sábado, 22 de julho de 2017

boas férias !!!

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   O poema O Canário de Oiro pertence a um dos primeiros livros de Vitorino Nemésio: O Bicho Harmonioso, 1938. Acerca deste poema diz a Profª Drª Fátima Morna: "Qualquer leitor da poesia de Nemésio terá já verificado que é muito forte, nela, a obsessiva tematização do tempo, assumindo as mais variadas configurações e invadindo todos os planos da significação. Basta recordar, como síntese, aquele que o autor considerou o poema central da sua obra poética, O Canário de Oiro, que desenvolve em toda a parte final, até anaforicamente, o verso: O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão. "
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    O Blogue deverá reabrir apenas nos finais de outubro.

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                             O Canário de Oiro

Se deixo entrar este canário de oiro
Que me espreita e debica
(Eu que sou ossos, a gaiola,
Débil passarinho loiro!
Eu, professor, como um menino de escola!)...
Pois sim: Canta. Fica.

E então, para que tudo em mim se honre e execute
(Voz, penas e dejectos
Do canário),
Dou-lhe, seus passeadores, os meus afectos,
As minhas veias duras para grades:
Dentro delas, contrário,
Ele se embeleze e lute.

Ah, que o canário é o meu sangue talvez!

Mas então isto que é? Que violino engoli?
Que frauta rude aveludou a minha noite?
Em que prato de cobre bateu o nó do açoite?
Tão exacto, meu Deus, só vibrado por ti.

Musical, todo fogo, em mim me vou e expando;
Cada lágrima cai de mim como harmonia:
De quatro em quatro, vão a minha dor jogando
Essas lágrimas vãs no tapete do dia.
Que sérias são estas coisinhas de soar,
Poetas que vos is,
Soldados velhos,
Escolhendo na morte uma farda e um lugar!
Somos aqueles imbecis
Desenvolvidos nos espelhos,
Ai nos espelhos paralelos
Da sala onde um de nós é sozinho a cantar!
Estamos fumados, amarelos,
De tanto ler e delirar.

Inúteis fôssemos, poetas.
Quero dizer: como as cascas cor de laranja ou alvas de ovo,
Que não são laranja nem ovo:
Ainda se havia de ver
Se as podridões quietas
Não são o sal e o renovo.

Que águia trouxe do céu meu diapasão de ferro?
Que milhafre criou minha carne em seu bico?
A mão qual foi que me rasgou no erro,
Mulher, o coração que te dedico?

Quem era aquele de quem tirei o sangue forte,
Esta pequena música corrente?
A veia mamou-a a morte,
Que engorda à custa da gente.

Quem era aquela mulher de branco
Que tinha seios fortificados
E o ventre puro de onde arranco
E os altos olhos separados?
A de fogo e de fel, reclusa e encordoada?
A que nunca toquei, porque estava selada?

E o anjo bravo, só lume, o outro sujeito,
Em que chama tocou a sua asa desabrida?
Que maçarico foi que lhe platinou o peito
E o deixou em ferida?

Perguntaria,
Se esfinges mais houvesse,
Em que sal se tornou a que se deu por Maria
E me prometeu o que eu quisesse?

Ah, aves de parabólica plumagem,
Anjos de matéria nenhuma e de toda a arrogância,
Mulheres e homens de que sou a última viagem
Começada no mar que salgou a infância!

Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar!

Ah, Sete Espadas, minhas primas,
Estrelas nítidas e diversas,
Piões, pombas, baraças, e até as Sr.ª Simas
Todas quatro alteando as suas toucas perversas!

Onde? quando já? outra vez? ou ainda não?

O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão.

É ele, é ele o que tem tudo escondido,
Ele o que A desviou e A violou no vento,
Ele o que fez de mim o menino perdido
E me deu a navalha com que me fiz violento!

Ele leva para o alto as cordeiras e come-as,
Ele esconde no vale os lobos reduzidos,
Ele pede-nos as coisas emprestadas e  some-as,
Ele gasta-nos a voz, os olhos e os ouvidos.

Tempo, ladrão, dá-me conta do fardo:
As saudades pràli! as promessas pràli!
O que te vale é o escuro: Eu ainda ardo;
Minhas estopas são embebidas por ti.

Ai, a cordeira preta, a do velo maior,
Um palmo de gemido, onde a terias posto?
Tinha os galhinhos entre a lã: é melhor
Desenriçá-los do meu desgosto.

Tempo, molde de todos os lugares,
Pegada de quem desaparece,
esquema de bocejos e de esgares,
Frio de tudo o que arrefece.

Tempo que levas meu Pai morto,
Com catorze cavalos, todos de músculo solar,
E, para o ano, quinze! e crescendo! e ele absorto!
E os cavalos cada vez mais empinados! Morto...
Com que jarrete ou asa o hei-de eu alcançar?


 Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. I - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1989, pp 136-139 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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segunda-feira, 17 de julho de 2017



     Canção para Rousseau


a cidade tem artérias cheias
de coágulos, seus pulmões
enguiçados sonham nuvens
de fumaça

a cidade pára relógios,
fecha sinais, apaga a luz
para mostrar estrelas,
para dizer que é apenas
uma segunda natureza,
o hábitat daqueles que
não sendo pássaros, sobrevoam casas
não sendo vermes, deslocam-se nos subterrâneos
não sendo ratos, vivem de restos


  Catrópa, Andréa. Mergulho às avessas. São Paulo: Lumme Editor, 2008, p 66.
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domingo, 16 de julho de 2017



Acaba de sair em Espanha, organizada e traduzida pelo poeta e crítico literário Pedro Sanchez Sanz,
a obra "Voces de Portugal, onze poetas de hoy". Segue abaixo a lista dos autores incluidos no presente trabalho:
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ISABEL DE SÁ
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
MANUEL NETO DOS SANTOS
JOÃO RASTEIRO
PEDRO OLIVEIRA TAVARES
JOAQUIM CARDOSO DIAS
JOAO MIGUEL PEREIRA
CLAUDIA SAMPAIO
RICARDO GIL SOEIRO
ANDREIA CRISTINA FARIA
SANDRA SANTOS
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sábado, 15 de julho de 2017


                         Ninho  


Onde estão os versos
que escondem a casa de minha infância,
onde estão?
Não os encontrei
no meio dos prédios
nem no miolo do formigueiro
que apareceu aqui pela manhã.
O quintal era outro,
de que não me lembro.
Talvez tivesse varais,
pássaros, outros formigueiros,
tantas coisas mais
e um certo aroma de musgo.
Era a cozinha que dava para o quintal?
Era a cozinha enorme,
e enorme era Zica,
Zica e seus quitutes.
Foi ela que me passou a mão pela cabeça agora?
Acho que houve gêmeos,
separados por uma lâmina
da qual nenhum verso restou no mar.
Não posso ter certeza,
mas minha avó me visitou à tarde,
leu um livro de presente
e perdi a fome até o próximo.
À noite, o quarto surdo ainda ressoa medos
em algum corredor com o pai
(dele me lembro).
Outro dia, procurava uma rima,
abri a cortina e tomei um susto:
a lagoa virou cimento.
Gritei por meu irmão,
devia estar dormindo
ou meu lamento
não chegou ao seu castelo.
Procurei mais uma semana
pela casa escondida sob versos.
Finalmente amanheceu
e sonhei que ela mudou de cor, de bairro, de século.


