sexta-feira, 25 de maio de 2018


A Câmara Municipal de Castelo Branco e a Junta de Freguesia local acabam de criar o PRÉMIO INTERNACIONAL DE POESIA ANTÓNIO SALVADO, pelo que apresentaram à imprensa, no passado dia 24, todos os dados relativos ao referido Prémio:
- as inscrições dever-se-ão efetuar de 25 de maio até 31 de agosto do presente ano;
- as obras deverão ser originais e cada autor só poderá concorrer com uma obra;
- serão premiadas duas obras: uma em língua portuguesa e outra em língua espanhola:
- o Prémio terá o valor de 2.500E e haverá a doação de 30 exemplares do livro vencedor, em versão bilingue;
- o Júri do presente Prémio é constituído por onze nomes ligados à Poesia e/ou à Cultura: Alfredo Pérez Alencart, poeta, ensaísta e Professor da Universidade de Salamanca, será o presidente do Júri e os outros membros são: Fernando Paulouro das Neves, Rita Taborda Duarte, Victor Oliveira Mateus, Paulo Samuel, José Pires, Manuel Nunes, Maria Barata, António Pereira, António Cândido Franco e Enrique Móran.
.
Para mais informações consultar as entidades referidas.
.
.
.

quarta-feira, 23 de maio de 2018


                                          Libérame Dómine


Salva mi corazón de la tristeza, de la memoria de ese muchacho que ve alejarse el humo de los barcos y fluye en él la compasión. Líbrame de los que viajan, del puríssimo hilo que une la yema de los distantes, de la abeja y su hélice, de todo lo que derramado en miel se esparce en mi alma como una estela de leche.

Líbrame del mar, de ese mar que soñé como un bosque sin pájaros, de las voces que oí, el grito de la luz al romperse las lámparas y el estambre de nácar con que la tañedora de arpa roza la libélula verde de la que manan los sueños.

Y huya también mi corazón de los camarotes de plata, del gesto de la institutriz que va atenta al centauro, que va atenta al deseo cuando el marabú de la noche extiende sus sedas sobre los cuerpos desnudos, sobre los cuerpos con fiebre como jardines dormidos, vigilantes los ojos que solo ven en lo oscuro la curiosidad de su anhelo: el vaho caliente de la sangre de um cisne.

Sálvame del filo de sus párpados muertos, del crótalo sin labios que oiré toda la muerte, que oiré toda la vida tallado en maravilla porque hay obscenidad en mi alma y otros meteoros y hay presentimiento, rosas de calcio debajo de la nieve, geodas con el pétalo auroral de la Luna, ángeles de cera derritiendo cuchillos.

Salva mi desolación de esa certeza, de la viudez y su hebra de oro con la que bordarás esta sábana. Y así, por el cristal de lo que hierve sin término, vendrán a mi corazón todas las cosas, el gamo que engendra bajo los racimos de hielo y luego, desciendo a los pastos, instaura el rito de la primavera; el ánade que en la viitrina de los taxidermistas tan desesperadamente respira lo último de su música; la jaula vacía del bisonte, los ojos desbordados de ese niño que perdido por el laberinto de los zoológicos conoce por primera vez la angustia y se sobresalta y huye de un relàmpago que no lo persigue.

Líbrame del silencio, salva mi soledad de esa sombra perfecta, porque bajo las constelaciones los amantes se envían cartas y escarcha y métodos para el amor, y se escriben palabras indescifrables y tienen presencias y revelaciones, y y esa tinta los humedece de lágrimas y los hace ser tristes y vagan por los parques, en la docilidad, tras el júbilo.

Hasta que una mañana no regresan del Pataíso, y en la casa de huéspedes la sirvienta, al descorrer los visillos, descubre el vacío y grita y da grandes aullidos filológicos y se produce entonces el florecimiento de la poesía.

Líbrame, sálvame de la claridad sobre las láminas de la escritura.


  Mestre, Juan Carlos. La Poesía Ha Caído En Desgracia. Madrid: Calambur Editorial, 2014, pp 134-135.
.
.
.

terça-feira, 22 de maio de 2018


         Começar uma estrada


Eras tu que confundias o fundo
dos jardins com os vasto perfume
de uma estrada. A paisagem entretanto
libertava-se como uma espécie de segredo
que efervescesse num copo de água
e apesar do tempo severo das partículas
nós víamos de facto começar uma estrada.

Pergunto-me o que fizemos desses dias
alugados a uma melhor desconfiança,
o que foi que em nós escolheu
envelhecer sem ambição,
onde é que a noite parou de crescer,
em que consiste a música extrema
dos desembarques.

No fim, as flores aprenderam a prolongar
o frio das estátuas. A estrada perdeu-se
como alguém tinha previsto que o universo
se perderia se fosse por de mais escrutinado.
Os dias devoraram a paisagem.

E inadvertida, a tristeza afundou-se
no coração do matagal.
.
.
.
 Domingues, André. Tempestade das mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, p 60.
.
.
.

     Os teus retratos


Fecho os olhos e descubro.

Há um secreto odor de lobo por todo o lado
onde o amor cresceu contra a espessura
de um destino.
Há um idioma repulsivo como uma manta de retalhos
uma mágoa navegável, uma máquina de culpa.
Há uma voz do avesso e uma música
irrefreável que pulsa.

O dia é trânsito absoluto. Oração sem luz.
A pobreza extrema de uma fábula.

Agora sei: o estranho costume de sofrer por ti
deixou-me puro. A dor, entretanto, foi perdendo
o pormenor. O mundo elidiu o alívio.
A casa tornou-se parte do pó.

Já não há história, mas uma máscara
que flutua sobre a fama dos despojos.
Já não há pureza na página,
no tempo, na conjugação.

Chegarei a ti com a convicção lenta dos crepúsculos
suportando uma moldura de instantes desarmados.
Chegarei sem saber como saciar a minha chegada.

Chegarei a ti inútil como a morte.
Com a calma delirante de um fracasso.
Sem fogo nem perguntas: nos lábios
apenas o grito branco de uma praia.

E tu dirás o quanto o silêncio te pesa
entre as rosas e as falsificações.
E no meio das tuas mortes predilectas
eu vou outra vez erguer a voz.
E só então a noite suspenderá
os teus retratos.


 Domingues, André. Tempestade das Mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, pp 25-26.
.
.
.

segunda-feira, 21 de maio de 2018



jamais retornarás por estes ínvios atalhos
como um noctívago tropeçando o sonho
pois há no teu corpo um casulo com olhos
velando irremediavelmente em ti o canhu

chama-se casa e com ela uma vela piscando


  Okapi, Sangare. os poros da concha. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 53.
.
.
.

indelével é a concentração da matéria estelar
e não sei que paralaxes de corpos o anunciam

oh elocução do vento desvairando a erva eriçada
com os poros abertos convocando para cerimónia
quero os amuletos e os seus nsopes na voz rouca
da língua incitando a saliva onde desaguar o beijo


  Okapi, Sangare. os poros da concha.  Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 21.
.
.
.

domingo, 20 de maio de 2018


             Retorno


Meu erro é meu caminho. Duro
é esta consciência larga, esta
nítida visão das horas frias.
Pois não durmo: recordo.
E é voraz a noite da memória.

Paisagens nítidas estão feridas
por meus olhos - cactus - incuráveis.
E é daqui que me tomo
(ou retomo)
                para trilhar-me.

