domingo, 25 de junho de 2017



A simplicidade chega
sem a virtude de uma inteligência afirmativa
mas simples
eu não posso compreendê-la

Vejo-a como uma expressão pura e livre
como uma planta uma andorinha ou uma estalactite
um pouco trémula no instante de nascer

Ó ternura de um primeiro arbusto
de uma primavera antiga


  Rosa, António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 174.
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sexta-feira, 23 de junho de 2017




Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.


   Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 61.
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quarta-feira, 21 de junho de 2017


Semente alada, borboleta de terra
e curta viagem. Que aterra num sítio
à escolha do vento, tal como nós,
que nos encontrámos quando se formou
um remoinho ao mesmo tempo,
no mesmo lugar, onde cada um
do seu lado do passeio ia a passar.
Deve ser a isto que se chama
o mais puro acaso, o remoinho
chupou-nos para dentro, éramos
do género de não querer assim
muito movimento nas nossas vidas
e por isso tem sido um pouco, não
sei que palavra hei-de escolher, um
pouco aborrecido termos sido obrigados
a mover-nos no meio da sua espiral.
Caiu de cinco metros a semente
alada, quando olhei saía-lhe
de dentro um veneno arroxeado.


  Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016,  p 54.
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segunda-feira, 19 de junho de 2017

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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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domingo, 18 de junho de 2017


Escuta:
este é o som falível
das minhas asas,
partindo-se.

Aí mesmo,
onde se tocam,
bem ao de leve,
abrigos e remorsos,
somos levados a aprender
como se emendam conjecturas,
i.e., arquitecturas movediças.

E, porque ainda me resta
a sabedoria dos ausentes,
decido voltar ao que,
afinal, sempre terei sido:
este arquipélago de sombras
em farrapos e feridas em surdina.

Transformo-me em insolente
desperdício de quimeras,
em jeito de banal esboço,
desenhado a contrapelo.

Não conheço melhor
destino do que este:
ser vagabunda bússola,
ansiando o imortal ardor
de murmúrio nenhum.


 Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, pp 57-58.
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sábado, 17 de junho de 2017


O compromisso é para com
esta minha língua de fogo.

Sabes,
bastaria uma palavra.

E não é que,
sem que nada
o fizesse prever,
dás sinal de vida?

Dizes que estás quase a partir,
pois tudo é prece descabida,
apenas tendo tempo
para alegações finais.

Em minha defesa
direi apenas isto:
pretexto injusto
seria acusares-me
de não saber amar
convenientemente
o mais impuro dos dons:
pluma/solitária/perdida.

Com proveito discutível,
seria esta uma desmedida
declaração de abertura.

Mas que sei eu de compassos
e destes desacertos sincopados?

De elipse em elipse,
a queda é a cadência mais fiel.


   Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, p 17.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017



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Memória e saudade:

um clip que acabo de descobrir no Youtube: no dia 11 de setembro de 2009, um grupo de amigos reunia-se no piso superior - o do bar - da então Livraria Trama, para falar do novo livro de Rui Costa, "As limitações do amor são infinitas". Aqui estão o Fernando Esteves Pinto, a Inês Ramos... e eu, sempre contestando a questão das vanguardas, sentado lá para trás. Só agora percebi : o Rui Costa respondendo ao Fernando Esteves Pinto, baixinho e já perto do final do vídeo: "Se não leste o Victor Oliveira Mateus, podias ter lido." Não conhecia nada disto! O Rui Costa viria a suicidar-se três anos depois (em 2012), nas águas do Douro. Lembro esta noite... com saudade!

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quinta-feira, 15 de junho de 2017


O Prof. Dr. A. P. Alencart da Universidade de Salamanca dá uma entrevista ao jornalista Borja Domínguez,
aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/152040/alencart-poesia-anibal-nunez-trasciende-rencillas-localismos/

Nesta entrevista o Prof. Alencart fala do XX Festival Iberoamericano de Poesia, que este ano será dedicado ao poeta espanhol Aníbal Núñez (1944-1987), menciona ainda, relativamente às representações dos vários países, os autores de língua portuguesa - entre os quais eu me incluo - que estarão nos diversos eventos que integrarão este Festival Literário.
Convém acrescentar que serão lançados, nesta semana, vários livros, dos quais destaco:
a Antologia "Explicación de la derrota" com poemas do próprio Aníbal Núñez e dos poetas que participam no Festival, dedicados ao homenageado. Esta obra monumental terá a Coordenação do próprio Alencart. Pela mesma altura será apresentada uma outra Antologia (" Raíz de piedra y Letras"), esta agora dedicada à cidade de Salamanca. É uma obra bilingue, que eu tive a honra de Coordenar e de fazer a tradução de alguns poemas, acompanhado por uma preciosa equipa que engloba: Jacqueline Alencart, Pedro Sanchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana.
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quinta-feira, 1 de junho de 2017


A Feira do Livro de Lisboa é sempre uma oportunidade para fazer compras, para rever amigos, para estabelecer contactos, para debates, lançamento de livros, conversas, etc. Pois bem, no próximo dia 3 (sábado), pelas 19:00H, cabe-me a mim estar no Pavilhão da "Coisas de Ler Editora", juntamente com outros autores que têm publicado nesta Editora.
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quarta-feira, 31 de maio de 2017


http://www.crearensalamanca.com/poemas-portugueses-para-gloria-fuertes-en-su-centenario-salvado-oliveira-mateus-barata-martis-y-aroso/


O portal CREAR EN SALAMANCA editado por José Amador Martín, na sua edição de hoje - 31/5/2017- publicou os poemas-homenagem a Gloria Fuertes escritos pelos autores portugueses: António Salvado, Albano Martins, Victor Oliveira Mateus, Maria de Lurdes Gouveia Barata e Eduardo Aroso na tradução de Alfredo Perez Alencart.  Os referidos poemas constam do último número da revista "El Cobaya"..
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Como não devem conseguir entrar pelo link daqui, entrarão, seguramente, por qualquer outro lado  :)  , porque eu vou continuar a procurar a minha pausa...
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domingo, 28 de maio de 2017

O novo livro de Ronaldo Cagiano.


