual, em si, já é loucura." Notamos aqui a marca de uma mentalidade fim-de-século, influenciada pelos poetas decadentes, entre os quais o francês Rollinat. Alexander Search lamenta então os males característicos desse fim-de-século:
a) predominância da inteligência sobre a vontade
b) incapacidade de agor
c) isolamento extremo dentro da sociedade
d) sofrimento pelas complicações do próprio caráter.

  1.2. - O problema do fingimento

   O amigo com o qual Alexander Search dialoga levanta nele o problema do fingimento, acusando-o de escrever de maneira fingida, censura que antecipa o poema Autopsicografia : o amigo considera as lamentações do poeta como fictícias e inautênticas, mas Search explica o deprimente da sua produção pela sua loucura, ou seja, pela consciência da sua loucura.
   O problema da loucura anda, pois, a par com a questão da readaptação de Fernando Pessoa depois do seu regresso da África do Sul. Eis o excerto de um poema de 1907:

Nunca senti tão fundo o que da humanidade me exclui e afasta
...   ...   ...
Nunca senti tão fundo o abismo entre os homens e mim.
É idiotia, loucura ou crime, ou génio - ou quê, esta dor sem fim?
...   ...   ...
Canção toda mistério, símbolos, contradições em ignóbil dança,
Mas não se ignore em nada que isto é loucura sem esperança


   O medo de perder a razão foi, portanto, muito forte no jovem Fernando Pessoa, veja-se uma quadra de um soneto de 28/3/1909:

Com severos passos arrastados, como o ódio rastejante,
Atrás do negro silêncio do meu cérebro consciente,
Ouço a loucura avançando, e sinto com dor
A terra que ela calca torcer-se e palpitar

   1.3. - Libertação do medo da loucura

   Por volta de 1910 deve ter havido uma libertação destas obsessões, como ele diz numa carta a Cortes-Rodriges: "varrido do espírito pela leitura de Max Nordau e pela ginástica sueca". Para Nordau, o génio deixa de ser esse degenerado-motor-da-humanidade como Lombroso defendia e passa a ser algo de saudável: os modernos, esses sim são degenerados, por isso são tudo menos génios e as suas obras condenáveis. Fernando Pessoa reage, por conseguinte, à mentalidade fim-de-século e o resultado desse esforço são os Heterónimos , após a criação destes o poeta passa a definir-se como histero-neurasténico, contudo, a loucura enquanto tema ir-se-á manter.

  1.4. - O mistério do mundo

   O horror perante o mistério do Todo é o tema número um da peça Fausto de Fernando Pessoa:

O sentido do mistério do todo,
Quando fulgura em mim em cheio quanto pode ser,
Aterra a minh'alma enlouquecida

   Este Fausto não é mais do que a luta entre a Inteligência e a Vida, a primeira é representada por Fausto, a segunda conforme as circunstâncias. Toda a peça é atravessada por vocábulos como: vácuo, frieza, gelar, horror, pavor. Nesta peça, como já sucedia em Search, há a separação entre os felizes, ou seja, os homens normais, e o génio, aqui personificado pelo próprio Fausto, e o tema da loucura surge como consequência do encontro com a realidade e ligada aos grandes representantes da humanidade. Por conseguinte, a loucura passa agora a ser (aqui) valorizada positivamente, como fonte de empreendimentos sobre-humanos.

   1.5. - Loucura e heterónimos

   Álvaro de Campos, mestre do sensacionismo, trata o tema da loucura de forma exibicionista: na ode Passagem das horas (1916) a fúria de "sentir tudo de todas as maneiras" confina com os limites dessa mesma loucura, e Campos passa mesmo a brincar com ela. Vemos, portanto, que estamos já bem distantes das preocupações de Search!:

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça


A loucura, como vemos, é aqui saudada alegremente e consola-o da náusea frente aos seus empreendimentos.
    Também Fernando Pessoa, ele-mesmo, na Mensagem, apresenta os heróis como exemplo dessa loucura virada para o futuro:

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
...   ...   ...   ...
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

2. - Heterónimos e sua caracterização

2.1. - Alberto Caeiro

poeta e pensador que, teoricamente, em poesia se desdobra, vive de impressões visuais e em cada uma goza o seu conteúdo original, logo, há sempre em Caeiro uma sobrevalorização da diferença:

E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes tinha visto

Ele não quer saber da realidade dos números e não quer saber de passado nem de futuro: recordar é atraiçoar a natureza. É um poeta do real objetivo e os seus pensamentos são só sensações. Vive feliz como os rios e as plantas. O seu misticismo leva-o a desejar dispersar-se e transformar-se num rebanho:

Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo.

Caeiro é um lírico espontâneo, instintivo e inculto. O seu vocabulário é pobre, predominantemente obstrato, incolor, discursivo, mas o pensador suplanta o poeta, veja-se a questão do Nominalismo :

Um renque de árvores lá longe, lá longe para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Concluímos, portanto, que Alberto Caeiro não é o pensador ingénuo que Fernando Pessoa e Álvaro de Campos tanto apregoam.

2.2. - Ricardo Reis

é monárquico, educado num colégio de jesuítas, latinista e semi-helenista, amante do exato. Como Caeiro, aconselha a aceitar a ordem das coisas e são ambos indiferentes ao social, convencidos de que a sabedoria está em gozar a vida pensando o menos possível. Enquanto Caeiro defende uma verdade absoluta que é o primado do exterior, a variedade do real, Reis tenta conquistar o prazer relativo e, sempre triste por saber que o é, apenas lhe resta iludir a dor com tintas de estoicismo (Horácio é o seu autor de cabeceira!), Reis acaba por nos propor, portanto, uma orientação epicurista, um duror esforço de auto-disciplina, a submissão a um destino involuntário.

2.3. - Fernando Pessoa

Ao contrário de Caeiro e Reis, Pessoa não tem uma filosofia prática, nele há só a expressão musical do frio, do tédio e dos anseios da alma; sofre a vida, sendo incapaz de a viver; oscila entre o ocultismo e o "tudo é sonho e aparência". Nesta poesia ortónima poder-se-ão encontrar duas vertentes: a modernista (1913-1917) com acentos de simbolismo, de interseccionismo impressionista, de paulismo e a segunda vertente que será a maneira típica do próprio Pessoa - exemplo: O sino da minha aldeia. aqui temos poemas, quase todos em verso curto, com a finura dos motivos e a descrição clássica daqueles recursos que são característicos de toda a poesia ortónima.

2.4. - Álvaro de Campos

Poeta sensacionista e por vezes escandaloso é dos três heterónimos aquele que msi percorre uma curva evolutiva: 1º Opiário, fase da decadência; 2º Futurismo Whitmaniano, amor ao ar livre e ao belo feroz que condena a literatura decadente; 3º Pessoal, é o pota do cansaço, nauseado, da abulia, do vazio, inquieto.

