terça-feira, 26 de setembro de 2017

Pré-publicação:
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  A ESCRITA E O MUNDO NATURAL NA POESIA DE RUI TINOCO


                                                 VICTOR OLIVEIRA MATEUS

   
   O último livro de Rui Tinoco (A Mão Heteronómica, Volta d’mar, 2017) apresenta-se, num primeiro momento, como um cismar poético e uma inquirição sobre a escrita: “(…) e tanto é escritor/ aquele que segura à noite/  a caneta como esse amigo,/ despreocupado, relembrando/ tempos antigos” ( p 3); “necessito ser aqui um autor/ que me diga coisas: o destino/ as emoções que não soube viver/ ou sentir, como se escreve/ um peito que respira?...” (p 20). Contudo, esta escrita de que nos fala o poeta não se reveste de particularidades epocais, geográficas ou outras; o particular não é aqui o alvo da inquietação poética: “a mão, no século XII,/ também afagava rostos,/ evocava emoções,/ desejava o inefável, dela/ ficou apenas um vestígio/ bibliográfico, uma nota/ fora da mancha do texto “ (p 37): a escrita de que fala este livro não se subsume nos seus tipos (pictórica, cuneiforme, ideográfica, alfabética, etc.), nem nas diversas teorizações que sobre ela têm surgido (as obras de Barthes, os autores interpretados por Julia Kristeva ou até as análises de Jung em torno da escrita do inconsciente em “Sur l’interpretation des rêves”); a escrita de que se fala não é também passível de explicitação plena através de um ou outro elemento que se lhe possa associar: redação, tipo de leitura (Cf. o célebre episódio de que fala Alberto Manguel no seu Uma História da Leitura - Ed. Presença-, quando refere a estupefação de um monge no momento em que se apercebe de que a leitura em voz alta afinal pode ser substituída por uma leitura em silêncio). Todas estas especificidades são acessórias para a busca empreendida na obra de Rui Tinoco. O que o inquieta e que poeticamente vai indagar é o sortilégio da escrita, da escrita-em-si, é, noutros termos: a essência dessa escrita que nos invade, que nos cerca e da qual fazemos parte: “nessa altura, ignorava ainda/ como iam ser estes versos, estranho/ sortilégio da literatura: é por essa/ exígua janela que vão apreciar/ toda a cena, sem se perceberem” (p 7).
   
   A compreensão disso a que chamamos escrita e a possibilidade de se apreender o seu em-si, afasta-nos decisivamente do idealismo kantiano onde a coisa-em-si permanecia incapturável pela Razão Teórica, já que apenas suscetível de apreensão pela Razão Prática: para Kant a coisa-em-si não é mais do que um conceito limite. Ora, neste livro de Rui Tinoco, parece evidente que através dos diversos fenómenos esparsos pelos poemas eu consigo desvelar aquilo que é a escrita. Estamos, por conseguinte, no seio de uma inquirição de coloração assumidamente fenomenológica: eu posso, através do que os vários fenómenos apresentam à intuição, captar, como evidência, o que é a escrita: “Qualquer fenómeno (…) é sem porquê, já que todo o fenómeno é como ele se dá (à intuição).// Uma tal apreensão abre a verdadeira via para um acesso às próprias coisas, portanto, a fenomenologia acede, sem  nada de prévio, ao próprio fenómeno que é recebido tal como se dá.” (in Jean-Luc Marion,  Le visible et le révélé, cerf, p 19; cf. igualmente Husserl, L’Idée de la phénoménologie, Ed. W. Biemel, 1973, t II, p 74)). Desembocamos, como vemos, na tese husserliana de que a intuição, a evidência e a verdade coincidem. Estabelecido, por mim, este tópico, vejo Rui Tinoco lançar-se numa exaustiva inventariação poética de momentos onde o fenómeno da escrita se desenha:  “a dizer-me: “isto é/ solidão”. Eis uma outra/ perspetiva para/ a escrita.” (p 4); “ este, por exemplo: já está/ condenado, o melhor que se pode/ fazer por ele é transformá-lo/ em personagem: geme/ e lentamente se desvanece/ na página oitenta e três” (pp 12-13); “ não quis escrever o texto/ que afinal aqui está perante/ os vossos olhos. o tema/ da dor é sempre delicado” (p 25); “o autor é personagem/ do seu texto, o seu evangelista./ espalha a palavra,/ tornando-a carne, voz que voa/ sobre a plateia em plena leitura/ interior. é também o próprio/ branco da página fecundado/ pela sua biografia:” (p 38). Eis a escrita na sua multiplicidade fenoménica, a diversidade das situações por onde ela pulula e que aguarda o abraço unificador, o olhar que a diga e ilumine!
   
   Esta minha leitura de A Mão Heteronómica parece, todavia, ensombrada pelo estatuto do mundo natural nesta poética, bem como por um delicado processo de enxertia que o poeta decide fazer no corpo dos diversos poemas: “ a onda rebentou contra/ o primeiro vocábulo do poema./ o início do poente aquecia-me/ os sentidos, pese embora dificultasse/ a leitura completa deste texto. (p 26); “(…) o ruído do mar/ essa voz rouca que invade/ versos e depois se retira.” (p 27). Ora, e seguindo o modelo interpretativo que vou aqui utilizando, há duas variáveis que urge retirar de cena, se acaso quisermos encontrar – neste livro - o que a escrita é em-si: por um lado a psicologia empírica, tida por Husserl como uma ciência natural e cujos laivos podem ser encontrados em poemas como “Caim” (p 11), “No falecimento de Gabriela Tinoco…” (p 19), “Diz Maria Gabriela…” (p 35); por outro lado, os diversos elementos do mundo natural que invadem as várias estruturas poemáticas, já que uma atitude fenomenológica exigirá aqui necessariamente duas etapas: a redução eidética que me permitirá a intuição das essências em vez da consideração dos factos e das coisas naturais e a epoché, que me autorizará a pôr entre parêntesis a existência do mundo natural (cf. Husserl, Meditações Cartesianas, parágrafo 44).
   
   No entanto, e apesar dos aparentes escolhos, uma fenomenologia da escrita, um intento de desvelar aquilo que ela é essencialmente, não se encontra ameaçada pelas variáveis referidas e tudo isto porque a técnica poética de Rui Tinoco se alicerça na sobreposição de planos narrativos, ficcionais e poéticos, nas cissuras espaciais e/ou temporais, nas ruturas e, muitas vezes, na recomposição dessas ruturas. Esta é, portanto, uma tessitura poética complexa, que, desenhada a régua e esquadro consegue não descambar num discurso geométrico, mas, antes pelo contrário, é o filigranar do corpo do poema que lhe avoluma a poeticidade e, neste caso, concreto, que conduz o livro não a um produto híbrido ou insosso, mas antes nos alerta para algo a seguir de perto, lembrando-me mesmo o monólogo interior de Virgílio ante as pressões Lucius: “A verdadeira arte ultrapassa os limites, rompe-os e penetra em domínios novos, até então desconhecidos, da alma, da concepção, da expressão, irrompe no original, no imediato, no real…” (in Hermann Broch, A Morte de Vírgilio – Vol II, Relógio D’Água, p 32). Como ilustração da referida técnica na construção do poema, veja-se: “a infância tornou-se/ uma história em que não/ participo, uma história que/ não apetece ler segunda vez./ aborrece. como voltar a/ preencher o início dos livros?” (p 40), mas também em trabalhos anteriores de Rui Tinoco: “trouxe tanta coisa para o poema/ que acabei por me confundir:/ fiquei desconfortavelmente sentado/ logo após o ponto final” (in O Segundo Aceno, Edições Sempre-Em-Pé, p 18). É, por conseguinte, esta tessitura textual, que nos permite falar da existência, por vezes, de interconexões ou de ilustrações reciprocas nos diversos planos do poema, sem que isso conduza a qualquer contaminação dos mesmos, ou seja, um cuidadoso processo hermenêutico do texto, de raiz fenomenológica, pode perfeitamente entregar-me o que a escrita é em-si, sem que a evidência obtida por essa intuição colida com o mundo natural, que, por um processo de redução, corre de outro modo embora em lugar contíguo.
   