SOCIEDADE E ÉTICA NA POESIA DE RONALDO CAGIANO

                                                                                                             
        O presente livro de Ronaldo Cagiano, Observatório do Caos, apresenta-se-nos como um olhar meticuloso e arguto não só sobre o homem nas suas diversas mundividências, mas também sobre a sociedade que o cerca e que ao poeta se mostra recorrentemente como um território polimorfo, ardiloso e que, o mais das vezes, ameaça aquilo que no ser humano faz dele algo singular e único neste planeta em que fomos chamados a estar.
A observação em torno do social é sempre uma observação situada no espaço e no tempo: “Já não se fazem revoluções/como antigamente/nesse tempo de ilusões famintas/e utopias sem destino” (pág. 5); “A vida decomposta por Chronos/como aquelas árvores depiladas/no inverno de Munique/ou o velho esmolando às margens do Tibre:” (pág. 33). Daqui ressalta que o Observatório em que o poeta se coloca para olhar, inventariar e recusar o Caos que o cerca é sempre: marcado pela temporalidade e liberto de todos os paradigmas metafísicos, aliás, esta recusa das interpretações metafísicas do real concreto perpassa toda esta obra de Ronaldo Cagiano (Cf. pp. 12, 42, 78…) prosseguindo a asserção estabelecida por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos no poema Tabacaria (Cf. Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1980, pp. 252-259). O propósito de dialogar, enfatizando ou ilustrando outros autores, é comum a este livro de Cagiano, assim como a toda a sua obra poética, elucidando a tese de que o poeta não é um ser isolado, mas antes percorre um trilho juntamente com aqueles que o antecederam e  também com os seus contemporâneos com quem vai constantemente estabelecendo istmos e pontes (Cf. poema Altares in O Sol nas Feridas. São Paulo: Dobra, 2011, pp. 86-90).
O Caos a que Cagiano se refere neste livro e que conduzirá inevitavelmente o homem contemporâneo a uma ruela obscura e sem saída pretende ser uma resposta ao célebre Poema do Beco de Manuel Bandeira (Cf. Manuel Bandeira in Antologia Poética. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1982, p. 87), beco este que surge ao longo de todo este livro (Cf. pp. 12, 47 e 86). Poder-se-á então dizer que estamos perante uma apreensão essencial do poeta, que é também um projeto dialógico e estruturante de todo este livro: por um lado o dissecar acusatório de um sócio-cultural que se desmultiplica depois nas suas diversas vertentes (religiosa, económica, estética…) - sem jamais entrar em panfletarismos ou terçar armas com alvos de dúbia significação -, por outro, o pressuposto de que este trabalho é feito e constantemente retomado numa partilha salutar com outras vozes poéticas:

                Penso em Florbela Espanca
                em Jean Cocteau, em Hilda Hilst,
                em Dora Ferreira da Silva
                na incontida Orides Fontella
                nesse horizonte de espantos
                e nenhum milagre
                onde tudo fede a terror

                e exala ambiguidade.

                                                        (p. 85).

Acrescente-se ainda a título de exemplo, dois outros excertos de poemas cujos autores e dizeres desembocam nesse cadinho que se apresenta como o eixo central do presente livro:

                               Trovões invadem
                               casas
                               coisas
                               quebram
                               louças gráficos
                                                               vidros.

                               Anulam o supérfluo: articulam
                               um campo para o destino.

(In Orides Fontela, Poesia Reunida 1969-1996. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p. 161); e ainda:

                               Neste terraço mediocremente confortável,
                               bebemos cerveja e olhamos o mar.
                               Sabemos que nada nos acontecerá.

                               O edifício é sólido e o mundo também.

                               Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
                               labutando em mil compartimentos iguais.
                               Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
                               e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
                               o que é privilégio dos edifícios.

                               O mundo é mesmo de cimento armado.

(In Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 41).

A presença de Carlos Drummond de Andrade é um marco fundamental no que diz respeito ao suportar do mundo e ao incentivo para uma ação transformadora do real que ao poeta compete através da sua arte (Cf. pp. 47, 64, 77, 100…). Outra presença emblemática neste livro de Ronaldo Cagiano é a do poeta Mia Couto quer através de epígrafes (Cf. p. 79), quer encetando um diálogo direto com seus poemas ou versos (Cf. p. 52).
                No Caos do mundo que Ronaldo Cagiano do seu Observatório vai vendo ganham particular relevo os aspetos económicos, ecológicos (“Sou aquele que navega/desde as ínfimas encostas/do barrento rio Pomba/desde o leito assoreado/do acossado Meia Pataca/à imensidão de Tabatinga/ao sol possível da praia do Jacaré.” p. 84), políticos (Cf. p. 66) e religiosos, nestes últimos, embora sem deixar de fustigar as religiões mais ortodoxas (Cf. p. 3), são especialmente visados os cultos fanatizados e anestesiantes como por exemplo o dos evangélicos (Cf. pp. 14, 23, 73…) por darem aso a atitudes irracionais e robotizadas propagadoras de uma “fé demencial” (Cf. p. 66) onde se enraízam todos os assassinos da liberdade formadores de normas e modelos comportamentais próprios do rebanho e da massificação acrítica. Aqui, Cagiano não nos deixa quaisquer dúvidas quanto à sua recusa das conceções estético-literárias anódinas e/ou emasculadas, por conseguinte, ele não só zurze todos os que intentam conduzir-nos para uma infra-humanidade, como enumera e estabelece analogias: há, para o poeta, uma similitude de essência entre tudo o que concorre para o aniquilamento da nossa liberdade, daí a correspondência entre as ferozes ditaduras do século XX, a retórica acrobática e milagreira dos evangélicos e aqueles que em Paris tentaram sufocar, assassinando, a liberdade de pensamento e de expressão (pp. 66 – 67). O Observatório do Caos não fornece a Cagiano um luminescente otimismo nem um edulcorado olhar que se abra a um futuro necessariamente promissor, antes pelo contrário, aquilo que do seu posto o poeta retém condu-lo a um desalento (“Cataguases sem festa, dos silêncios, das ausências./ Das imensas crateras na alma de seu povo. “ p. 21; “Em mim/ permanece uma constelação/ de vazios/ uma coreografia de varizes” p. 37)) eivado muitas vezes pela dor e pelo desespero (Cf. p. 39) a que a revolta não é alheia. Destas constatações através das quais se movem “homens domados e sem horizontes” (Cf. p. 50) surge, ao longo deste livro, a imagem do jardim - e aqui é impossível não nos lembrarmos do final de Candide de Voltaire e da necessidade de cuidarmos do nosso jardim -, pois, a função do poeta é, para Ronaldo Cagiano: a observação do Caos, a inventariação dos seus elementos, a sua descrição e o lançar das sementes de uma qualquer ação redentora geminada com a palavra insurreta e libertadora da poesia. A observação do Caos anteriormente referida não é provocada ou de cariz científico-laboratorial, nem tão-pouco contingente e acidental, ela é uma observação diária e invasiva, pois é através dela que a existência se nos impõe de chofre e de modo iniludível metaforizada na imagética do já referido jardim:

                                Jardins desidratados
 sustentam caules transgênicos
 e a minha inquietação
                               não tem a potência atômica
capaz de dinamitar o caos

                                                                 (p. 49)

e também:

 No insondável abismo
 nenhum sol espreita
 a última lágrima secando no escuro.
 O mundo em derredor
 é um festim de anonimatos
 enquanto dura a vertigem
                               do homem sem fé.
 Em sua alma,
 a única verdade
 é o jardim de bactérias
                               em que se transformou sua vida,
 esquelética como a esperança
 que o desabita.

