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terça-feira, 23 de maio de 2017
O drama trágico da existência consuma-se na pronúncia
Que não sai dos lábios
A pronúncia é mais abstracta do que a palavra
A palavra propaga-se pelo ar e a pronúncia fica
Atrás da língua e daí não sai
Vieram do norte
Com uma pronúncia distinta na mesma língua
O pai a mãe e três filhas
No resto eram em tudo iguais aos outros
Morreram como muitos outros
Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, p 43.
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domingo, 21 de maio de 2017
Só numa cidade antiga
Uma cidade de ruínas e pássaros
Uma cidade sem ninguém desde o séc. III
A vida pode existir sem sobressaltos
Há uma sinagoga e uma capela
E vida vegetal nas pedras
Os pássaros passeiam
E poisam nas ruínas
E não se ouvem sinos
A anunciar desgraças
A existência das pessoas pertence a um passado remoto
Não consta que tenha havido um terramoto
Só que às vezes abandonam-se os sítios por causas maiores
Que têm a ver com buscas incessantes de novas vidas
Os arqueólogos afadigaram-se ali antes de a guerra eclodir
Meio pente de terracota foi sujeito a análises
E a asa de um bilha
Soube-se pouca coisa
Mas os pássaros ainda cantam
A capela tem um vitral incompleto
A refracção da luz revela a vida de um menino
Que outrora ali cumpriu um sacramento
Hoje os meninos servem de escudos na guerra
Aguiar, Isabel. As mães da Síria. S/c.: Editora Licorne, 2017, 33.
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sexta-feira, 26 de junho de 2015
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a única luz é um fio
e não há nada a perder
nunca há alguma coisa
contrária à sua natureza
o vosso rosto levanta-se com o sol
o entorno é este pranto
dos pássaros
esperanto esperando-vos
pão e côdea reunidos
a caminho da mesma boca
sem peixe o pássaro
pode ser alcançado pelos gatos.
Aguiar, Isabel. A Língua de esperanto dos pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 18.
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domingo, 21 de setembro de 2014
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Há um carril de ferro interno
Numa carta hebraica que arde
À boca de uma urna os sinos tocam a finados interminavelmente
Levam à morte todos os caminhos
Que uma mão pesada escreveu num mapa
Sem paz vêm do fundo dos sinos os sons do desespero
Que dor inconsolável
Todos os dias a saldar a dívida ética sem amortização
Quantos fios do talih têm de ser cerzidos nos tribunais!
O futuro é um campo de ruínas
As ruínas são campos sem almas
Cemitérios que excedem a terra
Num excesso de malevolência carbonizaram as pétalas de rosa
Que Etty Hillesum trazia ao peito numa grinalda
As portas dos fornos que se abrem e fecham
Sâo o campo magnético deslocado do centro da terra
Para os campos de extermínio
Que atraíam a si pais e filhos e irmãos e cunhadas
Vede a administração de um destino maquinado ao pormenor
Nem um único dente escapou fora de uma boca
Repousam sobre as lajes
Sob o céu
As mães que não tiveram repouso
Repousam nos campos
Dos para sempre nunca absolvidos
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Aguiar, Isabel. Requiem por Auschwitz. S/c.: Editora Licorne, 2014, pp 28 - 29.
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