Que o tempo são meus caminhos
e eu sobre eles, lembrado. Eu e meus vários
que as lembranças retomam: um
é remorso, outro é menino, outro viajou
e não retornou da viagem...

Uma tarde, há muitos anos, fiquei sozinho
e sorri: o tempo (então deus imóvel)
ligou em mim suas máquinas:
o tempo com seus traumas, obscuros
mapas, seus cães.

E me perdi.
E em saudades me multipliquei,
senti sonos, desejos, projetei, construí.
Sim, uma tarde, há tantos anos,
e me negociei com meus enganos. Ali.


 Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 110.
.
.
.

sábado, 19 de maio de 2018


      A mão no escuro

               1


Amargo ser este meu nome
de outros nomes ferido,
amargo este meu ser
         de corpo e dilemas.
Pois evadido de mim, fora de ti
nem aqui nem onde havia infância
desabitado
visito as ruínas mitológicas
eu que não passo de ruínas
e te asseguro:
nenhum passado conta minha história.

Do que fui ao que deixei de ser
há mil substitutos provisórios
que me negam
qualquer lugar nos mapas ou no tempo.

E no lamento das brisas, e no vapor
das máquinas
me entreponho com minhas ilusões
e gravemente me deixo devassar:
caixa de Pandora reaberta,
nucleares demônios.

E me retomo.
De onde jamais fui me retomo:
um rosto composto de migalhas,
retalhos de verdade e sentimento,
tédio no escuro: aqui recomeço.


 Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 74.
.
.
.

Tudo é silencioso
e a noite

é urgente o silêncio
é urgente ouvir os pássaros
ao longe

escutar as coisas simples
a respiração do mar
os ritmos da manhã
as pequenas rotinas
o trânsito nas cidades
o sol que sobe sobre os campos no verão

é urgente escutar estar atento olhar
assistir com serenidade
aos ciclos à espontaneidade
ordenada da vida


   Esteves, Rui. Poemas. S/c.: Edição do autor, 2017, p 21.
.
.
.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Pré-publicação


(Por ocasião do recente lançamento no Brasil do livro O Evangelho Segundo Lázaro, a Revista Pessoa publicará, dentro de dias, uma conversa de Richard Zimler com Victor Oliveira Mateus. A Revista Pessoa, de Cultura e Literatura, é uma publicação brasileira muito difundida no mundo lusófono.)
.
Richard Zimler é um escritor norte americano naturalizado português, nascido em Roslyn Heights, Nova Iorque. Formado em Religião Comparativa pela Universidade de Duke (1977) e mestre em Jornalismo pela Universidade de Stanford (1982), Zimler radicar-se-ia em Portugal em 1990 - tendo depois obtido a nacionalidade portuguesa em 2002 -, país onde tem desenvolvido uma atividade plurifacetada: docente na Universidade do Porto, argumentista para cinema, literatura infantil, etc., mas é sobretudo como romancista que o seu nome tem vindo a alcançar uma incontestável projeção. Da sua obra literária, sobejamente premiada, ressaltam títulos como: “O Último Cabalista de Lisboa” (1996), “Goa ou o Guardião da Aurora” (2005), “Os Anagramas de Varsóvia” (2009), “O Evangelho Segundo Lázaro” (2016). O seu último romance, agora publicado no Brasil, deu azo à conversa que se apresenta aqui entre o poeta Victor Oliveira Mateus e o romancista Richard Zimler.

VOM – Os seus romances colocam em lugar de destaque a relação do homem com a Cultura, bem como a História, contudo, esta última não se restringe a uma função puramente descritiva, nos seus romances. Pensa que falar do Passado, ou dar dele uma interpretação própria, é importante para compreender o Presente e, em certa medida, projetar uma certa visão do Futuro?

RZ – Adoro escrever sobre o passado, em parte porque é um desafio enorme perceber a maneira de pensar de pessoas que viveram há duzentos anos ou mil anos e transmitir essa compreensão numa narrativa emotiva e inteligente. No caso do meu primeiro romance, “O Último Cabalista de Lisboa”, tive de entrar na pele de Berequiais Zarco, um jovem judeu que vivia em Lisboa no princípio do Século XVI. Ao fazer a pesquisa para o livro – durante um ano inteiro – descobri que Berequias e os seus familiares nem sempre teriam partilhado a nossa perspetiva sobre as questões mais importantes da vida: por exemplo, o que acontece depois da morte, ou qual a relação entre sexo e amor, ou ainda qual a função da religião numa dada sociedade. Gostei muito da experiência de contar uma história do ponto de vista de alguém muito diferente de mim e achei fascinante tentar conta-la fiel aos valores e crenças de uma outra época, e, ao mesmo tempo, fazer despertar emoções fortes no leitor actual – conseguir criar uma relação afectiva e complexa entre um residente de São Paulo, por exemplo, e um jovem lisboeta que teria morrido há quinhentos anos. Aprecio muito quando me cruzo com um desconhecido numa rua de Lisboa ou do Porto e ele me agradece ter escrito um romance e diz ter adorado dado narrador e dadas outras personagens, porque a magia profunda de um romance reside na sua capacidade de estabelecer uma empatia entre o leitor e uma personagem e através dessa relação fazer com que alguém examine o seu passado e o presente numa perspetiva diferente. Penso que um autor com talento consegue fazer isso, porque as emoções são universais e quase intemporais. Digo quase, porque ao fazer a pesquisa para “O Evangelho Segundo Lázaro” descobri, por exemplo, que a honra era, há 2000 anos, um sentimento ou valor crucial e hoje em dia, no Ocidente, praticamente esse valor desapareceu. Mesmo assim, temos amplas provas da existência de sentimentos como o amor, a paixão, o ciúme, o ódio e grande parte de outras emoções no “Velho Testamento” e em livros muito antigos como o “Asno de Ouro”, do autor romano Lucius Apuleius. E temos provas também de que as consequências destas emoções – desde a amizade à traição e à crueldade – eram tão comuns no tempo do Império Romano como hoje em dia, basta pensar no assassinato de Júlio César e na própria crucificação de Jesus. Por isso, um bom romance histórico pode obrigar o leitor a pensar em assuntos muito actuais. No meu novo romance, as personagens debruçam-se sobre a repressão da mulher, e sobre a discriminação de pessoas com diferentes crenças. Daí a ligação com o futuro a que o Victor se refere, porque, no caso de vários livros meus, o narrador deseja um mundo mais justo e luta para atingir esse objectivo. Em “O Evangelho Segundo Lázaro” existe um desejo enorme por parte deste e de Jesus de renovar o mundo, de obrigar os Romanos a deporem as armas, de criar uma sociedade baseada na compaixão e não na dominação. Isso é muito claro no “Novo Testamento”, nos Evangelhos Gnósticos e é ainda hoje o desejo de muita gente. Quando é que iremos conseguir um mundo igualitário baseado na solidariedade? Quantos milhões de pessoas mais terão de morrer para vivermos todos livres de perseguições?

VOM – Em “O Evangelho Segundo Lázaro”, romance agora publicado no Brasil, as personagens são cuidadosamente caraterizadas, e estou a lembrar-me de Anás, o antigo Sumo Sacerdote, das irmãs de Lázaro, do relacionamento de Lázaro com Jesus. Poderemos dizer que a sua obra romanesca tem também por função, entre muitas outras, esmiuçar valores e comportamentos do mundo contemporâneo, no caso agora referido o fanatismo e a relação com o corpo?