   Franco, Rendrik F. Casas Geraes. São Paulo: Editora Iluminuras, 2016, pp 25-26.
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      Motoboy


jovem
saudável
com iniciativa
prestativo
disposto
expedito
bem-humorado
veículo próprio
procura

superior
para lhe
dar ordens
ambíguas
o reprimir
explorar
humilhar
castigar

jovem
e necessitado
(a cidade
não é obstáculo)
pau pra toda obra
faz
tudo

hora extra
trabalho sujo
carrega piano
dá a cara
pra bater


   Proença, Ruy. Caçambas. São Paulo: Editora 34, 2015, pp 87-88.
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     Interrogação


acordo

uma pena
de pássaro
jaz
no chão
ao lado
da cama

então
um pássaro
ocupou
o quarto
na minha
ausência?

ocupou
o lado
esperto
da vida?

ou teria
a pena
se desprendido
                    suor
da companheira
no embate
noturno?


   Proença, Ruy. Caçambas. São Paulo: Editora 34, 2015, pp 72-73.
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sexta-feira, 14 de julho de 2017



                                       agora



nosso mútuo vazio

                              estuário

gerúndio onde a morte devagar se alarga

                             a tua falta farta

                             abismo do silêncio



                            a promessa da palavra

                            asa carnal dos teus ombros



                                                                  és eco sem fim



 Leite, Daniel da Rocha. aguarrás. Belém: Edições do Escriba, 2017, p 67.
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quinta-feira, 13 de julho de 2017

                 
                                 espesso


o teu silêncio

cavalo que avança dentro dos meus olhos

                                                        puro sangue

                                                        esse sólido movimento



                                                       transportar a alma de um morto.




uma

palavra de salvação



caem os pássaros



o

peso do corpo durante o tempo



o

peso da palavra durante o silêncio



eu te olho com o meu sangue



acendes o rio



Leite, Daniel da Rocha. aguarrás. Belém: Edições do Escriba, 2017, pp 18-24.
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terça-feira, 11 de julho de 2017



                            "Poema"


Esta a cabeça em fúria do poeta
como está nas fotografias tiradas de avião
depois de cair em chamas no mar de ninguém

estes dentes
o alfabeto doido com que vai escrever

e aqui está a sua mão direita
estátua de manhã e automóvel à noite
salvo acidente mortal

e eis os seus olhos
peixes verdes sem mar
a sua boca aquela voz horrível no deserto

os seus pés
dois príncipes encantados no palácio dos passos perdidos
antes de encontrar-te     meu amor


Forte, António José. Uma faca nos dentes. Lisboa: Antígona Editores, 2017, p 99.
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segunda-feira, 10 de julho de 2017


         "Memorial"


As tuas mãos que a tua mãe cortou
para exemplo duma cidade inteira
o teu nome que os teus irmãos gastaram
dia a dia e que por fim morreu
atravessado na tua própria garganta
as tuas pernas os teus cabelos percorridos
rato após rato tantos anos
durante tanta alegria que não era tua
os teus olhos mortos eles também
na primeira ocasião do teu amante
assim como as palavras ainda fumegando docemente
sob as pedras de silêncio que lhes atiraram para cima
o teu sexo os teus ombros
tudo finalmente soterrado
para descanso de todos
- mesmo dos que estavam ausentes


    Forte, António José. Uma faca nos dentes. Lisboa: Antígona Editores, 2017, p 36.
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sexta-feira, 7 de julho de 2017



              "O Reincidente"


   Tenho a sensação constante do equívoco, como o ladrar
esquartejado de um cão sobre um fundo de lamentos e
espadas. Assisto, impávido, ao suicídio sumário das horas
que não me pertencem. Às vezes apetece-me encostar um
fósforo aceso ao mundo, mas o mundo despreza esta e outras
formas de sagacidade. Acordo em completo desacordo com a
minha condição. Acordo em consonância com a velocidade
e a desfocagem, como se pertencesse à casta mais baixa de
uma colónia de térmitas. Acordo completamente cego. Sem
asas. Vitalmente imaturo. Predestinado para a concepção
honrosa de túneis, apto para descobrir água e alimento,
sempre com o cuidado de zelar pela alta eficácia do
reino. Acordo, acordo sempre de tudo, mas nunca desperto
de nada.


  Domingues, André. Dramas de Companhia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p 40.
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quinta-feira, 6 de julho de 2017



As últimas palavras que disser
ninguém as vai ouvir,
com tanta gente a morrer ao telemóvel
teclando a solidão viciante.

Estará tudo extinto pela água e pelo fogo,
apenas um homem trabalhará a terra
para que outro a coma

e constituirá um abrigo inútil
para proteger a espécie
da incerteza das placas tectónicas.


   Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 44.
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quarta-feira, 5 de julho de 2017



Fico à mercê dos cliques,
da reacção do sistema,
feito parvo, à espera de um sorriso,
de flores na mão.

Trago comigo um frágil martelo
para destruir uma placa gráfica, um disco rígido,
uma motherboard onde os meus segredos
são guardados de má fé.

E um papel timbrado a preencher de angústia.
E um megafone analógico
para ampliar a minha raiva
por não encontrar uma ave migratória
que me leve na viagem maravilhosa de Nils Holgersson.
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  Ferra, António. Dos livros levanta-se um pássaro. Lisboa: Edição do Autor, 2017, p 32.
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terça-feira, 4 de julho de 2017



      "Nu com colar de coral"


Um lugar de encontro
pode ser aqui, onde me dispo toda.
Aqui entre os lençóis de linho
e o curso do rio que me afoga as coxas.

Vem! Tenho a sombra das tuas mãos
presa no colar que me ofereceste
e pássaros de abrasamento
abrigados no cerco do meu corpo.

Vem! Misturei aromas de chá
e de cânfora no meu hálito e preservo
no olhar a rara planície do desejo.

Quero que me vejas antes que o sol decline
e a mais densa penumbra torne insubmissa
a minha mão tão perto do prazer.


 Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 45.

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segunda-feira, 3 de julho de 2017


             "A ruiva"


Soltaram-se os pássaros vermelhos,
colados em meus cabelos.
Roçaram a sombra dos navios
e voaram, em círculos fechados,
rasando os areais.

