quinta-feira, 18 de janeiro de 2018


Está prevista, para meados de fevereiro, a saída da Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017/2018. Esta publicação, com cerca de 200 páginas, terá a sua Apresentação em dia e local a anunciar.
.
.
COORDENAÇÃO
Victor Oliveira Mateus
.
.
CONSELHO EDITORIAL
Ana Cecilia Blum (Equador), António Carlos Cortez (Portugal), Daniel Gonçalves (Portugal), Hugo Pinto Santos (Portugal), José Ángel Garcia Caballero (Espanha), Leonor Castro (Portugal), Maria João Cabrita (Portugal), Maria João Cantinho (Portugal), Marta López Vilar (Espanha), Mbate Pedro (Moçambique), Mirna Queiroz (Brasil), Ricardo Gil Soeiro (Portugal), Risoleta Pinto Pedro (Portugal), Ronaldo Cagiano (Brasil), Stefania Di Leo (Itália), Victor Oliveira Mateus (Portugal).
.
.
.
COLABORADORES DO PRESENTE NÚMERO
.
poesia:
Adalberto Alves, Albano Martins, Alberto Bresciani, Alberto Pereira, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Mata Guillé, Amadeu Liberto Fraga, Ana Cecilia Blum, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Anderson Braga Horta, André Domingues, António José Borges, António José Queirós, António Salvado, Artur Ferreira Coimbra, Cláudia Lucas Chéu, Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Everardo Norões, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Levy, Inês Lourenço, Isabel Mendes Ferreira, Isabel Miguel, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Eduardo Degrazia, Josep M. Rodríguez, Leonor Castro, Licínia Quitério, Manuel Neto dos Santos, Maria Augusta Silva, Maria do Cebreiro, Maria José Quintela, Maria Toscano, Maurício Vieira, Myriam Jubilot de Carvalho, Pedro Lyra, Pedro Sánchez Sanz, Pompeu Martins, Ricardo Gil Soeiro, Rita Taborda Duarte, Rui Almeida, Sandra Lopes, Stefania Di Leo, Victor Oliveira Mateus.
.
.
ensaio:
André Barata, César Freitas, Hugo Pinto Santos, Jaime García Mafla, José Cândido de Oliveira Martins, Maria João Cabrita, Nuno Brito, Pedro Marques Pinto, Rosa Alice Branco, Victor Oliveira Mateus.
.
.
caderno:
Maria João Cantinho.
.
.
crítica literária:
Hugo Pinto Santos.
.
.
prosa;
António Ladeira, Luísa Venturini, Paulo Pego, Pedro Martins.
.
.
.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018



     Hoje não me dá jeito morrer


Hoje não me dá jeito morrer. Hoje
tenho uma fantasia ao lume, do género
andar no parque de mão dada; e semeei
palavras graves, ando sempre à cata
dos rebentos. Hoje tenho de olhar
para uma pedra. E de definir dois pontos
cardeais a um pássaro. E de rebolar
numa encosta quando eu era pequena.
Hoje não tenho tempo para morrer, estou
a pensar aprender tango, inclinar-me
a trinta graus nos braços de um galã
com a perninha em tagatés àqueles
que me vêem. Hoje trinquei chocolate
e viajei, como se o chocolate me fizesse
estrelada e imortal, o horizonte chão
daquela trincadela impede obviamente
a morte neste dia. Hoje não dá jeito,
tenho de ir de viagem amanhã,
ou a daqui a um mês, para conhecer
os sonhos que andam aí e nunca poisam,
sempre guardados num grosso calendário.
Tenho da amar um gato, e uma pessoa, e um quadro
que me diz que há muitos outros, e uma árvore
com quem há vários anos tive um caso. Hoje
a Música apareceu-me com uma ponta de ironia
e perguntou: "É hoje?" E eu disse-lhe que sim,
porque não estou junto da morte.
.
.
.
  Pires, Isabel Cristina. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 58.
.
.
.
.
.
.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


      As palavras e a máscara


Para que servem as palavras
que nunca cheguei a dizer?
As justificações?
Um cabriolar de motivos,
que, por mais autênticos e verdadeiros,
lerias como farsa
para um palanque que o tempo não poupou.
De que serve falar do não pensado
ou do pensado sem rigor nem previsões;
dessa loucura antiga
que a vida inteira puniu
como um resgate
do que em mim emenda nunca tivera
nem sequer diminuição?:
pagamento desmedido;
tormento por um gesto descuidado,
estouvamento;
máscara com que ainda hoje disfarço
aquilo que não tem nome.
.
.
.
Mateus, Victor Oliveira. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 129.
.
.
.



Dá-me a tua ausência.
Esse rigor absoluto
onde o silêncio se mistura
com a pacificação sem remédio
de nada querer.
Devolve-me esse espaço,
onde a imaginação desenhou
ilhas de possíveis
e, crédula, não vislumbrou
a lâmina acerada do tempo.
Concede-me,
num lampejo puro e definitivo,
a vasta plenitude do vazio,
esse vazio em que tudo
se acabará transformando,
tudo, mesmo as imagens
que um dia suspeitámos
demasiado certeiras e coloridas.


   Mateus, Victor Oliveira. folhas - letras & outros ofícios 15. Aveiro: Grupo Poético de Aveiro, 2017, p 128.
.
.
.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018



Este amor es una distancia y su escala.
Es un dolor apuntalado en su angustia y su frío sano.
Este amor sin peinar,
con afonía y destreza contenida,
este almanaque de temblores y profundos.

Este es un amor a medio sudar,
una constelación acunada,
una piedra blanda en el bosque
y todo el sentido de la palabra cobijo.

Es un idioma sin quebranto,
este amor no es otra cosa que la sed de plenitud
y todos los miedos colgados al fresco.

Este amor nos concierne.
Nos define con luminaria limpieza,
sin brillos silábicos ni flora impermeable.
Nos mece en sus hielos y sus abrigos,
nos alimenta inevitablemente,
nos corresponde a pesar de nuestros desmanes.

