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sábado, 5 de setembro de 2015



   Penso às vezes que fazer romances é difícil... e de outras vezes que é fácil. Fácil, fácil? Quero eu dizer, acessível.
   Aqueles romances de psicologia muito construída, uns bons e outros maus, não me parecem realmente dificílimos de elaborar, mas não me tentam. São artes, regalos ou luxos do espírito. O que me tenta... Bom, será melhor deter-me aqui porque levaria longe o meu fio de ideia. Neste momento reconheço perfeitamente que não estou escrevendo um romance, ou aquilo a que vulgarmente se dá esse nome. Reconstruo e não invento. Investigo a minha vida passada, sacudo-a com curiosidade, e às circunstâncias que a acompanharam. Tudo isto para mim é tema que exploro com indizível e inclassificável interesse. Tudo esteve dormindo comigo longuíssimo tempo, à espera do minuto de despertar, para naturalmente se sumir depois para sempre...
   Como disse, não estou trabalhando uma ficção, estou a desfiar sedimentos e raízes; de uma vida ou de várias.


   Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume III - começa uma vida. Lisboa: Editorial Presença, pp 74 - 75.
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terça-feira, 1 de setembro de 2015



   Se eu hoje pintasse e não escrevesse ( a literatura parece-me uma arte muito menos simbólica que a pintura), como representaria esta espécie de nebulosas mentais em que mais ou menos vivemos? Estas ilusões que as coisas nos dão? E o modo também como retemos e vamos vendo reflectir-se e repetir-se o que uma vez nos impressionou?
   Que poder do espírito é este que conserva umas impressões e elimina outras? E que as conserva sob formas que não são puramente sensoriais nem raciocinadas? À roda de uma simples impressão, que mantém geralmente o seu carácter genuíno e inédito, que ramos de novas imagens se não vão formando sempre!
   Muitas vezes julgo que não é falando nem escrevendo que nós melhor revelamos certos estados do nosso espírito, ou as suas visões. Parece-me que a linguagem se inclina abusivamente para a lógica e para a justificação. Que a falar nos recompomos e nos enfeitamos demais... Em suma, pintadas, tornadas plásticas, talvez que as nossas impressões e memórias resultassem mais sóbrias e mais nítidas que descritas.
(...) Na descrição nós rodeamo-nos de todos os elementos de composição que podemos, chocamos o assunto e damos-lhe o máximo de extensão - fugindo, quiçá, ao que lhe é essencial... Na pintura é possível que assim não seja.


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume III - Começa uma vida. Lisboa: Editorial Presença, 1993, pp 42 - 43.
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domingo, 21 de junho de 2015

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  Sinto-me subitamente ferida, agastada. Não seria assim tão subitamente... Mas, enfim, uma bagatela, uma pinga a mais no vaso cheio fá-lo transbordar: dá corpo e força às minhas velhas fantasias de revolta...
  Mas a minha revolta é calma, calada, fica só comigo. Entretenho-me com pensamentos mais crus e concretos que os meus habituais, quase sempre flutuantes e desinteressados. Mais nada. Mas aos poucos sereno.
  Não, ninguém me quis molestar! Todo o meu mal é apenas de situação, um mal de acaso. É um mal sem consciência, o mal da miséria; absolutamente incerto, inocente e irresponsável. E por tudo isto vou readquirindo o meu ar distraído e indiferente. Filosófico.
  Mas a minha indiferença, fruto de uma vida anormal, desaproveitada, não consegue amortecer de todo uma certa curiosidade, um distractivo apetite de me confundir com os que me cercam, e de os julgar. Não consegue!
  E assim, vegetando tranquilamente quase a um canto, pressinto ou noto que todas as criaturas se encobrem e se defendem das suas próximas! Que nós, afinal, somos como as coisas ou como os detritos do mar: chocamo-nos e apartamo-nos continuamente, vivemos num puro, permanente jogo de escondias...
  Cada ser que vive é um mistério! A sua rota é obscura e sinuosa, sempre complicada...

