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quarta-feira, 29 de outubro de 2014



         "  Agora sem asas  "

aqui o meu voo é ao rés do chão
e declino a presença dos braços

meus pés pisam a terra com cuidado e desvelo
sonham caminhos que não há

pressinto uma brisa pelos cabelos uma sombra fugidia
que me leva pela mão

sigo um trajecto escolhido
desenhei-o com quatro pontos cardeais em giração
contínua
e a vontade é de conjugar o olhar ao acordar de uma
manhã em todas

floração desmesurada e luz solar em catadupa
os verdes retemperam a escala da íris alucinada
acesa de evidências indemonstráveis

dispenso assim qualquer demonstração
rigor cesura ou equação

vou num ritmo tenso e brando sem procura
sabendo que a chegada se faz a todo o momento

ao lugar onde inominado leve intenso

descubro algum saber ser

agora
sem asas

e deponho o que resta delas
no lugar

onde
inteiro

bate o coração


  Leite, Ana Mafalda. Livro das encantações. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, pp 45 - 46.
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  " O que já nos pertence "


                      Tirem-nos tudo/ mas deixem-nos a música


                                         Noémia de Sousa






povoa-me habita-me invade-me
não me deixes tomar este veneno sozinha
       estremeço de dor
como pode ser tão estranho sentir-me assim


tão alheio de dar ou pedir o que já nos pertence


enquanto sobre imaginados antúrios continua o voo
deslumbrante desses pássaros cegos para um norte infindo
convoca-me um leito sem pátria
                          onde a sombra reside na asa enorme
de pássaro que enche o quarto


invento novas canções por sobre o trapézio do mundo
e solto à cabeceira a paixão em ganchos cintilantes
flores arrancadas de longo pé
para que a minha loucura abrande
o fervor enfeite meu cabelo
solto em outro trópico
que dança


um candeeiro de luz se acende no mapa ao ver-te
sem saber que não me é necessário pois seus raios não
chegam para iluminar esta pomba mansa que se  instala na
minha íris e voa em longas índicas asas e se expande
longe no horizonte
sem saber que a arte é não haver noite suficiente
para tanta demora em chegar a terra


por que não me desvias o olhar e me levas para um escuro
cintilante em que a lua não mente


por que me cega este sol em que me desejas agora?




  Leite, Ana Mafalda. Livro das encantações. Lisboa: Editorial Caminho, 2005, pp 25 - 26.
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