Como um esboço de naufrágio
no rosto dos homens
que afagam sempre os filhos
como se fosse a última vez.
Como se, no coração das areias, os ventos
se enrolassem nas dunas em rituais de paixão.

Regressaram, depois, os pássaros vermelhos.
E, lentamente, desalinharam meus silêncios.


   Pires, Graça. Fui quase todas as mulheres de Modigliani. S/c.: Poética Edições, 2017, p 22.
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domingo, 2 de julho de 2017


(Nota: segue abaixo o meu texto de Apresentação do livro nele referido , que decorreu na Sociedade Guilherme Cossoul - Avª D. Carlos I em Lisboa - no dia 26 de junho de 2017, este texto seria depois publicado na "Revista Caliban" a 26/6/2017).
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VASOS COMUNICANTES – ANTÓNIO RAMOS ROSA E GISELA RAMOS ROSA: DISSEMELHANÇAS E CONVERGÊNCIAS.
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     Transcrevo aqui, à laia de preâmbulo, um excerto de uma obra sobre Maurice Blanchot que diz assim: “A experiência do comentador junta-se aqui à do escritor: algo existe para ser dito e que não o foi ainda, mas aquilo que não foi ainda dito, nunca o virá a ser. Encontramo-nos, portanto, nesse espaço onde, como o relembra M. Blanchot, Aquiles jamais alcançará a tartaruga. A expedição do crítico, apesar de aparentemente visar um objetivo definido, se tem algo de cabotagem no lugar onde a obra criativa se ergue enquanto aventura, partilha também com esta última do seu carácter de itinerância. Assim como o escritor, o comentador soçobra sempre com a terra prometida à vista.” (Françoise Collin in “Maurice Blanchot et la question de l’écriture”. Paris: Gallimard, 1986, p 11, tradução minha). Esta citação tem aqui uma dupla função: atenua e desculpabiliza as falhas e imperfeições das notas que aqui avançarei e, por outro lado, refere um autor que António Ramos Rosa gostava tanto de reler e de citar e que, de um modo ou de outro, acabaria de preceder também essas inquirições/viagens que o poeta português sempre retomava nos seus poemas, nas suas traduções, nos seus ensaios.
     O livro que nos ocupa aqui neste texto revela-nos, através do seu título, que estamos perante um recetáculo onde duas vozes poéticas se derramam. Uma leitura apressada poder-nos-ia levar a pensar que essas duas vozes poéticas circulam no território da identidade pura, logo, da cópia, da repetição passiva, da contrafação. Ora, o que uma leitura mais atenta faz ressaltar, é que estamos perante duas vozes, que, no seu diálogo e partilha comum, ou apesar deles, não se despem de aspetos que no seu dizer são essenciais e lhes concedem uma diferenciação recíproca, aliás, Maria Teresa Dias Furtado, no Prefácio deste livro, salienta já, para além “do entendimento poético e humano”, a questão “da proximidade na diversidade” (Cf. p 10). 
   O aspeto do diálogo e da partilha é enfatizado várias vezes por ambos os poetas: “O que eu fiz de mais puro/como uma estrela no ar/(…)/ Foi este livro contigo/que nasceu como nasceu” (A.R.R., 218/1/ 1-2; A.R.R., 218/2/1-2,  a técnica de citação será sempre esta: iniciais do poeta, números de página, de estrofe, de versos); “Contigo a meu lado eu estou contigo” (A.R.R., 214/1/1); “Em teus olhos reais/alcanço o horizonte de um sol” (G.R.R., 196/1/1-2); “percorro as ruas da cidade em busca de um lugar/ sugerido pela flor que me acolhe junto a ti” (G.R.R., 24/1/3-4), todavia, este relacional se apresenta fortes convergências quanto à intencionalidade e à extensão, já quanto à intensão surgem fortes dissemelhanças: a atitude de Gisela Ramos Rosa é sempre a da deferência e do comedimento ante a portentosa figura do interlocutor, isto apesar de uma dedicatória que ousa (Cf. p 28), já António Ramos Rosa não se inibe de, num verso, referir a consanguinidade entre ambos, bem como de recorrer a processos de intitulação (Cf. p 76) e de nomeação submetendo, varias vezes, a este último procedimentos formais como jogos de palavras, assonâncias e rimas internas (Cf. p 72, p 214, p 218).
   Ao nível dos referidos procedimentos formais verificamos uma forte semelhança entre ambos os poetas com a tónica colocada numa certa linearidade discursiva (Cf. G.R.R. 52-53/1-4/1-25) e, por vezes, a sujeição da estrutura poemática a sequências alicerçadas em anáforas (Cf. p 112, 124) ou em jogos de palavras encadeadas e/ou emparelhadas (Cf. p 26). Não é possível também distinguir os poetas quanto à dimensão dos poemas e dos versos, já que ambos usam indiferenciadamente poemas longos e curtos, versos extensos e breves. Será, contudo, no léxico utilizado que aparecerá, embora de modo muito subtil, as variáveis indiciadoras de que para além do extremado afeto e da intensa partilha relacional, poética e sapiencial, dois universos poéticos distintos espreitam, embora respeitosamente se resguardem, já que o momento é de construção no idêntico e não de afirmação do distinto. Ilustre-se isto com os seguintes versos: “Pressinto o som das cores/ quando sinto o jardim que se abre a meu olhar/ e nele descubro esboços de Deus/ na natureza” (G.R.R., 204/1/15-18), não só o termo Deus nunca é referido por A.R.R., como o poeta jamais subordina a Natureza a qualquer entidade que, a nível ontológico, lhe seja hierarquicamente superior, aliás, e apesar de um ou outro título de livro e de um ou outro título de poema, A.R.R. – à imagem de Heidegger, que citava com frequência – colocava a sua escrita aquém da pergunta pela divindade: “O poema dirige-se para o segredo do oriente/ interrogando as coisas imediatas e simples/(…) situando o texto formulado/ numa galáxia informulada” (A.R.R., 182/2/ 1-7), o fundamental – e fundante – no poeta era a linguagem e, mais especificamente, a linguagem poética e a construção do poema no seu diálogo sempre retomado com o mundo natural e humano. A própria consanguinidade acima referida está subordinada aos elementos do mundo natural: “Minha estranha estrela consanguínea/ em quantas estrelas brilhas/ pela janela do teu sangue/ és filha do vento e de um grão de terra/ e da febre de um instante de alegria/ sobre uma onda do mar” (p 122). Mas as dissemelhanças ao nível semântico parecem escapar ao diálogo poético, sem que os próprios autores pareçam disso aperceber-se: por duas vezes G.R.R. usa a palavra “templo” (Cf. p 44, p 84) e a sua incursão no pictural, embora seguindo de perto A.R.R. (as árvores, as pedras, os rios, o branco, o azul, o verde…), por uma vez se distancia dele: “o poema destina-se ao lilás de um encontro” (G.R.R., 96/1/2) através de uma cor que tem uma simbologia própria em dadas formas de religiosidade. Assim, se A.R.R. mantém à distância a problemática teológica, optando por uma sacralização do mundo natural, algo situada entre as várias formas de panteísmo e as visões mítico-mágicas (seria interessante, por exemplo, que alguém fizesse um estudo intertextual das poesias da António Ramos Rosa e de Dora Ferreira da Silva, poeta brasileira que não me consta que ele tivesse lido), já Gisela Ramos Rosa tende para uma atitude mais radical; dito de outra forma: se em A.R.R. há uma comunhão com o mundo natural que é da ordem do sagrado, em G.R.R. tende-se, não para uma comunhão, mas para uma fusão (ou um apagamento em?) com esse mesmo mundo: “vou pelos reflexos das imagens que me chamam/ e a lei não encobre a claridade do dia” (G.R.R., 128/2/1-2); “Senti as raízes do infinito/ nesse arco onde o tempo tece a passagem/ e as correntes abrem os caminhos” (G.R.R., 62/1/1-3).
     Para concluir, direi que é este entrecruzamento de convergências e dissemelhanças, que acaba conduzindo os dois intervenientes deste diálogo poético a uma outra posição relacionada agora com o conceito de “aberto”, que surge à saciedade neste livro e que não apresenta qualquer conotação teológica, como em autores declaradamente cristãos, veja-se, por exemplo, a posição do filósofo e teólogo ortodoxo Jean-Yves Leloup (Cf. “L’enracinement et l’Ouverture”.Paris: Albin Michel, 1995) onde o encontro e o diálogo com o outro e o diferente são tão-só um meio para “abrir” uma via mais larga e mais luminosa para a divindade. Em “Vasos comunicantes” o “aberto” surge invariavelmente associado à apreensão do outro nas suas múltiplas formas: “O Aberto não esconde o que tu vês/ nem o que tu não podes ver/ tu vês e respiras com todos os teus sentidos” (A.R.R., 68/1/1-3: Cf. também páginas 77, 132, 140, 166 e 198), em última instância o aberto é o que, de desvelamento em desvelamento, me faz aceder à linguagem e faculta a construção do poema: “ na casa o silêncio é um lugar que conquista/ as portas que se abrem para o corredor/ e ao fundo entro na portada que me leva/ à espiral da linguagem à suspensão do tempo” (G.R.R., 140/4/1-4), porque, acima de tudo, o que vinca esta obra é o entendimento da poesia e do poema (“O poema é uma teia/de que aranha de que areia/ que se desfaz e se tece/ e se inflecte como uma carícia” A.R.R., 118/1/1-5) e uma profunda comunhão da intimidade, que, vendo bem, é igualmente poesia (“ O teu sorriso é sempre um rosto/ que desenha o nosso encontro” G.R.R., 132/3/1-2).
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Mateus, Victor Oliveira. Revista Caliban, 26 de junho de 2017.
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sexta-feira, 30 de junho de 2017