                                                                              (p. 82)

                Chegado a este ponto desta leitura crítica de Observatório do Caos é-me pertinente enfatizar duas aporias esparsas nesta obra e nela deixadas deliberadamente insolúveis por Ronaldo Cagiano: primeiro, o livro aparece-nos como um olhar clarividente e desenganado sobre o Caos que envolve o poeta, contudo, em certos momentos da obra, este acena-nos com uma ou outra fresta de uma luminosidade possível, embora só suscetível de ser concretizada através do amor (“Mas no muito que sofrer,/com seu amor/tudo rechaço.” p. 59; “Pois/na noite insolúvel/atravessamos de mãos dadas” p. 68); esta tese de uma negritude absoluta mas que nunca é totalizadora e acaba deixando, em raros momentos, uma nesga para uma eventual reabilitação do acontecer, surge-nos já em obras anteriores do poeta: “Como a ave mitológica,/cada dia renasço/das próprias cinzas./Reinvento o calendário/pra rea(s)cender a minha vida.” (In Canção dentro da noite. Brasilia: Thesaurus, 1999, p.31). O segundo aspeto prende-se com a questão da inexistência de Deus e, mesmo assim, haver a possibilidade da fundamentação de uma Ética, ora, em Observatório do Caos,  Ronaldo Cagiano avança com a insofismável e voraz imagem de uma sociedade modelada à imagem da barbárie e de onde Deus parece ter-se retirado há muito (“ o Criador lançou suas pragas/ e o mundo jaz neste inferno:” p. 11; “Onde está Deus/que não faz nada?” p. 67), portanto, a recusa de uma entidade transcendente encontra-se intimamente ligada à problemática do Mal, bem como àquilo que se dá através dos dados empíricos: o Mal, diria Hanna Arendt ao contrário de Kant, não tem profundidade tem apenas superfície e, por isso, alastra como um fungo (Cf. António Marques in A Filosofia e o Mal, Banalidade e Radicalidade do Mal de Hanna Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2015), contudo, ao transferir a importância dada a uma Entidade Suprema, a um Primeiro Princípio, para a relação com o Outro, este livro de Cagiano acaba por tangenciar o pensar de filósofos profundamente religiosos como por exemplo o de Lévinas, para quem a Ética é fundamento do Pensar e a Infinitude da Divindade deve ser reconhecida (porque estampada) no Rosto do Outro.
          O Caos , em todas as suas vertentes: social, económica, cultural, etc. , é o que machuca o coração e o ver daquele que, no seu Observatório , recusa a indiferença e opta pela procura dessa palavra certa que exprima as “vozes de um sentir proletário” (Cf. p. 78) ou que dê tempo a dona Cidinha, para que esta impeça as bonecas da filha de se afogarem “nesses injusto mar” (Cf. p. 13). Aqui e ali, neste livro de Ronaldo Cagiano, e para além das veementes denúncia e recusa, assomam centelhas, que, apesar dos seus matizes políticos, são acima de tudo o ensejo de abanar o homem para que estabeleça outro tipo de laços, para que dos escombros agora inventariados outro Ethos possa (ainda) ressurgir, já que o renovo nos brota sempre da Guerra e da Luta dos Contrários, tal como Heraclito defendia e como o último poema deste livro de Ronaldo Cagiano – não colocado à guisa de epílogo por acaso! – insiste em nos acenar.


 Victor Oliveira Mateus, in Observatório do Caos de Ronaldo Cagiano. São Paulo: Editora Patuá, 2017.
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terça-feira, 23 de maio de 2017

(O artigo referido abaixo, para quem não conseguir aceder via link)
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Alguns apontamentos em torno d’ O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO de Richard Zimler

                                               


                                                                       Quem não pode morrer
                                                                       arranque a lápide
                                                                       levante e ande

                                                                       Até quando?
                                                                       Até onde?

