segunda-feira, 22 de maio de 2017


Grato a quem me deu a conhecer as várias fotos desta sessão, fotos essas que eu não sabia que existiam.
Festival Literário "Raias Poéticas de 2014 de Vila Nova de Famalicão". Na mesa e da esquerda para a direita: Luis Serguilha, Luísa Monteiro, Sofia Amaro, José Emílio-Nelson, Victor Oliveira Mateus, Jessica Falconi.
O texto por mim apresentado neste encontro "O Real Poético e o Real da Poesia", foi depois publicado em: "Revista Triplo V de Artes, Religiões e Ciências", Nova Série, Nº 49, dezembro-janeiro, 2014-2015.
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domingo, 21 de maio de 2017



Só numa cidade antiga
Uma cidade de ruínas e pássaros
Uma cidade sem ninguém desde o séc. III
A vida pode existir sem sobressaltos

Há uma sinagoga e uma capela
E vida vegetal nas pedras
Os pássaros passeiam
E poisam nas ruínas

E não se ouvem sinos
A anunciar desgraças

A existência das pessoas pertence a um passado remoto
Não consta que tenha havido um terramoto
Só que às vezes abandonam-se os sítios por causas maiores
Que têm a ver com buscas incessantes de novas vidas

Os arqueólogos afadigaram-se ali antes de a guerra eclodir
Meio pente de terracota foi sujeito a análises
E a asa de um bilha

Soube-se pouca coisa

Mas os pássaros ainda cantam

A capela tem um vitral incompleto
A refracção da luz revela a vida de um menino
Que outrora ali cumpriu um sacramento

Hoje os meninos servem de escudos na guerra


  Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, 33.
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sábado, 20 de maio de 2017



     "Entretenho-me a querer-te"


Ao entardecer
- depois dos versos -
entretenho-me a querer-te.
Vem a noite;
apago as luzes
e alumio o amor.
E do amor desse lume
irrompem as recordações...
É belo o outono para amar-te!
Encandeio os meus olhos
com uma fotografia tua
onde aconchego meus dedos.
Ponho água nos nardos
e um disco de silêncio.

Tal como um menino pobre
tal como um menino bom
sem brinquedos, sem ninguém,
sem merenda, sem beijos,
à luz da lua
pressentindo a tua imagem
ao entardecer só,
entretenho-me a querer-te.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 153 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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  "Me entretengo queriéndote"


Al atardecer
- después de los versos -,
me entretengo queriéndote.
Viene la noche;
apago las luces
y enciendo el amor.
Y al amor de la lumbre
que brota del recuerdo...
Es hermoso el otoño para amarte!
Encandilo mis ojos
con tu fotografia
y caliento mis dedos.
Pongo agua a los nardos
y un disco de silencio.

Igual que un niño pobre
igual que un niño bueno
sin juguetes, sin gente
sin merienda, sin besos,
a la luz de la luna
tu imagen presintiendo
al atardecer sola,
queriéndote me entretengo.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 153.
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quinta-feira, 18 de maio de 2017


  "A Jenny" (1)

Ninguém o ajudou,
no entanto ele se fez mulher.
Cantar cantava,
era a preferida dos homens do night-club.
Disse-me:
- Em toda a minha vida
apenas li um livro,
o teu.
Então...
Acariciei-lhe de verdade
os seus peitos de mentira.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 105 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).


(1) Relativamente a este poema, ver a nota do post anterior.
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  "A Jenny" (1)


Nadie le ayudó,
pero él se hizo mujer.
Cantar cantaba,
era la preferida de los hombres del night-club.
Me digo:
- En toda mi vida
sólo he leído un libro,
el tuyo.
Entonces...
Le acaricié de verdad
sus pechos de mentira.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, p 105.


(1) Apesar de manter a mesma ternura e o mesmo envolvimento de toda a produção poética de Gloria Fuertes, o poema "A Jenny" foi um dos que  acabou levantando mais escândalo. Tentaremos traduzi-lo no post seguinte para que se perceba essa reação. 
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terça-feira, 16 de maio de 2017


   La Revista Cultural "El Cobaya", editada por el Ayuntamiento de Ávila dedicará el número 27 de su segunda etapa a la poeta Gloria Fuertes (Madrid, 1917 - Madrid, 1998), coincidiendo con el centenario de su nacimiento.
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   Este post é uma pré-publicação com a minha colaboração, em castelhano,  na obra acima referida.
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.  " Pájaro extraño con levedad al fondo"


                                          A Gloria Fuertes


Cuando la infancia es un terreno
baldio pero luminoso
y en él las raíces se cuelan
por las ventanas y balcones

Cuando las palabras irradiam
nuevo decir, mirada profunda;
mirada de pájaro infrecuente
con extraña levedad al fondo

Cuando la risa no es gratuita
ni siquiera trampa
profanando dulce candidez
que en tu decir ebulle

Entonces leerte es tarea apetecida
inesperado encuentro
que dota de sentido a la vida.



     Victor Oliveira Mateus, traducción A.P. Alencart (pré-publicação)



O poema no original:


      "Pássaro raro com leveza ao fundo"


                                       A Glória Fuertes


Quando a infância é um terreno
baldio mas luminoso
e nele as raízes se infiltram
pelas janelas e terraços

Quando as palavras irradiam
novo dizer, olhar profundo;
olhar de pássaro raro
com estranha leveza ao fundo

Quando o riso não é gratuito
nem sequer armadilha
a profanar dócil candura
que em teu dizer fervilha

Então ler-te é tarefa apetecida
inesperado encontro
que dota de sentido a vida.


                                 Victor Oliveira Mateus
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segunda-feira, 15 de maio de 2017


   "Diabinho De Minha Guarda"


Inquieta companhia,
livra-me do mal
de noite e de dia.

Tu podes.

Não te digo que vás
digo-te que fiques.

Diabinho de minha guarda,
compreendo-te e compreender-te-ia
(no fundo queres ser
o meu anjo da guarda
e por isso o invejas).

Diabinho de minha guarda
misteriosa companhia,
ninguém te quer
ninguém te estima.

Por isso praticas o mal
para te fazer notado.

Diabinho de minha guarda
estar só
é o teu inferno...
Se vieres visitar-me
pentear-te-ei os cornos.


   Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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(O que me fascina na poesia de Gloria Fuertes é forma como ela fala de coisas pouco usuais, como ela afronta a norma, mas sempre sem ruído, antes pelo contrário, ela fá-lo com uma grande ternura e doçura mesmo. Vou postar alguns dos seus poemas com traduções minhas desses poemas)


  "Diablito De Mi Guarda"

Inquieta compañia,
librame del mal
de noche y de día.

Tú puedes.

No digo que te vayas
digo que te quedes.

Diablito de mi guarda,
te comprendo y te comprendería
(en el fondo quieres ser
mi ángel de la guarda
y por eso le envidias).

Diablito de mi guarda
misteriosa compañia,
nadie te quiere
nadie te estima.

Por eso haces el mal
para hacerte notar.

Diablito de mi guarda
estar solo
es tu infierno...
Si vienes a visitarme,
te peinaré los cuernos.


  Fuertes, Gloria. Mujer de verso en pecho. Madrid: Ediciones Cátedra, 2017, pp 33-34.
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            "Elegia de Varna"


Sinto que algo ficou irrealizado em mim.
Nota que vibraria o meu ser íntegro como um sino
e que não se feriu.
Adivinho-lhe a corda oxidando-me o peito.
Tocá-la tornaria os veios de ferrugem
nos rios mágicos do êxtase
                   e então eu seria eu
e não esta véspera encolhida,
este quase a medo murmurado,
este querer que se tolhe ante a areia dourada,
este silêncio náufrago,
esta solidão esmagada de estrelas.
                   E então eu seria eu
e tu, e sim, e além.
Não seria este não que sequer se profere
e que sobre o Mar Negro, hoje branco de fúria,
fita, desesperado, a gaivota que ousa
solitária
                    o mergulho.
Sinto que algo deixou de realizar-se em mim,
e esta falta grita e queima e consome.
Sigo nau incompleta, vento coxo, canto
falhado
e despedaço as asas poderosas
no abjeto cais das ânsias.
Sinto que algo ficou irrealizado em mim,
e esta página branca invade o meu ser.