"A utilidade da competição"


Uma voz anuncia o repto:

O último a chegar ganha

os competidores hesitam

O último a chegar ganha

a voz repete-se e a confusão mantém-se sobre os competidores

O último a chegar ganha

então todos começaram a correr mas sem saberem como ganhar


Costa, Tiago Alves, Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 109.
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quarta-feira, 28 de junho de 2017


"Das nove às seis da alegria triste"


Eu queria ser um fiel cumpridor das minhas funções.
Eu queria ser um trabalhador obediente.
(Das nove às seis da alegria triste)
Eu queria tomar o meu café à hora certa com os amigos que tracciono.
Eu queria ser um criminoso honesto funesto doméstico homem
Um homem: eu queria ser um homem.
Deixar fazer a digestão do almoço que detesto.
E celebrar as vitórias do meu clube que não tenho.
E ser feliz com a função que odeio:
empregado das horas - das nove às seis da alegria triste

Mas nem isso consigo.


Costa, Tiago Alves. Mecanismo de Emergência. Santiago de Compostela: Através Editora, 2016, p 35.
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segunda-feira, 26 de junho de 2017


Oiço-te através de uma janela de mulher
recebo o fruto dos teus dedos dos teus olhos
do subtil grito da tua língua
transparece o azul
num país de um pássaro branco

És tu o teu sangue límpido
enevoado como um trémulo fruto
és tu no espírito de delicadeza
e a tua sede de rapariga e o teu nome
Como um pássaro de uma só nota pura
é o ar num verão de cinza
és uma estranha estrela estrangeira na minha vida
Ah! que fineza formal
de deslumbrada tristeza
ou de alegria ferida pelo fulgor de uma pedra


 Rosa, António Ramos e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 30.
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domingo, 25 de junho de 2017



A simplicidade chega
sem a virtude de uma inteligência afirmativa
mas simples
eu não posso compreendê-la

Vejo-a como uma expressão pura e livre
como uma planta uma andorinha ou uma estalactite
um pouco trémula no instante de nascer

Ó ternura de um primeiro arbusto
de uma primavera antiga


  Rosa, António Ramos Rosa e Gisela Gracias Ramos Rosa. Vasos Comunicantes. S/c.: Poética Edições, 2017, p 174.
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sexta-feira, 23 de junho de 2017




Chegamos ao fim do dia e cada um
pensa para seu lado que isto não
é vida, deixámos na terra os habituais
sinais com tanto de amor como
de desespero e, de mãos vazias,
de coração ainda com alguma coisa
mas quase vazio, batemos com a força
que nos resta, pela última vez, à porta
das sensações e a porta das sensações
abre-se-nos muito devagar
para uma esplendorosa noite cinzenta.


   Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016, p 61.
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quarta-feira, 21 de junho de 2017


Semente alada, borboleta de terra
e curta viagem. Que aterra num sítio
à escolha do vento, tal como nós,
que nos encontrámos quando se formou
um remoinho ao mesmo tempo,
no mesmo lugar, onde cada um
do seu lado do passeio ia a passar.
Deve ser a isto que se chama
o mais puro acaso, o remoinho
chupou-nos para dentro, éramos
do género de não querer assim
muito movimento nas nossas vidas
e por isso tem sido um pouco, não
sei que palavra hei-de escolher, um
pouco aborrecido termos sido obrigados
a mover-nos no meio da sua espiral.
Caiu de cinco metros a semente
alada, quando olhei saía-lhe
de dentro um veneno arroxeado.


  Pereira, Helder Moura. Golpe de Teatro. Porto: Assírio & Alvim, 2016,  p 54.
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segunda-feira, 19 de junho de 2017

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No próximo dia 24 (sábado), pelas 18:00H
Victor Oliveira Mateus, Luís Filipe Pereira e Virgínia do Carmo
falarão da nova edição do livro Vasos Comunicantes (Poética Edições).
obra da autoria de António Ramos Rosa e de Gisela Ramos Rosa.
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Local: Sociedade Guilherme Cossoul
Avª D. Carlos I, 61 - 1º, 1200-647 Lisboa
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domingo, 18 de junho de 2017


Escuta:
este é o som falível
das minhas asas,
partindo-se.

