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domingo, 8 de fevereiro de 2015



   Entre a gente que considerava ridículo esse género de casamento, gente que indagaria no seu próprio caso: "Que pensará o Sr. de Guermantes, que dirá Bréauté, quando eu desposar a menina de Montmorency?", entre as pessoas que alimentavam essa espécie de ideal social, teria figurado, vinte anos antes, o próprio Swann, aquele Swann que tivera tanto trabalho para ser admitido no Jockey e contara naquele tempo com um casamento brilhante que, consolidando a sua posição, acabaria por torná-lo um dos homens mais distintos de Paris. Mas as imagens que um casamento desses apresenta ao interessado têm necessidade, como todas as imagens, para não empalidecer e apagar-se completamente, de ser alimentadas do exterior. Suponhamos que o nosso mais ardente desejo é humilhar o homem que nos ofendeu. Mas, se se mudou para outras terras e nunca mais ouvimos falar dele, esse inimigo acabará por não ter a mínima importância para nós. Se perdemos de vista durante vinte anos todas as pessoas por causa de quem desejaríamos entrar para o Jockey ou para o Instituto, já não nos tentará em absoluto a perspectiva de ser membro de um ou de outro.


  Proust, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 2,  à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, s/d., pp 42 - 43 ( Tradução: Mário Quintana ).
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015



   É verdade que em todas as páginas dos meus cadernos escrevia indefinidamente o seu nome e o seu endereço, mas, à vista daquelas vagas linhas que eu traçava sem que ela por isso pensasse em mim, que a faziam ocupar em redor de mim tanto espaço aparente sem que por isso ficasse mais ligada à minha vida, sentia-me desanimado, porque não me falavam de Gilberta, que nem sequer as veria, mas do meu próprio desejo, que pareciam apresentar-me como algo de puramente pessoal, de irreal, de fastidioso e de impotente. O mais urgente era que Gilberta e eu nos víssemos e pudéssemos fazer a confissão recíproca do nosso amor, que até esse momento não teria por assim dizer começado. As diversas razões que me tornavam tão impaciente de a ver seriam menos imperiosas, sem dúvida, para um homem maduro. Acontece mais tarde que, tornando-nos peritos no cultivo dos nossos prazeres, nos contentemos com aquele que sentimos ao pensar numa mulher como eu pensava em Gilberta, sem nos inquietarmos por saber se essa imagem corresponde à realidade, e também com o prazer de amar sem ter necessidade da certeza de que ela nos ama; pode ainda suceder que renunciemos ao prazer de lhe confessar a nossa inclinação por ela, a fim de manter mais vívida a inclinação que ela tem por nós, imitando esses jardineiros que, para obter uma flor mais bela, lhe sacrificam várias outras. Mas no tempo em que eu amava Gilberta, julgava ainda que o Amor existia realmente fora de nós; que, permitindo, quando muito, que afastássemos os obstáculos, oferecia as suas venturas numa ordem à qual não se era livre de mudar coisa alguma (...).
   Mas quando chegava aos Campos Elísios (...) desde que me via na presença daquela Gilberta Swann, com quem contara para refrescar as imagens que a minha memória fatigada já não encontrava, daquela Gilberta Swann com quem ontem brincara, e que um instinto cego acabava de fazer-me saudar e reconhecer, um instinto como esse que, na marcha, nos põe um pé diante do outro antes que tenhamos tempo de pensar, logo tudo se passava como se ela e a menina que era objecto dos meus sonhos fossem duas criaturas diferentes.


   Proust, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 1, no caminho de Swann. Lisboa: Livros do Brasil, s/d, pp 394 - 395 ( Tradução: Mário Quintana ).
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


   Mas de súbito foi como se ela tivesse entrado, e essa aparição foi para ele uma dor tão dilacerante que teve de levar a mão ao peito. É que o violino subira a notas altas onde permanecia como para uma espera, que se prolongava sem que o instrumento cessasse de as sustentar, na exaltação em que estava de já perceber o objecto da sua espera que se aproximava (...). E antes que Swann tivesse tempo de compreender e dizer consigo: "É a pequena frase da sonata de Vinteuil, não escutemos!" todas as lembranças do tempo em que Odette estava enamorada dele e que até àquele dia conseguira manter invisíveis nas profundezas do seu ser, iludidas por aquela brusca revelação do tempo de amor que lhes parecia ter voltado, despertaram e subiram em revoada para lhe cantar perdidamente, sem piedade para com o seu actual infortúnio, os refrãos esquecidos da felicidade.
   Em vez das expressões abstractas "tempo em que eu era feliz", "tempo em que eu era amado" que tantas vezes pronunciara até então e sem muito sofrer, pois a sua inteligência só encerrara ali algumas pretensas amostras do passado que nada conservavam do mesmo, Swann reencontrou tudo o que havia fixado para sem a específica e volátil essência daquela felicidade perdida; reviu tudo, as pétalas nevadas e crespas do crisântemo que ela lhe lançara no carro, que ele apertara contra os lábios (...). Naquele momento satisfazia ele uma curiosidade voluptuosa, conhecendo os prazeres das criaturas que vivem pelo amor, julgara que poderia parar naquilo, que não seria obrigado a conhecer-lhe as dores; quão pouco lhe significava agora o encanto de Odette junto daquele formidável terror que o prolongava como um halo turvo, aquela imensa angústia de não saber a cada momento o que ela fazia, de não a possuir em toda a parte e sempre!
(...) E Swann apercebeu, imóvel em face daquela felicidade revivida, um infeliz que lhe causou piedade porque não o reconheceu logo, tanto que teve de baixar os olhos para que não vissem que estavam cheios de lágrimas. Era ele próprio.


  Proust, Marcel. Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 1,  no caminho de Swann. Lisboa: Livros do Brasil, s/d., pp 340 - 342 ( Tradução: Mário Quintana).
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