sábado, 22 de julho de 2017

   O poema O Canário de Oiro pertence a um dos primeiros livros de Vitorino Nemésio: O Bicho Harmonioso, 1938. Acerca deste poema diz a Profª Drª Fátima Morna: "Qualquer leitor da poesia de Nemésio terá já verificado que é muito forte, nela, a obsessiva tematização do tempo, assumindo as mais variadas configurações e invadindo todos os planos da significação. Basta recordar, como síntese, aquele que o autor considerou o poema central da sua obra poética, O Canário de Oiro, que desenvolve em toda a parte final, até anaforicamente, o verso: O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão. "
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    O Blogue deverá reabrir apenas nos finais de outubro.

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                             O Canário de Oiro

Se deixo entrar este canário de oiro
Que me espreita e debica
(Eu que sou ossos, a gaiola,
Débil passarinho loiro!
Eu, professor, como um menino de escola!)...
Pois sim: Canta. Fica.

E então, para que tudo em mim se honre e execute
(Voz, penas e dejectos
Do canário),
Dou-lhe, seus passeadores, os meus afectos,
As minhas veias duras para grades:
Dentro delas, contrário,
Ele se embeleze e lute.

Ah, que o canário é o meu sangue talvez!

Mas então isto que é? Que violino engoli?
Que frauta rude aveludou a minha noite?
Em que prato de cobre bateu o nó do açoite?
Tão exacto, meu Deus, só vibrado por ti.

Musical, todo fogo, em mim me vou e expando;
Cada lágrima cai de mim como harmonia:
De quatro em quatro, vão a minha dor jogando
Essas lágrimas vãs no tapete do dia.
Que sérias são estas coisinhas de soar,
Poetas que vos is,
Soldados velhos,
Escolhendo na morte uma farda e um lugar!
Somos aqueles imbecis
Desenvolvidos nos espelhos,
Ai nos espelhos paralelos
Da sala onde um de nós é sozinho a cantar!
Estamos fumados, amarelos,
De tanto ler e delirar.

Inúteis fôssemos, poetas.
Quero dizer: como as cascas cor de laranja ou alvas de ovo,
Que não são laranja nem ovo:
Ainda se havia de ver
Se as podridões quietas
Não são o sal e o renovo.

Que águia trouxe do céu meu diapasão de ferro?
Que milhafre criou minha carne em seu bico?
A mão qual foi que me rasgou no erro,
Mulher, o coração que te dedico?

Quem era aquele de quem tirei o sangue forte,
Esta pequena música corrente?
A veia mamou-a a morte,
Que engorda à custa da gente.

Quem era aquela mulher de branco
Que tinha seios fortificados
E o ventre puro de onde arranco
E os altos olhos separados?
A de fogo e de fel, reclusa e encordoada?
A que nunca toquei, porque estava selada?

E o anjo bravo, só lume, o outro sujeito,
Em que chama tocou a sua asa desabrida?
Que maçarico foi que lhe platinou o peito
E o deixou em ferida?

Perguntaria,
Se esfinges mais houvesse,
Em que sal se tornou a que se deu por Maria
E me prometeu o que eu quisesse?

Ah, aves de parabólica plumagem,
Anjos de matéria nenhuma e de toda a arrogância,
Mulheres e homens de que sou a última viagem
Começada no mar que salgou a infância!

Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar!

Ah, Sete Espadas, minhas primas,
Estrelas nítidas e diversas,
Piões, pombas, baraças, e até as Sr.ª Simas
Todas quatro alteando as suas toucas perversas!

Onde? quando já? outra vez? ou ainda não?

O tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão.

É ele, é ele o que tem tudo escondido,
Ele o que A desviou e A violou no vento,
Ele o que fez de mim o menino perdido
E me deu a navalha com que me fiz violento!

Ele leva para o alto as cordeiras e come-as,
Ele esconde no vale os lobos reduzidos,
Ele pede-nos as coisas emprestadas e  some-as,
Ele gasta-nos a voz, os olhos e os ouvidos.

Tempo, ladrão, dá-me conta do fardo:
As saudades pràli! as promessas pràli!
O que te vale é o escuro: Eu ainda ardo;
Minhas estopas são embebidas por ti.

Ai, a cordeira preta, a do velo maior,
Um palmo de gemido, onde a terias posto?
Tinha os galhinhos entre a lã: é melhor
Desenriçá-los do meu desgosto.

Tempo, molde de todos os lugares,
Pegada de quem desaparece,
esquema de bocejos e de esgares,
Frio de tudo o que arrefece.

Tempo que levas meu Pai morto,
Com catorze cavalos, todos de músculo solar,
E, para o ano, quinze! e crescendo! e ele absorto!
E os cavalos cada vez mais empinados! Morto...
Com que jarrete ou asa o hei-de eu alcançar?


 Nemésio, Vitorino. Obras Completas Vol. I - Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional. Casa da Moeda, 1989, pp 136-139 (Prefácio, organização e fixação de texto de Fátima Freitas Morna).
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