                                                                Edmar Monteiro Filho, Lázaro


   A vida e obra de Jesus Cristo não têm sido temas apelativos para o romance português contemporâneo. Se o cinema ocidental tem visto no assunto matéria inesgotável para as suas abordagens (Pasolini, Scorsese, Zeffirelli, Gibson, etc.), o mesmo acontecendo com a música dita erudita (Bach, Liszt, Messiaen, etc.), já o romance luso fica-se por duas meras incursões na história sagrada: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”  (1991) de José Saramago e “Os Últimos Dias de Pôncio de Pilatos” (2011) de Paula de Sousa Lima. Se outros motivos não existissem, o facto de nos encontrarmos perante um território literariamente inóspito, já seria de louvar a temeridade com que Richard Zimler se lança na construção da sua narrativa. Sem nos esquecermos que a relação da História com a Cultura tem sido uma das dominantes na ficção de Zimler, urge, no entanto, acrescentar que em O Evangelho segundo Lázaro há uma vertente psicologista – fundada quer numa sistemática introspeção do narrador, quer numa análise do relacional – que, tomando igualmente a dianteira, forma com os aspetos históricos e culturais uma tríade que, não só dota a estrutura narrativa de coerência e sistematicidade, como apresenta a tese central do livro com uma razoabilidade que incita a reflexão e o questionamento.
  Este romance de Zimler integra-se num estilo realista alicerçado no histórico, no cultural e no sócio-ideológico, contudo, este realismo é constantemente atravessado por momentos de intersubjetivismo e de intrasubjetivismo, que o autor assinala a itálico. Convém acrescentar que este psicologismo nada tem a ver com as exaustivas análises do mundo interior levadas a cabo por Proust no seu emblemático romance; em Zimler os excertos em itálico mantêm-se presos ao imediatismo do instante vivenciado (Cf. p 25) ou são puras conjeturas em torno do pensamento ou do monólogo interior do outro (Cf. p 52, p 70, p 332). É este aspeto estilístico, bem como a escorreita articulação da intriga e o modo de tratar o tempo narrativo, que dotam O Evangelho segundo Lázaro de uma tessitura sólida e de uma fruição agradável e enriquecedora. Relativamente à questão do tempo narrativo, Richard Zimler demarca-se do romance fragmentado e do articulado emparelhamento dos planos narrativos, optando – de modo exímio e coerente – por uma linearidade diegética constantemente transpassada por analepses (Cf. p 83), elipses (Cf. p 75), resumos (Cf. p 402), prolepses (Cf. p 17). Também no que diz respeito aos aspetos psicológicos já referidos é importante considerar a forma rigorosa como são desenhados atitudes, modelos comportamentais e, sobretudo, as personalidades das personagens como por exemplo as de Jesus, Marta e Anás, o anterior sumo sacerdote, cujas ações aparecem no livro com uma inventariação de pormenores digna de um tratado científico.
  O Evangelho segundo Lázaro apresenta um prólogo, à guisa de advertência, para que o pergaminho que vai ser exposto não possa ser roubado, vendido, desfigurado ou queimado (p 9). Após este Conselho amigo, Lázaro lança-se na sua versão da vida de Jesus, tomando como início da narração a história da sua própria ressurreição (pp 13-31), mas sem esquecer de referir o recetor do pergaminho – Yaphiel, o seu neto vivendo em Alexandria -, bem como o tempo histórico e o espaço geográfico da narração. Um dos aspetos mais interessantes deste livro é a forma como se entrecruza a preocupação de rigor de Lázaro com as zonas de sombra que o autor incute no discurso do narrador – exemplo: Lázaro, durante o tempo em que esteve morto não vislumbrou quaisquer sinais de uma qualquer transcendência, o que, obviamente, o deveria direcionar para um ateísmo convicto (na página 271 fala-se mesmo da sua perda da fé!), todavia, várias são as passagens do livro em que ele invoca o Senhor (Cf. p 415); outro exemplo: Lázaro não fundamenta de forma suficientemente clara a forma como entende o regresso de Jesus – aqui e ali – após a sua crucificação, se por vezes levanta a possibilidade de o vir a reencontrar “ quer na sua própria pele, quer na pele de outro homem ou mulher” (p 439), posição esta que tangencia a teoria platónica da transmigração da alma, outras vezes  parece querer substituir o conceito de aparição pelo de visão (p 381-384, p 440), seguindo de perto a sistematização operada por Ratzinger relativamente a investigações teológicas que o precederam. A questão da ressurreição – quer a de Lázaro, quer a de Jesus – é um dos temas fundamentais deste livro, contudo, Zimler afasta-se de toda a tentativa primária de clarificar o fenómeno (uma das tais zonas de sombra já referidas!), parecendo querer deixar para o leitor a liberdade de interpretação, já que são exatamente as palavras de Jesus que irão operar a cisão entre a visão judaica da dos primeiros cristãos no que diz respeito à tríade morte/ fim dos tempos/ ressurreição (Cf. “Ce qu’ils n’ont pas dit de Pâques” de Daniel Marguerat in “Les premiers temps de l’Église”, org. Marie-Françoise Baslez, Gallimard, 2004, pp 92-100): Marta e Maria sabem que Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, mas isso não parece consolá-las, daí reprovarem Jesus por não ter chegado a tempo ( Cf. Daniel Marguerat, op. cit. p 99), por sua vez este, apesar de saber que ainda naquele dia (e o fim dos tempos é, então, trazido para o presente!) Lázaro poderia estar diante do Senhor, mesmo assim, decide traze-lo de novo à vida. Eis os dois pontos fundamentais deste livro: a ressurreição de Lázaro e a figura de Jesus!
A figura de Jesus não é, no entanto, nesta obra, apresentada como a do filho unigénito de Deus, como aquele que sendo Deus encarnado participa da sua substância e da sua natureza. É evidente que é um filho de Deus, mas no sentido em que todos o somos, talvez com capacidades e aptidões superiores às do vulgo para comunicar com a transcendência, mas é apenas isso e nada mais. Por conseguinte, em O Evangelho segundo Lázaro, Jesus é frequentemente apresentado (apenas) como: profeta (p 237), milagreiro (p 261), um ser extraordinário (p 214, p 265), mago (p 177, p 295), “auxiliador/ comunicador à distância” (p 338, p 356), curandeiro (p 358), feiticeiro (p 196). Ora, e aqui Richad Zimler insere exemplarmente o seu livro no ambiente teológico e filosófico não só da época por ele abordada, mas também daquelas que imediatamente se lhe seguiram – exemplos: Apolónio de Tiana (final do século I D.C.) viajou por todo o Império Romano tendo granjeado fama de mago, profeta e operador de milagres, aliás, também a tese de divindades intermédias ou de seres mediadores era bastante comum, como podemos ver em Numénio de Apameia (Síria, século I D.C.) e em Plutarco de Queroneia ( 46-120 D.C.), sendo este o mais notável representante do chamado Platonismo Médio e em Fílon de Alexandria (30 A.C. ?), convém não esquecer que é exatamente em Alexandria que reside a tia de Lázaro, Ester, e será nesta cidade que a personagem que dá título ao livro encontrará um dos seus refúgios, bem como algumas das primeiras figurações de um cristianismo emergente, deturpador e fanatizado. Será em Alexandria, já perto do final do romance, que Lázaro irá conhecer os arautos de uma nova religião alicerçada numa figura que nada tem a ver com o Jesus que ele conheceu e com quem conviveu desde a infância.
Mas O Evangelho segundo Lázaro não é apenas uma obra inserida, de modo escorreito, numa cultura a partir da qual lança a sua mensagem. Os aspetos político-ideológicos (Cf. p 333), económicos e sociais são a outra trave mestra do romance: após a sua ressurreição, Lázaro regressa a casa numa ruela onde as pessoas se começam a amontoar para, diariamente, lhe pedirem a bênção ou, até mesmo, a cura para uma ou outra maleita. Este fenómeno, bem como a cumplicidade com um Jesus, que, pelo discurso e pela ação, vai afrontando os poderosos do seu tempo, acabará trazendo enormes problemas aos dois amigos. Veja-se, por exemplo: Jesus libertando um escravo (p 212), as críticas que faz a Caifás (p 214), a sua recusa da passividade ante o poder de Roma (p 218), etc. O afrontamento de Jesus aos valores da conformidade, bem como a solidariedade – por vezes cautelosa – demonstrada por Lázaro, têm duas consequências inevitáveis: a prisão e crucificação de Jesus e a perseguição movida a Lázaro – e família - que o leva a ter de abandonar a Palestina. O conflito, inicialmente com a casta sacerdotal - sobretudo com o despótico Anás, o antigo sumo sacerdote – que teme a perda de privilégios, alastra depois ao poder temporal e, apesar de não se estar perante um modelo político teocrático, o que é facto é que a execução de Jesus enfatiza a frase de Henri Pena-Ruiz para este tipo de sociedades: “Dieu et César pour le pire” (In “Qu’est-ce que la laicité?”, Folio, 2003, pp 50-56). Lázaro tudo faz para tirar o seu amigo da prisão: pedidos a Lucius, seu patrão; tentativa de persuadir Augustus Sallustius, o áugure de Pilatos, mas nada surte efeito. Estava-se perante o inevitável (pp 354-373)! Com parte da família assassinada como represália, resta a Lázaro uma única saída: a fuga, primeiro para Jericó, depois para Rodes… No final do romance, surge a explicitação do porquê da necessidade de escrever este seu Evangelho, da necessidade que sentiu em expor a Yaphiel, seu neto, aquilo que foi a verdade factual da vida de Jesus, aquela que ele vira com os seus próprios olhos e não a propagada naquele momento pelos seus seguidores que pululavam mundo afora.
 Richard Zimler articula assim de modo inextricável três variáveis: a preocupação com a verdade objetiva de que o narrador se faz arauto; as “pausas” de cariz reflexivo (Cf. p 221, p 243), que, porque distanciadas umas das outras, poderão parecer incipientes e desnecessárias e os momentos carregados de forte poeticidade, sobretudo os que relevam da relação de Lázaro com Maria, uma das irmãs, e com Jesus, onde o corpo e os sentidos assumem sempre uma conotação positiva (Cf. p 347, p 371). É a conjugação destas últimas variáveis com o referido no segundo parágrafo deste texto, que fazem d’ O Evangelho segundo Lázaro uma obra de valor inestimável e imperdível.
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                                                               VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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Foi publicada hoje, em "O Casal das Letras" de Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, a minha leitura do último romance de Richard Zimler, " O Evangelho segundo Lázaro".
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Aqui:  http://www.casaldasletras.com/convidados_2.html   
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O drama trágico da existência consuma-se na pronúncia
Que não sai dos lábios
A pronúncia é mais abstracta do que a palavra
A palavra propaga-se pelo ar e a pronúncia fica
Atrás da língua e daí não sai