  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, p 150.
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sábado, 20 de junho de 2015



     Tive de esclarecer a amável estranheza de Q. sobre o meu gosto de não ser conhecida.
     Gosto e utilidade!
     Mas não esclareci nada.
     Tratava-se de atitudes literárias.
  Escrever assim como escrevo, sem qualquer ambição de notoriedade, parece-me extraordinariamente útil. Mas não o sei pôr em linguagem clara! Por isso me embrulhei em evasivas. Desnorteei Q., que com a sua galantaria de lisboeta e de letrado, uma galanteria muito especial, me convidava a aparecer. Não sei onde, nem como.
    Eu suponho, em boa verdade, que os anonimatos, que a folga e a inteligência dos anonimatos, se não podem definir bem. Que por si se justificam. Um anonimato é vital e elementar, espontaneamente útil; cobre as necessidades de cada um que o usa, esporádicas ou permanentes. Mas há quem tome o anonimato dos artistas por uma espécie de tarrafias, de gracinhas, de jogo ou de vaidade... E sê-lo-á!
    A mim, porém, qualquer coisa mais grave e mais indeterminada me tem levado a adoptar o anonimato, os pseudónimos. Talvez um subtil espírito utilitário, de defesa. De inversão da arrogância, da combatividade, também. De timidez, ou de fuga à necessidade intelectual, ainda... Não posso precisar perfeitamente o que seja! (...)
     Que significa um nome de autor? Nada! (...)
   A literatura teve sempre muito de aberrativa, de fantasista. Nomes, pseudónimos, têm absolutamente o mesmo valor das figuras e das localidades. Não valorizam as obras.
    E sendo a minha análise sempre tão cingida ao passageiro, sendo uma espécie de exploração da rápida eventualidade, não poderá admitir com sofrível elegância, com propriedade, a variedade dos pseudónimos?
   Este meu escrever sobre nadas , creio que até me chega a dar uma absoluta indiferença pelas categorias literárias! Me desinteressa de todo o rang e classe... Me inquina cada vez mais de uma corajosa e perversa paixão de liberdade
    Os pseudónimos não me encobrem dos profissionais das letras, naturalmente!
    Mas o mundo deles não é o meu...
   O meu, o que por mim se interessa, com boa ou ruim humanidade, não é de letrados nem de artistas, nem sequer de gente de boa sociedade. É de gente de letras grossas! Grosseira, talvez, mas nem melhor nem pior que a outra.
(...)
   Devo ser prudente. Com a minha gente é que me tenho sempre encontrado, dela é que eu sou um ruim e claudicante membro, mas ainda assim, não desprezado... Esquecê-lo, seria ingratidão.


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, pp 89 - 90.
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sábado, 13 de junho de 2015



   O meu desconsolo parece-me, às vezes, não ter fundamento nem valor ao pé do da I. Acho-a sem resistência, desorientada! E a sua confusão perturba-me. É absurdo o seu desejo de vingança; uma saída impraticável da sua má vida. Vingar-se, mas de quem ou de quê? De si própria?
   O que sentimos e a que chamamos mal, de onde nos vem? Penso frequentemente que de nós próprios. Da nossa inconsciência ou fraqueza, da insuficiente oposição que fazemos aos outros, aos nossos exploradores, do nosso pouco tacto e arte de premeditação, etc. Mas também penso que os próprios fortes são vencidos, que também são desmoralizados... O acaso rege francamente as vidas? É provável! (...)
   Hoje é quinta-feira. Um dia qualquer...
   Mas tenho ainda viva em mim uma simples hora do dia de ontem. Passageira.
   Começava a escurecer. Ia pelo corredor e encostei-me à ombreira da porta. E tive vontade de dizer: (mas a quem? nem sequer o sabia!). Vê, olha comigo... deixa-me descansar em ti este espírito e este corpo mole...
   Uma mulher deve naturalmente nascer e morrer a dizer destas coisas, em mente, até se cansar...
   Encostada ali àquela porta, que estava eu, sem querer, figurando? A eterna insegurança, o eterno desejo.
   A vida corria, desdobrava-se, dava sinais de si por lugares que eu desconhecia, em que não tinha acolhida... Escapava-se-me, como sempre.
   Se eu pudesse explicar bem os meus apetites... que quereria naquele momento? Nada! Creio que nada. Como tantas vezes, tinha vontade de chorar, de me cansar, sobretudo.
   Aquelas luzes da cidade a acender-se, a acompanhar-me... friamente, elegantemente!
   E eu, uma mulher, um ser íntegro, vivo, encostada para ali à ombreira de uma porta! Longe de mim todas as correspondências. Longe, ou impossíveis!  


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, pp 41 - 42.
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