Aí mesmo,
onde se tocam,
bem ao de leve,
abrigos e remorsos,
somos levados a aprender
como se emendam conjecturas,
i.e., arquitecturas movediças.

E, porque ainda me resta
a sabedoria dos ausentes,
decido voltar ao que,
afinal, sempre terei sido:
este arquipélago de sombras
em farrapos e feridas em surdina.

Transformo-me em insolente
desperdício de quimeras,
em jeito de banal esboço,
desenhado a contrapelo.

Não conheço melhor
destino do que este:
ser vagabunda bússola,
ansiando o imortal ardor
de murmúrio nenhum.


 Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, pp 57-58.
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sábado, 17 de junho de 2017


O compromisso é para com
esta minha língua de fogo.

Sabes,
bastaria uma palavra.

E não é que,
sem que nada
o fizesse prever,
dás sinal de vida?

Dizes que estás quase a partir,
pois tudo é prece descabida,
apenas tendo tempo
para alegações finais.

Em minha defesa
direi apenas isto:
pretexto injusto
seria acusares-me
de não saber amar
convenientemente
o mais impuro dos dons:
pluma/solitária/perdida.

Com proveito discutível,
seria esta uma desmedida
declaração de abertura.

Mas que sei eu de compassos
e destes desacertos sincopados?

De elipse em elipse,
a queda é a cadência mais fiel.


   Soeiro, Ricardo Gil. A Rosa de Paracelso. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2017, p 17.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017



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Memória e saudade:

um clip que acabo de descobrir no Youtube: no dia 11 de setembro de 2009, um grupo de amigos reunia-se no piso superior - o do bar - da então Livraria Trama, para falar do novo livro de Rui Costa, "As limitações do amor são infinitas". Aqui estão o Fernando Esteves Pinto, a Inês Ramos... e eu, sempre contestando a questão das vanguardas, sentado lá para trás. Só agora percebi : o Rui Costa respondendo ao Fernando Esteves Pinto, baixinho e já perto do final do vídeo: "Se não leste o Victor Oliveira Mateus, podias ter lido." Não conhecia nada disto! O Rui Costa viria a suicidar-se três anos depois (em 2012), nas águas do Douro. Lembro esta noite... com saudade!

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quinta-feira, 15 de junho de 2017


O Prof. Dr. A. P. Alencart da Universidade de Salamanca dá uma entrevista ao jornalista Borja Domínguez,
aqui:  http://salamancartvaldia.es/not/152040/alencart-poesia-anibal-nunez-trasciende-rencillas-localismos/

Nesta entrevista o Prof. Alencart fala do XX Festival Iberoamericano de Poesia, que este ano será dedicado ao poeta espanhol Aníbal Núñez (1944-1987), menciona ainda, relativamente às representações dos vários países, os autores de língua portuguesa - entre os quais eu me incluo - que estarão nos diversos eventos que integrarão este Festival Literário.
Convém acrescentar que serão lançados, nesta semana, vários livros, dos quais destaco:
a Antologia "Explicación de la derrota" com poemas do próprio Aníbal Núñez e dos poetas que participam no Festival, dedicados ao homenageado. Esta obra monumental terá a Coordenação do próprio Alencart. Pela mesma altura será apresentada uma outra Antologia (" Raíz de piedra y Letras"), esta agora dedicada à cidade de Salamanca. É uma obra bilingue, que eu tive a honra de Coordenar e de fazer a tradução de alguns poemas, acompanhado por uma preciosa equipa que engloba: Jacqueline Alencart, Pedro Sanchez Sanz, Marta López Vilar e Rogério Viana.
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quinta-feira, 1 de junho de 2017


A Feira do Livro de Lisboa é sempre uma oportunidade para fazer compras, para rever amigos, para estabelecer contactos, para debates, lançamento de livros, conversas, etc. Pois bem, no próximo dia 3 (sábado), pelas 19:00H, cabe-me a mim estar no Pavilhão da "Coisas de Ler Editora", juntamente com outros autores que têm publicado nesta Editora.
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quarta-feira, 31 de maio de 2017


http://www.crearensalamanca.com/poemas-portugueses-para-gloria-fuertes-en-su-centenario-salvado-oliveira-mateus-barata-martis-y-aroso/


O portal CREAR EN SALAMANCA editado por José Amador Martín, na sua edição de hoje - 31/5/2017- publicou os poemas-homenagem a Gloria Fuertes escritos pelos autores portugueses: António Salvado, Albano Martins, Victor Oliveira Mateus, Maria de Lurdes Gouveia Barata e Eduardo Aroso na tradução de Alfredo Perez Alencart.  Os referidos poemas constam do último número da revista "El Cobaya"..
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Como não devem conseguir entrar pelo link daqui, entrarão, seguramente, por qualquer outro lado  :)  , porque eu vou continuar a procurar a minha pausa...
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domingo, 28 de maio de 2017

O novo livro de Ronaldo Cagiano.


SOCIEDADE E ÉTICA NA POESIA DE RONALDO CAGIANO

                                                                                                             
        O presente livro de Ronaldo Cagiano, Observatório do Caos, apresenta-se-nos como um olhar meticuloso e arguto não só sobre o homem nas suas diversas mundividências, mas também sobre a sociedade que o cerca e que ao poeta se mostra recorrentemente como um território polimorfo, ardiloso e que, o mais das vezes, ameaça aquilo que no ser humano faz dele algo singular e único neste planeta em que fomos chamados a estar.
A observação em torno do social é sempre uma observação situada no espaço e no tempo: “Já não se fazem revoluções/como antigamente/nesse tempo de ilusões famintas/e utopias sem destino” (pág. 5); “A vida decomposta por Chronos/como aquelas árvores depiladas/no inverno de Munique/ou o velho esmolando às margens do Tibre:” (pág. 33). Daqui ressalta que o Observatório em que o poeta se coloca para olhar, inventariar e recusar o Caos que o cerca é sempre: marcado pela temporalidade e liberto de todos os paradigmas metafísicos, aliás, esta recusa das interpretações metafísicas do real concreto perpassa toda esta obra de Ronaldo Cagiano (Cf. pp. 12, 42, 78…) prosseguindo a asserção estabelecida por Fernando Pessoa/Álvaro de Campos no poema Tabacaria (Cf. Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1980, pp. 252-259). O propósito de dialogar, enfatizando ou ilustrando outros autores, é comum a este livro de Cagiano, assim como a toda a sua obra poética, elucidando a tese de que o poeta não é um ser isolado, mas antes percorre um trilho juntamente com aqueles que o antecederam e  também com os seus contemporâneos com quem vai constantemente estabelecendo istmos e pontes (Cf. poema Altares in O Sol nas Feridas. São Paulo: Dobra, 2011, pp. 86-90).
O Caos a que Cagiano se refere neste livro e que conduzirá inevitavelmente o homem contemporâneo a uma ruela obscura e sem saída pretende ser uma resposta ao célebre Poema do Beco de Manuel Bandeira (Cf. Manuel Bandeira in Antologia Poética. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1982, p. 87), beco este que surge ao longo de todo este livro (Cf. pp. 12, 47 e 86). Poder-se-á então dizer que estamos perante uma apreensão essencial do poeta, que é também um projeto dialógico e estruturante de todo este livro: por um lado o dissecar acusatório de um sócio-cultural que se desmultiplica depois nas suas diversas vertentes (religiosa, económica, estética…) - sem jamais entrar em panfletarismos ou terçar armas com alvos de dúbia significação -, por outro, o pressuposto de que este trabalho é feito e constantemente retomado numa partilha salutar com outras vozes poéticas:

                Penso em Florbela Espanca
                em Jean Cocteau, em Hilda Hilst,
                em Dora Ferreira da Silva
                na incontida Orides Fontella
                nesse horizonte de espantos
                e nenhum milagre
                onde tudo fede a terror

                e exala ambiguidade.

                                                        (p. 85).

Acrescente-se ainda a título de exemplo, dois outros excertos de poemas cujos autores e dizeres desembocam nesse cadinho que se apresenta como o eixo central do presente livro:

                               Trovões invadem
                               casas
                               coisas
                               quebram
                               louças gráficos
                                                               vidros.

                               Anulam o supérfluo: articulam
                               um campo para o destino.

(In Orides Fontela, Poesia Reunida 1969-1996. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, p. 161); e ainda:

                               Neste terraço mediocremente confortável,
                               bebemos cerveja e olhamos o mar.
                               Sabemos que nada nos acontecerá.

                               O edifício é sólido e o mundo também.

                               Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
                               labutando em mil compartimentos iguais.
                               Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
                               e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
                               o que é privilégio dos edifícios.

                               O mundo é mesmo de cimento armado.

(In Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 41).

A presença de Carlos Drummond de Andrade é um marco fundamental no que diz respeito ao suportar do mundo e ao incentivo para uma ação transformadora do real que ao poeta compete através da sua arte (Cf. pp. 47, 64, 77, 100…). Outra presença emblemática neste livro de Ronaldo Cagiano é a do poeta Mia Couto quer através de epígrafes (Cf. p. 79), quer encetando um diálogo direto com seus poemas ou versos (Cf. p. 52).
                No Caos do mundo que Ronaldo Cagiano do seu Observatório vai vendo ganham particular relevo os aspetos económicos, ecológicos (“Sou aquele que navega/desde as ínfimas encostas/do barrento rio Pomba/desde o leito assoreado/do acossado Meia Pataca/à imensidão de Tabatinga/ao sol possível da praia do Jacaré.” p. 84), políticos (Cf. p. 66) e religiosos, nestes últimos, embora sem deixar de fustigar as religiões mais ortodoxas (Cf. p. 3), são especialmente visados os cultos fanatizados e anestesiantes como por exemplo o dos evangélicos (Cf. pp. 14, 23, 73…) por darem aso a atitudes irracionais e robotizadas propagadoras de uma “fé demencial” (Cf. p. 66) onde se enraízam todos os assassinos da liberdade formadores de normas e modelos comportamentais próprios do rebanho e da massificação acrítica. Aqui, Cagiano não nos deixa quaisquer dúvidas quanto à sua recusa das conceções estético-literárias anódinas e/ou emasculadas, por conseguinte, ele não só zurze todos os que intentam conduzir-nos para uma infra-humanidade, como enumera e estabelece analogias: há, para o poeta, uma similitude de essência entre tudo o que concorre para o aniquilamento da nossa liberdade, daí a correspondência entre as ferozes ditaduras do século XX, a retórica acrobática e milagreira dos evangélicos e aqueles que em Paris tentaram sufocar, assassinando, a liberdade de pensamento e de expressão (pp. 66 – 67). O Observatório do Caos não fornece a Cagiano um luminescente otimismo nem um edulcorado olhar que se abra a um futuro necessariamente promissor, antes pelo contrário, aquilo que do seu posto o poeta retém condu-lo a um desalento (“Cataguases sem festa, dos silêncios, das ausências./ Das imensas crateras na alma de seu povo. “ p. 21; “Em mim/ permanece uma constelação/ de vazios/ uma coreografia de varizes” p. 37)) eivado muitas vezes pela dor e pelo desespero (Cf. p. 39) a que a revolta não é alheia. Destas constatações através das quais se movem “homens domados e sem horizontes” (Cf. p. 50) surge, ao longo deste livro, a imagem do jardim - e aqui é impossível não nos lembrarmos do final de Candide de Voltaire e da necessidade de cuidarmos do nosso jardim -, pois, a função do poeta é, para Ronaldo Cagiano: a observação do Caos, a inventariação dos seus elementos, a sua descrição e o lançar das sementes de uma qualquer ação redentora geminada com a palavra insurreta e libertadora da poesia. A observação do Caos anteriormente referida não é provocada ou de cariz científico-laboratorial, nem tão-pouco contingente e acidental, ela é uma observação diária e invasiva, pois é através dela que a existência se nos impõe de chofre e de modo iniludível metaforizada na imagética do já referido jardim:

                                Jardins desidratados
 sustentam caules transgênicos
 e a minha inquietação
                               não tem a potência atômica
capaz de dinamitar o caos

                                                                 (p. 49)

e também:

 No insondável abismo
 nenhum sol espreita
 a última lágrima secando no escuro.
 O mundo em derredor
 é um festim de anonimatos
 enquanto dura a vertigem
                               do homem sem fé.
 Em sua alma,
 a única verdade
 é o jardim de bactérias
                               em que se transformou sua vida,
 esquelética como a esperança
 que o desabita.

