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segunda-feira, 28 de março de 2016



                          4/ 7.

Nem a demanda conseguirás que
se acabe, mesmo que a ti a fortuna se confie,
nem o estudo será para teu gáudio, ainda que dos sábios inspirado,
nem te assistirá o talento, nem o consolo abrandará o teu anseio,
nem que fosse o amor podias viver livremente.
E nem mesmo o profeta ditando os versos terá discípulos
se jamais concilia os escrivães com a sua mágoa,
nem o jovem será na graça favorecido, pois ela o trairá,
nem o rio que outrora baptizaste o lembrarás
se o não voltares, na névoa, a ver primeiro.

Onde vais então para que te siga piamente? Acaso
atalharemos o país de cerradas dunas como campas,
quando na distância os dois brilharmos, os dois
entre os solenes risos de guardar silêncio?
Longe do que pensaríamos algum dia consentido,
longe de nos encontrarmos sob a funesta sina,
do que irá passar-se brevemente o saberemos:
muitas vezes vimos quanto a beleza tarda,
mas só ela tolera dispormos do mundo fugazmente
e com essa cega mágoa ir mais além.


  Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 70.
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domingo, 27 de março de 2016


                   2/ 6.

Não é difícil um homem apaixonar-se,
ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
- Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca"
e confundo já o teu rosto
com um qualquer.


   Cóias, Rui. europa. Lisboa: Tinta-Da-China, 2015, p. 32.
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