   E o que é, então, a escrita, segundo esta minha leitura fortemente alicerçada em Husserl e que, por isso mesmo, tem mais a ver com a Ontologia do que com a Linguística ou com a Antropologia? Um processo onde o Todo se vai dizendo através do Tempo; um processo onde insistimos em dizer por meio de códigos que tão mal dominamos: uma comunhão intersubjetiva dos vários eus, diria Husserl: “La subjectivité peut alors être appréhendée comme immédiatement ouvert sur les autres consciences, grâce à une réduction qui n’est plus seulement égologique, mais proprement intersubjective.” (in Natalie Depraz, Husserl, Flammarion, p 347) A escrita como um continuum expectante de signos que, por uma qualquer necessidade jamais conhecida, se vão dizendo, destruindo, amando, ou seja, inscrevendo a sua efemeridade na iniludível perenidade daquilo que É:

esse um que faremos, eu texto
e tu leitor, será a união possível
entre uma infinidade de possibilidades.
digo isto não para me alçar
a uma posição de sobranceria mas
porque um encontro entre dois humanos
é sempre irrepetível – acontece
apenas que, neste caso,
os meus braços são feitos de letras.
et voilà.


    In Mão Heteronómica, p 44.
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segunda-feira, 25 de setembro de 2017



                O Afilhado


O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
Os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de control e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio eclético,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Que deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de cairo para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.

- E ganhas...? - lhe pergunto.
- Vinte paus, meu Padrinho.
"E não posso beber vinho:
"Nem um copinho,
"Meu Padrinho!"

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
"Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme..."
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas - mudemos de assunto.


                                    28 de Junho de 1971.


Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. II - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, pp 608-609 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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          Semântica Electrónica


Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenhador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
Coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim - o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
- Mas - diz-me a ordenança -
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

                                   
                                   19 de Junho de 1971.


  Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. II - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, pp 594-595 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017


      Ninho Frio


O pássaro voa ovante
Mas não tira a distância
A quem voa também:
Acho prumas no vento
(Quão facilmente a Lua!),
Um cristal me detém.

Oh, se fossem as coisas perdoadas
A quem tanto as amou cantando-as e dispondo-as:
Todo este meu pesar foi leve aos poetas mortos,
Mas custou muito a minha vida aos dois
Que ficaram nos portos
Como pombos
Vendo as naus e os seus rombos,
Só com um pouco de sal para depois
E de mim tendo apenas
(De dor como o direi?
Era o borracho...) as penas
Do voo que levantei.


 Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. II - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, p 45 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

