sexta-feira, 10 de outubro de 2014





" De modo que Cervantes manquejava "




   De modo que Cervantes manquejava;
Beethoven era surdo; Villon, ladrão;
Góngora de tão louco em andas caminhava.
E Proust? À partida, maricão.


Negreiro, sim, foi Dom Nicolás Tanco,
e Virgínia acabou de uma imersão,
Lautréamont morreu enregelado num banco.
Ai de mim, também Shakespeare era maricão.


Também Leonardo e Frederico García,
Whitman, Miguel Ângelo e Petrónio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.


Esta é, senhores, a breve biografia
(porra, esqueci-me de mencionar Santo António!)
daqueles que são da arte sólidos pontais.




 Arenas, Reinaldo. Poesia cubana contemporânea, dez poetas. Lisboa: Antígona, 2009, p 61.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014



ah, o terraço dos extravios: era ali que mutilavam, entre um comentário indigno e uma maliciosa conjectura, o fulcro da vergonha, era ali que escarafunchavam a conduta dos homens com o ato de fé das feridas. eu pleitava apenas a evasão daquela cama, para não mais usufruir da venéfica pregação daquelas duas mulheres. até que indicaram, com uma desoladora erudição, a procedência da minha dor: não era um parasita que me beliscava o precipício do abdome, mas uma entidade muito mais perversa, a que comumente chamam de desespero.


   Fraga, Whisner. abismo poente. São Paulo: Ficções Editora Ltda., 2009, p 64.
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Nobel da Literatura de 2014.

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O Prémio Nobel da Literatura de 2014, concedido pela Academia Sueca, foi atribuído ao escritor francês Patrick Modiano. O referido prémio, no valor de cerca de novecentos mil euros, será entregue este ano em Estocolmo.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014



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Apresentação, na Libera Accademia di Roma, a 4 de outubro de 2014, da obra "BUENA LETRA antologia 2", onde foram lidos alguns textos meus. Esta obra terá brevemente a sua apresentação noutros países nomeadamente na Argentina e no Chile.
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domingo, 5 de outubro de 2014




sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomés, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância. preferimos a companhia dos retardados, das prostitutas, dos aleijados, porque podemos olhar em sua direção e conjecturar ou mesmo dizer: eu os perdoo. do mesmo modo, odiamos o patrão, os mais ricos, os mais poderosos, porque nos encaram lá de cima, empunhando transbordantes cântaros de indultos e cuspes, miram nossas cabeças e nelas entornam a saliva da compaixão.
é o poliéster dos seus braços, o nylon dos peitos, as fibras do tronco, a tinta da boca: esta nova você, helena, que encomendei on line numa dessas páginas de manequins. e é com ela que o bolero das deformidades afocinha o favo da sala, enquanto os alto-falantes espezinham a quietude do nosso amor, o clarim gagueja nos confins de meu entendimento e potestades vaticinam a afinada bitola de seus ardis.


  Fraga, Whisner. abismo poente. São Paulo: Ficções Editora, Ltda, 2009, pp 26 - 27.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014



          "  Mon bel amour  "


Mon bel amour navigateur
mains ouvertes sur les songes
tu sais la carte de mon coeur
les jeux qui te prolongent
et la lumière chantée de ton âme

qui ne devine ensemble
tout le silence les yeux poreux
ce qu'il nous faut traverser le pied secret
ce qu'il nous faut écouter
l'oreille comme un coquillage
dans quel pays du son bleu
amour émoi dans l'octave du don

sur la jetée de la nuit
je saurai ma présente
d'un voeu à l'azur ton mystère
déchiré d'un espace rouge-gorge


   Miron, Gaston. Les cent plus beaux poèmes québécois. S/c.: Biblio - Fides, 2013, p 167 ( Une anthologie préparée par Pierre Graveline).
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A apresentação de "Buena Letras 2" será no próximo dia 4 de outubro, pelas 19h00 na "Libera Accademia di Roma, Via Palermo - 28, Roma.
Colaboradores que integram a obra:
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Poetas Antología "Buena Letra 2"