RZ – Um dos propósitos do meu romance era devolver a Jesus e às outras personagens o seu judaísmo. Daí o uso dos nomes hebraicos no livro. Jesus chama-se Yeshua ben Yosef (Yeshua filho de Yosef) e Lázaro é Eliezer ben Natan. Para mim, isso era absolutamente necessário, não só para melhor reflectir a realidade, pois todos eles eram judeus e Jesus era, de facto, um pregador, um curandeiro e místico judaico,  mas também porque queria libertar o leitor actual das suas imagens e ideias feitas sobre todas as personagens, incluindo o Sumo Sacerdote e os colonizadores romanos -  e queria também libertar-me dos meus próprios preconceitos! Por isso, não decidi nada sobre o enredo do livro ou sobre os relacionamentos entre as diferentes personagens antes de fazer a necessária e intensa pesquisa. Comecei a escrever sabendo, embora de forma ténue, o que ia acontecer nos primeiros dois capítulos, mas não tinha qualquer ideia do resto da narrativa. Gosto de trabalhar assim! Adoro descobrir o que o romance “quer ser” e prefiro ser eu a seguir as minhas próprias personagens. Neste caso, ao usar o nome Yeshua ben Yosef em vez de Jesus, senti-me completamente livre da iconografia e da doutrina cristãs. Penso que o leitor vai descobrir esta mesma liberdade ao ler o livro, vai poder examinar os actos e palavras de Yeshua de um ponto de vista novo. O relacionamento entre Yeshua e Lázaro é, de facto, o aspecto mais importante do livro, digo na narrativa que o amor e a cumplicidade entre os dois é tão forte que é como se habitassem juntos uma ilha imaginária. Penso que isso funciona como um poderoso símbolo da união entre ambos. Ao criar este relacionamento entre os dois amigos, claro que insinuava também que todos nós temos a possibilidade de desenvolver uma amizade profunda e duradoura. Felizmente temos a capacidade de amar incondicionalmente!, porque a vida seria muito mais dura sem isso. E deu-me muito prazer escrever sobre este aspecto tão importante da vida,  aliás, já tenho 62 anos e não quero desperdiçar o meu tempo explorando temas superficiais, quero escrever sobre o que é verdadeiramente essencial – o significado de uma vida individual, por exemplo, ou o sacrifício que um amigo poderá fazer por outro. Penso que ao debruçarmo-nos sobre a relação de Lázaro com  Yeshua, bem como, sobre as relações de Lázaro com os seus filhos,  o leitor vai ser obrigado a pensar na sua própria vida, nos momentos de ternura, de revelação, de sacrifício. Uma ideia muito presente na mente do Lázaro é a necessidade de viver as suas amizades com intensidade e autenticidade, mas infelizmente ele vive numa época e num lugar, onde isso  lhe pode trazer enormes riscos. Há também outro momento crucial no livro: é quando ele tem de escolher entre a sua profunda devoção a Yeshua e a sua própria segurança, bem como a da sua família, já que estou a falar de autenticidade, gostaria de citar uma das resenhas do livro que saiu em Portugal. A autora escreveu: “E o trecho, quase no final do livro, em que Lázaro vai descrevendo o Calvário, possui tal intensidade que o sofrimento de Jesus é transmitido ao leitor com uma violência que espelha a dor de Lázaro, o qual, em agonia, imagina que vai beijando e tocando em Jesus para ‘saber onde ele começa e termina, porque só conhecendo essas coisas desaparecerão as fronteiras entre nós’”.
O Victor  fala do corpo, eu penso que é um elemento que sempre foco nos meus romances históricos, porque as personagens que os habitam têm de ter experiências corporais marcantes para convencer o leitor de que são pessoas reais. No caso de “O Evangelho Segundo Lázaro”, não só tentei devolver às personagens o seu judaísmo, como também as suas sensações. Foi muito importante “insuflar” as personagens com vida, torná-las tão sólidas e complexas como nós, daí o destaque que dei aos sentidos na narrativa, sobretudo o olfacto, porque são os cheiros, como nós sabemos, que estão mais intimamente ligados às nossas memórias.

VOM - O romance de que estamos falando, apresenta-nos um narrador (Lázaro) através de um escrito para o seu neto Yaphiel, nessa longa carta Lázaro vai, não só descrevendo uma época, mas também narrando o que foi a sua convivência com um dado amigo de infância chamado Jesus. Para Lázaro, Jesus não é o filho unigénito de Deus, no entanto, ele tem certos poderes, tem uma relação privilegiada com o sagrado. O Richard, enquanto autor do romance, crê que Lázaro tem uma visão absolutamente precisa acerca de quem é, ou de quem não é, esse seu amigo?

RZ - Sim, penso que Lázaro compreende Yeshua muito bem, embora, como qualquer pessoa, a perspectiva dele seja muito influenciada pelas suas emoções, neste caso pelo amor e respeito, ou seja, ele percebe muito bem que a sua perspectiva não é objectiva, mas também não quer ter de manter qualquer objectividade! Quem quereria manter-se a uma fria distância de um amigo num momento crucial da vida, quando ele está a correr riscos terríveis e pode ser preso?
Este romance obriga-nos a fazer algumas perguntas: o que faríamos para um amigo amado que está a desafiar pessoas com poder político e económico? Que sacrifícios faríamos para ajudá-lo e protegê-lo?
Lázaro conhece Yeshua desde a infância e decidiu muito jovem não ser um dos seus seguidores. Optou por ser o seu refúgio. Os apóstolos, os doentes e os amigos exigem a ajuda e o apoio de Yeshua, mas Lázaro decidiu não exigir nada, daí ter um papel único na história. É um papel muito desafiador e, por vezes, doloroso, porque não exigir nada de um amigo – não ter esse tipo de expectativas – é muito difícil. Outro elemento importante é a confiança total que Lázaro deposita em Yeshua: vemos isso logo no início do livro, quando Lázaro acorda no seu túmulo sem qualquer memória de uma vida após a morte. Fica muito perturbado e perde a sua crença, mas, curiosamente, não perde a sua fé no amigo Yeshua! Acho que isso reflecte a nossa realidade, pois podemos perder a nossa fé na religião ou nos tribunais ou no mundo da política, mas não perdemos a fé nos nossos grandes amigos. O amor é mais resistente! Penso, de facto, que é a coisa mais resistente na vida.

VOM – O modo cuidado como a intriga é tratada em “O Evangelho segundo Lázaro” leva-nos, por vezes, a encontrar no seu romance momentos de rara beleza e estou a lembrar-me dos encontros de Lázaro com uma das irmãs e com Jesus. São momentos extremamente poéticos! Podemos ainda, neste mundo de hoje tão dominado pelo ter e pela velocidade, manter relacionamentos desse tipo?

