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quinta-feira, 9 de novembro de 2017


Lançamento do livro Noivos do Mar, Nº 13 da coleção contramaré da Editora Labirinto. Na foto: Henrique Levy (autor), Victor Oliveira Mateus (apresentador da obra) e Miguel Real (autor do Prefácio).


                   Nu


nu
junto ao portão da quinta
pés calçados no barro
as pernas cedros a tocar ciprestes
aguardam a glória dos lábios
de Caliope

os ombros
armas raras de sóis celestes
em encontros siderais
ouvem junto ao claro portão
o suspirar das rendas brancas do mar

nu
os teus olhos sacrificam
o tempo
saciando nos muros o orvalho
no mergulhar derradeiro da tarde

nu
és vida
a descansar bosques
na acesa tormenta
que os meus olhos invade

nu
sustentas a luz na memória
confusa da alma atenta
aos gestos das tuas mãos
afagos que sei esperar

o olhar molhado das nuvens ao passar
proclama o anseio de ser homem
cânticos de corpo em sede trocam sementes

nu
junto ao portão da quinta
crescem dores abrandam sonhos

se puderes
em lento voar nu
avança!


   Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 21-22 (Prefácio: Miguel Real. Posfácio: Inez Andrade Paes).
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017



                             Segredo


de súbito sem receios nem angústias
as tuas mãos sulcam as teclas de um piano
reclinado no prazer
em silêncio
oiço a saudade da memória
nas notas sonoras e vibrantes

escuta amor
na orla das praias d'águas a luzir
o murmúrio raro das ondas
a desenhar esferas mágicas
no sol amarelecido

beijo o teu corpo de pássaro
na convulsão vulcânica da ilha
que se abre luminosa
incendiando de música as águas

passa suave mais um ano breve

um rapaz canta no jardim
o segredo
- são flores, senhor, são flores...
confiadas a estes prados

- erguei as mãos, senhor, são flores...

o mar desnuda na terra
as brancas azáleas
nascidas em chão quente
como os fetos a urze o tamujo
batidos pelas marés e pelo vento

- são flores, senhor, são flores...


  Levy, Henrique. Noivos do Mar. Fafe: Editora Labirinto, 2017, pp 33-34 (Prefácio de Miguel Real. Posfácio de Inez Andrade Paes).
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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Resultado de imagem para "henrique levy"


                 "  das almas...  "

                  
                                      para Victor Oliveira Mateus


os poetas não dormem
olham para o mundo da noite
sonham ver a sombra do destino
os poetas morrem novos porque não dormem à noite
também há os que morrem muito velhos
para vigiarem todas as noites
que o mundo lhes entregou
de todas ainda sobram muitas...

os poetas cansados à noite choram
pelos que nascem na madrugada
oram em palavras escondidas
quando o espírito parece adormecer...

os poetas não sabem escrever
imploram o afastamento da dor
abandonados de tranquilidade
tentam resistir à agonia...

os poetas não são seres
são gente que se move nos astros
moribundos que pedem sono
almas acordadas que esperam
beijos de amor...

os poetas são folhas pequeninas
que tombam na manhã...
caem para a terra fecundar
num gesto que permanece
nos passos silenciosos dos outros
(folhas imensas que não tombam)

os poetas não sabem ler
soletram e as letras formam palavras
solidificadas que rasgam os corações
daqueles que não dormem à noite...

os poetas cansam as palavras
também elas não dormem à noite
permanecendo intrigadas
à espera que os poetas adormeçam
nos sonhos dos beijos por chegar


  Levy, Henrique. O Silêncio das Almas. Macau: CriarInovar, 2015, pp 37 - 38.
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   "  limite  "




encontrei figos desertos
flores por nascer
agora do promontório
vou desvanecer
atirar-me ao mundo
vermelho sangue
senhor a minha alma
é igual à alma
das ilhas


ambas têm por noivo
a malva a areia o trevo
deslizando na várzea
do corpo reinventado
em glórias e medo




   Levy, Henrique. O Silêncio das Almas. Macau: CriarInovar, 2015, p 34.
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