Vieram do norte
Com uma pronúncia distinta na mesma língua
O pai a mãe e três filhas
No resto eram em tudo iguais aos outros

Morreram como muitos outros


  Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 43.
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segunda-feira, 22 de maio de 2017


Grato a quem me deu a conhecer as várias fotos desta sessão, fotos essas que eu não sabia que existiam.
Festival Literário "Raias Poéticas de 2014 de Vila Nova de Famalicão". Na mesa e da esquerda para a direita: Luis Serguilha, Luísa Monteiro, Sofia Amaro, José Emílio-Nelson, Victor Oliveira Mateus, Jessica Falconi.
O texto por mim apresentado neste encontro "O Real Poético e o Real da Poesia", foi depois publicado em: "Revista Triplo V de Artes, Religiões e Ciências", Nova Série, Nº 49, dezembro-janeiro, 2014-2015.
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domingo, 21 de maio de 2017



Só numa cidade antiga
Uma cidade de ruínas e pássaros
Uma cidade sem ninguém desde o séc. III
A vida pode existir sem sobressaltos

Há uma sinagoga e uma capela
E vida vegetal nas pedras
Os pássaros passeiam
E poisam nas ruínas

E não se ouvem sinos
A anunciar desgraças

A existência das pessoas pertence a um passado remoto
Não consta que tenha havido um terramoto
Só que às vezes abandonam-se os sítios por causas maiores
Que têm a ver com buscas incessantes de novas vidas

Os arqueólogos afadigaram-se ali antes de a guerra eclodir
Meio pente de terracota foi sujeito a análises
E a asa de um bilha

Soube-se pouca coisa

Mas os pássaros ainda cantam

A capela tem um vitral incompleto
A refracção da luz revela a vida de um menino
Que outrora ali cumpriu um sacramento

Hoje os meninos servem de escudos na guerra


  Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, 33.
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sábado, 20 de maio de 2017



     "Entretenho-me a querer-te"


Ao entardecer
- depois dos versos -
entretenho-me a querer-te.
Vem a noite;
apago as luzes
e alumio o amor.
E do amor desse lume
irrompem as recordações...
É belo o outono para amar-te!
Encandeio os meus olhos
com uma fotografia tua
onde aconchego meus dedos.
Ponho água nos nardos
e um disco de silêncio.

Tal como um menino pobre
tal como um menino bom
sem brinquedos, sem ninguém,
sem merenda, sem beijos,
à luz da lua
pressentindo a tua imagem
ao entardecer só,
entretenho-me a querer-te.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 153 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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  "Me entretengo queriéndote"


Al atardecer
- después de los versos -,
me entretengo queriéndote.
Viene la noche;
apago las luces
y enciendo el amor.
Y al amor de la lumbre
que brota del recuerdo...
Es hermoso el otoño para amarte!
Encandilo mis ojos
con tu fotografia
y caliento mis dedos.
Pongo agua a los nardos
y un disco de silencio.

Igual que un niño pobre
igual que un niño bueno
sin juguetes, sin gente
sin merienda, sin besos,
a la luz de la luna
tu imagen presintiendo
al atardecer sola,
queriéndote me entretengo.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 153.
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quinta-feira, 18 de maio de 2017


  "A Jenny" (1)

Ninguém o ajudou,
no entanto ele se fez mulher.
Cantar cantava,
era a preferida dos homens do night-club.
Disse-me:
- Em toda a minha vida
apenas li um livro,
o teu.
Então...
Acariciei-lhe de verdade
os seus peitos de mentira.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 105 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).


(1) Relativamente a este poema, ver a nota do post anterior.
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  "A Jenny" (1)


Nadie le ayudó,
pero él se hizo mujer.
Cantar cantaba,
era la preferida de los hombres del night-club.
Me digo:
- En toda mi vida
sólo he leído un libro,
el tuyo.
Entonces...
Le acaricié de verdad
sus pechos de mentira.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 105.


(1) Apesar de manter a mesma ternura e o mesmo envolvimento de toda a produção poética de Gloria Fuertes, o poema "A Jenny" foi um dos que  acabou levantando mais escândalo. Tentaremos traduzi-lo no post seguinte para que se perceba essa reação. 
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terça-feira, 16 de maio de 2017


   La Revista Cultural "El Cobaya", editada por el Ayuntamiento de Ávila dedicará el número 27 de su segunda etapa a la poeta Gloria Fuertes (Madrid, 1917 - Madrid, 1998), coincidiendo con el centenario de su nacimiento.
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   Este post é uma pré-publicação com a minha colaboração, em castelhano,  na obra acima referida.
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.  " Pájaro extraño con levedad al fondo"


                                          A Gloria Fuertes


Cuando la infancia es un terreno
baldio pero luminoso
y en él las raíces se cuelan
por las ventanas y balcones

Cuando las palabras irradiam
nuevo decir, mirada profunda;
mirada de pájaro infrecuente
con extraña levedad al fondo

Cuando la risa no es gratuita
ni siquiera trampa
profanando dulce candidez
que en tu decir ebulle

Entonces leerte es tarea apetecida
inesperado encuentro
que dota de sentido a la vida.



     Victor Oliveira Mateus, traducción A.P. Alencart (pré-publicação)



O poema no original:


      "Pássaro raro com leveza ao fundo"


                                       A Glória Fuertes


Quando a infância é um terreno
baldio mas luminoso
e nele as raízes se infiltram
pelas janelas e terraços

Quando as palavras irradiam
novo dizer, olhar profundo;
olhar de pássaro raro
com estranha leveza ao fundo

Quando o riso não é gratuito
nem sequer armadilha
a profanar dócil candura
que em teu dizer fervilha

Então ler-te é tarefa apetecida
inesperado encontro
que dota de sentido a vida.


                                 Victor Oliveira Mateus
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segunda-feira, 15 de maio de 2017


   "Diabinho De Minha Guarda"


Inquieta companhia,
livra-me do mal
de noite e de dia.

Tu podes.

Não te digo que vás
digo-te que fiques.

Diabinho de minha guarda,
compreendo-te e compreender-te-ia
(no fundo queres ser
o meu anjo da guarda
e por isso o invejas).

Diabinho de minha guarda
misteriosa companhia,
ninguém te quer
ninguém te estima.

Por isso praticas o mal
para te fazer notado.

Diabinho de minha guarda
estar só
é o teu inferno...
Se vieres visitar-me
pentear-te-ei os cornos.


   Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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(O que me fascina na poesia de Gloria Fuertes é forma como ela fala de coisas pouco usuais, como ela afronta a norma, mas sempre sem ruído, antes pelo contrário, ela fá-lo com uma grande ternura e doçura mesmo. Vou postar alguns dos seus poemas com traduções minhas desses poemas)


  "Diablito De Mi Guarda"

Inquieta compañia,
librame del mal
de noche y de día.

Tú puedes.

No digo que te vayas
digo que te quedes.

Diablito de mi guarda,
te comprendo y te comprendería
(en el fondo quieres ser
mi ángel de la guarda
y por eso le envidias).

Diablito de mi guarda
misteriosa compañia,
nadie te quiere
nadie te estima.

Por eso haces el mal
para hacerte notar.