As cartas de amor são jóias raras que só a custo ainda se encontram em Arquivos e Bibliotecas e esta raridade aumenta se essas cartas dizem respeito a relacionamentos havidos entre seres do mesmo sexo São célebres as Cartas de Mariana Alcoforado, contudo outras só têm sido descobertas de modo acidental. Estão neste caso as seis cartas de Frei Francisco da Ilha da Madeira, datadas de 1690 e descobertas na Torre do Tombo (Lisboa) aquando de um trabalho de investigação. Estas cartas, das quais postamos aqui no blogue apenas as três primeiras, chegaram até nós devido à traição do seu destinatário, Frei Mathias de Mattos, que, temendo a Inquisição pelo "abominável e nefando pecado da sodomia" (era assim que era conhecido, a partir do séc. XIV, o relacionamento entre seres do mesmo sexo) resolve denunciar o seu jovem amante, entregando assim à Santa (???) Inquisição as cartas aqui referidas, como prova. 
Resolvi postar estas cartas aqui na sequência de uma polémica que acabei de ver no Face. O asterisco, que surge inúmeras vezes no post, é de minha autoria, pois procedi à substituição dos diminutivos (tão usuais no Barroco) por termos mais atuais, embora não tenha conseguido fugir à carga erótico-pejorativa que a expressão "meu cão" tem hoje.
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CARTAS DE FREI FRANCISCO DA ILHA DA MADEIRA
A FREI MATHIAS DE MATTOS
Carta Primeira
” Meu feitiço (*), meu cão(*):
Esta tarde te vi passar com o irmão de Frei Bento. Bem te vi chegar para a porta da horta onde estávamos, e por uma greta te vi e teu lindo rosto (*), e a tua boca (*) que lhe desejei dar um beijo (*) de língua. E de tal sorte me vi estonteado que estive para ir após de ti pela porta a fora. De tal sorte me vi embebido, que cheguei a dar  passos para o fazer, quando me lembrei que estavam ali os coristas.
Oh! que mágoa que sentiu meu coração (*)! Já não posso explicar, por que causas grandes melhor se explicam (em) bem senti-las, suposto que oculto com o silêncio o que é digno de tanto aplauso.)
 Te venho a dizer que excede minha dor todos os modos de sentir: não é possível que haja mais penar! Um só bem tem tantos males, que é tornar-me de sentir outros (males). Não posso sentir outra pena, que conhecendo tu o meu amor, lhe não correspondas com suas letras , para que tenha mais ocasiões de padecer. E esta pena só me fica em coração , por que pena tão grande não pode explicar alguma pena, nem pode haver papel que seja capaz de resistir incêndios e verter mares.
Que tinta pode haver que diminua minhas mágoas? Que desmaie a pena, recuse o papel, pena e a tinta. Melhor arbítrio é (a) recompensa no coração, (como tenho dito) pena tão grande, por não descobrir uma pequena queixa tão grande dor, por que então me dirás: a pena pela explicação e não pelo tormento que não seja eu digno de lograr tuas letras. Por favores tão soberanos, eu sou o primeiro que os publique, mas não faço eu deles a maior estimação. É uma falsidade que desmente tantas infâmias da alma, e adverte que nunca um amante há de viver satisfeito do que faz, se não obrigar cuidadoso o servir atento.
Ora, meus amores (*), escreve-me sempre, e se puder, todos os dias, ainda que seja uma regra, por que com ela aliviarei as penas que tenho dito.
Ora, adeus, adeus, meus olhos. Dá-me minhas saudades lá a meu coração (*). Tomara que viera o dia para te ver essa boca (*) e os ter teus olhos (*) que são uns feitiços (*).
Não sei que me tem passado, porque não posso parar  na cela, (ansioso) por te ver, por adorar, finalmente por te meter todo, todo, todo dentro do meu coração (*), na minha alma, nas minhas entranhas.
Ai meu menino, que há de ser de mim se me falta a tua vista! Que há de ser de mim se logro a tua vista por bocados (*). Tomara de estar sempre, sempre (te) vendo! Mas, ai que não tenho liberdade para isso, por isso morro, por isso acabo sem tu que me acudas. Ora acode, acode cão (*), a teu, a teu coração (*), ora acode, sim, sim, sim, ai meu coração (*), dá-me os teus braços (*) por que aí quero morrer.”
Carta Segunda
“Meu coração:
Esta tua ausência me tem dado muita pena. E se não fora as esperanças de saber onde estás, não sei se fora vivo ou morto. O mais certo é ser morto do que vivo. De ti já sei que devias levar uma vida excelente, sem te lembrar deste prisioneiro. E o certo é que agora me hás de render muitas finezas, as quais nem hei de dar crédito, pois quem se anime de estar fora de mim três ou quatro meses (e se estiveras mais se esta carta te não estorvara), será dificultoso o dar-lhe crédito às suas finezas.
Ora meu menino lindo, lindo, que para mim julgo muito que lá padecerias na minha ausência. De mim, te quero contar parte de minhas penas, que foram tantas que me obrigaram a escrever a meu tio à Igreja de São Roque
 que te buscasse e como eu não sabia onde moravas, só lhe mandei dizer que era no Bairro Alto e lhe pedi muito que se te encontrasse, que te desse minhas lembranças.
Muitas cartas fiz para te mandar, porém não me quis fiar de ninguém. Ao “Congro”
 perguntei por muitas vezes se sabia onde moravas, e me disse que não. E como me via por tantas partes desamparado, só me faltava o pasmar.
Agora, meus olhos, que já te tenho, agora meu coração se aliviara com tua vista. E olha, meu menino, que te falo com todas as veras, que com esta tua ausência, acabei de conhecer o quanto estou preso. E agora, daqui por diante, não quero senão conte-lo em muitos amores (*). E vigia que não saiba ninguém, nem dês ocasião para isso. Tu bom juízo (tens) nessa cabeça e muita velhacaria
 nesse corpo (*): não tenho o que te recomendar nesta particular.
Agora no refeitório
 por acaso disse um rapaz da adega: é chegado o Padre Frei Fulano . E não por acaso me veio alegria tão grande, que a não posso explicar, por que esta (alegria) depois que te fostes, só me assistia enquanto ouvia falar em ti, (por) que do mais, tudo em mim era como um pena contínua.
Hoje indo repicar à torre dos sinos, vi vir um frade de São Domingos ao longe e imaginei que eras tu
 : estive à espera com muita alegria, até que tudo veio a se converter em penas e considerações: porventura estará doente ele que tarda tanto? Porventura não virá agora para casa? E outras considerações que me faziam (doer) o coração.
Oh! quantas vezes quando ia dizer as lições no coro)
 olhava para o banco e faltava-me o que desejava ver. Oh! quantas vezes olhava para o teu coro, sem ver lá o meu menino! Agora, meu coração, minha alma, e minha vida, vejo o meu coração aliviado, os olhos com a vista, a alma com alegria, com gostos. Agora já tem os meus braços a quem abraçar, já os olhos tem para onde olhar, agora se acha o meu coração com alívios, porque tem com quem desabafar. Já agora tem a quem beijar.
Aceite tudo isto, meu coração, ora aceita que me queres matar, que hoje mais que nunca te peço, aceite estes abraços, aceita que estou preparado para dar mil vidas se tantas tivera só por te fazer um gosto, e se tantas vidas dera para te fazer um gosto, o que não farás tu para me dares um alívio!
Ora, acaba já me dares os teus braços (*), não seja tirano, não me queiras matar de todo, que bem vingado te fez. Não me esquece ainda a tirania com que (te) apartastes de mim, ainda não! Pois até te não dar dois açoites na minha cela, me não hei de esquecer, o quanto eu rezarei a Deus(46)que fico esperando por resposta, ou por letras tuas. ”.
Carta Terceira
“Meu coração (*), minha vida, minha alma e meu tudo:
Timbre
 é de honrados com eu, por confissão tua, predicado seu da tua amizade, ostentarem-se agradecidos e se é que não passa mais avante por esta, devo atrevidamente numerar-me bem nascido e são mestiço) que concorrem a me obrigar a fazer-te estas e outras muitas regras para te dar a conhecer que vivo eu obrigado às tuas memórias, que não presumi serem ludíbrios que à minha pessoa lanças, lanças acharás em mim que se não se assemelharem aos teus primores, não andem de me vencer nas leis da amizade.
Nenhuma intenção tinha de te fazer participante das minhas letras, por que facilmente se perde um escrito e justamente o crédito, e com ele e em ti é que tenho posto todo o meu cuidado. Por isso, queria ver se podia passar sem que fizesse para que em algum tempo não pusesse algum desgosto, mas fio na tua pessoa e não faças porque te não hei de meus amores (*) dar ocasiões de me ofender.
Ora sim, desde agora te dou o meu coração, alma e vida e todas as potências da alma. E olha que te não hei de ser algum tempo contrário e hás de experimentar em mim o que até agora não temos experimentado, a quem entregastes o teu coração. Manda-me dizer o que te faz este maganete
 e grandíssimo desavergonhado: já era necessário que lhe déssemos com um pau que bem merece.
Hoje me apurou de tal sorte a paciência ao servir da mesa, que se não assentara (um frade), lhe houvera de cortar as orelhas. E já na mesa parece que não quis Frei Bernardo uma ração de carneiro, por (estar) má, e pedia outra, a qual tinha dado da cozinha, para que lha levou sem pedir-me ele que não fizera, porque ele não houvera de fazer, ou lhe não quis fazer o gosto, porque levei a ração ao clérigo, e enfadou-se muito e chegou a Ministra
 muito enfadado, dizendo: aqui não se faz a vontade senão aos vilões ruins. Virei-me eu para ele e lhe disse diante dos cozinheiros e os mais criados que na cozinha estavam: oh! irmão, vós não podeis chamar vilão ruim a ninguém, porque vós ofendeis a vós mesmos. E voltei a levar a ração de carne ao procurador.
Não te posso encarecer o que aquele diabo e toda a mesa rosnou, e o gosto que teve de me ver dar ao vigário aquela penitência. Enfim, meu coração, havemos de ter paciência porque não é tempo de falarmos.
Hoje quando fui limpar o coro, cuidei que se achasse lá, para poder desabafar contigo, e justamente ver-te, porque só com isso desabafo.
Não sei o que me tem dado, porque somente ver-te as caras me causa alívio no coração. Ora, meu cão (*), aqui me tens: mata-me! Estourarei de padecer o que advinho hei de padecer contigo. Bem sei que emprego bem o meu amor em ti, porque conheço que por ti não hei de cobrar estes amores (*).
Podes estar seguro, que se esse amor não acabar com a morte, além dela passará o meu, e assim estou vencido tanto de vontade quanto de amor, e podes estar seguro que nesta hora, me serve o coração por boca, porque escrevo o que me dita o coração.
Ai Jesus, valha-me Deus, não sei em que me meto! Faz-me Deus matar, e se é o teu gosto este, mata-me, aqui me tens, mata-me, meu menino. Quem fora tão de ferro que estivera derramando sobre teu coração as lágrimas que os meus olhos sobre este lançam! Mas ai que morro, não por te ver todos os instantes e morro porque então morrendo alcançarei a vida. Ora, mete-te, mete-te neste coração (*) , esteja metido, ora mete-te mais, mais, mais, mais por dentro, assim!
Ai Jesus, que consolo sinto agora! Saber o que dizes já, que me amas, amas muito, muito, muito, muito me amas e pagas-me na mesma moeda, porque te amo muito, muito, muito, oh! Cão (*) que já me começas a matar. Eu morro, filho! Acode-me, morro de saudades tuas!
Não sabes que alegria me causou em ver-te agora no Capítulo quando vinha com este magano. Amava eu estar ali toda a vida adorando-te. Mas, ai que não pode ser, que disso morro!
Tu filho, busca-me por muitas vezes em parte donde te veja, porque não sabes a glória que disso tenho. Ora, meu coração (*), dá já os teus braços, aperta, aperta mais, mais, ainda é pouco, ainda mais, ai que gosto tão grande, quem me dera agora estar mamando nos teus peitos (*)! Oh que doces peitos (*)! Mete-me dentro num que é o esquerdo, onde está o meu coração, porque quero ver o que te diz lá. Ora, meu menino, adeus!
Ai que me não atrevo a deixar-te! Agora (te) vi escarrar e me roçastes na parede: que gosto que logrei! Agora não, não te posso explicar, que delícias, que gostos (*) tive agora! Ai! Já como me sabe! Ah! feitiço que me trazes morto: melhor fora nunca te conhecer, do que agora adorar-te sem te ver. Que penas tão grandes! Mas uns teus carinhos, as tuas pancadas (*), mais apagam, mais aliviam, muito, muito meus amores (*).
Vem me dizer que teu coração é um incêndio, é um fogo muito aceso e ele me tem abrasado, e gosto muito! Adeus, adeus, porque sinto escarrar o Barbos. Agora deram a badalada, por isso não dou mais largo, mas que farei? Se acabar de escrever-te me faz acabar a vida! Eu acabo, acabo: acode-me cão, cachorro (*) que me não acodes! Ora sim, acodes-me, ora acode-me, sim, sim, se não, morro, morro, eu morro! Ora vem já acudir-me, vem, ora vem, meu menino, por que morro, já estou morrendo por te ver: acabas já de vir, ora sejas muito bem vindo. Como estás? Como te vai lá com o meu coração (*)? Mui bem! É muito gostoso (*), é um feitiço (*), ora estimo muito, muito, como está lá? E o meu como está? O que te diz está muito quieto (*), é muito manso (*) Diz-me também que tu o destes a Eugênio e que nunca… (dilacerado) e que só folgo de os ter comigo, porque faço muito caso dele, porque lhe quero muito.
O vigário me fez apagar a candeia: estou nos escuros por isto não te escrevo mais. Adeus.”
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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Pré-publicação:
o original em português e a versão espanhola sairão no próximo número de Crátera Revista de Critica y Poesia Contemporánea.
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     As palavras e a máscara