Por España: 6 poetas
Juan Carlos Abril
Olalla Castro
José Cereijo...
Rafa Correcher
José Ángel García Caballero
Marta López Vilar

Por Chile: 3 poetas
Luz María Astudillo Ugalde
Andrés Fisher
Myriam Iturra Ampuero

Por Argentina: 9 poetas
Ricardo Juan Benítez
Nélida Cañas
Lily Chavez
Ana María Diaz Velo
Silvia Montenegro
Estela Porta
Francisco Romano Pérez
María Isabel Saavedra
Enrique Solinas

Por Venezuela: 2 poetas
Andrea Victoria Álvarez
Emilia Marcano Quijada

Por México: 3 poetas
Mara Romero
Víctor Toledo
Verónica Volkow Fernández

Por Cuba: 3 poetas
Rita Martin
Ernesto Olivera Castro
Raúl Ortega Alfonso

Por Portugal: 1 poeta
Victor Oliveira Mateus

Por Perú: 1 poeta
Luis Fernando Chueca

Por Panamá: 1 poeta
Zanches, Alexander



Mensagem que enviei, enquanto autor colaborador da obra "Buena Letra 2", e que será lida em Roma no próximo dia 4 durante a apresentação da referida antologia. Esta mensagem será lida em italiano  de acordo com a belíssima tradução feita poeta italo-chilena Marcela Fillipi Plaza. Oportunamente postarei também essa versão.
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(Mensaje de Victor:)


                                 "Da gratidão e da luminosa casa das origens"
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Um homem pertence sempre a um lugar. Por mais abrangente e mais universalista em que o olhar desse homem se possa vir a tornar, o lugar do início manter-se-á sempre: nenhum momento, nenhuma cisão interior o poderá jamais anular. No meu caso concreto, não foi preciso iludir coisa alguma: nenhuma fragmentação ocorreu; o lugar do meu sentir originário foi sempre o lugar da minha escolha racional – a latinidade. Alheio a modas, ou outro tipo de contingências, conservei sempre esse nítido e inviolável lugar das origens, ou, mais especificamente, esse espaço poético onde aprendi as letras do meu país, onde depois as ensinei e onde hoje publico.
A “Comisso Editore”, bem como a poeta e tradutora Marcela Filippi Plaza, concedem-me hoje a possibilidade de poder aprofundar a minha casa das origens, de poder cimentar este meu modo de estar no mundo – para eles, pois, a minha profunda gratidão. Alguns dos meus textos circulam já em países de línguas oficiais latinas: Brasil, Espanha, Moçambique, Macau, México… mas é através da “Comisso Editore” que entro, pela primeira vez, nesse território belíssimo que é o da língua italiana: bem-haja à Editora por me fazer ombrear com grandes poetas de língua espanhola! Bem-haja a Marcela Filippi Plaza pela subtileza e rigor com que traduziu os meus poemas. Grato a eles, que tornaram possível este aprofundar do meu lugar originário, que mais não é do que esse local de onde parti – os poetas dos países latinos.
Talvez – quem sabe? – a vida até nem seja um percurso linear onde as etapas se somam aleatoriamente, talvez ela nos seja concedida em círculos complexos e concêntricos e eu reviva hoje, mas acrescentado, os meus dias de Madrid, de Barcelona, de Florença, de Veneza, e tudo isto, tudo, porque há uma casa comum de onde as nossas raízes brotaram em tempos e é partir dessas raízes que as nossas poesias se cruzam, partilham e se enriquecem. A minha gratidão, mais uma vez, àqueles que me ofertaram esta possibilidade de alargar a minha casa das origens.
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Lisboa, 20 de Setembro de 2014
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Victor Oliveira Mateus
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                         "De la gratitud y de la luminosa casa de los orígenes"
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Un hombre pertenece siempre a un lugar. Por más amplia y universalista que se pueda convertir la mirada de ese hombre, siempre quedará aficionado a ese lugar: ningún momento, ningún desgarro lo podrá borrar. En mi caso no es necesario eludir nada: no se produjo alguna fragmentación; el lugar de mi sentir originario fue el lugar que desde siempre elegí: la latinidad. Ajeno a modas, u otras contingencias, siempre he mantenido ese lugar de los orígenes claro e inviolable, o más bien ese espacio poético donde aprendí las letras de mi país, donde después las enseñé y donde hoy sigo publicando.
"Commisso Editore", así como la poeta y traductora Marcela Filippi Plaza, me conceden hoy la posibilidad de poder ampliar mi casa de los orígenes, de poder consolidar mi modo de estar en el mundo- para ellos, mi más profunda gratitud.
Algunos de mis textos circulan ya en países de lengua latina: Brasil, España, Mozambique, Macau, México... pero es ahora gracias a "Commisso Editore" que entro por primera vez, en ese territorio bellísimo que es la lengua italiana: Gracias a la Editorial por ponerme en compañía de grandes poetas de lengua española! Gracias a Marcela Filippi P. por la sutileza y el rigor con que tradujo mis poemas. Gracias a ellos, que harán posible hacer màs grande mi espacio originario, que no es más que ese lugar donde comencé -los poetas de los países latinos.
Tal vez -quién sabe?- la vida no sea un trayecto linear donde las etapas se van sumando al azar, tal vez sea concebida en círculos complejos y concéntricos y yo esté reviviendo, más enriquecido, mis días de Madrid, de Barcelona, de Florencia, de Venecia; y todo esto, todo, porque hay una casa común donde nuestras raíces se originaron en algún tiempo y es a partir de esas raíces que nuestras poesías se cruzan, se comparten y adquieren más valor. Mi gratitud, una vez más, a aquellos que me han ofrecido esta posibilidad de ampliar mi casa de los orígenes.
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Lisboa, 20 de Septiembre 2014
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Victor Oliveira Mateus
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014



