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quarta-feira, 26 de março de 2014
" Oferenda "
Cumpro o que prometi:
Dou-te o melhor que tenho, versos.
Não queiras mais.
O resto
É o lastro reles da minha humanidade.
As doenças do corpo,
As misérias da alma
E o medo da morte,
Sujas negruras de que me envergonho.
Tudo, porém, é limpo e luminoso
Quando o sol radioso
Da poesia
Me visita.
E são esses instantes que deponho
No teu altar.
Instantes em que sonho
Que és a deusa capaz de me salvar.
Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 927.
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terça-feira, 25 de março de 2014
" Purificação "
Não é propositado o meu silêncio.
São as próprias palavras que não querem
Dizer nada de mim.
Cansaram-se do uso
E do abuso
Que fiz delas
A vida inteira.
Prostituídas na minha voz,
Que o tempo corrompeu,
Mentirosas nas horas mais sinceras,
Regressaram de novo à virgindade
Que lhes roubei.
E aguardam servir outra humanidade
Que comece por onde comecei.
Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 852.
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domingo, 23 de março de 2014
" Relato "
Foi longo o meu caminho de poeta,
Com versos de agonia demorada.
A vida imaginada
Paralela
À outra, acontecida.
E ambas a enfunar a mesma vela
Já sem rumo à partida.
Os áugures previam,
Os mapas ensinavam,
A bússola apontava...
Mas faltava-me a fé das almas confiadas.
Teimoso, repetia
A pergunta inquieta que fazia
Ao vazio das horas navegadas.
Que certa direcção
Dar ao timão
Numa viagem sem qualquer sentido?
O mar diariamente enfurecido,
O céu diariamente enevoado,
E o barco fatalmente conduzido
A um cais de morte sempre adivinhado...
Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 797.
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