.Para que servem as palavras
que nunca cheguei a dizer?
As justificações?
Um cabriolar de motivos,
que, por mais autênticos e verdadeiros,
lerias como farsa
para um palanque que o tempo não poupou.
De que serve falar do não pensado
ou do pensado sem rigor nem previsões;
dessa loucura antiga
que a vida inteira puniu
como um resgate
do que em mim emenda nunca tivera
nem sequer diminuição?:
pagamento desmedido;
tormento por um gesto descuidado,
estouvamento;
máscara com que ainda hoje disfarço
aquilo que não tem nome.
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.              Victor Oliveira Mateus
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      Las palabras y la máscara
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¿Para qué sirven las palabras
que nunca llegué a decir?
¿Las justificaciones?
Un cabriolar de motivos,
que, por muy auténticos y verdaderos,
leerías como farsa
hacia un palenque que el tiempo no arruinó.
¿De que sirve hablar de lo no pensado
o de lo pensado sin rigor ni previsiones;
de esa locura antigua
que la vida entera punió
como un rescate
de lo que en mí nunca había tenido enmienda
ni siquiera atenuante?
Pago desmedido;
tormento por un gesto descuidado,
atolondramiento;
máscara con la que aún hoy disfrazo
aquello que no tiene nombre.
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                   Victor Oliveira Mateus (Trad. José Ángel García Caballero)
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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Pré-publicação:


                             Jeanne


Bem podia ter partido de outro modo,
Madame Moreau. De overdose na flor
da idade, no banho electrocutada
ou com uma síncope durante as filmagens,
enfim, algo de inesperado, de espectacular.


As pessoas hoje, Madame Moreau,
não se interessam por vidas longas dedicadas
ao que quer que seja e que a si se acrescentem
na suprema tarefa de estar vivo.


O que mais dá, hoje, Madame Moreau,
são as retinas enxameadas de cor,
as rotinas borbulhando delírio.
Bem podia ter partido de outro modo,
de facto podia, mas ainda bem que o não fez.
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                                    Victor Oliveira Mateus



Nota- poema escrito de um jacto a 1 de agosto de 2017, dia imediatamente a seguir ao da morte de Jeanne Moreau.
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domingo, 17 de setembro de 2017



     Retorno ao silêncio das nuvens


                                    Para WB


Retorno ao silêncio das nuvens
atravessado pelas copas nuas das árvores
trepidante o comboio avança
e, olhando o céu, plúmbeo,
sinto-te entranhado no coração, no pensamento
e sei que jamais me abandonará a tua sombra.

Somos fugitivos de tudo
e de coisa nenhuma, tudo se resume
aos ossos, ao tempo, ao olhar de través
somos nómadas
a olhar o céu à procura de sinais
na constelação da noite
e das runas
entrevendo deuses, caminhando
no vento e na luz da tarde,
e procuramos, como mendigos
procuramos, com o olhar em assombro
perdemo-nos por essa maravilha que nos venderam:
a luz, a promessa, a liberdade
e tudo o que descobrimos são as nossas mãos nuas
em apelo de solidão
e ajoelhamo-nos
ali se mostra o selo, a escrita grafada
o segredo inscreve-se na carne em ausência.

Diante de mim estás tu, sem espelhos
e guardas o meu olhar, irreversível, humano
definitiva e esplendorosamente humano

sem redenção.


  Cantinho, Maria João. Do Ínfimo. S/c.: Coisas de Ler, 2016, pp 38-39.
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   Monólogo Improvável


                                 Para K


Por mais que te olhe o rosto
e aguarde pacientemente que os portões
se abram, o enigma não se aclara
poderia manter-me dias e dias
e noites sem tempo,
e sei que apenas ouviria
o crescer das ervas
ou o vento soprando do Norte.

Já perdi a conta dos dias
e dos anos que esperei
como quem aguarda o nada ou a sombra
e desesperei, mas o tempo,
com as suas invisíveis asas
acabou por triunfar.