Diablito de mi guarda
estar solo
es tu infierno...
Si vienes a visitarme,
te peinaré los cuernos.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34.
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            "Elegia de Varna"


Sinto que algo ficou irrealizado em mim.
Nota que vibraria o meu ser íntegro como um sino
e que não se feriu.
Adivinho-lhe a corda oxidando-me o peito.
Tocá-la tornaria os veios de ferrugem
nos rios mágicos do êxtase
                   e então eu seria eu
e não esta véspera encolhida,
este quase a medo murmurado,
este querer que se tolhe ante a areia dourada,
este silêncio náufrago,
esta solidão esmagada de estrelas.
                   E então eu seria eu
e tu, e sim, e além.
Não seria este não que sequer se profere
e que sobre o Mar Negro, hoje branco de fúria,
fita, desesperado, a gaivota que ousa
solitária
                    o mergulho.
Sinto que algo deixou de realizar-se em mim,
e esta falta grita e queima e consome.
Sigo nau incompleta, vento coxo, canto
falhado
e despedaço as asas poderosas
no abjeto cais das ânsias.
Sinto que algo ficou irrealizado em mim,
e esta página branca invade o meu ser.


  Horta, Anderson Braga. 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 32.
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domingo, 14 de maio de 2017



   "Mentateuco"


Orgulho-me de minha mente.
Eis aqui um aparelho bastante razoável,
capaz de produzir confusões bastante sutis,
talvez aliciadoras,
talvez cheias de ritmo e de harmonia.
Vítima
de concussão vocacional,
sintonizado para a metafísica,
as construções Ideais
          fora do tempo e do espaço,
num mundo tão espacial, tão temporal,
tão antimetafísico.
Tenho muito orgulho desta mente
que nenhum computador ainda igualou,
           e não igualará.
Menta, mentol, mentx, mentiras -
tudo invento e manipulo e transcendo -
e pimentas, e exp'rimentos, e améns.
Sobretudo comento
o evento, e o momento,
e imito
e me lamento, ou não
me lá mento.
Sim, sim, me orgulho-me de minha mente.
Um portento!
E no entanto
bem sinto, meio tonto, que aqui junto
a minha mente é um muro lutulento
tolhendo o céu, o mar, o espanto, o vento.

  Horta, Anderson Braga, 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 26.
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sábado, 13 de maio de 2017



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Ao contrário da arte dos geómetras, do plástico vendido a metro, do medo de arriscar o interior, da frieza instituida em norma; ao contrário das divas balofas e de pose, da poesia sem emoção dos malabaristas das técnicas exclusivas; ao contrário do fast food cozinhado para a rotina do engurgita-vomita: em arte só o estar de corpo inteiro é aceitável. Mais do que um mero estar, é um dever! O resto? Bem, o resto com luzinhas e lantejoulas nem para os manequins da Rua dos Fanqueiros... Parabéns!!!

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          "poderei ser uma daquelas
           pessoas que lêem sinais"


agora passo ao de leve pelas coisas
e tudo é transparente
sou um fantasma sou um anjo
nem sequer de cócoras posso estar
o mundo é cada vez menos inconsistente
escrevo tudo como se fossem cartas
trespasso objectos com um olhar diáfano
posso agora assistir melhor
ver como cai o pó
essa preocupação inverosímil
um pouco tonta
quando tudo se esboroa
sei agora como cai
não sei como é estar vivo


  oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 107.
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sexta-feira, 12 de maio de 2017


   "o amor sem visita"


o amor
ou uma grave infecção
(não sei dizer)
caiu entre nós
como um petardo
bomba humana
podre na sua existência
plenipotenciária

deixou os restos
espalhados pelo chão
decapou a alcatifa
camadas de ácaros
de várias décadas
estoiraram

com os seus ossos aquáticos
seguiram-se cadeias
de brancas metáforas


 oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 80.
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quinta-feira, 11 de maio de 2017



                                     Cântico do Irmão Sol


Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
para ti são os louvores, a glória e a honra, e toda a bênção.
A ti somente, Altíssimo, eles convêm,
e homem algum é digno de pronunciar teu nome.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão sol,
que o dia nos concede e por quem tu nos iluminas.
Ele é belo e resplandecente com um grande esplendor,
de ti, Altíssimo, ele é o símbolo.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas,
no céu tu as criaste luminosas, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
pelo ar e a nuvem, pelo céu puro e todos os tempos,
pelos quais às tuas criaturas concedes apoio.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
com o qual iluminas a noite,
ele é belo e alegre, e robusto e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã terra nossa mãe,
que nos mantém e alimenta,
e produz diversos frutos com as flores de mil cores e as ervas.

Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por amor de ti
e suportam dor e infortúnio.
Felizes os que preservam na paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.



Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal,
à qual nenhum homem vivo pode escapar.
Infelicidade a daqueles que morrem em pecado mortal,
felizes aqueles que se reconhecerão nas tuas santas vontades,
pois a segunda morte (1) não lhes fará mal algum.

Louvai e abençoai, meu Senhor, e rendei-lhe graças,
e servi-o com grande humildade.


(1)  Apocalypse, XX, 14, XXI, 8.

Assise, Saint François D’. OEUVRES. Paris: Albin Michel, 2006, pp 255-256 ( Traduction, introduction et notes d’ Alexandre Masseron).


Nota- a primeira edição desta obra é de 1959, seguiram-se depois reedições, em livros de bolso, em 1993 e 2006.

            Não tendo tido a possibilidade de aceder à versão original deste texto (as versões italianas que encontrei pareceram-me com grafia e sintaxe atualizadas e não em língua da Idade Média) e sendo várias as traduções para castelhano e português que andam pela net, decidi fazer eu a minha própria tradução partindo da versão francesa de Alexandre Masseron.
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quarta-feira, 10 de maio de 2017



     "La Última Estación"


A veces me pregunto
cómo será mi vida
cuando llegue.

Entonces
miro estos muros y estos libros
y parece
que me relajo un poco,
pero nunca
lo suficiente.

Entonces pienso en ti.


  Iribarren, Karmelo C. Las Luces Interiores. Sevilla: Editorial Renacimiento, 2017, p 74.
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    "Apunte Biográfico"


La vida me dio siempre
pocas posibilidades.

Y eso hizo que nadie
depositase sus esperanzas
en mí.

Era como estar
sin que te viesen.

Utilicé esa libertad
para sorprenderlos a todos.


