Mostrar mensagens com a etiqueta Antonia Pozzi. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Antonia Pozzi. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016



             "  Pausa "


Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas -
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade -
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


   Pozzi, Antonia. Morte de uma estação. Lisboa: Averno, 2012, pp 85-87 (Tradução de Inês Dias).
.
.
.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016


     " Leve oferta "

Queria que a minha alma te fosse
ligeira
como as últimas folhas
dos choupos, que se incendeiam ao sol
sobre os ramos envoltos
de névoa -

Queria guiar-te com as minhas palavras
por uma alameda deserta, semeada
de ténues sombras -
até um vale de silêncio coberto de erva,
até ao lago -
onde vibra a cada sopro de ar
o canavial
e as libélulas brincam
em águas pouco profundas -

Queria que a minha alma te fosse
ligeira,
que a minha poesia te fosse uma ponte,
subtil e segura,
branca -
sobre a escura voragem
da terra.


 Pozzi, Antonia. Morte de uma estação. Lisboa: Averno, 2012, pp 81-83 (Tradução de Inês Dias).
.
.
.