Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Filipe Mochila. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Filipe Mochila. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de junho de 2018


                Os drogados


Cemitério dos Remédios, Inverno de noventa e seis.
Ela assobia a um cão que desaparece entre as flores secas.
Um campo de seringas e jornais estende-se à tua frente
até à linha do nevoeiro,
destroços
de uma batalha para sempre adiada.

Continuas a fitar os vultos que atravessam em silêncio a gradaria
coberta por uma lâmina de ferrugem.

Foi quando descobriste que as crianças
habitam
uma espécie de pesadelo contínuo.

São os rostos da cegueira.

As ervas estalam nos olhos de uma gárgula
e tu dizes tenho frio, não vês
que estes mortos nos vigiam.

Mas é pela mão dela que vais contornando os labirintos
entaipados,
que então dariam
- hoje não -
para algum lado.

São os poços invadidos pelos drogados.
Olhas o seu rosto, o olhar humedecido.

Repetes tenho sede, deve haver
um caminho para voltar.

Ela nunca te dirá uma palavra.

Há um cão
morto que fareja as mãos dela.


   Miguel Filipe Mochila in Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, pp 57-58.
.
.
.


domingo, 3 de junho de 2018


         Distância, Bibelôs, Páginas Brancas


Não é só já a casa que responde
exacta e banal com um silêncio sobre tudo,
no quarto em que ela se deitava sobre as coxas
na falda onde abrigava um gato mudo.

Também as coisas se desprendem ininterruptas
da pedante condição de utensílios:
são os postais diários de um futuro
onde toda a noite é consumível.

Não é só já a casa que em silêncio te devolve
distância, bibelôs, páginas brancas.
Na própria malha há da madrugada
correntes de ar, camas abertas, provas, nada.


  Mochila, Miguel Filipe. Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, p 44.
.
.
.