Poderia ser Joseph K
ou qualquer outro que espera
o que não chega nem se revela
o que pergunta e nunca ouve
o que sonha e guarda fantasmas
o que ouve vozes perdidas no nevoeiro.

Por mais que te olhe o rosto
em busca de sinais
é essa ausência que me faz cair
para fora da língua,
um vazio que nos espreita
e só a espera ou
uma certa forma de loucura
me embala, essa raíz antiga
e sem nome, que cresce
para dentro da terra.


   Cantinho, Maria João. Do Ínfimo. S/c.: Coisas de Ler, 2016, pp 17-18.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017



                             Negação

Persigo uma exigência obscura, corro o risco de
entrar na minha realidade. Exponho-me à vergonha
de escrever, à erosão que isso provoca. Ouso dese-
jar o suicídio das palavras, saber o que me resta. Na
estranha paixão do esquecimento, na falta de super-
fície do eu que me reveste, escrevo porque digo 
sempre o mesmo. E não há nada de secreto, a es-
crita é apenas arte. O tempo, essa brecha, abre no
poema o nosso rosto, na pele se introduz e arruína.
Se o meu espírito estiver destinado a afundar-se, 
se a potência do mal quiser o meu limite, serei a
radical negação.


 Sá, Isabel de. Voces de Portugal, once poetas de hoy. Granada: Asociación Cultual Cancro, 2017, p 21 ( Selección y traducción de Pedro Sánchez Sanz).
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017


               Décima do João Charamba
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Meu amigo João Charamba,
Sempre brabo, sempre bum,
Levando encomendas, nicas
A casa de cada um:

Levanta-te lá da cova!
Escuta, te vou falar:
Tenho saudades de ti
Como conchas há no mar!

Quando eu era pechinchinho,
Que botava o meu pião,
Tu tiraste-me a fieira,
O casquelete e o ferrão.

Não te alevanto um aleive,
Vou já dizer como foi:
Foi viage de cidade,
Tão grande, que ainda me doi!

Tua mulher, que Deus tem,
A nossa santa Rosinha,
Ainda me talhava bibes
Com algibeira e bainha.

Mas fiz o segundo exame,
Andei bem, fiquei distinto.
O resto... foi a adagada,
Que ainda agora bem na sinto!

Meu Pai foi a tua casa,
Entrou na tua cocheira,
Marcou lugar para mim
Numa almofada traseira.

- "Amigo João!" - (parece
Que, mesmo morto, lhe aceno!);
"Vai este baú de lata,
"Agasalha-me o piqueno!"

Estavas a cardar o macho,
Apressado e já nervoso
(Aquele teu macho valente,
Um bocadinho ventoso...);

Mas respondeste que sim
(Punhas o colar folgado).
Depois, deste a volta à Praia;
Meu Pai ficou descansado.

No outro dia de manhã,
Mal o buraco luzia,
Apartei-me de meus Pais
E de toda a companhia.

Fui ao Senhor Santo Cristo
Dizer adeus à Madrinha,
Despedir-me do quintal
Do granel e da cozinha.

Lá me sentei na carroça.
Meu Pai deu-me um beijo e disse:
- "Toma lá... São doze e meio.
"Para alguma gulodice..."

Ainda aqui, na minha cara,
Uma migalha me passa...
Era uma lágrima dele!
(O doce ficou de graça).

O teu machinho era esperto,
Redondo, sem grandes pressas...
(Castanheiro dá castanha
E flor - já sabe...- às avessas!).

Lá ia ele, tuca-tuca,
Pela presa do Ferrão;
Co a força do nevoeiro
Só via um palmo do chão.

E eu cá em riba, na almofada,
Mais triste que um passarinho,
No cabo do teu chicote
Ia aprendendo o caminho.

Grotas da Fonte Bastarda,
Moinhos da Vila a andar...
Depois, a Casa dos Mudos,
Que nos vinham acenar.

Viam-se ao longe os Ilhéus
Cheios de craca e perrexil!;
Tu às vezes praguejavas
Se te caía um funil...

Mas tudo se consertava
Sem más falas nem despesas.
(Para aliviar o macho,
Apeávamos nas presas).

Éramos Deus cos seus anjos
Naquele carrinho traseiro,
Chegadinhos uns pròs outros
Coma moeda em migalheiro:

Eu, só Luís, meu primo Reis,
O siô Esnuário e o Firmino
(Deixávamos sempre atrás
As barbas do ti Josino).

Mas eles é que tinham sorte!
Iam e vinham num dia...
Só eu, naquela carroça,
Da Praia me despedia!

Ia estudar prà Cidade,
Aprender para Doutor...
Mal sabia o que me esperava,
Que eram só penas de amor!

A tua carroça, cheia
De povo e de massagadas,
Acordava os pintainhos,
As igrejas e as testadas.

Cada roda era uma rosa,
Cada lanterna uma estrela;
No altar da tua boleia,
O chicotinho era a vela!

Se passávamos nuns toiros
(O adro parecia um ovo!),
Tu, de chicote nos raios,
Gritavas: - "Eh, gente! Eh, povo!"

-"Olh' olh' olha!" - caçoavam,
Nas paredes, os rapazes,
De bordões enconteirados,
Vermelhos coma rocazes!

Mas o macho era andarilho,
E as guias, na tua mão,
Sendo preciso, serviam
De capote ao boi Saltão.

Oh Porto Judeu, Feiteira,
Santo Amaro, Bua Vista!
Ficam chocalho atrás,
Já a Cidade se avista!

Minha saudade, embalada
Nos solavancos do chão,
Já se ria, já passava...
Que a vida é isto, João!

Oh Angra, tarro de leite,
Estava-te quase a beber...
Estrela do meu destino!
Castelo do meu bem-querer!

Já se avistam n'as muralhas
E a fábrica da Carreirinha;
Já toca o sino da Sé
As horas da manhãzinha...

Olha o Palácio do Bispo
E a insígnia do General,
Pátio do Conde, Mimória
E a fidalguia em jaral!

Já se vêem nobres quintas,
Casinhas, Sã João de Deus,
O mirante do meu bem
E as torres de Sã Mateus!

Cheias de orvalho das ervas,
As orelhas do teu macho
Eram luvinhas de aljofre
Pla Grota do Vale abaixo!

Ah, macho do João Charamba!
Ah, machinho de aluguer!
Vivo, redondo, enfeitado,
Parecias um malmequer!

Assim, durante uns par de anos,
Me levaste e me troixeste.
Sempre, sempre o mesmo aperto
No meu coração puseste!

Lá na Praia da Vitória
Deixava tanta inocência...
E no caminho aprendia
As voltas da paciência.

O cemitério, à Feiteira,
Siste et ora me dizia:
"Pára e reza" e segue sempre
Na mão da Virgem Maria!

Assim fiz, sabe Deus como!
(Que santos, no mundo, há poucos).
Os galos da Ribeirinha
Já não cantavam, de roucos.

Nossa Senhora é do Céu
E este mundo fome e guerra...
Deus quis que quem me guiasse
Fosse uma estrela da terra.

Por isso, amigo Charamba,
O teu machinho estacou
Lá nas suas quatro estacas
Quando a cidade avistou.

Era ali, naquele Castelo,
Era ali, naquela cova,
Que me esperava a morte e a vida
E a estrela da Boa Nova.