3. - Os motivos centrais nos vários autores

a) "Tudo é ilusão":
Fernando Pessoa . frente ao mundo: é absurdo, não pode ser!
Alberto Cairo: o mundo fenoménico apresenta-se também como estranho, nada há por detrás dele a dar-lhe sentido;
Álvaro de Campos: tenta fugir pela vertigem das sensações.

b) "Ser e conhecer-se":
Alberto Caeiro: goza a mudança das coisas;
Fernando Pessoa: recordar não é reviver, mas verificar com dor que fomos outra coisa impossível de recuperar;
Álvaro de Campos: somos só o que queríamos ser, ou antes, o intervalo entre o que queríamos e o que realmente somos;

c) "A dor de pensar"

d) "Os momentos inefáveis":
Em Alberto Caeiro, o seu positivismo não evita o regresso das vozes misteriosas, enquanto Fernando Pessoa se lamenta por não ser calmo como o mestre, porque assim tem sempre a preocupação de sonhos e memórias.

e) "Melancolia e Destino"

f)
Fernando Pessoa:
- Aristocratismo:
"E a glória do meu Rei (Deus) dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido..."

- Beleza:
"Se em mim houvesse certeza
Não seria o fluido neutro
Que ama a beleza"

- Cansaço

- Corpo:
"O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo"

- Cultura:
"Livros são papeis pintados com tinta"

- Divindade (Pessoa é sempre manipulado por um Deus oculto)

- Felicidade: é sempre do outro

- Mistério:
"Grandes mistérios habitam
o limiar do meu ser"

- Pensamento/Sensibilidade:
"Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?"

ou:

"Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando"

ou ainda:

"Que importa se sentir
É não se conhecer?"

- Ser e Nada:
"Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser"

g)
Alberto Caeiro
- Aristocratismo:
"Ontem à tarde um homem das cidades/(...)/ Falava da justiça e da luta para haver justiça" etc., etc.

- Beleza:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia" (Mas o ria da aldeia acaba sendo mais livre, porque não faz pensar em nada!)

- Corpo:
"Que perfeito que é nele o que ele é - o seu corpo,"
...
"Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono casa branca
Creio mais no meu corpo do que na minha alma"

- Divindade:
"Não acredito em Deus porque nunca o vi"

- Felicidade:
"Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se"

ou:

"Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros"

- Filosofia:
"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... "

- Mistério:
"O único mistério é haver quem pense no mistério"

ou:

"Os poetas místicos são filósofos doentes
E os filósofos são homens doidos"

- Pensamento/Sensibilidade:
"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender..."

- Ser e parecer:
" O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?"

h)
Álvaro de Campos

-Aristocratismo:
"Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importa-me com a humanidade!"

-Beleza:
"Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações"

ou:

"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime
Ser completo como uma máquina"

-Corpo:
"E todo o nossos corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma"

Felicidade: sempre ligada ao outro (também).

Imaginação: é muito importante em Álvaro de Campos!

-Metafísica:
"Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos"

-Mistério:
"Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?"

ou:

"Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade"

-A noite (como veículo de universalização e indiferenciação):
"funde num campo teu todos os campos que vejo"

ou:

"Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito"

-Pensamento/Sensibilidade:
"O cansaço de pensar
faz-me velho..."

ou:

"(...) mais vale ser criança que querer compreender o mundo"

-Ser e Perecer:
"Quem era? Ora, quem eu via"

- Sociedade (organizada):
"Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida"

ou:

"Deixai-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço"

i)
Ricardo Reis






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 (Em construção)



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segunda-feira, 28 de maio de 2018

( Do trabalho que se segue, que irá ser integrado na rubrica respetiva, perderam-se já o título e as primeiras páginas, contudo, consegue-se perceber que é um texto sobre a Ética a Nicómaco ).
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(...)  até proporções do dever: o justo meio é o que deve procurar, sendo o homem virtuoso aquele que serve de padrão a toda uma valoração para aqueles que se esforçam por conseguir esse tão ansiado meio sem o conseguir.

 3.3. - A problemática da ação

 3.3.1. - Deliberação e Escolha

   Dentro da atividade virtuosa, não importa só o justo meio referido ao sujeito, mas igualmente toda uma forma específica de atuação do sujeito para com esse mesmo obeto.
   A deliberação é, por assim dizer, a etapa que precede o ato voluntário que caracteriza a escolha, sendo, portanto, esta última sempre fundamentada na razão, deliberada e refletida. "Mas, acerca das entidades eternas não pode haver deliberação" ( In Aristote, Éthique a Nicomeque, p 133) , por exemplo, não se pode deliberar acerca da ordem do mundo, nem tão-pouco nas ciências exatas, já que estas também se nos impõem pelo seu caráter de necessidade, sendo assim, delibera-se unicamente sobre o frequente mas incerto, ou seja, sobre o possível mas contingnente.
   Existem três fatores condicionantes da escolha e outros tantos orientando a respetiva repulsa:

Escolha - o bom, o útil, o agradável;

Repulsa - o árduo, o doloroso, o punível.

   A escolha, elemento primordial da moralidade, surge da imbricação do desejo e do intelecto, acabando sempre na dominação do primeiro pelo segundo, isto, aliás, tem levado alguns comentadores a rotularem a moral aristotélica, um tanto pejorativamente, de intelectualista , "o princípio da ação moral, é assim a livre escolha (...) e o da escolha é o desejo e a regra em direção a um fim. É, por isso, que a escolha não pode existir..." (In Aristote, Op. cit. p 278) nem sem o intelecto, nem sem uma disposição moral.
   A vida virtuosa é, por conseguinte, um fim para o qual tendem as nossas escolhas prudentemente elaboradas e, por sua vez, "a virtude moral assegura bem a retidão da escolha..." (In Aristote, Op. cit. p 309)

 3.3.2. - A Prudência

   A apreciação que em Aristóteles inspira as deliberações e as decisões é o que nós designamos por prudência .Não podendo ser aplicada ao domínio do necessário, a prudência não é nem uma ciência nem uma arte, é "(...) uma disposição, acompanhada de regra verdadeira, capaz de agir na esfera do que é bom ou mau para um ser humano" ( In Aristote, Op. cit. p 286), se, portanto, o que é bom e são difere de homem  para homem, enquanto que o branco ou o retilíneo se mantém invariável, reconhece-se então que ser-se sábio só poderá ser de um modo único, enquanto que a designação de homem prudente é sempre variável (Cf. 3.2. onde se fala do relativismo referente ao justo meio ) .
   A prudência relaciona-se com as coisas humanas e que são susceptíveis de deliberação, por conseguinte, o homem prudente tem por objetivo deliberar corretamente. Qual a relação da virtude moral com a prudência? Com efeito, aquela assegura a retidão do objetivo a alcançar, enquanto que a prudência nos facilita os meios para aí chegarmos. Aquele que delibera corretamente é o que se esforça sempre por atingir o melhor bem, que é, como já vimos a Felicidade.