RZ – Ainda bem que achou a narrativa poética, porque um dos meus objectivos sempre foi o de usar as técnicas da poesia para dar mais força e beleza ao texto. Uma metáfora bem escolhida, no momento certo, pode atingir-nos de uma forma profunda  e pode convencer o leitor de que está a ser tratado pelo autor como um adulto inteligente e sensível, como alguém capaz de apreciar todas as nuances da língua e todos os sentimentos mais subtis. Sim, a nossa vida quotidiana é dominada pela tecnologia e a velocidade e, nesse contexto, penso que a leitura pode servir-nos de refúgio. Quem abre a capa de um bom romance — e entra por essa porta — vai encontrar um silêncio habitado, um mundo paralelo! E quem não fugir desse silêncio vai recolher benefícios, vai começar a sentir a profundidade da sua própria vida, porque vai ser obrigado a examinar a sua maneira de pensar e vai refletir sobre o seu passado e o seu presente, bem como sobre as suas aspirações para o futuro.

VOM – O tema anterior fez-me lembrar o modo atento como todas as variáveis são jogadas no seu romance, nomeadamente a questão social e ideológica com aqueles famintos todos à porta de Lázaro à espera de uma bênção ou a arrogância de Sallustius, o áugure de Pilatos. Houve uma intenção do autor de mostrar, na teia narrativa, o papel dos diversos estratos sociais: os que nada têm, os donos do poder, os fanáticos, etc.? Sentiu a necessidade de mostrar todos esses intervenientes?

RZ - Sim, a minha intenção dominante era criar uma Terra Santa de há dois mil anos, realista e fascinante, evocando não só as diferenças entre essa sociedade e a nossa, mas também entre as diversas comunidades,  de criar uma província remota do Império Romano, uma Judeia onde o leitor encontrasse o bem e o mal, o sublime e o cruel, a traição e o sacrifício, porque o mundo à nossa volta sempre incluiu tudo isso. Precisava também de criar uma Terra Santa cheia de contrastes, porque Yeshua, como curandeiro e pregador conhecido, teria lidado com todos os estratos sociais desde os leprosos aos sacerdotes.
O áugure de Pilatos, Sallustius, deu-me uma oportunidade de explorar um tema que me interessa muito: a crença das pessoas do passado em todo o tipo de presságios. Os romanos, gregos, judeus, fenícios e outros povos da Terra Santa partilhavam essa maneira simbólica de pensar. Nessa época, tudo à sua volta — uma tempestade, o voo de um pássaro, uma doença de um familiar — era interpretado simbolicamente, tudo o que acontecia estava repleto de significado. No caso de Pilatos, temos documentação incontestável que indica que os oficiais romanos não tomavam qualquer decisão importante sem consultar o seu áugure ou arúspice, por isso, Sallustius terá tido uma influência sobre os destinos de Yeshua e Lázaro. Ao longo de toda a narrativa do livro, exploro o pensamento simbólico e examino como é que teria influenciado os actos das personagens. Na minha perspectiva, é um aspecto do livro particularmente misterioso e empolgante.

VOM – Por fim, e isto é mais um desabafo do que uma pergunta: o Richard Zimler é hoje um nome grande do romance português, não lhe parece que a difusão da sua obra, bem como a de outros autores portugueses, romancistas e poetas, não tem a difusão no Brasil que deveria ter, aliás, o mesmo sucedendo com imensos autores brasileiros completamente desconhecidos em Portugal? Não será que as Revistas de Cultura, no presente caso a “Revista Pessoa”, têm vindo a desemprenhar um papel importante?

RZ - Concordo consigo e acho muito estranho e triste que não haja um maior conhecimento da literatura brasileira em Portugal e da literatura portuguesa no Brasil. Não compreendo a falta de interesse, talvez porque sou americano e nos Estados Unidos lemos muita literatura inglesa, irlandesa e indiana, aliás, consideramos os grandes romancistas britânicos, como Jane Austen ou Charles Dickens, uma parte da nossa herança também e muitos escritores americanos modernos têm um enorme influência na Grã-Bretanha: Philip Roth e Saul Bellow, por exemplo. Neste contexto, quero contar uma breve história: quando saiu no Brasil o meu romance “A Sétima Porta”, a minha editora na altura pediu-me citações da imprensa que pudesse usar na capa ou contracapa da edição brasileira. Respondi: “óptimo, porque tenho citações espectaculares dos jornais e revistas portugueses!” E a minha editora, numa voz particularmente áspera, disse: “não queremos citações de Portugal, queremos dos Estados Unidos ou da Inglaterra”! Aquela resposta deixou-me muito perplexo, claro. Já estive no Brasil várias vezes para promover livros e, embora não o conheça bem, penso que muitos brasileiros dão grande destaque à cultura americana e respeitam tudo o que sai nos Estados Unidos, ao passo que menosprezam os produtos culturais de Portugal. Em Portugal, a situação não é muito diferente, mas é ainda mais curiosa, porque a música brasileira é muito apreciada, mas não a literatura. Parece-me isso lamentável, em parte porque os escritores contemporâneos brasileiros utilizam a língua portuguesa muito criativamente, inventam palavras novas e jogam com expressões antigas, dando-lhes nova vida.  A minha teoria é que sentem mais liberdade do que os escritores portugueses, mais livres das regras tradicionais. É maravilhoso!
Como o Victor diz, penso que as revistas culturais, como a “Revista Pessoa” podem desempenhar um papel decisivo neste contexto, porque podem divulgar obras desconhecidas e muito valiosas. Temos de criar um público que não esteja tão interessado na origem geográfica do autor, mas muito mais na sua qualidade.
.
© Copyright de Richard Zimler
© Copyright de Victor Oliveira Mateus
© Copyright de Revista Pessoa
.
.

quinta-feira, 17 de maio de 2018


         Grito

Não. Não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária.
Definida.

As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo.

Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.

Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.

Serei eu mesma.
Estarei inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada
de amargor.

Não. Não irei sem grito.

Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras -

que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.


 Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, p 245 (Organização de Alice  Campos Moreira).
.
.
.


      O vento bate na porta
.
.
O vento bate na porta
e eu, que te espero, me engano.
Fico às vezes quase morta,
com medo de um desengano.

Desço escadas. Subo e desço.
- Quem virá antes de ti? -
Este mal eu não mereço,
pois já de tudo sofri.

O meu sonho cresce e aumenta.
Cria asas. Sai à rua.
A noite está sonolenta.
Viajo da terra até à lua.

E vou seguindo teus passos.
E tu nem sonhas sequer.
Corto o corpo em mil pedaços:
sou nuvem, vento e mulher.

Por que estás tão pensativo,
caminhando sem parar?
Da inquietação o motivo
ai! procuro adivinhar.

Essa rua está escura,
como as idéias que levas.
A minha grande amargura
vestiu a noite de trevas!

Pára um pouco. Estou cansada.
Aqui há um banco - "Não sentas?" -
Vamos ver a madrugada
e as horas fugirem lentas.

Se o frio castigar teu rosto,
sou nuvem: Farei um manto.
Não terás nenhum desgosto,
nem um motivo de pranto.

Se precisares de ar,
sou vento brando e amigo.
É um repouso este lugar.
Descansa aqui neste abrigo.

Depois virá a madrugada.
Tu poderás regressar.
Ficarei triste e calada,
como uma rua ao luar...


 Ripoll, Lila. Obra Completa. Porto Alegre: Editora Movimento, 1998, pp 80-81 (Organização de Alice Campos Moreira).
.
.
.


    Espiral de Vida


Decir para vivir,
vivir para decir,
y después de haber dicho
volver a desdicir-se.


  Sysmo, Heberto de. Maldito y Bienamado Bibelot. Tenerife: Baile del Sol Ediciones, 2017, p 63.
.
.
.