          "  Par coeur  "


Je sais par coeur mille chansons vieillotes
et des vers sublimes de poeètes inconnus
je sais par coeur des noms de villes perdues
des noms de femmes aimées des noms peu communs
des noms propres avec de grandes initiales brodées
je sais par coeur de vieux airs de danse
et des chants d'amour qui mouillent les yeux

je sais par coeur des mots rares oubliés
dans les pages jaunies d'un dictionnaire
des mots qui souffrent de solitude et d'abandon
je saia par coeur des choses qui ne servente à rien
des phrases inutiles laissées à la porte
comme des feuilles mortes que le vent emporte

je sais par coeur des heures de joie pure
et des moments de détresse que l'on efface
quando vient le muguet du mois de mai
je sais par coeur mes absences et mês douleurs
je sais tout ce qui me hante et me ruine

je sais par coeur aussi de lumineux parcours
des chemins enchantés qui mènent à l'extase

je sais par coeur toutes les courbes de ton corps
ses failles ses clartés ses ombres et ses doux lavis
je te connais per coeur et même sans mémoire
je t'aime encore et toujours
pour finir en beauté cette dernière rengaine



  Giguère, Roland. Les cent plus beaux poèmes québécois. S/c.: Biblio - Fides, 2013, p. 108 (Une anthologie préparée par Pierre Graveline).
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sábado, 27 de setembro de 2014







                          Para o Victor Mateus


És um navegante solitário.
Cartografas com precisão
todos os vórtices.
E deixas que uma luz coada
entre no convés, pela escotilha,
para esqueceres como são brutais
e longas as cordas da noite
quando recolhes os despojos
dos naufrágios mais secretos.



      Pires, Graça. Espaço livre com barcos. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2014, p 39.
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Habituada ao luto, sou irmã dos náufragos.
Penduro todas as noites a minha lanterna
de lata cheia de óleo, acendo o pavio
e digo uma oração nesse lugar sagrado
onde as enormes ondas em volta do leme
são cortantes como facas afiadas nas escarpas.
Conheço bem o mar inquieto naquelas horas
em que os barcos esquecem o caminho para o cais.




