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quarta-feira, 1 de novembro de 2017



                 Circo de Feras, Xutos & Pontapés


Ai do verbo querer que tanto
Tem feito pelo equívoco
Da indecisão que nos remete
A saudade para o domínio da posse
E nos faz julgar incorrectos
Os passos dados até ao encontro.

Entretanto, a pausa para olhar
Em volta torna-nos
Mais silenciosos, menos dados
A processos de culpa ou de anseio,
A espera refaz sorrisos
E o abraço do primeiro encontro.


    Almeida, Rui. A Pedra Não Pode Ser Coração. S/c.: do lado esquerdo, 2017, p 34.
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terça-feira, 15 de março de 2016


Chora, chora tudo o que perdeste
E junta às lágrimas quanto te ficou
Por fazer. O teu lamento é coisa

Menor, como tu. Remete-te à solidão
Já que tanto te odeias, ó fraco. Foge
Ainda mais do que já fugiste, não

Mereces nada além da rouca voz
A sair-te por entre os dentes sem
Capacidade de morder. No raso

Da terra que te suja já nem as ervas
Secam. Extingue os olhos, chora,
Deixa-te sozinho aí num canto.


  Almeida, Rui. A solidão como um sentido, seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, 24.
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Lado a lado, a solidão
E a memória queimada
Da infância. Falhas
Na superfície lisa do tempo

Aceleram a rapidez
Da queda no abismo.
Lado a lado, a sombra
E a cor distorcida

De um mar demasiado
Longe, onde não
Se naufraga. A cor

Do céu ausente,
Feito da ilusão de tudo
O que é lembrado.

  Almeida, Rui. A solidão como um sentido, seguido de Desespero. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2016, p 11.
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quinta-feira, 3 de julho de 2014





Diante das aves caem migalhas,
Silenciosos pedaços do mundo,
A prometer sustento. Para as aves,
Fazem parte da existência, do
Convívio com tudo o que existe sempre.


Com as migalhas que caem, as aves
Se alimentam, se divertem, se lembram
Que são aves pequenas, que a queda
É apenas o assombro de ser
Não mais do que ave e ave pequena.




   Almeida, Rui. Temor Único Imenso. Fafe: Editora Labirinto, 2014, p 8.
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