Este amor está tan hecho de sí
que es difícil sabernos fuera de su excepción.
Este amor sin apellidos,
sin escoba para la derrama...
Este amor.


  Saravia, Rafael. El abrazo contrario. Madrid: Bartleby Editores, 2017, p 51 (Frontispicio de Antonio Gamoneda).
.
.
.


Cuento la historia sin creerme el final dictado.
Ni las cazuelas se llenaron
siempre que la voz se alza pidiendo equidad,
ni el nombre avanza con más celeridad hacia la Tercera
que cuando se pronuncia involucrado de lluvia.

Las plazas siguen teniendo fugas;
ellas se aprietan las convocatorias en fechas señaladas
y ansían el amor libre fuera de domingos comerciales.

Los contenedores jamás han vivido una paz tan duradera
en época de hambre y disimulo.

No obstante, la especie evoluciona.
Se sabe esclava de su condición,
                                      y eso ya es mucho saber.

En el siglo XXI,
apenas un par de décadas después de su inicio
la vocación de libertad está demodé.
Dos asalariados valen una paga,
un funcionario sacia el doble de amargor
por menos de un sobre de sacarina.

La Seguridad Social es ese lugar donde duele la vida privada
y los enfermos son más subjetivos que en los espacios de Topor.

La justicia es un producto por encima de nuestras posibilidades.

No hay arcén para la disidencia,
no hay alternativa para el que piensa que vivir
es un derecho y no una subvención.

Cuento la historia sin intención de creer.
Los bocados de argumento están naciendo ahora.

La esperanza viene de hoy.


  Saravia. Rafael. El abrazo contrario. Madrid: Bartleby Editores, 2017, pp 32-33 (Frontispicio de Antonio Gamoneda).
.
.
.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018



            23. DO FINAL

Sou o homem das alamedas,
que anda devagar coberto pelas árvores
com a memória arrancada da cabeça.
Não me bastam as velas das igrejas
para clarear o instante destas horas
no meu relógio de pulso parado.
Rua imensa para preencher o silêncio
costurado no corpo do meu final.
A poesia é a asfixia
que me faz morrer aos poucos.
Corre este rio sobre meus pés cortados
por folhas amarelas.
Tenho uma igreja fechada dentro de mim
com altares desertos.
Percorro os corredores dos campos
como se a colher trigo
vigiado por aves tristes.
O poema se perde
como a vida que se vai aos pedaços
no antigo vaso ausente da sala.
Não estou comigo
nem permaneço com minha alma.
Leve é o nada
em que desapareço
e dou tudo por perdido.
As palavras mortas me habitam a boca
com sílabas que sangram.
O guarda-chuva vazio
me cobre inteiro,
mas ainda vejo o que me cerca.
Perdi meu chapéu
com pensamentos inúteis.
Agora só quero
me esconder do que resta de mim.


  Faria, Álvaro Alves. 23 elegias da mão esquerda. Coimbra: Palimage, 2017, pp 34-35.
.
.



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018



abrazado al mutismo,
con la llovizna en mi rostro,
de regreso a casa correteando por las aceras,
debajo de la lluvia,
metiéndome en los charcos,
reaparecían las sensaciones que dese niño me embargaban

;

me detenía en los torrentes venidos de los techos,
cayendo de las canoas derruidas,
yéndome con al agua,
abandonando por un momento las dudas,
la ajenidad,
el silencio,

escapando sin escapar de aquel lugar sin nombre,
del lugar sin lugar asomado en el valle,
mas allá de la bruma,
de mi extrañeza

;

 Guillé, Álvaro Mata. Más Allá de la Bruma. Ciudad de México: Casa Editorial Abismos, 2017, p 15.
.
.


Estou na densidade
de um verbo solitário
no horizonte de uma língua
incompleta

desenho linhas sem gravidade
transgressões da linguagem
que me conduzem ao branco
palco da palavra onde te encontro

eclodes como um navio solar
por entre a aura de um aceno
como se os teus punhos
derramassem a líquida seiva
de um arbusto

e neste corpo balanço a água
de um mar antigo
adio o fogo
flutuando na superfície
de uma pele tranquila


   Rosa, Gisela Gracias Ramos. O Livro das Mãos. S/c.: Coisas de Ler, 2017, p 34.
.
.

domingo, 7 de janeiro de 2018



A Victor Oliveira Mateus


Passemos erguidos com a vénia do coração
perante quem a cicuta produz efeitos
que desenham o rosto de quem
a verteu e ofereceu com a língua informe.
E àqueles cujo olhar não mais diz que
a ávida esperança da escuta a esses
depositemos a oração do poema
com as palavras mais simples


 Rosa, Gisela Gracias Ramos. O Livro das Mãos. S/c.: Coisas de Ler, 2017, p 52
.
.
.

Houve um tempo em que as aves
não estavam embaciadas.

As asas não tiveram
a sorte de Ulisses
e Ítaca
é a melodia do pranto.

Ficámos sós,
a matar as teclas,
com o piano pendurado nos olhos.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p 57.
.
.

sábado, 6 de janeiro de 2018



Sabes, meu amor,
adoro os pássaros que voam
quando as árvores já não são suas.
A biografia do coração
raramente esquece a queda das folhas.

E o que é o voo para lá do Outono?

Não me digam para guardar
o vento na garganta
ou que as tempestades
são retratos de um hospício.
O teu corpo ensinou-me,
o Verão é um felino
e a hierarquia das garras
só o tempo a sabe.
É certo, as nódoas têm sinos,
mas no pináculo do perfume
ninguém observa versos rotos.

Ainda te quis quando a pólvora
tocava os últimos acordes nos ramos.
Não tinha aprendido,
aparar as unhas à neve
serve para pintar biombos nos olhos.
Se tivesse ouvido Dostoiévski ou Gógol
e bebido as sombras de São Petersburgo,
sabia,
o ouro das catedrais
assimila a mágoa da cidade.