                                                                              (p. 82)

                Chegado a este ponto desta leitura crítica de Observatório do Caos é-me pertinente enfatizar duas aporias esparsas nesta obra e nela deixadas deliberadamente insolúveis por Ronaldo Cagiano: primeiro, o livro aparece-nos como um olhar clarividente e desenganado sobre o Caos que envolve o poeta, contudo, em certos momentos da obra, este acena-nos com uma ou outra fresta de uma luminosidade possível, embora só suscetível de ser concretizada através do amor (“Mas no muito que sofrer,/com seu amor/tudo rechaço.” p. 59; “Pois/na noite insolúvel/atravessamos de mãos dadas” p. 68); esta tese de uma negritude absoluta mas que nunca é totalizadora e acaba deixando, em raros momentos, uma nesga para uma eventual reabilitação do acontecer, surge-nos já em obras anteriores do poeta: “Como a ave mitológica,/cada dia renasço/das próprias cinzas./Reinvento o calendário/pra rea(s)cender a minha vida.” (In Canção dentro da noite. Brasilia: Thesaurus, 1999, p.31). O segundo aspeto prende-se com a questão da inexistência de Deus e, mesmo assim, haver a possibilidade da fundamentação de uma Ética, ora, em Observatório do Caos,  Ronaldo Cagiano avança com a insofismável e voraz imagem de uma sociedade modelada à imagem da barbárie e de onde Deus parece ter-se retirado há muito (“ o Criador lançou suas pragas/ e o mundo jaz neste inferno:” p. 11; “Onde está Deus/que não faz nada?” p. 67), portanto, a recusa de uma entidade transcendente encontra-se intimamente ligada à problemática do Mal, bem como àquilo que se dá através dos dados empíricos: o Mal, diria Hanna Arendt ao contrário de Kant, não tem profundidade tem apenas superfície e, por isso, alastra como um fungo (Cf. António Marques in A Filosofia e o Mal, Banalidade e Radicalidade do Mal de Hanna Arendt a Kant. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2015), contudo, ao transferir a importância dada a uma Entidade Suprema, a um Primeiro Princípio, para a relação com o Outro, este livro de Cagiano acaba por tangenciar o pensar de filósofos profundamente religiosos como por exemplo o de Lévinas, para quem a Ética é fundamento do Pensar e a Infinitude da Divindade deve ser reconhecida (porque estampada) no Rosto do Outro.
          O Caos , em todas as suas vertentes: social, económica, cultural, etc. , é o que machuca o coração e o ver daquele que, no seu Observatório , recusa a indiferença e opta pela procura dessa palavra certa que exprima as “vozes de um sentir proletário” (Cf. p. 78) ou que dê tempo a dona Cidinha, para que esta impeça as bonecas da filha de se afogarem “nesses injusto mar” (Cf. p. 13). Aqui e ali, neste livro de Ronaldo Cagiano, e para além das veementes denúncia e recusa, assomam centelhas, que, apesar dos seus matizes políticos, são acima de tudo o ensejo de abanar o homem para que estabeleça outro tipo de laços, para que dos escombros agora inventariados outro Ethos possa (ainda) ressurgir, já que o renovo nos brota sempre da Guerra e da Luta dos Contrários, tal como Heraclito defendia e como o último poema deste livro de Ronaldo Cagiano – não colocado à guisa de epílogo por acaso! – insiste em nos acenar.


 Victor Oliveira Mateus, in Observatório do Caos de Ronaldo Cagiano. São Paulo: Editora Patuá, 2017.
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terça-feira, 23 de maio de 2017

(O artigo referido abaixo, para quem não conseguir aceder via link)
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Alguns apontamentos em torno d’ O EVANGELHO SEGUNDO LÁZARO de Richard Zimler

                                               


                                                                       Quem não pode morrer
                                                                       arranque a lápide
                                                                       levante e ande

                                                                       Até quando?
                                                                       Até onde?