       Caligrafía oculta


Entre los versos
arden palabras libres
nunca escritas.


   Sysmo, Heberto de. Maldito y Bienamado Bibelot. Tenerife: Baile de Sol Ediciones, 2017, p 49.
.
.
.

quarta-feira, 16 de maio de 2018


     Eram dias de pássaros aninhados


eram dias de pássaros aninhados
no beiral dos meus olhos

era a casa pequena
os olhos capazes de se lançar como pássaros
a partir das janelas

os barulhos mentais
escoando pouco a pouco para outro lugar

estava livre
afinal
para receber o sol

sol pescado na aurora
e trazido à tona em rede de trinados

a porcelana trincada do tímpano
novamente se fazia fino couro de tambor

havia uma primavera
trabalhando em cada árvore


  Proença, Ruy. Visão do Térreo. São Paulo: Editora 34, 2007, p 65.
.
.
.

quinta-feira, 3 de maio de 2018



                     19


... uma ave que tenha voado mais alto
sempre terá onde ir morrer,
de encontro ao céu
ou às tuas mãos plenas de abertura...


Carita, Fernando Eduardo. Estância & Deixamento. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 57.


                       81

... para onde agora desviar o olhar
se nada há que não sejam ainda os seus olhos?...


    Carita, Fernando Eduardo. Estância & Deixamento. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 68.
.
.
.

quarta-feira, 2 de maio de 2018



Arden las amapolas que cortamos,
húmedas y lozanas todavía,
en la tarde de abril.

Arden las mariposas de la noche,
que sacuden sus alas
tratando febrilmente de librarse
del polvo de los días.

Arden los desayunos de París,
el fragor de las voces encendidas,
Víctor Hugo y el barco del Califa
tejiendo olas de plata por el Sena.

Arden noches de amor, los ventanales
abiertos de septiembre;
arden los ecos del Mediterráneo,
tan lejos de la arena.
Tantos días robados.
Las mañanas sin luna
arden como los hijos de la noche.
Los poemas azules. Arde el tiempo,
el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo, el tiempo,
el sutil tintineo de las copas
y el ruido de las sábanas.

Arde la construcción de la belleza,
milímetro a milímetro;
la emoción que estudiamos
con ansia de arquitectos.
Arde el jazz, tanto jazz en los vibrantes
volcanes de la piel.

Arde la furia extraña de las horas
que todo lo destruyen:
las ansias de revolución, los celos,
las cabezas cortadas en la tarde
donde al fin recobramos la inocencia.
Arde la vanidad, palabra por palabra,
en una inmensa hoguera que se alza
más allá de la altura de los hombres...

Y a pesar de las llamas, en el aire
ni rastro de ceniza:
tan sólo esta verdad que no se extingue.
Que no se extingue, no, que no se extingue.


   Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 47-48.
.
.
.

terça-feira, 1 de maio de 2018

.
.
.

Sabía que esos ojos albergaban
alfileres de fuego,
como una acupuntura milenaria
donde nace el rocío,
en los últimos racimos de las horas.
Maldita la belleza
que se viste de luz y nos confunde.
.
Sabía que esos ojos encendían
mil cristales de sal
en la frontera misma de los labios,
devorando la carne y la inocencia
del corazón bilingue de la noche.
Maldita la belleza
que nos aturde con su terciopelo.
.
Sabía que esos ojos conjuraban
exorcismos de lluvia,
aderezando las ansias de verano
con el compás abrupto de una nota
de saxo curvilíneo
en un cuerpo sin norte.
Maldita la belleza
que nos embarga el alma y la extravía.
.
Sabía que esos ojos restallaban
un castigo de látigos sin sangre.
La afrenta poderosa de los dedos,
del que dejó su rostro en el camino
y se puso la máscara
lasciva de la fiesta.
.
Maldito todo pulso
que no se deje clavar en la locura
como una mariposa
cuyo único destino
fuera morir libando el néctar de la noche.
.
Bendita la belleza que regresa
hasta el primer albor de la inocencia.
.
.
Aganzo, Carlos. Las voces encendidas. Madrid: Visor Libros, 2010, pp 33-34.
.




Sessão no Salón de Actos del BBVA em Valladolid,
 28 de outubro de 2017.

segunda-feira, 30 de abril de 2018


   Alguns meses mais tarde, o rei escreve ao seu antigo conselheiro num tom menos caloroso para o atrair à Corte e parece que lhe fez também propostas financeiras. Mas se Montaigne está pouco disposto a servir, está menos disposto a que pensem que se vende. Orgulhosamente, escreve ao rei: "Eu nunca recebi quaisquer vantagens materiais dos reis, muito menos recompensas que nunca pretendi nem mereci e muito menos ainda qualquer pagamento pelos passos que dei ao serviço de Vossa Majestade... Eu sou, Sir, tão rico quanto o desejo." Sabe que teve êxito naquilo que Platão disse uma vez, que não há nada mais difícil no mundo do que deixar a vida pública de mãos limpas. É com orgulho que faz o balanço da sua vida (...)
   Pouco tempo antes da morte, os mais altos dignitários convidaram-no, o que ele não deseja nem espera. Quando se sente velho, quando é apenas um reflexo, uma sombra de si próprio, foi-lhe dado o que não esperava há muito, um raio de ternura e de amor. Ele dizia com melancolia que talvez só o amor o pudesse ainda despertar.
   E eis que o inacreditável acontece. Uma jovem, Marie de Gournay, um pouco mais velha do que a mais nova das suas filhas que ele acaba de casar, pertencente a uma das melhores famílias de França, apaixona-se pelos livros de Montaigne. Ela ama-o, idolatra-o, encontra nele o seu ideal. Em que medida este amor não era somente dirigido ao escritor, mas também ao homem, eis o que é difícil concluir, como sempre acontece em casos semelhantes. Mas Montaigne vai muitas vezes encontrá-la, está meses junto dela, no castelo da família, nos arredores de Paris, a sua "filha de aliança". Confia-lhe a mais preciosa herança: a publicação dos Ensaios, depois da sua morte.
   E agora só lhe falta conhecer uma última coisa, a morte, ele que estudou a vida e experimentou de tudo. Morreu sabiamente como tinha vivido. O seu amigo Pedro de Brach escreve a Antony Bacon dizendo que o senhor de Montaigne - aquele que foi o espírito mais completo que jamais existiu - "teve uma morte serena, depois de uma vida feliz" (....)
.
.
. Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 90-91.
.
.
.

