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sábado, 25 de novembro de 2017


                                                Romance moderno


   Seis meses bastaram para que soubessem tudo um do outro: que ela se orgulhava da intrepidez que uma tatuagem (um beija-flor plagiado do catálogo do estúdio) na virilha representava, que ele gostava de videogames, que ela lia Proust, que ele cursara um bacharelado em Física, que ela era fluente em francês, que ele se tornara fã de Godard, que ela saía com uma ruiva de dezanove anos, que ele não tinha muitos amigos, que ela trabalhava como free-lancer, que ele retocava o primeiro livro, que ela desejava se casar na igreja, de véu e grinalda, que ele viveria na Europa por uns tempos, que ela era mãe de uma menina de cinco anos, que ele afrontava o psicanalista duas sessões por semana, que ela e a filha moravam num apartamento quarto e sala, que ele era ateu, que ela o convidava para um jantar, no próximo final de semana. Depois de tanta conversa, concordaram que era hora de se verem. Já não se continham: logavam dez, onze vezes por dia e os papos se estendiam por horas: planejavam o noivado. No dia anterior ao encontro, um recado: ela lera cinco páginas do romance dele e que, a despeito de um ou outro clichê, a história prometia. Havia também uns detalhes sobre o estilo, mas nada que não pudesse ser resolvido e até gostaria que trabalhassem juntos na correção. Para, pouco depois, ele cancelar o encontro e digitar uma última mensagem: vou excluir o seu perfil dos meus contatos, não me procure mais, você não está me fazendo bem. Tchau.
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 Fraga, Whisner. Lúcifer e outros subprodutos do medo. Guaratinguetá: Penalux, 2015, pp 52-53.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014



ah, o terraço dos extravios: era ali que mutilavam, entre um comentário indigno e uma maliciosa conjectura, o fulcro da vergonha, era ali que escarafunchavam a conduta dos homens com o ato de fé das feridas. eu pleitava apenas a evasão daquela cama, para não mais usufruir da venéfica pregação daquelas duas mulheres. até que indicaram, com uma desoladora erudição, a procedência da minha dor: não era um parasita que me beliscava o precipício do abdome, mas uma entidade muito mais perversa, a que comumente chamam de desespero.


   Fraga, Whisner. abismo poente. São Paulo: Ficções Editora Ltda., 2009, p 64.
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domingo, 5 de outubro de 2014




sob o gesso dos olhos o desespero coagulado, o mistério rastejando nas barras da sua sobrancelha, um comício de dúvidas revestindo o vitoriano manto da incompreensão, mas são assim as coisas não sorvidas pela goela da vista, as invisibilidades tardias, mesmo o vento só é plenamente vento quando se revela por meio da poeira, ah, tomés, ah, helena, este nosso mundo é uma espessa cratera de inexistências, da qual nos desviamos com as córneas empoladas de medo e arrogância. preferimos a companhia dos retardados, das prostitutas, dos aleijados, porque podemos olhar em sua direção e conjecturar ou mesmo dizer: eu os perdoo. do mesmo modo, odiamos o patrão, os mais ricos, os mais poderosos, porque nos encaram lá de cima, empunhando transbordantes cântaros de indultos e cuspes, miram nossas cabeças e nelas entornam a saliva da compaixão.
é o poliéster dos seus braços, o nylon dos peitos, as fibras do tronco, a tinta da boca: esta nova você, helena, que encomendei on line numa dessas páginas de manequins. e é com ela que o bolero das deformidades afocinha o favo da sala, enquanto os alto-falantes espezinham a quietude do nosso amor, o clarim gagueja nos confins de meu entendimento e potestades vaticinam a afinada bitola de seus ardis.


  Fraga, Whisner. abismo poente. São Paulo: Ficções Editora, Ltda, 2009, pp 26 - 27.
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