                                                                Edmar Monteiro Filho, Lázaro


   A vida e obra de Jesus Cristo não têm sido temas apelativos para o romance português contemporâneo. Se o cinema ocidental tem visto no assunto matéria inesgotável para as suas abordagens (Pasolini, Scorsese, Zeffirelli, Gibson, etc.), o mesmo acontecendo com a música dita erudita (Bach, Liszt, Messiaen, etc.), já o romance luso fica-se por duas meras incursões na história sagrada: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”  (1991) de José Saramago e “Os Últimos Dias de Pôncio de Pilatos” (2011) de Paula de Sousa Lima. Se outros motivos não existissem, o facto de nos encontrarmos perante um território literariamente inóspito, já seria de louvar a temeridade com que Richard Zimler se lança na construção da sua narrativa. Sem nos esquecermos que a relação da História com a Cultura tem sido uma das dominantes na ficção de Zimler, urge, no entanto, acrescentar que em O Evangelho segundo Lázaro há uma vertente psicologista – fundada quer numa sistemática introspeção do narrador, quer numa análise do relacional – que, tomando igualmente a dianteira, forma com os aspetos históricos e culturais uma tríade que, não só dota a estrutura narrativa de coerência e sistematicidade, como apresenta a tese central do livro com uma razoabilidade que incita a reflexão e o questionamento.
  Este romance de Zimler integra-se num estilo realista alicerçado no histórico, no cultural e no sócio-ideológico, contudo, este realismo é constantemente atravessado por momentos de intersubjetivismo e de intrasubjetivismo, que o autor assinala a itálico. Convém acrescentar que este psicologismo nada tem a ver com as exaustivas análises do mundo interior levadas a cabo por Proust no seu emblemático romance; em Zimler os excertos em itálico mantêm-se presos ao imediatismo do instante vivenciado (Cf. p 25) ou são puras conjeturas em torno do pensamento ou do monólogo interior do outro (Cf. p 52, p 70, p 332). É este aspeto estilístico, bem como a escorreita articulação da intriga e o modo de tratar o tempo narrativo, que dotam O Evangelho segundo Lázaro de uma tessitura sólida e de uma fruição agradável e enriquecedora. Relativamente à questão do tempo narrativo, Richard Zimler demarca-se do romance fragmentado e do articulado emparelhamento dos planos narrativos, optando – de modo exímio e coerente – por uma linearidade diegética constantemente transpassada por analepses (Cf. p 83), elipses (Cf. p 75), resumos (Cf. p 402), prolepses (Cf. p 17). Também no que diz respeito aos aspetos psicológicos já referidos é importante considerar a forma rigorosa como são desenhados atitudes, modelos comportamentais e, sobretudo, as personalidades das personagens como por exemplo as de Jesus, Marta e Anás, o anterior sumo sacerdote, cujas ações aparecem no livro com uma inventariação de pormenores digna de um tratado científico.
  O Evangelho segundo Lázaro apresenta um prólogo, à guisa de advertência, para que o pergaminho que vai ser exposto não possa ser roubado, vendido, desfigurado ou queimado (p 9). Após este Conselho amigo, Lázaro lança-se na sua versão da vida de Jesus, tomando como início da narração a história da sua própria ressurreição (pp 13-31), mas sem esquecer de referir o recetor do pergaminho – Yaphiel, o seu neto vivendo em Alexandria -, bem como o tempo histórico e o espaço geográfico da narração. Um dos aspetos mais interessantes deste livro é a forma como se entrecruza a preocupação de rigor de Lázaro com as zonas de sombra que o autor incute no discurso do narrador – exemplo: Lázaro, durante o tempo em que esteve morto não vislumbrou quaisquer sinais de uma qualquer transcendência, o que, obviamente, o deveria direcionar para um ateísmo convicto (na página 271 fala-se mesmo da sua perda da fé!), todavia, várias são as passagens do livro em que ele invoca o Senhor (Cf. p 415); outro exemplo: Lázaro não fundamenta de forma suficientemente clara a forma como entende o regresso de Jesus – aqui e ali – após a sua crucificação, se por vezes levanta a possibilidade de o vir a reencontrar “ quer na sua própria pele, quer na pele de outro homem ou mulher” (p 439), posição esta que tangencia a teoria platónica da transmigração da alma, outras vezes  parece querer substituir o conceito de aparição pelo de visão (p 381-384, p 440), seguindo de perto a sistematização operada por Ratzinger relativamente a investigações teológicas que o precederam. A questão da ressurreição – quer a de Lázaro, quer a de Jesus – é um dos temas fundamentais deste livro, contudo, Zimler afasta-se de toda a tentativa primária de clarificar o fenómeno (uma das tais zonas de sombra já referidas!), parecendo querer deixar para o leitor a liberdade de interpretação, já que são exatamente as palavras de Jesus que irão operar a cisão entre a visão judaica da dos primeiros cristãos no que diz respeito à tríade morte/ fim dos tempos/ ressurreição (Cf. “Ce qu’ils n’ont pas dit de Pâques” de Daniel Marguerat in “Les premiers temps de l’Église”, org. Marie-Françoise Baslez, Gallimard, 2004, pp 92-100): Marta e Maria sabem que Lázaro ressuscitará no fim dos tempos, mas isso não parece consolá-las, daí reprovarem Jesus por não ter chegado a tempo ( Cf. Daniel Marguerat, op. cit. p 99), por sua vez este, apesar de saber que ainda naquele dia (e o fim dos tempos é, então, trazido para o presente!) Lázaro poderia estar diante do Senhor, mesmo assim, decide traze-lo de novo à vida. Eis os dois pontos fundamentais deste livro: a ressurreição de Lázaro e a figura de Jesus!
A figura de Jesus não é, no entanto, nesta obra, apresentada como a do filho unigénito de Deus, como aquele que sendo Deus encarnado participa da sua substância e da sua natureza. É evidente que é um filho de Deus, mas no sentido em que todos o somos, talvez com capacidades e aptidões superiores às do vulgo para comunicar com a transcendência, mas é apenas isso e nada mais. Por conseguinte, em O Evangelho segundo Lázaro, Jesus é frequentemente apresentado (apenas) como: profeta (p 237), milagreiro (p 261), um ser extraordinário (p 214, p 265), mago (p 177, p 295), “auxiliador/ comunicador à distância” (p 338, p 356), curandeiro (p 358), feiticeiro (p 196). Ora, e aqui Richad Zimler insere exemplarmente o seu livro no ambiente teológico e filosófico não só da época por ele abordada, mas também daquelas que imediatamente se lhe seguiram – exemplos: Apolónio de Tiana (final do século I D.C.) viajou por todo o Império Romano tendo granjeado fama de mago, profeta e operador de milagres, aliás, também a tese de divindades intermédias ou de seres mediadores era bastante comum, como podemos ver em Numénio de Apameia (Síria, século I D.C.) e em Plutarco de Queroneia ( 46-120 D.C.), sendo este o mais notável representante do chamado Platonismo Médio e em Fílon de Alexandria (30 A.C. ?), convém não esquecer que é exatamente em Alexandria que reside a tia de Lázaro, Ester, e será nesta cidade que a personagem que dá título ao livro encontrará um dos seus refúgios, bem como algumas das primeiras figurações de um cristianismo emergente, deturpador e fanatizado. Será em Alexandria, já perto do final do romance, que Lázaro irá conhecer os arautos de uma nova religião alicerçada numa figura que nada tem a ver com o Jesus que ele conheceu e com quem conviveu desde a infância.
Mas O Evangelho segundo Lázaro não é apenas uma obra inserida, de modo escorreito, numa cultura a partir da qual lança a sua mensagem. Os aspetos político-ideológicos (Cf. p 333), económicos e sociais são a outra trave mestra do romance: após a sua ressurreição, Lázaro regressa a casa numa ruela onde as pessoas se começam a amontoar para, diariamente, lhe pedirem a bênção ou, até mesmo, a cura para uma ou outra maleita. Este fenómeno, bem como a cumplicidade com um Jesus, que, pelo discurso e pela ação, vai afrontando os poderosos do seu tempo, acabará trazendo enormes problemas aos dois amigos. Veja-se, por exemplo: Jesus libertando um escravo (p 212), as críticas que faz a Caifás (p 214), a sua recusa da passividade ante o poder de Roma (p 218), etc. O afrontamento de Jesus aos valores da conformidade, bem como a solidariedade – por vezes cautelosa – demonstrada por Lázaro, têm duas consequências inevitáveis: a prisão e crucificação de Jesus e a perseguição movida a Lázaro – e família - que o leva a ter de abandonar a Palestina. O conflito, inicialmente com a casta sacerdotal - sobretudo com o despótico Anás, o antigo sumo sacerdote – que teme a perda de privilégios, alastra depois ao poder temporal e, apesar de não se estar perante um modelo político teocrático, o que é facto é que a execução de Jesus enfatiza a frase de Henri Pena-Ruiz para este tipo de sociedades: “Dieu et César pour le pire” (In “Qu’est-ce que la laicité?”, Folio, 2003, pp 50-56). Lázaro tudo faz para tirar o seu amigo da prisão: pedidos a Lucius, seu patrão; tentativa de persuadir Augustus Sallustius, o áugure de Pilatos, mas nada surte efeito. Estava-se perante o inevitável (pp 354-373)! Com parte da família assassinada como represália, resta a Lázaro uma única saída: a fuga, primeiro para Jericó, depois para Rodes… No final do romance, surge a explicitação do porquê da necessidade de escrever este seu Evangelho, da necessidade que sentiu em expor a Yaphiel, seu neto, aquilo que foi a verdade factual da vida de Jesus, aquela que ele vira com os seus próprios olhos e não a propagada naquele momento pelos seus seguidores que pululavam mundo afora.
 Richard Zimler articula assim de modo inextricável três variáveis: a preocupação com a verdade objetiva de que o narrador se faz arauto; as “pausas” de cariz reflexivo (Cf. p 221, p 243), que, porque distanciadas umas das outras, poderão parecer incipientes e desnecessárias e os momentos carregados de forte poeticidade, sobretudo os que relevam da relação de Lázaro com Maria, uma das irmãs, e com Jesus, onde o corpo e os sentidos assumem sempre uma conotação positiva (Cf. p 347, p 371). É a conjugação destas últimas variáveis com o referido no segundo parágrafo deste texto, que fazem d’ O Evangelho segundo Lázaro uma obra de valor inestimável e imperdível.
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                                                               VICTOR OLIVEIRA MATEUS
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