  Horta, Anderson Braga. 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 32.
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domingo, 14 de maio de 2017



   "Mentateuco"


Orgulho-me de minha mente.
Eis aqui um aparelho bastante razoável,
capaz de produzir confusões bastante sutis,
talvez aliciadoras,
talvez cheias de ritmo e de harmonia.
Vítima
de concussão vocacional,
sintonizado para a metafísica,
as construções Ideais
          fora do tempo e do espaço,
num mundo tão espacial, tão temporal,
tão antimetafísico.
Tenho muito orgulho desta mente
que nenhum computador ainda igualou,
           e não igualará.
Menta, mentol, mentx, mentiras -
tudo invento e manipulo e transcendo -
e pimentas, e exp'rimentos, e améns.
Sobretudo comento
o evento, e o momento,
e imito
e me lamento, ou não
me lá mento.
Sim, sim, me orgulho-me de minha mente.
Um portento!
E no entanto
bem sinto, meio tonto, que aqui junto
a minha mente é um muro lutulento
tolhendo o céu, o mar, o espanto, o vento.

  Horta, Anderson Braga, 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2003, p 26.
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sábado, 13 de maio de 2017



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Ao contrário da arte dos geómetras, do plástico vendido a metro, do medo de arriscar o interior, da frieza instituida em norma; ao contrário das divas balofas e de pose, da poesia sem emoção dos malabaristas das técnicas exclusivas; ao contrário do fast food cozinhado para a rotina do engurgita-vomita: em arte só o estar de corpo inteiro é aceitável. Mais do que um mero estar, é um dever! O resto? Bem, o resto com luzinhas e lantejoulas nem para os manequins da Rua dos Fanqueiros... Parabéns!!!

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          "poderei ser uma daquelas
           pessoas que lêem sinais"


agora passo ao de leve pelas coisas
e tudo é transparente
sou um fantasma sou um anjo
nem sequer de cócoras posso estar
o mundo é cada vez menos inconsistente
escrevo tudo como se fossem cartas
trespasso objectos com um olhar diáfano
posso agora assistir melhor
ver como cai o pó
essa preocupação inverosímil
um pouco tonta
quando tudo se esboroa
sei agora como cai
não sei como é estar vivo


  oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 107.
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sexta-feira, 12 de maio de 2017


   "o amor sem visita"


o amor
ou uma grave infecção
(não sei dizer)
caiu entre nós
como um petardo
bomba humana
podre na sua existência
plenipotenciária

deixou os restos
espalhados pelo chão
decapou a alcatifa
camadas de ácaros
de várias décadas
estoiraram

com os seus ossos aquáticos
seguiram-se cadeias
de brancas metáforas


 oliveira, rosa. tardio. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2017, p 80.
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quinta-feira, 11 de maio de 2017



                                     Cântico do Irmão Sol


Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
para ti são os louvores, a glória e a honra, e toda a bênção.
A ti somente, Altíssimo, eles convêm,
e homem algum é digno de pronunciar teu nome.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão sol,
que o dia nos concede e por quem tu nos iluminas.
Ele é belo e resplandecente com um grande esplendor,
de ti, Altíssimo, ele é o símbolo.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas,
no céu tu as criaste luminosas, preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
pelo ar e a nuvem, pelo céu puro e todos os tempos,
pelos quais às tuas criaturas concedes apoio.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,
com o qual iluminas a noite,
ele é belo e alegre, e robusto e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã terra nossa mãe,
que nos mantém e alimenta,
e produz diversos frutos com as flores de mil cores e as ervas.

Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por amor de ti
e suportam dor e infortúnio.
Felizes os que preservam na paz,
pois por ti, Altíssimo, serão coroados.



Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal,
à qual nenhum homem vivo pode escapar.
Infelicidade a daqueles que morrem em pecado mortal,
felizes aqueles que se reconhecerão nas tuas santas vontades,
pois a segunda morte (1) não lhes fará mal algum.

Louvai e abençoai, meu Senhor, e rendei-lhe graças,
e servi-o com grande humildade.


(1)  Apocalypse, XX, 14, XXI, 8.

Assise, Saint François D’. OEUVRES. Paris: Albin Michel, 2006, pp 255-256 ( Traduction, introduction et notes d’ Alexandre Masseron).


Nota- a primeira edição desta obra é de 1959, seguiram-se depois reedições, em livros de bolso, em 1993 e 2006.

            Não tendo tido a possibilidade de aceder à versão original deste texto (as versões italianas que encontrei pareceram-me com grafia e sintaxe atualizadas e não em língua da Idade Média) e sendo várias as traduções para castelhano e português que andam pela net, decidi fazer eu a minha própria tradução partindo da versão francesa de Alexandre Masseron.
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quarta-feira, 10 de maio de 2017



     "La Última Estación"


A veces me pregunto
cómo será mi vida
cuando llegue.

Entonces
miro estos muros y estos libros
y parece
que me relajo un poco,
pero nunca
lo suficiente.

Entonces pienso en ti.


  Iribarren, Karmelo C. Las Luces Interiores. Sevilla: Editorial Renacimiento, 2017, p 74.
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    "Apunte Biográfico"


La vida me dio siempre
pocas posibilidades.

Y eso hizo que nadie
depositase sus esperanzas
en mí.

Era como estar
sin que te viesen.

Utilicé esa libertad
para sorprenderlos a todos.


  Iribarren, Karmelo C. Las Luces Interiores. Sevilla: Editorial Renacimiento, 2017, p 50.
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terça-feira, 9 de maio de 2017



   "Antes da Queda"

De cinco violetas pétalas
esbeltas pontas caídas
em cachos de tantas
que dão nas beiras
da galhada fina

De forma que
a planta toda se prepara
da raiz que pega
da madeira que pensa
ao galho que apronta
depois empunha
o que deslumbra
e dura um mero dia


  Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo: Editora Foca, 2009, p 97.
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    "Saara"


Num país distante
eu vagava insone
ouvia histórias de você

A lenda iludia
vertia a descompreensão
seu nome de areia
duna móvel
tempestade

Deportado
meu grito minarete
traduz
o desejo de voltar

O sol a pino
oásis em ebulição
Sou um rio de sede
pelo frio deserto da paixão


  Filho, Edmar Monteiro. A Lápis. Amparo/ São Paulo:Editora Foca, 2009, p 41.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017


   O Herman esperava-me em pé. Atrás dele ardia uma vela, ele aparecia-me em sombra chinesa.
- Onde estava?
- A minha mãe foi-se deitar tarde.
- Estava à sua espera.
- Ontem tive um impedimento. Um livro a recuperar em casa de uma aluna.
   Queria guardar o poema para mais tarde, escolher o momento oportuno, mas a censura na voz do Herman precipitou as coisas, o poema escapou-me (...)
   Ficou calado. Depois o seu riso brotou, com uma ironia feroz.
 - Quem lhe ensinou esse poema? De onde saiu essa pronúncia?
- Não é assim que se diz?
- Depende, mas em Varsóvia não. Talvez em Wilno e, mesmo assim, na boca do reitor da faculdade de teologia protestante! (...)
   Aquele judeu no fundo do seu buraco apenas via a minha estranha pronúncia. A oferenda monumental que eu lhe fazia deixava-o indiferente. Tirei do meu saco o volume em yiddish, atirei-lho para cima da mesa com um gesto de despeito. Estava escuro. Herman não podia reconhecer o livro ao primeiro olhar. Tome, é para si, estava atrás de uma trave.
   Herman pegou no livro. Afastou-se para o aproximar da vela, estava quase de costas voltadas para mim. Abriu o livro, acariciou uma página. Acabaram-se os risos, as censuras. Creio que estava comovido. (...)
   Fizemos amor na terra batida para abafar os ruídos. Comi o seu sexo e ele veio-se em mim. Era tão bom, eu e aquele judeu. Aquele homem só para mim. As suas mãos agarravam as minhas nádegas, a sua língua inundava-me as orelhas. Era suficientemente brutal para me dominar, mas atento ao meu desejo. Nunca conhecera aquelas sensações de gozo, os rins incendiados pelo prazer (...) senti uma felicidade desconhecida: esperava aquele homem há tanto tempo. (...) A sua maneira de fazer amor comigo não deixava qualquer dúvida: apoderava-se do meu corpo como dono e senhor, com o apetite de um canibal, nenhuma parcela era poupada, as minhas coxas, o meu púbis, os meus mamilos. Deixava-me devorar porque assim devia ser. Era um ser vivo. Finalmente.