domingo, 29 de abril de 2018


   Sempre e em qualquer lado, Montaigne procurou a liberdade e a renovação, mas a família também ela é uma prisão, o casamento uma monotonia e além disso, tem-se a perceção de que não foi plenamente feliz na sua vida familiar. "O casamento" pensa ele, "tem em si legitimidade, utilidade, estabilidade e honra: é algo de trivial e de universal." Ora Montaigne é o homem da mudança, ele nunca amou os prazeres comuns universais.
   De formas diversas, repetiu que o seu casamento não foi uma união de amor mas de conveniência e, na sua opinião, este tipo de união é a correta, precisando que apenas se sujeitou a um "hábito" (...).
   Depois das suas experiências com Xantipa, Sócrates não podia falar de casamento da maneira mais crítica: "Não dês importância aos seus olhos com lágrimas" nem à sua voz piedosa. Parece que estamos a ouvi-lo dizer à própria mulher, no momento da despedida: "Uma mulher não deve ter os olhos tão avidamente fixados no marido que não possa suportar vê-lo virar as costas." Quando, por acaso, evoca um bom casamento, apressa-se a acrescentar a restrição: "Se é que os há!"
   Vê-se que os dez anos de solidão foram agradáveis mas agora já chega, é até demasiado. Montaigne parece estar entorpecido, ter-se tornado mais magro e mais pequeno e, se alguém lutou toda a vida contra a imobilidade foi ele, por certo. Com aquele instinto que sempre dita ao homem criativo quando deve mudar de vida, reconhece que esse momento chegou: "O melhor tempo de abandonar a família é quando se tiver feito tudo para que continue sem nós. " (...)
   Um novo período começa. A 22 de junho de 1580, depois de um retiro voluntário de dez anos - Montaigne nunca fez outra coisa senão a sua livre vontade -, aos quarenta e oito anos parte para uma viagem que o afastará, durante quase dois anos, da família, da torre, da pátria e do trabalho mas reaproximá-lo-á de si próprio.
.
.
  Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 73-74.
.
.
.

sexta-feira, 27 de abril de 2018


   O ambiente político está de novo agitado. Uma vez mais, os protestantes pegam em armas e aproxima-se a noite de S. Bartolomeu. Como o seu amigo La Boétie, Montaigne concebe a sua atividade política como um exercício de conciliação e de tolerância. O seu temperamento faz dele o mediador nato entre as partes e a sua verdadeira atuação na vida pública consiste em negociar acordos. A França deve ser huguenote ou católica? (...) Montaigne é o inimigo declarado de qualquer responsabilidade. Quer sempre escapar a decisões. Sábio numa época de fanatismo, procura a solidão e a fuga. Aos trinta e oito anos Montaigne afasta-se. Não quer servir ninguém a não ser a si próprio. Está cansado da política, da vida pública e dos negócios. É um momento de desilusão. (...) Montaigne não toma atitudes repentinas e que chamem a atenção. Não protesta nem intriga. Quem é ele, na verdade? Tem a impressão de que a sua vida, até àquele momento, foi falsa e agora quer viver de acordo com a verdade e meditar. É nos livros que espera encontrar a solução para o problema "da vida e da morte".
(...) Este adeus deve ser, para ele, mais do que um adeus aos cargos. É uma despedida do mundo. Até então, viveu para os outros, a partir deste momento quer viver para si próprio. Até ao presente, cumpriu o que o seu cargo, a corte e o pai exigiam dele, agora quer fazer só o que lhe der prazer. Depois de acumular experiências é o momento de lhes encontrar o significado e ir ao essencial.
   Michel de Montaigne viveu trinta e oito anos, agora quer saber quem é, realmente, Michel de Montaigne.
(...) O que procura é o seu eu que não pode estar submetido ao estado, à família, ao tempo, às circunstâncias, ao dinheiro, à propriedade; a este eu, a que Goethe chama a sua "cidadela" e a que Montaigne proíbe o acesso a quem quer que seja. Está decidido a refugiar-se neste canto isolado, assim como a afastar-se da antiga comunidade, dos filhos e dos burgueses.
.
.
 Zweig, Stefan. Montaigne. Porto: Assírio & Alvim, 2016, pp 41-43.
.
.

quarta-feira, 25 de abril de 2018


(...) si le déprimé se dérobe au langage, s'il considère le langage comme banal ou faux, comment pourrons-nous entrer en contact avec sa douleur par la parole (puisque c'est avec  la parole qu'opère le psychanalyste)? J'insiste alors sur l'importance de la voix, ou d'autres signes, différents du langage quoique toujours transmis par le langage, qui peuvent devenir notre médiation vers le déprimé. Enfin, il me semble important de montrer aussi combien cet endolori souvent muet qu'est le déprimé est un affectif secret, un passionné sournois ou incompris. La mélancolie serait, en somme, une perversion innommable, blanche. A nous de la conduire aux mots... et à la vie.
(...) le monde moderne - bouleversé, chaotique, saturé de violence et de criminalité - nous le présente quotidiennement. (...) La culture apparaît donc comme un bien précieux, mais combien fugace. Le mélancolique qui refuse la vie parce qu'il a perdu le sens de la vie nous oblige alors à chercher les moyens pour retrouver le sens: entre nous, pour lui, mais aussi pour une civilisation tout entière.Le premier mélancolique grec, Bellérophon, apparaît dans l'Iliade: désespéré, il se consume de tristesse et, abandonné des dieux, ne cesse d'errer en évitant les hommes. Hippocrate, dans sa théorie des humeurs, attribue la mélancolie à la bile noire. Le texte le plus important de l'Antiquité grecque sur le sujet me paraît étre Probleme 30, 1 du pseudo Aristote.
   Il extrait la mélancolie de la pathologie et la voit plutôt comme un état limite de la nature humaine, comme une crise "naturelle" si on veut, révélatrice par conséquent de la vérité de l'être. Le mélancolique serait donc l'homme de génie. Cette conception fascine les philosophes modernes, bien entendu. (...) La dépression est, en somme, au seuil de la créativité. Mais une dépression nommée et, par là même, traversée. (...) En Europe, aux XV et XVI siècles, apparaissent, par exemple chez les poètes, la Dame Mélancolie, et, chez les protestants, une recrudescence du thème mélancolique.(...) La France semble échapper au mal de l'Europe. Je considère en fait que, d'une façon générale, la culture française, au cours de son développement historique, a dépassé, ou peut-être simplement recouvert, le mouvement mélancolique par l'érotisme et par la rhétorique, Grâce à Sade et grâce à Bossuet.
.
.
Kristeva, Julia. Les Abîmes De L'Âme, In magazine littéraire, Octobre - Novembre 2005, Nº 8, pp 26-28.
.
.

sábado, 21 de abril de 2018

    Effectivement, le terme recouvre des réalités fort différentes.(...) qu'on peut distinguer trois significations attachées au mot "mélancolie". D'une part, pour la psychiatrie, c'est une affection grave qui se manifeste par un ralentissement psychique, idéatoire et moteur, par une extinction du goût pour la vie, du désir et de la parole, par l'arrêt de toute activité et par l'attrait irrésistible du suicide. Par ailleurs, il existe une forme plus lègère de cet abattement, qui (comme la première d'ailleurs) alterne souvent avec des états d'excitation, forme dépendante d'états névrotiques et qu'on appelle une dépression. Les psychanalystes ont le plus souvent affaire à la dépression. Enfin, pour le sens commun, pour une opinion diffuse, serait mélancolie un "vague à l'âme", un spleen , une nostalgie, dont on recueille les échos dans l'art et la littérature et qui, tout en étant un malaise, revêt l'aspect souvent sublime d'une beauté. Je rappelle dans mon livre ( Soleil noir, dépression et mélancolie, Gallimard Folio, 1989) que le beau est né dans le pays de la mélancolie, qu'il est une harmonie par-delà le désespoir.
(...) Mon point de départ est clinique. Tout en tenant  compte des observations psychiatriques, je suis très attentive à l'héritage de Freud, d'Abraham, de Klein. Dans Deuil et Mélancolie (1917), on le sait, Freud établit une équivalence entre la mélancolie et l'expérience du deuil: il y a, dans les deux cas, une perte irrémédiable de l'objet aimé - mais aussi secrètement hai -, une impossibilité de traverser cette perte.(...)
(...) distingué les différences entre mélancolie et dépression, je considère qu'il est toutefois possible de parler d'un "ensemble mélancolico-dépressif". Pourquoi? Parce que, par-delà des différences qu'il ne s'agit pas de gommer, on retrouve au moins deux particularités communes. D'une part, le désinvestissement des liens, la coupure des relations. (...) D'autre part, la dévalorisation du langage. Le discours déprimé peut être monotone ou agité, mais la personne qui le tient donne toujours l'impression de ne pas y croire, de ne pas l'habitter, de se tenir hors langage, dans la crypte secrète de sa douleur sans parole. Cet intérêt pour la parole dépressive me semble être mon apport personnel à l'écoute et au traitement psychanalytique de la dépression.
.
.
 Kristeva, Julia. Les Abîmes De l'Âme, In magazine littéraire, Octobre-Novembre 2005, Nº 8, pp 24-26.
.
.
.

