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domingo, 7 de janeiro de 2018


Houve um tempo em que as aves
não estavam embaciadas.

As asas não tiveram
a sorte de Ulisses
e Ítaca
é a melodia do pranto.

Ficámos sós,
a matar as teclas,
com o piano pendurado nos olhos.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p 57.
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sábado, 6 de janeiro de 2018



Sabes, meu amor,
adoro os pássaros que voam
quando as árvores já não são suas.
A biografia do coração
raramente esquece a queda das folhas.

E o que é o voo para lá do Outono?

Não me digam para guardar
o vento na garganta
ou que as tempestades
são retratos de um hospício.
O teu corpo ensinou-me,
o Verão é um felino
e a hierarquia das garras
só o tempo a sabe.
É certo, as nódoas têm sinos,
mas no pináculo do perfume
ninguém observa versos rotos.

Ainda te quis quando a pólvora
tocava os últimos acordes nos ramos.
Não tinha aprendido,
aparar as unhas à neve
serve para pintar biombos nos olhos.
Se tivesse ouvido Dostoiévski ou Gógol
e bebido as sombras de São Petersburgo,
sabia,
o ouro das catedrais
assimila a mágoa da cidade.

Sabes, meu amor,
a eternidade procura sempre uma corda no céu.


  Pereira, Alberto. Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, pp 25-26.
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domingo, 14 de dezembro de 2014



Nunca digas amor,
sem saberes que os vermes
nascem na ressaca do paraíso.
O tempo tem essa essência de falésia,
fazer do céu
o ígneo chicote para as lágrimas.


Já imaginaste o tecto a descer os degraus,
a entrar-te pela cidade
com pálpebras esmagadas?
O cume a ser o solo?
Pisas então essa palavra
que dizia alucinações aos órgãos.
Muros como se fossem as teclas magnólias.


Escreveste com a língua tantas coisas,
imitaste com ela as ondas.
O mar cabia na boca sem margens.
Às vezes,
largas planícies demoravam fábulas na saliva.
Os beijos realizavam as aves.
E depois dos beijos,
as facas prometiam dias capazes de palácios,
fidelidade sem vento,
ouro com lisura infantil.


O ferrão é o testemunho tardio do mel.




  Pereira, Alberto. Poemas com Alzheimer. Lisboa: Glaciar, 2013, pp 42 - 43.
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sábado, 13 de dezembro de 2014



(...)


A cidade é uma casa de putas.
Os homens procuram o seu signo.
Apanhar o táxi até ao veneno,
seduzir ancas fretadas por outras erupções.


Não lhes falem dessa sarjeta lamechas,
sentimentos.
O que importa
é o sismo que se atinge no colchão.


A cidade é uma casa de putas.
As mulheres vão executando orações,
os maridos fuso horário repetido.
As revistas ensinam,
um só corpo a vida inteira,
antes a morte.
É preciso ser palco para muitas neblinas,
sentir os aplausos da bruma,
e dizer no fim,
por hoje és o Olimpo.


A cidade é um oceano
quando os colchões deixam de palpitar.


 
  Pereira, Alberto. Poemas com Alzheimer. Lisboa: Glaciar, 2013, p 25.
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domingo, 27 de julho de 2014



    "  II - Saudade  "


A lâmina, coração bolorento.
Um golpe, mão que rasga o mofo.
Arranham-se feitiços.
O aço despe a distância.
Na pele,
servem-se perfumes degolados.

O catecismo de golpes trémulos
muda de nacionalidade.
Bebe o pêssego, o vocabulário do álcool.
Um crepúsculo, outro crepúsculo.

O horizonte é um inferno de coisas belas.

O telefone toca.
És tu da alucinação.

Somos outra vez uma mentira.


  Pereira, Alberto. Amanhecem nas rugas precipícios. S. Mamede de Infesta: edium editores, 2011, p 46.
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                   " Vida arquivada "




Somos apenas uma ilha
cercada pelo espanto,
um lugar onde se enlouquece sempre.




  Pereira, Alberto. Amanhecem nas rugas precipícios. S. Mamede de Infesta: edium editores, 2011, p 28.
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