   Rozier; Gilles. Um Amor Sem Resistência. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, pp 100-103.
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domingo, 7 de maio de 2017


   A Revista equatoriana de Literatura "Metaforologia Gaceta Literaria" lançou hoje uma seleção de poemas meus escolhidos por Ana Cecília Blum. Estes poemas foram por mim publicados, ao longo dos anos, em livros que saíram nas Editoras: Labirinto, Coisas de Ler e Hariemuj. As traduções estão devidamente assinaladas e pertencem a Alfredo Pérez Alencart, Marta López Vilar e Marcela Fillipi. Esta pequena Antologia vem acompanhada da reprodução de um quadro do pintor espanhol Miguel Elías e de uma recensão dessa grande Poeta e Crítica Literária do Equador que é a Ana Cecília Blum. Grato a toda esta equipa; um imenso obrigado...  que vai de Roma a Quito.
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Ver aqui:
http://metaforologia.com/victor-oliveira-mateus/    (Terão de introduzir diretamente o endereço no motor de busca! Problemas que tentarei solucionar em breve! )

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sexta-feira, 28 de abril de 2017


                                                            5ª CARTA

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Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir, na diferença de termos e modos desta carta, que finalmente acabou por me convencer de que já me não ama e que devo, portanto, deixar de o amar. Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o que me resta ainda de si. Não receie que lhe volte a escrever, pois nem sequer porei o seu nome na encomenda. De tudo isso encarreguei D. Brites, que eu habituara a confidências bem diferentes. Os seus cuidados não me serão tão suspeitos quanto os meus. Ela tomará as precauções necessárias para que eu fique com a certeza de que recebeu o retrato e as pulseiras que me deu. Quero porém dizer-lhe que me encontro, há já alguns dias, na disposição de me desfazer e queimar essas lembranças do seu amor, que tão preciosas me foram. Mas tanta franqueza lhe tenho mostrado que nunca acreditaria que eu fosse capaz de chegar a tal extremo. Quero sentir até ao fim a pena que tenho em separar-me delas e causar-lhe ao menos algum despeito. Confesso-lhe, para vergonha minha e sua, que me encontrei mais presa do que quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti outra vez necessidade de toda a minha reflexão para me separar de cada uma em particular, e isto quando já me gabava de me ter desprendido de si. Mas, com tantos motivos, consegue-se sempre o que se deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites. Quantas lágrimas me não custou esta resolução! Depois de mil impulsos e mil hesitações, que nem pode imaginar, e de que certamente não lhe darei conta, roguei-lhe para me não voltar a falar nelas, nem mas restituir ainda que lhas pedisse só para as ver uma vez mais e, por fim, remeter-lhas sem me prevenir. Não conheci o desvario do meu amor senão quando me esforcei de todas as maneiras para me curar dele, e receio que nem ousasse tentá-lo se pudesse prever tanta dificuldade e tanta violência. Creio que me teria sido menos doloroso continuar a amá-lo, apesar da sua ingratidão, do que deixá-lo para sempre. Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão, e sofri penosamente em combatê-la, depois que o seu indigno procedimento me tornou odioso todo o seu ser. O orgulho tão próprio das mulheres não me ajudou a tomar qualquer decisão contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e teria suportado o ódio e o ciúme que me provocasse a sua inclinação por outra! Ao menos, teria qualquer paixão a combater. Mas a sua indiferença é intolerável. Os impertinentes protestos de amizade e a ridícula correção da sua última carta provaram-me ter recebido todas as que lhe escrevi e que, apesar de as ter lido, não perturbaram o seu coração. Ingrato! E a minha loucura é tanta ainda, que desespero por já não poder iludir-me com a ideia de não chegarem aí, ou de não lhe terem sido entregues. Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu para me dizer pura e simplesmente a verdade? Porque me não deixou com a minha paixão? Bastava não me ter escrito: eu não procurava ser esclarecida. Não me chegava a desgraça de não ter conseguido de si o cuidado de me iludir? Era preciso não lhe poder perdoar? Saiba que acabei por ver quanto é indigno dos meus sentimentos; conheço agora todas as suas detestáveis qualidades. Mas, se tudo quanto fiz por si pode merecer-lhe qualquer pequena atenção para algum favor que lhe peça, suplico-lhe que não me escreva mais e me ajude a esquecê-lo completamente. Se me mostrasse, ao de leve que fosse, ter sentido algum desgosto ao ler esta carta, talvez eu acreditasse; talvez a sua confissão e o seu arrependimento me enchessem de cólera e de despeito; e tudo isso poderia de novo incendiar-me. Não se meta pois no meu caminho; destruiria, sem dúvida, todos os meus projetos, fosse qual fosse a maneira porque se intrometesse. Não me interessa saber o resultado desta carta; não perturbe o estado para que me estou preparando. Parece-me que pode estar satisfeito com o mal que me causa, qualquer que fosse a sua intenção de me desgraçar. Não me tire desta incerteza; com o tempo espero fazer dela qualquer coisa parecida com a tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a odiar: por de mais desconfio de sentimentos de sentimentos exaltados para me permitir intentá-lo. Estou convencida de que talvez encontrasse aqui um amante melhor e mais fiel; mas ai!, quem me poderá ter amor? Conseguirá a paixão de outro homem absorver-me? Que poder teve a minha sobre si? Não sei eu por experiência que um coração enternecido nunca mais esquece quem lhe revelou prazeres que não conhecia, e de que era suscetível?, que todos os seus impulsos estão ligados ao ídolo que criou? que os seus primeiros pensamentos e primeiras feridas não podem curar-se nem apagar-se?, que todas as paixões que se oferecem como auxílio, e se esforçam por o encher e apaziguar, lhe prometem em vão um sentimento que não voltará a encontrar? , que todas as distrações que procura, sem nenhuma vontade de as encontrar, apenas servem para o convencer que nada ama tanto como a lembrança do seu sofrimento? Porque me deu a conhecer a imperfeição e o desencanto de uma afeição que não deve durar eternamente, e a amargura que acompanha um amor violento, quando não é correspondido? E porque razão, uma cega inclinação e um cruel destino, persistem quase sempre em prender-nos àqueles que só a outros são sensíveis? Mesmo que esperasse distrair-me com nova afeição, e deparasse com alguém capaz de lealdade, é tal a pena que sinto por mim que teria muitos escrúpulos em arrastar o último dos homens ao estado a que me reduziu. E embora me não mereça já nenhum respeito, não poderia decidir-me a tão cruel vingança, mesmo se, por uma mudança que não vislumbro, isso viesse a depender de mim. Procuro neste momento desculpá-lo, e sei bem que uma freira raramente inspira amor; no entanto parece-me que, se a razão fosse usada na escolha, deveriam preferir-se às outras mulheres: nada as impede de pensar constantemente na sua paixão, nem são desviadas por mil coisas com que as outras se distraem e ocupam. Creio que não deve ser muito agradável ver aquelas a quem amamos sempre distraídas com futilidades; e é preciso ter bem pouca delicadeza para suportar, sem desespero, ouvi-las só falar de reuniões, atavios e passeios. Continuamente se está exposto a novos ciúmes, pois elas são obrigadas a certas atenções, certas condescendências, certas conversas. Quem pode garantir que em tais ocasiões se não divirtam, e que suportem os maridos somente com extremo desgosto, e sem qualquer aprovação? Como elas devem desconfiar de um amante que lhes não peça contas rigorosas de tudo isso, que acredite facilmente e sem inquietação no que lhe dizem, e as veja, confiante e tranquilo, sujeitas a todas essas obrigações! Mas não pretendo provar-lhe com boas razões que me devia amar. Fracos meios seriam estes, e eu outros usei bem melhores sem nenhum resultado. Conheço de sobra o meu destino para tentar mudá-lo. Hei de ser toda a vida uma desgraçada! Não o era já quando o via todos os dias? Morria de medo que me não fosse fiel; queria vê-lo a cada momento e isso não era possível; inquietava-me com o perigo que corria ao entrar neste convento; não vivia quando estava em campanha; desesperava-me por não ser mais bonita e mais digna de si; lamentava a mediocridade da minha condição; pensava nos prejuízos que lhe podia acarretar a afeição que parecia ter por mim; imaginava que não o amava bastante; receava, por si, a cólera da minha família; enfim, encontrava-me num estado tão lamentável como aquele em que estou agora. Se me tivesse dado alguma prova de amor, depois de ter saído de Portugal, teria feito todos os esforços para sair daqui; ter-me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai, que teria sido de mim se não se importasse comigo, depois de estar em França? Que horror! Que loucura! Que vergonha tão grande para a minha família, a quem quero tanto, depois que deixei de o amar! A sangue-frio, como vê, reconheço que podia ainda ser mais digna de piedade do que sou. Ao menos uma vez na vida falo lhe ponderadamente. Quanto lhe agradará a minha moderação, e como ficará satisfeito comigo! Mas não quero sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho para não me escrever mais. Nunca refletiu na maneira como me tem tratado? Nunca pensou que me deve mais obrigações do que a qualquer outra pessoa? Amei-o como uma louca, tudo desprezei! O seu procedimento não é de um homem de bem. É preciso que tivesse por mim uma aversão natural para me não ter amado apaixonadamente. Deixei-me fascinar por qualidades bem medíocres. Que fez para me agradar? Que sacrifícios fez por mim? Não procurou tantos outros prazeres? Renunciou ao jogo e à caça? Não foi o primeiro a partir para campanha? Não foi o último a regressar? Expôs-se loucamente, apesar de tanto lhe haver pedido que se poupasse por amor de mim. Nunca procurou um meio de se fixar em Portugal, onde era estimado. Uma carta do seu irmão bastou para o fazer abalar, sem a menor hesitação. E não vim eu saber que, durante a viagem, a sua disposição era a melhor do mundo? Forçoso me é confessar que tenho razões para o odiar mortalmente. Ah, eu própria atraí sobre mim tanta desgraça! Acostumei-o desde início, ingenuamente, a uma grande paixão, e é necessário algum artifício para nos fazermos amar. Devem procurar-se com habilidade os meios de agradar: o amor por si só não suscita amor. Como pretendia que eu o amasse, e como havia formado tal desígnio, não houve nada que não tivesse feito para o atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar-me, se tal fosse preciso. Mas percebeu que o amor não era necessário para o êxito do seu empreendimento, nem dele precisava para nada. Que perfídia! Pensa poder enganar-me impunemente? Se por acaso voltar a este país, declaro-lhe que o entregarei à vingança da minha família. Muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horrorizam, e o remorso persegue-me com uma crueldade insuportável. Sinto uma vergonha enorme dos crimes que me levou a cometer; já não tenho pobre de mim!, a paixão que me impedia de conhecer-lhes a monstruosidade. Quando deixará o meu coração de ser dilacerado? Quando é que me livrarei desta cruel perturbação? Apesar de tudo, creio que não lhe desejo nenhum mal, e talvez me não importasse que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se tiver coração? Quero escrever-lhe ainda outra carta para lhe mostrar que daqui a algum tempo, talvez já tenha mais serenidade. Com que satisfação lhe censurarei então o seu injusto procedimento, quando este já não me importunar; lhe farei sentir que o desprezo; que falo da sua traição com a maior indiferença; que esqueci alegrias e penas; e só me lembro de si quando me quero lembrar! Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu era nova, ingénua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena; não tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si; toda a gente me dispunha ao seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o meu amor... Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade. Ao devolver-lhe as suas cartas, guardarei, cuidadosamente, as duas últimas que me escreveu ; hei de lê-las ainda mais do que li as primeiras, para não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah, quanto me custam e como teria sido feliz se tivesse consentido que o amasse sempre! Reconheço que me preocupo ainda muito com as minhas queixas e a sua infidelidade, mas lembre-se que a mim própria prometi um estado mais tranquilo, que espero atingir, eu então tomarei uma resolução extrema, que virá a conhecer sem grande desgosto. De si nada mais quero. Sou uma doida, passo o tempo a dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e não pensar mais em si. Creio mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação tenho eu de lhe dar conta de todos os meus sentimentos?  
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quinta-feira, 27 de abril de 2017