  4. - Felicidade e Contemplação

  4.1. - Teorização da Felicidade

   Antes de se concretizar a definição da Felicidade iniciada no Capítulo 2, façamos um breve balanço do que tem vindo a ser dito: indicaram-se algumas características da Felicidade, como sendo um Ben que se basta a si próprio, que é desejável apenas por si, que é complementado por um  certo prazer e, acima de tudo, que se identifica com uma atividade concordante com uma virtude perfeita. Clarificámos seguidamente - ainda que de forma breve - alguns conceitos: virtude, ação, etc. crê-se, portanto, poder agora concluir o que se nos deparou acerca desta problemática.
   Se, conforme se viu, a Felicidade se identificava, ou melhor: era fruto da virtude e que esta pode ser de pensamento (sujeita a ensinamento) e moral (produto de um certo hábito), vejamos ainda que tudo isto se encontra articulado com a constituição da alma humana:


Alma ............ parte racional: a que possui em si razão; a que não faz mais do que obedecer.
          ........... parte irracional: parte desejante (que participa já de um certo grau de razão); parte
                      vegetativa.
(Cf. Éthique a Nicomaque ,pp 83-86)

   Estando a parte desejante sempre sujeita às admoestações da parte racional, é exatmente nesta última que, ao mais alto grau, se processa essa atividade que está mais conforme com o homem: a Contemplação!, à qual acede o sábio, ou seja, o homem virtuoso. É, portanto, a Contemplação (que não é uma mera disposição, mas uma atividade!) a tal atuação adequada à virtude do próprio homem, "pois parece que o intelecto constitui o próprio ser de cada homem, ou, pelo menos, a sua parte principal" (In Aristote, Op. cit. p 444), uma vida de acordo com essa parte privilegiada será necessariamente a mais nobre para o homem. Articulando esta teoria com o esquema da alma indicado, poderemos dizer com Aristóteles: "Mas se a Felicidade é uma atividade conforme à virtude, é racional que seja uma atividade conforme à mais alta virtude e esta, por sua vez, será a virtude da parte mais nobre de nós" (In Aristote, Op. cit p 508): o intelecto.
   Mas, para conseguir esta Felicidade, tem o homem virtuoso ( o sábio) de se isolar do todo social? De se privar de amizades?

  4.2. - Uma coadjuvante: a Amizade

   Uma das questões mais polémicas na ética aristotélica é exatamente a virtude moral da amizade, dependente, evidentemente, de uma virtude de pensamento , é esta articulação que leva Aristóteles a um estudo sobre o amor próprio: Platão condenara-o como a causa da perversidade moral, mas este filósofo "(...) vê nele o verdadeiro princípio do altruísmo... " (esta citação refere-se à pagina 28 de uma obra de Leon Robin, mas, pelo que se disse no início deste estudo, não é possível saber ao certo que obra será!).
   A amizade é agora, não só uma condição da Felicidade, mas até o próprio coroar de toda uma opção ética, aliás, "(...) pareceria estranho que atribuindo todos os bens ao homem feliz, se lhe negassem os amigos, cuja posse é, ordinariamente, considerada como o maior dos bens exteriores" (In Aristote, Op. cit. p 461).
   A vida do homem feliz deve ser uma atividade simultaneamente contínua e agradável e, para tal, ele procurará estabelecer com os seus amigos um diálogo frutífero. Esta relação assemelha-se a um intercâmbio, mas... o sábio sendo feliz de nada mais precisa já, então, o amigo só pode ser uma espécie de um seu desdobramento, uma outra face de si. Quando o homem virtuoso proporciona o enriquecimento desse outro ele mesmo que é o seu amigo é a si que tem em vista, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Vê-se, pois, que para o sábio egoísmo e altruísmo têm entre si uma relação dialógica, são duas faces de uma mesma medalha, e que a amizade verdadeira tem um caráter de necessidade para a conclusão da Felicidade, não podendo, no entanto, ser experimentada por quantos vivem sob o domínio da perversão, já que estes "(...) não tendo em si nada de amável, não têm nenhum sentimento de afeição por si mesmos"  (In Atistote, Op. cit. p 446), mas só podendo ser vivida pelos homens virtuosos

  4.3. - Por uma Ética comprometida

   "Mas o sábio terá também necessidade de prosperidade exterior, pois é um homem" (In Aristote, Op. cit. p 519) e, como tal, precida de receber alimentos, que o seu corpo esteja de perfeita saúde, enfim, que muitas atividades concorram para sua Felicidade. Ora, isso só será possível em sociedade! É absurdo querer fazer "(...) do homem perfeitamente feliz um solitário (..:) porque (ele) é um ser político e naturalmente feito para viver em sociedade" (In Aristote, Op.cit. p 461), assim, devem concorrer para a Felicidade do homem virtuoso: os escravos, artesãos, comerciantes, camponeses e, de um modo geral, todos quantos para quem o problema da Felicidade não se põe, queremos dizer incluindo também as crianças e as mulheres.
   A vida contemplativa é levada dentro da cidade antiga - estamos ainda longe da noção de sábio estóica - mas, no entanto, essa cidade ter-se-.á de pautar por fatores de dois tipos: uma atividade legislativa que incentive a prática da virtude e preocupações de tipo urbanístico e social, pois, " se dez homens não chegam para constituírem uma cidade, cem mil não podem também formá-la" (In Aristote, Op. cit. p 469), é necessariamente ver aqui a articulação entre a vida urbana e a vida dedicada à atividade do espírito. É ainda sob a preocupação de que a vida intelectual se não disperse, que Aristóteles acaba limitando o número de amizades e que estes amigos mantenham entre si as mesmas relações que têm connosco, isso evitará uma degradação - e respetiva alienação - de um relacionamento virtuoso.
   Igualmente de considerar é o posicionamento deste autor relativamente aos políticos do seu tempo: Filipe da Macedónia, Alexandre o Grande, etc.,, não esquecendo a conspiração levada a cabo para assassinar Alexandre - que fora seu aluno - e em que estiveram envolvidos familiares de Aristóteles... aliás, para uma filosofia política que defendia a pequena cidade como poderia ser admitido o imperialismo de grandes monarcas?
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© Victor Oliveira Mateus (anos 70/ 80)
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domingo, 27 de maio de 2018



   Os Curricula Vitae dos vários membros do Júri do Prémio Internacional de Poesia António Salvado, bem como os diversos elementos necessárias às inscrições, podem ser consultados aqui:
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premio-poesia-antoniosalvado-ccb.pt
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sexta-feira, 25 de maio de 2018