Por isso, amigo Charamba
(Padre-Nosso, Ave-Maria!),
Tu tiraste-me o pião,
Mas deste-me a luz do dia!


 Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. I - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, pp 347-352 ( Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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sábado, 22 de julho de 2017


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                             O Canário de Oiro

Se deixo entrar este canário de oiro
Que me espreita e debica
(Eu que sou ossos, a gaiola,
Débil passarinho loiro!
Eu, professor, como um menino de escola!)...
Pois sim: Canta. Fica.

E então, para que tudo em mim se honre e execute
(Voz, penas e dejectos
Do canário),
Dou-lhe, seus passeadores, os meus afectos,
As minhas veias duras para grades:
Dentro delas, contrário,
Ele se embeleze e lute.

Ah, que o canário é o meu sangue talvez!

Mas então isto que é? Que violino engoli?
Que frauta rude aveludou a minha noite?
Em que prato de cobre bateu o nó do açoite?
Tão exacto, meu Deus, só vibrado por ti.

Musical, todo fogo, em mim me vou e expando;
Cada lágrima cai de mim como harmonia:
De quatro em quatro, vão a minha dor jogando
Essas lágrimas vãs no tapete do dia.
Que sérias são estas coisinhas de soar,
Poetas que vos is,
Soldados velhos,
Escolhendo na morte uma farda e um lugar!
Somos aqueles imbecis
Desenvolvidos nos espelhos,
Ai nos espelhos paralelos
Da sala onde um de nós é sozinho a cantar!
Estamos fumados, amarelos,
De tanto ler e delirar.

Inúteis fôssemos, poetas.
Quero dizer: como as cascas cor de laranja ou alvas de ovo,
Que não são laranja nem ovo:
Ainda se havia de ver
Se as podridões quietas
Não são o sal e o renovo.

Que águia trouxe do céu meu diapasão de ferro?
Que milhafre criou minha carne em seu bico?
A mão qual foi que me rasgou no erro,
Mulher, o coração que te dedico?

Quem era aquele de quem tirei o sangue forte,
Esta pequena música corrente?
A veia mamou-a a morte,
Que engorda à custa da gente.

Quem era aquela mulher de branco
Que tinha seios fortificados
E o ventre puro de onde arranco
E os altos olhos separados?
A de fogo e de fel, reclusa e encordoada?
A que nunca toquei, porque estava selada?

E o anjo bravo, só lume, o outro sujeito,
Em que chama tocou a sua asa desabrida?
Que maçarico foi que lhe platinou o peito
E o deixou em ferida?

Perguntaria,
Se esfinges mais houvesse,
Em que sal se tornou a que se deu por Maria
E me prometeu o que eu quisesse?

Ah, aves de parabólica plumagem,
Anjos de matéria nenhuma e de toda a arrogância,
Mulheres e homens de que sou a última viagem
Começada no mar que salgou a infância!

Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar!

Ah, Sete Espadas, minhas primas,
Estrelas nítidas e diversas,
Piões, pombas, baraças, e até as Sr.ª Simas
Todas quatro alteando as suas toucas perversas!

Onde? quando já? outra vez? ou ainda não?

O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão.

É ele, é ele o que tem tudo escondido,
Ele o que A desviou e A violou no vento,
Ele o que fez de mim o menino perdido
E me deu a navalha com que me fiz violento!

Ele leva para o alto as cordeiras e come-as,
Ele esconde no vale os lobos reduzidos,
Ele pede-nos as coisas emprestadas e  some-as,
Ele gasta-nos a voz, os olhos e os ouvidos.

Tempo, ladrão, dá-me conta do fardo:
As saudades pràli! as promessas pràli!
O que te vale é o escuro: Eu ainda ardo;
Minhas estopas são embebidas por ti.

Ai, a cordeira preta, a do velo maior,
Um palmo de gemido, onde a terias posto?
Tinha os galhinhos entre a lã: é melhor
Desenriçá-los do meu desgosto.

Tempo, molde de todos os lugares,
Pegada de quem desaparece,
esquema de bocejos e de esgares,
Frio de tudo o que arrefece.

Tempo que levas meu Pai morto,
Com catorze cavalos, todos de músculo solar,
E, para o ano, quinze! e crescendo! e ele absorto!
E os cavalos cada vez mais empinados! Morto...
Com que jarrete ou asa o hei-de eu alcançar?


 Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. I - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional.- Casa da Moeda, 1989, pp 136-139 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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segunda-feira, 17 de julho de 2017



     Canção para Rousseau


a cidade tem artérias cheias
de coágulos, seus pulmões
enguiçados sonham nuvens
de fumaça

a cidade pára relógios,
fecha sinais, apaga a luz
para mostrar estrelas,
para dizer que é apenas
uma segunda natureza,
o hábitat daqueles que
não sendo pássaros, sobrevoam casas
não sendo vermes, deslocam-se nos subterrâneos
não sendo ratos, vivem de restos


  Catrópa, Andréa. Mergulho às avessas. São Paulo: Lumme Editor, 2008, p 66.
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domingo, 16 de julho de 2017



Acaba de sair em Espanha, organizada e traduzida pelo poeta e crítico literário Pedro Sanchez Sanz,
a obra "Voces de Portugal, onze poetas de hoy". Segue abaixo a lista dos autores incluidos no presente trabalho:
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ISABEL DE SÁ
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
MANUEL NETO DOS SANTOS
JOÃO RASTEIRO
PEDRO OLIVEIRA TAVARES
JOAQUIM CARDOSO DIAS
JOAO MIGUEL PEREIRA
CLAUDIA SAMPAIO
RICARDO GIL SOEIRO
ANDREIA CRISTINA FARIA
SANDRA SANTOS
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sábado, 15 de julho de 2017


                         Ninho  


Onde estão os versos
que escondem a casa de minha infância,
onde estão?
Não os encontrei
no meio dos prédios
nem no miolo do formigueiro
que apareceu aqui pela manhã.
O quintal era outro,
de que não me lembro.
Talvez tivesse varais,
pássaros, outros formigueiros,
tantas coisas mais
e um certo aroma de musgo.
Era a cozinha que dava para o quintal?
Era a cozinha enorme,
e enorme era Zica,
Zica e seus quitutes.
Foi ela que me passou a mão pela cabeça agora?
Acho que houve gêmeos,
separados por uma lâmina
da qual nenhum verso restou no mar.
Não posso ter certeza,
mas minha avó me visitou à tarde,
leu um livro de presente
e perdi a fome até o próximo.
À noite, o quarto surdo ainda ressoa medos
em algum corredor com o pai
(dele me lembro).
Outro dia, procurava uma rima,
abri a cortina e tomei um susto:
a lagoa virou cimento.
Gritei por meu irmão,
devia estar dormindo
ou meu lamento
não chegou ao seu castelo.
Procurei mais uma semana
pela casa escondida sob versos.
Finalmente amanheceu
e sonhei que ela mudou de cor, de bairro, de século.