                                                                  2ª CARTA

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Creio que faço ao meu coração a maior das afrontas aos procurar dar-te conta, por escrito, dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela violência dos teus! Mas não posso confiar em ti, nem posso deixar de te dizer, embora sem a força com que o sinto, que não devias maltratar-me assim, com um esquecimento que me desvaira e chega a ser uma vergonha para ti. É justo que suportes, ao menos, as queixas de desgraças que previ ao ver-te decidido a deixar-me. Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais lealdade dos que é costume: os excessos do meu amor parece que devia pôrme acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar encontrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti. Não deixaria de ser infeliz se soubesse que só ao meu amor ganharas amor, pois tudo quisera dever unicamente à tua inclinação por mim; mas estou tão longe de tal estado que já lá vão seis meses sem receber uma única carta tua. Só à cegueira com que me abandonei a ti posso atribuir tanta desgraça: não tinha obrigação de prever que as minhas alegrias acabariam antes do meu amor? Como poderia esperar que ficasses para sempre em Portugal, renunciasses à tua carreira e ao teu país para não pensares senão em mim? Nenhum alívio há para o meu mal, e se me lembro das minhas alegrias maior é ainda o meu desespero. Terá sido então inútil todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te no meu quarto com o ardor e arrebatamento que me mostravas? Ai, que ilusão a minha! Demasiado sei eu que todas as emoções, que em mim se apoderavam da cabeça e do coração, eram em ti despertadas unicamente por certos prazeres e, como eles, depressa se extinguiam. Precisava, nesses deliciosos instantes, chamar a razão no meu auxílio para moderar o funesto excesso da minha felicidade e me levar a pressentir tudo quanto sofro presentemente. Mas de tal modo me entregava a ti, que era impossível pensar no que pudesse vir envenenar a minha alegria e impedir de me abandonar inteiramente às provas ardentes da tua paixão. Ao teu lado era demasiado feliz para poder imaginar que um dia te encontrarias longe de mim. E, contudo, lembro-me de te haver dito algumas vezes que farias de mim uma desgraçada; mas tais temores depressa se desvaneciam, e com alegria tos sacrificava para me entregar ao encanto, e à falsidade!, dos teus juramentos. Sei bem qual é o remédio para o meu mal, e depressa me livraria dele se deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-te. E depende isso de mim? Não posso censurar-me ter desejado um só instante deixar de te querer. És tu mais digno de piedade do que eu, pois vale mais sofrer corno sofro do que ter os fáceis prazeres que te hão de dar em França as tuas amantes. Em nada invejo a tua indiferença: fazes-me pena. Desafio-te a que me esqueças completamente. Orgulho-me de te haver posto em estado de já não teres, sem mim, senão prazeres imperfeitos; e sou mais feliz que tu, porque tenho mais em que me ocupar. Nomearam-me há pouco tempo porteira deste convento. Todos os que falam comigo creem que estou doida, não sei que lhes respondo, e é preciso que as freiras sejam tão insensatas como eu para me julgarem capaz seja do que for. Ah, como eu invejo a sorte do Manuel e do Francisco! Porque não estou eu sempre ao pé de ti, como eles? Teria ido contigo e servir-te-ia certamente com mais dedicação. Nada desejo no mundo senão ver-te. Lembra-te ao menos de mim. Bastarme-ia que me lembrasses, mas eu nem disso tenho a certeza. Quando te via todos os dias não cingia as minhas esperanças à tua lembrança mas tens-me ensinado a submeter-me a tudo quanto te apetece. Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a exaltação do meu amor Quero que toda a gente o saiba, não faço disso nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra toda a espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida. Não te digo estas coisas para te obrigar a escrever-me. Ah, nada faças contrafeito! De ti só quero o que te vier do coração, e recuso todas as provas de amor que tu próprio te possas dispensar. Com prazer te desculparei, se te for agradável não te dares ao trabalho de me escrever; sinto uma profunda disposição para te perdoar seja o que for. Um oficial francês, caridosamente, falou-me de ti esta manhã durante mais de três horas. Disse-me que em França fora feita a paz. Se assim é, não poderias vir ver-me e levar-me para França contigo? Mas não o mereço. Faz o que quiseres: o meu amor já não depende da maneira como tu me tratares. Desde que partiste nunca mais tive saúde, e todo o meu prazer consiste em repetir o teu nome mil vezes ao dia. Algumas freiras, que conhecem o estado deplorável a que me reduziste, falam-me de ti com frequência. Saio o menos possível deste quarto onde vieste tanta vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, que amo mil vezes mais que à minha vida. Sinto prazer em olhá-lo, mas também me faz sofrer, sobretudo quando penso que talvez nunca mais te veja, porque fatalidade não hei de voltar a ver-te? Ter-me-ás deixado para sempre? Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!
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( As "Lettres Portugaises", inicialmente atribuidas a Mariana Alcoforado (22/4/1640-28/7/1723)) e hoje a Gabriel Joseph de Lavergne Guilleragues (1628-1684), são um conjunto de cinco cartas, que, tendo aparecido em França, rapidamente se espalhou a sua fama e acabaram mesmo por influenciar alguns Românticos como Sainte-Beuve e Saint Simon. As "Cartas" são um dos textos mais belos da epistolografia europeia e Stendhal dar-lhes-ia mesmo um lugar de destaque no seu "De l'Amour". Desde que surgiram e até hoje muito se tem escrito à volta deste texto - exemplo: nos últimos anos da Ditadura, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, publicam  uma espécie de paráfrase à obra do séc. XVII: "Novas Cartas Portuguesas", livro que a censura e a polícia política logo apreendeu. Das "Lettres" aconselho a tradução para português feita por Eugénio de Andrade.)
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                                                         1ª CARTA
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Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa. Há de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não encontrou nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vi tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bastavam para meu contentamento e valiam, enfim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão privados da única luz que os alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo. Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má sorte, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebatamento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a pensar tão mal de ti e estou por demais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste. Não sou já bem desgraçada sem o tormento de falsas suspeitas? E porque hei de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifestavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados, que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me levava a minha paixão, quando me davas provas da tua. Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência. Depois deste acidente tenho padecido muito, mas como poderei deixar de sofrer enquanto não te vir? Suporto contudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar te com uma paixão menos ardente que a minha? Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada. Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo. Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal esperança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar. Porém, quando meu irmão me permitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque teimaste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que terminavas por me abandonar? Porque te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi? Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temível dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, uniu-os para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me. Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
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quarta-feira, 26 de abril de 2017