Sabes, meu amor,
a eternidade procura sempre uma corda no céu.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, pp 25-26.
.
.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

 Com Detergente, obra que tem como epígrafes um verso de Cesário Verde e outro de Ruy Belo, Ruy Ventura instala-se deliberadamente numa zona de interseção dos géneros literários: estamos perante uma dramaturgia onde duas personagens vão dialogando? Perante dois monólogos justapostos onde duas vozes poéticas se fazem ouvir, embora tangenciando-se aqui e ali? Ou estamos perante um livro de poesia onde o dialógico ocorre em socorro de uma mensagem de cariz transcendentalista e de uma acentuada função poética.  Pessoalmente, inclino-me para a última interpretação, daí ter lido (com muito agrado) esta obra à luz da poética de alguns dos grandes dramaturgos franceses da primeira metade do século passado, como por exemplo Paul Claudel e Henry de Montherlant, bem como da lucidez desesperada de um Pierre Drieu la Rochelle.
A obra inicia-se com duas personagens (figuras? Vozes poéticas?) que se fazem ouvir junto a um edifício em construção (a simbólica do livro é algo a considerar!), enquanto ao fundo se ouve o Quatuor pour la Fin du Temps de Olivier Messiaen. Também não é acidental a escolha da música de Messiaen: um dos maiores compositores do século XX, compositor esse cuja profunda religiosidade atravessou toda a sua vida e toda a sua obra. Eis um excerto do livro:
.
.
Raul:
(...) Há quem vença a tempestade e descubra na ausência da imagem um motor. Há quem veja na luz intensa do farol uma resposta e, na resposta, um íman que leva à construção de um abrigo e ao confronto com as marcas da itinerância e da subida. Temo contudo o vazio que resulta da remoção do entulho. Não dispenso o domicílio quando dispo o território e a lembrança. Preciso de mirantes e de labirintos, mas recuso ver e, sobretudo, perder-me.
.
João:
Dias virão em que os passos serão pagos: não poderemos atravessar se não pusermos os joelhos em terra e venerarmos o espírito sem acento, essa inversão do fogo e da ventura. Dias virão em que os olhos pagarão tributo para fitarem o céu e o oceano. Dias virão em que a entrada na serra e nos seus limites obrigará ao pagamento da portagem. (...) Há quem escreva versos, mas dispense a escassez, o trabalho, a descoberta. Há quem vá filosofando, mas rejeite o amor e a sabedoria. Há quem pinte, molde, filme, dance e represente, mas feche os olhos às imagens que nos desafiam, como lava no dia do juízo. Há quem escolha (e esconda) de dois senhores o mais rendoso - e assim afunde (e se afunde) num terreno movediço todos os corpos e, com eles, a alegria, a dor e a graça, transformando-nos em fósseis liquefeitos, em crude que um dia arderá nessa fogueira onde os autos-sem-fé do nosso tempo vão colocando a voz e a incerteza.
.
Raul:
Temos de sorrir (dizem). Temos de suportar, ainda que a dissolução nos transforme em vermes, em roedores que voam ou rastejam, corroendo as estradas com excrementos. Somos vítimas ou agentes do veneno? Prefiro não dizer. Prefiro não fazer Se o fizesse ou dissesse, cortaria a minha mão ou a minha língua (...) Desvio os olhos do risco. Descubro o engano e a cobardia. (...) No entulho hei-de encontrar o braço (detergente) - e nesse lume sobreviverei.
.
.
.
  Ventura, Ruy. Detergente. S/c.: Editora Licorne, 2016, pp 16-17.
.
.
.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018



                           Isto  


Isto que escapa entre dois pensamentos
às vezes parece fugir e às vezes
parece apenas voltar (sem regresso)
à sua pátria, qualquer seja ela.

Isto que às vezes era quase um nome,
não fosse inédita a falta que deixa
(não fosse escuro imaginar dizê-lo),
parece às vezes ter vontade ou sexo.

Ou talvez tudo seja apenas o hábito
de supor coisas onde coisa alguma,
ou nada exista senão intervalos:

o corpo apenas um (entre dois nadas),
o mar aquele que entre duas praias,
e a água um intervalo da espuma.


Neves, Cláudio. ouvido no café da livraria. São Paulo: Editora Filocalia, 2016, p 91.
.
.
.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018



        Somewhere in time


Não é que fosse uma paixão antiga:
ficou paixão só quando nos revimos
depois de o quê, senão bem perto disso,
ficou paixão e aí ficou antiga:
sabe, essas coisas ficam décadas, ainda
que nunca nem tenham de fato sido:
me perdoe se sou ou pareço prolixo:
nem sei se dói, mas uma coisa eu digo.


  Neves, Cláudio. ouvido no café da livraria. São Paulo: Editora Filocalia, 2016, p 39.
.
.
.


         O Funeral de Heféstion


O inanimado nunca gerou tanto
Movimento, o deitado tanta altura.
Velas de púrpura, proas de pranto,
Navegam o ar, ao vento da loucura.
        A escassa coisa, um homem,
        E as línguas que o consomem
Fremem por se enlaçar na borra escura.

Símbolo é tudo, fantasmagoria
Quanto a luz forja e a mão ao céu levanta.
Sobre troféus, panóplias e armaria
Em cada canto uma sereia canta
        Pela voz de algum vulto,
        Reles bípede oculto
No templo tênue que no azul se implanta.

Urge enganá-lo, o hirsuto horror que assombra
Cada conviva do avesso e do inverso,
Rever o antes do ser, vestir a sombra,
Ser o logro e a graçola do universo.
        Que a ebriez da honra e do hoje
        Cubra a escória que foge
Ao som do rio primevo e preverso.

Quarenta homens de alto, arcos, quimeras,
Colunatas pintadas de ocre e ouro,
Hidras, centauros, grifos e outras feras
E o mais que pague o pérsico tesouro,
        Bandeiras tatalantes
        E as almas inebriantes
Da mirra, do aloés, do vinho e o louro.

E queima! Igual a nós. Maior que a pira
É o caos que nos erige, o amontoamento
Do que um homem não é e em que que se mira,
Portões de areia que abre e arrasa o vento.
        Maior, e um só segundo
        Cancela-o. Arde um mundo
Sob o sol a cada ínfimo momento.

