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segunda-feira, 19 de março de 2018


                             27.


Já "caluniei" bastante o desespero
sem reconhecer nele
o coração
das algas verdes ou azuis percorrendo o esquecimento
das longas horas do ar
e da terra e do fogo: e no esquecimento
do que foi o homem
antes da vida do homem
no caldo das águas simultaneamente transparentes
e sólidas.
- Supremo e austero, este, o coração desabitado,
foi, no entanto, o único capaz de se envolver com os impulsos
próximos dos ossos das nuvens
que se nos desprenderão da carne perdendo a arrogância
do céu e dos Anjos: pois, nem mesmo
a "abertura a um amor absoluto"
o consolará do desgosto
de não ter conseguido ascender por si mesmo
à sua ressurreição.
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  Chiote, Eduarda. Fiat Lux. Porto: Edições Afrontamento, 2017, p 36.
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sábado, 17 de março de 2018



                      21.


Que era o homem antes do homem,
o homem que pelos vistos não tem uma natureza humana
a tempo todo, a tempo inteiro, uma natureza má,
maldosa: uma natureza que lhe confere a forma modelada
à imagem das pessoas que conseguem coisas, não digo assombrosas,
prodigiosas, tal como as do mesmo objecto
em dois lugares - pouco, pobre! - mas coisas que fazem acontecer
tudo quanto e ao mesmo tempo nós?
Nós: condenados a repetir e ao ritmo de uma respiração
subatómica, o que nelas, coisas, a palavra sofre; pois ele é, por certo
e dentre todos, o homem o animal que se reclama pensar ser
o que mais sofre.
Ora. Se amar é, como o dizem, pensar alguém que nos é igual,
igual a nós, prescindamos então de interrogar as formas
que nunca estiveram sós no espaço em que nos empenhámos em desejar
humano o homem: contudo, não humano demais para conter
O que não pode dar-se a conhecer.


  Chiote, Eduarda. Fiat Lux. Porto: Edições Afrontamento, 2017, p 29.
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