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terça-feira, 24 de janeiro de 2017


(Estes dois excertos ilustram a recensão que segue imediatamente abaixo)
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Racionalmente, desejava ser um rei constitucional, mas o seu temperamento pressionava-o a agir de outro modo.
   É por isso que não é simples adjectivar este rei do ponto de vista da divisão entre esquerda e direita. De certa forma, a tentativa nem faz sentido. A vitória dos liberais durante a guerra civil de 1832.1834 levara a que o centro da vida política se deslocasse para a esquerda. Como notaram os estrangeiros que visitaram Portugal, aqui toda a gente parecia "progressista". Agarrada ao Trono e ao Altar a direita suicidara-se. Educado por pais liberais, D. Pedro era, e queria-se, um monarca exemplar. Nunca quis ouvir falar das desgraças do tio-avô D. Miguel, muito menos dos exilados que o tinham acompanhado. Desprezava as velhas famílias, que considerava caquéticas. Odiava os antigos rituais monárquicos. A boçalidade das classes médias enervava-o. Sofria com a miséria popular entrevista durante as viagens que fizera pelo país. Mas não tolerava limites ao seu poder.
(...) Por outro lado, nunca defendeu que o ensino primário devesse ser entregue a padres, classe, aliás, que considerava demasiado ignorante para merecer respeito. A sua ambição era montar uma vasta rede de escolas primárias, o primeiro passo, na sua opinião, para o desenvolvimento económico do país. Finalmente, queria que Portugal fosse atravessado de comboios, que o porto de Lisboa se transformasse no mais bem apetrechado da Península Ibérica e que as estradas passassem a ser vias decentes, tudo coisas que permitiram ligar o país ao resto da Europa.
   Além da modernização económica, interessava-o o aperfeiçoamento do sistema representativo. (...) Os actos eleitorais ocorridos em Portugal deixavam-no prostrado. A realidade caciqueira impunha-se, feroz, contra a sua vontade. Apesar de tudo, em 1859, conseguiu impor a promulgação de uma boa lei eleitoral. Mas o seu feitio não era de molde a tirar prazer de pequenas reformas. Até morrer, continuou insatisfeito: com os governantes, com os súbditos e, acima de tudo, consigo mesmo.


 Mónica, Maria Filomena. D. Pedro V. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005, pp 205-206.
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   O rei abordava ainda o suposto perigo que a construção das linhas férreas representava para a segurança nacional, um alerta lançado, em 1853, por um dos mais destacados intelectuais do período, Alexandre Herculano. As relações entre este e o rei não eram tão boas quanto usualmente se julga. Um tecnocrata feito a pulso, D. Pedro tinha pouca paciência para os devaneios medievalistas do historiador. Em novo, admirara o homem que seu pai escolhera para bibliotecário do paço, mas pouco a pouco, as ideias destes dois homens foram divergindo, (...) Os temperamentos de Herculano e de D. Pedro eram demasiado diferentes para se poderem dar bem. Herculano acabaria no exílio interior, coisa que, estivesse vivo, o rei teria certamente desaprovado.
   Uma prova de que as relações entre ambos tinham azedado, ainda antes do final da década de 1850, é-nos dada pela hesitação de D. Pedro em convidar Herculano para reger a disciplina de História no Curso Superior de Letras. Eis o que, em apontamento privado, escrevia: "A. Herculano deixa-se dominar a tal ponto pela ideia da existência de grandes perigos nas tendências invasoras da cleresia e da aristocracia que não sei se seria possível obrigá-lo a não fazer uso da arma do ensino para a defesa da sua causa". Tendo em conta a reputação do historiador junto das elites, acrescentava: "É difícil deixar de oferecer a A. Herculano a cadeira de História, pelo menos apalpá-lo, para não lhe dar a satisfação da recusa (...) Pareceria, pelo menos, uma vingança aos olhos dos que, não sei por quê, acreditam (...) diametralmente opostas as ideias de A. Herculano e as minhas." (...) Eis outra passagem relativa à meditação do rei sobre o assunto: "É provável que A. Herculano não aceite, não quadra com os seus hábitos a disciplina a que teria de sujeitar-se, nem lhe deixam os seus trabalhos habituais tempo para traduzi-los no ensino da mocidade, para o qual ele não tem a paciência benevolente e a indulgência de que ela precisa. Chefe de escola, ou, pelo menos, pretendendo sê-lo, o magistério seria, porventura, para ele uma propaganda e ele sabe que as multidões não se dominam senão a troco de concessões do amor próprio (...) Na falta de A. Herculano, não me lembra outro nome que o de Rebelo da Silva." De facto, após a previsível recusa daquele, seria este a ocupar o cargo. Data ainda desta época a carta que Herculano escreveu a Filipe de Sousa, na qual se queixava do facto de o rei poder "vir com insistências pueris" junto dele, acrescentando estar "pouco disposto para o aturar". A amizade entre os dois desaparecera.