O som pairou no indiscernível, se bem que não no infinito nem tão pouco no desejado espaço da consonância de vozes, sim, por um instante pensou ouvir Plotia, pensou ouvir a flutuante opacidade da sua voz (...) compreendendo, no entanto, com uma maior certeza e logo de seguida, que se tratava da voz do rapaz, e a naturalidade sem surpresa com que aceitou o seu regresso levou-o em calma torrente por entre as margens terrenas, despreocupadamente em frente, despreocupado em relação à alegria ou à decepção (...). E de novo lhe pareceu que se formavam palavras na boca e que dizia: "Por que é que voltaste? Não te quero voltar a ouvir." E de novo não sabia se tinha falado em voz alta, e também não sabia se o rapaz estava na realidade no quarto, se havia uma resposta a esperar ou se não havia; era uma espera flutuante, quase como se em qualquer sítio estivessem a afinar uma lira antes de se iniciar a canção, e de novo voltou a soar bem perto, tão perto e sem causar espanto, e no entanto distante, como se viesse do mar, esvaindo-se de luar e brilhando muito levemente: "Não me mandes embora!" "Mando", respondeu ele. "Tu barras-me o caminho, quero ouvir a outra voz, tu és uma pseudo-voz, tenho de ir à procura da outra." Ouviu-se a seguir, "Sou a ressonância que te pertence, desde o princípio e para lá de qualquer morte, para sempre".Era como que uma tentação, estava prenhe de doce atractivo, cheio de simplicidade e cheio de sonho, um chamamento de sonho, para que ele mais uma vez se voltasse, um eco do país de infância. E a voz do rapaz, balsâmica, próxima e remota, conterrânea, suave, continuou: "Eterno é o eco do teu canto." Então ele disse: "Não, não quero ouvir mais o eco da minha voz; aguardo a voz que está para lá da minha." - "Já não consegues calar a ressonância dos corações; o seu eco está contigo, tão irrevogável como a tua sombra!" (...) Decorreu de novo um tempo longo, indeterminado, até vir a resposta. "Nunca mais podes ser solitário, nunca, nunca mais, porque o que soou de ti era maior do que tu, é maior do que a tua solidão, e já não o consegues aniquilar; oh, Virgílio, no canto da tua solidão estão todas as vozes. estão todos os mundos, eles estão contigo juntamente com a sua ressonância e romperam para todo o sempre a tua solidão, para todo o sempre entrelaçados com todo o futuro, porque a tua voz, Virgílio, foi desde o início a voz do deus." (...) E de súbito perguntou: "Quem és tu? Como te chamas?" - "Sou Lysânias", foi a resposta, vinda desta vez e indubitavelmente de muito mais perto (...) não tinha ele já decidido deixar o pequeno companheiro da noite no flutuante anonimato de onde tinha surgido? Não o tinha ele por isso mesmo mandado de volta para o anonimato? E admirado, continuou a perguntar: "Eu mandei-te embora... porque não foste?" - "Mas eu fui", ouviu-se em resposta, agora de muito perto, naquela voz de rapaz um pouco rústica, familiar e jovial, cuja modéstia escondia jocosamente uma leve astúcia de camponês, ardilosamente aguardando a próxima pergunta. Sem se dar conta disso, entrou no jogo: "Bom, tu foste-te embora... mas, no entanto, estás aqui." - "Não me proibiste de esperar em frente da tua porta... e agora chamaste."


  Broch, Hermann. A Morte de Virgílio, Primeiro Volume. Lisboa: Relógio d'Água, S/d., pp 196-199.
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segunda-feira, 24 de abril de 2017



A coleção contramaré, da Editora Labirinto, dirigida por Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves, fez sair hoje o último livro de Henrique Levy: "Noivos do Mar". Esta obra tem Prefácio de Miguel Real e Posfácio de Inez Andrade Paes. Na mesma coleção sairá, dentro de dez/ quinze dias, uma Antologia Poética do poeta brasileiro Cláudio Neves. Esta Antologia foi organizada por Pedro Sette-Câmara.
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Outros destaques:
. Será apresentada esta semana em Madrid o último número da Revista Alora, la bien cercada com o meu poema "Aquilo que não tem nome", em português e na versão castelhana numa tradução do poeta catalão José Ángel Garcia Caballero;
- O Ayuntamiento de Ávila fará sair em breve o Nº 27 da Revista EL Cobaya integralmente dedicada a Glória Fuertes, no centenário da sua morte. Esta Revista, dirigida por José Muñoz Quirós, contará com colaborações prestigiadas como as de Juan Contramestre, Antonio Gamoneda, Antonio Colinas, etc. A minha colaboração nesta Revista, com o poema "Pássaro raro com leveza ao fundo", aparecerá em castelhano numa tradução do Prof. Dr. Alfredo Pérez de Alencart;
- A 24 e 25 de outubro deste ano apresentarei, no XX Festival Ibero-Americano de Poesia, em Salamanca, a Antologia Raiz de Piedra y Letra . Esta obra bilingue, com uma monumental colaboração de poetas de países de língua castelhana e portuguesa da Europa e das Américas, tem a Coordenação da Victor Oliveira Mateus e tem como tradutores, para além do coordenador, Jacqueline Alencart, Pedro Sánchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana;
- A Cintilações: Revista de Poesia e Ensaio, Nº 2, 2017, terá a sua apresentação ao público também em outubro deste ano e, apesar de manter o mesmo coordenador do Nº 1, passou a ter o seguinte Conselho Editorial: Poesia e Ensaio (Victor Oliveira Mateus e Daniel Gonçalves), Prosa (Risoleta Pinto Pedro), Crítica Literária (Hugo Pinto Santos), Caderno de autor ou temático (Maria João Cantinho);
- Em breve mais notícias sobre os próximos números da contramaré, um dos quais sairá já em maio.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Nota: Yeshua, Jesus; Yosef, José; Mosheh, Moisés; Yahanon, João; Miriam de Magdala, Maria Madalena; Loukas, Lucas).
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   Quando nos abraçamos, roço a minha face na dele, a fim de sentir a barba a arranhar-me. Nesses momentos, imagino que somos irmãos há muito separados numa antiga epopeia grega, que se reconhecem mutuamente pelo toque da pele - o que pode ser a razão por que, nesse momento, ele leva as minhas mãos aos lábios.
     - Costumas rir quando pensas no futuro? - pergunta-me, parafraseando um Provérbio.
   - Rio-me para que o teu querido pai Yosef, que está nos céus, também possa sorrir - respondo, adaptando um versículo dos Salmos.
   Yeshua e eu escolhemos mais uma citação de Mosheh para oferecer um ao outro. Foi a maneira que arranjámos de construir a nossa ilha. Sabes, Yaphiel, ele e eu passámos demasiado tempo com os nossos tutores quando éramos novos e tínhamos sede de um território sobre o qual tivéssemos domínio absoluto.
   Um facto curioso: nos meus sonhos, os olhos de Yeshua mudam por vezes de cor. Embora ele os tivesse castanho-escuros como os do pai, tenho-os visto azuis da cor do céu, verdes e, de uma vez, prateados - como o olhar refletor de Mosheh, cuja alma era feita da luz refletida pelas águas dos rios do Éden.
   Durante um tempo, enquanto lhe estudo a face, a sala e tudo o que ela contém desaparecem.
   - Só o agora existe - diz ele como se nos tivesse libertado do tempo. Abre as mãos. - Não é preciso apressarmo-nos.
   A solidão não tem de ser o meu destino, eis o que o meu pulso acelerado me diz. Esta é a ilha onde vivo sempre, mesmo quando não estou consciente disso.
   O tempo volta a correr quando Yeshua beija o meu filho na testa e o abençoa. Fala com tanta ternura que o mais estranho de todos os estranhos pensamentos que me ocorreram ao longo da vida surge dentro de mim sem ser convidado: Se ao menos pudéssemos ter tido um filho juntos...
   Será que o meu velho amigo me lê a mente ou que me escapou um comentário do meu filho, que teria feito com que a observação de Yeshua parecesse banal?
   - Teremos de esperar até a roda girar mais uma vez - diz Yeshua. - Usa a palavra grega kuklos para "roda" e, dado que os significados ocultos deste termo só podem ser revelados aos iniciados, não me é permitido dizer mais nada sobre as suas intenções.
   Terá Yeshua falado em voz alta, ou só na minha mente?(...)
  Uma visão é uma verdade superior que tenta entrar em nós através dos olhos. Mas o que deveremos chamar a palavras audíveis proferidas na mente de outra pessoa?
   Com o decorrer dos anos, Yohanon, Miriam de Madgala, Loukas e outros contaram-me que têm ouvido Yeshua dirigir-se-lhes dentro da mente...