A Câmara Municipal de Castelo Branco e a Junta de Freguesia local acabam de criar o PRÉMIO INTERNACIONAL DE POESIA ANTÓNIO SALVADO, pelo que apresentaram à imprensa, no passado dia 24, todos os dados relativos ao referido Prémio:
- as inscrições dever-se-ão efetuar de 25 de maio até 31 de agosto do presente ano;
- as obras deverão ser originais e cada autor só poderá concorrer com uma obra;
- serão premiadas duas obras: uma em língua portuguesa e outra em língua espanhola:
- o Prémio terá o valor de 2.500E e haverá a doação de 30 exemplares do livro vencedor, em versão bilingue;
- o Júri do presente Prémio é constituído por onze nomes ligados à Poesia e/ou à Cultura: Alfredo Pérez Alencart, poeta, ensaísta e Professor da Universidade de Salamanca, será o presidente do Júri e os outros membros são: Fernando Paulouro das Neves, Rita Taborda Duarte, Victor Oliveira Mateus, Paulo Samuel, José Pires, Manuel Nunes, Maria Barata, António Pereira, António Cândido Franco e Enrique Móran.
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Para mais informações consultar as entidades referidas.
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quarta-feira, 23 de maio de 2018


                                          Libérame Dómine


Salva mi corazón de la tristeza, de la memoria de ese muchacho que ve alejarse el humo de los barcos y fluye en él la compasión. Líbrame de los que viajan, del puríssimo hilo que une la yema de los distantes, de la abeja y su hélice, de todo lo que derramado en miel se esparce en mi alma como una estela de leche.

Líbrame del mar, de ese mar que soñé como un bosque sin pájaros, de las voces que oí, el grito de la luz al romperse las lámparas y el estambre de nácar con que la tañedora de arpa roza la libélula verde de la que manan los sueños.

Y huya también mi corazón de los camarotes de plata, del gesto de la institutriz que va atenta al centauro, que va atenta al deseo cuando el marabú de la noche extiende sus sedas sobre los cuerpos desnudos, sobre los cuerpos con fiebre como jardines dormidos, vigilantes los ojos que solo ven en lo oscuro la curiosidad de su anhelo: el vaho caliente de la sangre de um cisne.

Sálvame del filo de sus párpados muertos, del crótalo sin labios que oiré toda la muerte, que oiré toda la vida tallado en maravilla porque hay obscenidad en mi alma y otros meteoros y hay presentimiento, rosas de calcio debajo de la nieve, geodas con el pétalo auroral de la Luna, ángeles de cera derritiendo cuchillos.

Salva mi desolación de esa certeza, de la viudez y su hebra de oro con la que bordarás esta sábana. Y así, por el cristal de lo que hierve sin término, vendrán a mi corazón todas las cosas, el gamo que engendra bajo los racimos de hielo y luego, desciendo a los pastos, instaura el rito de la primavera; el ánade que en la viitrina de los taxidermistas tan desesperadamente respira lo último de su música; la jaula vacía del bisonte, los ojos desbordados de ese niño que perdido por el laberinto de los zoológicos conoce por primera vez la angustia y se sobresalta y huye de un relàmpago que no lo persigue.

Líbrame del silencio, salva mi soledad de esa sombra perfecta, porque bajo las constelaciones los amantes se envían cartas y escarcha y métodos para el amor, y se escriben palabras indescifrables y tienen presencias y revelaciones, y y esa tinta los humedece de lágrimas y los hace ser tristes y vagan por los parques, en la docilidad, tras el júbilo.

Hasta que una mañana no regresan del Pataíso, y en la casa de huéspedes la sirvienta, al descorrer los visillos, descubre el vacío y grita y da grandes aullidos filológicos y se produce entonces el florecimiento de la poesía.

Líbrame, sálvame de la claridad sobre las láminas de la escritura.


  Mestre, Juan Carlos. La Poesía Ha Caído En Desgracia. Madrid: Calambur Editorial, 2014, pp 134-135.
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terça-feira, 22 de maio de 2018


         Começar uma estrada


Eras tu que confundias o fundo
dos jardins com os vasto perfume
de uma estrada. A paisagem entretanto
libertava-se como uma espécie de segredo
que efervescesse num copo de água
e apesar do tempo severo das partículas
nós víamos de facto começar uma estrada.

Pergunto-me o que fizemos desses dias
alugados a uma melhor desconfiança,
o que foi que em nós escolheu
envelhecer sem ambição,
onde é que a noite parou de crescer,
em que consiste a música extrema
dos desembarques.

No fim, as flores aprenderam a prolongar
o frio das estátuas. A estrada perdeu-se
como alguém tinha previsto que o universo
se perderia se fosse por de mais escrutinado.
Os dias devoraram a paisagem.

E inadvertida, a tristeza afundou-se
no coração do matagal.
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 Domingues, André. Tempestade das mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, p 60.
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     Os teus retratos


Fecho os olhos e descubro.

Há um secreto odor de lobo por todo o lado
onde o amor cresceu contra a espessura
de um destino.
Há um idioma repulsivo como uma manta de retalhos
uma mágoa navegável, uma máquina de culpa.
Há uma voz do avesso e uma música
irrefreável que pulsa.

O dia é trânsito absoluto. Oração sem luz.
A pobreza extrema de uma fábula.

Agora sei: o estranho costume de sofrer por ti
deixou-me puro. A dor, entretanto, foi perdendo
o pormenor. O mundo elidiu o alívio.
A casa tornou-se parte do pó.

Já não há história, mas uma máscara
que flutua sobre a fama dos despojos.
Já não há pureza na página,
no tempo, na conjugação.

Chegarei a ti com a convicção lenta dos crepúsculos
suportando uma moldura de instantes desarmados.
Chegarei sem saber como saciar a minha chegada.

Chegarei a ti inútil como a morte.
Com a calma delirante de um fracasso.
Sem fogo nem perguntas: nos lábios
apenas o grito branco de uma praia.

E tu dirás o quanto o silêncio te pesa
entre as rosas e as falsificações.
E no meio das tuas mortes predilectas
eu vou outra vez erguer a voz.
E só então a noite suspenderá
os teus retratos.


 Domingues, André. Tempestade das Mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, pp 25-26.
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segunda-feira, 21 de maio de 2018



jamais retornarás por estes ínvios atalhos
como um noctívago tropeçando o sonho
pois há no teu corpo um casulo com olhos
velando irremediavelmente em ti o canhu

chama-se casa e com ela uma vela piscando


  Okapi, Sangare. os poros da concha. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 53.
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indelével é a concentração da matéria estelar
e não sei que paralaxes de corpos o anunciam

oh elocução do vento desvairando a erva eriçada
com os poros abertos convocando para cerimónia
quero os amuletos e os seus nsopes na voz rouca
da língua incitando a saliva onde desaguar o beijo


  Okapi, Sangare. os poros da concha.  Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 21.
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domingo, 20 de maio de 2018


             Retorno


Meu erro é meu caminho. Duro
é esta consciência larga, esta
nítida visão das horas frias.
Pois não durmo: recordo.
E é voraz a noite da memória.

Paisagens nítidas estão feridas
por meus olhos - cactus - incuráveis.
E é daqui que me tomo
(ou retomo)
                para trilhar-me.

Que o tempo são meus caminhos
e eu sobre eles, lembrado. Eu e meus vários
que as lembranças retomam: um
é remorso, outro é menino, outro viajou
e não retornou da viagem...

