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terça-feira, 3 de abril de 2018



ama os teus sonhos
como o teu próximo

ou como os sonhos
do teu próximo

mas se o teu próximo
não tiver sonhos

convém mandar o teu próximo
para muito longe

donde não te possa
contaminar


  Vieira, Alice. Olha-me como quem chove. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, p 57.
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segunda-feira, 2 de abril de 2018


um dia chamei por ti e
não vieste

estava sentada     como agora
neste velho café de campo de ourique
olhando quem vende sonhos nas feiras
à sombra da maria da fonte e dos velhos
que morrem devagar ao ritmo
das cartas lançadas
sobre os bancos de pedra

e as minhas mãos apertaram com tanta força
as mãos que não havia
que o sangue se espalhou pela toalha
enquanto lá fora um carro travava
porque alguém     tu     quem sabe
se atravessara de repente
no meio da rua

morreu
perguntei
mas os criados não me responderam
os olhos presos no vidro do copo
esmagado entre os meus dedos    e
tomando nota da despesa

mas depressa entendi que
não valia a pena esperar por ti neste lugar
embora todas as árvores tivessem um dia
aprendido os nossos nomes
dando sombra ao que
possivelmente
só elas soubessem que
andaria à deriva pelas nossas vidas

hoje
possivelmente
já nem recordas o caminho
e     de resto     o café está mudado
os velhos falam de futebol
de umas mesas para as outras
e as mulheres vêem nos espelhos
rostos de velhas que desconhecem
e têm     subitamente     muito frio

virá
pergunto eu hoje
nem sei porquê     nem a quem
mas também agora os criados
não me responderam
os olhos mais uma vez colados à mesa
onde em tempos o sangue
escorria dos meus dedos


  Vieira, Alice. Olha-me como quem chove. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 17-18.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015



"cuando yo te vuelva a ver
no habrá más penas ni olvido"
canta Reynaldo
ensaiando comigo
dois últimos passos de tango

há duas noites que não dormimos e
escorremos suor e acordes de bandonión
quando de manhã pedimos
as chaves no hotel

como agora     em que nos olhamos
ao espelho do elevador     e rimos
do nosso cabelo desgrenhado
colado à testa

"depois de velho é que
me deu para isto"     diz Reynaldo     repetindo
"no habrá más penas ni olvido"
enquanto nos vidros escorre uma chuva cinzenta que
nos levará amanhã a
pátrias diferentes

"ninguém é velho em Buenos Aires"
grita-nos     ofendido
o empregado da receção


   Vieira, Alice. Os armários da noite. Alfragide: Editorial Caminho, 2014, p 59.
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domingo, 20 de setembro de 2015


aprendi nas pequenas gares de província
a esperar comboios que não chegavam nunca
(ou chegavam tão atrasados que
no momento em que se avistavam
já eu tinha desistido deles)
e sempre invejei o velho Tolstoi
fugido de casa aos oitenta anos
a deixar-se morrer numa delas
no meio de toda a brancura do mundo

um dia     entre Belver e Gavião
(possivelmente nem sabes onde
isso fica)
uma velha pediu-me que lhe segurasse as mãos
porque     de repente     sentira muito medo de
morrer sozinha
(coisa que nunca deve ter passado pela
cabeça do velho russo
para quem a morte só podia ser um
brando ajuste de contas sem testemunhas)

então     entre curvas e desvios     contei-lhe
todas as curvas e desvios das minhas vidas
e ela sossegou um pouco     e disse que
eu ia ser muito feliz porque sabia
distinguir entre todos o comboio certo

aquele     explicou já na saída
que se afasta no exato momento em que
o sol desenha a nossa sombra no olhar de
quem nos deixou


    Vieira, Alice. Os armários da noite. Alfragide: Editorial Caminho, 2014, pp 32 - 33.
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