 Zimler, Richard. O Evangelho segundo Lázaro. Porto: Porto Editora, 2016, pp 291-292.
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sexta-feira, 14 de abril de 2017



(Nota: Yeshua, Jesus; Mia, Maria, uma das irmãs de Lázaro; Miriam de Magdala, Maria Madalena.)
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   Será possível que uma pequena parte do Senhor - exatamente do tamanho de um homem - morra de cada vez que um de nós morre? Tudo o que vejo e ouço parece querer que eu acredite nisso. Porque, se não for o caso, como pode o Todo-Poderoso sentir compaixão?
   Miriam de Magdala está de pé por trás de Yeshua, tremendo de frio, o manto de lã enrodilhado aos pés. Talvez, penso, não se atreva a postar-se diante dele, porque sabe que desmaiará se lhe vir o rosto.
   Mas engano-me.
   O minúsculo passo que logo dá para a sua esquerda, e a forma como mede a distância que a separa de Yeshua, mostram-me que se colocou entre ele e a luz do sol envolto em nuvens, de forma a que a sombra da sua cabeça e do seu peito incida diretamente sobre as pernas e os pés de Yeshua.
   Ele sentirá que Miriam está com ele, penso, e sei nessa altura que ela tenciona seguir a rota do sol à medida que for descendo no horizonte. Na linguagem sagrada das sombras, Miriam está a dizer-lhe: Ficarei contigo o tempo que for necessário e, no fim, contigo cairei nos braços da morte.
   E assim fico a saber - demasiado tarde, talvez - que ela o ama exatamente como eu.
   Ajoelho-me com o meu filho. Mia vai postar-se do outro lado.
   Observo os olhos fechados de Yeshua e imagino os meus lábios a pousarem primeiro num e depois no outro. Pego-lhe nas mãos e aperto-as com força, depois largo-as e desenho com as palmas das minhas a curva oblíqua das suas ancas, e beijo-lhe o topo da cabeça, o pescoço e os lábios, e ele cheira a madeira e a papiro, como sempre cheirou. Sinto-lhe o peso do sexo na mão e abraço-me às suas pernas. Acaricio-lhe a face com a minha e roço-lhe os pelos da barba com os meus.
   Faço tudo isto porque preciso de saber onde ele começa e termina, porque só conhecendo essas coisas desaparecerão as fronteiras entre nós, e eu serei o que observa e o que é observado, o amante e o amado - e a morte não lhe porá fim, porque ele viverá dentro de mim para sempre.
   Lembrar-me-ei de tudo o que aconteceu neste dia, prometo-lhe, embora ainda não saiba porquê.
   Tiro as sandálias e desembaraço-me de túnica. Mia tenta impedir-me.
   - Não podes ficar nu aqui - segreda-me, mas eu digo-lhe que é a única maneira.
   - Vou libertar-me de tudo o que me prender à terra - digo.
   Juntamente com as roupas, tento soltar-me dos medos, sonhos, penas e esperanças, porque Yeshua sempre me disse que o Senhor nos acolhe nus.
   A mãe dele compreende a singela beleza de tirar tudo o que só sirva para me manter afastado do filho, porque me chama pelo nome quando me ajoelho de novo e, entre lágrimas, faz um aceno de cabeça e desce a mão pelo peito, mostrando-me que compreende os meus motivos. E, então, tira também ela as sandálias e o lenço da cabeça.
   Poderia algum de nós mandar a pessoa que mais ama para o túmulo - nua e indefesa - sem desejar acompanhá-la?


   Zimler, Richard. O Evangelho segundo Lázaro. Porto: Porto Editora: 2016, pp 370-372.
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segunda-feira, 10 de abril de 2017



Morreu a Profª Dra. Maria Helena da Rocha Pereira (3/9/1925 - 10/4/2017), uma das principais especialistas em Estudos Clássicos, primeira mulher doutorada na Universidade de Coimbra e primeira Professora Catedrática da mesma Universidade. Gerações e gerações (nomeadamente a minha) foram-se formando com os olhos postos em alguns dos seus livros.
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 Excerto de Teógnis relativo à condição humana:
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Ninguém é feliz, pobre, mau ou bom,
sem a vontade do deus.
Um mal responde a outro; feliz, por completo,
nenhum dos mortais que o sol ilumina.


 Teógnis (I, 165-168) in  Hélade, Antologia da Cultura Clássica de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos, 1971, p 139.
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quinta-feira, 30 de março de 2017