Como aqui, nesta noite. Amor o ordena
E o fogo o cumpre. A cínica pilhéria
De ser ou de vencer, a inútil cena
Da vida esfaz-se em turva nódoa aérea.
       Há um urro e um coro. Após,
       Nem os menores pós
Restarão da nossa híbrida miséria.


   Bueno, Alexei. Desaparições, Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva. Porto: Editora Exclamação, 2017, pp 110-111.
.
.
.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018



          Ítaca


Quer tremam os céus
Que me auguram morte
Ou se esforça o deus
Da úmida cratera
Contra a minha sorte,
Ítaca me espera.

Cheire-me o gigante
Na inviolável furna,
Beba o mar bramante
A última galera
Na exaustão noturna,
Ítaca me espera.

Puxem-me as sereias
Com sonoros laços,
Prenda-me em suas teias
Aquela que impera
Nos mortais cansaços,
Ítaca me espera.

Lance-me bruxedos
A odiosa maga,
Mordam-me os rochedos
De dentes de fera
Onde o mar nos traga,
Ítaca me espera.

E lá longe brindem
Minha hora funesta,
Mesa e adega findem
Da mansão severa
Para a hedionda festa,
Ítaca me espera.

E então durmam tortos
De risos e vinhos,
Vivos quase mortos,
Neles meu ser gera
A ânsia dos caminhos.
Ítaca me espera!


  Bueno, Alexei. Desaparições (Antologia organizada e prefaciada por Arnaldo Saraiva). Porto: Editora Exclamação, 2017, 78-79.
.
.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017



eu, poeta sem função, inquilino das palavras
oblíquas, torto como um rádio à beira de avariar,
se negamos a música dos outros, e sintonizamos
países extintos, ainda assim, nessa habilidade de
circo mudo, enfeito com pérolas o pescoço do
silêncio, ignoro os prodígios da civilização, e fico
a falar sozinho, dirigindo o trânsito das coisas
pequenas, evitando a contramão do amor, ele que
sempre tem razão, quando traz os recados mais
simples, na urgência de evitar a taxa máxima, que
sempre pagamos, quando pomos a falar o coração.


  Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 32.
.
.
.

a noite entrou nos meus olhos, apagou a cor das
sombras, as paredes ficaram nuas, como os gatos
pardos, debaixo da lua fundida, preciso do teu
nome, no meu apelido triste, manda-me um lado
do teu rosto, para eu cunhar na minha sombra, uma
linha descosida, aguentando a língua do verão, se
ainda houver sinal, de termos descido da poesia,
e talvez bastasse uma porta mal fechada, que eu
ainda me lembro, como se chega ao resto da casa,
como se organizam as tuas gavetas, como respiras
debaixo dos livros, como dobras as cartas depois
de lidas, manda-me qualquer coisa, remendada
ou fora do tempo, metade de uma coisa que fosse,
uma aparição tua, já não peço tanto, tão pouco
que nem vale a pena rezar aos santos, já todos me
ouviram morrer em silêncio, à tua espera.


  Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 9.
.
.
.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017



as palavras quiseram amar-te, onde eu não podia
chegar, fintaram as sombras, evitaram os espinhos,
cantaram no teu salgueiro chorão, fecundando as
enxurradas, quando a poesia sobra do meu lado,
para cantar no teu.


 Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 5.
.
.
.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017



              Les hirondelles


Ces coeurs d'oiseaux - D'oiseaux fidèles - Sous la
corniche - Les hirondelles - Dormaient chez nous

Le réverbère était - Heureux auusi - Dans sa lueur -
Brûlant chez lui - Bien à l'abri

Et les lumières - S'ouvraient partout - Pour voir la
nuit - Dormir chez nous


  Delève, Ernest. ça rime et ça rame, Anthologie Thématique des poètes francophones de Belgique. Loverval: Éditions Labor, 2006, p 25.
.
.
.

                    LXII

      Aquí junto a la espera


Recuerdas que te dije, "dans l'océan du soir"
enciendo la memoria, mientras regresso al cuarto
para vaciar el día cargado de emociones,
en el cajón del fondo, donde van las heridas
mal curadas del pecho, junto a alguna nostalgia
que me asoma en los ojos para que no me olvide.
Y sonrío de pronto, porque sé que me quedo
con la parte más mía de mis cuatro paredes.

  Alonso, José Antonio Valle. Adagio en París. Valladolid: Editorial Azul, 2016, p 143.
.
.
.

                    XLV

  He estado en el letargo


Recuerdas que te dije, de la melancolia
y he visto en la ventana asomarse la noche,
entrar hasta mi cuarto y quedarse conmigo
a dormir mi ceguera en sus maternos brazos.
Mientras a la otra orilla del lado de mi sueño
llamaban por mi nombre las ramas de los chopos
y el río se reia llevándose las hojas,
y yo tendí las manos, y me deshice en humo.


   Alonso, José Antonio Valle. Adagio en París. Valladolid: Editorial Azul, 2016, p 109.
.
.


          Olhar de poeta


Um olhar de varar
poeira pele poros
roupas e paredes.
Olhar de levantar
escamas e máscaras.
Olhar de desvendar
a chuva vindoura
na nuvem de agora.
Ver a pastagem verde
debaixo de alva neve.
Enxergar no lago
a milenar geleira.
Adivinhar na ilha
montanha submersa.
Olhar a se lançar
além do presente
vendo no ovo a ave
e na ave o voo.


   Cabral, Astrid. Palavra na berlinda. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2011, p 69.
.
.
.

           Mídia


Consanguínea sou
do silêncio e da sombra.
Rejeito a distância
entre palco e platéia.
Basta-me a pequena glória
de agradar alguns.
A alma não pede palmas
só apertos de mão
de igual para igual.


   Cabral, Astrid. Palavra na berlinda. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2011, p 27.
.
.
.

