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quarta-feira, 18 de junho de 2014



                        " A Fábrica "


As negras chaminés, quais bocas tenebrosas,
Cospem no azul negros escarros pestilentos
Dum fumo que envenena as paisagens nervosas
E que os lúcidos céus nos torna nevoentos...

A fábrica trabalha, e silvos estridentes
Cortam, como uma espada, a trágica atmosfera.
Há rodas a girar, grandes fornos ardentes,
Terríveis como o olhar sangrento da Quimera!

Lívidos rostos, como lágrimas, orvalham
Os vapores que vão mover as engrenagens.
Há negros vultos revoltados que trabalham,
Enquanto o sol fecunda o ventre das paisagens!

Vem visitar, ó Dante, este medonho inferno,
Os negros antros do Trabalho e da Miséria...
Cavernas onde geme o sofrimento eterno
Que tem no rosto magro a palidez funérea!

Anda ver, ó Poeta, os antros do Martírio,
Os modernos Titãs que hão-de escalar os céus...
E nas forjas, a arder, as chamas em delírio,
Que, porventura, anima a cólera de Deus!...

E a bigorna onde forja a Dor o raio ardente
Que há-de o mundo imperfeito e injusto fulminar!
Mas nesta escuridão eu vejo claramente
O brando alvorecer dum místico luar...

E da Fábrica cruel, cheia de fumo e treva,
De grandes corações amargos, sofredores,
Um grande sonho, ó Deus, fantástico se eleva,
E envolvem a oficina estranhos esplendores!...


   Pascoaes, Teixeira de. Para a Luz, in Obras Completas, Volume II ( Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho). Amadora: Livraria Bertrand, 2ª Edição, pp 75 - 76.
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segunda-feira, 16 de junho de 2014





                 " A minha musa "




A minha Musa agora é sombria mulher
Que, faminta e descalça, eu vejo em qualquer parte.
Quero encontrar na noite a luz do alvorecer
E nuns farrapos de mendiga uma obra d'arte.


Há nos teus lábios, Musa, o murmúrio das fontes
E no teu corpo verde há ramos doloridos.
Por sobrancelhas tens os vastos horizontes
E os nevoeiros são teus húmidos vestidos...


Simbólica mulher, descubro no teu rosto
Os traços da Miséria... a tua mãe decerto...
Nos teus olhos crepita o incêndio do sol-posto,
Há neles a amplidão magoada do deserto!


Um vento de injustiça açoita o teu cabelo,
Enruga a tua fronte a cólera de Deus!
Mas nos teus lábios ouço a voz do sete-estrelo,
A prece do luar e o cântico dos céus...


O pranto que floresce à luz do teu olhar,
Como os mundos do espaço à luz dos claros dias,
Na minha alma entrou, como um sinistro mar
Que salta, espadanando, as broncas penedias!


Dentro em mim se mudou num ideal perfeito,
Tudo o que ao meu ouvido, ó Musa, tu segredas,
E o ódio que incendeia o teu sensível peito,
Meu coração cobriu de estranhas labaredas!


Grande mendiga, vais, ó terra solitária,
Pedindo à luz do sol a esmola duma flor.
Sòmente existe em ti, mulher extraordinária,
O ventre auroreal que concebeu a Dor!...


Vejo-te percorrer o abismo do infinito,
Num sonho enorme, num constante delirar
Que inunda de clarões teu perfil de granito,
Onde gelou de dor a lágrima do mar!


Depois que te encontrei naquele dia baço,
Escuro como a sombra humana duma cruz,
Todo o meu corpo foge, em fumo, pelo espaço,
Toda a minh'alma eu vejo a desfazer-se em luz!...




   Pascoaes, Teixeira de. Para a luz, in Obras Completas, Volume II ( Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho). Amadora: Livraria Bertrand, 2ª Edição, pp 56 - 57.
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Nota - Este poste respeita a grafia da época.
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sábado, 14 de junho de 2014





                  " Delírio "




Esta vaga tristeza irmã do Outono,
Esta dorida cor lilás que pinta
Longes de alma, distâncias de paisagem
E o divino cadáver de Jesus...
Poeiras roxas que o zéfiro doirado
Espalha sobre as cousas, à tardinha...
Este mistério que anoitece o mundo
E cai do Sol em lágrimas de treva...
Diante de mim, este caminho aberto
Que ninguém sabe onde é que vai parar;
Esta saudade infinda que se abrasa
E é teu perfil aceso na penumbra...
Estas sombras nocturnas que me falam
E me cercam de vozes espectrais,
De medos e de espantos fabulosos,
E se desprendem do meu corpo, e tomam
Estranhas e fantásticas figuras,
No mesmo espaço fluido e transparente
Em que, densos de bruta realidade,
Se esculpem negros troncos e penedos;
Este escuro profundo em que me sinto
Pairar e flutuar, delido quase
Num triste sentimento indefinido
Que a limpidez do ar azul perturba
E põe um véu de luto nas estrelas;
Este indeciso estado do meu ser,
Sem forma e sem limites, que ama e sofre,
Longe da dor, além do próprio amor,
Dá-me não sei que morta consciência
Da vida - uma visão misteriosa
Do mundo que se afasta no Infinito
E se reveste de uma luz defunta...