  Iribarren, Karmelo C. Las Luces Interiores. Sevilla: Editorial Renacimiento, 2017, p 50.
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terça-feira, 9 de maio de 2017



   "Antes da Queda"

De cinco violetas pétalas
esbeltas pontas caídas
em cachos de tantas
que dão nas beiras
da galhada fina

De forma que
a planta toda se prepara
da raiz que pega
da madeira que pensa
ao galho que apronta
depois empunha
o que deslumbra
e dura um mero dia


  Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo: Editora Foca, 2009, p 97.
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    "Saara"


Num país distante
eu vagava insone
ouvia histórias de você

A lenda iludia
vertia a descompreensão
seu nome de areia
duna móvel
tempestade

Deportado
meu grito minarete
traduz
o desejo de voltar

O sol a pino
oásis em ebulição
Sou um rio de sede
pelo frio deserto da paixão


  Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo:Editora Foca, 2009, p 41.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017


   O Herman esperava-me em pé. Atrás dele ardia uma vela, ele aparecia-me em sombra chinesa.
- Onde estava?
- A minha mãe foi-se deitar tarde.
- Estava à sua espera.
- Ontem tive um impedimento. Um livro a recuperar em casa de uma aluna.
   Queria guardar o poema para mais tarde, escolher o momento oportuno, mas a censura na voz do Herman precipitou as coisas, o poema escapou-me (...)
   Ficou calado. Depois o seu riso brotou, com uma ironia feroz.
 - Quem lhe ensinou esse poema? De onde saiu essa pronúncia?
- Não é assim que se diz?
- Depende, mas em Varsóvia não. Talvez em Wilno e, mesmo assim, na boca do reitor da faculdade de teologia protestante! (...)
   Aquele judeu no fundo do seu buraco apenas via a minha estranha pronúncia. A oferenda monumental que eu lhe fazia deixava-o indiferente. Tirei do meu saco o volume em yiddish, atirei-lho para cima da mesa com um gesto de despeito. Estava escuro. Herman não podia reconhecer o livro ao primeiro olhar. Tome, é para si, estava atrás de uma trave.
   Herman pegou no livro. Afastou-se para o aproximar da vela, estava quase de costas voltadas para mim. Abriu o livro, acariciou uma página. Acabaram-se os risos, as censuras. Creio que estava comovido. (...)
   Fizemos amor na terra batida para abafar os ruídos. Comi o seu sexo e ele veio-se em mim. Era tão bom, eu e aquele judeu. Aquele homem só para mim. As suas mãos agarravam as minhas nádegas, a sua língua inundava-me as orelhas. Era suficientemente brutal para me dominar, mas atento ao meu desejo. Nunca conhecera aquelas sensações de gozo, os rins incendiados pelo prazer (...) senti uma felicidade desconhecida: esperava aquele homem há tanto tempo. (...) A sua maneira de fazer amor comigo não deixava qualquer dúvida: apoderava-se do meu corpo como dono e senhor, com o apetite de um canibal, nenhuma parcela era poupada, as minhas coxas, o meu púbis, os meus mamilos. Deixava-me devorar porque assim devia ser. Era um ser vivo. Finalmente.


   Rozier; Gilles. Um Amor Sem Resistência. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, pp 100-103.
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domingo, 7 de maio de 2017


   A Revista equatoriana de Literatura "Metaforologia Gaceta Literaria" lançou hoje uma seleção de poemas meus escolhidos por Ana Cecília Blum. Estes poemas foram por mim publicados, ao longo dos anos, em livros que saíram nas Editoras: Labirinto, Coisas de Ler e Hariemuj. As traduções estão devidamente assinaladas e pertencem a Alfredo Pérez Alencart, Marta López Vilar e Marcela Fillipi. Esta pequena Antologia vem acompanhada da reprodução de um quadro do pintor espanhol Miguel Elías e de uma recensão dessa grande Poeta e Crítica Literária do Equador que é a Ana Cecília Blum. Grato a toda esta equipa; um imenso obrigado...  que vai de Roma a Quito.
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Ver aqui:
http://metaforologia.com/victor-oliveira-mateus/    (Terão de introduzir diretamente o endereço no motor de busca! Problemas que tentarei solucionar em breve! )

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sexta-feira, 28 de abril de 2017


