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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014



  " Soneto de desafio ao mito do Eterno Retorno "



Inquieta-me pensar que no passado
há o futuro e neste há o tempo ido.
O que vivenciei com um amor morto
em outra tez viverei com um amor vivo?
Esse mito do Eterno Retorno arfa
quando anseio nutrir novo destino.
Eu quero dados virgens na água,
vê-los modificar curso de rio.
Cala-te, Zaratustra, quero crer
que cada amar é outro criar de ritos,
que cada homem tem em seu buquê
uma desconhecida flor em cio!
       Também desejo ser criação inédita,
        não ter nenhuma pétala como réplica.



  Moutinho, Rita. Sonetos dos Amores Mortos. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2006, p 133.
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014


   " Soneto do grilhão, elo invisível que aprisiona "


Ainda penso em ti com minhas asas
impondo um sobrevôo em tempos idos,
olhando distanciada o suor das brasas
e férreos liames frouxos e corroídos.

Não sei se voltarás, és tão medroso,
tão escravo é teu pé de pega tensa,
que enublaste os anseios da alma e, oleoso,
escoaste em poço seiva ainda intensa.

Transito entre esperança e conformismo,
com tua imagem de presa borboleta,
levando-me ao beiral do fatalismo.

Estão entre aspas todas as certezas,
enquanto o tempo escorre na ampulheta,
somando, aos grãos, a água das tristezas.


 Moutinho, Rita. Sonetos dos Amores Mortos. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2006, p 30.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014



     " Soneto do falo falho ou do quixotesco "


Unir os pólos nus gerando um sol
áureo, senhor, fidalgo de um archote,
que tremeluz na alcova e no lençol,
não pude com meu casto D. Quixote.
Nosso gozo se dava nas idéias
que nos suavam das bocas ao luar,
com vários cantos, como epopéias
ingênuas, sem potência, sem raiar.
Bem quis percorrer léguas de epiderme,
tocar banjo nos fios das madeixas,
amarrá-lo a dosséis e, vendo-o inerme,
atacá-lo com o mel voraz das gueixas.
       Mas o amor pleno pus no desalento
       e meu cio em moinhos só de vento.


    Moutinho, Rita. Sonetos dos Amores Mortos. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2006, p 27.
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