E um sonho de tristeza me deslumbra,
E transfigura tudo... Este penedo,
À luz da lua, é mundo visionário,
E em volta dele pairam sombras de almas...
Esta soturna casa onde nasci
Foi por ermos espectros construída,
Durante as horas mortas... Este lódum
Que, junto dela, viu passar por ele
Invernos mais Invernos, Primaveras
Atrás de Primaveras, - que aparência
Humana e triste o envolve! Lembra um anjo
Condenado a ser árvore velhinha,
Cismático, alongando no crepúsculo
As asas depenadas pelo Outono...
Está de sentinela, dia e noite,
À casa onde eu nasci, sepulcro enorme
Onde repousa a minha infância morta,
Onde o luar congela nas paredes,
E o Sol, todo alegria, se condensa
Num oiro de tristeza, ao cair da tarde.


Em ti quisera repousar por toda
A negra eternidade! Ó minha casa!
Ó templo do silêncio, em ermo outeiro,
Tão povoado de misteriosas sombras,
Como, ao luar, um velho cemitério.
E a minha fonte é a fonte do silêncio
Quando aparece a lua na montanha,
Como caveira a erguer-se luminosa
Das trevas dum sepulcro...


            E quem sois vós,
Ó tristes pinheirais, ó pobres mártires,
Atirados às chamas do poente?
E estas nuvens que os ventos esculpiram,
reproduzindo as fabulosas cenas
Cantadas por Homero, o pai dos Deuses?
E esta pedrinha humilde cintilando,
Sob os meus pés, como pequena estrela
Caída das alturas infinitas?
E este velho mendigo que me lembra
A aparição de Cristo a errar no mundo
- Dum Cristo mais humano e envelhecido
A quem os nossos crimes e pecados
Enrugaram a fronte e lhe cobriram
De brancas os cabelos?
E o fantasma agoirento do crepúsculo
Que agita as asas negras
E acende, ao longe, uma estrelinha de oiro?
E esta pocinha de água, tão profunda,
Que tem astros e nuvens no seu leito?
E para além das nuvens e dos astros
Quem sabe que distâncias haverá?
Que larguezas de sombra indefinida
E que espaços de eterna claridade?
E este pobre maluco a falar só,
Gesticulando aos ventos da noitinha,
Exalando no ar o seu fantasma,
Aquele vulto enorme que o persegue
E lhe transtorna o mundo, porque o Sol
Atrás dele se oculta de medroso
E não é mais que um lívido fulgor?


Os meus olhos as coisas transfiguram.
Vivo como as crianças, num constante
Deslumbramento, num delírio de alma!
Não sei que estranha força me arrebata
Para aquelas alturas donde a terra
É pequenina lágrima de luz...
Vou levado num ímpeto nocturno,
Nos braços de uma sombra enlouquecida,
Seduzido e aterrado, ao mesmo tempo!
Grito com medo! Extasiado, canto!
E, cantando e gritando, vou levado
Nos braços duma sombra, etérea Deusa
Que me beija na face...
E sinto que desmaio e me disperso
Numa poeira branca de luar...




    Pascoaes, Teixeira de. Cânticos, in Obras Completas, Volume V (Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho). Amadora: Livraria Bertrand, s/d., pp 176 - 179.
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Nota - Este poste respeita a grafia da época.
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                     XXXV




O poeta é um pobre doido errando, sempre além.
Deste mundo, a cantar, em vida se desterra.
Anjo de Satanaz, anjo de Deus, que tem,
No alma toda a luz, no corpo toda a terra.




                   XXXVI




Paisagens, céus, luar, nuvens, estrelas, lagos,
Para quem não amar, é tudo uma quimera.
E só quem ama alcança esses espaços vagos
Onde sentimos germinar a Primavera...




                 XXXVII




             Amar é ver a Deus,
       Porque ele está presente em nosso amor.
Quem ama neste mundo habita lá nos céus,
Quem ama traz ao lado a sombra do Senhor.




              XXXVIII




       Quem te acendeu, a estrela solitária,
Que exalas, na penumbra, a luz da minha vida?
Voltarás porventura à fonte originária?
Ou em noite sem fim divagarás, perdida?




  Pascoaes, Teixeira de. Cantos Indecisos, in Obras Completas, Volume V ( Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho). Amadora: Livraria Bertrand, s/d., pp 21 - 22.
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Nota - Este poste respeita a grafia da época.