Uma tarde, há muitos anos, fiquei sozinho
e sorri: o tempo (então deus imóvel)
ligou em mim suas máquinas:
o tempo com seus traumas, obscuros
mapas, seus cães.

E me perdi.
E em saudades me multipliquei,
senti sonos, desejos, projetei, construí.
Sim, uma tarde, há tantos anos,
e me negociei com meus enganos. Ali.


 Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 110.
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sábado, 19 de maio de 2018


      A mão no escuro

               1


Amargo ser este meu nome
de outros nomes ferido,
amargo este meu ser
         de corpo e dilemas.
Pois evadido de mim, fora de ti
nem aqui nem onde havia infância
desabitado
visito as ruínas mitológicas
eu que não passo de ruínas
e te asseguro:
nenhum passado conta minha história.

Do que fui ao que deixei de ser
há mil substitutos provisórios
que me negam
qualquer lugar nos mapas ou no tempo.

E no lamento das brisas, e no vapor
das máquinas
me entreponho com minhas ilusões
e gravemente me deixo devassar:
caixa de Pandora reaberta,
nucleares demônios.

E me retomo.
De onde jamais fui me retomo:
um rosto composto de migalhas,
retalhos de verdade e sentimento,
tédio no escuro: aqui recomeço.


 Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 74.
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Tudo é silencioso
e a noite

é urgente o silêncio
é urgente ouvir os pássaros
ao longe

escutar as coisas simples
a respiração do mar
os ritmos da manhã
as pequenas rotinas
o trânsito nas cidades
o sol que sobe sobre os campos no verão

é urgente escutar estar atento olhar
assistir com serenidade
aos ciclos à espontaneidade
ordenada da vida


   Esteves, Rui. Poemas. S/c.: Edição do autor, 2017, p 21.
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sexta-feira, 18 de maio de 2018


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Richard Zimler é um escritor norte americano naturalizado português, nascido em Roslyn Heights, Nova Iorque. Formado em Religião Comparativa pela Universidade de Duke (1977) e mestre em Jornalismo pela Universidade de Stanford (1982), Zimler radicar-se-ia em Portugal em 1990 - tendo depois obtido a nacionalidade portuguesa em 2002 -, país onde tem desenvolvido uma atividade plurifacetada: docente na Universidade do Porto, argumentista para cinema, literatura infantil, etc., mas é sobretudo como romancista que o seu nome tem vindo a alcançar uma incontestável projeção. Da sua obra literária, sobejamente premiada, ressaltam títulos como: “O Último Cabalista de Lisboa” (1996), “Goa ou o Guardião da Aurora” (2005), “Os Anagramas de Varsóvia” (2009), “O Evangelho Segundo Lázaro” (2016). O seu último romance, agora publicado no Brasil, deu azo à conversa que se apresenta aqui entre o poeta Victor Oliveira Mateus e o romancista Richard Zimler.

VOM – Os seus romances colocam em lugar de destaque a relação do homem com a Cultura, bem como a História, contudo, esta última não se restringe a uma função puramente descritiva, nos seus romances. Pensa que falar do Passado, ou dar dele uma interpretação própria, é importante para compreender o Presente e, em certa medida, projetar uma certa visão do Futuro?

RZ – Adoro escrever sobre o passado, em parte porque é um desafio enorme perceber a maneira de pensar de pessoas que viveram há duzentos anos ou mil anos e transmitir essa compreensão numa narrativa emotiva e inteligente. No caso do meu primeiro romance, “O Último Cabalista de Lisboa”, tive de entrar na pele de Berequiais Zarco, um jovem judeu que vivia em Lisboa no princípio do Século XVI. Ao fazer a pesquisa para o livro – durante um ano inteiro – descobri que Berequias e os seus familiares nem sempre teriam partilhado a nossa perspetiva sobre as questões mais importantes da vida: por exemplo, o que acontece depois da morte, ou qual a relação entre sexo e amor, ou ainda qual a função da religião numa dada sociedade. Gostei muito da experiência de contar uma história do ponto de vista de alguém muito diferente de mim e achei fascinante tentar conta-la fiel aos valores e crenças de uma outra época, e, ao mesmo tempo, fazer despertar emoções fortes no leitor actual – conseguir criar uma relação afectiva e complexa entre um residente de São Paulo, por exemplo, e um jovem lisboeta que teria morrido há quinhentos anos. Aprecio muito quando me cruzo com um desconhecido numa rua de Lisboa ou do Porto e ele me agradece ter escrito um romance e diz ter adorado dado narrador e dadas outras personagens, porque a magia profunda de um romance reside na sua capacidade de estabelecer uma empatia entre o leitor e uma personagem e através dessa relação fazer com que alguém examine o seu passado e o presente numa perspetiva diferente. Penso que um autor com talento consegue fazer isso, porque as emoções são universais e quase intemporais. Digo quase, porque ao fazer a pesquisa para “O Evangelho Segundo Lázaro” descobri, por exemplo, que a honra era, há 2000 anos, um sentimento ou valor crucial e hoje em dia, no Ocidente, praticamente esse valor desapareceu. Mesmo assim, temos amplas provas da existência de sentimentos como o amor, a paixão, o ciúme, o ódio e grande parte de outras emoções no “Velho Testamento” e em livros muito antigos como o “Asno de Ouro”, do autor romano Lucius Apuleius. E temos provas também de que as consequências destas emoções – desde a amizade à traição e à crueldade – eram tão comuns no tempo do Império Romano como hoje em dia, basta pensar no assassinato de Júlio César e na própria crucificação de Jesus. Por isso, um bom romance histórico pode obrigar o leitor a pensar em assuntos muito actuais. No meu novo romance, as personagens debruçam-se sobre a repressão da mulher, e sobre a discriminação de pessoas com diferentes crenças. Daí a ligação com o futuro a que o Victor se refere, porque, no caso de vários livros meus, o narrador deseja um mundo mais justo e luta para atingir esse objectivo. Em “O Evangelho Segundo Lázaro” existe um desejo enorme por parte deste e de Jesus de renovar o mundo, de obrigar os Romanos a deporem as armas, de criar uma sociedade baseada na compaixão e não na dominação. Isso é muito claro no “Novo Testamento”, nos Evangelhos Gnósticos e é ainda hoje o desejo de muita gente. Quando é que iremos conseguir um mundo igualitário baseado na solidariedade? Quantos milhões de pessoas mais terão de morrer para vivermos todos livres de perseguições?

VOM – Em “O Evangelho Segundo Lázaro”, romance agora publicado no Brasil, as personagens são cuidadosamente caraterizadas, e estou a lembrar-me de Anás, o antigo Sumo Sacerdote, das irmãs de Lázaro, do relacionamento de Lázaro com Jesus. Poderemos dizer que a sua obra romanesca tem também por função, entre muitas outras, esmiuçar valores e comportamentos do mundo contemporâneo, no caso agora referido o fanatismo e a relação com o corpo?