              Vestíbulo


A los pies serenos de la vida,
en medio de la luz,
tiendo mi alma.
Avanzo lentamente, bajo el sol
que abarca
el horizonte. Quién me llama?
Mi vida es el murmullo de un adiós.
Detrás de mis pisadas
ya no hay nadie.
Estoy lejos de mí
y, sin embargo,
encima del silencio soy yo mismo.
   Vuelvo de nuevo
a hollar la claridad
que fecunda mi ayer adormecido:
en las adelfas de mi alma
hay un zorzal
que llora y se alimenta de mi herida.
Vuelvo a ser niño,
a perderme entre las olas
del trigo derrotado por la lluvia.
A unos pasos de mí, se alza el umbral
que habré de traspasar
para estar vivo.


  Andrada, Alejandro López. El horizonte hundido (Poesía desreunida). Madrid: Hiperión, 2017, p 81 (Prólogo y selección de Antonio Colinas).
.
.
.

       Deserción

Pongo la mano encima del dolor.
Al pie de la espesura,
quién me llama?
Nos lo robaron todo. Nada queda:
sólo el amor pudriéndose en mi alma.


   Andrada, Alejandro López. El horizonte hundido (Poesía desreunida). Madrid: Hiperión, 2017, p 73 (Prólogo y selección de Antonio Colinas).
.
.


       O olhar que arde - I 


Regozijo-me
pela facilidade
com que me dou
ao olhar que arde,
ao coração que permanece e avança
(em busca de outras leis,
de um outro universo
com outras religiões,
com outras letras)
em direção ao sol que já me enleia,
em direção à terra que, insistente, piso,
em direção ao húmus
que constantemente observo
e absorvo,
em direção ao som que me faz
dançar,
que me faz voltar de novo
para o olhar que arde
frente à paisagem
às vezes desértica e silenciosa,
às vezes a mostrar um rio
e as suas verdejantes margens,
às vezes a deixar entrever
o próprio olhar que arde
e se dissolve
na sua aérea casa
de ternura.


  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 30.
.
.
.
 
     A escrita que tarda


A escrita do teu rosto já me tarda
e, embora tardia, é já abrasamento.
Sei o teu nome. Mas não sei o assombro
de te voar nos ombros e nas virilhas.

A escrita do teu rosto já demora
num corpo de páginas branquíssimas.
Estridente é a voz, esta que implora
pela luz das manhãs que te ornamentam.

Num cadeiral de sono e invernia
a escrita do teu vulto já me tarda.
Mas não desisto. Num estampido
de folhas e metal - num revolver
de brumas - reacendo o rumo
(o rubro) desta chuva
que há-de fazer crescer as tuas letras
nas páginas de mim, da minha alma.

  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 17.
.
.

domingo, 24 de dezembro de 2017



       Ni con el pétalo de una rosa


Eso decían antes
los hipócritas voraces
los devoradores del alma
y del cuerpo de la mujer amada

Verdad era que para laceraciones y rasguños
más efectivas eran las espinas
que los delicados pétalos de la Rosa de Villalba

Hoy, los neo-hipócritas del siglo XXI
reivindican
de la boca para afuera
la igualdad de género
el respeto por los derechos que antes eran sólo del hombre
y que hoy reivindica reclama
la mujer

Explotadas, exiliadas, humilladas,
cargando los hijos a cuestas
y uno más en la barriga
transitan caminos de desprecio e injusticia
en los que en grandes pancartas
en anuncios del más luminoso neón
           se lee: 
Más ruido hace la hoja del árbol al caer
que la opinión de una mujer


 Vera, Enrique Viloria. Poemas Salmantinos. Salamanca: Centro de Estudios Ibéricos y Americanos de Salamanca, 2017, pp 59-60.
.
.

sábado, 23 de dezembro de 2017


      Vivir Muriendo


                       El año que es abundante en poesía, suele serlo
                       de hambre.

                                Miguel de Cervantes



A lomo de tu jamelgo hirsuto
el mundo recorres
los entuertos continúan
el hambre   la guerra   la miseria
los exilios y los destierros
confirman lo sabido
el hombre nunca estuvo hecho para la paz

La mentira campea
la senda de la virtud sigue siendo estrecha
la libertad ya no brilla
el vicio es ancho y espacioso

Todos callan a conciencia
el que denuncia es confinado a una cárcel de Argelia
las palabras de los oprobiosos
están por encima de los hechos
El mundo gira en mala dirección

       Miguel

Nadie lee   muchos deamdulan por el ciberespacio
una puerta se cierra sin que otra se abra
rema la envidia
los oportunistas se durmen en la costumbre
se dificulta fabricar el proprio destino
para tu fortuna y la nuestra
quedan la poesía para cantarle a las cosas humildes
y amistades que nadie puede turbar


  Vera, Enrique Viloria. Poemas Salmantinos. Salamanca: Centro de Estudios Ibéricos y Americanos de Salamanca, 2017, pp 57-58.
.
.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


CAPÍTULO 18
Fósforos no escuro:
Sobre Negro Marfim, de Victor Oliveira Mateus


                   The great revelation had never come. The great revelation perhaps
                   never did come. Instead there were little daily miracles, illuminations,
                   matches struck unexpectedly in the dark.