    Pires, Graça. Espaço livre com barcos. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2014, p 29.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014





     " Poema para um tempo depois "




                              para Donizete Galvão, in memoriam






Sento-me no murete da praia,
na esquina mais áspera da Marginal:
o trânsito - revolto - mistura-se
com a dança sincopada das gaivotas,
com o estridente desnorte
das andorinhas-do-mar
e com esta ausência num cais
de esplanadas desertas,
onde os barcos ainda se anunciam
despovoados de carga e de gentes.


Sento-me nas dobras enegrecidas
da memória com o olhar férvido
dos motoristas a vigiar-me,
com os dedos ensanguentados
num folhear de esperas há muito
sem sentido. Sento-me e a tarde
abre-se-me num apático vaguear
de fluidas silhuetas, com a premência
deste sol a abater-se sobre mim
repleto de promessas - mas podre.




                     


Mateus, Victor Oliveira. Outras Ruminações, 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão. São Paulo: Dobra Editorial, 2014, p 114 (Antologia organizada por: Reynaldo Damazio, Ruy Proença e Tarso de Melo).
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terça-feira, 23 de setembro de 2014







 " La beauté des visages ne pèse pas sur la terre " (Extraits)

nos mains sont chaudes, il suffit d'exister
les aiguilles de l'horloge se sont arrétées à huit heures
     trente-quatre
nous avons vagabondé pieds nus dehors
nous nous sommes assis à l'entrée de la cour
a la fin de l'été nous a laissés aveugles, sans hâte
     ni inquiétude
j'ai caressé l'énigme de ton visage et maintenant
     tu dors entre mes jambes
les étoiles qui vont mourir dans le grand vide n'auront
     jamais connu la peur
(...)
plusieurs impressions surgissent en même temps
les nuages prennent des formes différents
tu me touches pendant que je parle
il y a le nombre des années autor de la terre
il y a la voix étrangère là où nous sommes
nous entrons à la maison, j'allume une lampe,
     la table est nue
parce que je t'aime tout devient pur
(...)
je vois la fin du jour
j'échappe mon argent au milieu de la route
le peu qui nous protège se transforme à chaque seconde
tes rires et tes larmes sont passés en moi
un dernier mot nous sépare
je baisse les paupières pour vivre seulement ici,
     pour avancer
autor de moi je découvre la faiblesse aveugle
     de la terre
(...)
le trottoir a été déblayé
je chiffonne un morceau de papier, je le jette
nous pouvons rester de longues heures au même endroit
au loin le chemin s'embrouille
les toits sont du silence
notre haleine tombe dans l'oubli
j'aurai senti près de moi cet événement fragile
     et sans défaut


  Charron, François. Les cent plus beaux poèmes québécois. S/c.: Biblio - Fides, 2013, pp 40 - 41 (Une anthologie préparée par Pierre Graveline).
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domingo, 21 de setembro de 2014


...     ...    ...    ...    ...

Há um carril de ferro interno
Numa carta hebraica que arde
À boca de uma urna os sinos tocam a finados interminavelmente

Levam à morte todos os caminhos
Que uma mão pesada escreveu num mapa
Sem paz vêm do fundo dos sinos os sons do desespero

Que dor inconsolável
Todos os dias a saldar a dívida ética sem amortização
Quantos fios do talih têm de ser cerzidos nos tribunais!
O futuro é um campo de ruínas
As ruínas são campos sem almas
Cemitérios que excedem a terra

Num excesso de malevolência carbonizaram as pétalas de rosa
Que Etty Hillesum trazia ao peito numa grinalda

As portas dos fornos que se abrem e fecham
Sâo o campo magnético deslocado do centro da terra
Para os campos de extermínio
Que atraíam a si pais e filhos e irmãos e cunhadas

Vede a administração de um destino maquinado ao pormenor
Nem um único dente escapou fora de uma boca

Repousam sobre as lajes
Sob o céu
As mães que não tiveram repouso
Repousam nos campos
Dos para sempre nunca absolvidos

...     ...    ...    ...     ...