                                                            5ª CARTA

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Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir, na diferença de termos e modos desta carta, que finalmente acabou por me convencer de que já me não ama e que devo, portanto, deixar de o amar. Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me resta ainda de si. Não receie que lhe volte a escrever, pois nem sequer porei o seu nome na encomenda. De tudo isso encarreguei D. Brites, que eu habituara a confidências bem diferentes. Os seus cuidados não me serão tão suspeitos quanto os meus. Ela tomará as precauções necessárias para que eu fique com a certeza de que recebeu o retrato e as pulseiras que me deu. Quero porém dizer-lhe que me encontro, há já alguns dias, na disposição de me desfazer e queimar essas lembranças do seu amor, que tão preciosas me foram. Mas tanta franqueza lhe tenho mostrado que nunca acreditaria que eu fosse capaz de chegar a tal extremo. Quero sentir até ao fim a pena que tenho em separar-me delas e causar-lhe ao menos algum despeito. Confesso-lhe, para vergonha minha e sua, que me encontrei mais presa do que quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti outra vez necessidade de toda a minha reflexão para me separar de cada uma em particular, e isto quando já me gabava de me ter desprendido de si. Mas, com tantos motivos, consegue-se sempre o que se deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites. Quantas lágrimas me não custou esta resolução! Depois de mil impulsos e mil hesitações, que nem pode imaginar, e de que certamente não lhe darei conta, roguei-lhe para me não voltar a falar nelas, nem mas restituir ainda que lhas pedisse só para as ver uma vez mais e, por fim, remeter-lhas sem me prevenir. Não conheci o desvario do meu amor senão quando me esforcei de todas as maneiras para me curar dele, e receio que nem ousasse tentá-lo se pudesse prever tanta dificuldade e tanta violência. Creio que me teria sido menos doloroso continuar a amá-lo, apesar da sua ingratidão, do que deixá-lo para sempre. Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão, e sofri penosamente em combatê-la, depois que o seu indigno procedimento me tornou odioso todo o seu ser. O orgulho tão próprio das mulheres não me ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e teria suportado o ódio e o ciúme que me provocasse a sua inclinação por outra! Ao menos, teria qualquer paixão a combater. Mas a sua indiferença é intolerável. Os impertinentes protestos de amizade e a ridícula correção da sua última carta provaram-me ter recebido todas as que lhe escrevi e que, apesar de as ter lido, não perturbaram o seu coração. Ingrato! E a minha loucura é tanta ainda, que desespero por já não poder iludir-me com a ideia de não chegarem aí, ou de não lhe terem sido entregues. Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu para me dizer pura e simplesmente a verdade? Porque me não deixou com a minha paixão? Bastava não me ter escrito: eu não procurava ser esclarecida. Não me chegava a desgraça de não ter conseguido de si o cuidado de me iludir? Era preciso não lhe poder perdoar? Saiba que acabei por ver quanto é indigno dos meus sentimentos; conheço agora todas as suas detestáveis qualidades. Mas, se tudo quanto fiz por si pode merecer-lhe qualquer pequena atenção para algum favor que lhe peça, suplico-lhe que não me escreva mais e me ajude a esquecê-lo completamente. Se me mostrasse, ao de leve que fosse, ter sentido algum desgosto ao ler esta carta, talvez eu acreditasse; talvez a sua confissão e o seu arrependimento me enchessem de cólera e de despeito; e tudo isso poderia de novo incendiar-me. Não se meta pois no meu caminho; destruiria, sem dúvida, todos os meus projetos, fosse qual fosse a maneira porque se intrometesse. Não me interessa saber o resultado desta carta; não perturbe o estado para que me estou preparando. Parece-me que pode estar satisfeito com o mal que me causa, qualquer que fosse a sua intenção de me desgraçar. Não me tire desta incerteza; com o tempo espero fazer dela qualquer coisa parecida com a tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a odiar: por de mais desconfio de sentimentos de sentimentos exaltados para me permitir intentá-lo. Estou convencida de que talvez encontrasse aqui um amante melhor e mais fiel; mas ai!, quem me poderá ter amor? Conseguirá a paixão de outro homem absorver-me? Que poder teve a minha sobre si? Não sei eu por experiência que um coração enternecido nunca mais esquece quem lhe revelou prazeres que não conhecia, e de que era suscetível?, que todos os seus impulsos estão ligados ao ídolo que criou? que os seus primeiros pensamentos e primeiras feridas não podem curar-se nem apagar-se?, que todas as paixões que se oferecem como auxílio, e se esforçam por o encher e apaziguar, lhe prometem em vão um sentimento que não voltará a encontrar? , que todas as distrações que procura, sem nenhuma vontade de as encontrar, apenas servem para o convencer que nada ama tanto como a lembrança do seu sofrimento? Porque me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto de uma afeição que não deve durar eternamente, e a amargura que acompanha um amor violento, quando não é correspondido? E porque razão, uma cega inclinação e um cruel destino, persistem quase sempre em prender-nos àqueles que só a outros são sensíveis? Mesmo que esperasse distrair-me com nova afeição, e deparasse com alguém capaz de lealdade, é tal a pena que sinto por mim que teria muitos escrúpulos em arrastar o último dos homens ao estado a que me reduziu. E embora me não mereça já nenhum respeito, não poderia decidir-me a tão cruel vingança, mesmo se, por uma mudança que não vislumbro, isso viesse a depender de mim. Procuro neste momento desculpá-lo, e sei bem que uma freira raramente inspira amor; no entanto parece-me que, se a razão fosse usada na escolha, deveriam preferir-se às outras mulheres: nada as impede de pensar constantemente na sua paixão, nem são desviadas por mil coisas com que as outras se distraem e ocupam. Creio que não deve ser muito agradável ver aquelas a quem amamos sempre distraídas com futilidades; e é preciso ter bem pouca delicadeza para suportar, sem desespero, ouvi-las só falar de reuniões, atavios e passeios. Continuamente se está exposto a novos ciúmes, pois elas são obrigadas a certas atenções, certas condescendências, certas conversas. Quem pode garantir que em tais ocasiões se não divirtam, e que suportem os maridos somente com extremo desgosto, e sem qualquer aprovação? Como elas devem desconfiar de um amante que lhes não peça contas rigorosas de tudo isso, que acredite facilmente e sem inquietação no que lhe dizem, e as veja, confiante e tranquilo, sujeitas a todas essas obrigações! Mas não pretendo provar-lhe com boas razões que me devia amar. Fracos meios seriam estes, e eu outros usei bem melhores sem nenhum resultado. Conheço de sobra o meu destino para tentar mudá-lo. Hei de ser toda a vida uma desgraçada! Não o era já quando o via todos os dias? Morria de medo que me não fosse fiel; queria vê-lo a cada momento e isso não era possível; inquietava-me com o perigo que corria ao entrar neste convento; não vivia quando estava em campanha; desesperava-me por não ser mais bonita e mais digna de si; lamentava a mediocridade da minha condição; pensava nos prejuízos que lhe podia acarretar a afeição que parecia ter por mim; imaginava que não o amava bastante; receava, por si, a cólera da minha família; enfim, encontrava-me num estado tão lamentável como aquele em que estou agora. Se me tivesse dado alguma prova de amor, depois de ter saído de Portugal, teria feito todos os esforços para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai, que teria sido de mim se não se importasse comigo, depois de estar em França? Que horror! Que loucura! Que vergonha tão grande para a minha família, a quem quero tanto, depois que deixei de o amar! A sangue-frio, como vê, reconheço que podia ainda ser mais digna de piedade do que sou. Ao menos uma vez na vida falo lhe ponderadamente. Quanto lhe agradará a minha moderação, e como ficará satisfeito comigo! Mas não quero sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho para não me escrever mais. Nunca refletiu na maneira como me tem tratado? Nunca pensou que me deve mais obrigações do que a qualquer outra pessoa? Amei-o como uma louca, tudo desprezei! O seu procedimento não é de um homem de bem. É preciso que tivesse por mim uma aversão natural para me não ter amado apaixonadamente. Deixei-me fascinar por qualidades bem medíocres. Que fez para me agradar? Que sacrifícios fez por mim? Não procurou tantos outros prazeres? Renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para campanha? Não foi o último a regressar? Expôs-se loucamente, apesar de tanto lhe haver pedido que se poupasse por amor de mim. Nunca procurou um meio de se fixar em Portugal, onde era estimado. Uma carta do seu irmão bastou para o fazer abalar, sem a menor hesitação. E não vim eu saber que, durante a viagem, a sua disposição era a melhor do mundo? Forçoso me é confessar que tenho razões para o odiar mortalmente. Ah, eu própria atraí sobre mim tanta desgraça! Acostumei-o desde início, ingenuamente, a uma grande paixão, e é necessário algum artifício para nos fazermos amar. Devem procurar-se com habilidade os meios de agradar: o amor por si só não suscita amor. Como pretendia que eu o amasse, e como havia formado tal desígnio, não houve nada que não tivesse feito para o atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar-me, se tal fosse preciso. Mas percebeu que o amor não era necessário para o êxito do seu empreendimento, nem dele precisava para nada. Que perfídia! Pensa poder enganar-me impunemente? Se por acaso voltar a este país, declaro-lhe que o entregarei à vingança da minha família. Muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horrorizam, e o remorso persegue-me com uma crueldade insuportável. Sinto uma vergonha enorme dos crimes que me levou a cometer; já não tenho pobre de mim!, a paixão que me impedia de conhecer-lhes a monstruosidade. Quando deixará o meu coração de ser dilacerado? Quando é que me livrarei desta cruel perturbação? Apesar de tudo, creio que não lhe desejo nenhum mal, e talvez me não importasse que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se tiver coração? Quero escrever-lhe ainda outra carta para lhe mostrar que daqui a algum tempo, talvez já tenha mais serenidade. Com que satisfação lhe censurarei então o seu injusto procedimento, quando este já não me importunar; lhe farei sentir que o desprezo; que falo da sua traição com a maior indiferença; que esqueci alegrias e penas; e só me lembro de si quando me quero lembrar! Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu era nova, ingénua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena; não tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si; toda a gente me dispunha ao seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o meu amor... Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade. Ao devolver-lhe as suas cartas, guardarei, cuidadosamente, as duas últimas que me escreveu ; hei de lê-las ainda mais do que li as primeiras, para não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah, quanto me custam e como teria sido feliz se tivesse consentido que o amasse sempre! Reconheço que me preocupo ainda muito com as minhas queixas e a sua infidelidade, mas lembre-se que a mim própria prometi um estado mais tranquilo, que espero atingir, eu então tomarei uma resolução extrema, que virá a conhecer sem grande desgosto. De si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e não pensar mais em si. Creio mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de todos os meus sentimentos?  
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