RZ – Um dos propósitos do meu romance era devolver a Jesus e às outras personagens o seu judaísmo. Daí o uso dos nomes hebraicos no livro. Jesus chama-se Yeshua ben Yosef (Yeshua filho de Yosef) e Lázaro é Eliezer ben Natan. Para mim, isso era absolutamente necessário, não só para melhor reflectir a realidade, pois todos eles eram judeus e Jesus era, de facto, um pregador, um curandeiro e místico judaico,  mas também porque queria libertar o leitor actual das suas imagens e ideias feitas sobre todas as personagens, incluindo o Sumo Sacerdote e os colonizadores romanos -  e queria também libertar-me dos meus próprios preconceitos! Por isso, não decidi nada sobre o enredo do livro ou sobre os relacionamentos entre as diferentes personagens antes de fazer a necessária e intensa pesquisa. Comecei a escrever sabendo, embora de forma ténue, o que ia acontecer nos primeiros dois capítulos, mas não tinha qualquer ideia do resto da narrativa. Gosto de trabalhar assim! Adoro descobrir o que o romance “quer ser” e prefiro ser eu a seguir as minhas próprias personagens. Neste caso, ao usar o nome Yeshua ben Yosef em vez de Jesus, senti-me completamente livre da iconografia e da doutrina cristãs. Penso que o leitor vai descobrir esta mesma liberdade ao ler o livro, vai poder examinar os actos e palavras de Yeshua de um ponto de vista novo. O relacionamento entre Yeshua e Lázaro é, de facto, o aspecto mais importante do livro, digo na narrativa que o amor e a cumplicidade entre os dois é tão forte que é como se habitassem juntos uma ilha imaginária. Penso que isso funciona como um poderoso símbolo da união entre ambos. Ao criar este relacionamento entre os dois amigos, claro que insinuava também que todos nós temos a possibilidade de desenvolver uma amizade profunda e duradoura. Felizmente temos a capacidade de amar incondicionalmente!, porque a vida seria muito mais dura sem isso. E deu-me muito prazer escrever sobre este aspecto tão importante da vida,  aliás, já tenho 62 anos e não quero desperdiçar o meu tempo explorando temas superficiais, quero escrever sobre o que é verdadeiramente essencial – o significado de uma vida individual, por exemplo, ou o sacrifício que um amigo poderá fazer por outro. Penso que ao debruçarmo-nos sobre a relação de Lázaro com  Yeshua, bem como, sobre as relações de Lázaro com os seus filhos,  o leitor vai ser obrigado a pensar na sua própria vida, nos momentos de ternura, de revelação, de sacrifício. Uma ideia muito presente na mente do Lázaro é a necessidade de viver as suas amizades com intensidade e autenticidade, mas infelizmente ele vive numa época e num lugar, onde isso  lhe pode trazer enormes riscos. Há também outro momento crucial no livro: é quando ele tem de escolher entre a sua profunda devoção a Yeshua e a sua própria segurança, bem como a da sua família, já que estou a falar de autenticidade, gostaria de citar uma das resenhas do livro que saiu em Portugal. A autora escreveu: “E o trecho, quase no final do livro, em que Lázaro vai descrevendo o Calvário, possui tal intensidade que o sofrimento de Jesus é transmitido ao leitor com uma violência que espelha a dor de Lázaro, o qual, em agonia, imagina que vai beijando e tocando em Jesus para ‘saber onde ele começa e termina, porque só conhecendo essas coisas desaparecerão as fronteiras entre nós’”.
O Victor  fala do corpo, eu penso que é um elemento que sempre foco nos meus romances históricos, porque as personagens que os habitam têm de ter experiências corporais marcantes para convencer o leitor de que são pessoas reais. No caso de “O Evangelho Segundo Lázaro”, não só tentei devolver às personagens o seu judaísmo, como também as suas sensações. Foi muito importante “insuflar” as personagens com vida, torná-las tão sólidas e complexas como nós, daí o destaque que dei aos sentidos na narrativa, sobretudo o olfacto, porque são os cheiros, como nós sabemos, que estão mais intimamente ligados às nossas memórias.

VOM - O romance de que estamos falando, apresenta-nos um narrador (Lázaro) através de um escrito para o seu neto Yaphiel, nessa longa carta Lázaro vai, não só descrevendo uma época, mas também narrando o que foi a sua convivência com um dado amigo de infância chamado Jesus. Para Lázaro, Jesus não é o filho unigénito de Deus, no entanto, ele tem certos poderes, tem uma relação privilegiada com o sagrado. O Richard, enquanto autor do romance, crê que Lázaro tem uma visão absolutamente precisa acerca de quem é, ou de quem não é, esse seu amigo?

RZ - Sim, penso que Lázaro compreende Yeshua muito bem, embora, como qualquer pessoa, a perspectiva dele seja muito influenciada pelas suas emoções, neste caso pelo amor e respeito, ou seja, ele percebe muito bem que a sua perspectiva não é objectiva, mas também não quer ter de manter qualquer objectividade! Quem quereria manter-se a uma fria distância de um amigo num momento crucial da vida, quando ele está a correr riscos terríveis e pode ser preso?
Este romance obriga-nos a fazer algumas perguntas: o que faríamos para um amigo amado que está a desafiar pessoas com poder político e económico? Que sacrifícios faríamos para ajudá-lo e protegê-lo?
Lázaro conhece Yeshua desde a infância e decidiu muito jovem não ser um dos seus seguidores. Optou por ser o seu refúgio. Os apóstolos, os doentes e os amigos exigem a ajuda e o apoio de Yeshua, mas Lázaro decidiu não exigir nada, daí ter um papel único na história. É um papel muito desafiador e, por vezes, doloroso, porque não exigir nada de um amigo – não ter esse tipo de expectativas – é muito difícil. Outro elemento importante é a confiança total que Lázaro deposita em Yeshua: vemos isso logo no início do livro, quando Lázaro acorda no seu túmulo sem qualquer memória de uma vida após a morte. Fica muito perturbado e perde a sua crença, mas, curiosamente, não perde a sua fé no amigo Yeshua! Acho que isso reflecte a nossa realidade, pois podemos perder a nossa fé na religião ou nos tribunais ou no mundo da política, mas não perdemos a fé nos nossos grandes amigos. O amor é mais resistente! Penso, de facto, que é a coisa mais resistente na vida.

VOM – O modo cuidado como a intriga é tratada em “O Evangelho segundo Lázaro” leva-nos, por vezes, a encontrar no seu romance momentos de rara beleza e estou a lembrar-me dos encontros de Lázaro com uma das irmãs e com Jesus. São momentos extremamente poéticos! Podemos ainda, neste mundo de hoje tão dominado pelo ter e pela velocidade, manter relacionamentos desse tipo?