 Aguiar, Isabel. Requiem por Auschwitz. S/c.: Editora Licorne, 2014, pp 28 - 29.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014



                      "  A vida  "


                                   ouvindo Jane Birkin



tudo não passa
de uma planta que se fecha
em si mesma

no bico
do canário

dentro
da gaiola

numa varanda
chuvosa
bem longe de Tóquio.


      Chioda, Leonardo. Tempestardes. São Paulo: Editora Patuá, 2013, p 101.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014





       "  Evoé  "




o sexo do poeta e o não.
privilégio da cidade. fado.
vida num turbilhão. quatro horas
de eternidade. fazer amor com o poeta
é morar no êxtase. permitir a tempestade.


depois do vinho
a varanda será diferente.


saciadas as dores
até o tutano. pontes entre os olhos,
os vidros marrons. a convergência
da boca e do suor. fazer amor com o poeta
é reinventar o êxtase.


depois do vinho
os livros serão outros. papéis de carne
sob minhas mãos.


fazer amor com o poeta. sexo
palavra e ápice.




   Chioda, Leonardo. Tempestardes. São Paulo: Editora Patuá, 2013, p 42.
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terça-feira, 16 de setembro de 2014





   "  À singela botânica dos sonhos  "




e não há nada, queridos,
tão complicado tão doce
quanto reavivar um amor
o mesmo que abrir o sol
na tarde velha e chuvosa
quando a dificuldade vem
a ser um vento em passo
falso n' água erguer seco
o corpo, o olho se pondo
a te Bachelard no original
ostentando nova cicatriz
tecendo o novo epitáfio
ao som do sangue solar
no livro feito de hibisco
uma íris talhada no lodo


e não há nada, queridos,
tão nobre quanto mitificar a tempestade




   Chioda, Leonardo. Tempestardes. São Paulo: Editora Patuá, 2013, p 32.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2014



Dizia-me: temos asas que despontam impacientes
e julgamos nós que são asas de condor
quando na verdade são míticas asas de cera...

Mas quê! A ambição é um labirinto de ruelas escuras,
queremos, insanos, roubar os céus aos pássaros,
abraçar os astros como quem abraça os amigos
e fugir, fugir para sempre desta ilha circular...

Porque somos filhos de Dédalo,
o nosso fim é o mar...


     Assim, Paulo. Árvore Genealógica. Fafe: Editora Labirinto/ Núcleo de Artes e Letras, 2014, p 58.
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domingo, 14 de setembro de 2014





Não te esqueças - dizia-me a minha mãe -
de estender os teus poemas na varanda:
fechados, ganham ferrugem e não soam muito bem aos ouvidos;
fechados, tilintam conforme metais impuros das metalurgias
e têm a cintilação embaciada de zebre das estrelas longínquas.
Fechadas, as palavras amolecem e pegam-se umas nas outras,
tornam-se difíceis de articular, enrolam-se na mecânica
das línguas.
Fechadas, em vez de leres liberdade lês obscuridade
e em vez de leres amor lês bolor.
Eu sei, mãe, eu sei.
As palavras querem-se ao sol.
A poesia quer-se ao vento.




   Assim, Paulo. Árvore Genealógica. Fafe: Editora Labirinto/ Núcleo de Artes e Letras, 2014, p 36.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014



      "  Vizinhança  "

Ao tocares o troféu
logo o brilho se azinhavra.
Sequestrasses uma estrela
e terias entre os dedos
um arcabouço de lata.
Tira do castelo o amado
perderá coroa e cetro.
Melhor deixar o troféu
nas prateleiras do Olimpo.
Fique a estrela na galáxia.
Em nuvens se hospede o amado.
Qualquer vizinhança avilta
e apodrece os objetos.
Com o divino, o longínquo
tem parte. Só o impossível
partilha hálito celeste.


    Cabral, Astrid. 50 Poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2008, p 84.
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