   Franco, Rendrik F. Casas Geraes. São Paulo: Editora Iluminuras, 2016, pp 25-26.
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      Motoboy


jovem
saudável
com iniciativa
prestativo
disposto
expedito
bem-humorado
veículo próprio
procura

superior
para lhe
dar ordens
ambíguas
o reprimir
explorar
humilhar
castigar

jovem
e necessitado
(a cidade
não é obstáculo)
pau pra toda obra
faz
tudo

hora extra
trabalho sujo
carrega piano
dá a cara
pra bater


   Proença, Ruy. Caçambas. São Paulo: Editora 34, 2015, pp 87-88.
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     Interrogação


acordo

uma pena
de pássaro
jaz
no chão
ao lado
da cama

então
um pássaro
ocupou
o quarto
na minha
ausência?

ocupou
o lado
esperto
da vida?

ou teria
a pena
se desprendido
                    suor
da companheira
no embate
noturno?


   Proença, Ruy. Caçambas. São Paulo: Editora 34, 2015, pp 72-73.
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sexta-feira, 14 de julho de 2017



                                       agora



nosso mútuo vazio

                              estuário

gerúndio onde a morte devagar se alarga

                             a tua falta farta

                             abismo do silêncio



                            a promessa da palavra

                            asa carnal dos teus ombros



                                                                  és eco sem fim



 Leite, Daniel da Rocha. aguarrás. Belém: Edições do Escriba, 2017, p 67.
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quinta-feira, 13 de julho de 2017

                 
                                 espesso


o teu silêncio

cavalo que avança dentro dos meus olhos

                                                        puro sangue

                                                        esse sólido movimento



                                                       transportar a alma de um morto.




uma

palavra de salvação



caem os pássaros



o

peso do corpo durante o tempo



o

peso da palavra durante o silêncio



eu te olho com o meu sangue



acendes o rio



Leite, Daniel da Rocha. aguarrás. Belém: Edições do Escriba, 2017, pp 18-24.
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terça-feira, 11 de julho de 2017



                            "Poema"


Esta a cabeça em fúria do poeta
como está nas fotografias tiradas de avião
depois de cair em chamas no mar de ninguém

estes dentes
o alfabeto doido com que vai escrever

e aqui está a sua mão direita
estátua de manhã e automóvel à noite
salvo acidente mortal

e eis os seus olhos
peixes verdes sem mar
a sua boca aquela voz horrível no deserto

os seus pés
dois príncipes encantados no palácio dos passos perdidos
antes de encontrar-te     meu amor


Forte, António José. Uma faca nos dentes. Lisboa: Antígona Editores, 2017, p 99.
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segunda-feira, 10 de julho de 2017


         "Memorial"


As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes


    Forte, António José. Uma faca nos dentes. Lisboa: Antígona Editores, 2017, p 36.
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sexta-feira, 7 de julho de 2017



              "O Reincidente"


   Tenho a sensação constante do equívoco, como o ladrar
esquartejado de um cão sobre um fundo de lamentos e
espadas. Assisto, impávido, ao suicídio sumário das horas
que não me pertencem. Às vezes apetece-me encostar um
fósforo aceso ao mundo, mas o mundo despreza esta e outras
formas de sagacidade. Acordo em completo desacordo com a
minha condição. Acordo em consonância com a velocidade
e a desfocagem, como se pertencesse à casta mais baixa de
uma colónia de térmitas. Acordo completamente cego. Sem
asas. Vitalmente imaturo. Predestinado para a concepção
honrosa de túneis, apto para descobrir água e alimento,
sempre com o cuidado de zelar pela alta eficácia do
reino. Acordo, acordo sempre de tudo, mas nunca desperto
de nada.


  Domingues, André. Dramas de Companhia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p 40.
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quinta-feira, 6 de julho de 2017



As últimas palavras que disser
ninguém as vai ouvir,
com tanta gente a morrer ao telemóvel
teclando a solidão viciante.

Estará tudo extinto pela água e pelo fogo,
apenas um homem trabalhará a terra
para que outro a coma

e constituirá um abrigo inútil
para proteger a espécie
da incerteza das placas tectónicas.


   Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 44.
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quarta-feira, 5 de julho de 2017



Fico à mercê dos cliques,
da reacção do sistema,
feito parvo, à espera de um sorriso,
de flores na mão.

Trago comigo um frágil martelo
para destruir uma placa gráfica, um disco rígido,
uma motherboard onde os meus segredos
são guardados de má fé.

E um papel timbrado a preencher de angústia.
E um megafone analógico
para ampliar a minha raiva
por não encontrar uma ave migratória
que me leve na viagem maravilhosa de Nils Holgersson.
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  Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 32.
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terça-feira, 4 de julho de 2017



      "Nu com colar de coral"


Um lugar de encontro
pode ser aqui, onde me dispo toda.
Aqui entre os lençóis de linho
e o curso do rio que me afoga as coxas.

Vem! Tenho a sombra das tuas mãos
presa no colar que me ofereceste
e pássaros de abrasamento
abrigados no cerco do meu corpo.

Vem! Misturei aromas de chá
e de cânfora no meu hálito e preservo
no olhar a rara planície do desejo.

Quero que me vejas antes que o sol decline
e a mais densa penumbra torne insubmissa
a minha mão tão perto do prazer.


 Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 45.

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segunda-feira, 3 de julho de 2017


             "A ruiva"


Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.


   Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 22.
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domingo, 2 de julho de 2017


