Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Mendes Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Mendes Ferreira. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de setembro de 2014



                          " 164. "


de uma folha faz a árvore de uma gota um rio. com um
grão de areia enche o deserto. e esta sua forma de falar
no poema sempre longe das evidências que são mera
narração e tão próximas do enigma e do símbolo. que
podem ser lidas com mil olhares.


dizia o nevoeiro para o sol que já era sombra no
mais doloroso eclipse entre as brumas do espanto e a
consagração do milagre da ausência. dizia o rigor da
pedra para o ouro do ventre da palavra fulminante. dizia.
quem de domínios não usava para usar a humanidade
mais pura. há sempre um momento de falas que cala e
reduz a estrada dos astros. o espaço é um perfume e a
alma um recanto a que se chega de joelhos. de uma folha
se faz a foice. também.


  Ferreira. Isabel Mendes. O tempo é renda. S/c.: labirinto de letras editores, 2014, p 111.
.
.

quinta-feira, 31 de julho de 2014





                           "   19.   "




eis-me infinitamente a contar as vozes da terra mesmo
quando disse que nunca mais te escrevia escrevo-te sempre
na dilatação do ser mais dentro e ser mais próximo em
simultâneo cair de pássaros como organza e prata como
bronze e céu como água nos teus pulsos caídos. sou ainda
deste tempo mútuo e consentido e em tudo te acrescento
e te rendo vivo. como restritíssimo fluxo que é veredicto
e admirável dizer outra vez a vez de voar. infinitamente.
andámos emergentes sobre a espada e sobre o fogo. eis-nos
milésimos sem lugar. elejo-te margem de mármore. solto
o passo e alcanço-nos a medida dos monges que é sempre
austera e motim de sombras quentes. perplexas e proféticas.


(...)




                 "   21   "




e resta saber se apenas o tempo foi jogo ou estremecimento
ou banquete ou rasura. resta o conceito a carta a espera
o banco os dentes cerrados e o caminho expectante. de
preferência distingo os séculos da luz indecifrável e de
todo o exílio. há um assombro a lavorar o esforço da
chegada que não chega. e das partidas que nunca o foram.
resta apenas saber se é puro o timbre e doce a queda
dos dias. ou se a invencibilidade é um oráculo lacrado a
sangue.______________________ resta todo o inesperado
das dependências e do sangramento da sombra. somos
pouco nesta margem da vida que de auspicioso tem só a
inversão e o esforço de um evangelho destroçado.




   Ferreira. Isabel Mendes. O tempo é renda. S/c.: labirinto de letras editores, 2014, pp 32 - 35.
.
.
.