RZ – Ainda bem que achou a narrativa poética, porque um dos meus objectivos sempre foi o de usar as técnicas da poesia para dar mais força e beleza ao texto. Uma metáfora bem escolhida, no momento certo, pode atingir-nos de uma forma profunda  e pode convencer o leitor de que está a ser tratado pelo autor como um adulto inteligente e sensível, como alguém capaz de apreciar todas as nuances da língua e todos os sentimentos mais subtis. Sim, a nossa vida quotidiana é dominada pela tecnologia e a velocidade e, nesse contexto, penso que a leitura pode servir-nos de refúgio. Quem abre a capa de um bom romance — e entra por essa porta — vai encontrar um silêncio habitado, um mundo paralelo! E quem não fugir desse silêncio vai recolher benefícios, vai começar a sentir a profundidade da sua própria vida, porque vai ser obrigado a examinar a sua maneira de pensar e vai refletir sobre o seu passado e o seu presente, bem como sobre as suas aspirações para o futuro.

VOM – O tema anterior fez-me lembrar o modo atento como todas as variáveis são jogadas no seu romance, nomeadamente a questão social e ideológica com aqueles famintos todos à porta de Lázaro à espera de uma bênção ou a arrogância de Sallustius, o áugure de Pilatos. Houve uma intenção do autor de mostrar, na teia narrativa, o papel dos diversos estratos sociais: os que nada têm, os donos do poder, os fanáticos, etc.? Sentiu a necessidade de mostrar todos esses intervenientes?

RZ - Sim, a minha intenção dominante era criar uma Terra Santa de há dois mil anos, realista e fascinante, evocando não só as diferenças entre essa sociedade e a nossa, mas também entre as diversas comunidades,  de criar uma província remota do Império Romano, uma Judeia onde o leitor encontrasse o bem e o mal, o sublime e o cruel, a traição e o sacrifício, porque o mundo à nossa volta sempre incluiu tudo isso. Precisava também de criar uma Terra Santa cheia de contrastes, porque Yeshua, como curandeiro e pregador conhecido, teria lidado com todos os estratos sociais desde os leprosos aos sacerdotes.
O áugure de Pilatos, Sallustius, deu-me uma oportunidade de explorar um tema que me interessa muito: a crença das pessoas do passado em todo o tipo de presságios. Os romanos, gregos, judeus, fenícios e outros povos da Terra Santa partilhavam essa maneira simbólica de pensar. Nessa época, tudo à sua volta — uma tempestade, o voo de um pássaro, uma doença de um familiar — era interpretado simbolicamente, tudo o que acontecia estava repleto de significado. No caso de Pilatos, temos documentação incontestável que indica que os oficiais romanos não tomavam qualquer decisão importante sem consultar o seu áugure ou arúspice, por isso, Sallustius terá tido uma influência sobre os destinos de Yeshua e Lázaro. Ao longo de toda a narrativa do livro, exploro o pensamento simbólico e examino como é que teria influenciado os actos das personagens. Na minha perspectiva, é um aspecto do livro particularmente misterioso e empolgante.

VOM – Por fim, e isto é mais um desabafo do que uma pergunta: o Richard Zimler é hoje um nome grande do romance português, não lhe parece que a difusão da sua obra, bem como a de outros autores portugueses, romancistas e poetas, não tem a difusão no Brasil que deveria ter, aliás, o mesmo sucedendo com imensos autores brasileiros completamente desconhecidos em Portugal? Não será que as Revistas de Cultura, no presente caso a “Revista Pessoa”, têm vindo a desemprenhar um papel importante?

RZ - Concordo consigo e acho muito estranho e triste que não haja um maior conhecimento da literatura brasileira em Portugal e da literatura portuguesa no Brasil. Não compreendo a falta de interesse, talvez porque sou americano e nos Estados Unidos lemos muita literatura inglesa, irlandesa e indiana, aliás, consideramos os grandes romancistas britânicos, como Jane Austen ou Charles Dickens, uma parte da nossa herança também e muitos escritores americanos modernos têm um enorme influência na Grã-Bretanha: Philip Roth e Saul Bellow, por exemplo. Neste contexto, quero contar uma breve história: quando saiu no Brasil o meu romance “A Sétima Porta”, a minha editora na altura pediu-me citações da imprensa que pudesse usar na capa ou contracapa da edição brasileira. Respondi: “óptimo, porque tenho citações espectaculares dos jornais e revistas portugueses!” E a minha editora, numa voz particularmente áspera, disse: “não queremos citações de Portugal, queremos dos Estados Unidos ou da Inglaterra”! Aquela resposta deixou-me muito perplexo, claro. Já estive no Brasil várias vezes para promover livros e, embora não o conheça bem, penso que muitos brasileiros dão grande destaque à cultura americana e respeitam tudo o que sai nos Estados Unidos, ao passo que menosprezam os produtos culturais de Portugal. Em Portugal, a situação não é muito diferente, mas é ainda mais curiosa, porque a música brasileira é muito apreciada, mas não a literatura. Parece-me isso lamentável, em parte porque os escritores contemporâneos brasileiros utilizam a língua portuguesa muito criativamente, inventam palavras novas e jogam com expressões antigas, dando-lhes nova vida.  A minha teoria é que sentem mais liberdade do que os escritores portugueses, mais livres das regras tradicionais. É maravilhoso!
Como o Victor diz, penso que as revistas culturais, como a “Revista Pessoa” podem desempenhar um papel decisivo neste contexto, porque podem divulgar obras desconhecidas e muito valiosas. Temos de criar um público que não esteja tão interessado na origem geográfica do autor, mas muito mais na sua qualidade.
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© Copyright de Richard Zimler
© Copyright de Victor Oliveira Mateus
© Copyright de Revista Pessoa
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Ver aqui:  https://www.revistapessoa.com/artigo/2561/o-bem-e-o-mal-o-sublime-e-o-cruel-a-traicao-e-o-sacrificio-no-novo-romance-de-richard-zimler   
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quinta-feira, 17 de maio de 2018


         Grito

Não. Não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária.
Definida.

As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo.

Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.

Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.

Serei eu mesma.
Estarei inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada
de amargor.

Não. Não irei sem grito.

Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras -

que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.


 Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, p 245 (Organização de Alice  Campos Moreira).
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      O vento bate na porta
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O vento bate na porta
e eu, que te espero, me engano.
Fico às vezes quase morta,
com medo de um desengano.

Desço escadas. Subo e desço.
- Quem virá antes de ti? -
Este mal eu não mereço,
pois já de tudo sofri.

O meu sonho cresce e aumenta.
Cria asas. Sai à rua.
A noite está sonolenta.
Viajo da terra até à lua.

E vou seguindo teus passos.
E tu nem sonhas sequer.
Corto o corpo em mil pedaços:
sou nuvem, vento e mulher.

Por que estás tão pensativo,
caminhando sem parar?
Da inquietação o motivo
ai! procuro adivinhar.

Essa rua está escura,
como as idéias que levas.
A minha grande amargura
vestiu a noite de trevas!

Pára um pouco. Estou cansada.
Aqui há um banco - "Não sentas?" -
Vamos ver a madrugada
e as horas fugirem lentas.