(Nota: segue abaixo o meu texto de Apresentação do livro nele referido , que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul - Avª D. Carlos I em Lisboa - no dia 26 de junho de 2017, este texto seria depois publicado na "Revista Caliban" a 26/6/2017).
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VASOS COMUNICANTES – ANTÓNIO RAMOS ROSA E GISELA RAMOS ROSA: DISSEMELHANÇAS E CONVERGÊNCIAS.
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     Transcrevo aqui, à laia de preâmbulo, um excerto de uma obra sobre Maurice Blanchot que diz assim: “A experiência do comentador junta-se aqui à do escritor: algo existe para ser dito e que não o foi ainda, mas aquilo que não foi ainda dito, nunca o virá a ser. Encontramo-nos, portanto, nesse espaço onde, como o relembra M. Blanchot, Aquiles jamais alcançará a tartaruga. A expedição do crítico, apesar de aparentemente visar um objetivo definido, se tem algo de cabotagem no lugar onde a obra criativa se ergue enquanto aventura, partilha também com esta última do seu carácter de itinerância. Assim como o escritor, o comentador soçobra sempre com a terra prometida à vista.” (Françoise Collin in “Maurice Blanchot et la question de l’écriture”. Paris: Gallimard, 1986, p 11, tradução minha). Esta citação tem aqui uma dupla função: atenua e desculpabiliza as falhas e imperfeições das notas que aqui avançarei e, por outro lado, refere um autor que António Ramos Rosa gostava tanto de reler e de citar e que, de um modo ou de outro, acabaria de preceder também essas inquirições/viagens que o poeta português sempre retomava nos seus poemas, nas suas traduções, nos seus ensaios.
     O livro que nos ocupa aqui neste texto revela-nos, através do seu título, que estamos perante um recetáculo onde duas vozes poéticas se derramam. Uma leitura apressada poder-nos-ia levar a pensar que essas duas vozes poéticas circulam no território da identidade pura, logo, da cópia, da repetição passiva, da contrafação. Ora, o que uma leitura mais atenta faz ressaltar, é que estamos perante duas vozes, que, no seu diálogo e partilha comum, ou apesar deles, não se despem de aspetos que no seu dizer são essenciais e lhes concedem uma diferenciação recíproca, aliás, Maria Teresa Dias Furtado, no Prefácio deste livro, salienta já, para além “do entendimento poético e humano”, a questão “da proximidade na diversidade” (Cf. p 10). 
   O aspeto do diálogo e da partilha é enfatizado várias vezes por ambos os poetas: “O que eu fiz de mais puro/como uma estrela no ar/(…)/ Foi este livro contigo/que nasceu como nasceu” (A.R.R., 218/1/ 1-2; A.R.R., 218/2/1-2,  a técnica de citação será sempre esta: iniciais do poeta, números de página, de estrofe, de versos); “Contigo a meu lado eu estou contigo” (A.R.R., 214/1/1); “Em teus olhos reais/alcanço o horizonte de um sol” (G.R.R., 196/1/1-2); “percorro as ruas da cidade em busca de um lugar/ sugerido pela flor que me acolhe junto a ti” (G.R.R., 24/1/3-4), todavia, este relacional se apresenta fortes convergências quanto à intencionalidade e à extensão, já quanto à intensão surgem fortes dissemelhanças: a atitude de Gisela Ramos Rosa é sempre a da deferência e do comedimento ante a portentosa figura do interlocutor, isto apesar de uma dedicatória que ousa (Cf. p 28), já António Ramos Rosa não se inibe de, num verso, referir a consanguinidade entre ambos, bem como de recorrer a processos de intitulação (Cf. p 76) e de nomeação submetendo, varias vezes, a este último procedimentos formais como jogos de palavras, assonâncias e rimas internas (Cf. p 72, p 214, p 218).
   Ao nível dos referidos procedimentos formais verificamos uma forte semelhança entre ambos os poetas com a tónica colocada numa certa linearidade discursiva (Cf. G.R.R. 52-53/1-4/1-25) e, por vezes, a sujeição da estrutura poemática a sequências alicerçadas em anáforas (Cf. p 112, 124) ou em jogos de palavras encadeadas e/ou emparelhadas (Cf. p 26). Não é possível também distinguir os poetas quanto à dimensão dos poemas e dos versos, já que ambos usam indiferenciadamente poemas longos e curtos, versos extensos e breves. Será, contudo, no léxico utilizado que aparecerá, embora de modo muito subtil, as variáveis indiciadoras de que para além do extremado afeto e da intensa partilha relacional, poética e sapiencial, dois universos poéticos distintos espreitam, embora respeitosamente se resguardem, já que o momento é de construção no idêntico e não de afirmação do distinto. Ilustre-se isto com os seguintes versos: “Pressinto o som das cores/ quando sinto o jardim que se abre a meu olhar/ e nele descubro esboços de Deus/ na natureza” (G.R.R., 204/1/15-18), não só o termo Deus nunca é referido por A.R.R., como o poeta jamais subordina a Natureza a qualquer entidade que, a nível ontológico, lhe seja hierarquicamente superior, aliás, e apesar de um ou outro título de livro e de um ou outro título de poema, A.R.R. – à imagem de Heidegger, que citava com frequência – colocava a sua escrita aquém da pergunta pela divindade: “O poema dirige-se para o segredo do oriente/ interrogando as coisas imediatas e simples/(…) situando o texto formulado/ numa galáxia informulada” (A.R.R., 182/2/ 1-7), o fundamental – e fundante – no poeta era a linguagem e, mais especificamente, a linguagem poética e a construção do poema no seu diálogo sempre retomado com o mundo natural e humano. A própria consanguinidade acima referida está subordinada aos elementos do mundo natural: “Minha estranha estrela consanguínea/ em quantas estrelas brilhas/ pela janela do teu sangue/ és filha do vento e de um grão de terra/ e da febre de um instante de alegria/ sobre uma onda do mar” (p 122). Mas as dissemelhanças ao nível semântico parecem escapar ao diálogo poético, sem que os próprios autores pareçam disso aperceber-se: por duas vezes G.R.R. usa a palavra “templo” (Cf. p 44, p 84) e a sua incursão no pictural, embora seguindo de perto A.R.R. (as árvores, as pedras, os rios, o branco, o azul, o verde…), por uma vez se distancia dele: “o poema destina-se ao lilás de um encontro” (G.R.R., 96/1/2) através de uma cor que tem uma simbologia própria em dadas formas de religiosidade. Assim, se A.R.R. mantém à distância a problemática teológica, optando por uma sacralização do mundo natural, algo situada entre as várias formas de panteísmo e as visões mítico-mágicas (seria interessante, por exemplo, que alguém fizesse um estudo intertextual das poesias da António Ramos Rosa e de Dora Ferreira da Silva, poeta brasileira que não me consta que ele tivesse lido), já Gisela Ramos Rosa tende para uma atitude mais radical; dito de outra forma: se em A.R.R. há uma comunhão com o mundo natural que é da ordem do sagrado, em G.R.R. tende-se, não para uma comunhão, mas para uma fusão (ou um apagamento em?) com esse mesmo mundo: “vou pelos reflexos das imagens que me chamam/ e a lei não encobre a claridade do dia” (G.R.R., 128/2/1-2); “Senti as raízes do infinito/ nesse arco onde o tempo tece a passagem/ e as correntes abrem os caminhos” (G.R.R., 62/1/1-3).
     Para concluir, direi que é este entrecruzamento de convergências e dissemelhanças, que acaba conduzindo os dois intervenientes deste diálogo poético a uma outra posição relacionada agora com o conceito de “aberto”, que surge à saciedade neste livro e que não apresenta qualquer conotação teológica, como em autores declaradamente cristãos, veja-se, por exemplo, a posição do filósofo e teólogo ortodoxo Jean-Yves Leloup (Cf. “L’enracinement et l’Ouverture”.Paris: Albin Michel, 1995) onde o encontro e o diálogo com o outro e o diferente são tão-só um meio para “abrir” uma via mais larga e mais luminosa para a divindade. Em “Vasos comunicantes” o “aberto” surge invariavelmente associado à apreensão do outro nas suas múltiplas formas: “O Aberto não esconde o que tu vês/ nem o que tu não podes ver/ tu vês e respiras com todos os teus sentidos” (A.R.R., 68/1/1-3: Cf. também páginas 77, 132, 140, 166 e 198), em última instância o aberto é o que, de desvelamento em desvelamento, me faz aceder à linguagem e faculta a construção do poema: “ na casa o silêncio é um lugar que conquista/ as portas que se abrem para o corredor/ e ao fundo entro na portada que me leva/ à espiral da linguagem à suspensão do tempo” (G.R.R., 140/4/1-4), porque, acima de tudo, o que vinca esta obra é o entendimento da poesia e do poema (“O poema é uma teia/de que aranha de que areia/ que se desfaz e se tece/ e se inflecte como uma carícia” A.R.R., 118/1/1-5) e uma profunda comunhão da intimidade, que, vendo bem, é igualmente poesia (“ O teu sorriso é sempre um rosto/ que desenha o nosso encontro” G.R.R., 132/3/1-2).
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Mateus, Victor Oliveira. Revista Caliban, 26 de junho de 2017.
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