                         Viriginia Woolf, To the Lighthouse (1982:249).
.
.
.
.
   Seria de forma tacteante e de coração aberto que nos deveríamos aproximar, sem vergonha ou embaraço, do novo trabalho poético de Victor Oliveira Mateus. Uma obra que, pela densidade imagética a que se propõe e pela intensidade das meditações que desenha, desafia qualquer infrutífera tentativa de paráfrase. É essa a marca-de-água da grande poesia. Versos que, dizendo aquilo que têm para dizer, não carecem verdadeiramente do véu crítico que sobre eles, em vão, sempre nos atrevemos a lançar. E, assim, quase paradoxalmente, como que impera uma cintilante transparência, irrompendo do seio de uma escuridão avassaladora que permeia a tessitura deste Negro Marfim.
   A voz poética que percorre estas páginas aceita o rumo que Goethe traçou para o aprendiz de enigmas que todo o poeta é - "Faz da tua dor um canto", intima o autor de Poesia e Verdade. Em textos que combinam magistralmente um contido fôlego narrativo e a pregnância da expressividade metafórica, desfila perante o leitor um elenco de actores, que albergam uma prismática multiplicidade de olhares, intérpretes-fingidores que vão desempenhando os seus papéis, (...)
   Victor Oliveira Mateus põe em cena uma espécie de tragédia absoluta das nossas vidas, cabendo ao poeta o papel de precária testemunha de um tempo sem aura, de um alegre apocalipse (como lhe chamou Hermann Broch) em que, inapelavelmente, nos vamos afundando. (...)
   Em Negro Marfim, naufrágio com espectador também se lhe poderia chamar (para utilizar o título de um livro de Hans Blumenberg), o sujeito agónico assume a incumbência ética de captar fugazes instantâneos de múltiplas vivências, testemunhando um mundo em convulsão, uma espécie de estéril e exaurida Waste land (...). Poética, pois, da constatação da perda, tangenciando a problemática do desconcerto do mundo, de camoniano tradição (...).
   Estamos, pois, perante uma poesia indagativa que se demora nesse tactear dos escombros, vasculhando as ruínas, em demanda daquilo a que Benjamin chamou a frágil força messiânica a que o passado tem direito. Seria, porventura, frutuoso ensaiar uma análise cuidada do livro em apreço à luz das considerações benjaminianas em torno da estética da ruína e da noção de melancolia. (...) É como se, como nos diz Benjamin, no seu persistente alheamento meditativo, a melancolia absorvesse na contemplação as coisas mortas para as poder salvar.
(...) A tragédia, a escuridão, tem sempre a mão estendida às estrelas; nela habita uma semente de esperança, uma espécie de rasto de luz que, recusando extinguir-se, brilha como uma pérola negra que, embora negra, é ainda pérola. Como do fundo do inferno saiu Dante para voltar a ver as estrelas ( e quindi uscimmo a tiveder le stelle), (...)
   Trata-se de uma poesia dilacerada e dilacerante. Em Negro Marfim, Victor Oliveira Mateus pinta, efectivamente, um grito perante um universo que se desmorona (...) é o canto que emerge depois da harmonia, após a barbárie medrante no seio de um mundo despido de ética e amputado de beleza. (...)
   Trata-se de um olhar disfórico e intransigente e nisso se aproxima de um escritor como Rui Nunes: "o negro é a intimidade/ de todas as cores, no Outono de um passeio no reno/:/ O negro é o estrume do luto," lemos em Uma Viagem no Outono (Nunes, 2013:33). Leio Negro Marfim como um inadiável apelo contra o servilismo e o esquecimento, contra o empobrecimento da imaginação e o aviltamento da beleza, contra o padronizante e estupidificador poder económico (...) e a cinzenta era da 'burrocracia' - para utilizar o magistral e justo neologismo de Herberto Helder.
(...) O sujeito poético ora espia, ora é espiado, numa intrincada teia de olhares que confunde presa e caçador, voyeur e objecto de desejo.(...) esses súbitos e delicados sobressaltos como que redimem, sendo, no dizer de Virginia Woolf, "iluminações, fósforos que se acendem inesperadamente no escuro", e que dão voz a uma palavra intermitente, tão precária e gloriosa como a vida.


  Soeiro, Ricardo Gil. Poéticas da incompletude. V. N. Famalicão: Edições Húmus, 2017, pp 157-164.
.
.
.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


NA MIÑA CAMA agora viven
dous paxaros amarelos...
O primeiro esfúmase sereno
entre zarapatas de néboa.
O outro ecoa na sombra da
lapa consumida.


   Valle, Luís. Para que eu beba. Cangas do Morrazo: Edicións Barbantesa, 2017, p 46.
.
.
.

domingo, 17 de dezembro de 2017



NA MIÑA MENTE bailan as
brizas atadas às ráíces das
árbores que saben chorar.
Diluvia no mundo enteiro
e todo é máxico, coma os
soños no corazón do neno
irado. Prendo a lámpada.
O canario respira contra a luz,
à marxe do pensamento e do
soño.


  Valle, Luís. Para que eu beba. Cangas do Morrazo: Edicións Barbantesa, 2017, p 36.
.
.
.