 Mónica, Maria Filomena. D. Pedro V. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005, pp  176-177.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017


     O "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica acaba de me fascinar pela forma rigorosa, criteriosamente doseada e nada enfastiante com que articula História Política, História Sócio-Económica e História Cultural. Não sendo as duas últimas as mais abordadas na obra, não por opção ideológica da obra, mas porque a cadência das mutações nessas áreas, atávicas e sonolentas, não aparecem como significativas. O mesmo não sucedendo com a História Política: período de convulsões sistémicas e sistemáticas o reinado de Maria II deixa ao filho um período de bonança, mas no qual a intriga política se mantém e é aqui que Maria Filomena Mónica é magistral: no bisturi com que escalpeliza personalidades e comportamentos da época: o sonso e intriguista Saldanha, o sonolento e negligente Loulé, o ambicioso e ousado Fontes, o passa-pelo-intervalo-da-chuva Aguiar, etc. Contudo, é sobre a figura de Pedro V que a análise psicológica atinge o ponto máximo: simultaneamente sarcástico e exigente (relativamente ao irmão, futuro Luís I), apaixonado e frágil (para com a mulher)... Pedro V fez-me lembrar as várias visões de Luís da Bavieia, sobretudo na versão de André Fraigneau: um rei marcado pela solidão, demasiado sério, lúgubre, crítico em relação aos políticos, que tanto lhe haviam feito sofrer a mãe e em relação à leveza do pai. Razão tem Oliveira Martins quando diz que os Braganças haviam acabado com Maria II, com Pedro V - e a partir dele - é outro ramo que surge: os Saxe-Coburgo Gotta. Aliás, a política internacional não escapa à análise de Maria Filomena Mónica e são inúmeros os excertos de cartas entre o rei e o tio, o marido da rainha Vitória, que constantemente o aconselhava nos mais diversos assuntos. Pedro V era um homem só, o breve casamento com uma rainha que morreu prematuramente... e virgem!, deixou-o ainda mais marcado pelo desalento: avesso à intriga política, fortemente empenhado no desenvolvimento do país (caminhos de ferro, estradas,, escolas, uma ousada reforma eleitoral, etc.) pelo qual luta com unhas e dentes, mas que um país miserável e repleto de intriguistas retarda o mais que pode. Razão tinha também Eça de Queirós, que, numa das suas "Farpas", diz que o jovem rei viveu antes e depois do tempo: depois do tempo, porque se tivesse sido um rei absolutista teria levado o país para a frente passando por cima das tricas políticas, antes de tempo porque se tivesse sido um republicado teria também levado o país para a frente. Pedro V é uma personagem trágica - o único dos Braganças a quem Guerra Junqueiro, no seu "Pátria", não arrimou os dentes - um homem ávido de progresso tecnológico e sócio-cultural para o seu país, mas um ultra-romântico na forma de entender as mulheres, as relações interpessoais e de traçar o seu próprio destino. Maria Filomena Mónica, não sendo da área das psicologias, é magistral a desenhar o retrato da alma de um jovem melancólico, que aos 20 anos observava, analisava e escrevia como poucos; que não podendo governar inundava os vários governos com missivas e recomendações e, quando "a feira já não se aguentava" demitia os próprios governos. O que sempre me impressionou nesta figura, foi a enorme sabedoria de um jovem que acaba por morrer aos 24 anos. Uma personagem assumidamente romântica!

Foto de Victor O. Mateus.