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quinta-feira, 13 de agosto de 2015



Ó centro do prazer puro, partiste
E levas o que fui, entre arvoredos,
Como um balão fugido entre os dedos
Qual lágrima excêntrica caíste?
Eu que era tão soberbo no que eu era
Pisando sobre nuvens o meu trote
E ali engalanado fui dichote
De mim mesmo enganado fui quimera.
Ando sem gosto, amargo, sem esperança...
E agora estou tão só, oh, ando triste.
Não sei o que 'inda em mim 'inda resiste
Neste catorze de Julho... Viva a França!
Está frio. Sinto os rins. Nada me anima.
Vai alto o meu balão. Baixa auto-estima.


 
  Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 40.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015





Não sei o que fiz antes de te amar.
Não sei que vão comércio ou vã empresa,
Que Estrada percorri, que luz acesa
Deixei pra que voltasse pra apagar.
Foi tudo um sono, um rente entorpecer.
O que fizemos nós, tão sós no mundo?
Não sei que vão pensar meditabundo
Tornou sua razão razão de ser.
Nem lembro... somos breves, uma onda
Que quebra no olhar sua saliva
E a renda delicada rende aos seixos...
Mas hoje a minha vida quero-a viva!
Pensei que eram vigílias meus desleixos...
Agora a minha noite o dia ronda.




    Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 20.
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terça-feira, 11 de março de 2014



          "  Viandante "


Ele passa, recolhido e sereno,
ante a vénia da vegetação,
a coberto da turfa e do feto.
A grande errância selvagem
que diante dele se abre aquieta-se.
O seu fito o largo horizonte
aberto como um livro sobre uma mesa.
Ele é alguém que procura caminhos
não percorridos, porém não lhe ignorados;
a abóboda do espírito o seu firmamento.
Algumas criaturas são despoletadas
como molas à sua passagem;
aqui está uma: a lebre, e outra além,
o musaranho, minúsculo messias.
Uma toada poderá anunciá-lo
a vós, urze e tojo, e até acácia,
mas não lhe impeçais o curso
da sua não pensada reflexão,
o seu propósito lépido de regato.
Leva no semblante tamanha paz
que o julgaríeis munido
de uma não negociável alegria
e de uma eterna recordação,
fixo em uma busca que o anima
pelos ermos agrestes.


    Jonas, Daniel. Passageiro Frequente. S/c.: Língua Morta, 2013, pp 33 - 34.
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segunda-feira, 10 de março de 2014



    "  No pontão, subitamente  "


Não temos nada em comum:
nem o tempo dos encontros
nem a hora da despedida,
desencontrados entes rentes a si
e para sempre beijados por
intransigentes tangentes.

Apenas alguns pensamentos:
a chama do bico do gás,
o frio dos barcos,
a abordagem inesperada.

No pontão o vazio
é mais fundo,
as águas silenciam os seus soluços,
dizem-nos que o nosso amor morreu

mas além um vulto chama à vida
o nosso olhar
e reparamos que viéramos aonde vivêramos
assim replicando uma casa
com um regresso.


  Jonas, Daniel. Passageiro Frequente. S/c: Língua Morta, 2013, p 67.
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