quinta-feira, 19 de abril de 2018



           O Anjo de Música

                      I

Quando ficarei eu, por fim, sempre contigo?
Faz já tantos anos que pairas
sobre o mar, sobre mim, debaixo dos céus.
Mas sempre te oiço ao longe, como música.

Hoje esperava-te aqui, junto à rebentação das ondas.
Apercebi-me de um aroma de algas assombrosas
e de um crepitar de conchas na brisa,
mas não te transformaste em Vénus a irromper,
Em outros dias volto as costas ao mar,
percorro os trilhos insondáveis do bosque,
e então, ao longe, brilhas, esvoaças.

Numa qualquer noite haveremos de nos encontrar.
Não sei se neste ou em qualquer outro mundo.
Terás a voz trémula, o pescoço branco,
e o mar, na penumbra, cheirará a flor de laranjeira.
Sonhamo-nos à distância para nos amarmos
e apenas nos amamos sonhando-nos.
Virá a noite em que beijarei este mistério.

Quando não te chamo, vens; se te chamo,
tudo fica noite a ferver em meu cérebro.
Quando serás, finalmente, música alcançada,
milagre de uma luz que se fez humana?
Julgas necessário condenar-te e condenar-me
a ser apenas uma mera música de luz?
.
.
.
  Colinas, Antonio. El río de sombra - Treinta y cinco años de poesía, 1967-2002. Madrid: Visor Libros, 2004, pp 468-469 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
.
.
.

terça-feira, 17 de abril de 2018


   Nenhuma parcela do território nacional tem sido tão rica na História da Poesia Portuguesa como os Açores, lamentavelmente são sempre citados os mesmos três/quatro nomes: Antero, Nemésio, Natália, com um pouco de boa vontade lá se acrescenta Cortes-Rodrigues. Todavia dezenas e dezenas de autores ligados ao dito arquipélago continuam pouco divulgados, alguns deles bem atuais. Este blogue postou já poemas de Eduíno de Jesus e em breve fará o mesmo com José Enes.
   Filomena Serpa (8/8/1861-17/9/1930), contemporânea de Antero (18/4/1842-11/9/1891), tem agora a sua obra (integral) publicada. Influenciada por Garrett, pelo Parnasianismo e mesmo pelo ultra-romantismo ,
Filomena Serpa foi publicando em diversos suplementos literários de vários jornais, contudo, uma mulher dedicada à poesia não era, à época, coisa fácil e disso dá conta a autora no seu longo poema "Porque é que não escrevo". Fica aqui um soneto de 16/05/1897, publicado no jornal A União de Angra do Heroísmo em 16 de agosto do mesmo ano.
.
.
.
         A uma extinta


À medida que o Dante prosseguia
Do paraíso na escensão gloriosa,
Mais e mais peregrina e mais formosa
Via Beatriz - a sua doce guia!

Eu - ai de mim!- ao passo que na via
Que vou seguindo, escura e dolorosa,
Me interno mais, e tanto mais saudosa
A tua imagem santa me irradia.

Como um perfume persistente e brando
Vai-me a tua memória acompanhando
No fatigante e sinuoso trilho...

E em cada dia mais que me decorre
Essa recordação, que nunca morre,
Me reverbera mais celeste brilho!
.
.
   Serpa, Filomena. Poesia. Angra do Heroísmo: Instituto Açoreano de Cultura, 2017, p 108 (recolha de Carlos Enes).
.
.
.

segunda-feira, 16 de abril de 2018



           Pájaro


En el aire
hay un pájaro
muerto;
quién sabe
adónde iba
ni de dónde ha venido.
Qué bosques traía,
qué músicas deja,
qué dolores
envuelven
su cuerpo?
En cuál memoria
quedará
como diamente,
como pequeña hoja
de una selva
desconocida?
Pero en el aire
hay un patio
y una pradera,
hay una torre
y una ventana
que no quieren morir
y están prendidos
de su cola
larga de norte a sur.
En el aire
hay un pájaro muerto.
No sabrá de la tierra
ni de esta mancha
que todos llevamos,
de las máscaras
que lapidan,
de los bufones
que hacen del Rey
un arlequín perdido.
Quién lo guarda,
quién lo protege
como si fuera
la mariposa angélica?
Pájaro muerto
entre el cielo y la tierra.
.
.
  Quessep, Giovanni. Nadie podrá decir que tu reino no existe. Granada: Valparaíso Ediciones, 2015, pp 40-41.
.
.
.

domingo, 15 de abril de 2018


  Quiero apenas una canción
.

Estoy cansado de llamar
a la puerta de los que amo,
mi camino se cubre de violetas
y de sombras perdidas de mi canto.

Se ha ido la estación de la azucena
por la muerte que fue una bella fábula;
ahora nadie me conoce,
todos se alejan de mi alma.

No sé qué camino seguir
ni a quién decirle que me ame,
mis ojos miran la floresta
y estoy cansado y se hace tarde.

Quiero apenas una canción
que me traiga tus manos de hada
una canción para la vida
bajo esta llama de ciprés tan blanca.

Quiero vivir o morir, lo mismo
me debe ser la muerte que la vida.
Quisieras tú decirme la canción
de la esperanza o la desdicha?

Sólo te pido una palabra
y algo del cielo de tu música:
Aguardaré a la sombra de mi otoño
cubierto por las flores y la luna;

Estoy cansado de llamar
pero nadie me abre sus puertas;
acuérdate de mí en la noche
azucena de un valle que perdiera.
.
.
 Quessep, Giovanni. Nadie podrá decir que tu reino no existe. Granada: Valparaíso Ediciones, 2015, pp 32-33.
.
.
.

sábado, 14 de abril de 2018



Queria ser meu vizinho



Queria ser meu vizinho

Nunca fui meu vizinho

Nunca me levei uma garrafa de vinho

Nunca me dei   Bom dia

E aos meus aniversários:

faltei a todos

Também nunca dormi comigo

Mas isso...


