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sexta-feira, 10 de outubro de 2014



  " Dizem que o amor/ é algo muito sublime "


   Dizem que o amor é algo muito sublime.
Oh, dizem que realmente é um tesouro!
Como o encontrar no livro que se imprime
para grafar os discursos do Grande Louro?

Dizem que o amor não tem preço,
que é ternura, ilusão, caro consolo.
Como o achar no insulto e no desprezo
ou na grilheta que impede de alçar voo?

Do amor enunciaram-se mil estupidezes
que eu não posso recordar agora
e que seria inútil recordar mais tarde.

Penso nesse amor (ainda penso às vezes)
e algo muito remoto sei que chora
e algo ainda mais remoto sinto que arde.


   Arenas, Reinaldo. Poesia cubana contemporânea, dez poetas. Lisboa: Antígona, 2009, p 67.
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" De modo que Cervantes manquejava "




   De modo que Cervantes manquejava;
Beethoven era surdo; Villon, ladrão;
Góngora de tão louco em andas caminhava.
E Proust? À partida, maricão.


Negreiro, sim, foi Dom Nicolás Tanco,
e Virgínia acabou de uma imersão,
Lautréamont morreu enregelado num banco.
Ai de mim, também Shakespeare era maricão.


Também Leonardo e Frederico García,
Whitman, Miguel Ângelo e Petrónio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.


Esta é, senhores, a breve biografia
(porra, esqueci-me de mencionar Santo António!)
daqueles que são da arte sólidos pontais.




 Arenas, Reinaldo. Poesia cubana contemporânea, dez poetas. Lisboa: Antígona, 2009, p 61.
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