Se o frio castigar teu rosto,
sou nuvem: Farei um manto.
Não terás nenhum desgosto,
nem um motivo de pranto.

Se precisares de ar,
sou vento brando e amigo.
É um repouso este lugar.
Descansa aqui neste abrigo.

Depois virá a madrugada.
Tu poderás regressar.
Ficarei triste e calada,
como uma rua ao luar...


 Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, pp 80-81 (Organização de Alice Campos Moreira).
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    Espiral de Vida


Decir para vivir,
vivir para decir,
y después de haber dicho
volver a desdicir-se.


  Sysmo, Heberto de. Maldito y Bienamado Bibelot. Tenerife: Baile del Sol Ediciones, 2017, p 63.
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       Caligrafía oculta


Entre los versos
arden palabras libres
nunca escritas.


   Sysmo, Heberto de. Maldito y Bienamado Bibelot. Tenerife: Baile de Sol Ediciones, 2017, p 49.
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quarta-feira, 16 de maio de 2018


     Eram dias de pássaros aninhados


eram dias de pássaros aninhados
no beiral dos meus olhos

era a casa pequena
os olhos capazes de se lançar como pássaros
a partir das janelas

os barulhos mentais
escoando pouco a pouco para outro lugar

estava livre
afinal
para receber o sol

sol pescado na aurora
e trazido à tona em rede de trinados

a porcelana trincada do tímpano
novamente se fazia fino couro de tambor

havia uma primavera
trabalhando em cada árvore


  Proença, Ruy. Visão do Térreo. São Paulo: Editora 34, 2007, p 65.
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quinta-feira, 3 de maio de 2018



                     19


... uma ave que tenha voado mais alto
sempre terá onde ir morrer,
de encontro ao céu
ou às tuas mãos plenas de abertura...


Carita, Fernando Eduardo. Estância & Deixamento. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 57.


                       81

... para onde agora desviar o olhar
se nada há que não sejam ainda os seus olhos?...


    Carita, Fernando Eduardo. Estância & Deixamento. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 68.
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quarta-feira, 2 de maio de 2018



Arden las amapolas que cortamos,
húmedas y lozanas todavía,
en la tarde de abril.

Arden las mariposas de la noche,
que sacuden sus alas
tratando febrilmente de librarse
del polvo de los días.

Arden los desayunos de París,
el fragor de las voces encendidas,
Víctor Hugo y el barco del Califa
tejiendo olas de plata por el Sena.

Arden noches de amor, los ventanales
abiertos de septiembre;
arden los ecos del Mediterráneo,
tan lejos de la arena.
Tantos días robados.
Las mañanas sin luna
arden como los hijos de la noche.
Los poemas azules. Arde el tiempo,
el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo,
el sutil tintineo de las copas
y el ruido de las sábanas.

Arde la construcción de la belleza,
milímetro a milímetro;
la emoción que estudiamos
con ansia de arquitectos.
Arde el jazz, tanto jazz en los vibrantes
volcanes de la piel.

Arde la furia extraña de las horas
que todo lo destruyen:
las ansias de revolución, los celos,
las cabezas cortadas en la tarde
donde al fin recobramos la inocencia.
Arde la vanidad, palabra por palabra,
en una inmensa hoguera que se alza
más allá de la altura de los hombres...

Y a pesar de las llamas, en el aire
ni rastro de ceniza:
tan sólo esta verdad que no se extingue.
Que no se extingue, no, que no se extingue.


   Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 47-48.
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terça-feira, 1 de maio de 2018

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Sabía que esos ojos albergaban
alfileres de fuego,
como una acupuntura milenaria
donde nace el rocío,
en los últimos racimos de las horas.
Maldita la belleza
que se viste de luz y nos confunde.
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Sabía que esos ojos encendían
mil cristales de sal
en la frontera misma de los labios,
devorando la carne y la inocencia
del corazón bilingue de la noche.
Maldita la belleza
que nos aturde con su terciopelo.
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Sabía que esos ojos conjuraban
exorcismos de lluvia,
aderezando las ansias de verano
con el compás abrupto de una nota
de saxo curvilíneo
en un cuerpo sin norte.
Maldita la belleza
que nos embarga el alma y la extravía.
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Sabía que esos ojos restallaban
un castigo de látigos sin sangre.
La afrenta poderosa de los dedos,
del que dejó su rostro en el camino
y se puso la máscara
lasciva de la fiesta.
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Maldito todo pulso
que no se deje clavar en la locura
como una mariposa
cuyo único destino
fuera morir libando el néctar de la noche.
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Bendita la belleza que regresa
hasta el primer albor de la inocencia.
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Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 33-34.
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Sessão no Salón de Actos del BBVA em Valladolid,
 28 de outubro de 2017.

segunda-feira, 30 de abril de 2018


   Alguns meses mais tarde, o rei escreve ao seu antigo conselheiro num tom menos caloroso para o atrair à Corte e parece que lhe fez também propostas financeiras. Mas se Montaigne está pouco disposto a servir, está menos disposto a que pensem que se vende. Orgulhosamente, escreve ao rei: "Eu nunca recebi quaisquer vantagens materiais dos reis, muito menos recompensas que nunca pretendi nem mereci e muito menos ainda qualquer pagamento pelos passos que dei ao serviço de Vossa Majestade... Eu sou, Sir, tão rico quanto o desejo." Sabe que teve êxito naquilo que Platão disse uma vez, que não há nada mais difícil no mundo do que deixar a vida pública de mãos limpas. É com orgulho que faz o balanço da sua vida (...)
   Pouco tempo antes da morte, os mais altos dignitários convidaram-no, o que ele não deseja nem espera. Quando se sente velho, quando é apenas um reflexo, uma sombra de si próprio, foi-lhe dado o que não esperava há muito, um raio de ternura e de amor. Ele dizia com melancolia que talvez só o amor o pudesse ainda despertar.
   E eis que o inacreditável acontece. Uma jovem, Marie de Gournay, um pouco mais velha do que a mais nova das suas filhas que ele acaba de casar, pertencente a uma das melhores famílias de França, apaixona-se pelos livros de Montaigne. Ela ama-o, idolatra-o, encontra nele o seu ideal. Em que medida este amor não era somente dirigido ao escritor, mas também ao homem, eis o que é difícil concluir, como sempre acontece em casos semelhantes. Mas Montaigne vai muitas vezes encontrá-la, está meses junto dela, no castelo da família, nos arredores de Paris, a sua "filha de aliança". Confia-lhe a mais preciosa herança: a publicação dos Ensaios, depois da sua morte.
   E agora só lhe falta conhecer uma última coisa, a morte, ele que estudou a vida e experimentou de tudo. Morreu sabiamente como tinha vivido. O seu amigo Pedro de Brach escreve a Antony Bacon dizendo que o senhor de Montaigne - aquele que foi o espírito mais completo que jamais existiu - "teve uma morte serena, depois de uma vida feliz" (....)
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. Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 90-91.
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