(...) prenhe de desgraça permanece o sono dos rebanhos, indomada permanece a agitação terrena, inextinguível o fogo, entregue ao esmagador raio do nada permanece o amor, e sobre a caverna da noite está, intemporal, a tempestade.
   Fuga, oh fuga! a mãe continua sem se poder chamar. Somos órfãos na origem dos rebanhos, não podemos chamar em sonhos por nenhum nome, nenhum tem valor nas trevas da perfeita fusão -, e tu, meu pequeno companheiro da noite, que te juntaste a mim para seres guia, será que eu te posso na realidade chamar? Foste enviado pelo teu, pelo meu destino, para eu falar contigo? Também te sentes ameaçado pela intemporalidade? Também ela se esconde sob a tua noite? Oh, encosta-te a mim, meu pequeno irmão gémeo, oh, encosta-te a mim; desvio os meus olhos da ameaça e dirijo-os para ti, esperando, pela última vez, esperando poder voltar do isolamento, voltar contigo para a abóboda escura, que foi erguida dentro de mim como uma morada que eu já não conheço, oh, entra comigo nesta familiaridade que como elemento estranhíssimo bate nas minhas veias com nova familiaridade, e na qual eu gostaria de te deixar participar; talvez então o que há de mais estranho, que até eu próprio, deixe de me ser estranho; oh, funde-te comigo meu pequeno irmão gémeo, funde-te a mim, e quando chorares a infância perdida, quando chorares a mãe perdida, voltarás a encontrá-las em mim, porque te recebo nos meus braços e na minha alma. Mais uma vez nos seja dado ficar na caverna flutuante da noite, somente mais uma única vez, e que nos seja dado ouvir juntos o flutuar da noite e dos seus sonhos, apesar do seu reino intermédio e da sua doce realidade -, no entanto tu ainda não sabes, meu pequeno irmão, porque és jovem, de que mais profundas interioridades do nosso ser emerge a esperança da noite, abrangendo tudo de tal maneira e de tal maneira insuflando alma na sua imutabilidade, de tal maneira suave e leve promessa de saudade na sua aflição, que precisamos de muito tempo para a ouvirmos, a ela e ao seu medo, que se ergue à nossa volta como uma serra de ecos (...) como se de novo todo o reflexo de um passado há muito vivido quisesse voltar a brilhar e com tal esperança, como se encerrasse em si toda a promessa do definitivo -, oh, meu pequeno irmão, experimentei isso, porque sou um velho, mais velho do que os meus próprios anos, porque sinto em mim toda a fragilidade e toda a decadência, eu experimentei isso, porque me encaminho para o fim; ah, só ao desejarmos a morte desejamos a vida, e em mim, incessantemente minando e desconjuntando está o trabalho de toda a ânsia de morte, sem pausa, (...) só o moribundo reconhece a comunhão, reconhece o amor, reconhece o reino intermédio, só no crepúsculo e na despedida reconhecemos o sono, cuja profundíssima comunhão não tem lascívia (...) ah, meu pequeno companheiro da noite, também irás um dia reconhecer tudo isto, também tu um dia estarás sentado no limiar da margem (...). Sonho, oh, sonho! Enquanto fazemos poesia não partimos,  enquanto permanecemos no reino intermédio do nosso dia-noite, oferecemos uns aos outros todas as esperanças de sonho, toda a comunhão de saudade, toda a esperança de amor, e por isso, meu pequeno irmão, por causa desta esperança, por causa desta saudade não te afastes de mim; não quero saber o teu nome, que lança sombra, não te quero chamar, nem para a partida nem para o regresso, mas sem que te possam chamar e sem seres chamado, fica comigo, para que o amor fique na promessa da sua eternidade, fica comigo no crepúsculo, fica comigo na margem do rio. (...) Ouves o meu pedido? Poderá ainda o meu pedido ouvir-te, ouvindo-se e si próprio, fugido do destino, redimido da dor?
(...) Assim estava ele, ali sentado, sentia no joelho o calor do ombro do rapaz que se tinha aproximado até quase se encostar, mas sem no entanto o fazer, e ele sentia uma grande vontade de libertar os dedos cada vez mais presos, para, suave e despercebidamente, acariciar a cabeleira infantil, revolta e escura como a noite que ele via de cima (...) "Vai... vai à festa", conseguiu ainda dizer com voz rouca, enquanto a mão aberta.dirigida para cima, esboçava apenas a tentativa de empurrar o rapaz, que hesitantemente recuava para a porta não lhe tocando, mas acrescentando sempre a distância, e com repelões bruscos depois. "Vai... vai", repetiu arfando (...). Mas lentamente sentiu-se melhor - lentamente, de facto, e a muito custo, e com muito sofrimento - e voltou à respiração, ao descanso, ao silêncio.

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 Broch, Hermann. A Morte de Virgílio, Primeiro Volume. Lisboa: Relógio d'Água, S/d, pp 74-79.
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quarta-feira, 29 de março de 2017


   Eugénio de Andrade foi, a par de Casimiro de Brito (1938), Egipto Gonçalves (1920-2001) ou Isabel Cristina Pires (1953), um dos poetas portugueses  contemporâneos mais viajados, tendo no seu passaporte carimbo de países de África, América, Ásia e Europa, com nítida preferência para as regiões mediterrânicas. Havia sempre uma boa razão para o escritor percorrer o mundo: a participação num encontro literário, o simples repouso, ou a procura das paisagens físicas e humanas que inspiraram autores dilectos, como Vergílio (70-19a.C.) e Horácio (65-8 a.C.).
   Nesta viagem aos Estados Unidos e ao Canadá, o objectivo inicial de Eugénio e do seu companheiro de jornada, o tradutor norte-americano Alexis Levitin, era cumprir uma dúzia de leituras bilingues, da sua obra poética. Os espaços escolhidos incluíam clubes, associações, centros de arte, e as universidades de Santa Bárbara, Harvard, Brown, Albany, Columbia e Temple, nalgumas das quais existem departamentos de estudos lusófonos (Andrade, 1995:187). As leituras foram frequentemente seguidas de debate, visando questões como a escrita, a tradução e o gosto literário. Trata-se, portanto, na tipologia proposta por Fernando Cristóvão, de uma viagem erudita, em que imperam a curiosidade intelectual, e a partilha de saber, em instituições vocacionadas para a arte e para o ensino da literatura (Cristóvão, 1999:48-9).
   No entanto, à margem desse contacto com os amantes das letras, ocorreram descobertas e imprevistos que concederam uma dimensão extraordinária à visita: o desafio de perceber outros valores e formas de ser. (...) Em simultâneo, ao perceber o Outro e ao ver-se como tal, o Eu reconhece-se como um entre vários, e exercita a auto-compreensão, através do contraste. Neste intercâmbio fluído e recíproco entre o Eu e o Outro, convivem receios e estereótipos, mas também imagens objectivas e interpretações científicas, que exprimem a curiosidade, repulsa ou atracção pela diferença.
   Na sua viagem pela terra do Outro, a imensidão da paisagem natural estaduniense foi o aspecto que de imediato mais impressionou Eugénio (...)
   Por contraste, a paisagem urbana, de uma brutalidade inesperada, perturba-o: Eugénio sempre preferiu os espaços rurais ou marítimos, menos enxameados pelos turistas e mais convidativos à introspecção, essencial ao labor da escrita.


 Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, 134-135.
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segunda-feira, 27 de março de 2017


   Neste passo (W. 1982:815), Whitman compraz-se com o canto simples da cotovia, duas ou três notas soltas e alegres, avivando uma manhã no término do Inverno - tal como Eugénio aprecia a música do pisco, e abre a janela para melhor escutá-lo. Ao mesmo tempo, o escritor norte-americano admira o voo quase silencioso da ave, que vai saltitando de estaca em estaca, ao longo de uma vedação de madeira. Todo o texto realça a candura do pássaro e celebra a euforia de viver e de cantar, mesmo num dia frio. Esta entrada de diário enleia também pelo ar de registo rápido, captura de um momento que passaria despercebido a quem não tivesse uma sensibilidade poética e, portanto, atenta aos pequenos milagres do quotidiano. Coube ao acaso e ao talento de Whitman trazê-lo para o papel e, assim, imortalizar aquela manhã de dezasseis de Março de 1878.
   Outros aspectos ligam o texto de Eugénio a Whitman: por exemplo, logo na primeira frase do poema em prosa, surge uma referência a Peter Doyle. Para compreender capazmente o texto, o leitor deve saber quem foi este indivíduo e a importância que deteve na esfera afectiva de Whitman. O poeta norte-americano conheceu Doyle por mero acaso, numa noite fria de Dezembro de 1865. Regressava a casa, na linha Washington-Georgetown, quando entabulou conversa com o conductor do eléctrico, Doyle, na altura um jovem de dezoito anos. Whitman ficou de tal modo fascinado pelas suas ideias e beleza física que acabou por não se apear e, em vez disso, fez-lhe companhia na viagem de retorno à central dos transportes, em Anacostia (Oliver, 2006: 278-279).
   Aparentemente, os dois homens detinham poucos aspectos em comum: Whitman era uma figura já importante das letras norte-americanas, enquanto Doyle possuía uma educação básica; o bardo de Brooklyn tinha mais do dobro da idade do jovem; o primeiro era um pacifista, o segundo combatera no exército confederado, durante a sangrenta Guerra Civil (1861-1865), que opusera o Norte ao Sul esclavagista. Houve, por certo, desentendimentos e atritos entre ambos, como registaram os biógrafos: Whitman achava desagradável, por exemplo, que Doyle gostasse demasiado de mulheres, e entristecia-se por notar o pouco apreço que reservava à poesia (Oliver, 2006: 278-279).
   Contudo, dando razão à sabedoria popular - que afirma que "os opostos se atraem"-, estabeleceu-se entre ambos um sólido afecto, talvez de natureza homossexual (não há qualquer prova concreta disso). Por várias vezes, Doyle referiu-se ao bardo como "affectionate father and comrade", ao passo que Whitman o tratava por "beloved male friend", "darling son" ou ainda "the one I love" (Oliver, 2006: 278). Ao longo de vinte e sete anos, Doyle cuidou do seu companheiro, com desvelo, até à morte deste, em 1892, ficando para sempre associado à figura do poeta.


