Mostrar mensagens com a etiqueta João Rui de Sousa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Rui de Sousa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017



       O olhar que arde - I 


Regozijo-me
pela facilidade
com que me dou
ao olhar que arde,
ao coração que permanece e avança
(em busca de outras leis,
de um outro universo
com outras religiões,
com outras letras)
em direção ao sol que já me enleia,
em direção à terra que, insistente, piso,
em direção ao húmus
que constantemente observo
e absorvo,
em direção ao som que me faz
dançar,
que me faz voltar de novo
para o olhar que arde
frente à paisagem
às vezes desértica e silenciosa,
às vezes a mostrar um rio
e as suas verdejantes margens,
às vezes a deixar entrever
o próprio olhar que arde
e se dissolve
na sua aérea casa
de ternura.


  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 30.
.
.
.
 
     A escrita que tarda


A escrita do teu rosto já me tarda
e, embora tardia, é já abrasamento.
Sei o teu nome. Mas não sei o assombro
de te voar nos ombros e nas virilhas.

A escrita do teu rosto já demora
num corpo de páginas branquíssimas.
Estridente é a voz, esta que implora
pela luz das manhãs que te ornamentam.

Num cadeiral de sono e invernia
a escrita do teu vulto já me tarda.
Mas não desisto. Num estampido
de folhas e metal - num revolver
de brumas - reacendo o rumo
(o rubro) desta chuva
que há-de fazer crescer as tuas letras
nas páginas de mim, da minha alma.

  Sousa, João Rui de. Ardorosa súmula. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2016, p 17.
.
.