  Costa, Tiago Alves. Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela.: Através Editora, 2016, p 54.
.
.
.

sexta-feira, 13 de abril de 2018



A Revista Digital Galega Palavra Comum - Artes e Letras antologiou e publicou ontem (2018-04-12) alguns textos meus.
.
.
A seleção e edição dos textos é da responsabilidade do poeta Tiago Alves Costa.
.
Ver aqui:  http://palavracomum.com/5-poemas-de-victor-oliveira-mateus/
.
.
.

quinta-feira, 12 de abril de 2018


A Revista Digital Argentina La Poesía Alcanza publicitando o meu: Das águas à dança das folhas . Fafe: Editora Labirinto, 2018.
.
Ver aqui:  http://lapoesiaalcanza.com.ar/noticias/4907-poetas-de-america-latina-y-espana-traducidos-al-portugues   
.
.
.
.

terça-feira, 10 de abril de 2018


No pensaba volver a ver en ti la luz,
a ser yo luz de ti fundido entre tus olas,
pero aquí estás, oh mar, arrastrando espumas
por mi piel, enredando rosales en mis brazos.
Encima de tu útero moribundo de azul
no se alzan las antiguas ciudades-esqueleto,
la osamenta amarilla del adobe y la piedra
que el desierto y la Historia despacio desmoronan,
sino que aún florecen bosque y roca sagrados
en las dos verdes islas de Diana enamnorada.
No esperaba esta lluvia de sol sobre la sal,
de sal sobre la luz, sobre el cuerpo arañado
por enebro salvaje, ni el zumo de la higuera
que las olas me llevan, que las olas me traen:
aroma tan violento que la mar no sepulta.
Y, en una nube de oro, los cuerpos se deshacen
en la línea del mar, en la línea del cielo.
Oh el camino fogoso que abrasa la pupila,
el camino que lleva a otra vida, a más vida,
o acaso a la negrura suprema que nos niega.
Pero hoy la primavera aún regresa incendiando
las islas y en la mar crece el fuego con fuerza.
Alguien arroja leña a las aguas e inmenso
fuego envuelve las olas con la tierra y el aire.
Mar de resina el bosque que ha incendiado este mundo.
Todo el mar hecho hoguera y en él flota mi sangre.
Cuando la noche llegue aún arderán arriba
las brasas de los sueños, firmamento de escorias.
.
.
 Colinas, Antonio. El río de sombra - Treinta y cinco años de poesía, 1967-2002. Madrid: Visor Libros, 2004, p 311.
.
.

sábado, 7 de abril de 2018



In Sala de la Palabra, Teatro Liceo de Salamanca,
27 de outubro de 2017.

.
.

    El camino cegado por el bosque

Créeme, no es piedad lo que siento por ti,
ahora que estoy lejos, sino un recuerdo herido.
Por ti y por el camino cegado por el bosque
que no pude seguir aquella noche joven,
perfumada y abierta como el cuerpo de un pino.
No es piedad, sino una sensación de fracaso,
de suave y entrañable dolor que nunca cesa.
Fuiste buena conmigo en mis días de entonces;
me diste cuanto soy; este veneno dulce
que me impulsa a luchar contra el mar, contra el tiempo
y contra el mismo amor de los que bien me quieren.
No es piedad, aún te busco en la noche perfecta,
deseoso, sediento de tus colores ácidos,
de tus estrellas frías, de tus ramas y ríos
helados tras los cielos del más hermoso invierno.
Te lo digo dolido y con los ojos húmedos,
aunque la mente esté segura, serenada:
no te pude tener más cerca, pues mis labios
llegaron a rozar tus nieves, tu horizonte.
No es piedad, créeme; sólo sé que una tarde
avanzada, profunda, descendí de aquel monte
puro y purificado como un fuego de junio.
Creí volver a ti definitivamente
y me encontré el camino cegado por el bosque.

   Colinas, Antonio. El río de sombra - Treinta y cinco años de poesía, 1967-2002. Madrid: Visor Libros, 2004, p 218.
.
.
.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Antonio Colinas recebendo o XXV Prémio Rainha Sofia de Poesia (2016), o maior Prémio para a Poesia em língua espanhola.
.
.
     VI (do ciclo poemático Los Cantos de Ónice pertencente ao capítulo Truenos y flautas en un templo )



Pero tú que has tenido la suerte de escucharme, ven,
verás faroles redondos, amarillos,
temblar entre las ramas,
entre lomas de abetos embriagantes.
Ven niño, amado, hermano de ojos húmedos.
Bajamos hacia el mar y los caminos
mueren en curvas de frescura, en rincones maduros.
Aquí está la casa, el polvo en los armarios.
Sentirás cómo un júbilo extraño te espanta el corazón,
cómo la habitación en sombra huele a humo.
Cada hombre transporta en sí gotas de miedo que siempre se dilatan.
Pero tú que has tenido la suerte de escucharme
verás entre la casa y el mar
los cabrilleantes faroles amarillos sobre las ramas frías,
la brasa de la luna.
Y te harás dios tan sólo por un día.
.
.
 Colinas, Antonio. El río de sombra - Treinta y cinco años de poesía, 1967-2002. Madrid: Visor Libros, 2004, p 128.
.
.
.

terça-feira, 3 de abril de 2018



ama os teus sonhos
como o teu próximo

ou como os sonhos
do teu próximo

mas se o teu próximo
não tiver sonhos

convém mandar o teu próximo
para muito longe

donde não te possa
contaminar


  Vieira, Alice. Olha-me como quem chove. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, p 57.
.
.
.

segunda-feira, 2 de abril de 2018


um dia chamei por ti e
não vieste

estava sentada     como agora
neste velho café de campo de ourique
olhando quem vende sonhos nas feiras
à sombra da maria da fonte e dos velhos
que morrem devagar ao ritmo
das cartas lançadas
sobre os bancos de pedra

e as minhas mãos apertaram com tanta força
as mãos que não havia
que o sangue se espalhou pela toalha
enquanto lá fora um carro travava
porque alguém     tu     quem sabe
se atravessara de repente
no meio da rua

morreu
perguntei
mas os criados não me responderam
os olhos presos no vidro do copo
esmagado entre os meus dedos    e
tomando nota da despesa

mas depressa entendi que
não valia a pena esperar por ti neste lugar
embora todas as árvores tivessem um dia
aprendido os nossos nomes
dando sombra ao que
possivelmente
só elas soubessem que
andaria à deriva pelas nossas vidas

hoje
possivelmente
já nem recordas o caminho
e     de resto     o café está mudado
os velhos falam de futebol
de umas mesas para as outras
e as mulheres vêem nos espelhos
rostos de velhas que desconhecem
e têm     subitamente     muito frio

virá
pergunto eu hoje
nem sei porquê     nem a quem
mas também agora os criados
não me responderam
os olhos mais uma vez colados à mesa
onde em tempos o sangue
escorria dos meus dedos


  Vieira, Alice. Olha-me como quem chove. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 17-18.
.
.



domingo, 1 de abril de 2018


PRÉMIO DE POESIA SOLEDADE SUMMAVIELLE 2018 (Organizado pelo Núcleo de Artes e Letras de Fafe).
.
   O Júri deste Prémio constituído por: Victor Oliveira Mateus, pelo Prof. César Freitas e pelo Dr. Carlos Afonso decidiu atribuir, por unanimidade, o dito Prémio ao livro O Rosto das Metáforas da autoria de Jorge Paulo Pereira. O Júri decidiu, também por unanimidade, atribuir duas Menções Honrosas aos livros: Transfiguração da Fome de Sara F. Costa e Sobre o Prumo das Falésias de Rui Miguel Fragas.
   Todas as obras apresentadas a concurso eram inéditas assinadas por um pseudónimo e sem qualquer elemento identificativo.
.
.
.