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 35-36.
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sábado, 25 de março de 2017


   Ao longo dos tempos, as aves têm fascinado os escritores das mais diversas civilizações. Nalguns casos, a literatura popularizou de tal forma um pássaro que este ficou para sempre associado a um poema, lenda ou narrativa. Poderá um leitor culto contemplar um rouxinol sem evocar o seu canto melancólico em "Ode to a Nightingale" (1820), de John Keats (1795-1821)? Ou assistir ao esvoaçar sinistro de um corvo, e não pensar no poema "The Raven" (1845), o mais célebre de Edgar Allan Poe (1809-1849)? Ou deleitar-se com a majestosidade serena de um cisne e não tecer semelhanças com "The Wild Swans at Coole" (1919), do Prémio Nobel William Butler Yeats (1865-1949)?
   No texto "Com as Aves, desde Idanha", incluído em As Afluentes do Silêncio"  (1968), Eugénio de Andrade (1923-2005) partilha com o leitor a paixão pelos pássaros:
"Não admira que alguns dos mais belos poemas de sempre tenham sido escritos para aves. Dou exemplo: a cotovia de Shelley, o rouxinol de Keats, o corvo de Edgar Allan Poe, o albatroz de Baudelaire, os cisnes de Mallarmé e de Yeats, o melro de Stevens, o pardal de William Carlos Williams, Às vezes é só um verso que fica a pairar no nosso espírito, como esse chamamento do tordo através da névoa, do Eliot; ou o rumor de asas desses pássaros de Juan Ramón Jiménez, que "cantam e cantam" no mais invisível dos ramos; mas como enriquecem a nossa vida... (Andrade, 1997:190)"
   À galeria de autores mencionados poderia facilmente acrescentar-se o nome de Eugénio. Mais do que qualquer outro poeta português, este é o escritor das aves, "que tantas vezes fazem o ninho/ nos (...) versos" (Andrade, 2005: 538). Pela sua obra esvoaçam bandos de andorinhas, melros, cotovias, rouxinóis, gaivotas, etc. De ramo em ramo, de canto em canto, de poema em poema, estes pássaros personificam qualidades, muitas vezes nobres, e assumem diversos cambiantes de pureza e desejo (Ferraz, 2004: 21). O autor lê, na migração das aves, um reflexo da efemeridade (Andrade, 2005: 417, 523), ou um desafio à morte, pela renovação da natureza (Andrade, 2005: 76, 561) (...)
   O poeta de Póvoa de Atalaia serve-se destas aves para evocar, intertextualmente, pássaros idênticos, que cantam nos textos dos autores que estima e reconhece como influência literária.. (...)
   William Shakespeare constitui um autor incontornável não apenas da literatura isabelina, mas também das letras universais, graças ao seu génio e proficuidade. O poeta, dramaturgo e actor legou-nos três extensos poemas, com destaque para The Rape of Lucrece (1594); cento e cinquenta e quatro sonetos, entre os quais o célebre "Sonnet 18 (Shall I compare thee to a Summer's day?)", uma das mais belas composições de amor algum dia escritas; e trinta e oito peças, onde se incluem Romeo and Juliet (1594-5), Hamlet (1600-1) e The Tempest (c. 1611), populares tanto entre a elite como junto do vulgo.(...)
   A importância de Shakespeare e este seu apreço pelas aves não passariam despercebidos a um escritor culto como Eugénio (...)
   Trata-se de uma alusão óbvia à primeira grande tragédia de Shakespeare, conhecida em todas as culturas, acerca do amor proibido entre os filhos de duas famílias rivais: os Capuletos e os Montagues. O passo em que a cotovia canta ocorre no final de primeira noite de casados entre os jovens, decorrida no quarto de Julieta (...) Neste excerto da tragédia, o canto da cotovia anuncia simultaneamente a madrugada e o fim da noite de amor dos apaixonados(...) Este afastamento entristece, como é óbvio, a jovem, que associa o piar da ave à separação: "Some say the lark makes sweet division;/ This doth not so, for she divideth us" (Shakespeare, 2007: 717). (...)
   Trata-se de uma das mais célebres e melancólicas cenas de despedida da literatura universal, marcada pela tensão entre os amantes que desejam permanecer nos braços um do outro, mas sabem que é preciso partir; e permeada pela multiplicidade de significados contraditórios da aurora: tempo de início e de perda; de frescura e do fim da virgindade de Julieta; de consumação do amor e do adeus (Carey, 1997: 37).


  Mancelos, João de. O Marulhar de Versos Antigos, A Intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa: Edições Colibri, 2009, pp 15-20.
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sexta-feira, 24 de março de 2017


    Para Nussbaum, o que deverá ser sublinhado é a dimensão cognitiva da literatura (ao contrário da história que apenas procura relatar o que sucedeu), a abertura para novas possibilidades ontológicas que o dizer literário possibilita: "As Aristotle observed, it is deep, and conducive to our inquiry about how to live, because it does not simply (as history does) record that this or that event happened; it searches for patterns of possibility - of choice, and circumstance, and the interaction between choice and circumstance - that turn up in human lives with such a persistence that they must be regarded as our possibilities. And so our interest in literature becomes (...) cognitive: an interest in finding out (by seeing and feeling the otherwise perceiving) what possibilities (and tragic impossibilities) life offers to us, what hopes and fears for ourselves it underwrites or subverts" (Nussbaum, 1990: 171). ´É na terceira parte do seu ensaio que Nussbaum se detém com maior detalhe no conceito de "Perceptive Equilibrium". Reportando-se ao conceito de "reflective equilibrium", cunhado por John Rawls em A Theory of Justice, Nussbaum afirma que aqui estamos perante uma condição a que chegamos quando aplicamos um juízo intelectual de um modo consistente e desprovido de tensão (poderíamos afirmar em clave derridiana que aqui estamos a falar de lei e não de justiça); as condições que aqui estão em jogo prendem-se com os seus princípios, que deverão ser gerais na forma e universais na sua aplicação, públicos e disponíveis a todos; deverão impor um ordenamento geral nas reivindicações que se opõem, devendo ser encarados como finais e conclusivos.
   Um dos aspectos decisivos que marcará a argumentação de Nussbaum é a importância que a autora de The Fragility of Goodness concede às emoções - valorizando esta que percorrerá a sua obra como um basso continuo. Nussbaum manifestará a sua desconfiança perante o carácter assepticamente universalizante e abstracto que tal julgamento inevitavelment produz, procurando antes celebrar a relevância dos sentimentos e a centralidade da imersão contextual do hic et nunc particular da condição de cada sujeito (...)
   Justamente aquilo que a autora procurará defender é que, em muitos casos, as emoções poderão constituir um guia seguro para um juízo mais correcto, sendo que as formulações gerais e universais poderão ser inadequadas perante a complexidade de situações particulares, de tal modo que juízos particulares, imersos num contexto específico, poderão exibir um valor moral de que juízos com um pendor mais reflexivo ou geral se encontram destituídos. É nessa medida que a autora preconiza o 'perceptive equilibrium', corporizado pela personagem Strether, e que constitui uma resposta àquilo que é novo e que lida com os particulares da existência (...).
   A tematização deste conceito-chave permite-nos centrar a nossa atenção sobre a relação entre leitor e percepção moral. A trama narrativa de que se serve o romance, cultiva a nossa capacidade de contemplar e de valorizar a dimensão particular da existência, a invenção do absolutamente singular numa certa postura derridiana de paixão pela aporia do impossível (...). O romance, de acordo com o postulado de Nussbaum (e aqui a autora reporta-se a James), propicia uma imaginação vigilante e responsável ("responsive", com os seus ecos steinerianos) que diligentemente se detêm em cada singularidade irredutível.
   Também no Capítulo VI da sua obra mais recente - Not for Profit, Why Democracy Needs the Humanities, intitulado "Cultivating Imagination: Literature and the Arts", Nussbaum discute a importância daquilo a que chama imaginação narrativa (...). Nussbaum refere o caso do filósofo John Stuart Mill que, muito embora tendo tido uma extraordinária educação na sua infância, não tivera oportunidade de cultivar os seus recursos emocionais e imaginativos. Tendo sofrido uma depressão na sua vida adulta, Mill considerou que a sua recuperação se ficou a dever à influência exercida pela poesia de William Wordsworth; mais tarde, esclarece Nussbaum, Mill desenvolveu uma perspectiva daquilo a que chamou a "religião da humanidade", baseada no cultivo da simpatia que houvera deslindado através da sua experiência da poesia, Nussbaum chega a utilizar a formulação "empathetic imagination" (...). Cultivar a imaginação de acordo com a expressão de Nussbaum, tendo como horizonte último a amplificação de uma Poética da Obrigação - tal é. parece-me, uma das mais importantes lições que a reflexão de Nussbaum nos lega.


  Soeiro, Ricardo Gil. A Sabedoria da Incerteza, Imaginação Literária e Poética da Obrigação. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015, pp 39-43.
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