sábado, 16 de dezembro de 2017


Crónica publicada hoje  na Plataforma "Escritores.online". Ver aqui  https://escritores.online/textuario/cegos-sao-os-outros-victor-oliveira-mateus/  
Foto: Leitura no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca em 2017/10/25.
.
.
                                        Cegos são os outros
.
     Ao sair do café, de manhã, logo após o pequeno-almoço, deparei-me com duas mulheres, saídas nem eu sei de onde, que me barravam o caminho. Uma delas, vestida de negro, estendeu-me um livro de capa acastanhada. Se eu queria ouvir a verdade, perguntou-me. Eu, ainda ensonado e com pouca paciência, resolvi gracejar: Isso está mal traduzido! A mulher de negro perdeu a compostura, vociferou, saltitou à minha frente. Eu, que me tinha jurado jamais argumentar em questiúnculas ou conciliábulos deste tipo, resolvi recuar. Contudo, a mulher de negro não desarmou: falou-me do eminente fim do mundo, folheou o livro, defendeu a indiscutibilidade do escrito. Os seus olhos chispavam, o corpo aos estremeções parecia barco em vendaval tremendo. E foi então que resolvi dar um cunho mais sério à abordagem: falei-lhe das interpretações das Escolas de Alexandria e de Antioquia, das questões surgidas em torno das Epístolas de Paulo, etc. A mulher de negro foi ao rubro: Quem devia estar aqui era um ancião!, gritava ela. Um ancião é que havia de lhe responder.
     Quando me preparava para as contornar e cortar cerce a conversa, senti uma mão pousando levemente num dos meus braços. Olhei. Era a outra mulher, igualmente idosa, mas esta agora toda vestida em tons claros, uma cabeleira curta e toda ela branca a condizer. Olhei-a. Tinha uns olhos de um azul tão líquido que me fez lembrar os de meu pai já nos seus momentos de assumida loucura. Olhos parados, virados para a porta do Banco. Ó meu senhor, perguntou-me ela, então pensa que andamos neste mundo para nada? Apanhado de surpresa, estrebuchei, entrechocaram-se-me os raciocínios, desabou-me a bravata, que, ainda conseguiu dizer: Não, por acaso até não! A mulher de claro, fazendo subir a mão, tocou-me os ombros, o rosto, os óculos e sussurrou: Então já vê! Ficámos os três num silêncio breve.
     A mulher de claro, serena, obliquava com frequência a cabeça, enquanto a de escuro, com a respiração rápida dos ansiosos, invetivava tudo e mais alguma coisa, até que decidiu, por fim, confessar o milagre que lhe tinha acontecido. Resolvi acabar com a cena: Ó minha senhora, já vivi o suficiente para saber que há mais milagres do que aquilo que julgamos ver! A mulher de escuro atrapalhou-se: não percebia em que sentido eu usava o termo milagre, procurou avidamente auxílio na outra, que, silenciosa, continuava obliquando a cabeça como pêndulo bem afinado. Em desespero, a mulher de escuro jorrou em cascata: as suas duas operações ao coração, as feridas – e arregaçou ligeiramente as mangas para mas mostrar – , a tensão, os desmaios etc. Foi aqui que lhe perguntei o nome do cardiologista que a acompanhava. Mas o senhor pensa que eu com 300Euros por mês de reforma, tenho dinheiro para andar sempre em especialistas? Percebi então que a conversa adquiria novo rumo, rumo esse no qual eu não costumava ter hipótese: tirei da mochila um papel e comecei a escrever… A mulher de escuro, sem perceber o que eu estava a fazer, olhava-me fixamente. Voltei a guardar a esferográfica na mochila e entreguei-lhe o papel: A senhora vá aqui a esta Clínica, está aqui o nome de um cardiologista, eu já percebi que a senhora está mal medicada, olhe, é naquela rua lá ao fundo, vá lá, que eles fazem-lhe os exames que forem necessários. E apontei para uma rua ao longe. A mulher de escuro insistia na questão do dinheiro e eu tive de a sossegar: Escute, a Clínica é de amigos meus, está muito bem apetrechada, faça mas é o favor de lá ir, ninguém lhe irá pedir dinheiro, eu já telefono para lá. A mulher de claro voltou a pousar a mão no meu braço, levou-a de novo até ao meu ombro, manteve-a aí, com uma ligeira pressão e disse: Ah, eu sabia… afinal o senhor é um homem bom! Não consegui conter uma gargalhada: Eu? Um homem bom?! Só essa é que me faria rir agora, a senhora não imagina a quantidade de pessoas que eu lhe poderia apresentar e que lhe diriam exatamente o contrário. Ela fez descer a mão até ao meu pulso, que agarrou com firmeza e, sorrindo, já sem obliquar a cabeça, murmurou: Pois é, mas esses que diz, veem com os olhos, enquanto eu vejo com o corpo todo! E foi aqui que resolvi olhá-la com mais cuidado, olhar a sua serenidade, a sua argúcia, a sua capacidade de silêncio, olhei e conclui que aquela que de nós melhor via, afinal, era cega.
..
.

domingo, 3 de dezembro de 2017


O meu artigo "Paisaje y interioridad en la poesía de Alfredo Pérez Alencart" foi publicado no "SalamancartvAlDía" de 2 de diciembre de 2017.
O artigo diz respeito ao livro "Ante el mar, callé/ Em frente ao mar, emudeci" (Editora Labirinto, 2017) do autor referido.
Ver aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/166262/paisaje-interioridad-poesia-alfredo-perez-alencart/
.
.
.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017



(Torga, Miguel)

Por Buarcos passeia, sem outros luxos que não seja o seu antigo
olhar montanhoso.

Interrompe a consulta, deixa de ver lânguidos aquários,
e sai a capturar a força que o mar concentra.

E anota o memorável do abnegado ofício de ser pescador e de ser
poeta:

" Mas da mesma maneira que eles, sem que ninguém lhes peça
sardinhas, se
fazem ao mar; também eu, sem que ninguém me peça poesia, me
lanço a este mar da criação".

Alguém o viu em 43, entregue ao trabalho.

Costa a costa de uma Ibéria que é encontro e cisão,
poesia por praias e trigais;
utopias e sebastianismos precipitando-se
no fundo da esperança.

As ondas não descansam.
Nem o médico quando ausculta e grita o seu amor pela Figueira,
a sua fidelidade ante uma costa que lhe vai gritando ao ouvido:

"Rocha, és bem-vindo!"

Alguém o viu em 86, entregue ao trabalho...


   Alencart, Alfredo Pérez. Em frente do mar, emudeci/ Ante el mar, callé (edição bilingue). Fafe: Editora Labirinto, 2017, p 34 (Tradução de Eduardo Aroso).
.
.
.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017


Herdo o azul.

A minha voz escolhe a sua hospedagem e semeia na primavera
e se desoculta numa altíssima janela.

Em cada instante um sonho ou uma onda.
Em cada dia um novo baptismo. Em cada estremecimento
a abolição dos desdéns.

Inútil querer fugir daqui.

Nesta praia a luz não desaparece nem quando chegam
tempestades.
Pego na declaração das testemunhas.
Não se esquecem de nenhum raio de sol de qualquer verão.

Dizem do agosto: "Os banhistas enchem a praia,
os restaurantes repletos, o casino
para o jogo, os espectáculos dando vida nocturna..."

Exercito a paixão pelo sossego que resgata.
Exercito o sossego pela paixão que desgasta.

Entretanto, a cidade encontra-me a percorrê-la sem mapa
de cabeça erguida pelas ruas,
sentindo-a muito cá dentro para acreditar na sua existência.

