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sexta-feira, 9 de março de 2018
na incerteza do amor, o que nos resta é um corpo à
chuva, no centro do aluvião, como uma catedral desfeita
de papel, um movimento invisível, desmontando o
cantar da solidão, para nos dizer que o dicionário cegou
sobre esta tristeza, que não há palavra que chegue a casa
e substitua o lume: o que nos resta é uma aliança na arca
que ficou por encher, um mistério que nunca tapou a
sede ao crescer do desejo, uma taquicardia por tirar da
gaveta, um céu tão subido, e a coroação das rosas, como
redenção do inverno. na incerteza do amor, o coração
dobra-se num precípício, um soluço, portanto, como
travessa de pedras encalhada, entre o esquecimento
que espera e a boca que arrefece, um poema devastado,
um relógio triste, um piano avariado, caindo para
dentro, como míngua concentrando o silêncio.
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. Gonçalves, Daniel. Pequeno Livro de Elegias. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p 33.
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quinta-feira, 8 de março de 2018
vem buscar-me as mãos a noite já aceitou a minha tristeza
tenho esta sede como um delírio na duna frágil do cansaço
atravessa o livro que deixei aberto no chão (o último poema)
que eu tenho frio e não sei se encontro asas para regressar
preciso da tua retina aguada da tua estrela tão deslumbrada
do pontão atravessando a reluzente volúpia dos segredos
da sinceridade com que falas às cinzas azuis dos sonhos
a noite entrou no meu orvalho e bebeu a vida que restava
que mais posso eu guardar em minha boca que não arda?
que cintura delicada que fulguração que volúvel lucidez
me cerca agora que todo o imponderável infinito é tranquilo?
traz-me os aluviões do teu estuário vem buscar-me agora
sentiste o meu grito? venceu o olvido vazio que nos separa?
sê tu a água que me desata o olhar a mão que me acorda
um beijo flutuando com esta música no trapézio da manhã
Gonçalves, Daniel. dez anos de solidão. Fafe: Editora Labirinto, 2007, p 178.
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quarta-feira, 7 de março de 2018
todos os dias a tua ausência se repete
dia após dia o longo caudal de silêncio
pedra a pedra suportando o peso da sede
até que a casa derrame a sua voz secreta
e nem uma ave te acorda nem uma estrela
ou outra música anoitecida te pode envolver
é este o ofício que nos corrige a cegueira?
este vazio violando a nossa respiração?
a espera tecendo o horizonte as asas do tempo
a doçura inscrita na fulguração da distância?
Gonçalves, Daniel. dez anos de solidão. Fafe: Editora Labirinto, 2007, p 57.
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terça-feira, 6 de março de 2018
quando te der saudade de mim, e a poeira
assentar, quando o chá ficar pronto,
e o amor desadoecer, quando vires a caravela, que nos vem
salvar, ata esse poema ao lume, e deixa crepitar,
o nosso tempo há-de subir, para dizer das
palavras vindouras, a casa para os retratos, ventre
para as sementes, hora para as mãos, quando te
lembrares desse domingo, e o relógio parar, atrás
do que não importa, no ruído das coisas que nos
atrasam, atrás do tiquetaque da fome, como uma
sombra nítida, entre a cor e a música, quando
sumires de olhos abertos, cai no meu nome,
tropeça nesse tronco, e acorda comigo, outra vez.
Gonçalves, Daniel. Buarquianas. Santa Maria dos Açores: Confraria do Vento, 2018, p 1.
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segunda-feira, 5 de março de 2018
não sei se isto é amor, se é poesia que engana,
quando organiza as palavras, à volta do teu nome,
com a tua caligrafia antiga, a servir de candeia, não
sei se isto é amor, se é sombra que evolui lentamente,
passando de palavra em palavra, até chegar à tua
boca, não sei se isto é amor, se fosse amor, por certo,
brilhava no escuro, dispensava as mantas, evitava
este poema.
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Gonçalves, Daniel. Papéis Secundários. Ilha de Santa Maria, Açores: Confraria do Vento, 2017, p 15.
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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
eu, poeta sem função, inquilino das palavras
oblíquas, torto como um rádio à beira de avariar,
se negamos a música dos outros, e sintonizamos
países extintos, ainda assim, nessa habilidade de
circo mudo, enfeito com pérolas o pescoço do
silêncio, ignoro os prodígios da civilização, e fico
a falar sozinho, dirigindo o trânsito das coisas
pequenas, evitando a contramão do amor, ele que
sempre tem razão, quando traz os recados mais
simples, na urgência de evitar a taxa máxima, que
sempre pagamos, quando pomos a falar o coração.
Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 32.
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a noite entrou nos meus olhos, apagou a cor das
sombras, as paredes ficaram nuas, como os gatos
pardos, debaixo da lua fundida, preciso do teu
nome, no meu apelido triste, manda-me um lado
do teu rosto, para eu cunhar na minha sombra, uma
linha descosida, aguentando a língua do verão, se
ainda houver sinal, de termos descido da poesia,
e talvez bastasse uma porta mal fechada, que eu
ainda me lembro, como se chega ao resto da casa,
como se organizam as tuas gavetas, como respiras
debaixo dos livros, como dobras as cartas depois
de lidas, manda-me qualquer coisa, remendada
ou fora do tempo, metade de uma coisa que fosse,
uma aparição tua, já não peço tanto, tão pouco
que nem vale a pena rezar aos santos, já todos me
ouviram morrer em silêncio, à tua espera.
Gonçalves, Daniel. Estes assuntos tristes. Fafe: Editora Labirinto, 2016, p 9.
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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
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