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segunda-feira, 30 de junho de 2014





éramos cinco no apartamento do príncipe real
fazíamos longos passeios ao domingo de sono
íamos ao trumps
íamos ao plateau
e a vida era empurrada entre intervalos.
um dia tu disseste-me as palavras certas:
só vivo o momento, não sei de amanhãs
e eu que tanto queria imaginar o amanhã
fiquei perplexa
o momento e o acaso são inúteis
apetece-me empurrar os momentos todos
e dar-lhes um significado
não gosto de momentos
são episódicos
empanturram-nos de satisfação
até que de súbito queremos acordar amanhã
mas o momento não deixa
para passar o momento
comecei a tomar lexotan




  Barreira, Cecília. Todos os Pecados do Mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2014, 27.
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domingo, 29 de junho de 2014





a seguir à morte o maior pecado é o da amizade
ser amigo do alheio?
ser amigo do privado?
a amizade é um pecado tão grande
que ser-se amigo é aquela coisa dúbia
entre empresta-me 100 euros por favor
e partilha a minha dor com a tua dor
a amizade é estranha
a amizade é o reflexo das ausências que tivemos na infância
também há a amizade a um electrodoméstico
também há amizade a uma cerveja
mas aquele olhar cúmplice com que te observo
cada vez que habitamos outros lugares
é a passagem é o ritual com que te amanheço
a amizade é o pecado dos frágeis
e eu sou frágil




   Barreira, Cecília. Todos os Pecados do Mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2014, p 12.
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