E submerjo os meus olhos nela, para que não desapareça.
.
.
  Alencart, Alfredo Pérez. Em frente do mar, emudeci/ Ante el mar, callé (edição bilingue). Fafe: Editora Labiirinto, 2017, p 14 (Tradução de Eduardo Aroso).
.
.
.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Capas da edição em português da obra em referência publicada pela "Hebel Ediciones" de Santiago do Chile. Esta tradução e o prefácio estiveram a cargo respetivamente dos poetas brasileiros Leonam Cunha e Álvaro Alves de Faria.
.
.
       Prohibido por ley


Se me han perdido los abrazos
y partes de mi cuerpo
se han quedado dispersas por ahí
incrustadas en otras vestimentas.

Ahora busco un camino
que me conduzca al verso que no llegué a escribir,
al silencio sagrado que llené de palabras,
a un sitio bajo el cielo donde pueda encontrar
esos abrazos que perdí
y donde la perversa esperanza esté prohibida
por ley y para siempre.
.
.
  Moro, Lilliam. Contracorriente. Diputación de Salamanca, 2017, p 54 (Prólogo: Carmen Ruiz Barrionuevo).
.
.
.

domingo, 26 de novembro de 2017



          El monje copista

Tengo el vicio secreto de conversarme adentro
con un lenguaje exento de figuras retóricas.
No importa en qué momento, sola o acompañada,
con tanta perfección que nadie se da cuenta
pues me hablo con naturalidad
pero sin emitir aquello que me sé.
Incluso a veces escribo con el dedo
cualquier palabra clave sobre una piel desnuda
en medio de la noche entre frases de amor.
Es que me dan alergia
los sensatos de buena voluntad,
los prácticos consejos que siempre llegan tarde,
el aprecio y la mirada comprensiva
del que pretende que me le parezca.
Estou acostumbrada a disfrutar
del vértigo de andar sobre la cuerda floja
pero sin patetismo ni ridículas frases
o cursis conclusiones. Prefiero
vomitar mis resacas sin palabras, sin ruido.
Escribo frases invisibles que solo yo puedo leer.
Grito, pero nada se escucha.
Me voy perfeccionando en el silencio.


   Moro, Lilliam. Contracorriente. Ediciones Diputación de Salamanca, 2017, p 25 (Prólogo: Carmen Ruiz Barrionuevo).
.
.
.
.
.
.

sábado, 25 de novembro de 2017



.

Dmitri Hvorostovsky (16/10/1962-23/11/2017) morreu em Londres, vítima de cancro no cérebro, com 55 anos de idade, após dois anos e meio de luta com a doença. Para mim, que tive oportunidade de o ver no Grande Auditório da Gulbenkian, ele era o maior barítono da atualidade. Uma grande perda no mundo da música e da arte em geral.
.
.
.

                                                Romance moderno


   Seis meses bastaram para que soubessem tudo um do outro: que ela se orgulhava da intrepidez que uma tatuagem (um beija-flor plagiado do catálogo do estúdio) na virilha representava, que ele gostava de videogames, que ela lia Proust, que ele cursara um bacharelado em Física, que ela era fluente em francês, que ele se tornara fã de Godard, que ela saía com uma ruiva de dezanove anos, que ele não tinha muitos amigos, que ela trabalhava como free-lancer, que ele retocava o primeiro livro, que ela desejava se casar na igreja, de véu e grinalda, que ele viveria na Europa por uns tempos, que ela era mãe de uma menina de cinco anos, que ele afrontava o psicanalista duas sessões por semana, que ela e a filha moravam num apartamento quarto e sala, que ele era ateu, que ela o convidava para um jantar, no próximo final de semana. Depois de tanta conversa, concordaram que era hora de se verem. Já não se continham: logavam dez, onze vezes por dia e os papos se estendiam por horas: planejavam o noivado. No dia anterior ao encontro, um recado: ela lera cinco páginas do romance dele e que, a despeito de um ou outro clichê, a história prometia. Havia também uns detalhes sobre o estilo, mas nada que não pudesse ser resolvido e até gostaria que trabalhassem juntos na correção. Para, pouco depois, ele cancelar o encontro e digitar uma última mensagem: vou excluir o seu perfil dos meus contatos, não me procure mais, você não está me fazendo bem. Tchau.
.
.
 Fraga, Whisner. Lúcifer e outros subprodutos do medo. Guaratinguetá: Penalux, 2015, pp 52-53.
.
.
.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017


           La merecían


LA lluvia que ha lavado las naranjas,
las últimas naranjas perezosas,
la limpia, la que viene ya sin barro.
Y esas naranjas que la merecían
solo por esperar hasta el invierno,
como merecen todos los que esperan.


 Mesanza, Julio Martínez Mesanza. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 35.
.
.
.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017


            Safo Dieciséis


LO más hermoso de la negra tierra
no es una carga de caballería,
no es el choque frontal de dos falanges
ni el blanco surco de una nave negra.
Lo más terrible de la hermosa tierra
es amar el desdén de quien amamos.


   Mesanza, Julio Martínez. Gloria. Madrid: Ediciones Rialp, S.A., 2016, p 26.
.
.
.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017



                         Partiste. Eu gelo...


Partiste. Eu gelo os dias
a conjugar os verbos da ausência -
modos e tempos da melancolia:
e com essa certeza vou vivendo.

E se longinquamente amanheceres,
se a tua ausência se medir      por anos,
uma nova gramática terei
d'inventar pois: para vencer desânimos.

Tu partiste - regressarás talvez,
e eu     preso à solidão     mas aguardando
ouvir teus passos leves no passeio
(uma igual ilusão... de quando em quando).


 Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
.
.
.




                          Cantar-te


Não cesso de cantar-te: a ti que és só
uma constante ausência e um desejo
de possuir-te      sem saber que forma
virás tomar ao pé de mim - surpresa

que ficarás por me encontrares:     próvido
de quantos sonhos      quantos desesperos
vividos revividos      em segredo
numa secreta e apaixonada voz


que ciciava dentro do vazio
do meu peito febril sempre a fremir
como eras tu     em ânsia     permanente...

Cantar-te: seja apenas a miragem
de te pensar     em dádiva a meu lado -
fruto do meu precário pensamento.


  Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 18.
.
.
.