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segunda-feira, 15 de agosto de 2016



  Final do " Canto XXXI-Sobre o retrato duma bela dama esculpido no seu túmulo "


(...)

Por natural virtude,
uma sábia harmonia
inspira ao sonhador
desejos infinitos e sublimes visões;
por isso em mar oculto, deleitoso,
erra o espírito humano,
semelhante a ousado
nadador que por gosto sulca o Oceano:
mas se um acorde dissonante
fere o ouvido, em nada
aquele paraíso se transforma num instante.

Natureza humana, como podes,
tu, que és tão baixa e frágil,
que és sombra e pó, sonhar tão alto?
E, se alguma nobreza também guardas,
como podem teus mais dignos
pensamentos e emoções tão facilmente
de tão baixas causas provir e extinguir-se?


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 237 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016



  Excerto do " Canto XIX - Ao Conde Carlo Pepoli "

(...)
Aquele a quem o culto das vestes e cabelos
e dos gestos e dos passos e os vãos cuidados (1)
de coches e cavalos, e as concorridas
salas, e as buliçosas praças, e os jardins,
aquele a quem jogos e cenas e cobiçados bailes
ocupam a noite e o dia; esse de cujos lábios
não se aparta o sorriso; ai, mas no peito,
no íntimo do peito, grave, fixa imóvel,
como coluna adamantina, mora
tédio imortal, contra o qual nada pode
vigor da juventude, e nem doce palavra
de rosados lábios a derruba,
nem o olhar terno, trémulo,
de duas negras pupilas, o olhar querido,
das coisas mortais a mais digna do céu.
Outros, como para evitar a triste
sorte humana, a mudar terras e climas
o tempo consumindo, e por mares e montes errando,
todo o orbe percorrem, os confins
dos espaços que ao homem nos infinitos
campos de par em par a natureza abriu
peregrinando alcançam. Aí, ai, sentou-se
na alta proa o negro cuidado (2), e sob
qualquer clima, qualquer céu, em vão se invoca
a felicidade, vive e reina a tristeza.


(1) As ocupações frívolas;
(2) O tédio.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 147-149 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016



   " Canto XI - O Pássaro Solitário "


Do alto da torre antiga,
ó pássaro solitário, para o campo
voas cantando até que o dia morre;
e a harmonia erra por este vale.
(...)
Ouve-se o balir dos rebanhos, o mugir do gado;
alegres, as outras aves, à compita,
pelo céu livre fazem mil rodeios,
festejando o seu melhor tempo:
tu, pensativo, olhas de lado tudo;
nem companheiros, nem voos,
não te importa a alegria, evitas os folguedos.
Cantas, e assim passa
da tua vida e do ano a mais bela flor.

Oh, como se parece
ao teu o meu viver! Divertimento e riso,
da tenra idade doce família,
e de ti, irmão da juventude, amor,
suspiro amargo dos passados dias,
não curo, não sei porquê; ou antes, deles
como que fujo para longe;
como um eremita e estranho
ao meu lugar de nascimento,
da minha vida passo a primavera. (...)

Tu, pássaro solitário, chegado ao fim
do tempo de vida que os astros te concedem,
da tua existência
não te queixarás; que da natureza é fruto
cada desejo teu,
A mim, se da velhice
o aborrecido limiar
evitar não consigo,
quando aos outros estes olhos já não inspirarem sentimentos
e vazio se lhes torne o mundo e o futuro
mais enfadonho e negro que o presente,
que me parecerá de tal desejo?
E destes anos meus? E de mim próprio?
Oh! arrepender-me-ei, e muitas vezes,
mas inconsolável, voltar-me-ei para trás.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005., pp. 103-105 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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domingo, 7 de agosto de 2016


   Final do "Canto VI - Bruto Menor"


(...) Para pior
caminham os tempos; e não pode confiar-se
a corruptos descendentes
a honra de egrégias mentes e a suprema
vingança dos infelizes. Que à minha volta
as penas rode o ávido escuro pássaro (1);
que a fera arremeta e a tempestade
arraste os ignotos despojos;
e o vento o nome e a minha memória acolha.


(1) o corvo.


  Leopardi, Giacomo. Cantos. Porto: Asa Editores, 2005, p. 71 ( Tradução, apresentação e notas de Albano Martins).
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